É
de se notar, hoje, a variedade de campos envolvidos nas produções acadêmicas
que tomam Manoel de Barros como tema. Além da Teoria Literária, há estudos em Filosofia,
Dança, Geografia, Psicologia, Pedagogia, Museologia, Teatro…Essa pluralidade
expressa a riqueza de uma poética que ainda se oferece por descobrir, exigindo
um rico trabalho de diálogo interdisciplinar em sua hermenêutica. Mas Manoel é
arisco: a expressão reta não o apanha...
O
livro deseja contribuir para a divulgação de um pensador originalíssimo de
nossa cultura, com influência crescente nas mais diversas áreas da vida
brasileira. Apesar do reconhecimento midiático, a poética de Manoel ainda é
relativamente pouco conhecida e estudada, e falar dela também é, sem dúvida,
pensar nossa sociedade, nossa linguagem e as formas plurais mediante as quais
produzimos conhecimento. Esta é a originalidade do poeta: uma simplicidade sem
pose, uma simplicidade múltipla, pois toda autêntica simplicidade é vária, com-plexa: múltiplas coisas estão dobradas e
implicadas nela.
Meu caro 4 de maio, já posso te chamar de amigo? Creio que já o somos, e não desde agora. Não demora chega o dia 5, sei que você já precisa ir embora. Agradeço-lhe como me acordou hoje: com a mesma novidade de quando nasci, apesar de já serem muitos os dias de aniversário. Amo rever-te, saiba disso, amigo raro. Espero te ver de novo, no próximo ano, logo ao abrir de maio. Desejo ainda muito te receber, sei lá ainda por quantos encontros. Não te peço nada, nem te faço promessa. Nunca olho para suas mãos quando chega, nelas não indago por presentes . O que gosto é de apertar a mão da gente, e mais uma linha na palma escrever, sem pressa. Sou muito grato pelo seu retorno , que seja sempre assim o seu chegar: novo. Contigo aprendo a perdoar o que passou, reabrindo no peito o horizonte que sou. Já reparou: tudo se enfeita de azul para te ver chegar, e mesmo o sol egocêntrico esquece seus dezembros, para em plácida luz nos aquecer e renovar. Meu amigo 4 de maio, sei que te escondes nessa data, qual máscara a cobrir teu verdadeiro rosto, o tempo. Não cobro teu retorno, tudo farei para merecê-lo, seja qual for minha idade. Leve minha eterna gratidão a teu pai, cujo nome é eternidade.
DE PÉ
Quando na manhã me levanto,
pelos meus olhos acorda outro
diferente daquele que ontem se foi deitar. Fui dormir árvore, desperto broto, de novo a vida a germinar.
Levanto-me como se levanta Espinosa
em cada página de sua obra: sem lamentar o que foi, sem temer o que será, bem-dizendo o que é.
Cinco doentes graves estavam numa
enfermaria. A única comunicação com o
mundo exterior era uma pequena janela.
Perto dessa janela cabia apenas uma maca, na qual ficava um dos doentes a narrar o que
acontecia lá fora. “Daqui vejo o mar , até sinto sua brisa. Vocês também conseguem sentir?”,
perguntava aos outros doentes. Apenas um dizia
não conseguir sentir. Os que sentiam, recriavam um mar na alma.No dia seguinte prosseguia o paciente-narrador: “Daqui posso ver e ouvir crianças brincando numa
pracinha . Vocês também conseguem ouvi-las?” . O mesmo paciente que não sentira
a brisa também não conseguia ouvir as crianças . Os outros conseguiam,e
algo dentro
deles brincava também.Enfim, o paciente da janela passava o dia a transpor em palavras a vida ,
de tal modo que suas palavras
viravam remédio para quem as ouvia.
Certo dia, porém , o paciente da
janela emudeceu. Chamaram a enfermeira. Ela constatou, sem surpresa, que ele
havia morrido; e só então os outros souberam que ele era o mais doente . Todos queriam o lugar
vago , mas aceitaram que para lá fosse o doente de sensibilidade embotada . Só lhe fizeram uma
exigência: continuar as narrativas.“ Farei melhor que o outro!”, gabou-se.
