domingo, 27 de junho de 2021

o que é a filosofia?

 

Platão conta mais ou menos a seguinte história: angustiado pelas perguntas que não cabiam dentro dele, um jovem  resolveu buscar  respostas nos livros. Leu livros de  história , de ciências e até de matemática. Porém,  palavras escritas e números não lhe davam as respostas. Imaginou que as respostas talvez soubessem aqueles que já viveram muito.   Assim, adquiriu a arte de abrir seus ouvidos, para que por eles entrassem as palavras   dos sábios vividos .

Contudo, quanto mais ele lia os livros e  ouvia os sábios , mais angustiado  ficava, como se o muito saber aumentasse a percepção de que ele não sabia nada...

Até que um dia ele sentiu algo estranho sob a parte de trás da camisa; passou a mão e percebeu  que alguma coisa  lhe crescia nas costas. Era algo pontiagudo, porém não feria ou cortava. Essa realidade desconhecida crescia mais  a cada dia e, com ela, a angústia.

Ele tentava esconder de todos aquela realidade, embora lhe fosse impossível escondê-la de si. Até que certa manhã ele viu o que , enfim, estava nascendo nele, pois aquilo que nascia já não podia se esconder: nasceram em suas costas um par de asas, as asas da Razão. E é assim, segundo Platão, que nasce um filósofo: para voar para longe do corpo. Pois quanto mais essas asas crescem, mais esta vida que vivemos aqui  parece ser uma gaiola. “Filosofar”, segundo Platão, “é aprender a morrer.”

Espinosa pensa diferente o que é a filosofia . Para ele, as asas pensantes não nascem apenas no filósofo , elas nascem do que Espinosa chama, em latim, de  “cupiditas”.Essa palavra vem de “Cupido” . Muitos confundem “Cupido” com “Eros”, porém há mais em  “Cupido” do que em  “Eros” ( o “Amor”). Pois enquanto Eros forma par apenas com Psiquê (a Alma) e desconsidera o corpo, Cupido une Alma e Corpo, o Pensar e o Sentir.

Por isso, Cupido não é asas do Amor ou da Razão, ele é “Asas do Desejo”. “Cupiditas” é como Espinosa chama o Desejo.  Quando essas asas se abrem em alguém,  também se potencializam nesse alguém em algum grau o sentir e o pensar ,mesmo que esse alguém não seja um poeta ou filósofo.  Pois o pensar e o sentir  são Potências  da Vida: filosofar é aprender a  viver. Não só a angústia faz crescer as asas, também a faz crescer a alegria.

As Asas do Desejo lembram as asas  do albatroz que, em seu voar , voa muito longe do litoral ; por isso, depara-se com tempestades em pleno oceano. Mas ao invés de recuar, ele segue em frente e atravessa a tempestade pelo meio. A grandeza das asas é proporcional ao tamanho dos riscos que se enfrenta.


“Uma única  metáfora é capaz de dizer mais do que longos discursos.”( Lamy)








sexta-feira, 25 de junho de 2021

o mau encontro

 

Espinosa dizia, não sem dor , que a pior  fase da vida é a infância. Não que ser criança seja algo ruim em sua essência. Espinosa argumenta que o perigo dessa fase   da vida se deve ao fato que é nela que  mais dependemos da qualidade do caráter dos adultos que nos cercam.

“Criança” significa: “aquele que crê”. Na criança, essa crença é a expressão de sua inocência. Muito diferente é o adulto seguidor de fanatismos teológicos-políticos,  cuja “crença” é demonstração de ignorância ou ingenuidade mesmo (“in-genius”: “aquele que não sabe pensar por si próprio.”)

Em geral, é na relação com as crianças que fica mais evidente a índole perversa do mau caráter, que se vale da inocência da criança para fazê-la imitar seu comportamento  baixo.

Seres assim são um “mau encontro” para as crianças. Segundo Espinosa, “maus encontros” são aqueles que propagam servidão em suas variadas formas. A servidão é uma máquina doentia  que transforma a inocência em “crença” ignorante, depois que a criança cresce e se torna um adulto servil.

 Não por acaso, diz Espinosa, o tirano infantiliza o adulto, ao mesmo tempo que instrumentaliza as crianças ( Hitler, por exemplo, era obcecado por vestir as crianças com uniformes militares nazistas , além de obrigá-las a fazerem o gesto nazista...).

Quando a infância é cercada de cuidados e a educação é emancipadora, ser criança não é uma fase que começa e termina. Pois ela se torna uma fase de descobertas para toda a vida, as quais o adulto sempre retorna, como retorna poeticamente Manoel de Barros à infância,  para renovar sua crença ativa na vida.

