quinta-feira, 29 de agosto de 2013

geo-pop'filosofia





1-No Rio  é costume construirmos calçadas, isto é, extensões regulares,a partir de pequenas pedras sabão irregulares, cada uma completamente diferente da outra, tal como é diferente do outro cada modo ou maneira de ser da Natureza. Estas pequenas pedras também são chamadas de pedras portuguesas, e em tudo lembram a multitudo do português Espinosa.O modo como construímos tais obras expressa o estilo com o qual  produzimos outras obras do viver em comum. Nosso todo é construído a partir de pequenas singularidades que, unidas, tornam o chão um multifacetado mosaico de mônadas sob o sol, cuja liga é o afeto, mais do que a norma - para o nosso bem ou para o nosso mal.
A paciência das mãos anônimas dos dedicados demiurgos-operários, unindo cada pedra à outra, tecem composições que, barrocamente ajeitadas, modulam entidades que adornam os passeios , de tal modo que o caminhar nunca se faz apenas a serviço do útil, pois sob os pés se imprimem seres feitos da arte de uma linha de fuga: passeamos sobre ondas sinuosas, cristais, flores, rosáceas, golfinhos, notas musicais - como na calçada por onde deambulou Noel Rosa, acompanhado de Cartola, Pixinguinha e Jacob do Bandolim.E nesses passeios também nunca se fala de verdades ou constatações, mas se canta, se assobia, se ri  (sobretudo " ri-se de si mesmo", tal como preconiza o humor clínico de Nietzsche...).
A manutenção do todo formado - seja uma calçada ou nossa heterogênea sociedade - requer perseverante reinvenção, pois nada do que foi se manterá o mesmo , nas calçadas e  no tempo.
E quem desejar entender esse Rio menor , não vá ler livros ou teses, mas vá ouvir  o polifônico ritornelo chamado chorinho, cujas paisagens sonoras inventivas  não cabem na métrica recognitiva dos postais.








2-Quando eu tinha cinco ou seis anos, não mais que isso, morava em uma casa muito simples, ao lado de  outra casa igualmente simples, nos fundos de uma casa maior que dava para uma pequena rua de um singular bairro do subúrbio carioca. Havia um pequeno pátio comum às casas. Este espaço era  uma espécie de ágora menor ,  em cujo centro reinava um abacateiro sempre generoso, em frutos e em sombra.À noite, gostava de me deitar no chão  do pátio comum , que era aberto ao céu. Ficava a olhar o céu, suas estrelas, seus espaços sem limite. O céu infinito era meu principal brinquedo, e também quadro negro onde eu aprendia sem professor: aprendia a aprender, um aprender que precede todo ensinar. Eu não especulava, não perguntava, apenas me sentia parte de uma experiência que hoje vejo como de uma poética e filosófica  inocência. Lembro-me de uma alegria que sentia, uma alegria intensa de existir,  alegria esta que reencontro, renovada, ao ler Espinosa.

3-A linha é feita de pontos. Os pontos são atualidades contíguas umas às outras.Sempre se pode acrescentar ou retirar um ponto de uma linha. E aquilo ao qual se pode acrescentar mais uma realidade ou subtrair-lhe uma, de fato não é um infinito. O infinito é aquilo ao qual não se pode acrescentar ou tampouco retirar-lhe realidade.O infinito é uma linha também, mas linha que passa entre dois pontos.
Segundo Deleuze, a castração gera a angústia da finitude, da morte. Há toda uma cantilena da finitude, toda uma missa e cartilha. A castração não apenas separa o desejo da realidade, como acentua nossos contornos, fazendo-os de cela, presos à culpa. Ao invés da castração, Deleuze nos põe em contato com uma  fissura, uma fenda. A fissura ou fenda aparece, primeiramente, como fenda ou fissura do Eu.Uma fenda nada tem a ver com uma castração, com uma falta. A fissura fende o Eu em dois: em Eu transcendental, o Eu que Pensa/Conhece,  e eu empírico, o eu que existe ( e que possui nome próprio, RG, etc.), de tal modo que o Eu é um outro para o eu, o Eu que pensa/conhece se torna um outro para o eu que sente e existe. É o Eu que apenas pensa teoricamente que vê na fenda algo que o ameaça, e que pode levar o eu que existe a ver no pensamento algo que lhe falta, de tal modo que a fenda pode se tornar a marca de uma impotência imaginada, de uma dor, de um vazio que se vai querer preencher com uma droga, com um Deus, com uma anestesia...É o Eu que torna a fenda algo que ainda parece negativo. O Eu é um ponto, assim como o eu de nossa existência psicológica. Somente quando conectamos o pensar à experiência do que está no meio, e não mais ao Eu com suas Verdades ou ao eu com suas opiniões, somente assim  experimentamos a fenda como limiar para um outro mundo, um mundo a experimentar e a criar, como devir.Vemos então que a fenda é   uma linha que passa entre, que "é sempre mais veloz no meio".Entre dois pontos sempre passa uma linha labiríntica, linha nômade, linha de rizoma e ritornelo. Os pontos são atualidades, mas a linha nômade é sempre virtual. Ela passa entre dois pontos: e no meio dela não há pontos, há apenas velocidades, intensidades, fugas como criação.

sábado, 24 de agosto de 2013

Manoel de Barros e Paul Klee: as desaprendizagens ( trecho do livro)





Uma influência especial em Manoel de Barros: Paul Klee. Manoel de Barros se apropria, à sua maneira, da Máquina de Chilrear de Klee, e a faz de ferramenta de sua oficina poética . Este pintor ensinou-lhe a necessidade de "aprender a desaprender" - que define muito bem o que aqui chamaremos de devir-criança*, e que tão presente está na obra de Manoel de Barros: “palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”. Por isso, completa o poeta,


Palavras

Gosto de brincar com elas.

Tenho preguiça de ser sério.


De sua parte, Paul Klee impôs a si mesmo uma espécie de “desaprendizagem”. Embora ele desenhasse de forma precisa e técnica, esta mesma precisão e técnica tornou-se uma fôrma e prisão para as imagens que ele queria exprimir. Uma fôrma/prisão que precisava ser quebrada para que , livres, as imagens pudessem fluir. Então, ele passa a desenhar com a mão esquerda ( desaprendizagem semelhante fez Miró...). O artista descobriu-se novamente criança nesta mão: cada desenho era o desenhar de novo nascendo ─ fazendo-se como novidade, experiência e descoberta. Ao desaprender as formas e códigos da mão direita, Paul Klee redescobriu a pintura e a ele mesmo: reencontrou a alegria da criança cujo brincar e inventar é a coisa mais séria e verdadeira. Assim como a arte de Paul Klee,


A poesia tem a função de pregar a prática 

da infância entre os homens.


