Multitudo: poesia, arte & filosofia
textos e desenhos : elton luiz
terça-feira, 7 de abril de 2026
A corrida entre a Inteligência e o Amor
sexta-feira, 3 de abril de 2026
francisco
Ouvi certa vez a seguinte
história de autoria popular ( que aqui parafraseio e interpreto): de um lado
estava São Francisco, do outro o Diabo. Separando a ambos , um muro; e em cima do muro estava alguém que se dizia “Neutro”.
Francisco
disse ao “Neutro”: “- Venha para este lado, aqui há luz e empatia
pela vida do outro.” Do lado
oposto do muro , porém, o Diabo permanecia calado.
Vendo o “Neutro” ainda indeciso e parado, Francisco prosseguia : “- Venha se juntar a nós , Buda
também está aqui; também estão Lao-Tsé, Confúcio, Orixás , Tupã, Mães-de-Santo, Pajés ... Bem como todos aqueles que, tendo
ou não religião, agiram para defender e
libertar os oprimidos e injustiçados.”
Estranhamente, o Diabo
seguia mudo, ele que gosta tanto de se vangloriar...
Então, Francisco levantou
a cabeça , olhou sobre o muro e indagou ao que reinava na treva do outro lado : “- Por que você permanece
calado?”
“- É que esse muro onde o
‘Neutro’ está instalado pertence a mim”, disse o Diabo.
Do certo lado do muro, o
poeta Manoel de Barros assim poetizou: “São Francisco monumentou os
passarinhos.”
“De pés descalços, ele dançou diante
do Papa.”(Deleuze)
"O que é inferno? Afirmo que é o
sofrimento de já não poder amar.”(Dostoiévski)
(obs: o texto se refere ao personagem social-popular
Francisco, um personagem muito presente na
literatura de cordel do nosso
Nordeste. Não é tratado o tema do ponto de vista de uma religião. Inclusive ,
dei a entender que do lado do muro onde está o personagem Francisco também
podem estar agnósticos e até os sem religião. A foto que acompanha o texto mostra
a escultura “Cristo sem teto”, obra do escultor Timothy Schmalz; a outra imagem
é a do padre Júlio Lancelloti , que foi parado recentemente pela polícia
durante evento que o padre fazia para auxiliar
os moradores de rua e sem teto)
Francisco vinha por um bosque afastado e viu uma igrejinha
em ruínas. O teto da igrejinha caiu , as paredes vieram ao chão. Nada mais ficou
de pé, exceto uma cruz em madeira que permanecia
intacta, apesar do altar destruído.
A cruz tinha o
tamanho de uma pessoa, e parecia de fato uma pessoa de braços abertos.
A madeira com a qual a cruz era feita perseverava viva, de tal modo que a cruz voltou a ser árvore que pertence à natureza , não mais o
símbolo de uma religião.
O teto da igrejinha agora era o horizontado céu; e a
mãe-terra , o seu chão.
De repente, Francisco ouviu um passarinho cantando: era um
rouxinol. E o mais surpreendente : o
canto parecia vir da cruz. No coração da cruz, onde a madeira vertical e a
horizontal se encontram, havia um pequeno buraco no qual o rouxinol estava pousado .
Parecia que o rouxinol , cantando, chamava Francisco para ver a “boa
nova”.
Quando se aproximou e olhou para dentro do peito da cruz,
Francisco viu que ali havia um ninho bem
no coração dela, no qual três filhotinhos, rompendo o ovo, acabavam de nascer.
sábado, 28 de março de 2026
ecosofia
No livro “As três
ecologias”, Félix Guattari ensina que
não existe apenas uma ecologia, existem três: a ecologia verde, que cuida da poluição do meio ambiente; a
ecologia social, que se debruça sobre as poluições que ameaçam a vida em
sociedade ( como a poluição da água e do ar, o problema do saneamento básico,
etc.); e a ecologia mental, também chamada por ele de ecosofia, que visa fazer
a crítica dos vários poluentes que poluem a mente.