( sei que muitos não suportam  mais olhar para esse inqualificável. Eu mesmo não suporto...Mas é preciso denunciar esses crimes contra as crianças. Pois não são apenas os bons exemplos que educam as crianças, também a ajudam a crescer conhecer os “maus exemplos” propagados por pessoas ruins. Deve-se dizer a elas: “filho, filha, fujam da influência de seres assim. ”)




quinta-feira, 24 de junho de 2021

o carcará e os bem-te-vis

 

Por morar num andar bem alto, de minha janela vejo o terraço da maioria dos prédios aqui do bairro. Um deles  sempre me chama a atenção:  além de  ser o prédio mais alto  , há sobre ele uma imensa antena.  Para os pássaros que voam nas alturas, essa antena é  um providencial descanso  entre um voo e outro.

Gaviões e carcarás  também costumam pousar  no alto dessa  antena , mas para fazê-la de  posto de observação e trono, lá de cima espreitando possíveis presas.Quando esses predadores se apoderam da antena, os pombos   ficam imobilizados pelo medo, pois sabem que  seus ninhos se tornam  alvo  do olhar mortífero desses devoradores do futuro  que mal saiu do ovo.

Perto de minha janela há uma árvore frondosa, ela foi  escolhida por um casal de bem-te-vis para ser sua casa. O bem-te-vi é o único passarinho que ousa enfrentar os predadores de ninhos. E hoje bem cedinho  vi esse  casal de bem-te-vis destronar  um soturno carcará aquartelado na antena . Sem medo, eles voaram  até lá , expulsaram a ameaça, libertaram  o lugar  e , colocando  a vida no ponto mais alto,  a plenos pulmões começaram a cantar: ”bem-te-vi!🎼

O canto dos bem-te-vis  trouxe paz aos ninhos e até inspirou os outros passarinhos a cantarem também na copa das árvores. Pois lá de cima, como se fosse música que a antena transmitisse, ecoava pelos ares  o canto libertário.

Esses bem-te-vis não fazem ideia do quanto me ensinaram  nesse  começo de  dia. Escrever esse pequeno texto foi a maneira que achei de fazer-me grato, além das frutas que coloquei  para eles  na janela😉.

 

 

“Sei falar a língua dos pássaros:

é só cantar.”(Manoel de Barros)




domingo, 20 de junho de 2021

a chegada do inverno e a resistência da primavera

 

Segundo a mitologia, Hades é a divindade que habita a região escura muito abaixo da superfície da terra. Nesse lugar nenhuma luz entra.

Certa vez, porém, Hades ouviu risos vindo da superfície. Ele subiu e viu Perséfone... Ela estava com sua mãe , a deusa Ceres. De “ceres” vem “cereal”, pois Ceres é a divindade do plantio e colheita dos cereais. Ceres é filha de Cronos, o Tempo, com Cibele, a divindade  da fertilidade.

E foi em sua neta Perséfone que a fertilidade de Cibele se tornou uma força criativa semelhante àquela que vemos no artista, pois Perséfone é a deusa cuja arte é fazer nascer flores. Perséfone mata outra fome diferente daquela que Ceres mata: Perséfone mata a fome de beleza, de poesia e de cores.

Hades se apaixonou pelas flores e quis levá-las para enfeitar sua noite eterna. Foi uma imensa surpresa, pois ninguém imaginava que pudesse nascer em Hades um desejo por cores.

Num ato condenável, ele raptou  Perséfone para fazê-la morar lá embaixo . Porém, naquele mundo carente de luz , de Perséfone nasciam rosas só com espinhos , sem as pétalas, flores da dor que elas eram.

Enquanto isso, sentindo a falta de Perséfone, Ceres ficou deserta : o grão não mais germinava nela. Havia agora fome de pão e beleza, de pão e poesia, e ninguém sabia qual das duas fomes doía mais: a primeira esvaziava o estômago, a segunda ao coração secava .

Zeus interveio e foi feito então um acordo. Durante parte do ano Perséfone subiria para viver entre nós,  sua chegada nos  trazendo a primavera.  Durante outra parte do ano, uma parte  doída para nós, Perséfone viveria lá embaixo . Desta maneira nasceu o inverno: o período em que Perséfone desce para ir morar com Hades. Mas para nos confortar um pouco e minorar a tristeza pela sua ausência, Perséfone criou flores que florescem no inverno. Foi assim que nasceram a Tulipa, a Angélica , o Crisântemo , a Orquídea e o Lírio.

Amanhã começa o inverno. Perséfone nos deixará...

