terça-feira, 19 de maio de 2026

Desejo e apetite em Espinosa

 

                                               DESEJO E APETITE EM ESPINOSA[1]

 

Concluindo a  Parte Três de sua Ética , Espinosa apresenta uma “Definição dos Afetos.” A Primeira Definição tem por objeto o desejo[2] , e afirma: “O desejo é a própria essência do homem na medida em que esta se concebe determinada , por qualquer uma das afecções que nela se dão, a fazer algo.”

O desejo não é a essência do ser humano entendida como eterna , mas enquanto está ligada às afecções[3] do corpo nas relações que este estabelece com outros corpos.  Importante também é a palavra “fazer” na definição que Espinosa oferece do desejo. O fazer é a esfera da ética. Por essa razão, há uma relação estreita entre desejo e ética[4]. Não se deve confundir o “querer” com o “fazer”. Pois há aqueles que apenas querem fazer, que têm a vontade de fazer, porém não fazem. E há os que fazem, que agem. Querer é apenas vontade, já fazer é mais do que apenas ter vontade: fazer  é passar à ação, o que inclui também o corpo. Mais adiante, voltaremos a essa distinção entre vontade e desejo.

Espinosa pensa o desejo de uma maneira muito diferente da visão do senso comum ou da psicanálise. O desejo não está circunscrito à esfera sexual[5], tampouco é determinado por uma “falta de ser”. Na verdade, o desejo é um esforço para perseverar na existência e se aperfeiçoar ( no sentido de aumento de potência). Não lhe falta a existência, não lhe carece o esforço para perseverar na existência ou no seu ser. Esse “esforço” também recebe o nome de “conatus”( definido na Proposição 6 da Terceira Parte). Ou seja, cada modo se esforça para perseverar no seu ser, no seu existir.

Aqui, é preciso estar atento ao vocabulário de Espinosa, uma vez que ele por vezes emprega termos diferentes para dizer a mesma coisa, porém de maneira mais abrangente. Nesse ponto tão fundamental de sua filosofia, ao abordar o tema do desejo  Espinosa quer nos pôr próximos da gênese de nós mesmos, conduzindo-nos a compreender uma realidade que antecede o sujeito constituído. Nesse sentido, os termos “conatus” , “apetite” e “desejo” são tratados como sinônimos, embora seja o desejo a ideia na qual conatus e apetite se realizam e ganham uma identidade ( não como estado , e sim como processo). Podemos dizer que o conatus é a potência em seu estado mais imediato, o apetite é esse esforço direcionado a objetos , enquanto que o desejo[6] é esse mesmo esforço tomando consciência ou (auto)conhecimento de si mesmo, mediando-se, para assim não ser determinado pelos objetos[7] ( ver, na Parte III, as Proposições  6 e 7).

Outro termo que não deve ser confundido com o desejo é a noção de “vontade”. A vontade é o conatus referido apenas à alma enquanto esta tem ideias , já que , em Espinosa, não há separação entre vontade e intelecto.  Ou seja, a ideia impele à ação, ela também é “querer”. Mas o desejar, por concernir à mente e ao corpo[8], é mais do que o querer ( e é também por isso que os termos “vontade” e “potência” não são, em Espinosa, equivalentes[9]).

O desejo se origina do que Espinosa chama de apetite. O apetite concerne tanto ao corpo quanto à mente, ao passo que a vontade diz respeito apenas à mente. O desejo nada mais é do que o apetite consciente dele mesmo.

O apetite consciente de si mesmo já não se deixa determinar pelas coisas que não são ele mesmo, coisas que lhe estão fora, como bens, dinheiro, riqueza, fama. Quando se torna consciente de si mesmo, o apetite  tornado desejo  se liberta da ideia de que, para alcançar a felicidade,  precise possuir , ter, comprar , ostentar e acumular coisas ,  ou rivalizar e competir para tê-las como dono exclusivo delas.

Mas o apetite consciente de si mesmo não significa a mesma coisa que ter consciência do apetite. É preciso termos cuidado com o emprego das palavras para não projetarmos em Espinosa questões que não são dele. Espinosa não está dizendo que o apetite dependa da consciência reflexiva de um sujeito moral. Ele afirma , ao contrário, que o desejo é o apetite consciente dele mesmo, e desse ser consciente dele mesmo participa não apenas a mente , participa também o corpo. Esse estar consciente não é uma reflexão, uma “interiorização” moralizante, mas uma ação do apetite pensando ele mesmo, sua singularização e potência, enfim, a sua conquista ética, que é a conquista de si mesmo.