Esses poluentes da mente ( ou da
subjetividade) são produzidos principalmente
pelos fanatismos diversos, pelas
fake news e pela mídia golpista.
Ou seja, cada ecologia se
preocupa em nos tornar cientes, pela
ação e pelo pensamento crítico, dos diversos poluentes que existem, dentro e fora de nós.
Nos rios e mares, os poluentes são
visíveis, e nos atingem com seu cheiro
nocivo , pondo em risco nossa saúde; mas também há os poluentes que
vêm da mídia golpista , cujo
cheiro é tão nocivo quanto e ameaça a saúde da mente ( tanto a individual
quanto a coletiva).
Essas três formas de poluição
nunca andam sozinhas: uma se alimenta da outra, de tal modo que a predação do
planeta anda a par com a imbecialização das mentes.
O citado “powerpoint” da Globo é o exemplo mais recente dessa
imundice midiática que , de forma
calculada, é produzida para ser canalizada para o esgoto das redes da extrema-direita.
Quem conhece minimamente
jornalismo sabe que , antes do tal “powerpoint” ser divulgado, ele passou por reuniões de
pauta, escrutínio de editores e
colaboração de revisores , até o texto ser encaminhado , com instruções
pormenorizadas, para o pessoal da comunicação visual transformar em imagem.
Até o dia escolhido para a
divulgação foi planejado: uma sexta-feira, para o “desmentido” ser feito apenas
na segunda, e assim dar tempo de o lixo circular durante o fim de semana no
zaps dos grupos teológicos-políticos, caminhoneiros, militares, atiradores e
outros perfis do gênero.
Só uma observação: a Globo fez
não exatamente um powerpoint, mas a reprodução imitativa de um quadro de
investigação empregado pela polícia, o que é mais grave ainda .
Esses quadros policiais têm mais
apelo no imaginário popular. Com isso ,
a Globo, de forma calculada, tenta passar a ideia que não está mentindo e
distorcendo, mas apenas reproduzindo informação que vem da polícia.
Como dizia Nietzsche : “Se você
tiver que ouvir ou ler os seres vis, não se esqueça de tapar o nariz do
espírito...”. E Foucault , por sua vez,
estava diante de imundices assim quando pediu : “Um pouco do ar do possível,
para a gente poder respirar...”
terça-feira, 24 de março de 2026
quando a palavra já não basta
Quando pensava e falava, havia um ponto , um ponto enigmático, em que Heráclito parava de exercer o logos, e chorava. Nada mais dizia, apenas chorava. Então, os adultos se afastavam, apenas as crianças ficavam perto dele.
sábado, 21 de março de 2026
o poder teológico-político
A palavra “teologia” aparece
entre os filósofos pré-socráticos. Antes deles , já existia a palavra
“teogonia” , que é o título de um poema de Hesíodo no qual se narra a origem dos deuses, a começar por Gaia, a Mãe-Terra.
Hoje , a palavra “teologia” remete a três religiões
calcadas num texto considerado sagrado
por elas: o Alcorão ( Islamismo), a Torá ( Judaísmo) e a Bíblia (Cristianismo).
“Política”, por sua vez, vem do
termo “pólis”, que significa tanto “cidade” como “organização” ( na raiz da palavra “pró-polis” , por exemplo, está “pólis”
, pois a própolis , como uma vacina, protege a colmeia enquanto “organização-comunidade”
das abelhas).
Pólis é a organização conjunta
das liberdades, para assim construir o viver em comum, preservando a
heterogeneidade dos viveres. No centro da pólis não estão Castelos ou Templos,
embora a base de toda pólis igualmente seja um livro.
Um livro que também é objeto de
uma “fé”, não uma fé religiosa, mas uma fé na liberdade, na criatividade, na
ciência, na cultura , na educação, pois essas atividades também são
“instituições”.