Ainda bem que pode nos socorrer e acalentar outra narrativa originária  , uma narrativa de autoria do povo  tupi-guarani, cujo sangue também corre nas nossas veias. Para esse povo, o   ipê  é  a árvore-filha mais potente e perseverante da Mãe-Terra, pois o ipê é capaz de florescer o ano inteiro em resistente primavera, mesmo sob o inverno.

“Árvore da Vida”, assim nossos povos originários chamam  o ipê. Nem o inverno, nem a ameaça da motosserra sanguinária dos predadores das florestas, impedem o ipê de florir.

 

 

“O céu da teoria é cinza;

mas sempre verdejante é a árvore da vida.” (Goethe)


(imagem: “Roots” /“Raízes”, de Frida Kahlo)



 









sábado, 19 de junho de 2021

19J: ALÉM DO #FORABOLSONARO, HOJE TAMBÉM É O ANIVERSÁRIO DE CHICO BUARQUE

 

Antes de ouvir Chico, eu o li. Antes de ouvi-lo como música, eu o li como poesia  que se lê para ampliar nosso pensar e sentir. Isso aconteceu na escola, numa época em que ainda pairava sobre nós a ditadura.

Eu não tinha mais do que 11 ou 12 anos. Eu já sabia ler livros : livros de história,  de geografia e até livros de literatura. Porém, até então eu não havia experimentado toda a potência que pode haver na leitura. E a potência da leitura nada tem a ver com apenas desenvolver o intelecto. Foi a poesia presente na canção popular que me fez aprender a ler. Ler não apenas a letra, mas os mundos que ela expressa: mundos por descobrir.

Li pela primeira vez Chico numa aula de língua portuguesa do antigo primeiro grau. Ao invés daqueles livros tradicionais que, na parte de interpretação de textos, empregavam os elitistas “parnasianos” , a nossa querida professora resolveu adotar um livro heterodoxo, plural: o livro apresentava as letras de músicas dos compositores que participaram dos festivais da canção .

Àquela época, tais festivais ainda eram recentes; porém , por ser  bem pequeno quando eles aconteceram, eu não tinha memória ou vivência deles. Sem dúvida, aquele livro fazia o que Foucault chama de micropolítica da resistência.

Quando li “Construção”, de Chico, experimentei pela primeira vez aquilo que Deleuze e Guattari chamam de “desterritorialização”. Desterritorializar-se é libertar-se  de um território habitual,costumeiro, ordinário.Como diz Manoel de Barros, desterritorializar-se é fugir do acostumado de toda cartilha,incluindo as cartilhas que tentam clicherizar  nossa percepção, palavras e maneiras de pensar e agir.

Ao ler Chico, eu não apenas me desterritorializava : também  me reterritorializava num território novo composto de sensações e afetos que não eram apenas pessoais.

Essa desterritorialização me ampliava para além dos muros da escola: me lançava no mundo, me inseria na pólis, abria meus olhos para o universo, o de fora e  o de dentro.

Foi a partir dali que me apaixonei por ler, e que compreendi que todo ler também é um “me ler” e “nos ler” ,sobretudo ler o sentido que nunca poderá ser reduzido apenas a livros , muito menos os de “Moral e Cívica” , a cartilha com a qual os milicos queriam  nos adestrar.

Embora eu não entendesse intelectualmente todos os significados imanentes à letra do Chico, algo em mim ali “desabriu” e “horizontou”, como diz Manoel de Barros. E creio que foi ali que comecei a descobrir  em mim, ainda em embrião, o filósofo.

Quando o pensar e o sentir  se tornam  duas asas abertas para voos de (auto)descobertas, experimentamos aquilo que Deleuze assim chamou: pop’filosofia!
















sexta-feira, 18 de junho de 2021

espinosa, francisco e o lado certo do muro

 

Segundo Espinosa, é uma ilusão imaginar que um homem autoritário  poderia se tornar um homem justo se assim o quisesse, como se a passagem da tirania  à justiça   dependesse  de um ato de vontade de tal homem. É ilusão ainda maior imaginar que quem promove a morte e a ignorância um dia mudará e passará a cultivar a vida e o conhecimento. Esse tipo  de ilusão é comum aos que se colocam  como “neutros” politicamente ( sem falar nos  empresários dissimulados que  vestem a “neutralidade” apenas como máscara  cínica   ,pois  por debaixo dos panos são sócios do tirano em seu projeto de retirar direitos sociais do povo).