Quando eleolhou pela janela, porém, ficou mudo...Perguntaram
: “o que houve!?” Então, ele disse: “em frente à janela não há mar, paisagem ou
praça. Há apenas um muro cinza... Um
espesso muro cinza”, repetiu. Ele só
conseguia dizer a palavra mais fraca e sem alma que existe : aquela que apenas
repete o que está dado. Pois era verdade: sempre houve aquele muro. Instalou-se
ali um silêncio resignado, a morte venceu.
O muro cinza é tudo aquilo que nos
rouba a visão do horizonte, que é onde se vislumbra a virtualidade de novos
mundos possíveis, que nos estão fora e dentro. Ver tais mundos requer outra
concepção de verdade:uma verdade que transfigura o que está dado. “É preciso
transver o mundo”, já dizia Manoel de Barros.
O
livro está organizado em duas partes complementares: a primeira nos faz
conhecer um Manoel Pensador, enquanto que a segunda parte reúne artigos
diferentes entre si, cuja unidade está na riqueza com a qual a obra do poeta
dialoga com as mais diferentes artes. Dito bem simples, as duas partes falam da
ideia e da imagem, do pensamento e do corpo. Ao modo de Espinosa, podemos ainda
acrescentar: o que em Manoel nos faz pensar é o mesmo que nos faz sentir, visto
de uma perspectiva diferente; e oque
nele nos faz sentir é o mesmo que nos faz pensar, visto de uma perspectiva
diferente. É a junção dessas duas perspectivas que faz de Manoel um
pop’filósofo.
A
Primeira Parte busca no poeta o conceito ainda em rascunho, não mentado,
nascido da artesania de Manoel: Uma sabedoria que não vem em tomos. Abrindo
essa Primeira Parte se encontra o artigo de Samarone Marinho, O cotidiano
primordial de Manoel de Barros. Samarone nos mostra, entre outras coisas, que a
poética de Manoel se apoia em uma matéria: o cotidiano. Não o cotidiano da vida
acostumada, “mesmal”. O cotidiano do poeta é um espaço de transfiguração e
transvisão, no qual se descobre o valor do inútil e das desimportâncias. É
nesse lugar, que também é um lugar de linguagem, que o poeta celebra as
grandezas do ínfimo. O pensar do poeta não começa no Céu ou nas Abstrações, ele
começa no cotidiano. E quem faz do pensar o seu cotidiano nunca mais pensa
acostumado.
No artigo seguinte, Geopoética de Manoel de
Barros, em dois movimentos e um adagietto , o filósofo Paulo Oneto descobre que
o chão de Manoel não é o da pedra nua e fria, mas o da terra úmida, íntima do
fluxo das águas, águas estas que animam o chão do pantanal, fazendo-o
território liso afim aos nômades, como Espinosa , Deleuze, Nietzsche e , antes
de tudo, ao próprio Paulo, que musica esse heterogêneo fluxo, essa
heterogênese. Tal geografia dos fluxos constitui uma música dos elementos que o
poeta reúne, sem totalizá-los ou sistematizá-los. Por isso, a imagem escolhida
pelo autor: os movimentos ou andamentos musicais agenciados ao poeta-andaleço.
Música naturante, barroca, barriana.
No
terceiro artigo, Manoel de Barros e a Desfilosofia, rascunho uma desfilosofia
inspirada na poética de Manoel. A desfilosofia não é uma filosofia poética,
tampouco uma poesia filosófica. A desfilosofia é filosofia, porém aberta à sua
origem não conceitual, origem essa somente alcançável pela conexão com o
prefixo “des”, aqui funcionando como um “agenciador conceitual” extraído da
Oficina do poeta.
Fechando
a Primeira Parte, no artigo De Viena ao Pantanal – o (in)expresso do pensamento
no sentido do poético , o filósofo Antônio Jardim nos apresenta uma rica
aproximação entre o filósofo Wittgenstein , um dos mais importantes pensadores
da linguagem, e o nosso poeta. No diálogo do filósofo com o poeta, cerzido por
Jardim,o tema não poderia ser outro: o que é o sentido?