***
[ *Nota sobre o devir-criança:Quando alguém se torna adulto, a criança que ele foi está no passado;quando tal adulto era criança, o ser adulto era seu futuro.O adulto é o futuro da criança enquanto esta é um estado com uma identidade que lhe prescreve uma definição, um contorno; de maneira análoga, a criança é o passado do adulto enquanto este representa a si mesmo como um estado circunscrito por uma identidade.Sob esta perspectiva,"criança" e "adulto" são estados que se opõem pelas suas respectivas identidades.O devir não possui passado ou futuro: ele é, como dizem Deleuze e Guattari,antimemória. Ou melhor, se ele nos dota de uma memória, trata-se de uma memória como a que têm os anjos : memória que nos liga à eternidade.
O devir está sempre no meio: ele não é uma linha que liga dois pontos, ele é linha que passa entre dois pontos, uma linha transversal( as linhas transversais nunca se fecham em contornos).O devir não é exatamente a diferença entre o adulto e a criança,mas Diferença que está entre o adulto e a criança, e que os faz se comunicarem pelas suas diferenças, criando um contágio, um Afeto. É a História ( pessoal ou coletiva) que possui o passado e o futuro como pontos que o presente liga, ao passo que o devir está sempre no meio. Porém, ele não é uma média, ele é meio : ele é zona indiscernível que constitui a vizinhança entre o adulto e a criança. O presente do devir não é o presente cujos termos complementares são o passado e o futuro, uma vez que o presente do devir é o presente da metamorfose: esquecimento que cura dos fantasmas do passado, criação do novo que nos liberta de todo sentimento de esperança em relação a um futuro que nos deixa passivos.A criança do devir-criança não está no passado: ela co-existe com o adulto, mas não é feita de lembranças psicológicas deste.Ela é uma "criança molecular", imperceptível à percepção que só vê o já visto.
Segundo Deleuze-Guattari,molecular é aquilo que é, ao mesmo tempo, elementar e cósmico:elementos mínimos, heterogêneos,conectados ao absoluto.Intensos, tais elementos singulares não podem estar contidos em uma forma:seus limites são limiares trabalhados por dentro por uma Vida que de si mesma transborda.O devir-criança não é uma regressão ao estado de criança, tampouco ele é um mero imitar, infantilmente, uma criança.Quando devimos criança, tornamo-nos algo que a "forma adulto" nos impede de ser, ao mesmo tempo que a criança torna-se outra coisa que a criança definida em oposição ao adulto.No pintor Klee, por exemplo, a criança do devir-criança que ele inventa torna-se uma criança feita de linhas e cores,ao mesmo tempo que ele próprio se torna outra coisa , coisa esta que a obra testemunha e dá a ver.Essa criança que vemos na tela, e que é o produto de uma metamorfose, de um devir, não é menos real do que a criança que vive na nossa memória pessoal.Sua realidade é aquela que a arte engendra, libertando a Vida dos limites estreitos de nossas vivências pessoais. Quando devimos criança, captamos o que na criança há de intempestivo e eterno, cujo futuro não é virar adulto, mas produzir no adulto uma criança que não é a que ele foi. A criança do devir-criança não está no passado, tampouco somos o futuro dela: ela co-existe com nosso presente, libertando este do passado que ele imagina prolongar e do futuro em relação ao qual ele crê ser uma continuação daquilo que hoje é.Como dizia Espinosa, a criança do devir-criança não é um estado, mas uma atividade de re-generar-se, isto é, de nascer de novo para o novo.Devir é revir. Devir é retornar.Mas o retornar do devir não é um revir ao passado. Trata-se de retornar ao hoje, a este mesmo hoje do qual a imaginatio sempre nos afasta. Devir é retornar ao hoje para nele intuir o eterno que nunca é o mesmo a cada vez que a ele retornamos: muda ele, mudamos nós nele, como parte dele.]

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O deslimite pode ser compreendido como um processo ao mesmo tempo estético e existencial, no qual vida e poesia se mostram como as duas faces de uma mesma Vida a qual não se pode impor uma forma ou limite . Esta Vida somente se deixa apreender em uma experiência de devir. O devir não é uma forma ou algo de determinado, mas um processo no qual os seres atingem seus deslimites (conforme veremos ao longo do estudo) .
Atingir o deslimite não significa destruir-se ou negar-se. Ao contrário, é o limite que destrói a invenção que se pode e se deseja. O deslimite , portanto, é uma experiência com a Vida, e não com a morte ( nos vários sentidos que essa palavra pode ter).
Embora seja uma experiência eminentemente poética, isso não significa que ela seja suscitada apenas pela leitura de poesia. A essência de tal experiência é exatamente nos ensinar a alargar a compreensão do que seja poesia, como faz Manoel de Barros, para que a vejamos em todas as coisas que, rompendo seus limites, deixam ver a Vida.




Paul Klee, Travessura.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

o bom encontro, o agenciamento




Um texto, para mim,
é apenas uma pequena engrenagem
de uma máquina extratextual.

Gilles Deleuze


O bom encontro, o agenciamento, faz nascer um terceiro ser entre aqueles que se encontram. Este terceiro não é como um filho, uma vez que o filho pode viver, depois que cresce, longe dos pais; já o terceiro ser nascido do bom encontro só pode aumentar e crescer enquanto aqueles que se encontram crescem.Este terceiro devém  um novo ser do qual os dois que se encontram se tornam partes singulares, ativas.O novo ser nascido faz renascer como novos os seres que se encontram e o produzem. Este novo ser, este terceiro, não existe antes do encontro, mas de alguma forma ele já existe virtualmente na imanência da natureza.É este terceiro que torna inteligível a ação daqueles que passam a viver sob o seu sentido. Como diz Deleuze, uma obra , quando nasce do afeto à vida,também engendra  para a vida quem a fez.Um exemplo: a amizade. A amizade é um terceiro que nasce do encontro entre dois amigos, ela também é uma obra. Os amigos a produzem ao mesmo tempo que ela os produz como amigos.Este terceiro , a amizade, não vem de fora dos dois, pois ela nasce em seus íntimos como aquilo que os abre ao comum.A única coisa que vem totalmente de fora é a morte, diz Espinosa.A vida, ao contrário, vem sempre de um íntimo que se conecta a outro íntimo na intimidade da Vida. Esta intimidade não é uma interioridade, mas imanência da potência a si mesma.
A amizade torna os amigos  inteligíveis um para o outro mediante este terceiro que os torna amigos. A amizade não é apenas uma ideia comum a ambos. Ela também é um corpo comum, um terceiro corpo, mediante o qual os dois corpos passam a existir mais. Trata-se de um corpo expressivo, um corpo intenso não orgânico.Existir, para o corpo, é agir.A amizade é ideia comum a duas ideias, corpo comum a dois corpos. Comum não significa homogêneo; o comum é a relação de heterogêneos que produzem um terceiro deles diferente, e dos quais eles são partes ativas, intensas. A amizade não é algo que vem apenas de fora, e é por isso que ela somente se torna inteligível tornando inteligível o amigo como aquele que cria a amizade como encontro com a diferença, encontro este que gera alegria.O corpo comum dos amigos tem a amizade como ideia comum que faz o corpo agir mais: e um corpo age mais quando ele age pela amizade, pela generosidade.Para o corpo, agir não é apenas correr, saltar, pular; agir também é ouvir, olhar e mesmo se calar.
Um bom encontro, um agenciamento, nunca é feito apenas de dois, mas de três. As tiranias, os maus encontros, sim, são sempre feitos de dois: dois que rivalizam ou duelam, ou dois como dupla tirano-servo, onde o primeiro precisa do segundo e o segundo do primeiro. Do mau encontro nada nasce, embora dele sempre algo morre ou se enfraquece.
O terceiro que nasce do encontro dos dois não é um três que sucede numericamente ao um e ao dois. Diferentemente, o terceiro é potência que multiplica cada um por mais de um, pois os multiplica pela potência que os torna múltiplos, singulares.
Aristóteles dizia que a amizade, como virtude, é o justo meio entre o egoísmo e o altruísmo. No egoísmo a amizade está ausente, ao passo que no altruísmo ela se encontra em excesso. Assim, encontrar o justo meio ou justa medida seria o que nos torna amigos.Em Espinosa, diferentemente, a virtude é o esforço do desejo em  atingir ao seu limite. O limite de um desejo ou virtude nunca é outra virtude ou desejo , pois como poderiam as virtudes se autolimitarem , duelarem ou competirem!?Na verdade, um desejo como virtude é aquele que produz um terceiro desejo comum a outro desejo, terceiro desejo este que possibilita ao desejos  agenciados  desejarem  mais. O limite de um desejo nunca é o justo meio entre sua carência e seu excesso. O limite de um desejo é seu esforço para continuar desejo.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

exposição: territórios e fugas



A potência das questões vem sempre de outra parte que não das respostas
e desfruta de um livre fundo que não se deixa resolver.

