sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O exército pela dignidade da vida democrática

 

Um dos afetos mais políticos que há é a indignação. Quem ensina isso é Espinosa, e sua lição é mais atual do que nunca. Na raiz de indignação está a palavra “dignidade”. A indignação pode nascer  quando vemos a dignidade ser ameaçada, negada, posta em perigo.

Não a dignidade apenas pessoal, mas a dignidade da vida coletiva, sobretudo. Como ensina  Espinosa, a indignação  é o afeto que une os seres humanos justos que, agenciados, agem.

Agir por indignação nada tem a ver com buscar mera  vingança, pois a vingança é uma conduta passional , uma paixão triste.

Quem se vinga, se vinga  de alguém , e nem sempre a vingança tem uma razão de ser. Alguém pode se vingar do outro  por mera inveja ou ciúme. E essa inveja e ciúme se tornam tiranos  que dominam aquele que apenas  se vinga. Em geral, as vinganças são feitas na surdina e às costas.  

É por isso que quem age por indignação o faz movido não por desejo de vingança ou ódio, mas por amor à vida coletiva, por amor à justiça. E quem assim age também se alegra. E o faz sobretudo à luz do dia, nas praças , nas ruas, enfrentando, sem medo ,  toda forma de tirania.

Quando os indignados e indignadas se unem, formam um exército cuja arma que empunham não é para matar , mas para libertar.  

 

(Imagem : “máquina de guerra” cuja arma é o conhecimento, que é a principal arma  dos que defendem a dignidade. A  serviço da tirania, o “ministro bolsonarista” Kássio Nunes  Marques tenta por todos os meios se vingar da democracia tentando tirar do ar o “Exército de Lula”, que já conta com quase dez milhões no zap e fará uma live de 24h logo após o debate de hoje da Globo)




 

sábado, 17 de outubro de 2026

As Eríneas...

 

“Erística” vem de “éris”, palavra que, em grego, significa “ódio”. Na mitologia, de  éris nasceram as “Eríneas”, representantes do ódio e da vingança. Foram as Eríneas que despedaçaram Orfeu, o Poeta Originário. Porém, elas não calaram o poeta: pois Orfeu continuava a cantar apenas com sua cabeça.

Faz erística quem , fingindo debater , usa as palavras como instrumento do ódio e da ignorância.

 Enquanto a argumentação  é um instrumento da luz quando se precisa argumentar para se defender as  ideias, a erística é uma arma ardilosa das sombras quando os farsantes querem dar aparência de argumentação às suas mentiras.

Os erísticos aparentam debater, quando na verdade  dissimulam  seu ódio e ignorância empregando as palavras. O erístico finge argumentar, quando na verdade sua única intenção é ofender. Por essa razão, é impossível debater com um erístico, pois debater é supor que o outro com o qual se debate tem ideias a defender.

O objetivo infame do  erístico não é defender ideias, mas rebaixar o discurso   e enganar o público incauto. E foi isso que se viu ontem na entrevista do miliciano à Globo: o miliciano  passou a maior parte do tempo fazendo erística, sem ser firmemente contraditado pela  jornalista que o  entrevistava.

Qual deve ser a estratégia argumentativa  para se enfrentar num debate quem não tem ideias e se vale da erística ? 

Todos sabemos que o miliciano não vai a debates para debater, e sim para fazer erística e jogo sujo. Quando uma das partes deixa claro que jogará sujo, o jornalista-mediador não pode ter uma atitude passiva  e supostamente “neutra”, mas  ser ativo na proteção das regras.

Cometer fake news é crime. E diante de um crime não há neutralidade: é preciso combatê-lo. Quem vê um crime e não age, ou está com medo ou é conivente. Creio que a equipe de Lula deveria exigir da Bandeirantes e da  Globo uma posição firme , desde já, contra os crimes que todos sabemos que o miliciano  irá cometer.

Para um democrata como Lula, é difícil rebaixar-se ao nível de pântano onde adora ficar o miliciano, pois o pântano é o meio natural do fascista, e é por isso que ele tentará atrair Lula para esse lugar.

Por isso, Lula deve ignorar o miliciano e não interagir. Lula  deve olhar apenas para a câmera , para nós, antes tendo olhado para dentro de si mesmo e lá encontrar a força de sua história, e nela se apoiar. Não responder as perguntas nos termos de quem pergunta, mas responder nos seus próprios termos - com calma, mas firmeza.

