quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Espada de Jorge

 

Quase todos nós perdemos algum ente querido durante a pandemia. E é inacreditável que não seja lembrado todo dia, pela mídia e pela justiça,  quem foi o grande responsável por esse gen0cídio  perverso e deliberado do próprio povo...

Perdi uma tia muito querida, uma segunda mãe para mim. Abril é o mês de aniversário dela. Talvez por isso, sonhei com ela no dia de São Jorge, logo após o falecimento dela.

 No sonho, ela me presenteava com  um pequeno vaso com duas folhas de Espada de São Jorge e mais  um caderno e uma caneta .  Ela nada falou, mas seu gesto e expressão  diziam muito. Depois, ela me abraçou calorosamente e se foi, unindo-se à Luz.

A Espada de São Jorge  representa não apenas  luta contra as opressões físicas e simbólicas, ela  também simboliza proteção contra  os “dragões da maldade” (como no filme  “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, do cineasta-pensador Glauber Rocha).

Atena, a deusa da sabedoria, também emprega uma espada assim nas lutas contra o monstro da ignorância  e suas obscuras e diferentes faces.  E Thêmis, a deusa da justiça, igualmente segura  uma espada semelhante, instrumento da dignidade.

A espada de São Jorge também é lança de Ogum-Zumbi que não se curva à Casa-grande; essa espada também pode ser  o fio de Ariadne com o qual Bispo do Rosário bordou suas resistências criativas; e educador é  quem escreve tendo uma espada assim transformada em caneta,  lápis, giz.

A primeira coisa que fiz quando acordei na manhã seguinte ao sonho   foi ir a uma loja de plantas aqui do bairro . Encontrei num cantinho um pequeno vaso com duas folhas de Espada de São Jorge . Elas precisavam de luz, água, enfim, cuidados. Eram as Espadas de São Jorge mais parecidas com aquelas que minha tia me presenteou desde a eternidade.

Também comprei um caderno e uma caneta semelhantes àqueles que minha querida ancestral me deu, e é nele que anoto meus escritos ( antes de digitá-los).

Todo dia cuido dessas Espadas de São Jorge e penso em minha querida tia. Elas cresceram rapidamente, se multiplicaram e até   já  floriram! Todo dia, as visita    um beija-flor que se alimenta do seu néctar.

Com perseverança diária, precisamos  regar  tudo o que precisa ser regado: planta, ideia, afeto, ação, liberdade. Para que em  tudo isso encontremos uma  espada, um instrumento de resistência e luta,  que nos proteja dos “dragões da maldade”...


(Imagem: “São Jorge”/ Kandinsky)














domingo, 19 de abril de 2026

Devir-indígena

 

Existiram e existem muitos  povos indígenas de grande valor. Mas talvez nenhum povo  tenha sido mais nobre e guerreiro do que o povo tupinambá. Os primeiros colonizadores tentaram comprar a obediência deles, não conseguiram. Depois quiseram  negar seus deuses, porém isso só fez aumentar o amor  dos tupinambás a  seus Ancestrais. Por fim, tentaram exterminá-los...

Mas  um único tupinambá tinha mais coragem e força do que dez dos mercenários invasores. Inclusive, além das flechas e lanças, os tupinambás tinham uma arma que não provocava mortes ou ferimentos, sendo  muito eficaz para afugentar o inimigo evitando derramamento  de sangue : quando percebiam que os inimigos vinham em emboscada , os tupinambás começavam a tocar uma flauta cujo  som parecia   um grito de aviso e advertência , já que a flauta   parecia dizer: “Se vierem atacar , vão terminar como eu”. Pois a flauta era feita com o fêmur oco de mercenários  incautos que tentaram escravizar  os tupinambás. Quando ouviam tal réquiem da taba, as pernas brancas dos mercadores  de gente fugiam correndo...

No final do século XIX e começo do século XX, sob a influência do positivismo, o Estado e os milicos brasileiros consideravam  um insulto viverem  aqui  povos  que não estavam nem aí para a tal “Ordem e Progresso”: tais povos eram livres e felizes só com a natureza.

Por perseguição,  os milicos obrigaram  vários povos indígenas  a se miscigenarem , outros foram caçados e exterminados. Novamente , a maior resistência veio do povo tupinambá.

Foi mais ou menos nessa época que os “Integralistas”, espécie de avôs dos bolsonarist4s de hoje, resolveram travar uma “guerra santa” contra os tupinambás . Inclusive, acusavam os tupinambás de “c0munistas”, por eles tratarem a terra  como  “bem comum” sem dono ou proprietário.