Essa “neutralidade política” lembra aquele indeciso  que estava em cima de um muro entre  o Diabo e São Francisco. Por mais que   São Francisco pedisse para que o neutro cultivasse a empatia , não se acovardasse , tomasse partido e viesse para o lado dos justos , o indeciso não se movia,   ficando parado em cima  do muro. Estranhando o silêncio do Diabo (que adora contar “vantagens”, ele que é “O Pai da Mentira”, rebatizado “O Pai das Fake News”),   São Francisco levantou a cabeça, olhou sobre o muro  e perguntou ao Diabo  qual a razão daquele   silêncio inabitual. E o Diabo, com ar triunfante,  enfim disse: “enquanto o neutro se mantiver onde está , ele é meu, pois esse muro foi erguido  por mim para ocultar   minha  treva da tua luz. ”

Publicamente o carrasco até finge que mudará, mas entre os seus ele ri e zomba enquanto afia seus instrumentos de tortura. Se um homem autoritário e  perverso   não consegue se tornar alguém diferente,  é porque disso ele não é capaz, ou seja, essa incapacidade é uma amostra pública não da  impotência  de sua  vontade, mas da natureza vil de seu caráter, um caráter de torturador sádico.

Se olharmos para aquilo que ele de fato  é,  e  não com  expectativas incautas de como ele deveria ser, veremos que o torturador tem uma vontade bem determinada. Determinada não em mudar, e sim  determinada em continuar a  torturar: a nós, aos doentes, a democracia.

Se um homem alcançou o poder por intermédio do voto não escondendo  de ninguém que é autoritário, ignorante,  misógino...é uma ilusão perigosa achar que ele mudaria de natureza exatamente quando chega ao poder ( como pensavam que  ele mudaria,  e ainda pensam que ele  vai mudar  , setores da mídia golpista, parte do judiciário e sistema financeiro,  que apoiaram e ainda apoiam o genocida, por cumplicidade, covardia  ou negociatas com o patrimônio público).

A obtenção de  poder tornou  o autoritário  ainda mais despudorado  em ser como ele é , aglomerando   com mais submissão  em torno dele seres que são como ele  , mas que tinham  vergonha de assumir sua ignorância e baixeza  em público.

Por outro lado, isso também deixa mais evidente os muitos que são  diferentes dele e de seu rebanho. E pela democracia  , pela educação,  pela vida ,enfim , a eles resistirão.




 

Repito aqui os mesmos argumentos que empreguei para justificar minha ida à manifestação de 29M: compreendo  quem considera  não ser ainda  hora de irmos às ruas. Porém, mesmo a gente não indo às ruas, com o genocida no poder haverá a 3ª e até uma 4ª onda; sem as ruas, 2022  pode nem chegar... Trago as  palavras de Espinosa, válidas para ontem, hoje e amanhã: “O que o tirano mais teme é a indignação , pois é esse o afeto que une os justos e os põe unidos na rua”. Acrescentando para agora : ir às ruas , mas com máscara e todo o cuidado possível com nossas vidas e as dos outros. Aqui no Rio:



 


terça-feira, 15 de junho de 2021

o nascimento do poeta

 

Segundo a mitologia, assim nasceu o poeta:

Certa vez, as  Musas decidiram descer do Olimpo para  irem passear sobre  o chão de Gaia , a   Terra-Mãe  Ancestral . Quando passaram perto de uma aldeia, as Musas  foram vistas pelos seres humanos. Alguns se prostraram  imaginando que elas desejavam servos, quando na verdade elas queriam libertá-los ; os poderosos   tentaram comprá-las com presentes, ambicionando mais poderes em troca ; já os que  só pensam em dinheiro  desdenharam  as Musas, dizendo que elas seriam mais úteis se oferecessem moedas de ouro,  em vez de arte.

Enfim , nada do que as Musas tinham a ofertar sensibilizou  aqueles homens, exceto um deles. Largando o arado e o cultivo da terra, tal homem aprendeu outra forma de semear: despertado  pelas Musas , ele começou a semear com a voz, aprendeu a cantar.  As Musas se foram, porém o deixaram   encantado ( “en-cantar”: “estar grávido de cantos”).

Ele cantava de dia e de noite, estivesse alegre ou triste, nascesse ou morresse alguém. Seu canto tornava as Musas de novo presentes, para que com a arte  as crianças também  aprendessem   ( “Musa” significa: “conhecimento que vem das artes”).  

Mesmo as dores e sofrimentos já não doíam tanto, quando transmutados em canto da dor sentida, como no blues e no fado.  E quando havia alegria, o canto era festa que deixava a todos bêbados de vida, mesmo que não houvesse vinho.

Tempos depois, as Musas retornaram à aldeia, queriam rever aquele que as viu e com elas aprendeu a cantar. Porém, o tal cantador  já havia morrido, estava  enterrado. Em grego, cantador é “aedo”, o “poeta”. O poeta-aedo morreu  assim como viveu: cantando.