A
Segunda Parte reúne artigos cujo fio condutor é um afloramento de falas que a
poética de Manoel suscita e provoca. São ensaios, didáticas da invenção
manoelinas, formas em rascunho de ideias, perceptos e sensações, nascidos do
agenciamento da poética de Manoel com áreas diversas, unidas ao poeta pelo
olhar singular de cada autor.
Para
não estragar a surpresa que tais ensaios/didáticas envolvem, deixaremos ao
leitor a descoberta a ser feita no encontro com as despalavras da professora e pesquisadora Ieda Tucherman (Devires e revires e de corpos e palavras ou do supremo valor da
inutilidade), da bailarina Mariana Hilgert (Ensaio poético-imagético ou um
porta-retrato ), do poeta e filósofo Mário Bruno (Passarinhos de uma demolição)
e do cineasta Gabraz Sanna (Pequena abertura para o deserto ).
Como
Conclusão do livro, o pesquisador Luiz Henrique Barbosa apresenta um muito
oportuno estudo cujo título nos lembra a singularidade incomparável do poeta: O
não lugar ocupado pela poesia de Manoel de Barros na literatura brasileira.
O que se estabelece no novo não é precisamente o novo, pois o próprio do novo , isto é, a diferença, é provocar no pensamento forças que não são as da recognição, nem hoje, nem amanhã, potências de um modelo totalmente distinto, numa terra incognita nunca reconhecida , nem reconhecível. Deleuze ( Diferença e Repetição)
O pensamento é o telescópio
de uma astronomia apaixonada.
Deleuze (As ilhas desertas)
Tudo me é belo, hoje; pudesse assim ficar!
Para ver hoje assim, o Amor me deu lunetas.
Goethe O olho vê, a memória revê, a imaginação transvê. É preciso transver o mundo. Manoel de Barros
Quem lê um poema é como se de súbito ouvisse gritarem do topo do mastro: "Terra à vista! Terra à vista!" Mario Quintana
À época do apogeu de Roma, foi criada uma expressão muito singular, de um alcance quase que inesgotável. Essa expressão jamais poderia ter nascido entre os gregos, que pouco interesse tinham pelas coisas que não eram gregas.Como tudo que é singular e rico, é difícil definir essa ideia. Ela não é o Ser ou o Não-ser, a Forma ou a Matéria, a Essência ou a Existência. Todos esses termos já faziam parte da Gramática Filosófica herdada dos Gregos. Essa ideia inventada por eles não vem dessa gramática, pois ela expressa uma outra coisa: uma poética, uma poética filosófica.
A ideia em questão é : Terra Incognita. Atribui-se sua criação a Tácito ( séc. I dC), embora ela esteja esboçada também em Lucrécio.A Terra Incognita expressa no pensamento romano a necessidade de existir uma terra inexplorada. Eles que foram grandes exploradores e conquistadores de terras, acreditavam porém que existia uma Terra Incognita, inexplorada, desconhecida. E isso não era para eles uma dúvida, mas uma certeza. Não a certeza nascida de terras já conhecidas, como a terra da matemática e suas certezas exatas, mas uma certeza estranha, poética,quase uma crença, que os impelia a nunca aceitar o já explorado e conhecido.O principal efeito dessa crença:estimular a coragem para se aventurar.
As terras conhecidas podiam ser cercadas, sedentarizadas, codificadas, juridicizadas, medidas, reconhecidas...Mas a Terra Incognita somente podia ser imaginada,nomadizada,poetizada, sentida, pensada, desejada...e nesse desejo/pensamento que as vislumbrava não podia haver cercas, limitações, receios, recognições, contratos, potesta...Enfim, a Terra Incognita não podia ser medida ou conhecida com as lentes e réguas das terras conhecidas.
A Terra Incognita, porém, não era um Eldorado, tal como cobiçaram os colonizadores, tampouco uma terra utópica, como sonharam os renascentistas. A Terra Incognita era uma heterotopia: um lugar (topos) diferente de todas as terras conhecidas. Não se a cobiçava por nela haver ouro. Mesmo porque o ouro pertence a terras exploradas. E de ouro os romanos não necessitavam.
