sábado, 27 de fevereiro de 2021

o útero e o coração

 

Segundo a mitologia, assim foi criado o homem:  Prometeu começou a obra  a partir  do barro, porém  pediu ajuda aos  outros deuses. Hefesto, o deus artesão-operário, deu a Prometeu , para este pôr nos homens, o dom  de usar as mãos. Assim nasceu o “homo faber”: “aquele que transforma a natureza com as mãos”. Mas isso não foi suficiente , pois as feras sobrepujavam em força e facilmente caçavam esses primeiros homens. Prometeu pediu auxílio então a Atena. Esta deu a Prometeu, para este colocar nos homens, o dom da inteligência. E assim nasceu o “homo sapiens”:  “o homem capaz de falar,  contar, enfim, teorizar”. Porém o homo sapiens só teorizava, com o homo faber não se unia. Dessa desunião as feras tiravam proveito,   predando facilmente  os homens. Prometeu percebeu que faltava alguma coisa para unir o homem ao homem, o eu ao outro, a identidade à diferença, para assim fortalecê-los reciprocamente. Prometeu pediu enfim auxílio a Zeus, que ofertou a Prometeu, para este plantar nos homens, a semente do sentimento ético da justiça. Prometeu preparou então um terreno para plantar essa semente, fertilizando esse terreno com o adubo da coragem. Esse terreno onde a semente da justiça foi plantada recebeu o nome de “coração”. As decisões que nascessem do coração seriam chamadas de “sentenças”  : “decisões sentidas e proferidas em favor da comunidade”. Zeus fez apenas uma exigência: que essa semente fosse plantada em todos os homens. E assim nasceu o “homo eticus” : “o homem cuja força e poder está em seu coração justo”. Os homens aprenderam então a cooperar e não apenas a pensar egoisticamente no interesse próprio. Nasceu assim a sociedade. Agindo como ser social , o homem aprendeu a  somar esforços, canalizar as criatividades e reunir meios para vencer as feras com a força da engenhosidade. Contudo , alguns não confiavam nas sentenças  do coração justo  e resolveram criar  as leis escritas. Outros imaginavam  que não vieram  do barro, e logo começaram a  crer que eram superiores aos outros e “eleitos dos deuses”: propalavam que  não vinham  do barro, mas do ouro . Entre eles surgiu um tirano que tomou o poder com um exército, rasgou as leis e transformou em escravos os oriundos do  homo faber.  Esse tirano  ainda mandou as covardes botinas do ódio  pisotearem  os corações justos . Assim nasceu  uma elite militar-teocrática pior do que  os leões e  hienas  que antes predavam os homens.

Horrorizado, Zeus pensou em dizimar os homens com um raio. Em vez disso, pegou o barro e o umedeceu com sua saliva. Tomando como modelo Atena e Afrodite, nesse barro foi moldada a primeira mulher : Pandora. Zeus a enviou aos homens . Mas dentro de Pandora Zeus não esculpiu totalmente, e foi nesse interior livre que nasceu um aliado do coração justo  na luta contra  a tirania dos homens. Esse aliado foi o  útero, espaço de criação  de algo que , até então, somente  os deuses eram capazes de criar: a Vida.


- Imagem: "O núcleo da vida " / Frida Kahlo.










sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

espinosa , manoel e seus caderninhos...

 

Alguns biógrafos de Espinosa afirmam que o filósofo era sempre visto com um pequeno caderno. Chovesse ou fizesse sol,  inverno ou primavera, Espinosa não largava seu pequeno caderno. Quem teve a oportunidade de ver tal caderno, ainda que rapidamente, constatou que nele  havia não apenas a escrita de conceitos já nascidos ,  também havia desenhos coloridos e esboços de conceitos ainda por nascer.

