sábado, 6 de junho de 2026

a travessia

 

Eu tinha por volta de seis anos .  Fui com minha família a Sepetiba.  De repente, precisamos atravessar uma larga rua. Na verdade, olhando hoje para trás não sei se a rua era de fato larga ou se assim me parecia, tendo em vista a criança que eu era.

Lembro-me de estar de mãos dadas com meu pai, enquanto  minha mãe segurava as mãos de outros dois irmãos menores. Olhei para a rua com olhos que meus pais não sabiam que eu tinha. Nem eu mesmo sabia que  tinha tais olhos, pois somente soube  da existência deles quando eles se abriram  e exigiam  que eu fizesse o que eles "transviam". 

Apesar da rua perigosa, esses olhos de ousadia vislumbraram uma travessia.  Acho que foi a primeira vez na vida que compreendi o que é ter uma ideia. Ter uma ideia não é só imaginá-la, mas pô-la em prática, torná-la real, mesmo sob  riscos. Uma ideia faz nascer olhos que vislumbram o que ela quer.

Então, vi a outra margem da rua como a me desafiar. Nasceu em mim um desejo de independência, um desejo de enfrentar o perigo do qual a mão de meu pai queria me proteger.

Sem hesitar, larguei a mão dele e iniciei minha travessia, meu único apoio eram minhas pernas, que corriam. A mão do pai oferecia  segurança, mas ao preço da obediência. Ousei largar dela e fazer a travessia. Fui rápido e firme; estava  nervoso, mas feliz, até sorria. Quem é livre se alegra, aprendi essa lição depois com Espinosa.

Subitamente surgiu um carro não sei de onde. Era um carro soturno ,  hostil,  como os milicos da dit4dura da época. Parecia que o carro queria me punir  pela transgressão que eu ousara. A liberdade tem seus riscos...

Mas eu já estava no meio da minha linha de fuga, não podia abortá-la. Não há linha de fuga sem  coragem , ensina Deleuze.

O carro sisudo  vinha para cima de mim, como um abutre. Parecia que eu não tinha a menor chance de escapar , era um monstro metálico contra um menino...

 Foi então que dei um salto como nunca dera antes. Saltei mais do que metros, saltei mais do que um pedaço de rua, hoje sei. Creio que somente Espinosa poderia entender aquele salto que nem eu mesmo sabia que podia, pois o filósofo dizia : “Ninguém sabe tudo o que pode o corpo”.

Foi minha alma insubmissa  que fez minha mão abandonar a segurança do já conhecido; mas foi meu corpo que , saltando, pôs minha liberdade a salvo, mais viva do que nunca,  conquistando um chão novo , na outra margem.  

Meus pais não brigaram comigo, até ficaram admirados com o salto e não me tolheram, e por isso lhes sou grato. Meus pais eram pessoas pobres, simples. Mas penso que foi ali , até onde eles puderam me conduzir, que da criança saltou o filósofo.  


(Imagem: o “salto” de Chagall)