segunda-feira, 4 de setembro de 2017

o que é o comum?


O comum nunca é o idêntico. Esta é a clássica fórmula que define o Princípio de Identidade: A=A. A é idêntico a A. A é idêntico a ele mesmo. No entanto, ser idêntico a si mesmo pode ser, e quase sempre o é, um obstáculo, e não apenas lógico, para se ter  algo em comum com os outros. 
Se digo, por exemplo, que A=B , deve haver uma terceira coisa que os une para além de suas respectivas identidades de A e B, algo que vença, neles, as identidades opositivas. Ou seja, deve haver um comum que agencie suas diferenças, sem negá-las.Pedro= Pedro, Paulo= Paulo. Mas Pedro poderá ser igual a Paulo sob um comum que os agencie. Por exemplo, ambos são amigos. Pedro=Paulo enquanto amigos: a amizade é o comum que os agencia.
O comum não se opõe à identidade, pois essa terceira realidade comum a A e B confere-lhes uma identidade, uma identidade comum, mais potente do que a identidade exclusivamente identitária a si, como um ponto ou ego. 
Na base de identidades comuns não está uma identidade como princípio egológico ou pontual, na base das identidades comuns estão diferenças que se agenciam, para assim potencializarem, no comum, aquilo que possuem de diferentes.O comum é sempre uma relação.
Uma diferença singular nunca é uma identidade fechada , igual exclusivamente a si mesma. Toda singularidade é um modo , uma maneira de ser , uma expressão , uma diferença, um grau, de uma realidade que contém em si todos os graus, todas as maneiras, todas as diferenças, sem que ela seja uma Identidade Absoluta, um A absoluto idêntico apenas a si mesmo. 
O azul contém infinitos graus, e cada grau o expressa de forma diferente. O Azul Absoluto vive imanente a cada grau como diferença sua. O Azul Absoluto não é um grau infinitamente maior , ele é a própria realidade da qual os graus são graus . 
Os graus de azul têm algo em comum: o azul. E cada grau singular de azul é o azul modificado. Porém, não existe um Azul Puro, um Azul existindo fora de seus graus. É no grau que vemos um azul, e não nele mesmo, como "azul puro"; tampouco existe um grau nele mesmo, em si, sem ser um grau de azul. 
A intuição liga cada grau ao Azul que contém nele todos os graus. Não se pode separar o Azul de seus graus , tampouco se pode separar os graus de azul do próprio Azul que não é um grau de si próprio, mas o azul expresso em todos os graus que o afirmam, diferencialmente. 
Cada grau de azul possui algo em comum com outro grau de azul, exatamente o azul. Mas o Azul Absoluto, do qual cada grau é um grau, está em cada um de seus graus assim como está em si mesmo: Incomum. 
Na gênese do comum não está a identidade, está o Incomum. O Incomum não é o arbitrário. O Incomum é uma medida que nunca se transforma em padrão, embora possibilite medidas comuns a diferentes modos que se agenciam. 
Na gênese da democracia não está a lei, enquanto regra comum; a democracia é a ideia-gênese da própria regra comum como meio a potencializar a medida-potência  de cada um. 
É por isso que, de todas as formas políticas, a democracia é a mais Incomum, não por ser o império da lei, e sim porque é nela que nada pode ser, em si,  um império, tampouco a lei. A democracia é a forma política mais adequada ao conteúdo que nunca é apenas político ou jurídico, mas ético-ontológico.

Martha Barros, Poético Azul - 2010.

domingo, 3 de setembro de 2017

o fio e a teia

Linhas retas não vencem um labirinto. Somente o fio que sai de um novelo pode tomar a formar de um labirinto, mas sem se perder nele. 
De um labirinto não há mapas. O labirinto não é como uma cela que prende entre paredes, o labirinto encerra  deixando ao preso a ilusão da escolha. Essa é a loucura do labirinto: a ilusão de que somos senhores de nossas conscientes escolhas. Mas o labirinto zomba da consciência, ri do raciocínio. Ele nos imobiliza enquanto nos movemos dentro dele. O labirinto é o passo reduzido às pernas, sem caminho ou horizonte.
 Há labirintos na mente, na linguagem , nas cidades que engolem as gentes. Entra-se no labirinto simplesmente nascendo, envolvido no espaço e tempo, embora o pior labirinto seja a familiar casa em cujo habitar se perdeu o sentido...
Somente um fio nos pode ajudar a no labirinto entrar e dele sair. Um fio flexível que decore o labirinto, inventando um caminho onde caminho não há. O fio vence o labirinto forjando  uma memória sobre a qual se retornará, dessa vez como linha de fuga. Se o labirinto é loucura e risco, loucura e risco o fio também se torna, mas para deles nos tirar. Quando se sai do labirinto, puxa-se o fio, e se deixa o labirinto lá, como a impensável experiência que somente o pensamento pode pensar, para assim se achar, inventando sua possibilidade da impossibilidade  mais extrema.

