domingo, 27 de novembro de 2022

Viva Gilberto Gil!

 

Eu tinha cerca de 12 anos e fazia o antigo ginásio. Era uma época difícil, sufocante...A  ditadura militar censurava, perseguia ,  prendia e torturava quem pensasse diferente do poder autoritário dominante.

Quando cresci e estudei história , aprendi que esses perseguidos pelo terror eram pessoas que sentiam que o mundo precisava ser mudado , e agiam para isso. Mas ainda criança, eu também sentia que o mundo dos homens estava errado , mas não encontrava nos livros lições que dissessem isso, pois pensar estava proibido. 

Àquela época, a escola não era um espaço de descobertas : a ditadura controlava tudo, e usava as cartilhas e   tabuadas como meios de adestramento.

Poesia e literatura? Só eram aceitos os parnasianos, como aquele poeta elitista autor do Hino Nacional que a gente não entendia  nada da letra , porém nos obrigavam  a cantar em posição  militar, rigidamente, batendo continência para a bandeira, como se ela fosse um general sisudo sobre o Monte Parnaso.

Até que chegou à escola uma professora nova de língua e literatura. Tudo nela era diferente: a roupa,  o jeito , o olhar , enfim, a pessoa. Foi a primeira vez que entendi de verdade o que era uma educadora e tudo o que a arte pode em termos de (auto)descoberta .

Em vez de adotar livros parnasianos para a gente ler decorando datas e palavras que a gente não entendia, palavras mortas que nada nos diziam a não ser: “obedeçam!”, ela adotou um livro diferente cujas palavras  a serem interpretadas eram letras de música  dos Festivais da Canção acontecidos recentemente.

Assim , foi como poesia que li , pela primeira vez, Chico Buarque, Caetano , Paulinho da Viola e Gilberto Gil. Antes de conhecer a música deles , eu me empoemei , ainda criança, com a poesia  sob a forma de letra. Algo em mim se horizontou e veio para fora: era eu mesmo,  ainda de mim desconhecido.

Foi a primeira vez que  experimentei  o que é ler, pois ler é ler-se. Eu não entendia todas as palavras , mas sentia que eram palavras vivas que me ensinavam  um sentido que eu sabia ser o mesmo que os milicos não queriam que a gente aprendesse, um sentido libertário da plural e popular poesia.

A querida professora transformava  a sala de aula  numa lúdica academia , uma academia livre de adestradoras cartilhas, onde  a gente era alfabetizado  no  pensar lendo a poesia de  Chico, Caetano, Gilberto Gil e Paulinho da Viola.

Desde aquelas antigas resistências poéticas, que devem inspirar as necessárias resistências ao fascismo teomiliciano de agora,  Gilberto Gil já era membro  da Academia Brasileira  de Letras Pensantes para cantar !

 

Viva Gilberto Gil!


















sábado, 26 de novembro de 2022

rizomas...

 

Rizomas são plantas cujas raízes crescem horizontalmente. As folhas e flores de uma planta rizomática são pequenas e discretas. Quem olha para a parte visível de um rizoma e o compara com uma imponente palmeira real [1], por exemplo, não consegue ver o verdadeiro tamanho e força dos rizomas. Pois as raízes dos rizomas crescem logo abaixo do chão, na nervura da terra.

Suas raízes abrem-se em todas as direções , como afluentes de um rio que nunca para. Não raro, a extensão da raiz de um rizoma suplanta o tamanho visível de uma palmeira real, revelando que o rizoma expressa outro tipo de nobreza: enquanto a realeza da palmeira se mede em metros acima do chão , a nobreza dos rizomas se mede pelo tanto que eles se horizontam cobrindo a terra.

As palmeiras reais são símbolos do poder de castelos e palácios; mas os rizomas são plantas que constroem pluralmente um espaço aberto , democrático. Como as árvores, os rizomas também dão frutos , e alguns passarinhos que nidificam no chão preferem a horizontalidade de certos rizomas para construírem seus ninhos.

Às vezes , a gente olha para um campo e vê inúmeras flores , parecendo que cada uma existe isolada como um ego ensimesmado. Mas se a gente pudesse olhar um pouquinho abaixo da terra, veríamos que cada flor brota de um mesmo rizoma comum que as mantém conectadas .

Na Grécia acreditava-se que nos habitam três tipos de alma: a racional, a animal e a mais originária delas: a vegetal. Tudo o que em nós é rede que conecta, é a alma vegetal-rizomática  que cuida: rede de artérias que irrigam o  corpo de sangue, ar e vida; rede de neurônios que conectam ideias; rede de cabelos que ora se trança, ora se solta ( como Frida Kahlo em “Raízes”...).

