1.Arrumar a casa. Limpar a poeira
acumulada, para que as cores sufocadas respirem em nova aparição.
Cuidar dos suportes físicos, para
que eles sejam a imagem externa da integridade do nosso espírito.
Lustrar os vidros, para que nesta
transparência nosso pensamento se possa ver.
Reorganizar as distâncias entre
as coisas, para que o espaço não seja um vazio, e para que a presença dos
objetos não atrapalhe o correr livre das crianças .
Praticar o desapego daquilo cujo
tempo passou, para que a luz do dia toque de novo os olhos do nosso desejo: e
que este seja como uma aurora a raiar.
Fazer tudo ao som da música,
cantando junto, para que na mente também se opere a faxina.
Depois de tudo revitalizado,
alegrar que sejamos nossa primeira visita.
2. Segundo o poeta Manoel de
Barros, tudo o que é verdadeiramente novo nunca vira sucata. Avião, automóvel ,
celular de último tipo...tudo vira sucata. Até mesmo o tempo que o calendário
conta vira sucata.
Mas o que não vira sucata? Onde
se encontra o verdadeiramente novo? Não é no produto criado que se encontra o
novo, e sim no ato de criação. O rio só
mantém seu fluxo vivo e avança se estiver umbilicado à nascente da qual
continua a fontanejar, autocriando-se.
Os povos originários , por
exemplo, vivem muito mais próximos do
tempo que não vira sucata, pois os indígenas
não vivem o tempo sob números
abstratos, e sim a partir dos
acontecimentos singulares da própria natureza, segundo os ritmos do sol
e da lua.
Os números são abstrações porque
conseguem representar somente as quantidades, nunca as qualidades , os ritmos e
as intensidades. Somente um tempo concreto, singular, qualitativo e intenso tem
força para resistir a virar sucata,
pois um tempo assim tem a potência da
vida e de seus ritmos.
Mas onde encontrar esse tempo singular? Onde
fica sua nascente, seu nascedouro, sua natência?
O poeta assim responde: os dias,
os anos, os séculos, os milênios...tudo isso vira sucata. Mas o que nunca vira
sucata é a aurora. A aurora é a nascente
da qual brota o autêntico tempo
novo.
E nós mesmos nunca viraremos
sucata, não importa a idade que tenhamos, enquanto nos horizontarmos afetados
por uma aurora . Para que, juntando
forças, possamos “fazer amanheceres”, como ensina o poeta,
apesar dessa noite longa...
O tempo não é um velho, mas uma
criança: dentre os seus vários brinquedos, o sempre novo é a esperança.
Às amigas & amigos, desejo autênticos
Amanheceres.