Deleuze, Diferença e repetição.






segunda-feira, 29 de julho de 2013

evento em agosto:V Seminário Conexões; XII Simpósio Internacional de Filosofia



http://conexoes2013.wordpress.com/


1-Uma verdadeira linha de fuga é aquela na qual não se pode, e nem se deseja, retornar ao momento que supostamente a antecedeu, e que ainda não era a fuga como ato de criação e invenção. Isto porque a linha de fuga é exatamente ruptura com aquilo que a antecedeu: na linha de fuga, e por ela, o passado deixa de existir. 
O passado não é exatamente o que se passou, mas a permanência do que se passou como marca ou efeito inscrito em nosso corpo e em nossa alma. Libertar-se do passado exige que nos libertemos dos efeitos de um encontro que perdura em nossa existência atual. Não  podemos mudar nossa relação com o passado sem que antes mudemos nossa relação com a vida atual.Como ensina Espinosa,uma marca ou signo revela mais o corpo marcado do que o corpo que marcou. O encontro perdura no signo que ele deixou.Quando se trata de um bom encontro, o signo nos auxilia a nos  apoderar de nossa própria potência de agir e pensar. No mau encontro, ao contrário, a marca ou signo revive o corpo ausente mediante nossa potência de existir que então se fragiliza, pois a marca somente ganha vida mediante nossa vida, e não através da vida do ser que nos marcou. Esse é o sentido original de re-sentimento: sentir novamente apenas o efeito como se este fosse a causa. Como mostra Nietzsche,o ressentimento nos torna reféns dos efeitos; e se estes ressuscitam, é mediante nós mesmos que nos tornamos causas , causas parciais, daquilo que nos domina e enfraquece. Nietzsche também argumenta que a memória das marcas define a memória do escravo, do impotente.A história muitas vezes nada mais é do que sucessão de marcas, nas quais o escravo de hoje é o senhor de amanhã, e vice-versa.Mas , segundo Deleuze,o devir é desmarca: ele é a produção de um espaço liso como superfície do sentido. E o sentido nunca é uma marca ou um significante: o sentido se expressa em traços a-significantes que atualizam um virtual que é a sua outra metade inefetuável, sempre por vir. Além disso,   os piores fantasmas não são dos que já morreram, mas dos que ainda vivem na marca que ressuscitamos com nossa própria vida, sem que a isto ninguém nos obrigue; e assim existimos menos, passando mais a reagir do que a agir, entregando-nos mais ao imaginar do que ao pensar.Se a marca ou signo é uma ausência, esta passa a existir diminuindo nossa presença , nossa presença a nós mesmos e ao mundo.
Assim, uma linha de fuga nunca é o efeito de um momento que a antecedeu, e ao qual se poderia retornar para compreendermos como ela se deu ,ou então fazê-la diferente.Quando Deleuze afirma que, pela linha de fuga, o passado deixa de existir, ele não quer dizer que a linha de fuga é uma negação do passado; ao contrário, a linha de fuga é uma afirmação de um tempo por vir. O simples negar não cria nada, tampouco muda aquele que apenas nega.
O tempo por vir não é um tempo futuro antecedido pelo presente que amanhã virará passado. Se algo é presente, é porque em algum momento começou. E, por ter começado, pela mesma razão em algum momento vai acabar. O por vir, diferentemente, nunca é presente; por isso, não começa ou acaba: ele está sempre no meio, e somente o vivemos nos instalando no meio dele, ele que desfaz todo limite, toda identidade e toda certeza.A linha de fuga nunca é fuga do passado, mas passagem ao por vir, o qual nunca chega e ao qual nunca se chega, a não ser na experiência de um devir-outro, uma metamorfose. O bom encontro nunca é ir em direção ao outro, ou esperar que ele venha até nós. O bom encontro é uma linha que faz fugir um e outro, para no meio afirmar e recriar um nós. 
O tempo por vir é sempre por vir, e é de imediato que nos instalamos nele, instalando-nos em nós mesmos, abrindo-nos, agenciando-nos.

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2-Deleuze e Guattari falam de inúmeros devires: devir-negro, devir-mulher, devir-criança, devir-imperceptível,devir-animal, devir-verdade, devir-molecular...Em cada devir apenas um termo se repete: o próprio devir. Somente o devir é agente de devir, ele é agente dele mesmo, e não tem representantes. Mas o devir não é um sujeito, ele é um processo.
O devir tem primazia: o "ter primazia" não constitui eminências, pois o que é primeiro é sempre a potência. "Não se pode passar régua no devir", diria Manoel de Barros. No devir-criança, por exemplo, não se trata de se identificar com uma criança, mas alcançar uma zona de vizinhança na qual ocorre um duplo devir: devir que concerne àquele que cria e entra em devir, e devir da própria criança enquanto fase cronológica da vida.Não é apenas o adulto que deixa de ser adulto, a própria criança deixa de ser o que identificamos como criança, para assim se metamorfosear em uma matéria de expressão que varia conforme a arte implicada.Paul Klee, por exemplo, fabricou um devir-criança expresso em cores e linhas.
O devir é sempre duplo: ele não liga dois pontos com identidades fixas, o adulto à criança, ele passa entre dois pontos, ele acontece no meio, na Diferença.
Segundo a lógica, o homem adulto não é uma criança, o homem é racional.Dentro do conjunto das coisas que são racionais,o homem é um de seus componentes.Dentro do conjunto dos seres que são crianças, o adulto não é um deles.O conjunto define a Identidade que permite reconhecer seus componentes. O "é", o verbo "ser", indica pertencimento ou não pertencimento à identidade de um rebanho enquanto conjunto fechado, molar.No devir, diferentemente, afirma-se o conectivo: entre o adulto e a criança há uma zona de vizinhança, uma fronteira. Mas esta fronteira não é uma linha que separa ou liga  dois países ou territórios  com identidades fixas. Enquanto fronteira ou limiar, o devir é passagem não de um ponto a outro: ele é passagem entre ambos, e os abre a uma terra incógnita , molecular, onde nos tornamos estrangeiros pelo que  experimentamos e vivemos  , na potência de  um  encontro.Só nos agenciamos realmente com os seres quando entre eles e nós vivemos e experimentamos um "e" como conectivo que relaciona diferenças pela Diferença: a multiplicidade, a multitudo, nunca é um rebanho: "o E não é um ou outro, o E está sempre entre os dois, é a fronteira, há sempre uma fronteira, uma linha de fuga ou de fluxo, apesar de não ser fácil percebê-la. É sobre esta linha de fuga que as coisas se passam, os devires se fazem, as revoluções são rascunhadas" (Deleuze).
É no agenciamento que construímos um devir, pois nenhum devir é dado pronto. Ninguém acha ou recebe um devir, mas o faz, o inventa - segundo um critério que não é teórico ou acadêmico, e sim existencial, vital. Somente o devir é agente, e é por isso que é ele que vem primeiro e se repete, diferencialmente, em cada devir diferente. Por ser ele o agente, é sempre em devir que se faz um agenciamento: este é a conexão entre dois pontos através de uma linha que passa no meio, linha esta que nunca se fecha em contornos - linha labiríntica, linha nômade, linha da vida:  linha de fuga.
Não há território sem um processo de territorialização. O território nunca é um dado apenas físico. O território é criado pelo processo de territorialização. Este pressupõe a criação de uma realidade expressiva feita de signos, que antecede ao próprio território. É esta realidade expressiva, semiótica e artística , que antecede e produz um território , e não o inverso. O território de um pássaro canoro vai até onde alcança a potência do seu canto. O canto é um processo de territorialização. Obtido um território, nele poderão ocorrer comportamentos explicáveis pelas funções e pelos órgãos, como é o caso da procriação e da agressividade. Mas a territorialização não se explica pela utilidade e pelos órgãos, uma vez que a territorialização é um processo expressivo, e que sugere a existência de um corpo sem órgãos como corpo idêntico à potência e ao desejo.  A territorialização é a produção de um território que nasce como produto de uma arte, e não comportamento circunscrito a um órgão ou função. Os órgãos dependem de um território já constituído, ao passo que a territorialização é sempre constituinte. Daí os riscos advindos da territorialização.
Mas além do território e da territorialização existem a desterritorialização e a reterritorialização. Estas se explicam pela relação do território com a Terra, que é desterritorializada e desterritorializante.A própria Terra é um imenso corpo sem órgãos, uma Potência Absoluta de produção,  que nunca se explica funcionalmente. A territorialização é uma codificação de fluxos. Todavia, por toda parte os fluxos fogem, atestando que todo território é aberto. A Terra é pura fluxão: é dela que vêm os territórios a criar, não os já criados. A Terra é manancial de sentidos que nunca podem ser remetidos a coisas ou referentes que lhes sejam prévios. "Imanência" provém de i-manare: ir para dentro do manancial ou fluxo.
 A desterritorialização é um ir do território à Terra, ao passo que a reterritorialização é um ir da Terra a um novo território. Ir do território à Terra e da Terra a um novo território constituem as duas direções de uma linha de fuga. Essa duas direções, no entanto, não são como as duas mãos contrárias de uma rodovia, dado que as  duas mãos de uma rodovia se explicam por movimentos relativos que têm por referência os pontos fixos  que a rodovia liga. A linha de fuga é desterritorialização e reterritorialização sem que ambos os sentidos ou direções sejam contrários, dado que a linha de fuga é uma só linha, e não duas: ela não  liga  dois pontos, mas sim abre os dois pontos a um  meio, o qual é sempre desterritorialização e reterritorialização  ao mesmo tempo.
O meio é sempre a Terra, como meio de criação e invenção: somente a Terra é desterritorializada e desterritorializante.Experimentá-la produz também cantos, mas são cantos diferentes daqueles da territorialização. E os próprios passarinhos cantores , poetas por natureza,  a isto também nos ensinam.O tordo, por exemplo, produz um misterioso canto que ele somente canta em horas específicas do dia: no fim da tarde, quando o sol se vai e a noite se aproxima, e na aurora, quando a escuridão começa a se ir , pois já vem, no horizonte, o dia. É um canto de limiares, de passagens.Nenhum cientista consegue explicar qual a função de tal canto . Mas quando o pequeno pássaro a isto se entrega, ele o faz correndo riscos: pois o canto o revela para a coruja, que  o tem  como uma de sua presas.À noite, aquele mesmo território pertence à coruja; de dia, ele pertence ao tordo. Mas entre o dia e a noite há um meio, uma zona de vizinhança , uma Pura Aurora, que também tem seus riscos, como tudo aquilo que envolve a liberdade .Ao cantar seu canto desterritorializado e desterritorializante, o pássaro-poeta salta e voa, "voa fora da asa", como diria Manoel de Barros, mas no mesmo lugar, uma vez que é no lugar mesmo que ele encontra a Terra, e conquista para si uma vida que nunca a coruja poderá predar: "Os raminhos com que arrumo/as escoras do meu ninho/são mais firmes do que as paredes/dos grandes prédios do mundo" (Manoel de Barros).