E o mais surpreendente é a arte de que alguns rizomas são capazes: se tem um muro pela frente barrando o caminho , os rizomas sobem pelo muro , descem pelo outro lado e seguem adiante ;  noutras vezes, eles escalam o tronco de certas árvores, como fazem os cipós. Depois, os rizomas exploram determinado galho como se examinassem o peso que ele é capaz de suportar . Os rizomas então se enrolam no galho e descem feito cordas : para que a gente possa fabricar com elas um lúdico balanço para as crianças brincarem.

São raízes rizomáticas assim   que brotam na linguagem brincativa-pensante   do poeta: “A poesia que brota de mim tem raízes crianceiras. ”(Manoel de Barros)


 

( imagem: Deleuze & Guattari fazem do rizoma a inspiração para a criação de uma nova filosofia)





[1] Deleuze e Guattari fazem uma distinção entre as “filosofias arborescentes” e as “filosofias rizomáticas”. As primeiras são filosofias cuja raiz é imóvel, com seu tronco e galhos configurando  um sistema fechado. E crescem verticalmente visando alcançar uma Transcendência enquanto espaço antagônico à Terra. Já as filosofias rizomáticas crescem horizontalmente: elas não se fecham em sistemas, mas se abrem em conexões que povoam a Imanência, a Terra.  Os rizomas não possuem centro, uma vez que são multiplicidades. Filosofias arborescentes constroem sistemas de conceitos fechados, já as filosofias rizomáticas às vezes se expressam  por aforismos, séries, cartas, poemas ( como os pré-socráticos e Lucrécio), enfim, por redes abertas  de ideias que se agenciam a redes de Afetos.



( "Raízes"/ Frida Kahlo)



quarta-feira, 23 de novembro de 2022

O CAPITÓLIO TEOMILICIANO

 


Segundo Espinosa, é uma ilusão imaginar que um homem autoritário  poderia se tornar um homem justo se assim o quisesse, como se a passagem da tirania  à justiça   dependesse  de um ato de vontade de tal homem.

É ilusão ainda maior imaginar que quem promove a morte e a ignorância um dia mudará e passará a cultivar a vida e o conhecimento.

Essa ilusão psicológica fomentada por setores da  mídia corporativa  imagina  que um  dia, enfim,  o  carrasco se tornará um amigo empático de suas vítimas , que desde já deveriam perdoá-lo ,  “deixar para lá” e oferecer anistia...

Publicamente,  o carrasco até parece triste, mas entre os seus ele destila ódio ressentido  enquanto afia seus instrumentos golpistas de vingança contra  a democracia.

 Se um homem autoritário , perverso e torturador   não consegue se tornar alguém diferente,  é porque disso ele não é capaz, ou seja, essa incapacidade é uma amostra pública não da  impotência  de sua  vontade, mas da natureza vil de seu caráter, um caráter de torturador sádico.

Se olharmos para aquilo que ele de fato  é,  e  não com  esperanças cegas  de como ele deveria ser, veremos que o torturador tem uma vontade bem determinada. Determinada não em mudar, e sim  determinada em continuar a  ameaçar :  a nós e a democracia

Se um homem alcançou o poder por intermédio do voto não escondendo  de ninguém que é autoritário, genocida, preconceituoso, misógino e que quer “uma guerra civil que mate uns 30 mil” , é uma ilusão achar que ele mudaria de natureza exatamente quando tem que entregar o poder.

Segundo Espinosa, a obtenção de  poder nunca tornará um tirano democrata, a não ser em palavras, enquanto ele ganha tempo para melhor planejar na surdina suas vilezas. A obtenção de poder tornará esse homem ainda mais despudorado  em ser como ele é , ao mesmo tempo que conseguirá reunir com mais submissão gente ao redor dele, gente que é como ele  , mas que tinha vergonha de assumir sua ignorância e baixeza  em público.

No final do debate na Globo, o miliciano disse: “leva quem tiver mais votos”. A mídia comemorou supondo nisso uma manifestação democrática. Contudo, na cabeça do tirano-paranoico é ele que tem mais votos! Ele nutre essa certeza paranoica que, como todo delírio paranoico, não se alimenta dos fatos, mas de negá-los.

Não é verdade que ele está “quieto”. O objetivo do miliciano é  arquitetar uma  confusão que lhe permita autoritariamente  decretar a Garantia da Lei e da Ordem ( GLO), que faria dele um tirano que estenderia tal farsa indefinidamente, impedindo a transição e pondo em risco a posse de Lula.

Não por ódio ou vingança, mas por amor à dignidade e justiça, só teremos paz quando esse criminoso e seus cúmplices  forem  julgados e presos.

 

(fiz esta postagem  logo após a vitória de Lula. Hoje , o miliciano já não esconde mais suas intenções criminosas. Precisamos ficar alertas,  é preciso agir imediatamente para frear esse golpismo teomiliciano)




 

 

domingo, 20 de novembro de 2022

fortaleza-quilombo

 

Segundo Espinosa, nós só conseguimos vencer alguma coisa que , de fora, tenta nos diminuir e apequenar se dentro de nós já houver algo que nos engrandece. Para Espinosa , o amparo interno para nos  fortalecer tem um nome: virtude.