O fio nasce do ventre da aranha, a artesã de teias. Um labirinto é uma teia. É Ariadne quem tece o fio que extrai de suas entranhas. Ariadne é a arte que tece o fio da narrativa. Filosofia, poesia, literatura...são fios de narrativa, não são informação de coisa objetiva. 
Narrar é criar sentido que nos faça achar a saída, sem que a preceda uma entrada. A alma é tecelã do sentido que a faz achar a si mesma, saindo de si mesma, do labirinto que ela também é. A alma é, para si mesma, sua loucura ou sua saúde, fio de forca ou fio  de salvação. Pois a aranha fia o fio da fuga, que é o mesmo fio que pode ser o da teia, um labirinto não apenas para suas presas.O fio vira teia ao se tornar sistema, teoria : malha para reter verdade pronta. Quando ele é apenas fio, porém, é poesia, é invenção : é caminho que deixa para trás a cotidiana prisão.

Escher, Labirinto



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

a semente (2)



Sonhar é acordar-se para dentro.

Mário Quintana


O homem seria metafisicamente grande,
se a criança fosse seu mestre
.
Kierkegaard




Há muito tempo que isso aconteceu.A sala de operação, muito branca, me encerrava nela. Muito nervoso, eu esperava pelo médico. Tratava-se de uma operação de coração, e eu era o paciente.Não sei como fui parar ali, por quais caminhos andei ou fui levado. Sabia apenas que haveria uma operação e eu era o paciente. 
De repente, entra o médico. Ao vê-lo, meu medo desaparece, pois o médico que me operaria era nada mais nada menos que o poeta Fernando Pessoa! Em princípio, achei estranho ; depois me pareceu ser verdadeiro um poeta ser o cirurgião dos corações que precisam curar-se. Diante do poeta nasceu em mim a confiança de que ele era o ser certo para agir em mim. Com o jaleco branco, mas de chapéu, o cirurgião-poeta me olhava com um olhar atrás do qual viviam incontáveis almas, e todas estavam ali para me acudir.
Após abrir meu peito e retirar meu coração, o poeta-médico me disse que aquela parte de mim estava consideravelmente pesada. O poeta  segurava meu coração com as duas mãos, como se fosse um pedregulho. Ele prosseguiu dizendo  que era preciso extrair do meu coração o excesso de peso. Assenti com o poeta, demonstrando minha concordância e confiança no poder da poesia para curar um coração que sofre.
Então, o poeta-médico foi extraindo do meu coração coisas que não eram físicas, embora pesassem. Primeiro, ele retirou o cadáver de palavras que outrora foram vivas, mas que hoje evocavam fantasmas apenas; depois extraiu a dor que eu pensava já não mais sentir , mas que em mim doía ainda , feito um parasita que se alimentava de mim às escondidas; encontrou ocultas dentro do meu coração , ainda intactas, as fotos que minha mão rasgou ; por fim, jogou fora do meu coração decepções, ingratidões... e o que mais o adoecia: saudade.
Depois de extrair tudo isso que me pesava o coração, o poeta se preparava então para recolocá-lo novamente no meu peito. Quando olhei para o meu coração na mão do poeta, fiquei surpreso. Pois meu coração estava tão pequeno que eu pensava que , daquele tamanho, ele não seria forte suficiente para me fazer de novo vivo.
Porém, recolocando o coração no vazio do peito, o poeta por fim me disse: “ele está assim pequeno porque do seu velho coração extraí tudo o que já estava morto, deixei apenas o coração de criança, inocente”.
Uma clínica fez-se, despertei.Vivi um poema por dentro: eu como parte dele, ele como parte de mim. Arte e vida as experimentei como sendo o mesmo.Quis pôr-me de pé para viver a boa nova que aprendi.
Fui virar-me  para pegar papel e caneta e registrar o acontecimento que vivi. Porém,  senti algo sobre mim: ainda estava aberto sobre meu peito o livro  O Eu Profundo e os outros Eus, de Fernando Pessoa, o próprio. Eu adormeci o lendo, ele me leu enquanto dormi.Ainda estava escuro para ver no relógio as horas, olhei para fora, através da janela: furava a noite a aurora.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

um devir-índio...

