DESEJO E APETITE EM ESPINOSA
Concluindo
a Parte Três de sua Ética , Espinosa
apresenta uma “Definição dos Afetos.” A Primeira Definição tem por objeto o desejo
, e afirma: “O desejo é a própria essência do homem na medida em que esta se
concebe determinada , por qualquer uma das afecções que nela se dão, a fazer
algo.”
O
desejo não é a essência do ser humano entendida como eterna , mas enquanto está
ligada às afecções do corpo
nas relações que este estabelece com outros corpos. Importante também é a palavra “fazer” na
definição que Espinosa oferece do desejo. O fazer é a esfera da ética. Por essa
razão, há uma relação estreita entre desejo e ética.
Não se deve confundir o “querer” com o “fazer”. Pois há aqueles que apenas
querem fazer, que têm a vontade de fazer, porém não fazem. E há os que fazem,
que agem. Querer é apenas vontade, já fazer é mais do que apenas ter vontade:
fazer é passar à ação, o que inclui
também o corpo. Mais adiante, voltaremos a essa distinção entre vontade e
desejo.
Espinosa
pensa o desejo de uma maneira muito diferente da visão do senso comum ou da
psicanálise. O desejo não está circunscrito à esfera sexual,
tampouco é determinado por uma “falta de ser”. Na verdade, o desejo é um
esforço para perseverar na existência e se aperfeiçoar ( no sentido de aumento
de potência). Não lhe falta a existência, não lhe carece o esforço para
perseverar na existência ou no seu ser. Esse “esforço” também recebe o nome de
“conatus”( definido na Proposição 6 da Terceira Parte). Ou seja, cada modo se
esforça para perseverar no seu ser, no seu existir.
Aqui,
é preciso estar atento ao vocabulário de Espinosa, uma vez que ele por vezes
emprega termos diferentes para dizer a mesma coisa, porém de maneira mais
abrangente. Nesse ponto tão fundamental de sua filosofia, ao abordar o tema do
desejo Espinosa quer nos pôr próximos da
gênese de nós mesmos, conduzindo-nos a compreender uma realidade que antecede o
sujeito constituído. Nesse sentido, os termos “conatus” , “apetite” e “desejo”
são tratados como sinônimos, embora seja o desejo a ideia na qual conatus e
apetite se realizam e ganham uma identidade ( não como estado , e sim como
processo). Podemos dizer que o conatus é a potência em seu estado mais
imediato, o apetite é esse esforço direcionado a objetos , enquanto que o
desejo
é esse mesmo esforço tomando consciência ou (auto)conhecimento de si mesmo, mediando-se,
para assim não ser determinado pelos objetos
( ver, na Parte III, as Proposições 6 e
7).
Outro
termo que não deve ser confundido com o desejo é a noção de “vontade”. A
vontade é o conatus referido apenas à alma enquanto esta tem ideias , já que ,
em Espinosa, não há separação entre vontade e intelecto. Ou seja, a ideia impele à ação, ela também é
“querer”. Mas o desejar, por concernir à mente e ao corpo,
é mais do que o querer ( e é também por isso que os termos “vontade” e
“potência” não são, em Espinosa, equivalentes).
O
desejo se origina do que Espinosa chama de apetite. O apetite
concerne tanto ao corpo quanto à mente, ao passo que a vontade diz respeito
apenas à mente. O desejo nada mais é do que o apetite consciente dele
mesmo.
O
apetite consciente de si mesmo já não se deixa determinar pelas coisas que não
são ele mesmo, coisas que lhe estão fora, como bens, dinheiro, riqueza, fama.
Quando se torna consciente de si mesmo, o apetite tornado
desejo se liberta da ideia de que, para alcançar a
felicidade, precise possuir , ter, comprar , ostentar e acumular
coisas , ou rivalizar e competir para tê-las como dono exclusivo
delas.
Mas
o apetite consciente de si mesmo não significa a mesma coisa que ter
consciência do apetite. É preciso termos cuidado com o
emprego das palavras para não projetarmos em Espinosa questões que não são
dele. Espinosa não está dizendo que o apetite dependa da consciência reflexiva
de um sujeito moral. Ele afirma , ao contrário, que o desejo é o apetite
consciente dele mesmo, e desse ser consciente dele mesmo participa não apenas a
mente , participa também o corpo. Esse estar consciente não é uma reflexão, uma
“interiorização” moralizante, mas uma ação do apetite pensando ele mesmo, sua
singularização e potência, enfim, a sua conquista ética, que é a conquista de
si mesmo.
Quando
o apetite se torna consciente dele mesmo, não é apenas o apetite que se torna
consciente de si mesmo, mas todo o nosso ser: nós mesmos nos tornamos
conscientes de nós mesmos na medida em que exercemos potentemente
o desejo , isto é, na medida em que nos tornamos causa,
para nós mesmos e para os outros, mais de alegrias do que de tristezas,
mais de amores do que de ódios, mais de ações do que de reações.
Originariamente,
a palavra “apetite” tem o sentido de “pedir” , “ir em direção a”. Se
o ato de pedir não for consciente de si mesmo, se ele não se pensar, desse
pedir pode nascer um implorar , um mendigar, enfim, um padecer dependente ,
servo, reativamente passivo. Se o ato de pedir não for consciente de si mesmo,
ele pode ser atraído e ir em direção a algo que o fará perder-se de si mesmo. E
quando o apetite não é consciente de si mesmo, disso se valem os pregadores da
culpa e da "falta" com seus discursos teológicos-moralizantes
que demonizam o desejo.
Portanto,
é assim que o apetite devém desejo: pedindo, antes de tudo, a si mesmo, indo
em direção a si mesmo, à sua potência. Nesse sentido originário, ser consciente
é , em Espinosa, ter ciência e pensar sua própria existência, agindo.