O poeta Manoel de Barros dizia que , antes de virarem livro, seus poemas eram rascunhados em   “caderninhos do caos”. O próprio poeta confeccionava esses caderninhos com as mãos . Também à mão  e  a  lápis , em tais caderninhos do caos o poeta escrevia  o feto de futuros  livros. Creio ser um caderninho assim aquele no qual Espinosa esboçava suas ideias e desenhos. Na mitologia, Gaia, a Mãe-Terra, emergiu do Caos. Igualmente  do Caos emergem as poesias e filosofias que são “Novas Terras ” para o pensar e  o sentir em seus horizontamentos. Pois esse  “Caos”   poético-filosófico não é destruição ou desordem, ele é  uma realidade não  formada, pura virtualidade não domada, útero cósmico do qual nasce tudo o que escapa e resiste às  Ordens Totalitárias.

Infelizmente, esse caderninho de Espinosa se perdeu... Quando o filósofo morreu, capitalistas rapinadores foram ao seu quarto surrupiar as lentes que ele fabricava e polia, lentes já famosas pela qualidade e que valiam um bom dinheiro;  e fanáticos religiosos também  invadiram o  quarto atrás de coisas para pegar e tacar fogo. Tudo leva a crer que o caderninho  de Espinosa não escapou a esses intolerantes e sua fogueira de ódio; porém a potente, colorida e  libertária chama que do caderninho  se desprendeu ao ser queimado   ainda vive  em quem persevera com  a alma acesa , e resiste ao breu.


“Eu sou uma chama acesa!

 E rebrilho e rebrilho toda essa escuridão”. (Clarice Lispector)


( imagem: “Espinosa multicor” )








domingo, 21 de fevereiro de 2021

os cactos 2

 

Muito se fala, com razão, das flores. Rosas, girassóis, crisântemos, margaridas...já foram homenageadas em músicas, poemas, pinturas. Mas pouco se fala das flores que o cacto também sabe produzir. Acho uma injustiça com esse artista da resistência. Na dele, sem chamar a atenção, o cacto  é capaz de atos que trazem a beleza da generosidade.  Assim age esse perseverante resistente:  o  cacto é a planta que possui a maior raiz. A extensão de sua raiz chega a nove ou dez vezes o tamanho do corpo do cacto que vemos à superfície do chão. Quem mede o cacto apenas pela sua parte visível, e pensa que a parte que vê é todo o ser do cacto, por certo ignora o que o cacto é capaz de fazer. O cacto cria imensas raízes para sondar o subsolo , não se deixando vencer pela aridez que o cerca. As raízes do cacto tateiam procurando veios d’água metros abaixo da paisagem seca. Ele persevera procurando no coração da Mãe Terra a água que o Céu lhe nega. Quando encontra a água, o cacto anuncia sua descoberta brotando flores: em pleno árido , ele inaugura uma primavera. Então, ele sorve o líquido e se intumesce , de água fresca ficando grávido. Basta um pequeno furo para a água jorrar matando a sede dos necessitados. Foram os cactos do sertão nordestino que, no passado, não deixaram morrer de sede a rebeldia de Lampião e seu cangaço ; e a flor que Maria Bonita punha no cabelo também floresceu de um  cacto : o mandacaru, símbolo da força  do povo nordestino.  O cacto mandacaru  expressa a resistência da vida, uma resistência que também se faz com poesia e beleza, apesar da aridez que a cerca . O mandacaru  matou a sede de Lampião e deixou a Maria ainda mais Bonita. Nessa época do ano, lá no sertão nordestino, os mandacarus  anunciam que já vão  começar a florir.

 

“Quando não pode ser cristal, a poesia vale pelo que tem de cacto.”(João Cabral de Melo Neto)


( imagem: “flor do mandacaru)



 











sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

sobre o direito a ter e emitir opinião

 

Se em uma prova de ciências alguém afirma que “a terra é plana” e leva zero , ele não pode contestar a nota alegando que o professor está cerceando o seu direito à “liberdade de ter uma opinião”. Afirmar que “a terra é plana” não é uma opinião, e sim uma ignorância em relação ao conhecimento adequado acerca da terra. Se alguém fala ou escreve algo que discrimina uma pessoa ou uma minoria e é processado por isso, esse alguém não pode dizer que o processo está limitando o seu direito à “liberdade de ter uma opinião”, pois emitir um preconceito ou injúria não é ter uma opinião, e sim mostrar-se um criminoso. O direito a ter e proferir livre opinião é a base ética, política e jurídica da democracia. Mas há um aspecto desse direito que nem sempre é esclarecido. O direito à liberdade de opinião é universal quanto à forma e não quanto ao conteúdo, pois há conteúdos que alguém diz ou escreve que não podem ser universalizáveis, já que se revelam erros, preconceitos, intolerâncias ou mesmo crime.