Quando o apetite se torna consciente dele mesmo, não é apenas o apetite que se torna consciente de si mesmo, mas todo o nosso ser: nós mesmos nos tornamos conscientes de nós mesmos na medida em que exercemos potentemente o  desejo , isto é, na medida em  que nos tornamos causa, para nós mesmos e para os outros,  mais de alegrias do que de tristezas, mais de amores do que de ódios, mais de ações do que de reações.

Originariamente, a  palavra “apetite” tem o sentido de “pedir” , “ir em direção a”. Se o ato de pedir não for consciente de si mesmo, se ele não se pensar, desse pedir pode nascer um implorar , um mendigar, enfim, um padecer dependente , servo, reativamente passivo. Se o ato de pedir não for consciente de si mesmo, ele pode ser atraído e ir em direção a algo que o fará perder-se de si mesmo. E quando o apetite não é consciente de si mesmo, disso se valem os pregadores da culpa e da "falta" com  seus discursos teológicos-moralizantes que demonizam o desejo. 

Portanto, é  assim que o apetite devém desejo: pedindo, antes de tudo, a si mesmo,  indo em direção a si mesmo, à sua potência. Nesse sentido originário, ser consciente[10] é , em Espinosa, ter ciência e pensar  sua própria existência, agindo.  

 



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

[2] A alegria ( Definição 2) , a tristeza ( Definição 3) , o amor ( Definição 6) e o ódio( Definição 7) , juntamente com o desejo ( Definição 1) constituem os cinco afetos fundamentais , dos quais todos os outros derivam. Contudo, a alegria e o amor têm sentidos distintos conforme derivem de uma paixão ou de uma ação ( mas nunca a tristeza e o ódio nascem de uma ação).

[3] Ou seja, embora seja um afeto, o desejo está em íntima relação com as afecções do corpo.

[4] E também a política, conforme se verá nos tratados de Espinosa que abordam mais diretamente o tema da política, incluindo o tema da democracia. Os afetos, portanto, também são temas da política.

[5] Quando se refere à dimensão sexual, Espinosa emprega o termo “libido”. Em latim, desejo é “cupiditas”.

[6] Aqui, ainda não estamos distinguindo entre as ações e as paixões, uma vez que o desejo pode padecer ou ser ativo. Não é na mera ação que o corpo faz que está a diferença entre agir e padecer, mas na ideia que acompanha essa ação: quando é uma ideia adequada, tem-se uma ação; quando inadequada, um padecer, uma paixão.

[7] Como são determinados pelos objetos as pulsões, no sentido psicanalítico .

[8] O desejo se refere às afecções do corpo e às ideias que nascem dessas afecções. Assim, o desejo pode padecer de ideias confusas, como nas paixões tristes, ou se potencializar com ideias adequadas ( que não nascem das afecções) ,  tornando-se ativo, ético.

[9] Como são em Nietzsche.

[10] Em Espinosa, tornar-se consciente  nunca é apenas uma questão psicológica, pois tornar-se consciente é  também uma questão corpórea , uma vez que o apetite concerne à mente e ao corpo.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Platão e o "espírito de comerciante"

 

No livro “A República”, Platão descreve uma situação   que ainda mantém uma preocupante atualidade. Segundo ele,  a sociedade é composta por três classes: aqueles que a devem governar com leis e regras, os que a devem defender  (as  forças de defesa  subordinadas à Constituição) e os que vivem do comércio objetivando  obter ganhos,  lucro e acúmulos.

O perigo que a sociedade corre é quando os comerciantes resolvem querer governar. Não há nenhum problema quando o comércio se exerce limitando-se no comprar e vender coisas . O risco supremo para uma sociedade é quando o espírito de comerciante quer também ser governo.

Pois quando o espírito de comerciante domina   também o Estado ,  tal espírito de comerciante  não mudará seu jeito, e assim ele continuará a fazer a única coisa que  sabe: comprar e vender. Dessa vez, no entanto, virará objeto de comércio coisas que não deveriam ter preço: como as leis , o ensino, as florestas, os mares, a saúde do povo, enfim, o patrimônio público.