Para que o canto do poeta viesse de novo à vida, as Musas fizeram então seu túmulo se transformar em casulo, do qual o poeta renasceu após  uma metamorfose: ele já não tinha mais formato humano ,nasceram-lhe  asas. Porém, mais do que as asas, era seu canto que o fazia voar de árvore em árvore, de ouvido a ouvido, de alma em alma. Agora, seu canto nunca  cessava: pois o  poeta se metamorfoseou na primeira cigarra.  

 

“As cigarras derretiam as tardes com seus cantos.” (Manoel de Barros)

 

“Quero isso mesmo, esse silêncio feito de calor

que a cigarra torna sensível.” (Clarice Lispector)

 

“Poesia é voar fora da asa.” (Manoel de Barros)


"Descanse tranquilo onde cantam:

os maus não cantam."( Schiller)

 

(imagem: “O semeador” /  Van Gogh)













sábado, 12 de junho de 2021

da origem das palavras

  

“Perseverança” vem de “perseverare” : “manter-se firme”, como deve ser  a mão estendida para segurar quem ameaça cair.

“Amor” se origina da união da letra  “a” com função privativa ( como em “a-fasia” : “não fala”) mais a abreviação da palavra morte: “mor”. Assim, amor é : “não morte”. Quando nos unimos por amor à democracia, é pela “não morte” da democracia que nos unimos.

“Oportunidade” nasce de “oportunus”, que era o nome do vento que trazia de volta ao porto o navio que se perdeu numa tempestade.

“Filosofia” é a união de “phylo” , “amor” ou “amizade”, mais “sophia”, também chamada de “sabedoria”. A palavra “sophia” não é a mesma coisa que razão. Pois sophia  também é sensibilidade , afeto e ação. “Sophia”, inclusive, pode ser nome de gente, porém ninguém se chama “Razão”, embora os intolerantes se julguem donos dela.

“Educador” é “aquele que conduz”; e forma par com “educando”: “aquele que é conduzido”, porém sobre as próprias pernas , com autonomia.

“Absoluto” : “o que não é soluto”. É “soluto” tudo aquilo que se dissolve. Mesmo a pedra é soluta e se dissolve, até mesmo o aço, embora exija muito tempo para o aço dissolver-se. Assim, “absoluto” não é o mesmo que “eternidade”. Pois “eternidade” se opõe ao tempo, ao passo que um momento do tempo pode ser absoluto, desde que o salve a criatividade , fazendo-o viver no poema, na música, enfim, na arte. O girassol que Van Gogh viu certo dia num campo florido, esse girassol desapareceu para todo o sempre , nem pó é mais...Porém, ele se tornou absoluto  no girassol que Van Gogh pintou. As técnicas de conservação aplicadas sobre o quadro não são para conservarem as tintas por elas mesmas, mas enquanto elas são o meio expressivo que dão corpo ao girassol  absoluto que Van Gogh criou com as tintas. Assim é também o Pantanal que encontramos nos versos de Manoel de Barros: Pantanal Absoluto.

“Dioniso” : “aquele que nasceu duas vezes”. A primeira vez que Dioniso nasceu foi quando veio ao mundo: como todo recém-nascido, veio ao mundo chorando. A segunda vez que ele nasceu foi após ser despedaçado por seus carrascos, quando então Dioniso renasceu do próprio coração. E desse renascer Dioniso surgiu sorrindo, na alegria do triunfo da vida.

 

“A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que sei.”(Manoel de Barros).


- trecho do filme "Língua de brincar" , de Gabraz Sanna:



 



sexta-feira, 11 de junho de 2021

dioniso : arte, dor e alegria

 

Dioniso é conhecido como  divindade das Artes, mas pouco se menciona que Dioniso também é  Dor. Essa dor associada a Dioniso não é, porém,  como a dor sofrida por algo que nos machuca. A dor dionisíaca nada tem a ver com a dor provocada pelos que cultuam a violência.  A dor dionisíaca é como a dor do parto : a dor de gerar algo novo, fruto de termos sido fecundados .

Toda criação  de algo novo é acompanhada por um processo de dor, dor essa muitas vezes alternando choro e riso, riso e choro. Riso de contentamento por algo novo que virá :  riso por já vermos, do futuro,  o embrião; choro pelo custo em sacrifício , tempo e esforço. Mas não é só no riso que há a alegria em criar, também há alegria no choro nascido do esforço por criar algo   novo.  

Muito diferente da dor dionisíaca é a dor que fere e  ameaça nossa saúde e integridade. Essa dor  provocada pela  ação destrutiva pode ser física ou psíquica, atingir um indivíduo ou a sociedade. Tentar nos ferir e ameaçar com essa dor destrutiva é  a marca dos carrascos.