É preciso ter não apenas um escudo que proteja, mas também estratégias de enfrentamento. A luz enfrenta as trevas sendo luz : não negando ou reagindo à treva, mas afirmando a si mesma.




quinta-feira, 15 de outubro de 2026

AO DIA DAS PROFESSORAS E PROFESSORES

 

Tempos atrás,  um amigo me perguntou se eu aceitaria lecionar filosofia para seus dois filhos, um de 10 anos e outro ainda mais jovem. Aceitei. O curso era para durar 1 mês, acabou durando 1 ano.

 O mais velho se chamava Alexandre, carinhosamente rebatizado Xandinho. Certo dia , ele e o irmãozinho estavam brigados. Aproveitei para dizer ao Xandinho:  “você sabia que ‘Alexandre’ significa ‘protetor da humanidade?’”. Ao ouvir isso, ele  olhou  para o irmãozinho  e, sem dizer nada,  o abraçou com cuidado . Nunca mais brigaram.

Naqueles encontros, eu “ia até à infância e voltava”, como diz Manoel de Barros, e aquele que ia não era o mesmo que retornava. E o que voltava vinha de lápis de cor na mão, e aprendia que as ideias que valem a pena ensinar  se deixam desenhar  com lápis de cor.

Algumas ideias eu ensinava falando, outras eu desenhava para eles colorirem:  a forma era minha, mas as cores eram eles que escolhiam para pintar, com as mãos e a mente  livres .

Perto do fim do ano, houve um feriadão. Toda a família desse amigo viajou para Londres, incluindo os dois meninos. No retorno, assim que entrei no apartamento, o pai pediu para o Xandinho   me contar o que aconteceu em Londres, mas o  menino saiu correndo, como se tivesse feito uma arte, uma “peraltagem”,  diria Manoel de Barros .

 Então, o pai me contou que eles foram ver, entre outras coisas, a cerimônia na qual a Rainha  da Inglaterra passa à frente do público, e todos se ajoelham em reverência, olhos no chão.

Mas quando a Rainha , cheia de pompa e ouro surrupiado pela pirataria e colonialismo ingleses,  passou diante deles em sua carruagem blindada  , todos se ajoelharam diante de seu poder, exceto o Xandinho. Ele ficou em pé, de braços cruzados, firme, olhando diretamente para a Rainha, que virou a cabeça para olhar , espantada,  o pequeno insubmisso.

Quando a mãe indagou ao menino por que ele não se ajoelhou como todo mundo, ele respondeu : “Não ajoelho diante de quem é igual a mim”. Ao ouvir isso, a mãe disse ao pai: “acho que já está na hora de nosso filho parar de ter aulas de filosofia...”.

Nesse mesmo dia em que ouvi o relato, dei minha última aula aos garotos. No fim, o menino da peraltagem  me perguntou: “Vai ter prova?”. Respondi: “Não , você já está aprovado. Com dez.”

 

Este texto é uma pequena homenagem à  querida Professora Nadir, minha primeira professora de filosofia . Suas aulas nos ensinavam a ficar de pé , nunca  de joelhos ( naquela época, ainda estávamos sob a ditadura...).

E aos estudantes  que,  nestes dias difíceis , têm ido às ruas para manter a democracia de pé.




segunda-feira, 12 de outubro de 2026

AO DIA DAS CRIANÇAS ( Manoel e seu devir-criança)

 

O poeta Manoel de Barros já passava dos 80 anos quando um editor pediu que ele escrevesse três memórias: da infância, da vida adulta e da velhice. Imaginava o editor que o longevo poeta teria  muito a falar de si, sobretudo de seus prêmios , sucesso e  fama ( que vieram para Manoel somente depois dos seus 60 anos...). Talvez se esperasse que Manoel  , na memória da velhice, desse  conselhos e proferisse palavras de sabedoria nascidas de sua  avançada idade.

Passado algum tempo, o poeta enviou ao editor o primeiro livro: "Memórias da primeira infância".  Em todos os sentidos, o livro foi um sucesso. Tempos depois, Manoel enviou novo livro ao editor: "Memórias da segunda infância". Como diz Manoel, poesia é saber que  “não vem em tomos” . Assim, a segunda infância não era uma sequência da primeira , não era  uma infância posterior . A segunda infância era uma segunda ida do poeta à infância sempre primeira. Manoel reservava ainda fôlego para uma nova ida à infância, e assim enviou ao editor um terceiro livro: "Memórias da terceira infância".

Como as memórias da vida adulta e da velhice não apareciam, o editor tomou coragem e indagou Manoel a respeito, e assim o poeta respondeu: “ só tive infância, não tive velhez. Só narro meus nascimentos”.