E assim , é o próprio povo, ou parcelas dele,  que, em última análise,  será comprado e vendido por um preço que o espírito de comerciante se esforçará para ser o mais baixo, pois quanto mais barato for comprado e vendido o povo,  maior será o lucro de tais comerciantes espúrios com a ignorância.

Porém, temendo um esclarecimento do povo  pela ação dos que não se submetem , o espírito de comerciante sempre se associa com aqueles cujo poder é o da mídia e o das armas, mídia & militares, nascendo assim a tir4nia. A tirania é sempre cívico-militar-midiática: o capital e a mídia hegemônica unido às armas.

Por essas e outras razões, Platão define  assim  a filosofia  : anti-tirania ( seja qual for a  forma de tirania). E se a filosofia não for isso , nada é.

Como os comerciantes de alma de hoje  gostam muito de citar a Bíblia para se esconderem hipocritamente atrás dela para engarem os incautos, segue um trecho adequado para hoje : “O que está oculto sempre aparece”.( Lucas12:2)




sábado, 9 de maio de 2026

as desaprendizagens...

 

O poeta Manoel de Barros foi perguntado certa vez acerca de qual teria sido sua grande influência. Todos imaginavam que ele mencionaria um poeta, porém ele disse  que aprendeu a fazer poesia com um pintor:  Miró.

Foi assim: Miró desenhava de maneira  precisa e técnica, porém essa técnica virou uma prisão que impedia o nascimento de um mundo novo  que Miró desejava  criar. Esse mundo novo não cabia na  forma “acostumada” que se tornou  Miró e seu  pintar . Já crescia virtualmente no pintor a alma nova, porém faltava um corpo para ela: ao invés de nascer, a alma nova corria o risco de abortar.

Tomado por uma profunda crise, Miró desistiu da arte, mas a arte não desistiu de Miró. Quando tudo parecia perdido, certa vez  Miró começou a rascunhar com lápis de cor usando   a mão esquerda, mão que ele nunca usava . Era um rascunhar “brincativo” que alcançava realidades ainda não formadas, ignoradas pela mão direita.

A mão esquerda nada sabia de cânones ou fórmulas de sucesso, como sabia a mão direita. Nunca a mão esquerda ficou vaidosa por receber elogios; tampouco segurou, ostentando, prêmios e títulos, como se habituou a segurar a mão direita  .

Se a mão direita adquirisse a capacidade de falar e alguém lhe perguntasse qual a opinião dela sobre a mão esquerda,  ouviria: “ A mão esquerda é perigosa:  quer tirar o poder que conservo, ela é  subversiva!”.

As duas mãos tinham a mesma idade biológica, mas era a mão esquerda o corpo novo que a alma nova exigia . Ao começar a desenhar com a mão esquerda, cada desenho de Miró  era o desenhar de novo nascendo , fazendo-se como novidade, experiência e descoberta.

O poder estabelecido escreve suas cartilhas com a mão direita ,  porém a arte de se reinventar só a pode desenhar um instrumento não domado: a mão esquerda .

A tal “mão invisível do mercado” é mão direita que apenas sabe contar dinheiro, ao passo que a mão que doa , partilha e se solidariza é sempre mão esquerda.

A mão direita gosta de segurar armas e revólveres para fazer ameaças , mas pincéis, giz, canetas  e lápis, sobretudo os de cor, quem os segura para nos libertar é sempre a mão esquerda educadora.

A mão direita se liga a uma metade do cérebro apenas , já a mão esquerda se liga à outra metade do cérebro e ainda ao coração inteiro que, assim como ela, também está do lado esquerdo.

Em uma aula inaugural por ele ministrada no Collège de France, Roland Barthes ensinou uma lição que  lembra a “desaprendizagem manoelina”, disse Barthes:  “Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender.”

 


sexta-feira, 8 de maio de 2026

o aprender a aprender

 

                                             O APRENDER A APRENDER[1]

 

Mais importante do que querer ter poder ( potestas)  para mudar o pensamento dos outros, mais importante é conquistar a potência ( potentia)   para mudar o próprio pensamento. O que em nosso pensamento tem a força para isso? A resposta: a ideia[2]. É a ideia que tem essa potência clínica, cognitiva e afetiva de mudança.