Mas na dor do parto , símbolo da dor dionisíaca,  corpo e alma se agenciam , tornam-se um só, no esforço  para dar vida a um novo ser que nascerá de nós, cujo nascimento trará uma alegria que justificará  a dor e nos fará compreender a necessidade de termos sofrido, pondo-nos no limite de nós mesmos.

A dor dionisíaca é solidária à dor da perda e do luto, e muitas vezes ela própria nasce de uma perda e luto que encontraram, na arte, remédio e curativo.

Sócrates dizia que a filosofia é  “maiêutica”,  prática de partejar, sendo o filósofo uma espécie de parteiro. Porém, a arte é um processo mais originário, sem ela não há vida a partejar. Por isso , o artista é aquele que é fecundado pela arte que o faz criar,  transmutando a dor  na alegria de se ter superado , reinventando-se.

O treino pesado da bailarina ao custo de dolorosos   calos nos pés,  para que depois , dançando, ela converta  o peso em leveza; as horas fatigantes de ensaio da cantora , para que   no palco ela nos desperte o  cantar; a preparação   exaustiva  dos atores  , para  que ganhem vida seus personagens;  os longos  dias,  meses e até mesmo  anos    do filósofo ouvindo  os livros, para que ele  possa um dia, quem sabe,  escrever seu próprio livro e ter o que falar;  a indignação doída  que nos une na rua  , para que possamos gerar uma realidade social nova, vencendo os carrascos; tudo isso é dor que se justifica por nosso desejo e esforço por  partejar algo novo : um livro, um poema, uma   música,  uma aula ou um momento novo na nossa história.


Evoé, Dioniso!

 

“Quando uma  ideia nos fecunda , também sofremos  angústia de parto.  ” (Plotino)


Obs.:Jean Pierre-Vernant ,  um grande estudioso da mitologia,  argumenta que não é correta a expressão “Dioniso, o Deus das Artes” , ou “Eros, o Deus do Amor”. Pois essas expressões podem dar a entender erradamente que Dioniso é uma coisa e a arte, outra; ou que o Amor é apenas uma posse de Eros. Segundo Vernant, Dioniso é a arte, Eros é o amor, Atena é a sabedoria. Cada nome divino simboliza uma Potência da vida e do cosmos, que pode expressar-se de maneiras distintas ao longo da história, como nos mostra os estudos e a prática de Nise da Silveira. Assim, Dioniso não é a divindade da dor de criar, ele é a dor de criar enquanto processo intenso  que, muitas vezes, nos coloca no limite de nós mesmos. Zeus não é o deus da ética e da justiça, ética e justiça são Potências da vida que podem também agir em nós, desde que nos coloquemos vivos com a máxima potência de que formos capazes. Eros não é o deus do amor, ele é o amor enquanto força cósmica que se manifesta de mil maneiras, inclusive de maneiras novas ainda a serem criadas.




 

Os versos recitados por Bethânia são do poema “Em defesa do Poeta”, da poeta portuguesa Natália Correia :

 


 



terça-feira, 8 de junho de 2021

literatura, filosofia e luta antifascista

 

Os primeiros historiadores gregos iam eles mesmos para as guerras, para assim refutarem  o que diziam os antigos poetas. Os relatos desses historiadores  procuravam desmentir o que escreveu, por exemplo, o poeta  Homero acerca da Guerra de Troia. Esses primeiros historiadores, querendo opor razão e poesia,  diziam que na guerra não viram Eros, Zeus, Dioniso ou Atena auxiliando   os guerreiros em suas lutas contra a tirania; os historiadores diziam que  viram apenas sangue, barbárie e desumanidade. Assim, e empregando a literalidade objetivista como arma, usaram a guerra literal para justificarem outra guerra, a guerra educacional travada por eles contra a poesia, dizendo que a poesia de nada servia à formação do cidadão.

Em sentido oposto segue George Orwell em seu maravilhoso  livro “Homenagem à Catalunha”. Ele é um escritor-poeta que acreditava que a arte e a poesia podem inspirar nas lutas concretas contra as tiranias, as de ontem e as de hoje. Ele se alistou e lutou junto com as  forças democráticas que resistiram ao fascismo. O livro é o relato dessa luta para inspirar as gerações futuras.

Atena, Ariadne ,  Dioniso, Eros...não são  realidades objetivas ou  históricas. Elas e eles  são potências simbólicas, potências artísticas da vida,  que , primeiro que tudo, nos ajudam em nossas guerras internas contra tudo aquilo que rouba nossa coragem, força  e ousadia.