Para Espinosa, por exemplo, pensar não é apenas um direito formal à opinião : pensar também é o que expressamos no conteúdo do que escrevemos ou falamos. Pensar é a união de uma forma com um conteúdo, pensar é a união da linguagem com as ideias. As ideias são o conteúdo daquele que pensa e age. O pensar é o antídoto para as ignorâncias, sobretudo para aquelas que se mascaram de opinião.

O fascismo é uma ignorância que surge no início como opinião, travestindo-se como direito à liberdade de opinião. O perigo é quando os assim ignorantes tomam o poder do Estado, sobretudo se for pelo voto. Pois o voto que os elegeu apenas na forma é voto, já que seu conteúdo é o ódio à democracia e, mais profundamente, ódio ao pensar , ódio às ideias. O fascismo se vale dos mecanismos formais da democracia , como a eleição e o voto, para logo em seguida mostrar o que ele é em termos de conteúdo: ódio à democracia, ausência de ideias. Essa falta de ideias quase sempre se esconde atrás de apologia a armas e  ostentação de músculos-brucutus-marombados  ( que às vezes nada mais são do que sintomas de   atrofia dos neurônios  ,  fraqueza de caráter e até mesmo de recalcadas inseguranças... ). 

O direito universal a ter e emitir opinião é a base da democracia formal. Porém a democracia não é apenas uma forma, ela é sobretudo um conteúdo . E é sempre o  conteúdo  expresso nas condutas , incluindo as condutas verbais, que revela se a conduta em questão potencializa a sociedade ou a põe sob risco.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

o que nos põe de pé

 

É por volta dos seis  anos que a criança começa a levantar questões: “o que é vida?”, “o que é o tempo?”, “de onde vim?” , “para onde vou?”... Primeiro foi  o seu pequeno  corpo que, quando ainda bebê e com o auxílio da mãe, aprendeu a pôr-se de pé vencendo a gravidade ,  levantando-se do chão. Agora, é o pensar dela que começa a se  levantar e a pôr-se de pé, querendo a compreensão de si e do mundo. É de pé que se podem ver  horizontes, tanto os externos quanto os internos : o pôr-se de pé já é um “horizontar-se” ,  ensina o poeta Manoel de Barros. Esse impulso para levantar-se é a força da vida se expressando na criança; e a educação nada é se não for um meio para manter esse impulso ainda mais vivo e potente, pois é na singularidade da criança que também se ergue a humanidade, por mais que tiranos a queiram de joelhos. A criança levanta questões para levantar-se. E mais importante do que as respostas que possamos dar, mais importante é manter vivo esse impulso de questionar , para que a criança, crescendo por fora e por dentro, possa se levantar mais alto do que a gente mesmo que a ajuda a levantar-se : para que o futuro que há nelas também   nos erga. Quando levanta questões, a criança não quer que a gente a coloque nos nossos ombros  para torná-la dependente  das  nossas pernas adultas cheias de certezas; ela quer se levantar com as própria pernas, mesmo que seja para depois sair correndo brincativamente numa  linha de fuga lúdica. E se nossas pernas quiserem alcançar aonde vão as crianças, é preciso criar em nós também um devir-criança.  Pois a própria criança nos ensina que pensar não é reproduzir ou obedecer, pensar é erguer, erguendo-se. E o tamanho conquistado será da amplitude das questões levantadas.

Para Fernando Pessoa,   o que nos põe de pé não são pés e pernas, o que nos põe de pé é a coluna  cervical , cujo formato lembra exatamente um ponto de interrogação [? ].  Os pensamentos e quereres nascem na cabeça, porém não chegariam às mãos e pernas, transformando-se em ação sobre o mundo,  se não fosse pela coluna cervical  que transforma pensamentos e quereres em impulso que move o corpo. A coluna cervical une a teoria à prática, o sonho à realidade, a utopia à efetividade, o que apenas pensamos internamente  ao que precisa ser feito  externamente e no mundo.

