ÓCIO E
FILOSOFIA [1]
Há uma ideia muito
equivocada que se atribui a filosofia ao ócio, como se o estudo da filosofia
dependesse do ócio. Esse equívoco vem de certa interpretação anacrônica das
condições segundo as quais a filosofia grega ( e romana) era ensinada e praticada em suas
escolas.
Na verdade, o tal “ócio”
filosófico significa : “dispor de tempo
livre”, isto é, de tempo livre para se dedicar à filosofia , e não de tempo
livre para não fazer nada ou se entregar à preguiça. Os que buscam o ócio para
a preguiça, e associam o ócio a não fazer nada, esses jamais agenciarão sua
vida à filosofia, uma vez que o estudo da mesma requer esforço e dedicação .
Epicteto, por exemplo,
nasceu sob a condição de escravo, e mesmo ele encontrava tempo para se dedicar
à filosofia. Aliás, o primeiro efeito da
filosofia em nossa vida é exatamente não perdemos tempo , como ensina Proust,
com coisas que nos roubam tempo ( o mundo digital está repleto de ladrões
assim, ladrões que nos roubam com nosso consentimento voluntário...).
Mas aquele que quer realmente dispor de seu tempo, descobre que
dispor do tempo é, primeiramente, dispor da própria vida, conquistando
autenticidade e autonomia. Vejam o caso da poeta Carolina de Jesus: mesmo
vivendo em condições materiais extremamente difíceis , ela conseguia tempo para
se dedicar ao estudo e à leitura. O tempo que assim se conquista também serve
de resistência anímica , já que ele não se mede em termos quantitativos do
relógio que afere o tempo mecânico do trabalho, mas em duração qualitativa e
intensiva.
Não é o ócio a condição da filosofia, e sim o saber dispor do tempo, evitando desperdiçar o mesmo em práticas que nos roubam exatamente o tempo. Assim compreendido, o tempo de que dispomos é como a água de uma cisterna. Alguns a desperdiçam lavando calçada, e imaginam assim fazer bom uso dela; mas há os que a reservam para matar a sede e satisfazer a necessidade[2] , sem esquecer de regar as flores e manter viva a beleza[3].
[1]
Texto elaborado pelo prof. Elton Luiz. Este texto aborda um dos temas da palestra que farei em Santa Catarina, no dia 02 próximo.
[2]
Tema do livro : Sobre a brevidade da vida, de Sêneca. Nesse livro, o
filósofo assim exemplifica quem sabe dispor do tempo : “É possível discutir com
Sócrates, duvidar com Carnéades, repousar com Epicuro, vencer com os estoicos a
natureza humana, com os cínicos ultrapassá-la. Já que a natureza nos permite
participar de qualquer época, por que não nos voltarmos por inteiro deste
exíguo e cadente trânsito temporal para aqueles períodos que são imensos, que
são eternos, que são compartilhados com mentes melhores?” (pág. 21 da edição da
Companhia das Letras,
[3]
Como complemento, sugiro a leitura do texto “A filosofia é um luxo?” , livro : Exercícios espirituais e filosofia antiga,
de Pierre Hadot ( São Paulo, É Realizações, 2014).
Nenhum comentário:
Postar um comentário