Espinosa se difere muito da maneira tradicional de se falar do tema das virtudes. Essa palavra vem de “virtu”, que significa “força”, porém não qualquer força.

Virtu é a força potencial, é a força da potência criativa. Por exemplo, quando se quer lançar uma flecha, é preciso tensionar a corda do arco. Quando se deseja produzir música com o violão, é necessário tensionar as cordas desse instrumento. E  nosso coração só consegue impulsionar o sangue que o atravessa porque suas fibras são tensas.

Originalmente, “virtu” era o nome que se dava a essa força intensa que nasce de uma fibra. Daí vem a expressão popular: “nada somos ou fazemos, se não tivermos fibra.”

 “In-tenso”: “ir para dentro da tensão”. Assim, ser intenso não é ser nervoso ou agitado. O monge meditando vive uma intensidade, embora não esteja se agitando. Há silêncios intensos. 

A virtude é a força emancipadora  nascida das fibras da alma e do corpo conjugadas para serem cordas que  lancem longe nossas palavras e ações como flechas.

A virtude, enfim, é a potência prática e ética que educa, liberta e, quando preciso, enfrenta as tiranias.

Amor, amizade, alegria, indignação, coragem...são afetos. Mas esses afetos só se transformam em ação concreta sobre o mundo se , entrando no coração do nosso desejo, converterem-se também em virtudes, isto é,  em força que age.

Uma das principais virtudes em Espinosa é a “fortaleza”. Essa virtude lembra a “edificação” de Epicteto: quando nos querem de joelhos, precisamos edificar e pôr de pé fortalezas.

Uma fortaleza não precisa de muros ou cercas: a flor de lótus  desabrocha e persevera sendo ela mesma a despeito de  ao redor dela  predominar a lama. A fortaleza da flor de lótus  é a força que lhe é imanente, e que a lama não turva ou toca. Na sabedoria oriental a flor de lótus é considerada  o símbolo da sabedoria prática.

Epicteto foi feito escravo em Roma , como aqui Dandara e Zumbi . A filosofia foi, para Epicteto, a sua Palmares: quando o poder quer nos  agrilhoar ( simbólica ou fisicamente ),   são Quilombos que precisamos edificar, dentro e fora da gente.

Não por acaso,  na língua banto “fortaleza”  é  “quilombo”.


( imagem: ao Dia da Consciência Negra )












             ( foto extraída da reportagem do Portal das Favelas , cujo link está postado aqui acima)





sexta-feira, 18 de novembro de 2022

o tato

 

Dos cinco sentidos que possuímos , o tato é o mais ancestral.Muitos seres vivos não têm olhos e nem ouvidos, porém possuem algum tipo de tato. Pois não existe ser vivo que não possua tato. É pelo tato que o ser vivo toca e é tocado.

De tato  vem “contato” enquanto “tato mútuo”.  Não só os corpos fazem contato quando se abraçam, também fazem contato as almas quando se entendem mutuamente.

A palavra “afeto” se origina de um verbo latino que significa “ser tocado”. Assim, o afeto é uma questão de tato: tato consigo, tato com os outros, tato com o universo. Muitas vezes, não basta ter olhos e ouvidos para compreender uma situação, é preciso ter tato.

Solidariedade, tolerância, justiça, conviver democrático das diferenças...Tudo isso pressupõe , primeiramente, tato social. Ser empático, por exemplo,  é ter a sensibilidade tocada pela existência do outro, já a falta  dessa forma de tato humano caracteriza  os psicopatas.

De tato também vem “intuição”. Pois enquanto a “dedução” é um procedimento lógico-abstrato, a intuição é um contato imediato e concreto com  realidades externas e  internas.

Todos os outros sentidos vieram do tato. O gosto, por exemplo, é o segundo sentido mais ancestral, e nasceu também do tato. Sentimos  o gosto quando algo toca/afeta nossa língua e boca.

Não por acaso, “saber” vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são alimento ou veneno. E ninguém descobre a importância do ler e do pensar se não desenvolver, antes, o gosto pela leitura e pelo pensar. Pois o gosto não é algo meramente teórico, o gosto está envolvido com nossa vida e nossas ancestralidades  corpóreas .

Mesmo a visão, que é considerado o sentido mais intelectual e espiritual, mesmo ela nasceu do tato! Isso aconteceu há milhões de anos , e tem por personagem  um ancestral nosso que vivia debaixo d’água. Ao ser afetado/tocado pela luz, esse ancestral conseguiu fazer com que parte da pele dele se especializasse em sintetizar as ondas luminosas. Ele passou essa capacidade  para seus descendentes e, com a evolução, surgiu  uma abertura ao mundo visível:  nasceu a visão. Sem a inventividade desse ancestral submerso nas cristalinas águas, não teria podido  surgir Platão e sua contemplação do Mundo Celeste...

