sexta-feira, 2 de setembro de 2022

o poder teológico-político

 

Poucos livros de filosofia nos auxiliam tanto a compreender essa obscuridade que hoje domina parte do Brasil quanto o livro “Tratado teológico-político”, de Espinosa.

 No Prefácio   , Espinosa descreve o fenômeno da “superstição”. No fundo de toda superstição vigora o medo. Não o medo que pode nascer em quem enfrenta reais perigos, mas o medo ressentido que prostra.

Segundo Espinosa, é o medo  o sentimento que melhor define a condição de escravo. Esse medo alimenta a  “credulidade”.

“Credulidade” não é a mesma coisa que  “fé”. A autêntica fé não nega  o conhecimento, já a credulidade é negacionista da ciência.

 A fé é movida  pelo amor, mas é o ódio o combustível da credulidade. A fé busca a justiça e o perdão, a credulidade troca a cruz por armas para doentias vinganças. A fé almeja alcançar Deus, a credulidade em tudo vê o “Diabo”.

A credulidade não é a fé, embora tente  se apresentar como se fosse .  A credulidade não é religião, é projeto de poder obscurantista  :  poder teológico-político.

 A credulidade é rasa, rasteira: por não conseguir alcançar a profundidade do sentido que há nos textos sagrados, ela imagina  que berrando e gritando se fará ouvir  pelo  espírito santo.

A credulidade é produtora de fantasia. Essa  fantasia  retroalimenta a credulidade, criando assim um mundo à parte, mas que é visto pela credulidade como o “Mundo Verdadeiro”. Não por acaso, a palavra “Verdade”  está sempre na boca delirante da credulidade.

Fantasia não é a mesma coisa que criatividade. As crianças nascem fantasiosas, porém nem todas conseguem desenvolver a criatividade.

Quando a criança, movida pelo medo, fantasia haver um monstro debaixo da cama, o monstro  é produto de sua fantasia, embora a criança ignore isso.

Mas se a criança ,  ludicamente, cria uma história onde há um monstro, ou simplesmente desenha um monstro e fabula uma narrativa , a criança aprende que o monstro é criação de sua mente, de tal modo que, se ela o criou, também o pode derrotar, criando igualmente o personagem corajoso  que enfrentará e  vencerá o monstro. Criança que assim  brinca aprende a esconjurar o medo. O medo apequena a mente, a criatividade  faz a mente  crescer.

Toda criança nasce fantasiosa, porém para haver o despertar da criatividade é preciso criar meios socioeducacionais que potencializem o imaginar pensante nas crianças.

Não por acaso, “fantasia” vem de um personagem da mitologia chamado “Phantaso”. Esse personagem gostava de zombar dos homens soprando em seus ouvidos coisas que hoje chamamos de “fake news”.

Os tiranos estão sempre perseguindo os criativos  e colocando “monstros” debaixo da cama dos ignorantes, assim infantilizando, pelo medo,  os homens.

Homens infantilizados são incapazes de se autogovernarem, terminando  por se submeterem ,  pela credulidade,    ao poder teológico-político acumpliciado com tiranos.

“Comunista”, “vermelho”... são os “monstros” que o poder   teológico-político  hoje põe  debaixo da cama dos acorrentados à credulidade ,  para assim fomentar o medo associado  à  fantasia mórbida que delira ser um “Messias”  o perverso autoritário.

 








domingo, 28 de agosto de 2022

pedagogia da democracia

 

Em sua entrevista ao JN, Lula evocou um belo e riquíssimo pensamento do educador  Paulo Freire : “É preciso nos unir aos divergentes para vencermos os antagônicos”.

Toda divergência expressa uma diferença que , afirmando-se, discorda. A palavra “discórdia”  tem como raiz o termo “córdis”: “coração”. Assim, discordar é “não colocar nosso  coração ”  junto às ideias e palavras que alguém nos diz; “concordar”, ao contrário, é colocar nosso coração junto às ideias de alguém, partilhando-as.

Pessoas que pensam diferente sabem se unir quando as move um concordar primeiro: o do valor da democracia enquanto afeto que, antes de tudo, preenche seus corações . “Coragem” significa: “força que vem do coração”. É essa força que move o agir daqueles que pela democracia se unem e lutam.

Quem de fato põe seu coração na democracia e a democracia no seu coração, sabe se unir àqueles que têm da democracia uma perspectiva diferente . Pois é isto a democracia: a convivência de perspectivas diferentes.