Ao contrário dos “Textos Sagrados”,
o livro que serve de base à pólis pode ser reformado ou até mesmo abandonado em
nome de outro texto mais justo, desde que assim decida a sociedade, após
debate, argumentação, divergência
dialogada e votação.
O livro
que fundamenta a pólis é a Constituição.
Essa palavra significa: “o que é instituído junto”, e que apenas por um querer
junto, afirmador da pluralidade, pode ser destituído.
A Constituição deve preservar a
diversidade, inclusive a diversidade de crenças religiosas, além de proteger
também aqueles que não têm crenças religiosas.
O poder teológico é um poder que
tem seu campo de atuação restrito ao templo. Porém, acontece por vezes de tal poder usurpar esse espaço de
culto, querendo se tornar também poder político.
É assim que nasce o que Espinosa
chama de poder “teológico-político”. Para triunfar, esse tipo de poder
perseguirá como inimigo tudo aquilo que a Constituição democrática simboliza. É
por isso que o poder teológico-político somente pode perdurar cooptando
exércitos e polícias.
Esse tipo de poder também costuma
se juntar aos que fazem do Capitalismo e do Mercado um Deus, a tal ponto que a
“prosperidade” econômica individual
passa a ser valor cultuado como se fosse um Dogma ( como se vê
no atual acumpliciamento fláviorachadinha-mídiagolpista).
Dizem que o orgulho não é um bom
sentimento... Porém confesso que tenho orgulho de algo: ter sido demitido pelo
profeta-Malafaia . Ele era um dos donos
da faculdade onde eu lecionava filosofia. Eu estava começando na atividade
docente, foi difícil à época ficar sem emprego, porém não me vendi. Ele me
demitiu não por eu fazer mal meu trabalho .
Ele me demitiu por eu não obedecer à tentativa dele de cercear nossa
atividade docente. Ele nutria indisfarçável horror à filosofia e aos filósofos,
só tolerando quem lhe dissesse “amém”.
Se esse srº vivesse na Grécia Clássica,
com certeza ele seria um daqueles vingativos que condenaram
Sócrates a beber a cicuta; se ele vivesse na época de Espinosa, seria talvez
aquele que mandou um fanático religioso
ferir Espinosa com um punhal...( aliás, o ato que baniu/excomungou
Espinosa ainda não foi revogado pelas autoridades religiosas :Espinosa é considerado ainda hoje por eles como
um subversivo perigoso...) . O
profeta-malafaia aparece ali na foto
junto ao seu “Messias”. Cada profeta tem o “Messias” que merece...
sábado, 14 de março de 2026
a escova do poeta
No poema “Escova”, Manoel de Barros diz ter visto, quando criança, dois homens
sentados no chão "escovando
osso" . No início, diz o poeta, “achei que eles eram loucos” .
Mas ele olhou bem e viu que não podiam ser
loucos aqueles homens. Louco , o mais
perigoso, é quem
quer impor aos outros o seu
“mesmal” . O “mesmal” é a doença de quem imagina que seu modo de viver é
o único normal.
Aqueles homens não podiam ser
loucos, pois pareciam ver a novidade onde todos veem o igual : escovando, eles queriam livrar o osso da
craca e poeira que nele grudaram .
No escovar deles também havia uma artesania semelhante à de Espinosa a polir
lentes com cuidado
O poeta descobriu então que
aqueles homens eram arqueólogos. Eles queriam ressuscitar no osso o mundo no
qual ele foi parte de um esqueleto sob músculo e pele, há milhões de anos.
E mais do que isso, eles
desejavam reviver o sentido que estava
no osso , pois nada faz sentido sozinho: o osso foi parte de
um esqueleto que era parte de um ser vivente, igualmente parte singular de um mundo hoje extinto
, do qual o osso dava o testemunho.
Para eles o osso era mais do que osso: era também o
fragmento de uma história , a nossa história,
que a vida ainda está a escrever,
com ideias e corpos, apesar das necropolíticas que querem nos extinguir.