Ninguém melhor do que Clarice Lispector compreendeu essa potência  inesgotável do tato enquanto “(re)descoberta do mundo”.

Ela dizia que escrever não é retirar de dentro da cabeça ideias prontas  já conhecidas e pensadas. Escrever é pôr-se na ponta dos pés, elevando-se o máximo possível , mas sem perder o con-tato com a terra.

Depois , esticar os braços e mãos o máximo que pudermos , para  com a ponta dos dedos do pensamento tocar e colher, com o tato do afeto, o fruto que nasceu da árvore mais alta, e que parecia, aos olhos,  inalcançável.

 

“O mais profundo é a pele.” ( Valéry)


“É pelo tato que a fonte do amor se abre.”(Manoel de Barros)


(este livro de Clarice é somente uma sugestão de leitura)



quinta-feira, 17 de novembro de 2022

DEFENDER FASCISMO NÃO É “LIBERDADE DE EXPRESSÃO”

 

Se em uma prova de ciências alguém afirma que “a terra é plana” e leva zero , ele não pode contestar a nota alegando que o professor está cerceando o seu direito à “liberdade de ter  opinião”. Afirmar que “a terra é plana” não é uma opinião, e sim uma ignorância em relação ao conhecimento adequado acerca da terra.

Se alguém fala ou escreve algo que discrimina uma pessoa ou uma minoria e é processado por isso, esse alguém não pode dizer que o processo está limitando o seu direito à “liberdade de ter  opinião”, pois emitir um preconceito ou injúria não é ter uma opinião, e sim mostrar-se um criminoso.

 O direito a ter e proferir livre opinião é a base ética, política e jurídica da democracia. Mas esse direito à liberdade de opinião é universal apenas quanto à forma e não quanto ao conteúdo, pois há conteúdos que alguém diz ou escreve que não podem ser universalizáveis, se tais conteúdos expressarem   preconceitos, intolerâncias , enfim,  crimes.

Como ensina Espinosa, o pensar livre nunca é apenas uma forma ou  “casca”; pois pensar também é , sobretudo, o que expressamos no conteúdo do que escrevemos ou falamos.

Pensar é a união de uma forma com um conteúdo agenciando  a linguagem às  ideias. As ideias emancipatórias são o conteúdo do qual nascem palavras e ações democráticas , pois pensar é o antídoto para as ignorâncias autoritárias , sobretudo para aquelas que se mascaram de opinião.

O fascismo é uma ignorância que surge no início travestindo-se como direito à liberdade de opinião. O perigo é quando esses ignorantes tomam o poder do Estado, sobretudo se for pelo voto.

Pois o voto que vota em  fascista   apenas na forma é igual ao voto democrático, já que o conteúdo  do voto em fascista sempre se revela como    ódio à democracia enquanto possibilidade de decidirmos nosso presente e futuro calcados no esclarecimento, na deliberação, no debate argumentado e no voto a ser respeitado.

Para o fascista, é a força bruta militarizada que define vencedores e derrotados, e não o voto democrático. Se a democracia triunfa, eles se sentem derrotados... Por isso, a única maneira de eles vencerem é tentando matar a democracia, pois são surdos às ideias   e só sabem berrar ameaças.

O fascismo se vale dos mecanismos formais da democracia , como a eleição e o voto, para logo em seguida mostrar o que ele é em termos de conteúdo: ódio ressentido à democracia , à educação, à cultura, às artes, enfim, ódio vingativo  à pluralidade da vida.

O direito universal a ter e emitir opinião é a base da democracia formal. Porém a democracia não é apenas uma forma, ela é  um conteúdo, sobretudo .

E é sempre o  conteúdo  expresso nas condutas , incluindo as condutas verbais, que revela se a conduta em questão potencializa a sociedade ou a põe sob risco.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

a "voz do zap"...

 

A paranoia  é um delírio sobretudo auditivo. O paranoico ouve vozes que alimentam seu delírio,  um delírio preponderantemente  masculino,  de um masculino  tóxico  surdo ao feminino.

O fascismo é uma forma de paranoia que acomete uma massa de ressentidos que se arrebanham no ódio delirante contra grupos  que são estigmatizados e demonizados como “inimigos”.

São  raros poetas ou músicos paranoicos, é mais comum a paranoia em generais autoritários , juízes vingativos, capitalistas monopolistas,  moralistas hipócritas , religiosos teológicos-políticos, enfim, naqueles que têm ou buscam o poder “acima de tudo”,  demonizando  a potência democrática partilhada entre todos.

 A televisão é uma máquina voyeur-narcísica, porém o whatsapp é um dispositivo  que pode arrebanhar paranoicos .