 A palavra “velhez” é uma invenção do poeta, um neologismo. “Velhez” não é uma idade, “velhez” nada tem a ver com a velhice, e Manoel é a prova viva disso.

 A “velhez”  pode tomar a vida de jovens de 20 e poucos anos , como esses jovens deputados do PL. Às vezes, é a própria sociedade que sofre de “velhez” : quando seu futuro , ainda nem chegado, já parece extinto...Nada mais velhez do que o fascismo mancomunado com o poder teológico-político , com a mídia hegemônica e o mercado.

Manoel diz que a velhez é a antipoesia, pois "poesia pode ser que seja fazer outro mundo".

O poeta também diz que  "velhez" é um tipo de vida  que se perdeu de seu "embrião", de seu começo e “minadouro” . O embrião nunca  está num passado remoto e morto. Mesmo o imenso rio amazonas tem seu embrião lá no alto dos Andes: mesmo há muitos anos a correr , o rio ainda está a nascer agora, umbilicado às águas novas.

O que para o rio são as águas, para o poeta são as fontanas palavras de seu “devir-criança”: “A palavra até hoje me encontra na infância ; não avanço para o fim, avanço para o começo: para a Origem que renova. ” (Manoel de Barros)




sábado, 10 de outubro de 2026

Luiz Francisco

 

Ouvi certa vez a seguinte história de autoria popular ( que aqui parafraseio e interpreto): de um lado estava São Francisco, do outro o Diabo. Separando a ambos ,  um muro; e em cima do muro estava  alguém que se dizia “Neutro”.

 Francisco  disse ao “Neutro”: “- Venha para este lado, aqui há luz e  empatia  pela vida do outro.” Do   lado oposto do muro , porém, o Diabo permanecia calado.

Vendo  o “Neutro” ainda indeciso e  parado, Francisco  prosseguia : “- Venha se juntar a nós , Buda também está aqui; também estão Lao-Tsé, Confúcio,  Orixás , Tupã, Mães-de-Santo,  Pajés ... Também estão   todos aqueles que, tendo ou não religião,  agiram para defender e libertar  os oprimidos e injustiçados. Olha quem acaba de chegar: Nossa Senhora  Aparecida e seu  manto azul cheio de estrelas...”

Estranhamente, o Diabo seguia mudo, ele que gosta tanto de se vangloriar...

Então, Francisco levantou a cabeça , olhou sobre o muro e indagou ao que reinava na treva  do outro lado : “- Por que você   permanece  calado?”

“- É que esse muro onde o ‘Neutro’ está  instalado  pertence a mim”, disse o Diabo.

Do certo lado do muro, o poeta Manoel de Barros assim poetizou: “São Francisco monumentou os passarinhos.”

 

 

(obs: o texto  se refere ao personagem social-popular Francisco, um personagem muito presente na  literatura de  cordel do nosso Nordeste. O tema, portanto,   não é tratado do ponto de vista de uma religião, mas a partir de uma perspectiva  política plural-inclusiva. Foto :  de um lado,   Lula e o povo que está do lado certo  ; do outro, o miliciano e seu  Mefistófeles...)








 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ato dos estudantes contra o fascismo

 

Para Espinosa, quando a gente pensa de forma livre ( isto é, potente) desse pensar nasce necessariamente um agir que não tem por  motor apenas a vontade, mas todo o corpo, incluindo nosso desejo e aquilo que em nós ainda tem força para se indignar.

A “coragem” é definida por Espinosa como “presença do ânimo”, ao passo que a covardia é sua ausência, da qual se servem os tiranos de toda espécie. Quando o ânimo se faz presente, agenciando corpo e mente, incluindo a mente e o corpo coletivos, encontramos forças para  agir  e afastar , sem medo,  o “des-ânimo”.




sábado, 3 de outubro de 2026

a demissão e a reprovação

 

Sei que o orgulho não é algo muito bom  e se deve evitar. Mas tenho dois orgulhos em minha vida de professor. O primeiro :   ter sido demitido pelo Silas Malafaia, que era um dos donos de uma faculdade privada na qual comecei a dar aulas de filosofia. Como todo tirano, ele não suportava filosofia. Como eu não dizia “amém” às suas tentativas de nos amordaçar,  ele  me deu uma “cicuta”: fui demitido. 

Na ocasião, foi uma situação difícil,  eu estava começando na profissão e fiquei desempregado. Mas pensar nas perseguições pelas quais passou Espinosa me ajudou a compreender e superar a situação , pois hoje veio que aquela demissão foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida de professor de filosofia.