Certa vez perguntaram ao poeta Sérgio Sampaio o que ele achava do envelhecer e do passar dos anos. O poeta respondeu mais ou menos o seguinte: “Cada ano que passa é um garoto novo que o tempo junta aos outros garotos que ele em mim já criou. Hoje tenho 40 anos : são 40 garotos que sou. Cada um deles me recriou”.


( imagem: “Poesia” / Haroldo de Campos)








terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

"Jimi" & "Che"

 

Vivemos dias nos quais  se multiplicam  situações que nos deixam indignados.  Mas nada é mais  revoltante do que  ver  um senhor que se diz “professor” , o atual “ministro da educação”,  recomendar a volta da palmatória, querendo que a sala de aula se transforme num lugar para se torturar jovens e  crianças, bem ao gosto do chefe dele que idolatra torturadores.  Quando  fiz o antigo  segundo grau tive um “professor” desse tipo. Ele era simpatizante ferrenho da ditadura militar ( que perdia força naquele momento com a “Abertura” ). Além de diretor não eleito do colégio, esse professor lecionava gramática. Rígido e dogmático, ele fazia da gramática a sua  “Caaba”. Ele era um fanático por Ordem, na gramática e no exercício autoritário do poder.  “O importante é a Norma; pois exceção e diferença, na gramática e fora dela, não têm importância e levam ao erro” , dizia ameaçando. “Mas professor, o português não nasceu do latim falado errado?”, questionou certa vez  o “Jimi”, o provocador da sala ( a gente o chamava  de “Jimi” porque ele estava sempre com uma camiseta colorida do “Jimi Hendrix” por baixo da camisa  do uniforme escolar  homogêneo e “mesmal”). Um olhar repressor era o que o gramático-censor dava como resposta...

Esse professor/diretor  também proibia a gente  de criar  o grêmio  estudantil . Certa  vez então montamos  uma estratégia: fingimos criar um grupo de teatro, quando na verdade a gente se reunia no auditório para falar de  política, assunto que o diretor  censurava. Quando ele aparecia de surpresa no auditório para nos patrulhar, a gente fingia que estava ensaiando  uma peça. Sem entender nada, gritando ele perguntava : “Que peça é essa!?” “É Beckett, professor. Não tem roteiro...”, a gente respondia segurando o riso. E ele ia embora desconfiado e olhando de lado.  

No nosso grupo havia um garoto cujo apelido era “Che”. Fazendo jus ao apelido, “Che” bolava “ ações de enfrentamento direto contra o ditador”, era assim que ele dava nome teórico às peraltagens subversivas que bolava. O tal professor possuía um fusquinha verde-oliva cujo para-brisa  tinha um  adesivo  de uma caveira com duas adagas enfiadas no crânio, um símbolo militar do qual   se apropriou também  à época o “esquadrão da morte”, o avô da atual milícia. Certa vez o “Che” esgueirou-se pelo estacionamento  e enfiou  duas batatas inglesas bem na saída do cano de descarga do fusquinha-caveira. Da sala de aula deu pra ouvir o estrondo quando o fascista ligou o carro...Mas ele não se feriu, “foi só pra assustar”, dizia o “Che” discretamente. Não sabemos ao certo se devido a isso, no dia seguinte o  diretor fascista aparecia mais cordial, menos intolerante, parecendo ter   lampejos  de que era um professor, e não um carrasco. Ele até sorria pra gente... Mas isso não durava muito, e logo o “Che” precisava voltar  à ação, sem exceção.





link para o filme (completo e legendado):









sábado, 13 de fevereiro de 2021

botar o bloco na rua

 