Mas eles necessitavam de outra coisa para se manterem vivos, despertos,livres, em expansão. Não se podia fazer mitologia da Terra Incognita, exatamente porque ninguém sabia o que havia nela, nunca ninguém nela esteve. E foi a busca pela Terra Incognita que fez dos romanos os maiores exploradores.
“Inventar aumenta o mundo”, dizia Manoel de Barros. A Terra Incognita era uma terra inventada, um horizonte nunca alcançado ou alcançável, mas cuja busca fazia aumentar os horizontes do mundo. Essa ideia depois ganhou uma versão matemática, a famosa “incógnita X”, e propiciou a invenção da física e da matemática modernas. A Terra Incógnita também era chamada de terra anônima: terra de ninguém, terra onde se entra com a condição de devirmos imperceptíveis, outro, ninguém. Ela é , porém, a terra de todo mundo.Terra Comum,Terra Natal dos que se desterritorializam na aventura de ir além de toda cerca, limite, forma,fronteira. Não é a bússola que encontra essa terra incógnita, dela não há mapas. “Não sou da informática, sou da invencionática”(Manoel de Barros). Ela é a terra inventada como mátria de toda invenção.
Talvez essa Terra Incógnita não esteja apenas fora, mas também dentro daqueles que são incógnitas. Incógnitas são a potência e o desejo. “Ninguém sabe o que pode um corpo”, já dizia o incognitus Espinosa.
Essa terra somente pode ser encontrada quando escapamos, fugimos das fronteiras, sobretudo a fronteira que separa o conceito da poesia. Essa Terra Incognita hoje tem o tamanho do universo, do infinitamente infinito: aquele que se abre fora e dentro de nós, e que talvez sejam um só, desde que não nos esqueçamos da principal lição dos romanos a esse respeito: a Terra Incognita permanecerá sempre incógnita. A Terra Incognita não é a terra que amanhã será conhecida, pois as terras conhecidas nascem de haver Terras Incognitas.
Quando Proust diz : "Mais importante do que viajar para conhecer paisagens novas, é conhecer de forma nova a mesma paisagem habitual”, o primeiro conhecer e o segundo são iguais apenas na palavra, no nome, pois eles não expressam o mesmo ato, a mesma questão. A Terra Incognita talvez só possa ser vista por uma visão fontana , como dizia Manoel de Barros, uma visão que não vê o já visto acostumado; ao contrário, a visão fontana é fonte do que vê, pois ela vê não o significado que as coisas têm, ela vê o sentido novo que as coisas podem ter. E o mais interessante de tudo: assim como o explorador/navegante, de luneta na mão, após enfrentar tufões e calmarias, tendo antes vencido o medo de dragões e abismos, e assim não tendo desistido de achá-la, lá do alto do seu posto grita: “Terra à vista!”, não será a mesma coisa que expressa o poeta quando , em versos, grita: “Vida à vista!” ?
No poema “Achadouros” Manoel de Barros nos fala de uma senhora contadora de histórias que ele conheceu quando criança. Tal senhora dizia haver “achadouros” em Corumbá. Os “achadouros” eram buracos feitos pelos holandeses em seus quintais para esconder suas moedas de ouro, antes de fugirem apressadamente do Brasil. Durante muito tempo em Corumbá, movidos pelo desejo de encontrar tais tesouros , os homens escavaram quintais para ver se ali achavam ouro...
O poeta aprendeu a descobrir “achadouros” também, mas o tesouro que ele acha é outro : ele escava o chão escuro até achar “celestamentos” ; ele escava em si mesmo até achar o embrião de múltiplos outros; ele escava nos resignados olhos que imaginam já tudo terem visto até achar os “olhos de descobrir” de um devir-criança. E tudo o que o poeta acha, é a poesia mesma que, empoemando-o, põe nele ( para assim, quem sabe, acharmos tal ouro também em nós, ao lê-lo).
O homem, em última análise, somente acha nas coisas aquilo que ele mesmo nelas pôs. O ato de achar se intitula ciência; o ato de pôr se chama arte. Nietzsche