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3. A ORQUÍDEA E A VESPA

A vespa é um inseto, isto nos ensina a ciência. A orquídea é uma planta, também a ciência a isto nos informa. "Informar": dar uma forma, um limite. A vespa é um indivíduo membro de uma espécie. A espécie fornece a "identidade", ao passo que é graças à semelhança com a espécie que podemos reconhecer um inseto como uma vespa. Porém, apesar das aparências, o princípio de recognição, ou reconhecimento, não vai do indivíduo à espécie: ao contrário, ele vai da espécie ao indivíduo, da Identidade à semelhança. É a Identidade que vem primeiro: é a forma universal da espécie que nos permite reconhecer algo, e determiná-lo,  como isto ou aquilo. Até aqui, parece que Platão, Aristóteles e  Kant, além de Darwin,  têm razão...
O que vale para a vespa vale igualmente para a orquídea: cada orquídea que vemos é um indivíduo que pertence a uma espécie.Cada individuo é uma existência cuja essência é a espécie quem fornece. É a espécie que tem a Identidade mediante a qual os indivíduos se assemelham não apenas a ela, como também entre si .Um indivíduo vespa se assemelha à espécie vespa bem como a outro indivíduo vespa. Mas nenhum indivíduo vespa é idêntico à espécie vespa, assim como nenhum indivíduo vespa é idêntico a outro. Nenhuma vespa é "A" vespa: o artigo definido acompanha apenas a espécie ( aos indivíduos acompanha tão somente o artigo indefinido...). Somente a espécie pode ser definida, já que os indivíduos são sempre habitados por uma indefinição que nunca se separa totalmente deles.O que faz cada indivíduo diferir de outro é a mesma coisa que o faz não ser idêntico à espécie. Tal realidade é a matéria ou potência. A potência é a Diferença sem identidade e semelhança.
Todavia, como mostram Deleuze e Guattari inspirando-se em Proust e na etologia,algo de extraordinário acontece entre uma  orquídea e uma vespa. Uma orquídea é diferente de outra orquídea, isto é certo. Apesar da diferença que as separa, há a semelhança que as une mediante a Identidade da espécie. Mas a diferença que há entre uma orquídea e uma vespa é completamente distinta da diferença que existe  entre os indivíduos de uma mesma espécie. Não obstante essa diferença, uma orquídea é capaz de estabelecer uma relação singularíssima com uma vespa.
Uma orquídea não tem pernas, pois a raiz a fixa ao solo. Uma orquídea não tem ouvidos ou olhos, embora ela tenha formas sutis de percepção do mundo que a rodeia. Entre a orquídea macho e a orquídea fêmea há uma distância que a primeira percorrerá nas asas de uma vespa, mas sem sair do lugar:  sem ter olhos ou mãos, a orquídea macho fabrica em suas pétalas o órgão genital de uma vespa fêmea. Diferentemente de um escultor, a orquídea esculpe sua obra em seu próprio ser, em seu próprio corpo, de tal modo que entre ela e sua arte nasce uma indistinção que suspende as leis e regras lógicas que presidem o mundo das espécies e dos indivíduos.Ao ver o que pensa ser um outro indivíduo de sua mesma espécie, a vespa macho se une à vespa fêmea que a orquídea-artista  inventou para amar uma outra orquídea .Ao sair dali do seu ato de amor e ir pousar em uma orquídea fêmea com seu corpo imantado de pólen, a vespa se torna o instrumento de amor entre as duas orquídeas que não se vêem e nem se tocam, mas que se encontram e se amam por intermédio do apetite da vespa.
A orquídea inventou um devir-vespa, ao mesmo tempo em que a vespa entra em um devir-orquídea. A orquídea inventou um estilo-vespa, um ritmo-vespa, uma singularidade-vespa.Não um indivíduo vespa, mas uma singularidade vespa. Como dizem os medievais, uma hecceidade.A espécie é como um molde ou fôrma, ao passo que o indivíduo é feito uma matéria que a fôrma informa, dando-lhe um limite.Mas a singularidade é uma modulação : ela é a implicação de uma forma e uma matéria na imanência das quais vive uma potência sempre em deslimite, como diria Manoel de Barros.A orquídea inventou uma vespa feita de pétalas,assim como Van Gogh criou um girassol feito de tintas.Antes de ser a representação de uma vespa, o que a orquídea produziu foi a expressão de uma potência criativa que é imanente à vida.Enquanto a espécie é uma essência que não muda, posto que forma invariável, o devir-vespa da orquídea é uma essência enquanto "minadouro": dela minam sentidos de uma vida que se auto-inventa.O "minadouro", diz Manoel de Barros, é a fonte de onde a poesia nasce.E é dessa fonte que também nasce a vida que se afirma como processo que nenhuma forma pode reter ou conter.
A arte não é imitação da vida, ela é a vida mesma .A orquídea  inventou uma semelhança a partir de sua diferença, e fez passar uma vida que não se explica pela Identidade da espécie, mas pela potência de invenção.  Esta vida que passa "entre", que está sempre no meio e é meio de devir, nos faz compreender porque Deleuze afirma que "são os organismos que morrem, não a vida". São os organismos também que evoluem segundo um eixo paradigmático que vai do indivíduo à espécie. Mas o devir ocorre segundo um eixo horizontal sintagmático de agenciamento e conexão, uma evolução a-paralela, impensável segundo a concepção que pensa a evolução como progresso do menos perfeito ao mais perfeito. Se pensarmos a orquídea e a vespa como pontos em linhas diferentes, o devir é uma linha que passa entre estes dois pontos, abrindo-os a um processo que os retira de suas respectivas linearidades, de tal modo que cada um se torna uma singularidade a compor um rizoma, um agenciamento.
Se a evolução se estabelece na relação de um indivíduo com sua espécie a partir de um meio, o devir acontece na relação de agenciamento entre diferenças que se tornam mútuas, afirmando uma desterritorialização de cada uma em relação ao território determinado de suas respectivas espécies, e concomitante reterritorialização em um processo de invenção que vence as distâncias.E em tudo o agente é o Afeto que inventa sua própria ideia e realidade: enfim, a orquídea produziu uma linha de fuga com as asas da vespa.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Nélson Rodrigues, Kant, Espinosa e a "cerca"





Vá ouvir um samba antigo
para saber o que há de novo.