O carnaval nasceu como festa dedicada   a Dioniso, o deus das artes. Naquela época, Dioniso era o símbolo do “triunfo da vida”. Não o triunfo de uma vida sobre outra vida, como na competição desumana dessa selva capitalista, mas triunfo da vida resistindo àqueles que a querem   morta, nos vários sentidos que a palavra “morte” tem. Segundo a mitologia, foi Dioniso que ensinou esse triunfo   aos que correm perigo, para neles salvar a vida.  Pois quando era ainda criança, Dioniso foi despedaçado por divindades sombrias, propagadoras  do ódio e da vingança. Sabia-se que Dioniso tinha uma metade humana e outra metade divina, uma metade mortal e outra que nunca morria. Mas qual era a parte divina dele? Ninguém sabia...Exceto Zeus. Então, quando Zeus viu Dioniso-criança despedaçado, buscou entre as partes a que era divina, pois somente essa parte  pode resistir aos carrascos da vida. Era o coração, sede da coragem e do afeto,  a parte onde é mais potente a  vida. Zeus pegou o coração de Dioniso-criança e dele fez nascer novamente Dioniso. Isso explica seu nome: “Di-oniso”, “duas vezes nascido”. Quando nasceu a primeira vez, Dioniso veio ao mundo chorando, como  todo recém-nascido ; ao renascer , porém, Dioniso  saiu  do coração sorrindo , em festa, na alegria do   triunfo da  vida.  Esse triunfo não foi fruto de promessas , ele foi  obra da primeira das artes : a  arte de  tornar a vida de novo nascente, nesta vida e não noutra. Tal triunfo vinha acompanhado de uma potente alegria semelhante a uma embriaguez .  Não a embriaguez por excesso  alcoólico,    mas  a embriaguez  pelo excesso de vida .   Manoel de Barros, ébrio de poesia , chama  de “deslimite” a tal excesso que não deixa  morrer a vida: “Na ponta do meu lápis há apenas nascimento”, diz o poeta de vida embriagado. Em grego, “embriaguez” se escreve assim:  “bacchus”. Quando os romanos deram o nome  “Baco” a Dioniso, enfatizaram apenas um dos aspectos de Dioniso, não a sua simbologia como um todo: reduziram a embriaguez ( “bacchus”) ao estado provocado pelo vinho , ignorando que a embriaguez dionisíaca tinha originalmente muitos outros  sentidos. Pois  mesmo antes de descobrir o vinho,  Dioniso já se embriagava com a pura  água que ele  bebia das fontes de Gaia, a Mãe-Terra.

“É preciso embriagar-se...Mas, com quê? Com vinho, poesia ou virtude , a escolher. Mas embriaguem-se!” (Baudelaire)

 

( imagem: “A vinha vermelha”/ Van Gogh)





O “carnaval” de que fala Chico e o “bloco na rua”  mencionado por Sérgio Sampaio não são um carnaval literal, como o deste ano  que com razão foi  cancelado. O carnaval e o bloco de que eles falam ainda estão por ser criados:





nada se iguala à interpretação intensa, marginal e poética  do próprio Sérgio Sampaio : 

 




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

manoel de barros: poesia pode ser que seja fazer outro mundo

 

Certa vez pediram ao poeta Manoel de Barros uma definição do que é a poesia. O poeta assim respondeu: “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. Nessa resposta, a palavra mais importante é o verbo “fazer”. Inclusive, a palavra “poesia” vem de um verbo grego  cujo sentido é exatamente “fazer, produzir”. Quando se  substantiva a poesia apenas como rima e verso , perde-se a compreensão de que ela é também um verbo, uma ação, que pode produzir muitas outras coisas além de rimas e versos. A poesia produz também percepções, pensares e sentidos outros que subvertem o “mesmal”  do “mundo acostumado” . Manoel diz que o poeta produz versos porque , antes de escrever, “o poeta  se empoema”. Empoemar-se é um sentir que pensa, tornando-se potência criativa  que nasce de uma intensificação da vida. A vida nos empoema quando ela mesma escreve sua poesia em nós. A vida produz poesia fazendo nascer na mente e no corpo ideias  e sensações que aumentam a vida em nós. Pois a  vida é a primeira dos poetas, cujos poemas nós mesmos somos.  Quem se empoema,   desegoifica-se  e se desabre:  não cabe mais dentro de si.  Alguns se empoemam  e dançam, outros se empoemam e pintam, outros se empoemam e cantam, outros se empoemam e  ensinam, outros se empoemam e aprendem,  outros se empoemam e se tornam generosos, corajosos, insubmissos,  libertários , enfim, intensificam o que neles é vivo ;  e com o máximo de força que podem , se esforçam para fazer outro mundo começando pelo lugar onde se está, mesmo que seja um lugar modesto, micropolítico: sala de aula, fábrica, rua, praça, residência, favela, vizinhança, janela, mundo virtual... E primeiro que tudo, deve-se começar por fazer outro mundo dentro de si mesmo, na maneira de pensar e sentir, fazendo-se de novo página branca, sem roteiros prévios , para que nela a vida reescreva novos sentidos por descobrir , sentidos  que nos auxiliem a resistir à antipoesia dos homens cultuadores do ódio, da destruição e da morte. É por isso que o importante naquela definição de poesia  também  é o “pode ser que seja”,  pois poesia não é   palavra de ordem , fórmula  ou receita;  poesia  é ideia pensante  para ser sentida e reinventada, reinventando-nos , como potencialização da liberdade agenciada. 

“Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o filósofo é o poeta”. (Deleuze)


Não são apenas os órgãos da sensibilidade que são capazes de sentir, pois o pensamento também sente; e não é somente o pensamento que é capaz de pensar, os órgãos da sensibilidade também pensam. A separação entre sensibilidade e pensamento não é algo natural, é uma construção histórica .Em Plotino, por exemplo, a filosofia consiste em tocar com pensamento as coisas incorpóreas, e ao mesmo tempo  pensar com o tato as realidades corpóreas. 













terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

crono, aion e kairós

 

Sempre que hoje se pensa no tempo, de imediato vem a imagem de um relógio. Muitos  associam  tempo a dinheiro também ; e há os que nem gostam de pensar no tempo, dizem que dá desespero pensar em como ele passa rápido .  Mas há outras ideias de tempo que foram abafadas por essa imagem dominante do tempo-relógio-dinheiro. Entre os gregos, por exemplo, havia pelo menos três concepções do tempo: Crono, Aion e Kairós.

Crono ( ou Kronos)  é o tataravô do tempo-relógio, pois Crono  é aquele que toma o lugar de seu pai Uranos ( o “Céu” ou a “Eternidade”) e passa a devorar seus filhos. Crono é o pai dos dias, dos mesmos dias que ele  devora.

Aion é o tempo enquanto “força da vida” ou “tempo vital”. O relógio mede o começo e o fim das coisas, o ponto inicial e o final, ao passo que Aion é a duração do que transcorre no meio. Aion é o fluxo do rio: o devir entre a foz e a nascente. Tudo o que tem vida se explica não pelo seu fim, mas pelo seu meio e enquanto dura, cresce, avança. O poeta Manoel de Barros diz que “não precisa do fim para chegar”, pois é no meio do poema que Aion está.  O tempo do  relógio  diz que Espinosa viveu 44 anos, uma vida breve. Porém enquanto durou sua vida, seu Aion, Espinosa  viveu a eternidade e a expressou em sua “Ética”, seu aiônico livro. Aion não se mede por números ou quantidades, mas pela intensidade e potência de uma vida.  Vida que , por intermédio de  seus frutos,  permanece  e perdura para além do fim determinado por datas e  relógios. Crono devorou os  dias em que viveram  Espinosa e Manoel , assim como devora também os nossos; porém aionicamente o filósofo e o poeta ainda estão vivos,  e em versos e ideias nos ensinam a como não nos deixarmos devorar.

Kairós é o tempo conhecido como a “quarta dimensão”. Enquanto Crono possui três dimensões ( passado, presente e futuro) , Kairós é a quarta dimensão chamada de  “tempo oportuno”. Em latim, “oportunus” era o nome do vento que reconduzia ao porto  o navio perdido em alto mar .  Kairós é o tempo da ação, da ação oportuna que  muda uma situação e cria  situação nova. Kairós é o tempo da palavra,   da palavra que se torna mais do que palavra : quando dela nasce a  ação transformadora.  Quando é o momento oportuno? O momento oportuno não existe antes de ser  criado : todo momento pode ser momento oportuno, desde que produzido e engendrado, agora e não amanhã. Não há cartilhas que ensinam o momento oportuno, porém saber o momento oportuno é o maior dos aprendizados .