Ao ver os arqueólogos , o poeta ainda criança compreendeu qual seria
então seu destino: o de escovar as palavras, retirar delas a idiotia, a
ignorância, o preconceito, o clichê e as
banalidades que nelas colocaram as mentes obtusas, de tal maneira que seria também uma “ecologia
mental” o que o poeta faria ao escovar
das palavras tais sujeiras e craca.
Ao escovar as palavras, o
poeta não acha “Verdades” , “Ordens” ou “Mandamentos”; ele
acha a poesia como sentido primeiro, não
conformista, das coisas : “A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que
sei” , ensina o poeta.
sexta-feira, 13 de março de 2026
A "dualidão"
Nietzsche assim dizia: “Odeio quem rouba minha solidão sem oferecer
verdadeira companhia.” A palavra “companhia” vem de “com-pane”. Em latim,
“pane” é “pão”. Assim, fazer companhia é saber dividir o pão; companheiro : “aquele
com quem dividimos o pão.”
Não apenas o pão físico, aquele que mata a fome do corpo, mas sobretudo
os pães da mente , os pães do espírito, os pães do afeto, pães esses que matam
outro tipo de fome: fome por dignidade, fome por justiça, fome por
conhecimento.Desses pães ninguém é o dono, são pães que não se compram ou
vendem no mercado, são pães que não têm preço.
Nietzsche chama de “dualidão” quando duas solidões, sem perderem a
singularidade de cada uma, decidem, por
liberdade, andarem e viverem juntas. Em carta a Overbeck, Nietzsche afirma que , ao ler Espinosa, não
viu sua solidão roubada, mas acrescida por uma outra solidão singular como a
sua. Enfim, uma “dualidão”.
domingo, 8 de março de 2026
Sofias...
Em grego, “Sofia” é
“Sabedoria”. Não se deve confundir “Sofia” com “Razão”. A palavra
“Razão” em grego é masculina (“Logos”) e
tinha em Zeus um dos seus símbolos.
Porém Zeus não era a
Sabedoria, pois Sofia é filha de Zeus com Métis. Por
possuir muitos dons e capacidades, Métis era conhecida como a deusa
das “habilidades”. Não a habilidade meramente técnica,
mas habilidade no sentido de produzir , além de ideias, um querer e
um agir múltiplo e criativo.
Métis também
estava associada à noção de “saúde” enquanto cuidado
consigo e com os outros. A palavra “caute” , base da Ética de Espinosa, provém
dessa habilidade médico-curativa . Pois de “Métis” também vem “meticuloso” , no
sentido do cuidado (“caute”) que caracteriza o bom médico ( tanto os
médicos do corpo quanto os médicos da alma, os pensadores-artistas).
Uma das características de
“Métis” é que ela era capaz de metamorfoses, de devires. Ao enamorar-se com
Métis, Zeus buscou na metamorfose dela um processo para renascer
também.
Agenciada com Métis
, a própria Razão potencializou-se para lutas que ela não tem
como vencer sozinha, lutas para enfrentar a ign0rância em suas diversas formas.
Fortalecida, a Razão aprendeu habilidades que a pura razão teórica
não ensina.
As habilidades de Métis são
artes que unem o pensar ao agir. E foi desse agenciamento mais afetivo do que
teórico , mais artístico e poético do que acadêmico, que
nasceu então Sofia, também conhecida como “Atena”, filha de Zeus com
Métis.
Os teóricos da
Razão inspiram-se em Zeus, mas os pensadores-artistas
são apaixonados por Sofia: e por essa paixão não apenas pensam, como
também agem e criam.
Na lut4 contra a ign0rância e a
obscurid4de, ontem e hoje, a Razão não vence sozinha: é preciso que a acompanhe
Sofia. Às vezes, é a própria Sofia que salva a Razão de si mesma , fecundando
nela sensibilidade e vida, impedindo assim que a Razão
fique dogmaticamente estéril, rígida.