Como se vê nesse obscuro Brasil  do “submundo virtual”,  o “zap” pode  servir  a paranoias já instaladas em quem tem a disposição para o ódio delirante, seja por motivos pessoais, religiosos ou políticos.

 A tevê se apoia principalmente na  imagem visual, porém o “zap” que instrumentaliza delírios paranoicos é sobretudo voz, uma voz  que fomenta , difunde e  confirma delírios paranoicos já instalados ou produzidos para fins teológicos-políticos.

Como se sabe, a paranoia é um delírio  auditivo no qual a realidade é negada por uma voz sem realidade concreta, nascida que é de uma fantasia mórbida persecutória.

Estamos vendo isso nessas manifestações golpistas: embora estejam  na rua, os golpistas-delirantes   vivem com o ouvido grudado no zap, pois é a “voz do zap” que confirma seus delírios paranoicos negacionistas da realidade: diante dos olhos deles está um muro de quartel, porém a voz delirante berra em seus ouvidos que ali é o muro do “templo das lamentações”, e que eles devem se ajoelhar e clamar pelo Messias-Milico-Miliciano...

A maioria dos fanáticos que usam o “zap” dessa forma doentia  quase nunca escrevem ou leem mensagens , pois eles  têm pouca ou nenhuma proximidade  com a escrita enquanto instrumento  simbólico-social para leitura e interpretação do mundo.

 Os fascistas-paranoicos  preferem o áudio enquanto vocalização de um imaginário paranoico , como o dos “tios do zap”( quase sempre, a paranoia eclode na meia-idade, sendo agravada por ressentimentos mal curados , frustações mal resolvidas  e espírito de vingança acumulado ).

Não por acaso, o rádio foi o meio de comunicação muito usado por Hitler e Mussolini. Pois a palavra de ordem paranoica depende da voz autocrática berrada , perdendo força persuasiva quando escrita.

Mas não é qualquer voz que serve a delírios paranoicos que ameaçam a pluralidade social. A voz paranoica é preponderantemente voz masculina, patriarcal, falocrática ; voz que  grita numa retórica raivosa que lembra a  retórica  berrante e monocrática de Hitler.

Essa “voz do zap” não é uma voz que se alterna à escuta para assim trocar perspectivas num diálogo e conversa. Essa “voz do zap” não é a voz autêntica das ruas. E não podemos deixar que ela fale mais alto ou tente calar a nossa voz  que, democraticamente, se fez ouvir nas urnas.

 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Cláudio Ulpiano: 90 anos.

 

Hoje me lembrei  de uma belíssima aula de Cláudio Ulpiano na qual ele narrava algo extraordinário que fazia não um poeta , um educador ou  um libertário, mas a reunião de um poeta, de um educador e de um libertário  num único ser alado e canoro: o passarinho tordo.

Quando vem o fim da tarde, esse poeta da natureza sobe ao galho mais elevado de sua árvore e canta para o sol que lhe dera um dia. É um canto de resistência  e afirmação da vida, um canto de “Amor Fati”, seja o que for que tenha acontecido naquele dia.  

Quando o sol se põe, na borda do céu perto do horizonte tudo fica colorido de púrpura. O púrpura nasce da composição da cor azul, a cor dos celestamentos ( diria   Manoel de Barros) , com o vermelho, cor da vida, cor do sangue ( não enquanto este é derramado na violência e barbárie, mas quando corre nas veias e irriga o corpo de oxigênio, alimento e vida ).

Quando o tordo assim canta, ele corre riscos. Pois soturnas aves de rapina ficam  à espreita para predar o tordo-libertário. Mesmo correndo  riscos, o tordo não se cala e , cantando, se horizonta ao céu-púrpura aberto e ilimitado.

Hoje, 14 de novembro, Cláudio Ulpiano faria 90 anos. Tive a alegria de ter sido seu aluno e amigo. Este texto é uma pequena homenagem  a Cláudio, cujas aulas são  verdadeiros cantos de tordo que  horizontam caminhos.

Viva Cláudio Ulpiano!




 

 

domingo, 13 de novembro de 2022

o estoico Paulinho: 80 anos.

 

Ontem, o  grande Paulinho da Viola   fez 80 anos! Recentemente , li entrevista na qual  Paulinho responde  a um  jornalista acerca de seu modo de ser. Paulinho é reconhecidamente alguém modesto e simples, reservado mesmo, por vezes tímido no trato.

Porém,  ele nada tem de retraído  quando se trata de expressar e extroverter a poesia popular através da música. Por outro lado, muitos cantores extrovertidos, que falam pelo cotovelo e atropelam seus entrevistadores, e que vivem a dar opinião narcísica  acerca de tudo, tais cantores extrovertidos são impressionantemente introvertidos, tímidos, quando se trata de chegar perto, e conquistar, a poesia e a música! Eles são extrovertidos apenas por fora , pois nunca saem de dentro do próprio ego.