 

"O tempo só anda de ida.

A gente nasce, cresce, envelhece e morre.

Pra não morrer

é só amarrar o tempo no poste.

Eis a ciência da poesia:

amarrar o tempo no poste!" (Manoel de Barros)

 

























- Um dos melhores filmes sobre o tempo:



sábado, 6 de fevereiro de 2021

os Ancestrais

 

Minha bisavó era índia. Nunca a vi pessoalmente, ela morreu bem antes de eu nascer. Certa vez vi uma foto dela, uma foto muito antiga, quase já eterna. Vi seu jeito, seu espírito, vi nela coisas das quais não tenho lembrança ou consciência, mas  que estão no meu corpo, no meu sangue, no meu inconsciente.

Recentemente, no meio de uma profunda noite, sonhei com ela . Era um desses sonhos  que nem sonho se parecem , sonhos  que   nos despertam   e têm mais vida   do que o real  insano  onde dominam os pesadelos sociais que nos tiram o sono.

Como minha bisavó índia estava viva nesse sonho!  O vestido que ela vestia parecia feito  de luz, uma luz mais luminosa que toda luz que já vi . Não era uma luz que ofusca e faz  os olhos  desviarem. Ao contrário, era uma luz  que potencializava o ver, o ver para fora e o ver para dentro . Também não era como a luz do sol a pino do meio-dia, era mais como a luz da lua,  luz que clareia os caminhos que a escuridão esconde.  Atrás de minha bisavó, como se fosse o fundo de uma pintura,  havia  um céu de um azul indescritível, desses que a gente só entende  quando vê e nunca mais esquece : um azul que “celesta”, como diz Manoel de Barros. Às vezes em maio acontecem  tardes com um azul assim, um  azul que  entra em nós e forra a parte desnuda de nossa alma, vestindo-a de céu e horizonte. Ao redor da cabeça de minha bisavó, cujos cabelos grisalhos estavam soltos, havia um cocar  feito de flores, como uma guirlanda. Flores de todas as cores, de todas as cores mesmo. Muitas das cores eu nem sabia o nome, e muitas outras flores eram  de cores que nem têm nome ainda. As mais vivas dessas cores eu  só tinha visto igual   nos quadros de Frida Kahlo e nos desenhos que eu pintava  quando criança, brincando de  inventar cores.A maior parte  das flores que enfeitavam a cabeça de minha bisavó eram de cores  sem nome ainda, cores que somente os olhos que sonham , ou os olhos da criança,   podem conhecer e ver. Eram flores infinitas , muitas já abertas e outras se abrindo ainda , como olhos novos que nascem.

Então, me olhando nos olhos com compreensão e amor, minha  bisavó índia  me deu um abraço que  transmitia proteção, força e coragem. E como se me benzesse com palavras , perto do meu ouvido a índia sábia me falou: “Abra seu olho cósmico, não há o que temer”.

 

“Sonhar é acordar-se  para dentro”. (Mário Quintana)

 

“Onde o mundo interior e o exterior se tocam,

aí se encontra o centro da alma”. (Novalis)


“Escuta-me, escuta-me também com teus olhos. E quando chegares a acordar, desperto ficarás eternamente”. (Nietzsche)

 

( imagem: “O abraço de amor de Pachamama, a Mãe-Terra” / de Frida Kahlo)



“Tenho em mim um sentimento de aldeia e dos primórdios. Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens. Não sei se isso é um gosto literário ou uma coisa genética. Procurei sempre chegar ao criançamento das palavras. O conceito de Vanguarda Primitiva há de ser virtude da minha fascinação pelo primitivo. Essa fascinação me levou a conhecer melhor os índios” (Manoel de Barros). Esta música do vídeo é cantada nos ritos de iniciação dos jovens Kayapós à vida em comunidade. A letra lembra aos jovens que os Ancestrais também sãos os rios, as árvores, enfim, a terra que dá alimento e proteção; e que não há futuro digno sem  manter viva a memória coletiva  dos  Ancestrais:


                                           (para assistir , clicar no link do youtube)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

o passarinho azul II

 

O PASSARINHO AZUL ( em homenagem a Manoel de Barros, que tem sido meu “cardiologista” nesses sombrios dias...)