Quem concorda que a democracia é o melhor regime político sabe discordar e divergir , sem ter ódio, de quem tem visões diferentes da democracia . Pois a democracia é exatamente o regime que se enriquece com  visões diferentes , sendo a base  da educação que liberta ensinando a autonomia.

Já o antagônico  é aquele que, antes de tudo, nega a democracia.  Por odiar a democracia, vê como inimigo quem a ama e  defende. Seu ódio à democracia é rancor contra a diferença e pluralidade de perspectivas.

Quem concorda com o valor da democracia sabe se unir a quem pensa  diferente. Mas os antagônicos se juntam apenas com antagônicos, sempre fazendo do rebanho homogêneo  o modelo de agrupamento. 

Os divergentes se unem pelo amor à democracia  ; já os antagônicos se arrebanham pelo ódio  ressentido que preenche o vazio de seus  corações rancorosos.

(  foto de Lula: fotógrafo Ricardo Stuckert)



sexta-feira, 26 de agosto de 2022

a imitagem...

 

Em seu sentido primeiro, “musa” significa : “conhecimento que nasce das artes”. Os poetas-pensadores  originários  evocavam as Musas para auxiliá-los na tarefa de manter sempre viva a lembrança do que nos potencializa e liberta.

Assim, o conhecimento que as  Musas despertam não é só intelecto ou razão, ele é  também recordação enquanto “re-cordis” : “trazer de novo ao coração”  os  afetos que fortalecem a vida. Quando a recordação se torna ação, nasce a coragem :“força que vem do coração”.

As Musas são filhas de Zeus , divindade ligada à justiça e à ética, com Mnemósyne, Deusa da Memória. Mnemósyne não simboliza a memória pessoal, mas a memória em sua dimensão social-histórica, enquanto registro dos acontecimentos nos quais a vida triunfou sobre seus carrascos.

 Zeus uniu-se a Mnemósyne após uma luta  vencida por ele e seus aliados contra as forças da ignorância e da barbárie , tanto as  físicas como as simbólicas. Esse matrimônio era para co-memorar: “criar memória” da vitória das ideias e valores sobre a força bruta.

Como  a barbárie e a ignorância  às vezes ressurgem  do  bueiro onde se escondem , reaparecendo ao longo da história com nomes diferentes (nazismo, fascismo,  necropolítica, milicianato...), é preciso manter viva a memória de que podemos vencer essas forças reativas do atraso, pois dessa lembrança também depende a criação do nosso próprio futuro aqui e agora, com coragem.

Segundo o poeta Manoel de Barros, todo ato criativo é uma “imitagem". A imitagem não é um tornar-se mera cópia passiva de um Modelo ou Padrão. Ao contrário, a imitagem é a produção de uma diferença criativa.

Na singela foto , vemos a bailarina cujo  gesto foi   imortalizado como escultura. Na menina, esse gesto renasce e ganha vida, torna-se outro. A arte renasce em seu corpo, em seu jeito: a criança interpreta, dançando, o que é dançar , reinventando o dançar à sua maneira.

Em toda imitagem há a aprendizagem   da própria diferença que se é. Diferença que autonomiza e singulariza nunca  é negação do outro ,  mas a expressão de uma liberdade que potencializa um agenciamento, um encontro.  Nesse encontro, a menina ao mesmo tempo aprende e ensina. Em sua imitagem, é a menina, e não a escultura, a obra de maior arte.

Que a pequenina Musa, em sua inocência brincativa, nos ajude a não esquecer o que precisa ser sempre lembrado: que a vida é conhecimento , arte , coragem e  liberdade, e que isso nos dê forças ante o obscurantismo e a  barbárie.

 

  

“Às vezes começa-se a brincar de pensar,

e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco.”

( Clarice Lispector)

 

 "Minha poesia não tem função explicativa, só brincativa."(Manoel de Barros)

   

"Nesta vida,

 pode-se aprender três coisas de uma criança:

 estar sempre alegre,

 nunca ficar inativo

 e chorar com força por tudo o que se quer."

(Leminski)




 




sexta-feira, 19 de agosto de 2022

um dia muito especial

 

O filme “Um dia muito especial” , obra-prima de Ettore Scola, mostra a visita que Hitler fez a Mussolini no dia 6 de maio de 1938. O nazista e o fascista articulavam para começar a hedionda guerra.

A macropolítica ensinada nos livros de história é feita de milênios, séculos , anos. Mas a micropolítica se revela no âmbito dos dias , das horas...