Sidney Miller


Nélson Rodrigues dizia que “a moral é uma cerca: os ricos passam por cima dela, enquanto os pobres passam por baixo; somente a classe média dá com os peitos nos limites da cerca e não a ultrapassa ”. Uma coisa  uniria  ricos e pobres: eles não levam em consideração  a cerca como limite que os regule.  Os ricos a burlam  indo “por cima”, comprando  o que o poder pode obter  como meio para quem quer transgredir, mas sem “sujar as mãos”; já os pobres vão rente ao chão,eventualmente se sujam, posto que se abaixam. 
A moral é um “não”: algo que se impõe limitando. Limitando os apetites, as inclinações, as paixões. Essa história de Nélson apresenta uma imagem negativa da liberdade: ser livre seria  transgredir a cerca, não importando  os meios. Os seres da  classe média seriam os “neuróticos”: eles obedecem a  uma imagem da liberdade negativa também, mas como “respeito à cerca”, “respeito à Lei Moral”. 
Filosoficamente, Kant é o mentor de tal atitude “classe média”: média no agir, média no desejar, média no pensar, sempre com as marcas da cerca no peito. E se os ricos  e os pobres se colocam nos extremos, tais extremos também se definem pela média que eles burlam.
Mas cabe a inocente pergunta, que certamente fariam Nietzsche, Espinosa, Manoel de Barros ou uma criança: “quem fez a cerca?”. Não só quem pára nos limites dela, mas também quem a transgride acredita nela:  quem a ultrapassa extrai prazer dessa transgressão, mas ainda mantendo a cerca como referência, mesmo que para negá-la. Liberdade neurótica e liberdade perversa: ambas ainda se explicam pelo “não”, pelo limite. O “iconofílico” e o “iconoclasta” se explicam pelo mesmo ícone: o primeiro  se ajoelha diante dele,  enquanto que o segundo   o quer  destruir pelo desprezo.  A história  política nos mostra infelizes e bizarras uniões entre os que pulam por cima e os que se arrastam por baixo da lei, e implantam as mais variadas formas de fascismos e demagogias, ou a mistura de ambos.
A liberdade, a liberdade do desejo, e não a do mero prazer, não estaria em pensar e agir sem ser a partir de uma  cerca? Pensar e agir não seriam afirmações de uma outra ordem? O perverso nega a negação, afirmando uma afirmação derivada do que ele nega. Transgredir também é uma reação. Se retirarmos as cercas fica livre não apenas quem elas limitavam , como também quem as transgredia. 
Pensar não é partir de uma cerca, e sim do infinito. É em relação com este que podemos criar algo que seja realmente libertário:  um pensar e agir que criam alguma consistência para si, mas sem perder o infinito. Dar consistência não é cercar, diminuir, limitar, negar; dar consistência não é solidificar, enrijecer. Dar consistência não é objetificar.Virtual procede de virtu, que significa força. Não a força física, a que nasce do corpo orgânico e seus músculos, e que pode servir ao ódio e à destruição exclusivamente, mas sim a força que nasce do espírito,  como potência de criação. Dar consistência ao virtual é aumentar sua força: é torná-lo imanente ao ato que o torna consistente.Dar consistência à potência é afirmá-la como afirmação que afirma a afirmação. Dar consistência à potência é habitá-la, mas sem diminuí-la ou cercá-la. 
Se a moral é uma questão de cercas, a ética é uma atividade que visa criar consistência para nosso modo de vida, ampliando-o, potencializando-o. A ética é uma prática do  desejo. Se Kant é o filósofo da cerca, Espinosa é o pensador da ética: nem classes nem cercas, mas a multitudo, a multiplicidade que não se pode limitar ou cercar. Ética como criação de consistência, isto é,  de agenciamento  que distingue  a lei das “regras de vizinhança”: estas são “noções comuns” , como diz Espinosa, e não leis. A noção comum se assemelha   a um barco no qual entramos para , remando juntos, fazermos a travessia de um fluxo . Daí nasce a liberdade como  prática  de um  perseverante esforço, ao invés  de uma cerca que separa espaços com identidades fixas ; mas tampouco se  afirma a diferença apenas transgredindo essas identidades fixas... Como diz Nietzsche, “só podemos destruir sendo criadores”.
 Não há agenciamento ou  “bom encontro”onde a referência é a cerca, seja como limite que pára ou como limite  que se quer apenas para os outros, e que com prazer se burla. Segundo Deleuze e Guattari, o agenciamento pressupõe uma zona de vizinhança entre cada um que se agencia, e o que  está no meio nunca é uma cerca, nem uma média, mas abertura a um processo que singulariza.

terça-feira, 25 de junho de 2013

utopia






Não é falso dizer que a revolução "é culpa dos filósofos"( embora não sejam os filósofos que a conduzem).(...) É sempre com a utopia que a filosofia se torna política , e leva  ao mais alto ponto a crítica de sua época.A utopia não se separa do movimento infinito: ela designa etimologicamente a desterritorialização absoluta, mas sempre no ponto crítico em que esta se conecta com o meio relativo presente e, sobretudo, com as forças  abafadas  neste meio. A palavra empregada pelo utopista Samuel Butler, "Erewhon", não remete somente a "No-where", ou a parte Nenhuma, mas a "Now-here", aqui-agora.O que conta não é a pretensa distinção de um socialismo utópico e de um socialismo científico; são antes os diversos tipos de utopia, dentre os quais a revolução. Há sempre, na utopia ( como na filosofia) , o risco de uma restauração da transcendência, e por vezes sua orgulhosa afirmação, de modo que é preciso distinguir as utopias autoritárias ou de transcendência, e as utopias libertárias, revolucionárias , imanentes.Mas, justamente, dizer que a revolução é, ela mesma, utopia de imanência não é dizer que é um sonho , algo que não se realiza  ou que só se realiza traindo-se. Pelo contrário, é colocar a revolução como plano de imanência , movimento infinito, sobrevoo absoluto, mas enquanto estes traços se conectam com o que há de real aqui e agora, na luta contra o capitalismo , e relançam novas lutas , sempre que a precedente é traída.

                                                     Deleuze & Guattari, O que é a filosofia? 



Todo limite é ilusório, e toda determinação é negação,
se não está numa relação imediata com o indeterminado.

Deleuze & Guattari, O que é a filosofia?



A utopia é uma maneira questionante, não passiva, de se relacionar com o lugar. "Topos", em grego, significa exatamente "lugar". Assim compreendido, o lugar não é apenas uma parte do mundo físico, pois  há lugares mentais, desejantes, incorporais, nos quais nunca se pode estar, apenas acontecer, devir. As palavras "estátua", "estático", "estar" e "Estado" se originam de um mesmo termo latino, stare , que significa "parada". Como dizem  Deleuze e  Guattari, a etimologia é o atletismo do filósofo. Ela é um exercício do pensamento que nada tem a ver com as semânticas do dicionário, pois se trata de encontrar o acontecimento que dá origem às palavras.Assim, há lugares que são de parada, como o é também um túmulo; são lugares de poder e de morte, enfim. Mas há lugares que são de processos, de devires, de metamorfoses, de agenciamentos. Os lugares de parada podem ser circunscritos por contornos ou limites, ao passo que há lugares cujas fronteiras são limiares em vizinhança  com outros lugares deles diferentes.
A geometria euclidiana pensa o lugar  como algo que mora dentro de uma cerca, de um limite determinável; já o lugar da utopia cresce à medida em que ousamos habitá-lo: são lugares que crescem conforme crescemos, tendo a liberdade como tamanho.A utopia compreende um lugar ligado umbilicalmente com a Terra, o infinito.
O lugar , o topos, expressa um "aqui"; já o "u" de "utopia" significa um "agora". Erradamente se traduz "utopia" como "não-lugar", dando à partícula "u" a função de negação ou privação. Na verdade, a tradução mais adequada de "utopia" é "aqui-agora": de tal modo que é no agora que podemos libertar o aqui de seu imobilismo, mas também é no aqui que podemos pensar o que desejamos ser a partir de agora , e não a partir de amanhã...O aqui-agora não é espera, não é esperança: é liberdade em ato, no espaço e no tempo. Todavia, não se trata de um espaço meramente físico, ou de um tempo tão somente cronológico.É um espaço de criação que pede um tempo que é de ruptura, de inovação. 
Do ponto de vista físico, os lugares são simultâneos: eles estão dados, sem sucessão, em um mesmo presente histórico, cada um com sua respectiva identidade. Do ponto de vista da utopia, os lugares são coetâneos: eles co-existem e se conectam, pela diferença. A coetaneidade dos lugares utópicos são espaços de rizoma e heterogênese.
Do ponto de vista da física social, estudantes, trabalhadores, artistas, negros, brancos, homossexuais, heterossexuais, favelados, intelectuais, etc., ocupam lugares euclidianamente estanques, delimitados que são por contornos determinados, muitas vezes construídos com arame farpado.Da perspectiva da coetaneidade da utopia, esses lugares se abrem e se comunicam pela experiência de um agora que faz do aqui o espaço comum daqueles que , em devir, desejam criar agora um outro lugar que seja aqui, e não em outra vida ou em outro mundo.Como dizem Deleuze e Guattari, " a revolução é a apresentação do infinito no aqui-agora : a revolução é a desterritorialização absoluta no ponto mesmo em que esta faz apelo  à nova Terra, ao novo povo"  ( O que é a filosofia?, p. 131).