Certa vez, um antropólogo inglês entrou na oca de um índio e viu uma máquina de escrever pendurada na parede da oca, como se fosse um objeto artístico. Isso aconteceu em 1950, época em que a máquina de escrever era o símbolo técnico da cultura branca letrada. O antropólogo nada perguntou ao índio, retornou  a Londres tentando entender aquele acontecimento. Ele  consultou teses e tratados, porém nada encontrou  na teoria que lhe pudesse fazer compreender  o gesto do índio.  Até que , de repente, ele olhou para a parede de sua biblioteca e viu um arco e flecha pendurados como enfeite. Então,  o acadêmico compreendeu que aquilo que ele fizera com o arco e flecha, o índio fez com a máquina de escrever, reinventando-a desutensílio poético.  No gesto do índio havia, ao mesmo tempo, arte, crítica e subversão de acostumados sentidos "úteis".Talvez precisemos  descobrir em nossos “olhos civilizados” aquele   olhar insubmisso  de um  índio , sobretudo para olharmos para nossa própria “cultura civilizada” e, quem sabe, reinventarmo-nos.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

poética-natura

A influência de Lucrécio sobre Espinosa  não é apenas no uso do latim, também o é no valor absoluto que ambos dão ao poema: em Lucrécio, o poema foi a forma para a expressão do infinito conteúdo, a rerum natura; em Espinosa, a forma de apresentação de seu pensamento é geométrica, porém o conteúdo é poético, como poética-natura. 




domingo, 27 de agosto de 2017

o que pode um corpo...

A mente está unida ao universo inteiro, e não apenas ao seu corpo. 
Mas ela está unida ao universo inteiro estando unida ao seu corpo também.
Espinosa

Apenas os movimentos do corpo não são suficientes para explicar se tais movimentos são ativos ou passivos, potentes ou impotentes. Quem visse o Judas em seu beijo , e não conhecesse a ideia que acompanhava aquele gesto, poderia imaginar que aquele movimento era expressão de um amor. Quem vê o boxeador desferindo um soco certeiro , pode imaginar que ele golpeia movido pelo ódio ao adversário. Mas o beijo de Judas é pior do que um soco, ele é um movimento do corpo que, do ponto de vista da ética, está acompanhado de  um ódio, um ódio ao amor. Já o soco do pugilista não é raiva ou ódio, é um soco acompanhado da ideia de amor ao boxe. Quem medita imóvel, porém com os ouvidos abertos, exerce uma ação ativa de ouvir, embora esteja o corpo sem correr ou se agitar. Ao contrário, os agitados movimentos do narciso em sua academia nada têm de ativos ou potentes, são apenas movimentos de impotência, apesar de aumentarem em tamanho os músculos.Entre mafiosos, um abraço não é manifestação de amizade, pode ser uma sentença de morte.
Um corpo ativo, potente, não se explica apenas pelos movimentos no espaço, tampouco ação é só aquilo que se faz andando ou correndo. Ouvir também é uma ação, uma potência, ao passo que o falar ,quando mera tagarelice, é impotência no dizer. 
Apenas os movimentos que um corpo faz não são suficientes para explicar se tais movimentos expressam ação ou paixão, potência ou impotência, alegria ou tristeza, amor ou ódio. A diferença entre ação e paixão não está no próprio movimento que o corpo faz, mas na ideia que acompanha tais movimentos. 






sexta-feira, 25 de agosto de 2017

espinosa e manoel: guardadores de águas...

No início da Ética, bem na aurora do livro,  Espinosa não fala do oceano, tampouco das ondas, ele fala da água, da simples e pura água: a natura. Somente depois ele nomeia essa água como oceano, Deus ou Substância, natura naturante,  para em seguida  falar das ondas, como modos ou maneiras de ser desse oceano : natura naturada.

Essa água pura não é como a de Tales, ainda não tão pura, não tão sentida e pensada . 
Essa água pura não é água da chuva, rio ou lágrima. É água de placenta, que antes de nascermos  nos envolveu por fora, e hoje nos anima por dentro, mesmo no duro osso; de tal modo que a água que bebemos não é novidade para nosso corpo, pois a água nova à água eterna se soma , ambas a mesma : una e múltipla.




quarta-feira, 23 de agosto de 2017

o guardador de águas

No livro O guardador de águas, Manoel diz que poeta é quem guarda águas. Não ouro, dinheiro ou informação, mas águas.Guardar também é cuidar. As águas não são exatamente coisas, elas são fluxos. O poeta cuida de fluxos. Fluxos dentro e fora dele. Cuidar dos fluxos é deixá-los passar, ir ; cuidar deles é o oposto de construir barreiras, represas, muros, obstáculos, gramáticas. Os fluxos são sempre desterritorializados e desterritorializantes. Não se pode "passar régua" sobre eles, não se pode codificá-los, estriá-los. Os fluxos são lisos, esquizos, nômades, andaleços. Só se pode guardar fluxos sendo também um. Os fluxos nascem de fluxos, não de coisas imóveis ou fixas. O rio amazonas não nasceu da geleira parada, mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo. Os fluxos somente podem ser guardados em espaços abertos, horizontados; seja esse espaço horizontado o pantanal, a mente ou o coração. O horizonte guarda a paisagem, mas sem cercá-la, sem se dizer dela o dono.




