sábado, 29 de agosto de 2026

democracia

 

Em muitas comunidades  indígenas também se delibera e vota , e várias dessas comunidades teriam muito  o que ensinar sobre democracia até aos Gregos! É um equívoco  imaginar que o cacique é “quem manda”. Nas assembleias dos povos indígenas a democracia é direta: cada um expressa sua própria voz e ouve, diretamente, a voz do outro que também delibera.

Na política representativa dos brancos um deputado representa ( ou re-apresenta) o interesse de alguém ausente , ao passo que na ágora dos indígenas cada um participa presentando-se , isto é, fazendo-se presença  diante dos outros, seus iguais.

Nas comunidades indígenas  não existe interesse privado superior  ao interesse comunitário. Em grego, “privado” é “oikos”, de onde vem “economia”. Entre os povos originários também não há quarteis  ,   templos ou mercado   querendo se  sobrepor à comunidade. Assim, entre os indígenas  o que vem primeiro é sempre a política, e não os interesses privados econômicos  ligados a grupos ou  famílias poderosas.

Nas votações e deliberações da democracia  indígena  há apenas uma condição para a decisão  vitoriosa virar regra  .   A condição é: a posição vitoriosa precisa ser unânime. Sendo unanimemente aceita, ela será vista como vitória de cada um. Por isso, tal decisão unânime tornada regra não precisará de polícias  ou repressão  para ser cumprida.

Ela se torna unânime não porque uma parte imponha a outra seu poder, mas sim porque todos compreendem  que a proposta vitoriosa é boa para a comunidade como um todo. Quando a regra é assim, ela é obedecida sem precisar de ameaças , pois tal regra  não é lei a serviço de elites e castas. E quando  se detectava  índole de tirano em alguém , aplicava-se como punição o ostracismo.

Segundo Lévi-Strauss, entre os indígenas a decisão vitoriosa precisava ser unânime para não gerar derrotados. Pois    derrotados podem guardar  mágoas  geradoras de ressentidas   vinganças ( como  Aécio Neves em 2014 , Bolsonaro em 2022 e o Flávio Rachadinha já está preparando a mesma coisa...).

Essa  sabedoria política dos indígenas  evitou que nascessem ódio internos que poderiam gerar divisões da sociedade em castas e classes desiguais, com uns se julgando superiores aos outros ou se achando dono da aldeia e querendo impor “Ordem” à força.

Nas comunidades indígenas, as ocas são amplas  e acolhem muitos em igualdade, elas não são uma “Casa-grande” para  poucos privilegiados. Nessa democracia originária  não há privilégios, a não ser o privilégio de participar da comunidade e honrar os ancestrais. E os guerreiros não são generais que ameaçam o próprio povo supondo-o “inimigo interno”. Os guerreiros só agem contra as ameaças externas que colocam  em risco a comunidade .

A unanimidade  vitoriosa , desejo comum da comunidade, não era portanto a imposição da vontade de um chefe ou de um “Partido”, ela era construída coletivamente, pois o amor à aldeia era maior do que o apego  de cada um ao  próprio ego. Unanimidades conquistadas assim não são “burras”, são sábias.



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O espaço simbólico  da democracia é a praça, um espaço horizontal. Na Grécia , a praça era chamada de “ágora”, o coração da pólis. “Ágora” vem de “agon”,  que significa “conflito” ou “disputa”. Não a disputa bélica baseada na força bruta, e sim disputa de ideias apoiada na força da palavra tornada argumento.

Os que empreendiam tal disputa medida pela força das palavras  veiculadoras de ideias  eram chamados de “politikos”.

O espaço contrário ao da pólis era o “oikos”, a “vida privada”. De oikos nasce oikonomia , economia, enquanto dimensão dos interesses privados. Na pólis, ao contrário, deveriam preponderar os interesses públicos

Na ágora, perspectivas diferentes se enfrentavam mediante argumentos  . E o critério que definia qual perspectiva seria vitoriosa , obtendo mais votos, era aquela que mais expressasse  o interesse comum, o interesse público.

Mas quando alguém ou algum grupo se valia do espaço político para fazer prevalecer interesses meramente privados, usavam a palavra como meio de ardilosidade, dissimulação e ataque.

Por isso, só pode haver debate político se aqueles que se enfrentam por meio de argumentos tiverem como motor de suas palavras o interesse público. Ao contrário, quando uma das partes usa o espaço público para tentar sujeitá-lo a interesse privados ou criminosos, quando isso acontece é impossível o debate de ideias, uma vez que a parte que escamoteia interesses inconfessos se valerá apenas de erística.

“Erística”  vem de “éris”, que significa “ódio”, inclusive ódio de classe , como se viu na entrevista-erística que o JN , servindo a interesses antagônicos ao da democracia,  fez com o Lula.

É por esse e outros motivos que considero mais adequado o Lula não ir a esses espaços erísticos , nos quais será apenas atacado por aqueles que , servindo ao capital predatório ou a interesses autoritários ( e capital predatório e autoritarismos se apoiam um no outro), querem submeter a pólis ao mercado, à caserna ou a templos ( ou aos três mancomunados).

 

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