Em seu sentido originário,  extrovertido é :  “voltado  para fora.” É extrovertido em sentido amplo quem acha dentro de si ideias e afetos que estão fora do seu ego. São afetos e ideias de uma alma coletiva que nos desabre pondo o mundo dentro de nós, um mundo plural, heterogêneo,  aberto .

Poeta é quem se abre a esse dentro de si que está fora do seu ego, para assim cantá-lo fazendo de sua voz a nossa.

Essa alma plural é o que Paulinho  chama de “alma suburbana”, enquanto ethos social originário   .A raiz “sub” não é exatamente o que é inferior, “sub” é o que está por baixo dando sustentação, como o alicerce da casa, ou feito o solo sobre o qual corre o rio, ou como  o caráter que sustenta as ações visíveis de um homem.

 É nesse sentido também que devemos compreender a raiz “sub” na “substância” de Espinosa :o sub é onde se encontra a  Potência. Em Espinosa, a Potência também é suburbana (no poeta Manoel de Barros esse "sub" da potência se torna o "pré" das “pré-coisas” : como força criativa que as desabre para se reinventarem outras coisas...).

Enfim,   suburbano não é  algo inferior à urbanidade . Sub-urbano é o alicerce da sociabilidade cujo eixo não é a propriedade privada , mas as ideias e afetos comuns que nos unem enquanto heterogeneidade democrática.

A essência desse “sub” são os  valores ético-políticos, valores esses que  se tornam música extrovertida na voz sábia do estoico  Paulinho.

Geograficamente, nosso Nordeste fica na parte de cima do Brasil, e Brasília fica no centro. Em termos políticos, porém,  nosso Nordeste é subúrbio-potência    da resistência   popular-democrática ,  antídoto  ao centralismo autoritário de Brasília.

Não por acaso , o termo “demos”, de onde vem “democracia”, não designa o centro da pólis, e sim o seu subúrbio . Um demos é sempre uma “comuna”, um “Quilombo”.

“Demos” também significa  o povo plural que nele mora e que a democracia os torna  próximos e  vizinhos, mesmo que estejam fisicamente distantes , como  o povo do Nordeste e  o povo de Madureira, terra da Portela, Escola de Paulinho.

 

 

Viva Paulinho da Viola!

 

(Imagem: Paulinho da Viola em arte de Axel Sande)



 

 















sábado, 12 de novembro de 2022

o monturo...

 

Há um poema de Manoel de Barros no qual o poeta   descreve o que aconteceu  num monturo que  ele encontrou  no meio de um  caminho ermo.

Monturo não é exatamente um monte de lixo. No  monturo estão coisas que já deram sentido a uma vida, coisas que eram   partes de um todo, mas que agora são apenas fragmentos que a natureza recolheu sem julgamento ou desprezo.

No monturo podiam ser  vistos:  os cacos do que sobrou de uma taça que outrora já esteve repleta de vinho  ; os restos de um diário cujos dias anotados há muito viraram passado   ;  a metade de uma concha que talvez já tenha guardado uma pérola dentro; as penas que já voaram  no céu aberto como partes de uma asa; a casca seca de uma cigarra que já encheu de cantos a floresta; a mortalha  de folhas amarelas que vicejaram  verdes  na primavera; os  ponteiros parados de um relógio que já marcaram horas apressadas ; um pé de chinelo solitário e  roído pelos anos em  seu solado gasto ; os retalhos desbotados  do que antes foi uma fantasia colorida; um álbum de retrato cujas fotos  o esquecimento apagou.

Junto a esses restos  também estavam: cacos de certezas que pareciam inquebrantáveis ; farrapos de verdades que pareciam eternas...

Mas debaixo do monturo aconteceu uma surpresa, um “milagre poético”: sob os cacos e pedaços, uma semente ainda estava inteira . E depois de a chuva regar o monturo e o sol o aquecer, o tempo sarou o monturo e deu à semente forças para germinar.

Da semente brotou  um caule em  rascunho  . O caule   se enroscou e subiu por um pequeno raio de sol que furou a noite do monturo. E do túmulo que o monturo era, a perseverante  semente fez dele um útero do qual nasceu uma flor: um reluzente  lírio.

 

 

 

“Poeta é ser que vê semente germinar.

Nas fendas do insignificante ele procura grãos de sol.”(Manoel de Barros)

 

"Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético.”(Manoel de Barros)

 

“Fornecer aos pensamentos fechados uma corrente de ar fresco...” (Bob Dylan)

 

“A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia,

 e pela dor eu descobri o poder da alegria.”