Não a ideia pré-concebida, não a ideia pronta. Aliás, nenhuma ideia autêntica  se mostra pronta como um objeto que se compra feito e acabado. Nenhuma ideia que muda uma vida é comprada ou comprável. A ideia que muda o pensamento não é como a estátua pronta, ela é, antes, como o  instrumento que forja a madeira ou o metal a devirem estátua, obra de arte. Pois mudar o  pensamento nunca é apenas mudar o pensamento, é sobretudo construir um  modo de vida no qual o que pensamos ou falamos se torna nossa prática.

A ideia autêntica muda o pensamento que a pensa e, assim, a aprende. Aprender uma ideia é descobrir a potência de pensar enquanto mudança não apenas do pensamento, mas do modo de vida que nasce dele. Os gregos tinha um nome para esse processo: metanoia.

Não é o pensamento do professor que muda o pensamento do aluno, é o pensar do próprio aluno que , autodespertando-se, muda a si mesmo tornando-se capaz  de ensinar o que aprendeu. Pois é o aprender que é sempre ensinado , só quem aprendeu a aprender ensina esse processo àquele que com ele aprende.



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

[2] Em Espinosa, por exemplo, não se deve confundir a ideia com o atributo pensamento. A ideia é ato de pensar , é potência, ao passo que o pensamento é a forma que , como uma membrana, envolve esse processo. É a potência que explica a existência da forma: como uma pele e não como um molde, a forma  envolve a potência, sem limitá-la .

A filosofia e seu "fora"

 

                                             A FILOSOFIA E O SEU “FORA”[1]

 

“Não entre aqui quem não for geômetra, mas não entre aqui quem só for geômetra”. Essa advertência, como se sabe, estava afixada na entrada da Academia de Platão. Isso significa que o rigor da geometria é condição para auxiliar alguém a ser filósofo, porém não basta apenas isso para alguém ser filósofo.

Mas podemos ampliar seu sentido , e dizer que em qualquer espaço no qual se ensine filosofia  pode-se colocar à sua entrada: “Não entre aqui quem não for lógico, mas não entre aqui quem só for lógico; não entre aqui quem não for esteta, mas não entre aqui quem só for esteta; não entre aqui quem não for epistemólogo, mas não entre aqui quem só for epistemólogo; não entre aqui quem não for metafísico , mas não entre aqui quem só for metafísico; enfim, não entre aqui quem não for filósofo, mas não entre aqui quem só for filósofo, e não ser , enquanto filósofo, historiador, psicólogo, sociólogo, educador, enfim, poeta.

E a mais importante das advertências é esta, que também se encontra à entrada da Ética de Espinosa:  não entre aqui quem imagina que o filosofar está apenas aqui nesse espaço teórico, e ignora que é sempre na Vida que o pensar está e , vindo de fora, deve acompanhar , como que “conduzindo pela mão” e sobre as próprias pernas, todo aquele que aqui entra.

 



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

terça-feira, 5 de maio de 2026

retratos / 4 de maio

 

RETRATOS

Ao pé da amendoeira
caem inertes as folhas amarelas,
que ainda ontem pareciam eternas.

Mas acima delas,
em verdes folhas inesperadas,
abre-se em broto a vida renovada.






4 DE MAIO

Meu caro 4 de maio,
já posso te chamar de amigo?
Creio que já o somos,
e não desde agora.
Não demora chega  o dia 5,
sei que você já precisa ir embora.
Agradeço-lhe como me acordou hoje:
com a mesma novidade de quando nasci,
apesar de já serem muitos os dias de aniversário.


Amo  rever-te,
saiba disso, amigo raro.
Espero te ver de novo,
no próximo ano,
logo ao abrir de maio.


Desejo ainda muito te receber,
sei lá ainda por quantos encontros.
Não te peço nada,
nem te faço promessa.
Nunca olho para suas mãos quando chega,
nelas não indago por presentes .
O que gosto é de apertar a mão da gente,
e mais uma linha na palma escrever, sem pressa.


Sou muito grato pelo seu retorno ,
que seja sempre assim o seu chegar: novo. 
Contigo aprendo a perdoar  o que passou,
reabrindo  no peito o horizonte  que sou.
Já reparou: tudo se enfeita de azul para te ver chegar,
 e mesmo o sol egocêntrico esquece seus dezembros,
para em plácida luz nos aquecer  e renovar.