É sob o sufocante pano  fundo macropolítico do nazifascismo  que  acontece no filme um encontro singular e humanamente rico   entre uma mulher ( Sophia Loren), reprimida por seu marido machista e fascista, e seu vizinho ( Marcello Mastroianni) , um homoafetivo que também era perseguido no trabalho e pela vizinhança por sua condição homoafetiva.

Entre eles nasce mais do que uma amizade, nasce a compreensão de que a política também é uma questão de afetos , e que o  poder autoritário aumenta  sua  nefasta força    nos entristecendo, tolhendo ,culpabilizando, enfim, nos adoecendo.  

Sob a macropolítica do poder nazifascista, são construídas entre ambos pequenas linhas de fuga micropolíticas como resistência político-afetiva ante as diferentes  faces da cabeça autoritária que os ameaçava e perseguia, em casa e nas ruas.

A face macropolítica do nazifascismo, identificada aos rostos de Hitler e Mussolini, a história nos mostra seus trágicos contornos. Porém, a face micropolítica do nazifascismo é ainda mais triste porque ela se revela nas pessoas aparentemente “normais” e “comuns”, muitas vezes autointituladas “pessoas de bem” , que emprestam seus rostos para que a intolerância e a ignorância tenham uma cara persecutória e capilarmente inserida no tecido social cotidiano.

Enquanto Hitler e Mussolini desfilavam de mãos dadas fardados e armados  pelas ruas , parte incauta do povo comemorava  indo atrás deles, ignorando  que aquele desfile militar-autoritário  era na verdade um cortejo fúnebre  encabeçado pelos  carrascos nazifascistas da democracia.

 E o mais assustador  quando assistimos ao filme é constatarmos que as pessoas que comemoravam a aliança daqueles carrascos e os aplaudiam nos lembram muito certos vizinhos que temos hoje, formando   um servil coro junto com aqueles  que ainda idolatram o aprendiz de fascista naquele cercadinho em Brasília para gado aferroado.

 No filme, a única atmosfera humana acontece quando a mulher e seu amigo homoafetivo se encontram. Curiosamente, seus dramas também nos lembram os nossos, suas questões também soam mais do que contemporâneas , suas angústias parecem as que hoje sofremos...E é na arte que eles encontram um meio para se curarem, respirarem e manterem viva uma perseverante alegria de que aquele terror um dia vai passar.






terça-feira, 16 de agosto de 2022

hoje, 16/08, dia do filósofo

 

A filosofia não nasceu na Grécia. Ela foi deixada lá ainda criança, tal como aqueles bebês deixados   à porta de alguém que inspira confiança. Inclusive, a tez da filosofia é mais escura e mestiça do que a branca pele grega.

Há quem diga que seus pais eram Egípcios; outros afirmam que foram os Assírios que a conceberam; e há quem defenda ainda que os pais da filosofia foram os nômades povos do deserto que se guiavam pelas estrelas , amavam a natureza e que nenhum império  , por mais que tentasse, conseguiu prender e escravizar .

A porta em que a filosofia foi deixada para ser cuidada pertencia à casa de um ser humano sábio, justo e digno chamado Tales, que deu o nome de Sofia  à criança. Ele a criou e a ensinou a ficar de pé. Com Heráclito Sofia aprendeu a brincar; com Nietzsche, a dançar; e  a fazer-se mais potentemente viva Sofia aprendeu com Espinosa, frente aos obscurantistas  que a querem morta.

 

(imagem: os filósofos Deleuze & Guattari)





segunda-feira, 15 de agosto de 2022

pequena homenagem aos pais

 

Sou o mais velho de cinco irmãos. Filho mais velho, dizem, precisa  dar o exemplo. Porém, quando criança eu  era vizinho de um garoto chamado Edinho. Ele era quatro anos mais velho que eu, diferença que contava bastante.

Edinho foi não só meu primeiro amigo, ele também era o irmão mais velho que eu não tinha: com ele eu podia ser um irmão caçula ( não em sangue, mas em afeto).

Foi Edinho que me despertou a vontade de querer aprender a ler, pois quando eu tinha 5 anos via Edinho sempre com  gibi na mão, lendo. Como eu o imitava em tudo, também queria aprender a ler para fazer amizade com os gibis, que tanto roubavam a companhia do meu amigo de mim.

Aos olhos do meu pai, Edinho tinha apenas um defeito : ele era “botafoguense” ( meu pai era flamenguista de “carteirinha”).