 

Alguns dizem ter imortais almas que em outras vidas já foram Príncipes, Sultões e Monarcas. Outros se gabam de ter Anjos da Guarda que favores ao próprio obtêm junto a um Glorioso Deus. Eu, simplesmente, no lugar de alma  tenho apenas um passarinho: ele é azul, pequenininho, mas fez em meu coração um enorme ninho e nunca para de cantar.

 

“Os raminhos com que arrumo

as escoras do meu ninho

são mais firmes do que as paredes

dos grandes prédios do mundo”. (Manoel de Barros)

 

“Uma palavra há de ser poética desde que você a coloque em lugar imprevisto, desde que ela dê alarme, desde que ela quebre o muro da velha ordem”. ( trecho de carta do poeta Manoel de Barros ao jornalista/escritor Luiz Taques , que escreveu junto com o poeta o precioso livro “Vaso de colher chuvas”, agradeço a Regina Utsumi por  este livro, que pode ser solicitado diretamente junto ao autor: luiztaques@gmail.com)




A música de Chico & Francis Hime  não fala  só dos passarinhos de fato, pois “passarinhos” também era a forma simbólica de se referir às cantoras, cantores e poetas que correm risco quando chegam  os “homens ressentidos” de arma na mão . Em grego, “poeta”  é  “aedo”: “aquele que canta”.









terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

mefistófeles e seu empregado

 

Mefistófeles: “-Vim cobrar aquilo que, por contrato, você me prometeu dar em troca dos meus favores." 

 Fausto :  “- Mas o que lhe prometi? Assinei sem ler...”

Mefistófeles:  “- Fique tranquilo, quero apenas uma parte de sua alma: quero seu caráter. Você poderá  ficar com seu ego : sei como soprar   dentro dele  para inflá-lo. Também vou lhe ensinar a como usar as palavras para fazer suas mentiras parecerem  ‘Verdade’. Vou lhe ensinar essas e outras artimanhas, mas seu caráter será meu...”

Fausto: “- Serei então um ‘sem caráter’?”

Mefistófeles: “- Por que o espanto? Sabe aquele banqueiro rico  que explora muitos e os tem na  mão? Pois é ele que está nas minhas mãos e ainda as beija  em agradecimento pelos meus préstimos . Sabe aquele juiz que posa de moralista ? Esse sonso  nunca dá uma sentença sem me consultar, ele também é meu. Sabe aquele religioso que prega dentro de um imenso  templo de ouro  e  diz se ajoelhar diante de Deus? Mentira, é diante de mim que ele se ajoelha. E esses políticos que se elegem usando o nome de Deus , Pátria e Família são os que mais servem a mim. O Centrão eu comprei a lote, pois no Brasil o presidente é um empregado meu, comprei deputados e senadores por intermédio desse comprado. Por que você resiste? Por que insistir com esse heroísmo ético !? Abandona a filosofia e a ciência que eu  farei de você o 'Oráculo' e 'Guru' de muitos que lhe dirão 'amém'  em tudo, como dizem a um discípulo meu chamado ‘Olavo’. Comigo você ficará rico, terá fama e poder....Desde que seu caráter seja meu.”

 Fausto: “- Mas e Margarida? Não quero perdê-la, estamos noivos...”

 Mefistófeles: “- Vou comprá-la agora!”

Mefistófeles encontra então Margarida e oferece tudo o que pode oferecer para assediá-la. Dela, porém, ele ouve apenas uma palavra dita com firmeza: “NÃO”. Derrotado, com o rabo entre as pernas , foi-se embora o mercador de almas...

 

(na mitologia germânica, “Margarida” é um dos nomes da “Alma”, assim como “Psiquê” em grego. “Mephisto” é um filme que mostra como o nazismo ascendeu na Alemanha comprando/seduzindo  mídias, parlamentos, mercados , igrejas e partes  tolamente  crédulas  do povo. “Mephisto”,ou “Mefistófeles”, é um dos nomes do Diabo ).