Segundo Nietzsche, hoje a
filosofia atende por outro nome, um nome feminino também
: “Ariadne”, nome que significa “aranha”. Pois Ariadne é tecedora de
fios, fios que ela tira de seu próprio ventre, como a “linha de fuga” ensinada
por Deleuze .
Ariadne simboliza a
necessidade de um fio que nos agencie, um fio
trançado com Ideias libertadoras e Afetos regeneradores,
como mãos que se seguram umas às outras na
luta e resistência ante toda forma de tir4nia, mãos de Sofia e
Ariadne unidas às mãos de Dandara, Eunice, Fernanda, Clarice,
Marielle...
Esse fio-agenciamento que une e
salva ganha vida na voz de Elza Soares:
“Eu não vou sucumbir
Eu não vou sucumbir
Avisa na hora que tremer o
chão
Amiga, é agora, segura a minha
mão”.
( Trecho da música “Libertação”)
“A paixão sem a razão é cega;
a razão sem a paixão é inativa.”
(Espinosa)
(Imagem: a pequena Sofia)
sábado, 7 de março de 2026
Manoel e os fluxos...
No livro "O guardador de
águas", o poeta-pensador Manoel de Barros afirma que aprendeu a
guardar águas. Não ouro, dinheiro ou posses, mas águas. Guardar também é
cuidar.
As águas que o poeta guarda não
são exatamente coisas, elas são fluxos. Cuidar dos fluxos é o oposto de
construir cercas , gaiolas , muros ( literais ou
simbólicos). Os fluxos são sempre desterritorializados e
desterritorializantes : “não se pode ‘passar régua’ neles”, ensina Manoel.
Mas não se deve confundir esse “fluxo” manoelino
com aquilo que o sociólogo Bauman chama de “líquido” , ao descrever as sociedades contemporâneas .
No “mundo líquido”, as relações, os amores, as
políticas , as temporalidades, o trabalho, as subjetividades e até mesmo o
conhecimento se tornaram “volúveis-voláteis” ( como a liquidez do
Capital que a tudo desumaniza e reduz a juros e lucro).
O líquido aceita ser
limitado e contido por moldes. Já um fluxo é feito o sangue nas
veias: se não avançar, perece. Os fluxos
ou inventam linhas de fuga ou secam e morrem - e a secar resistem
com toda força que podem.
Os fluxos somente podem ser
guardados em espaços abertos. E abertos se tornam a sociedade, a
mente e o afeto se um fluxo de vida os atravessa.
Os fluxos nascem de fluxos, não
de coisas enrijecidas: o rio
amazonas nasceu da geleira no alto dos
Andes , mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo...até
alcançar o horizontado mar , para mar também se tornar.
Guardar as águas é guardar-se
nelas, como necessária arte dos (re)descobrimentos: "estou à janela e só
acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo
comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir"( Clarice Lispector, “A descoberta
do mundo”).
Somente uma fonte pode guardar
fluxos. A fonte guarda fluxos os doando, pois uma fonte é um fluxo de vida partejando
a si para matar sedes e irrigar desertos.
O fluxo é fluido, mas não é sem força ou
volúvel; ele é firme, possui consistência, porém não é rígido. Pedras não
vencem o avançar de um fluxo , enquanto pulsar a fonte da qual ele
transborda.
“Quem anda no trilho é trem de
ferro.
Sou água que corre entre pedras:
liberdade caça jeito.” ( Manoel
de Barros)
“A cisterna contém; a fonte
transborda”. (William Blake)
“O artista é aquele que converte
os obstáculos em meio”. (Deleuze)
( Imagem: “Sherazade”/ obra do
artista Samil Hilal. Como as palavras emancipadoras de Sherazade enfrentando o
poder repressor-falocrático do “Sultão”,
o agenciamento de livros forma um fluxo de ideias que segue em frente, irreprimível...)
segunda-feira, 2 de março de 2026
No caminho com Maiakóvski
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
(...)
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror."
( trecho do poema “No caminho com Maiakóvski", do poeta
Eduardo Alves da Costa)