Meu amigo 4 de maio,
sei que te escondes nessa data,
qual máscara a cobrir teu verdadeiro rosto, o tempo.
Não cobro teu retorno,
tudo farei para merecê-lo,
seja qual for minha idade.
Leve minha eterna gratidão a teu pai,
cujo nome é eternidade.

domingo, 3 de maio de 2026

A amendoeira

 

Espinosa dizia que a filosofia não é uma reflexão sobre a morte, e sim sobre a vida, sua  pluralidade e potência . A Vida nunca termina: ela se metamorfoseia.

Recentemente conversando com uma amiga, partilhei com   ela como eu gostaria que fosse a metamorfose que me fizesse permanecer na Vida.

Não ambiciono outra vida no “Além”. Queria continuar numa vida que vicejasse aqui no seio da Mãe-Terra, como a vida verdejante de uma árvore.

Amo livro e árvores. O livro é para a  árvore o mesmo que a borboleta é para a  lagarta: pois o  papel que um dia foi árvore , no livro ele ganha as asas da palavra.

Contudo, para quem escreve um livro a continuidade conquistada é apenas “letral”, porém  metamorfosear-se  numa árvore é fazer parte do  Livro da Vida.

Como amo viver, espero que ainda esteja muito distante o meu “desacontececer”  ( “desacontencer” é criação de Manoel de Barros ). Mas quando eu “desacontecer”, não quero  ir para debaixo do chão. Prefiro que envolva meu corpo o fogo de que fala  Heráclito , fogo-arquetípico da Vida Imortal.

Assim, não é ao nada das cinzas  que serei reduzido, e sim ao que houver  em  mim de sumo e adubo. Depois quero ser lançado nas raízes de uma amendoeira , ser sorvido por ela e dela fazer parte. Pois a amendoeira é minha árvore favorita.

A amendoeira é prima das oliveiras, e veio clandestina do Oriente  como semente  incrustada na madeira de uma  nau portuguesa que atravessou os oceanos. Nas terras sábias do Oriente, onde  Sherazade derrotou  o patriarcal Sultão, a amendoeira era conhecida como “a árvore mais resistente”.  

Mas não desejo ser lançado nas raízes de uma  amendoeira vivendo em terreno cercado com dono e proprietário, nem quero que seja  uma amendoeira perto de estradas por onde passam carros neuróticos , apressados. Também prefiro que não seja  uma amendoeira isolada,  inalcançável .

Queria então que fosse meu  novo corpo  uma amendoeira que fizesse parte da Floresta da Tijuca, um espaço amplo , horizontado, sem cercados.

Não queria que fosse     uma  amendoeira perto de trilhas muito frequentadas, prefiro uma  amendoeira que somente poderá ser encontrada  por aqueles que amam descobrir caminhos novos: e que a estes a amendoeira possa oferecer sombra e  proteção .

Entrarei pelas raízes e atravessarei o tronco; me multiplicarei depois pelos galhos  até alcançar  a verdez dos brotos. Quero estar perto dos ninhos, sobretudo os de bem-te-vis e  pardais, para quem sabe me tornar um deles e pôr para correr os carcarás...

E que a lápide a dizer quem fui não traga meu nome ou datas: que a lápide  seja  apenas a amendoeira florescendo em maio, mês em que nasci.

“Sou tua árvore da guarda e simbolizo teu outono pessoal.

Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura.”

( esta epígrafe escolhida para o texto que escrevi é de  “Fala, amendoeira”, de Drummond; pintura: “Amendoeira em flor”/ Van Gogh)





"Por coisas singulares entendo coisas que são finitas e têm existência determinada. E se vários indivíduos concorrem em uma ação de forma que todos juntos são causas de um efeito, considero-os todos, nesta medida, como uma coisa singular."(Espinosa)




 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia do trabalhador

 

No livro “1984”,  George Orwell mostra que  um  poder t1rano não se mantém apenas com a violência física, ele também recorre à  violência simbólica : apagando  certas palavras  do uso público para assim tentar eliminar  da realidade os seres que tais palavras designam.

É o que acontece hoje  com a palavra “trabalhador”, que está sendo apagada pela mídia e donos do poder , com o apoio servil de capitães do mato, para em seu lugar   pôr “colaborador”.