Sabendo de sua influência sobre mim, quando fiz 6 anos Edinho juntou dinheiro e me deu, como presente de aniversário, uma camisa do botafogo novinha. Não pensei duas vezes: coloquei a camisa, virei botafogo. Quando meu pai me viu com a camisa, a expressão de decepção no rosto dele era indescritível, mas ele não falou nada.

Pouco tempo depois , ele me disse: “filho, vamos ao maracanã?” Era a primeira vez que eu iria ao maraca! Era um flamengo X bonsucesso, numa quarta à noite, mais de 40 mil presentes. O jogo estava difícil, o bonsucesso tinha um bom time.

 Mas eu não estava nem aí para o jogo, eu era botafogo! E meu pai, querendo me agradar, pagava tudo o que eu pedia para comprar dos ambulantes: sorvete,biscoito, doce...

Começou o 2º tempo, ainda zero a zero. Até que, à beira do campo,  começou a  aquecer um garoto para entrar no flamengo. Meu pai me segurou no braço e disse, cheio de esperanças: “filho, não tire os olhos desse garoto que vai entrar!”

Olhei para o garoto sem entender as palavras esperançosas de meu pai: o garoto era magrinho, o uniforme o engolia... Pensei comigo, enquanto saboreava um sorvete: “Meu pai não sabe nada...”

Até que o garoto entrou...A primeira vez que ele tocou na bola, esqueci o sorvete, pois ele fez um lançamento maravilhoso que gerou o primeiro gol do flamengo. O garoto parecia um artista, um pensador da bola. Enfim, ele acabou com o jogo. Aquele foi um dos primeiros jogos do Zico.

Quando saí do maraca, esqueci o botafogo e, pela primeira vez, divergia  do meu querido amigo Edinho. De mãos dadas com meu pai , olhei para ele com meus olhos de menino e disse comigo: “Meu pai sabe tudo.”






sábado, 13 de agosto de 2022

urdiduras e tramas

 

Os filósofos e poetas gregos falavam do “Destino”. Na mitologia ,  o Destino era representado por três sinistras irmãs : as Moiras. Elas eram cegas, porém  tinham à mão um estranho olho de vidro com dom de ver passado, presente e  futuro. Esse olho é o tataravô das “bolas de cristal”  nas quais  se crê antever o curso da vida.

Uma das Moiras puxava o fio da vida, outra o esticava, enquanto a terceira o cortava rindo e zombando , como se cortar o fio da vida  fosse uma diversão macabra. Com o fio, as Moiras fabricavam uma “ordo”, uma “urdidura” ,  isto é, uma “Ordem” da qual ninguém conseguia escapar. A “ordo/urdidura”  era feita com linhas retas na horizontal e na vertical, como as grades de uma prisão.

Muito diferente era o fio de Ariadne: fio do Afeto, fio da Arte. Enquanto o fio das Moiras estava preso a uma roda ( a “Roda da Fortuna”), o fio de Ariadne era puxado   de um novelo, e assim libertado  . Quanto mais se confia nesse fio, menos as Moiras conseguem cortá-lo.

“Con-fiar”: “fiar junto”, pois fia junto quem tece novos elos  (“novelo”: “novo elo”). O fio de Ariadne é puxado de uma potencialidade que se desdobra em novos elos a serem tecidos e ousados.

Enquanto o fio das Moiras é “ordo”, “Ordem”, o fio de Ariadne é meio para tecer tramas. A trama é feita de linhas transversais formando curvas , desvios, “clinâmens”, espirais...Toda trama borda    uma linha de fuga que afirma a liberdade a despeito da malha férrea das Ordens Sinistras.

As Moiras  puxavam o fio , o esticavam , para depois cortá-lo. Elas eram incapazes de bordar, pois bordar é tecitura da arte enquanto força que estende ao máximo o fio da vida, vencendo  aqueles que o querem cortar.

Toda bordadura parte de uma Ordo/Ordem, porém lhe acrescenta tramas criadoras de caminhos que nos fazem transpassar  grades  (físicas ou simbólicas).

A gramática é urdidura , mas trama é a poesia; urdidura é a família,  porém trama é o amor; cartilhas são urdiduras, mas pensar é trama que confia em sua força libertária.

As Moiras  cobriram Bispo do Rosário com  lençóis que mais pareciam mortalhas , porém Bispo do Rosário desfez o fio dessas grades  e com ele bordou sua  linha de fuga sob a forma de manto e asas.