Os que nascem em um mesmo lugar se identificam chamando-se reciprocamente de "conterrâneos": os que têm " uma terra em comum".Como desterritorialização absoluta, a Terra de que falam Deleuze e Guattari não se confunde com um território ou Estado. Somente afirmando essa Terra é que nos tornamos conterrâneos de tudo o que é vivo. 
Essa afirmação é dupla: ela implica a coetaneidade dos lugares utopicamente vividos como lugares de diferenças em conexão e agenciamento para instituir o comum, e supõe também a experiência de um devir planetário que nos torna conterrâneos por aquilo que criamos e ousamos, contra todo fascismo e apequenamento da vida.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Nietzsche, Espinosa e a multidão





Eu amo as ruas.

João do Rio, "A alma das ruas".


Lua que não muda,
não muda a maré.

Wilson Moreira.


1-Segundo Nietzsche, "quando queremos lutar contra as monstruosidades que existem no mundo,devemos  tomar o máximo cuidado para que nós mesmos não nos tornemos monstros". Há uma outra ideia de Nietzsche que dialoga com essa. Esta outra ideia, como todo pensamento de Nietzsche, é endereçada sobretudo aos jovens. Não ao jovem que, com o passar dos anos, envelhece e passa a servir ao mesmo poder e modo de vida que combatia quando jovem ( e não faltam exemplos disso nos parlamentos e academias...). O jovem ao qual Nietzsche fala é o espírito de não acomodação, que exerce, política e existencialmente, a sua potência de crer. "Crer" e "criar" provêm de um mesmo termo latino: "creare".Somente quem crê de fato cria. O poeta que cria sua poesia, crê na arte; se criamos um vínculo com alguém, é porque cremos no agenciamento. Crer é a mais elevada forma de criar. Quando o crer se separa do criar, passamos a esperar que um outro nos dê o que somente nós poderíamos obter, seja esse outro o Estado, o dinheiro, a sorte ou mesmo Deus. Afastado do criar, o crer se torna apenas uma espera que pode dar vez ao desespero, quando não se tem a potência e coragem de criar. O grau máximo de afastamento do crer em relação ao criar acontece quando o crer passa a esperar por um além , uma outra vida, que seria a "vida verdadeira". Mas como diz Deleuze, a grande prova do crer é crer nesta vida, e este crer também significa criar a própria vida, tornar-se ativo.Se alguém não crê, também não cria. Quem não crê pode até criticar, julgar, depreciar, zombar...Mas desse destruir nunca nasce o criar. E o criar não é tarefa fácil, assim como não o é o crer que serve ao fazer e ao produzir, e não à espera. A referida frase de Nietzsche é: "Só podemos destruir sendo criadores". A destruição é a crítica, o protesto, a indignação e até mesmo a revolta. Mas o criar é alegria, afirmação, agenciamento, arte, vida. 
Os monstros de que fala Nietzsche não estão no fundo do mar ou na floresta negra. Eles estão à nossa volta, na tela da tevê, nos parlamentos, nas negociatas, na mercantilização do ensino  e da saúde, na música vulgar e cinemas do clichê. Aliás, o clichê é um dos maiores monstros que podem devorar a criação autêntica. Os monstros são modos de vida consumistas, individualistas, banalizadores das experiências realmente revolucionárias, sobretudo as micro-revoluções do desejo. Os monstros também são a violência , a miséria, a corrupção, a ignorância. Os monstros são físicos e simbólicos. Se ao lutarmos  contra tais monstros viramos também monstros, nossa força se adiciona à força deles, de tal modo que lutamos pela nossa própria destruição.Não se vence os monstros monstruosamente. Os monstros apenas destroem, diminuem, negam. Para lutar contra eles, é preciso primeiro afirmar o que nos distingue e dá força, confiança e potência. A afirmação da ideia adequada é, ao mesmo tempo, afirmação dela própria e destruição da ideia inadequada, ensina Espinosa. Não é meramente querendo destruir a ideia inadequada que se a vence, mas afirmando a ideia adequada, fazendo-a ter mais vida, mais potência.Quando Nietzsche afirma que "só podemos destruir sendo criadores", ele quer dizer que é o que somos que autoriza o que podemos. E o que somos nunca é destruição, mas criação, afirmação, invenção. Quem não é, também não pode, ou pode menos do que se de fato fosse, do que se de fato criasse seu próprio ser, ativamente.Quem não é, também não age, apenas reage, por ressentimento. 
2-Segundo Espinosa, a  multitudo , a multidão, não é um grupo com extensão máxima.O grupo ainda está sujeito à lógica do eu e do tu. O grupo é um eu ainda, um eu ampliado; o grupo  é uma soma de eus. O outro grupo é, por isso, um tu ampliado.Os grupos se opõem, eventualmente se associam, como um eu ao tu.Quando o grupo toma   consciência de seus interesses de poder, disto poderá nascer um partido político.Entre este e as facções de todos os tipos a diferença não é em relação aos fins, mas aos meios.Quando da multidão se destaca um grupo, este passa a querer poder, potesta.
A multitudo não é um grupo, ela escapa à lógica do eu e do tu: enquanto entre estes pode nascer um contrato, na multidão há apenas direito em estado nascente. E direito em estado nascente é potência. A potência é sempre um direito em estado nascente, que nunca deixa de nascer e questionar os direitos "morrentes", que são perpetrados  por letras mortas e togados bem pagos ( além das forças policiais).A multidão é sem centro. Ela é fluxo, sem margens. A multidão não mora em palácios, casa ou mansões: ela mora na rua, na praça; ela mora se movendo , e cresce absorvendo o que já faz parte dela, por natureza e não por contrato( jurídico,  político ou moral). A multidão tem uma única potência, da qual nascem todas as outras: a potência  de instituir. E é por isso que a multidão é espontânea, sem limites. A multidão nunca é triste nem age apenas por ódio ou raiva, embora a mova a indignação. A multidão não tem líderes ou chefes.  A multitudo é um nós.Deste nasce o afeto pelo comum. O comum nunca é uma propriedade, esta sempre o é de um eu ou de um tu. Há propriedades em comum, o que nada tem a ver com o comum que não é propriedade de ninguém, posto que é o comum.A multitudo deve nascer  dentro de cada um, como multiplicidade de percepção e riqueza de vida, e não de bens, posses ou títulos. A multitudo não possui nada, a não ser a ela mesma, que sempre se transforma, múltipla que é. Os partidos, as classes sociais, etc., são sujeitos históricos, ou têm a pretensão de ser; mas a multitudo está sempre em devir, sempre contra este tempo, não importa qual, sempre a favor de um tempo por vir.A história é linear, tem começo e se pretende ter um fim; mas os devires são multidirecionais, abertos, não lineares, pois inventam caminhos onde se acreditava não poder mais ir.
A multitudo tem dois "inimigos": o poder totalitário que, colocando-se transcendente a ela, usa a força  (física e simbólica) para mantê-la na escravidão e na impotência; e o "estado de natureza" como "guerra de todos contra todos", que impede que a multitudo possa se constituir e adquirir consistência. Esses dois inimigos são as duas faces do fascismo: ele já  formado ( o Estado Totalitário) e o berço no qual ele nasce  (os indivíduos que , confundindo criação com destruição, potência com força física, colocam-se à parte da multitudo, incapazes que são de pensar e fazer o comum).
Um grupo possui limites definidos pela sua identidade;a multitudo possui limiares que vão até onde vai sua potência.A multitudo visa produzir uma alma e um corpo comum; isto não significa um pensar e um agir igual.O comum não é uma propriedade, não é uma opinião. Ele é aumento de potência de pensar e agir; logo, de existir. O comum  é aumento da potência de pensar e agir de cada um. O comum não é propriedade, ele é comunidade da qual participamos com nosso desejo.A multitudo não é exatamente o povo ou a nação,  muito menos a massa. Povo, nação , massa...são recortes na multitudo feitos a partir de fora.A multitudo habita não um país, ela habita a Terra, embora seja sempre em um país, uma cidade ,ou mesmo em um bairro, que ela se manifesta.E onde a multitudo se manifesta, neste local também se expressam as questões sem fronteiras determinadas, que concernem à humanidade inteira.