Os Integralistas fizeram lei  determinando que “os tupinambás eram povos extintos”: queriam extingui-los primeiro na lei  para facilitar depois o extermínio na realidade concreta. 

Como não conseguiam vencer os tupinambás empregando  armas e revólveres , covardemente mandaram para seus rios barcos com cadáveres infectados por doenças. Quando os tupinambás ficaram contaminados, as autoridades da época só aceitavam tratá-los   se eles se entregassem, se convertessem e deixassem de ser quem eles eram.

Os Integralistas espalharam então o boato de que o povo tupinambá estava  enfim extinto:  a “civilização branca-fundamentalista-capitalista” havia , parece,   vencido.

Recentemente, porém, descobriu-se  que os tupinambás estão vivos, eles não morreram: vivem em Ilhéus, na Bahia, ainda  lutando para manter seus territórios .

Em entrevista recente, um  cacique tupinambá respondeu mais ou menos o seguinte: “Meu povo já conhece, há séculos, os bolson4ristas: são versões novas dos antigos mercenários  e  Integralistas que tentaram acabar com a gente. Para o azar deles, corre em nossas veias o mesmo sangue dos que resistiram a eles.”







 

sábado, 11 de abril de 2026

O julgamento de Espinosa

 

Espinosa talvez tenha sido o filósofo mais perseguido e ameaçado  . Os poderes estabelecidos o etiquetaram como “perigoso” e “subversivo”. É conhecido o episódio em que Espinosa foi “julgado”, “condenado” e expulso da comunidade judaica de então. Seu crime: filosofar, pensar.

Segue um trecho da excomunhão:

“Nós Excomunhamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa, (...) com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar. (...) Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem ler papel algum feito ou escrito por ele.”

Mas o que pouco se divulga  é que esse julgamento também foi, em sua essência, polític0, ou melhor,  te0lógico-polític0. As autoridades religiosas que o julgaram eram, em sua maioria, simpatizantes da mon4rquia, cujo discurso era belicista, intolerante , col0nialista.

Essas autoridades religiosas sabiam que Espinosa mantinha laços com os democratas holandeses de então , e que sua filosofia  era uma afirmação da democracia e do pensamento livre .

Então, Espinosa foi julgado  pelos  inimigos do pensamento e da filosofia. E esses inimigos do pensamento de ontem são os mesmos de hoje, só mudam os nomes. Na verdade, nem julgamento foi, já que Espinosa já estava, de antemão, condenado.

Recentemente , as autoridades científicas , religiosas e políticas de Israel reexaminaram a excomunhão de Espinosa ( pois ela ainda está em vigor!). Os cientistas e   políticos judeus  não sionist4s queriam revogá-la, mas foram vencidos pelos religiosos e políticos fundamentalistas de Israel, todos sionist4s e ligados ao gen0cida Netanyahu, o acumpliciado do paranoic0 Trump, ídolo de Flávio Bolson4ro.

Não tenho nenhum prazer em reprovar aluno.  Porém, mais do que prazer, tenho a sensação de dever cumprido e coerência com o que ensino ter reprovado Flávio Bolsonaro, pois ele foi meu “aluno”  em uma faculdade de direito na qual eu lecionava Ética e Filosofia do Direito.

Coloquei “aluno” entre aspas porque ele não foi bem meu aluno. Raramente ele comparecia  às aulas. Quando comparecia, ficava a aula  toda com expressão debochada e desdenhosa em relação aos temas de ética.

Espinosa era um dos autores que eu ensinava. Flávio Bolsonaro  tirou zero na avalição que fiz e que tinha por tema a Ética de Espinosa. Foi o zero mais justo que dei em toda minha vida.


( este livro é apenas uma sugestão)