Apesar da  “Moira da exclusão social” que o urdiu louco,  Bispo do Rosário teceu  sua transversal, e assim tramou sua criativa  lucidez como fuga da  normalidade  reta dos que pensam igual.

Embora toda trama parta de uma urdidura, nenhuma urdidura pode determinar que trama se inventará a partir dela.

 

“A reta é uma curva que não sonha.” (Manoel de Barros)

 

“Não há linha reta, nem nas coisas e nem na linguagem.” (Deleuze)

 

“Quero descrever o voo de um pássaro

escrevendo com a pena de uma asa.” (Guimarães Rosa)

 

(foto:  aberto, o manto  se torna  asas multicoloridas de uma borboleta nascida de uma metamorfose)



 











quarta-feira, 10 de agosto de 2022

leitura pública da Carta em Defesa da Democracia acompanhada de Atos pelo Brasil

 

Nada contra e-mails, zaps, tuiters...Mas o que amo mesmo são as cartas, sobretudo as escritas à mão.

Tive a alegria de trocar algumas cartas com o poeta Manoel de Barros. Ele mesmo confecciona o papel, e as letras dele parecem caminho de  formiga...rs...

O poeta me disse que é pelas cartas, e não por fotos posadas, que a gente conhece de verdade, através da letra, o espírito da pessoa.

Muitos filósofos escreveram cartas para expressarem suas ideias mais íntimas, ideias que não são apenas teóricas , pois as cartas não são livro ainda, elas se parecem mais com palavra viva  para ser ouvida  do que com palavra escrita para ser  apenas  lida.

As cartas são conversas, agenciamentos e desejo de trocar com o outro. Tiranos não escrevem cartas, eles ditam ordem arbitrárias; milicos também não escrevem cartas, eles emitem comandos a subalternos.

Aprecio mais divindades que suscitam epístolas do que deuses sisudos que decretam Mandamentos...

Uma carta é feita de mensagens, mensagens com as quais podemos concordar ou discordar, responder ou silenciar; mas nunca uma carta é veículo de ordens para serem obedecidas de forma servil.

Toda Constituição um dia foi uma carta escrita coletivamente por um povo que, saindo da passividade, resolveu escrever sua própria história.

Quando a democracia corre riscos, as cartas políticas devem conter as vozes da  indignação, chamamentos à ação e ,em coro, um basta! 

Um basta dito com firmeza que chegue aos ouvidos dos tiranos.


11 de agosto: leitura pública da Carta em Defesa da Democracia acompanhada de  Atos em todo o Brasil. Na imagem, Ato da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (ANDES) e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).






 


segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Caetano, Gil, Manoel: a não velhez

 

Caetano, Gil...chegaram aos 80 anos. Esse acontecimento me lembrou uma história envolvendo o poeta Manoel de Barros.

Quando fez 80 anos, o poeta Manoel de Barros recebeu pedido   de um editor para que escrevesse três memórias: da infância, da vida adulta e, sobretudo, da velhice. Com sua avançada idade, o editor supunha que o  poeta teria muito a dizer sobre si e aconselhar aos outros, principalmente aos jovens.

Passado algum tempo, o poeta enviou ao editor o primeiro livro: Memórias da primeira infância.  Em todos os sentidos, o livro foi um sucesso. Tempos depois, Manoel enviou novo livro ao editor: Memórias da segunda infância. Como diz Manoel, poesia é saber que      “não vem em tomos” . Assim, a segunda infância não era uma sequência da primeira , não era  uma infância posterior . A segunda infância era uma segunda ida do poeta à infância sempre primeira.

Manoel reservava ainda fôlego para uma nova ida à infância, e assim enviou ao editor um terceiro livro: Memórias da terceira infância.

O tempo passou, o poeta nada mais enviou ao editor, que tomou coragem e indagou: “Poeta, suas três memórias da infância são extraordinárias, porém onde estão as memórias da vida adulta e, sobretudo,  da velhice?”

 Manoel respondeu : “Só tive infância”. E completou: “Nunca tive velhez. Só narro meus nascimentos”.

Essa infância, enquanto antídoto à “velhez”, não é uma determinada idade. Pois ela também é a infância da linguagem, o seu fazer-se novidade para dizer o que ainda não foi dito: “As crianças sabem dizer palavras que ainda não têm idioma”.