Quando a luta é necessária para a defesa urgente da vida, razão e poesia lutam lado a lado , tanto nas guerras contra as tiranias como na luta diária para , nas escolas e academias , mostrarem a importância  da literatura, da sociologia e da filosofia. Importância para a formação não só de poetas, sociólogos e filósofos, mas também para  formação pensante , crítica e criativa, de todos .




domingo, 6 de junho de 2021

o nascimento da teoria

 

Segundo a mitologia, assim nasceu a “Theoria”:

Zeus às vezes se comportava como um machista, usando de artimanhas para enganar  Hera, sua companheira. Desejando  conhecer  as faces que Zeus lhe ocultava, Hera quis ter olhos mais potentes para saber como Zeus  agia e se comportava quando não estava sob o olhar  dela.  Hera  desejava vencer a ignorância  e  encontrar um meio de ver Zeus de forma mais ampla, sem que ela fosse, no entanto, vista por Zeus.

Então, Hera  pede ajuda a Panoptes, cujo nome significa “visão por toda parte” ( o “panóptico” de que fala Foucault se origina de “panoptes”). Para ser o instrumento de potencialização dos olhos de Hera,  Panoptes  se transformou então num animal : o pavão, em cuja cauda há infindáveis olhos desenhados. Quando se abre em leque, a cauda do pavão lembra o nascer do sol. Por isso, em muitas culturas o pavão é o símbolo da “iluminação espiritual ”.

Os incontáveis olhos do pavão apreendiam  Zeus por vários ângulos, e viam até mesmo as faces ocultas que são incapazes de ver apenas dois olhos.

Os gregos chamaram de “theoria” a esse olhar que vê o objeto sob várias perspectivas. “Theoria” tem a mesma raiz de “theatro” , “lugar para  ver ”.  

O oposto de theoria é  “doxa”, a mera opinião. A doxa/opinião olha para as coisas fiando-se apenas nos dois olhos que cada um tem, reduzindo a complexidade da realidade   a uma narrativa estreita e pobre. Comparada com a theoria, a doxa é uma espécie de cegueira da alma.

Potencializando nosso olhar, a teoria procura abarcar a realidade  sob várias e diferentes perspectivas, e é por isso que da teoria nascem os livros, a ciência e a filosofia.

O “lugar de fala” também é um “lugar de olhar”. O lugar de fala de quem teoriza é um lugar social que promove o conhecimento,  saúde da mente coletiva. É um lugar plural , antídoto da intolerância e da idiotia.

Do lugar da  “doxa” , ao contrário, nasce uma fala egoica e reativa.  Quando essa fala adquire poder político ou militar, torna-se uma fala autoritária e persecutória das falas  diferentes dela.

Assim compreendida , a teoria não é abstração, e sim  o que une ideia e ação. Os meios de luta da teoria são  o lápis, o caderno, a educação,  os livros, a arte, a poesia; já a opinião se arma com “Dogmas”, intolerâncias, fanatismos...E quando se sente acuada, a opinião ressentida nos ameaça com armas literais mesmo, como as que usam o exército e a polícia.

Enquanto o pavão com seus olhos plurais é o símbolo da teoria, é o burro com viseira limitadora o animal que  retrata bem aquele que  segue e propaga  opiniões negacionistas.


( imagem: “máquina de guerra” cuja arma não mata, e sim  revoluciona e liberta)



- "Hera, Zeus e o pavão" ( fragmento de uma pintura de Rubens):




sexta-feira, 4 de junho de 2021

as "insignificâncias"

 

A nave Voyager , enviada ao espaço há mais de 30 anos, ultrapassou as fronteiras  do sistema solar:  ela agora navega  no oceano desconhecido do cosmos. As últimas coisas que a nave  viu não foram  sóis ou estrelas , mas os berçários nos quais estrelas e sóis  nasceram .   A nave é como uma carta que  tem apenas o endereço do remetente :  o planeta terra. E seu destino lembra   o  daquelas mensagens  lançadas ao mar no interior de uma garrafa.

A Nasa colocou um  cd feito de ouro nessa nave. Há sons gravados no cd :  são mensagens com as quais desejamos expressar quem somos  ao cosmos. O ouro foi escolhido pela sua durabilidade,  não pelo seu valor monetário. Esse disco-cd pode durar até um milhão de anos, tempo superior ao que os cientistas supõem que a humanidade ainda durará.Daqui a um milhão de anos , talvez sejamos apenas o relato de certo ser estranho já extinto , um mistério a decifrar gravado num disco de ouro.