Quando a França foi ocupada pelos n4zistas, eram chamados de “colaboradores” os franceses que , de forma submissa, faziam o que os dominadores  mandavam.

Não por acaso, o nome “colaborador” nasceu da boca dos patrões para designar o trabalhador que não se envolve com sindicatos, greves, luta por direitos... “Colaborador” é, na visão do Capital, o “trabalhador homem de bem”.

Porém,  “Dia do Trabalho” , conforme emprega a mídia comercial, é uma expressão  vazia, “sem gente dentro”,  diria o poeta Manoel de Barros. O curioso é que em outras datas comemorativas a mídia não diz  “Dia da Medicina”, mas “Dia do Médico”, ou “Dia da Advocacia”, e sim “Dia do Advogado”, ou  “Dia do Ensino”, mas “Dia do Professor”. Por que no dia de hoje  a mídia corporativa tenta esconder aquele que  exerce o trabalho? 

Além disso, médico, advogado , professor também são trabalhadores: cada atividade é exercida para produzir saúde, justiça, conhecimento...Pode-se, claro, com elas ganhar dinheiro, porém o dinheiro assim ganho vem do trabalho, da produtividade com coisas reais.

O Capital, ao contrário, não trabalha: ele explora quem trabalha, e quer que o explorado colabore com a exploração. 

Uma das palavras mais bonitas em grego é “eudaimonia”. No coração dessa palavra está o nome “Daimon”, pois “eudaimonia” é : “estar na companhia de um bom Daimon”.

“Daimon” é o ser que auxilia nas travessias.  Em português,  “eudaimonia” é   “felicidade”. Assim, felicidade autêntica não é posse, é travessia e processo construídos no dia a dia.

 Para os gregos, assim como para nossos indígenas, a felicidade não é mero triunfo pessoal,  mas  agenciamento coletivo na luta por travessias que nos levem à vida digna.

“Companhia” vem de “com-pane”. Em português, “pane” é “pão”. Fazer companhia é  saber “dividir o pão”. Companheiros: “aqueles que dividem o pão”.

Há o pão que alimenta o corpo: se ele faltar, vem a fome.   Mas há também o pão da dignidade e da justiça, pão que  tem o fermento da arte, da educação e da poesia,   pão que alimenta a luta de quem não se submete, como rebanho, a tir4nias...

 Creio que “colaborador” e “empreendedor” são termos que propagam a ideologia  de que o outro não é um companheiro, mas um “rival-competidor”.

Ser trabalhador  é fazer-se  companheiro das lutas comuns pela conquista e partilha dos dois pães: o que alimenta o corpo e o que nutre/liberta o espírito. Pois ser trabalhador não é só trabalhar, também é ter tempo livre para estudar,  viajar, enfim, viver com dignidade.










                        ( este filme é uma excelente dica para hoje, ele está disponível no youtube) 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Espada de Jorge

 

Quase todos nós perdemos algum ente querido durante a pandemia. E é inacreditável que não seja lembrado todo dia, pela mídia e pela justiça,  quem foi o grande responsável por esse gen0cídio  perverso e deliberado do próprio povo...

Perdi uma tia muito querida, uma segunda mãe para mim. Abril é o mês de aniversário dela. Talvez por isso, sonhei com ela no dia de São Jorge, logo após o falecimento dela.

 No sonho, ela me presenteava com  um pequeno vaso com duas folhas de Espada de São Jorge e mais  um caderno e uma caneta .  Ela nada falou, mas seu gesto e expressão  diziam muito. Depois, ela me abraçou calorosamente e se foi, unindo-se à Luz.

A Espada de São Jorge  representa não apenas  luta contra as opressões físicas e simbólicas, ela  também simboliza proteção contra  os “dragões da maldade” (como no filme  “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, do cineasta-pensador Glauber Rocha).

Atena, a deusa da sabedoria, também emprega uma espada assim nas lutas contra o monstro da ignorância  e suas obscuras e diferentes faces.  E Thêmis, a deusa da justiça, igualmente segura  uma espada semelhante, instrumento da dignidade.

A espada de São Jorge também é lança de Ogum-Zumbi que não se curva à Casa-grande; essa espada também pode ser  o fio de Ariadne com o qual Bispo do Rosário bordou suas resistências criativas; e educador é  quem escreve tendo uma espada assim transformada em caneta,  lápis, giz.