“Velhez” também  é quando os dias vividos se tornam um peso curvando as costas, não importando a idade que se tenha. “Velhez”   é a  vida  prostrada, de joelhos, sem forças para caminhar e avançar. Às vezes, é a própria sociedade que sofre de “velhez” : quando seu futuro , ainda nem chegado, já parece extinto...

“A única coisa que carrego é meu chapéu: moro debaixo dele”, explica-se o andarilho-poeta. “Chapéu” é como Manoel nomeia as ideias que protegem os pensamentos que dão caminho às pernas : “O poeta-andarilho abastece de pernas as distâncias”. Sobre o  chapéu do poeta  um casal de pardais fez ninho: há nele ovos sendo chocados, assim como ,  dentro do poeta, auroras .

Manoel , Caetano, Gil...nos ensinam que a velhice nada tem a ver com a velhez. E que criatividade e potência de vida não dependem da idade, desde que se descubra o que na criatividade há de absoluto. “Ab-soluto”: “o que não é soluto, o que não se dissolve”.

Fascismo ,  ignorância e  idiotia são reatividades da velhez que a tudo quer dissolver com seu negacionismo. Mas arte, criatividade, educação....são potências críticas e criativas que tornam a vida absoluta nas ideias que aprendemos e ensinamos, nos versos que lemos ou escrevemos, enfim, nas canções que, juntos ou sozinhos, cantamos.




 


sábado, 6 de agosto de 2022

caetano: 80 anos

 

CAETANO : 80 ANOS. UMA PEQUENA HOMENAGEM AO POETA.

 

Eu tinha cerca de 12 anos , cursava o antigo ginásio. Era uma época difícil, sufocante...A  ditadura militar censurava quem pensasse diferente do poder autoritário dominante.

Ainda criança, eu  sentia que o mundo dos homens estava errado , mas eu não encontrava nos livros lições que dissessem isso, pois pensar estava proibido. 

Àquela época, a escola não era um espaço de descobertas : a ditadura controlava tudo, e usava  cartilhas e   tabuadas como meios de adestramento.

Poesia e literatura? Só eram aceitos os parnasianos, como aquele poeta elitista autor do Hino Nacional que a gente não entendia  nada da letra , porém nos obrigavam  a cantar em posição  militar, rigidamente, batendo continência para a bandeira, como se ela fosse um general sisudo sobre o Monte Parnaso.

Até que chegou à escola uma professora nova de língua e literatura. Tudo nela era diferente. Foi a primeira vez que entendi de verdade o que era uma educadora e tudo o que a arte pode em termos de (auto)descoberta .

Em vez de adotar livros parnasianos para a gente decorar palavras que a gente não entendia, palavras mortas que nada nos diziam a não ser: “obedeçam!”, ela adotou um livro diferente, revolucionário de mentes. O livro trazia letras de música  dos Festivais da Canção acontecidos recentemente. Eram letras que faziam sentir e pensar.

Foi nesse livro que conheci a letra de canções  como "Janelas abertas nº 2" (Caetano) e   "Construção" (Chico), antes de ouvi-las  tempos depois na voz dos cantores e cantoras.

Canções   assim eram censuradas pelos sisudos milicos, que sempre me pareceram um tipo de ser que detesta música que faz a gente cantar junto.  Os milicos diziam , em tom de ameaça, que músicas assim  eram "subversivas" ( e eu, até ali, não entendia muito bem o que significava "subversivo"...).

 Então, foi como poesia que conheci essas letras. Na primeira vez que li essas letras-poemas naquela sala de aula de uma escola pública no subúrbio carioca, graças à resistência perseverante de minha querida professora, dentro de minha  cabeça aconteceu o que Deleuze chama de "noochoque" : um "choque de pensamento", e assim “me empoemei”, como ensina Manoel de Barros.

Foi a primeira vez que  experimentei  o que é ler, pois ler é ler-se, e assim me alfabetizava politicamente.

Foi a partir de então que a minha "pequena voz interior" , que ficava muda imaginando-se  sozinha naquele mundo de gente autoritária , essa minha voz encontrou na voz poética e pensante daquelas músicas o sentido e a força para cantar junto.

 Pois quando os autoritários de ontem e de hoje nos querem calar, nada mais subversivo do que cantar junto.

 

  

 “Descanse  tranquilo onde cantam,

   os maus não cantam. ” (Schiller)

 

 “Poesia é subversão da linguagem.” (Manoel de Barros)

 

"O que vemos não é o que vemos, senão o que somos."( Fernando Pessoa)