O outro orgulho que tenho foi ter reprovado  Flávio Bolsonaro, ele era inscrito numa disciplina que eu lecionava,  filosofia do direito.

Ele já fazia na época o que faz hoje : burlava as regras , trapaceava  , mentia , enfim, um dissimulado. Além disso, quase não ia às aulas. Creio que naquela época ele era funcionário fantasma em Brasília: recebia sem trabalhar. Ser aluno fantasma era só mais uma faceta do mesmo mau-caratismo.

Querendo talvez despertar medo nos outros , ele não escondia de ninguém suas ligações com a milícia. Ele até se gabava disso. Hoje vejo que não o reprovei : fiz justiça. E amanhã meu voto não é de reprovação a ele , mas de aprovação  à democracia, por isso voto em Lula.

Se eu pudesse colocaria em destaque no meu currículo Lattes a demissão que sofri do tirano  teológico-político  e a reprovação  que fiz do  miliciano como exemplos do meu esforço pedagógico de trazer para a minha prática as ideias que ensino.




 


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Quando a gente assiste a um debate político na tevê, todos nós assistimos  a uma  mesma transmissão. É possível ver, no  momento mesmo da transmissão, se há tentativa de manipulação .

Mas não acontece o mesmo com o universo das Big Techs. Quando  acesso uma rede digital , por exemplo, o que aparece para mim, dizem, aparece só para mim. O que vejo e as sugestões de coisas para eu ver que as algoritmos mostram estariam  pautados nas minhas escolhas e preferências.

Mas isso é uma ardilosa e calculada  maneira de esconder a real lógica do sistema. O que aparece para cada um nós não é apenas o resultado de nossas escolhas e preferências, pois os algoritmos , na verdade, tentam induzir que determinado conteúdo é escolha nossa, quando na verdade são eles que são programados para  mostrar determinadas coisas e esconder outras.  

O poder do algoritmo  não é apenas o de mostrar: também é , sobretudo, o de esconder. Inclusive, as Big Tecks cobram para mostrar, fazendo disso um negócio. Quem não paga ou não é interessante para eles, é escondido, invisibilizado.

Quando abro meu spotify, por exemplo,  aparecem sugestões de música gospel, um tipo de música que não ouço; quando acesso o youtube, a maioria dos conteúdos sugeridos/induzidos  são de canais que não acompanho; sem falar em vários conteúdos da extrema-direita que apareceram aqui para mim no facebook.

O que a Globo mostra todos veem. Mas o que os algoritmos do facebook  decidem mostrar , como se fosse verdade, a todos os usuários que acessam sua plataforma?

Não nos esqueçamos que os algoritmos seguem uma lógica: a lógica binária do um e zero ( 1 x 0 ) ou do sim e não. A lógica dos algoritmos é polarizada. Eles alimentam a polarização para assim determinar qual  lado é zero e qual é o um.

Esse fenômeno tem reflexos na política não apenas do Brasil, mas em todas as  partes do mundo em que as Big Techs dominam. Para os algoritmos de tal sistema binário, nós somos o “zero”, enquanto que o “1” é, aqui no Brasil e no mundo, aqueles que não vão atrapalhar seus negócios espúrios. E negócios espúrios não combinam com a democracia...

As únicas maneiras de resistirmos a isso é não sermos dependentes cognitiva e subjetivamente desse poder ( que têm seus mecanismos de sedução...) , além da necessária regulação imediata desse poder , que tem dono e lado.

Na tevê , ao menos, há a possibilidade de um debate. E se esse for manipulado, é possível denunciá-lo e enfrentá-lo à luz do dia. Mas no universo das Big Techs não há debate: há apenas a imposição de uma versão única que circula como se fosse verdade , procurando despertar,  sobretudo,  sentimentos irrefletidos de medo e ódio. Esse tipo de conteúdo circulou na véspera da eleição, e muitos desses conteúdos anti-Lula  nem chegaram  até nosso conhecimento: a manipulação  ocorreu em larga escala e circulou às nossas costas, nas trevas,  e endereçado a um público manipulável .

 

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Da geometria lisa dos Egípcios ao more geometrico de Espinosa

         No texto A origem da geometria[1],  Michel Serres nos fala da origem egípcia da geometria e sua influência sobre a filosofia grega. Tales e Platão dão o testemunho  do diálogo inaugural entre a Grécia  e o Egito, entre a  pólis e a paisagem desértica, entre a escola filosófica e o plano abstrato e liso[2] do deserto, enfim, entre o pensamento filosófico e uma parte do mundo na qual África e Ásia fazem vizinhança.