(Belchior, trecho da música “Fotografia 3x4”)

 

 

(imagem: “Vista de Arles com lírios em primeiro plano”/ Van Gogh)









sexta-feira, 11 de novembro de 2022

o "Mercado" e sua ideia fixa

 

Não por acaso, bastou o retorno de um governo popular-democrático para o tal “Mercado” ficar “nervoso”, “irritado”...

Os jornalistas de economia da mídia corporativa se comportam como se fossem os arautos da “racionalidade econômica”, porém têm por “Deus” uma entidade pouco racional que sempre dá mostras de irracionalidade quando um governo quer incluir no orçamento a educação, a saúde, enfim, o povo.

O tal “Mercado” ficou quietinho, com um silêncio conivente, enquanto o miliciano torturava o orçamento público para fins eleitoreiros.

Aliás, a palavra “Mercado” não é boa, pois quando o povão a ouve imagina que o tal “Mercado” é o dono da quitanda, da padaria, da farmácia...Ou seja, de gente que lida com coisas concretas.

Mas o tal “Mercado” é o templo da teologia do Capital,  seu deus único e exclusivo.

“Capital” vem de um termo latino que significa “cabeça”, porém  uma cabeça que parece ser oca por dentro, que no lugar de cérebro  tem apenas uma ideia fixa: juros, juros, juros...

O Capital é uma cabeça desconectada de   braços que produzem e trabalham, embora digam que o Mercado possui “mão”, porém é uma “mão invisível” que apenas sabe contar dinheiro, e nunca se estende para apertar a mão e socorrer  gente de carne e osso.

O Capital não é o comércio de bens e coisas. O Capital  especulativo é como um vampiro  em cujo rastro de nascimento estão as guerras (sobretudo as mais covardes), a pirataria, o roubo, a escravidão, o colonialismo,  a pilhagem...

O Capital não é o metal da moeda, tampouco o papel de que é feita a nota. O Capital é apenas o número abstrato que está na moeda e no papel, ele não é autêntica riqueza.

Pois riqueza de verdade é o níquel de que é feito a moeda, níquel que veio do seio da terra; riqueza é o papel de que é feita a nota, papel cuja origem são as florestas. 

Enfim, riqueza é tempo, trabalho, afeto, conhecimento , a terra, os rios, os mares, o ar...Riqueza é a vida, vida essa que o Capital predador parasita e tenta vampirizar...  

“Política” vem de “pólis”. Costuma-se traduzir essa palavra por “cidade” ( “Petrópolis”: “cidade das pedras”). Mas pólis também é “organização”: tal como em “própolis”, “a favor da organização”, pois a colmeia é uma organização, um “organismo vivo”.

A economia e o Mercado são partes da organização social , eles não são os donos e nem os senhores dela, embora pareça existir  neles a nostalgia atávica da Casa-grande...

Por isso, a economia deve ser sempre vista sob a ideia de uma “economia política”, cujos afetos catalizadores devem ser a justiça, a dignidade, a igualdade, enfim, afetos sociais de solidariedade e empatia como antídotos democráticos ao nervosismo e irritação de um Mercado que tenta esconder que tem sua “política” ,   mas essa “política”   sempre se revela nas  reações emotivas irracionais  que o Mercado tem diante de um governo popular-democrático.

São  monstruosas expressões tais como "capital cognitivo", "capital afetivo", "capital simbólico", expressões sempre na boca dos atuais "influencers midiáticos"...Como se um modo de produção desumano pudesse traduzir processos complexos enraizados na condição humana, como o pensamento e o afeto. O pensamento e o afeto, ao menos o pensamento e o afeto libertários, nada têm a ver com a lógica acumuladora e excludente do capital. Pensamento e afeto são potências produtivas da cooperação, da partilha e da generosidade.





quinta-feira, 10 de novembro de 2022

o autêntico sertanejo

 

Quando  bem jovem , aprendi a gostar de rock ( progressivo) , da MPB pensante , de música clássica, de jazz...Mas eu também gostava da autêntica música caipira, hoje rebatizada de “música sertaneja”. Porém, não é a mesma coisa a autêntica música caipira e a atual música sertaneja.

Sem dúvida, a autêntica música caipira também é sertaneja, pois ela nasce desses imensos sertões do Brasil. Mas o mesmo não pode ser dito da atual música sertaneja.

Um fato pode ilustrar o que quero dizer: aqui no Rio, em plena Barra da Tijuca, há uma churrascaria famosa chamada “Montana Grill”. Os donos dessa churrascaria são cantores sertanejos que posaram recentemente ao lado do miliciano.

O nome da churrascaria revela o inconsciente colonizado deles: Montana é sertão, mas sertão dos Estados Unidos...

Além disso,  os autênticos caipiras  daqui usam chapéus e calçados muito diferentes do chapéu e botas de vaqueiro do Arizona que tanto gostam de ostentar  os sertanejos adoradores  de Montana e do “fascio”.