Estão gravados  no disco , como poéticos testemunhos do que somos e sentimos: sons   de grilo e sapo; uma baleia cantando; as batidas do coração de um recém-nascido, e as primeiras palavras de sua mãe quando ele abre os olhos; o som das ondas cerebrais de uma jovem que acabou de se apaixonar; um cão  latindo feliz com o retorno à casa de seu amigo-dono; o estalar  de um beijo; sons de chuva e vento; o ribombar de um trovão ; o estrondo de um vulcão que acaba de acordar; risos de crianças brincando; o som suave de uma página de livro sendo folheada; e um “bom dia” dito em  diferentes línguas e dialetos, feito uma  multitudo sonora.

Daqui a um milhão de anos,   talvez já  tenha virado pó tudo o que o dinheiro hoje compra; e apenas pó também sejam  o Paraiso e o Inferno  que os fanáticos religiosos  vociferam.  Mas  para que  durem ainda muito nossas vidas, que não tarde o dia em que  virarão  pó o obscurantismo e a necropolítica.

O poeta Manoel de Barros dizia :“ poderoso não é quem descobre ouro, poderoso  é quem descobre as insignificâncias”. As “insignificâncias” são pequenos acontecimentos vitais cuja grandeza é ignorada pelos homens e suas “importâncias”. Naquele disco da nave estão gravadas “insignificâncias”  endereçadas a  olhos cósmicos .

Talvez sejam esses mesmos olhos que, no aqui e agora, abrem-se no  poeta :  alguém que vê essas “insignificâncias” e as  eterniza como palavra poética que faz pensar, sentir e educa. São essas insignificâncias sentidas , vividas  e partilhadas a verdadeira riqueza daquele disco de ouro que enviamos à eternidade.


(parece uma pintura expressionista de Pollock, mas a  imagem da postagem foi   captada pelo telescópio Hubble:  nossas “insignificâncias” rumam ao coração dessa obra de arte infinita , a “Natureza Naturante” ensinada por  Espinosa)






"Reflexões sobre a estrela Ursa Maior", de Pollock:



“Lovely sky boat” ( belo barco do céu), de Alice Coltrane ( do álbum “Astral meditation”):












terça-feira, 1 de junho de 2021

o tirano e o "seu exército"

 

A expressão “polícia militar” junta duas palavras que são completamente antagônicas,  no sentido e na prática. A palavra “polícia” vem do termo “pólis”. Essa palavra significa tanto “cidade” quanto “organização”, como em “pró-polis” : a substância que protege a colmeia. A polícia surgiu na Grécia como atividade de auxílio regrado às organizações da pólis. Era , portanto, uma atividade interna. Já o soldado era convocado para guerras externas, quando a democracia precisava se defender dos inimigos externos. Quem era policial não podia ser soldado. Sócrates e Platão, por exemplo, também foram soldados da democracia quando preciso, nunca foram policiais.

Assim, “polícia militar” é uma excrescência da ditadura militar; e agora, mais do que nunca, percebemos para qual função ela foi criada: para guerras paranoicas-sujas  internas , onde o inimigo é o homem livre, o cidadão indignado,  que o tirano de plantão vê como ameaça.

Na Grécia, o pior inimigo não era exatamente o Império Persa, o pior inimigo era o tirano que, às vezes, surgia no próprio solo grego, geralmente oriundo das fileiras militares ou da pequena burguesia. Quase sempre os tiranos aparelhavam a polícia, inclusive para reprimir as escolas de filosofia, os teatros e assembleias. Platão chega a dizer que o tirano é o antifilósofo.

Detalhe espantoso que nos lembra os tristes e perigosos dias atuais:  o cidadão livre também devia  ser soldado   quando a democracia era ameaçada por inimigos  externos , porém  às vezes se aceitava que a função de polícia fosse exercida por um escravo. Na Grécia,  podiam virar escravos não os que infringiam uma determinada  lei, mas aqueles   que não respeitavam a pólis e suas instituições como um todo. Assim, fazer de um escravo um policial , um protetor da pólis e suas regras, era uma forma de se dar ao escravo alguma possibilidade de servir às instituições democráticas. Já o tirano era aquele que rasgava as leis e queria impor, à força,  que todos fossem servos seus. Por isso, o tirano temia os cidadãos que lutam pela liberdade, ele também   adulava os escravos com promessas.  Não promessas de que os tornaria livres, mas sim que não haveria mais liberdade : o escravo seria  o modelo de obediência que o tirano queria impor a todos .

“É servo aquele que não se pertence. É aos escravos, e não aos homens livres, que se dá um prêmio para os recompensar por se terem comportado bem.” (Espinosa)


( na foto, o policial que prendeu o professor acusando-o de terrorista, por colocar em seu carro  a mensagem contra o genocida; abaixo, vemos o mesmo  policial e a quem ele serve).