A primeira coisa que fiz quando acordei na manhã seguinte ao sonho   foi ir a uma loja de plantas aqui do bairro . Encontrei num cantinho um pequeno vaso com duas folhas de Espada de São Jorge . Elas precisavam de luz, água, enfim, cuidados. Eram as Espadas de São Jorge mais parecidas com aquelas que minha tia me presenteou desde a eternidade.

Também comprei um caderno e uma caneta semelhantes àqueles que minha querida ancestral me deu, e é nele que anoto meus escritos ( antes de digitá-los).

Todo dia cuido dessas Espadas de São Jorge e penso em minha querida tia. Elas cresceram rapidamente, se multiplicaram e até   já  floriram! Todo dia, as visita    um beija-flor que se alimenta do seu néctar.

Com perseverança diária, precisamos  regar  tudo o que precisa ser regado: planta, ideia, afeto, ação, liberdade. Para que em  tudo isso encontremos uma  espada, um instrumento de resistência e luta,  que nos proteja dos “dragões da maldade”...


(Imagem: “São Jorge”/ Kandinsky)














domingo, 19 de abril de 2026

Devir-indígena

 

Existiram e existem muitos  povos indígenas de grande valor. Mas talvez nenhum povo  tenha sido mais nobre e guerreiro do que o povo tupinambá. Os primeiros colonizadores tentaram comprar a obediência deles, não conseguiram. Depois quiseram  negar seus deuses, porém isso só fez aumentar o amor  dos tupinambás a  seus Ancestrais. Por fim, tentaram exterminá-los...

Mas  um único tupinambá tinha mais coragem e força do que dez dos mercenários invasores. Inclusive, além das flechas e lanças, os tupinambás tinham uma arma que não provocava mortes ou ferimentos, sendo  muito eficaz para afugentar o inimigo evitando derramamento  de sangue : quando percebiam que os inimigos vinham em emboscada , os tupinambás começavam a tocar uma flauta cujo  som parecia   um grito de aviso e advertência , já que a flauta   parecia dizer: “Se vierem atacar , vão terminar como eu”. Pois a flauta era feita com o fêmur oco de mercenários  incautos que tentaram escravizar  os tupinambás. Quando ouviam tal réquiem da taba, as pernas brancas dos mercadores  de gente fugiam correndo...

No final do século XIX e começo do século XX, sob a influência do positivismo, o Estado e os milicos brasileiros consideravam  um insulto viverem  aqui  povos  que não estavam nem aí para a tal “Ordem e Progresso”: tais povos eram livres e felizes só com a natureza.

Por perseguição,  os milicos obrigaram  vários povos indígenas  a se miscigenarem , outros foram caçados e exterminados. Novamente , a maior resistência veio do povo tupinambá.

Foi mais ou menos nessa época que os “Integralistas”, espécie de avôs dos bolsonarist4s de hoje, resolveram travar uma “guerra santa” contra os tupinambás . Inclusive, acusavam os tupinambás de “c0munistas”, por eles tratarem a terra  como  “bem comum” sem dono ou proprietário.

Os Integralistas fizeram lei  determinando que “os tupinambás eram povos extintos”: queriam extingui-los primeiro na lei  para facilitar depois o extermínio na realidade concreta. 

Como não conseguiam vencer os tupinambás empregando  armas e revólveres , covardemente mandaram para seus rios barcos com cadáveres infectados por doenças. Quando os tupinambás ficaram contaminados, as autoridades da época só aceitavam tratá-los   se eles se entregassem, se convertessem e deixassem de ser quem eles eram.

Os Integralistas espalharam então o boato de que o povo tupinambá estava  enfim extinto:  a “civilização branca-fundamentalista-capitalista” havia , parece,   vencido.

Recentemente, porém, descobriu-se  que os tupinambás estão vivos, eles não morreram: vivem em Ilhéus, na Bahia, ainda  lutando para manter seus territórios .

Em entrevista recente, um  cacique tupinambá respondeu mais ou menos o seguinte: “Meu povo já conhece, há séculos, os bolson4ristas: são versões novas dos antigos mercenários  e  Integralistas que tentaram acabar com a gente. Para o azar deles, corre em nossas veias o mesmo sangue dos que resistiram a eles.”