terça-feira, 7 de abril de 2026

A corrida entre a Inteligência e o Amor

La Fontaine conta uma história na qual Atena, a Inteligência, e Eros , o Amor, disputavam uma corrida. Atena saiu na frente, parecia que venceria...Até que ela vê pela frente um abismo, e para. Então, ela vê algo que passa voando por cima de sua cabeça : apoiado em suas asas, Eros vence o abismo e chega do outro lado. O abismo que parou a Inteligência, não foi capaz de deter o Amor. 
 Atena subiu até ao Olimpo para queixar-se de Eros, alegando que ele trapaceou. Eros estava em desvantagem naquele lugar , já que ele não pertencia à aristocracia do Monte Olimpo, uma espécie de “Altar”. E o Amor não tem “Altar”, a não ser o coração de quem o cultiva como principal Afeto. 
 Os deuses do Olimpo tomaram partido de Atena e condenaram Eros. Como sentença, Zeus determinou que Eros ficasse cego. A punição foi aplicada e o Amor ficou cego... 
Mas Afrodite interveio em favor de Eros e pediu a Zeus para que fosse concedida uma bengala para o Amor. Zeus, porém, argumentou que não condizia com o Amor depender de uma bengala. Se o amor para ser vivido depender de propriedades, fama, poder, riqueza e outras “bengalas” desse tipo, então já não é mais amor, e sim interesse, conveniência, aparência. E nada disso condiz com Eros em seu sentido originário. 
 Desejando fazer justiça, Zeus se recusou a fazer o Amor depender de “bengalas”, porém não podia desfazer a sentença. Assim, Zeus considerou que seria justo o Amor ter não uma bengala, mas um “guia”. Mas quem poderia ser o guia do Amor e não tolher suas asas? Somente a Mania Divina poderia ser esse "guia". 
Em grego, “mania” é “loucura”. A “mania” é uma espécie de “desmedida”. Existe a mania enquanto loucura humana, como a loucura desmedida por dinheiro, fama, poder. Essa loucura humana é doença. Mas existe a Mania Divina enquanto guia daqueles que amam realidades das quais dinheiro, fama e poder nunca serão a medida. Para Platão, é essa Loucura Divina que guia o poeta à poesia e o filósofo à filosofia. E para alcançar tais coisas, pés não bastam: é preciso asas.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

francisco

 

Ouvi certa vez a seguinte história de autoria popular ( que aqui parafraseio e interpreto): de um lado estava São Francisco, do outro o Diabo. Separando a ambos ,  um muro; e em cima do muro estava  alguém que se dizia “Neutro”.

 Francisco  disse ao “Neutro”: “- Venha para este lado, aqui há luz e  empatia  pela vida do outro.” Do   lado oposto do muro , porém, o Diabo permanecia calado.

Vendo  o “Neutro” ainda indeciso e  parado, Francisco  prosseguia : “- Venha se juntar a nós , Buda também está aqui; também estão Lao-Tsé, Confúcio,  Orixás , Tupã, Mães-de-Santo,  Pajés ... Bem como todos aqueles que, tendo ou não religião,  agiram para defender e libertar  os oprimidos e injustiçados.”

Estranhamente, o Diabo seguia mudo, ele que gosta tanto de se vangloriar...

Então, Francisco levantou a cabeça , olhou sobre o muro e indagou ao que reinava na treva  do outro lado : “- Por que você   permanece  calado?”

“- É que esse muro onde o ‘Neutro’ está  instalado  pertence a mim”, disse o Diabo.

Do certo lado do muro, o poeta Manoel de Barros assim poetizou: “São Francisco monumentou os passarinhos.”

 

De pés descalços, ele dançou diante do Papa.”(Deleuze)

"O que é inferno? Afirmo que é o sofrimento de já não poder amar.”(Dostoiévski)

 

(obs: o texto  se refere ao personagem social-popular Francisco, um personagem muito presente na  literatura de  cordel do nosso Nordeste. Não é tratado o tema do ponto de vista de uma religião. Inclusive , dei a entender que do lado do muro onde está o personagem Francisco também podem estar agnósticos e até os sem religião. A foto que acompanha o texto mostra a escultura “Cristo sem teto”, obra do escultor Timothy Schmalz; a outra imagem é a do padre Júlio Lancelloti , que foi parado recentemente pela polícia durante evento que o padre fazia para auxiliar  os moradores de rua e sem teto)



Francisco vinha por um bosque afastado e viu uma igrejinha em ruínas. O teto da igrejinha caiu , as paredes vieram ao chão. Nada mais ficou  de pé, exceto uma cruz em madeira que permanecia  intacta, apesar do altar destruído.

 A cruz tinha o tamanho de uma pessoa, e parecia de fato uma pessoa de braços abertos.

A madeira com a qual a cruz  era feita  perseverava  viva, de tal modo que  a cruz  voltou a ser  árvore que pertence à natureza , não mais o símbolo de uma religião.

O teto da igrejinha agora era o horizontado céu; e a mãe-terra , o seu chão.

De repente, Francisco ouviu um passarinho cantando: era um rouxinol. E o mais  surpreendente : o canto parecia vir da cruz. No coração da cruz, onde a madeira vertical e a horizontal se encontram, havia um pequeno buraco no qual o rouxinol estava  pousado .  Parecia que o rouxinol , cantando, chamava Francisco para ver a “boa nova”.

Quando se aproximou e olhou para dentro do peito da cruz, Francisco viu que ali havia  um ninho bem no coração dela, no qual três filhotinhos, rompendo o ovo, acabavam de nascer.