A multitudo , a multidão, não é a mera soma  de vários “uns” : ela não é um todo que nasceria  apagando o “um” de cada  um. O prefixo “multi” indica um ato de multiplicação. A multitudo é a multiplicação do  ser um de cada um : ela é o um que nasce da ampliação do direito de cada um de  existir como  um. Na multitudo, cada um encontra ampliado, potencializado, o seu direito de ser um, singular. Por isso, ela não nasce da soma da potência de cada um, mas da ampliação ou multiplicação da potência de cada um. Quando a potência de cada um é ampliada  , nasce o um da multitudo. Um que é, ao mesmo tempo, vários, posto que este um é  inseparável  de cada um que ela, a multitudo,  amplia. Por isso, jamais a multitudo é homogênea: ela é heterogênese, isto é, expressão da diferença singular que a produz e que ela dá a ver no seu ser um, ampliando-a. 
A adição de potências  ocorre na multitudo em favor da co-instituição do imperium, isto é, da autoridade política. O um do imperium não é multiplicação ou ampliação  do um singular de cada um, uma vez que seu um nasce da adição de potências . Adicionar, somar, não é multiplicar. Por isso mesmo, o imperium, o poder do estado,  pode ser dissolvido quando não se somam mais as potências que lhe deram nascimento, ou quando o detentor do imperium subtrai sua potência da potência da multitudo, ambicionando existir como um todo à parte, transcendente à multitudo. 
A multitudo nunca pode ser dissolvida, pois ela não é a soma de potências, mas potência nascida da ampliação de cada potência  una. Somente o que nasce da soma pode ser dissolvido, como o muro que nasce da soma de tijolos. A multidão pode estar a dormir, mas sempre há a possibilidade de ela acordar.
 Um indivíduo pode querer se furtar ou se subtrair à multitudo: ele o faz quando pretende retornar ao estado de natureza, ambicionando impor seu direito natural sem medir conseqüências. Mas quando assim procede, tal indivíduo não agride apenas o um de um indivíduo particular , mas ao um da  multitudo como um de todos. Sua ilusão é supor que seu direito , ou existência,  se potencializa negando , subtraindo. Ao contrário, subtrair-se à multitudo é diminuir o direito próprio. A verdadeira potência afirmativa não é adição,  mas multiplicação: afirmar-se verdadeiramente não é colocar-se como “um todo à parte”; afirmar-se é multiplicar-se sendo um com o um de todos, para além de todo contrato,  para assim instituir o comum. 
Vivendo em   sociedade o homem vence o que mais o ameaça no estado natural: não poder organizar os encontros que faz. Assim, a vida social é , sobretudo, organização dos encontros: favorecimento dos encontros que produzem afetos que aumentem o poder de agir de cada um ( educação, conhecimento, paz, cordialidade, civilidade, cidadania, etc.); diminuição dos encontros que podem ameaçar a conservação de cada um ( os ilícitos, a pobreza, a doença, etc.). Uma sociedade somente se conserva quando é expediente para a conservação do direito natural de cada um. Se ela põe este direito natural em risco, a própria sociedade, enquanto indivíduo, torna-se um mau encontro que precisa ser destruído, para que uma outra sociedade, da imanência da multitudo, venha a nascer.
Contudo, como observa Deleuze, o direito natural é abstrato quando isolado da sociedade civil. Ele só se torna concreto quando o vemos como causa eficiente da sociedade,  esta se tornando também causa eficiente para a ampliação do direito natural. Ninguém no direito natural é “tirano” ou “corrupto”, pois “tirania” e “corrupção” são práticas que pressupõem uma sociedade já constituída. A dificuldade de se abordar o direito natural é que ele, sendo pré-social, não pode ser compreendido com os valores da sociedade, com seu universo axiológico. Porém, há ainda um  risco, um risco moralizante que afasta o homem de compreender a si mesmo em sua realidade natural,  quando os teólogos de toda ordem aplicam sobre o estado de natureza valores que só têm sentido com o estado social já constituído, valores estes que extraem sua força (reativa) da desqualificação que fazem do estado natural  em nome de idéias transcendentes.  
O homem não nasce razoável, cidadão ou religioso; ele pode tornar-se tais coisas apenas em sociedade, afirma Espinosa.  Porém, o estado de natureza  não é um estado irracional, tampouco ele é anti-social  ou a-social, pois anti-social e a-social são noções cujo sentido pressupõe o de social, assim como as noções de desvio ( quando se diz que um comportamento é desviante)  ou de margem ( quando se atribui a um comportamento ser marginal). Se os comportamentos desviantes e marginais existem, sempre o são em uma sociedade  estabelecida, não no estado de natureza. Assim , mesmo “mentir”, “dissimular” , “corromper”, “agredir”, etc. são comportamentos imediatamente sociais , e não naturais. Se pudéssemos abstrair a sociedade na qual tais comportamentos acontecem e tentássemos apreendê-los do ponto de vista puramente do direito natural, o que seria uma tarefa  ao mesmo tempo difícil e abstrata ( pois só podemos imaginar tal coisa e não compreendê-la), tais comportamentos não teriam o mesmo nome , tampouco o  mesmo significado que atribuímos a eles , uma vez que o uso da linguagem , reconhecendo  uma unidade semântica para as palavras, já pressuporia uma sociedade. 
É por isso que todo processo revolucionário , quando evoca o poder constituinte originário, isto é, a potência constituinte da multitudo ( a multitudo é a unidade heterogênea, pré-social, das potências de agir com poder de co-instituir uma ordem social, isto é, a multitudo é a causa eficiente do social e do campo jurídico ), é por isso que todo processo revolucionário  suspende não apenas a ordem jurídica, como também , não raro, a ordem simbólica: o que  na semântica da ordem suplantada era crime, na nova ordem pode ser considerado ato justo; alguém que na ordem antiga era prostituta, descobre-se militante na ordem nova ( como no filme Terra e Liberdade). Esta  suplantação da ordem simbólica estabelecida  constitui ,em toda revolução, tanto na revolução social como na pessoal , a sua  produção de sentido.
Mas para além dos valores está a potência. Os valores são dicotômicos ( justo/injusto, lícito/ilícito, racional/irracional, etc.), ao passo que a potência é múltipla em sua essência singular, una. A potência é mais do que o justo, é mais do que o lícito, é mais do que o racional. Ela é mais porque  seu negativo, a impotência, é tão somente seu enfraquecimento, e não uma outra realidade que lhe faz oposição dicotomicamente. Em latim, potentia também se diz jus, direito. Este direito é natural. O direito jurídico, nascido que é de uma sociedade, traz os valores e dicotomias dela, ao passo que o direito natural, idêntico à potência da multidão, tem por principal critério a existência e a conservação do direito de existir da multidão, pois é seu direito natural se opor a tudo aquilo que quer diminuir sua existência, tornando-a impotente, triste, escrava. Em Espinosa, somente o que é produzido pode ser conservado. Assim, a conservação não é um algo  estático, dado que conservar uma potência é garantir seu direito de expressar-se, de expandir-se, tais como os direitos de agir e de pensar. E estes são direitos que se conservam pensando e agindo, e nunca de outra forma. 






sexta-feira, 14 de junho de 2013

Cláudio Ulpiano

             





Não há nunca outro critério senão o teor da existência,
          a intensificação da vida. 

                                Deleuze e Guattari, O que é a filosofia?



