quinta-feira, 15 de outubro de 2026

AO DIA DAS PROFESSORAS E PROFESSORES

 

Tempos atrás,  um amigo me perguntou se eu aceitaria lecionar filosofia para seus dois filhos, um de 10 anos e outro ainda mais jovem. Aceitei. O curso era para durar 1 mês, acabou durando 1 ano.

 O mais velho se chamava Alexandre, carinhosamente rebatizado Xandinho. Certo dia , ele e o irmãozinho estavam brigados. Aproveitei para dizer ao Xandinho:  “você sabia que ‘Alexandre’ significa ‘protetor da humanidade?’”. Ao ouvir isso, ele  olhou  para o irmãozinho  e, sem dizer nada,  o abraçou com cuidado . Nunca mais brigaram.

Naqueles encontros, eu “ia até à infância e voltava”, como diz Manoel de Barros, e aquele que ia não era o mesmo que retornava. E o que voltava vinha de lápis de cor na mão, e aprendia que as ideias que valem a pena ensinar  se deixam desenhar  com lápis de cor.

Algumas ideias eu ensinava falando, outras eu desenhava para eles colorirem:  a forma era minha, mas as cores eram eles que escolhiam para pintar, com as mãos e a mente  livres .

Perto do fim do ano, houve um feriadão. Toda a família desse amigo viajou para Londres, incluindo os dois meninos. No retorno, assim que entrei no apartamento, o pai pediu para o Xandinho   me contar o que aconteceu em Londres, mas o  menino saiu correndo, como se tivesse feito uma arte, uma “peraltagem”,  diria Manoel de Barros .

 Então, o pai me contou que eles foram ver, entre outras coisas, a cerimônia na qual a Rainha  da Inglaterra passa à frente do público, e todos se ajoelham em reverência, olhos no chão.

Mas quando a Rainha , cheia de pompa e ouro surrupiado pela pirataria e colonialismo ingleses,  passou diante deles em sua carruagem blindada  , todos se ajoelharam diante de seu poder, exceto o Xandinho. Ele ficou em pé, de braços cruzados, firme, olhando diretamente para a Rainha, que virou a cabeça para olhar , espantada,  o pequeno insubmisso.

Quando a mãe indagou ao menino por que ele não se ajoelhou como todo mundo, ele respondeu : “Não ajoelho diante de quem é igual a mim”. Ao ouvir isso, a mãe disse ao pai: “acho que já está na hora de nosso filho parar de ter aulas de filosofia...”.

Nesse mesmo dia em que ouvi o relato, dei minha última aula aos garotos. No fim, o menino da peraltagem  me perguntou: “Vai ter prova?”. Respondi: “Não , você já está aprovado. Com dez.”

 

Este texto é uma pequena homenagem à  querida Professora Nadir, minha primeira professora de filosofia . Suas aulas nos ensinavam a ficar de pé , nunca  de joelhos ( naquela época, ainda estávamos sob a ditadura...).

E aos estudantes  que,  nestes dias difíceis , têm ido às ruas para manter a democracia de pé.




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