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

o estilingue II

Quando eu tinha 8 anos,mirei com meu estilingue o Céu das Ideias de Platão.Municiei o estilingue não com críticas ou conceitos teóricos, pois meu estilingue não era uma metáfora e nem uma abstração.Era sim, para o meu espírito-menino, a lúdica e desejada filosófica arma : insubmissa e arteira, talhada na madeira do meu inquieto coração.
Armei o estilingue com uma bolinha de gude, dessas que trazem dentro pequenas bolhinhas de ar rodeadas por alvas massas em relevo, semelhantes a nuvens, como se um céu de verão lhes vivesse dentro - e desse mesmo dentro quisesse escapar.



Quando então atirei com o estilingue, acertei em cheio a principal Ideia, o motor daquele inacessível Céu pairando acima de tudo: atingi a testa da Ideia de Verdade. Um brilho acendeu no céu, como se o infinito risse: era o céu de verão que se libertava do seu pequenino casulo de vidro.
A Idéia de Verdade tombou aos meus pés. Então vi, com meus olhos de menino que vê o mundo como poesia, que tal Idéia era apenas como um pardal empalhado: sem sangue, sem vida - rígida, oca, estéril. Para minha felicidade de garoto que se arma apenas com a inocência , mirei também em outros pássaros empalhados daquele Mundo Fictício: quedaram então, um após o outro, o Dogma, a Lei, o Inferno , o Juízo Final, o Bem, o Mal... Até cair, por fim, o ninho de todos esses pássaros sinistros: a Morte.
Esse estilingue tinha a forma da letra “V”, de “Vida”. Para os pardais que voam livres eu o oferecia como um poleiro amigo. E se hoje tento talhar aquele estilingue nos escritos do adulto, é no desejo de ainda estar vivo em mim aquele mesmo livre menino.


Portinari, Menino com estilingue, 1947.

o dom

Costumamos imaginar a memória como uma gaveta onde guardamos coisas, as lembranças. Assim, abrindo a gaveta-memória encontramos as roupas dobradas, roupas sem corpo, que assumem a forma artificial que lhes damos, dobradas, para assim caberem ordenadamente naquela caixa.
Mas não é isso a memória, senão a imaginação do que ela seja.A memória não é uma caixa. A memória se assemelha mais a lençóis finos com os quais cobrimos os entes, sejam eles   acontecimentos, pessoas ou coisas. Até mesmo estados da mente podem ser assim cobertos pelo tecido que fia a própria mente: é o que acontece  quando nos lembramos, por exemplo, de algo que pensamos, sonhamos  ou imaginamos.
O lençol assume a forma daquilo que ele cobre, o imitando na aparência, porém não no ser. Por vezes, cobrimos esse lençol que cobre com outro lençol que o cobre, e este ainda com um outro, e este com mais outro, de tal maneira que a mente deixa de ser um fluxo uno e indivisível para se tornar um justapor de camadas. Sorrateiramente, a mão do tempo furta o ser que estava embaixo, sem vermos, sem sentirmos, sem sabermos. No entanto,  pelo uso e costume os lençóis mantêm a forma do que cobriam , embora envolvam uma ausência, um nada. Quando se tenta retirar tais lençóis em busca da realidade coberta, chega-se à primeira camada, e sob ela mais nada. Então, a imaginação vem ocupar o vazio onde a coisa era, a coisa que se esqueceu que havia. Inventa-se uma metafísica, uma mística, para explicar o porque daquele primeiro lençol manter-se a imitar o vazio, como um fantasma. E assim nasce a palavra fabuladora,  que toma o lugar da coisa que lhe dava contorno e vida.

Mas há aqueles que não procuram debaixo das representações o que a representação oculta com o trio  imaginação-memória-palavra. Eles abrem a percepção para verem as coisas antes que a mente as cubra e as esconda, para depois se esquecer do que assim cobriu. Eles roubam do tempo o que o tempo nos roubou, restituindo o ser a ele mesmo, o ser que está sempre se fazendo ser. E o ser lhes devolve o sentido , como uma doação recebida, um dom. Espinosa chama a esse dom de intuição. Intuir não é cobrir com lençol , mas apreender cada coisa a partir de um horizonte que nunca se fecha.