           Foi em uma belíssima aula de Cláudio Ulpiano, há mais de 25 anos, que ouvi falar, pela primeira vez, o nome do poeta Manoel de Barros. Era um poeta sendo citado em uma aula que era um poema.  Deleuze e Guattari afirmam que faz parte da compreensão de um conceito filosófico a sua compreensão não-conceitual: os conceitos não remetem apenas a outros conceitos, “os conceitos remetem eles mesmos a uma compreensão não-conceitual. (...) O não-filosófico está talvez mais no coração da filosofia que a própria filosofia, e significa que a filosofia não pode contentar-se em ser compreendida somente de maneira filosófica ou conceitual, mas que ela se endereça também, em sua essência, aos não-filósofos” (O que é a filosofia?, Editora 34, p. 57). Para compreendermos adequadamente toda a potência  que um conceito filosófico possui, é necessário que saibamos ter igualmente uma compreensão não-conceitual do conceito. Esta compreensão não-conceitual implica que saibamos compreendê-lo também politicamente, etologicamente, clinicamente, eticamente, enfim, poeticamente. Esta compreensão poética, heterogenética, não é exterior ao conceito, uma vez que faz parte da compreensão do conceito o seu devir poético, ao mesmo tempo em que o poético devém filosófico: era esse agenciamento conceito-poesia que as aulas de Cláudio generosamente nos ofereciam, e que faziam de Cláudio nosso intercessor. Nesse devir que vai do conceito à poesia, e da poesia ao conceito, o pensamento e o corpo se  mostram  como as duas metades de uma  vida que é Afeto.
         Acerca do seu precioso livro que agora lemos, Gilles Deleuze: a Grande Aventura do pensamento, o próprio Cláudio se refere ao seu trabalho “como se fosse um poema”. Citamos Manoel de Barros porque é nele que podemos encontrar o seguinte verso: “O poeta é aquele que vai até à  infância e volta”. E aquele que vai não é o mesmo que retorna, pois se opera no intervalo uma metamorfose, um devir, uma salut : a prática da inocência. O mesmo pode ser dito de um filósofo, como Cláudio, que nos ensina que “a filosofia é a mais inocente das ocupações”. Nietzsche dizia que “só podemos destruir sendo criadores”. Destruição como crítica, criação como clínica. Crítica e clínica: as duas metades de um devir-criança. 
       Em um de seus últimos cursos ministrados, e publicado sob o título A coragem da verdade, Michel Foucault, que pouco se refere a Espinosa, cita o autor da Ética de uma forma que  revela a admiração que nutria por Espinosa, a despeito das poucas palavras escritas que lhe dedicou. Segundo Foucault,  em Espinosa fazer filosofia é inseparável da produção de uma vida filosófica. Produzir um modo de vida filosófico, este é o principal desejo que tem na filosofia a sua causa eficiente. Em Espinosa, a vida filosófica não é uma vida à parte, ela é a vida mesma. Produzir uma vida filosófica requer não apenas amor à Verdade ou à Sabedoria, requer  sobretudo coragem .E disto a própria vida de Espinosa  dá o testemunho. A philia, como amizade ou amor à Sabedoria, nada é sem a coragem de viver filosoficamente esse amor, esse afeto. Decerto que não faltou amor à sabedoria em muitos filósofos,  mas poucos foram além do amor, poucos exerceram esta coragem que a filosofia pede. Há uma dimensão clínica nessa coragem, pois toda cura começa na coragem. Coragem não exatamente para enfrentar a doença, mas coragem para viver de acordo com  a saúde.E Cláudio, como poucos, é o exemplo vivo de um filósofo brasileiro que resistiu com salut e coragem. Cláudio viveu, desde sua  Macaé, um modo de vida no qual não faltaram amor e amizade, mas estes foram potencializados pela coragem, coragem esta que a própria amizade e amor pedem, para que assim sejam potências do Afeto.
           Segundo Deleuze ( Nietzsche et la philosophie, p. 119), há um devir-verdade que não se opõe ao falso; o devir-verdade dá ao falso uma potência de criação que o liberta de ser o negativo da Verdade que não tem devir . O devir-verdade é a adequação do pensamento ao agir, e que faz da filosofia a mais necessária das práticas: a de  ensinar pela  conduta.
       Falar ou escrever sobre Cláudio Ulpiano  nos põe, como diria Manoel de Barros, em “estado de rascunho”: um  “afloramento de falas” vem ocupar nossa voz.Somente como rascunho, anexatos, podemos conquistar alguma consistência, mas sem perder o infinito.  Falar sobre Cláudio só o podemos  deixando nascer em nós  um sujeito coletivo de enunciação: poli-fonia - múltiplas vozes.  Isto porque Cláudio Ulpiano  assinou seu nome para expressar  singularidades e acontecimentos dos quais ele foi e é o criador. O nome de Cláudio é a assinatura através da qual vemos paisagens, personagens, acontecimentos, afetos, experimentações, devires, beleza, sujeitos larvares, mundos por criar. 
       Segundo Espinosa (Deleuze, Spinoza: immortalité et éternité.Paris: Gallimard, 2001. 2 CDs), quando a morte leva uma criança, a morte leva a maior parte desta pequena existência, mas não leva tudo: algo da criança permanece. Isto   nos mostra que o poder da morte não é absoluto. Se a criança viveu ao menos um dia de vida, a morte não tem poder para levar e apagar este um dia. A morte, na verdade, levará  os dois anos da criança, ou os seus 10 anos. Ou seja, a morte só pode levar o que não foi vida. Ela só pode apagar o que não existe ou existirá: os anos que a criança não viverá. A morte só tem poder onde reina cronos, e não onde há a instauração de aion. A morte é ausência, privação. Mesmo  antes de ter nascido,  a criança existiu , como essência, no desejo dos seus pais, como parte da essência destes. E esse desejo também a morte não pode apagar, assim como a escuridão não pode apagar a luz, dado que a escuridão é tão somente a ausência da luz. Por mais estranho que possa parecer, a morte não leva nada, pois ela vem do exterior de nossa essência, e apenas leva o que é exterior a esta. Para Espinosa, quanto mais potência uma essência possui, mais expansão ela é capaz de conquistar, reduzindo ao mínimo o poder de subtração da morte. Quem mais na vida se multiplica, e vida se multiplica com vida, menos subtraído pode ser por aquilo que não é vida.
           Espinosa diz ainda que o homem que soube fazer de sua existência uma expressão da Vida, que é potência absoluta, deste homem a morte apagará a menor parte, pois a outra parte, a maior, não pode ser apagada a não ser apagando o universo inteiro. Por isso, essa menor parte que é levada/apagada em nada diminui aquele que no infinito aprendeu a se fazer inteiro. Inteiro não como algo que aumenta com os anos, e que envolve quantidades numéricas, pois se trata de se tornar inteiro como uma quantidade não numérica, múltipla, uma potência: um “quantum de vida”, como diz belamente Cláudio. A maior parte de Cláudio vive em nós como aquilo que nos aumenta a Vida.
            No  Prefácio que escreveu para o livro de Cláudio,  o Prof° Luiz Orlandi se refere a Cláudio como  um signo-luz. Em suas aulas, víamos e ouvíamos esse signo-luz, e então tudo se clareava e compreendíamos por onde avançar e ir - pelos livros e, sobretudo, pela vida. Hoje esse brilho está também em seu livro, como o clarão de que fala Deleuze, como o relâmpago que canta Paulinho Moska. 
           No conto O livro de Areia, Borges nos relata o seguinte fato: um homem encontra um livro que porta um segredo (tomo de empréstimo essa palavra do Prof° Mário Bruno ao se referir a Cláudio). O homem abre o livro e lê uma de suas páginas, e depois o fecha. Abrindo novamente o livro, ele tenta voltar à página lida, porém não a encontra. A cada vez que o livro se abre, uma página nova se mostra: o livro era uma Diferença que cada página singular repetia, diferencialmente. O livro possuía somente páginas por descobrir, nas quais acontecia um sentido sempre novo, de tal modo que a recognição nada tinha a fazer ali. O livro era um encontro, sempre: e cada encontro tornava o homem também diferente, como se lhe nascessem novos olhos. O homem tentou então  achar o fim do livro, o seu término. Um novo paradoxo se mostrou: o livro não possuía última página, pois novas páginas emergiam da virtualidade da obra. O homem tentou encontrar a primeira página: esta também não podia ser achada, uma vez que novas páginas surgiam redesenhando o começo. O livro não contava histórias, apenas devires. Na verdade, o homem descobriu que o tal livro possuía tão somente páginas do meio, e estas eram infinitas. Infinitas não numericamente, mas infinitas em sentido, em potência de expressão. O livro somente possuía páginas do meio, e estas eram meio para experimentações com o espírito, mais do que com a letra. Era um livro infinito, tal como o inesgotável e belíssimo  livro que o signo-luz Cláudio escreveu. 

(texto publicado originalmente no site do Centro de Estudos Cláudio Ulpiano:http://www.claudioulpiano.org.br/)