O Movimento Antropofágico Modernista dizia que a cultura urbana brasileira nasceu do ato de devorar ativamente a cultura estrangeira, para assim assimilar o que vem de fora  e (re)inventar o nosso jeito, a nossa maneira.

A música sertaneja cujo  referencial é Montana revela algo antropofágico também, porém de alguém  que foi devorado passivamente pela indústria cultural estadunidense , mastigado como chiclete clicheroso e depois cuspido  como produto musical descartável.

No ato Antropofágico Modernista somos nós que devoramos, de forma crítica e criativa, o que vem de fora; já o  sertanejo que virou trilha sonora do fascismo é ele que é devorado pelo que vem de fora, pelo que de pior há nesse fora, nascendo assim uma traição ao caipira autêntico ( que não devora o que vem de fora, e sim  canta a alma simples , porém rica, do interior do Brasil, de um Brasil que ainda resiste , na agricultura familiar , ao poder do agronegócio miliciano-sertanejo ).

Disse isso tudo para revelar que muito senti outra perda que tivemos ontem: a do artista Rolando Boldrin, grande contador de “causos” da fala popular-cabocla-caipira, cuja origem remonta à ancestral  cultura oral dos nossos indígenas.













quarta-feira, 9 de novembro de 2022

gal

 

"Ressuscita-me
 Para que a partir de hoje
 A partir de hoje
 A família se transforme
 E o pai seja pelo menos o universo
 E a mãe seja no mínimo a Terra
 A Terra
 A Terra"


( trecho do poema de Maiakóvski, reinterpretado por Caetano e reinventado na voz da eterna Gal)














terça-feira, 8 de novembro de 2022

a besta humana...

 

Segundo Deleuze, “besteira” vem de “besta”. A besta não é um animal determinado, mas um “fundo indeterminado” oculto  em todo animal. Nos animais, porém, o instinto os dota   de certo comportamento reconhecível ,  impedindo que esse fundo obscuro da besta tome o animal.

O leão é o leão, a hiena é a hiena, o lobo é o lobo. A ferocidade desses animais não é maldade ou crueldade, mas ações que se explicam pelo instinto, pela natureza. Nenhum desses animais se comporta como uma besta indeterminada, pois seus comportamentos são explicáveis por sua natureza.

O homem é o único ser no qual o instinto não tem força para protegê-lo desse fundo indeterminado-obscuro,  tampouco pode a  inteligência , sozinha,  livrar o homem  da besta que vive nele.

As armas, por exemplo, são  ciências aplicadas ( física, mecânica, balística...)   a serviço da besta. O mundo digital, apesar de fruto da tecnologia avançada, também pode servir à mentalidade obscurantista e atrasada da besta.

Quando a besta toma a mente e a boca do homem, nasce então a besteira. Para quem sabe ouvir, crianças nunca dizem besteiras, somente os adultos que são uma besta  podem dizer besteiras que tanto doem ouvir.

 A besta pode até mesmo se servir da religião, tal como no fanatismo teológico-político  armado de intolerância. A besta pode se servir do Estado, nascendo assim o Leviatã Fascista raivosamente militarizado.

Quando a besta toma o homem, este se torna um ser irreconhecível , virando um bicho imprevisível que nem  a natureza  explica mais...

Incapaz de empatia, a besta zomba da morte, se compraz com a destruição e faz do negacionismo a sua   macabra religião.  Enfim,  a "besta" é a presença  no homem de um "buraco", de uma “obscuridade”,  de uma "morte".  Não a morte biológica, mas a morte como política: necropolítica.

Como a "besta" é movida por esse "buraco-negro", bestialmente se volta contra tudo aquilo que é criação de  luz,  como a educação, a cultura e as artes. A "besta" quer fazer tudo  ruir para seu buraco-negro para ver se o preenche, porém isso é impossível, o buraco é sem fundo... 

A besta  odeia  a natureza, e por isso quer  sempre  destruí-la : fisicamente, como faz com as florestas; ou simbolicamente,  com a “demonização”do corpo e do desejo.                                                                                                                                                                                                         

Na mitologia, a “Besta” era representada pelo Minotauro: metade touro, metade homem, a besta morava num lúgubre labirinto que prendia a todos e parecia não ter saída. Mas a bestialidade do Minotauro, sua “sede de sangue”,  não vinha do touro, que é herbívoro. A bestialidade vinha da  parte humana  acéfala,  que instrumentalizava a força bruta do touro  a serviço de sua existência doentia.

Assim, a besta é a brutalidade hedionda. Quando ela ganha um rosto, nasce então um Hitler, um Mussolini , um torturador, um miliciano...E quando a besta usa da palavra, essa se torna instrumento do ódio, da violência ,  da ignorância , enfim, da besteira enquanto antifilosofia, antieducação e anticonhecimento.


                             ( Imagem: o livro de  Zola , referência de Deleuze)