segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

trecho do livro





Encontramos esboçado em Gilles Deleuze um dos problemas que tencionamos desenvolver, pois nos parece que ele toca de perto aquilo que em Manoel de Barros constitui a experiência do deslimite. Afirma Deleuze que

"Escrever não é certamente impor uma forma (de expressão) a
uma matéria vivida. A literatura está antes do lado do informe
ou do inacabamento. (...) Escrever é um caso de devir, sempre
inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer
matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma
passagem de Vida que atravessa o vivível e o vivido".( Deleuze, Crítica e clínica, Ed. 34, p.11)

A Vida é renascer constantemente, a todo tempo e instante. Por conseguinte, a Vida é metamorfose, arte. A Vida nunca nasce, quem nasce são os indivíduos. A Vida sempre renasce nos indivíduos que nascem. A Vida, portanto, é puro renascer: por nunca nascer, a Vida também jamais morre (quem morre são os indivíduos). A Vida não é uma, mas muitas: são todas as que tivermos a potência de inventar e criar, conjugando nosso viver com a Vida que em si mesma é criação, Arte.
A Vida é um processo que atravessa nosso vivido e rompe os limites utilitários deste; do mesmo modo que o Sentido , quando trabalhado pelo poeta, emerge na linguagem extravasando as significações dominantes que prescrevem à palavra um limite. O deslimite é o processo que faz do inacabamento o estado sempre renovado que não deixa com que as coisas acabem, sendo então reinventadas pelo processo criativo tanto na poesia como na vida.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

o espelho de espinosa

Os espelhos côncavos e convexos alteram as coisas. Existem  ainda os espelhos de bufonaria, que distorcem as coisas, deixando-as mais feias ou ridículas do que de fato são. Há  espelhos que aumentam o que é pequeno: eles são antíteses daqueles que diminuem o que é grande. Um espelho pode ser o melhor possível, mas pouco ou nada refletirá se estiver sujo. O espelho comum, o espelho plano, é aquele no qual nos procuramos: nele vemos, com nossos olhos, os nossos olhos vendo-nos. Tal espelho reflete o que somos no momento: ele não mente,e nisto é mais confiável do que a palavra. Todavia,  ele não mostra a face de ontem ou a que será, mas sempre a face de agora,cuja constância não é confiável.O espelho mostra o rosto enquanto parte do corpo, ou pode mostrar o corpo inteiro, se grande o espelho for. 
Mas e o espírito, que espelho o mostra?Segundo Espinosa,o espírito é,ele mesmo, um espelho. Como tal, ele reflete. O espírito  pode ser um espelho de duas maneiras, cada uma delas completamente diferente da outra.
Primeiramente, na vida comum, o espírito se torna imaginação ( imaginatio que reflete  o que ele imagina que as coisas e as outras pessoas são.A imaginação está sempre a imaginar, não a conhecer. O espelho comum  reflete as coisas  porque atrás dele há o aço ou algo fosco  que impede que a luz atravesse o vidro. Na imaginação há um equivalente do aço ou do fosco: são as afecções ou paixões,sobretudo as tristes. As paixões , assim como o aço,impedem que a luz da realidade atravesse o espírito e o torne translúcido a si mesmo. A imaginatio é a opacidade que o senso comum chama de realidade, tal como a hipótese da Matrix
No espelho concreto,porém, o aço faz com que a luz retorne tal como ela tocou o vidro,para assim devir imagem; já na imaginação a paixão emite apenas a si mesma na luz que recebeu. A imaginação passional é como um espelho que recebe luz mas devolve aço, emite o fosco,de tal maneira que ela é um espelho pelo avesso: crê receber o que de fato emite, ignorando o que emite.Na verdade, quando se torna apenas imaginação, o espírito é como um espelho que a nada reflete,a não ser a sua impotência para refletir.
Mas existe ainda outra forma de o espírito ser espelho. Todo espelho se explica por aquilo que vem nele se refletir. Na imaginação, vem se refletir apenas  o que, de fora , age sobre o corpo. A imaginação reflete esse agir das coisas corpóreas sobre o nosso corpo; a imaginação  é a alma reagindo a este agir das coisas sobre nós.Contudo, ela ignora este agir e imagina que as coisas que estão nela nasceram exclusivamente dela,como se ela fosse livre e pairasse acima das coisas corpóreas. Não raro, a imaginação até mesmo despreza as coisas corpóreas e delira que a inspira uma divindade com a qual ela mantém relações privilegiadas, divindade esta que a ajuda a ver o futuro ou mesmo outras vidas, além de dotá-la de poderes que fogem à compreensão da ciência e das coisas terrenas. Todavia, a imaginação passional   ignora que aquilo que ela imagina  nascer apenas dela, nasce na verdade de causas físicas e explicáveis pela natureza, a mesma natureza que ela despreza.
Segundo Espinosa, o próprio espírito é um espelho, um espelho distinto da imaginação. E o que o  espírito, enquanto espelho, reflete?Ele reflete o que nele vem mirar-se. E o que vem nele se mirar?O infinito. O espírito é um espelho que reflete o infinito. Da mesma forma que olhamos de manhã em um espelho para conhecermos  como está nosso rosto, o espírito é um espelho no qual podemos ver/conhecer o infinito: este  é uma aurora que nunca escurece,pois não o pode turvar  o fosco.
O infinito nunca aparece ou pode ser conhecido à parte de um espírito que o reflete, um espírito singular .  Um espírito que  reflete o infinito não é exatamente o que mais livros leu,tampouco o que tem títulos acadêmicos e que tais. O espírito que reflete o infinito é aquele no qual se reflete a simplicidade, a modéstia, a firmeza , a generosidade ,a inventividade, o amor e, também, a coragem. Antes de qualquer coisa, nesse espírito se reflete o corpo do qual esse espírito é o espelho imediato. Contudo,  o corpo não surge sozinho, tampouco aparece como um corpo imaginário,vaidoso , narcísico. O corpo aparece agenciado e conectado com o universo inteiro.Não é mais apenas um corpo que sofre a ação de outro,  assim padecendo;diferentemente, quando refletido no espírito, o corpo se torna a expressão ou parte ativa da Natureza. Refletindo seu corpo, o espírito reflete/conhece a si mesmo como parte do infinito que reflete.

Para Espinosa,o homem não foi feito à imagem de Deus, pois imagem é reflexo,  imagem  não é espelho. Ser apenas reflexo é o que caracteriza a imaginatio, ao passo que ser espelho, e refletir, é o que expressa o espírito. O homem não é imagem ou reflexo de Deus,ele é o espelho que reflete o infinito, assim pensa/reflete Espinosa.  O espírito reflete o infinito não como uma imagem,  ele o reflete como afeto e  ideia. O homem livre não é o que vive à parte, ele é  o que vive ou se esforça por viver de acordo com aquilo que seu espírito reflete. O homem  da imaginação vive como um reflexo das coisas,ao passo que o homem livre se esforça por viver de acordo com aquilo que seu espírito reflete. A luminosidade translúcida da realidade que nele se reflete já o lustra e o torna apto a refletir ainda mais adequadamente, potentemente, ativamente  - assim o  libertando do aço refratário do passional  e do fosco das opiniões. 

Mille Deleuze