É certo que todo monoteísmo é filho do deserto. Porém, não são o mesmo deserto o de  Moisés e Maomé e o que viu nascer a geometria em torno das pirâmides. O deserto teológico-político é mais hostil, pedregoso , carente de oásis...Neste tipo de deserto, o medo desperta a imaginação reativa que, fomentada pela palavra de ordem dos profetas,  passa a delirar oásis num "Além".  Já o deserto que viu nascer a geometria lembra um oceano branco e aberto , espelho na terra do amplo e horizontado céu.

O deserto teológico-político é sobrecodificado pelas “estrias da Lei”, ao passo que o deserto liso  é espaço nomádico: a presença de um sol sem nuvens projetando as  sombras das pirâmides sobre a tela plana do deserto, como uma lousa sem bordas,  criou um espaço abstrato propício à desterritorialização do pensamento em relação a todo empírico dado, para a mente então se reterritorializar sobre si mesma  e criar sua linguagem geométrica solar, apolínia. Não é uma linguagem fruto do medo e que exige  obediência a profetas, é uma linguagem que emancipa o pensamento e o ilumina com a ciência.

Ecos dessa geometria lisa criada pela própria natureza chega até Espinosa, que a reinventa. Pois em Espinosa  a Natureza não está contida ou limitada pelas formas geométricas-apolínias, como a interpretou Platão; ao contrário, são as formas geométricas que estão contidas e são explicadas pela Potência Incontível , “Dionisíaca”, da Natureza.

 

[2] “Lisa” , segundo Deleuze & Guattari, é toda realidade que é fluxo, devir; já “estriada” significa uma realidade codificada, estratificada, hierarquizada.

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[1] "A origem da geometria" é um capítulo deste livro de Serres:  Hermes : uma filosofia das ciências.








terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ócio e filosofia

 

                                       ÓCIO E FILOSOFIA [1]

 

Há uma ideia muito equivocada que se atribui a filosofia ao ócio, como se o estudo da filosofia dependesse do ócio. Esse equívoco vem de certa interpretação anacrônica das condições segundo as quais a filosofia grega  ( e romana) era ensinada e praticada em suas escolas.

Na verdade, o tal “ócio” filosófico  significa : “dispor de tempo livre”, isto é, de tempo livre para se dedicar à filosofia , e não de tempo livre para não fazer nada ou se entregar à preguiça. Os que buscam o ócio para a preguiça, e associam o ócio a não fazer nada, esses jamais agenciarão sua vida à filosofia, uma vez que o estudo da mesma requer esforço e dedicação .

Epicteto, por exemplo, nasceu sob a condição de escravo, e mesmo ele encontrava tempo para se dedicar à  filosofia. Aliás, o primeiro efeito da filosofia em nossa vida é exatamente não perdemos tempo , como ensina Proust, com coisas que nos roubam tempo ( o mundo digital está repleto de ladrões assim, ladrões que nos roubam com nosso consentimento voluntário...).

Mas aquele que quer  realmente dispor de seu tempo, descobre que dispor do tempo é, primeiramente, dispor da própria vida, conquistando autenticidade e autonomia. Vejam o caso da poeta Carolina de Jesus: mesmo vivendo em condições materiais extremamente difíceis , ela conseguia tempo para se dedicar ao estudo e à leitura. O tempo que assim se conquista também serve de resistência anímica , já que ele não se mede em termos quantitativos do relógio que afere o tempo mecânico do trabalho, mas em duração qualitativa e intensiva.

Não é o ócio a condição da filosofia, e sim o saber dispor do tempo, evitando desperdiçar o mesmo em práticas que nos roubam exatamente o tempo. Assim compreendido, o tempo de que dispomos é como a água de uma cisterna. Alguns a desperdiçam lavando calçada,  e imaginam assim fazer bom uso dela; mas há os que a reservam para matar a sede e satisfazer a necessidade[2]  , sem esquecer de  regar  as flores e manter viva a beleza[3].




[1] Texto elaborado pelo prof. Elton Luiz. Este texto aborda um dos temas da palestra que farei em Santa Catarina, no dia 02 próximo. 

[2] Tema do livro : Sobre a brevidade da vida, de Sêneca. Nesse livro, o filósofo assim exemplifica quem sabe dispor do tempo : “É possível discutir com Sócrates, duvidar com Carnéades, repousar com Epicuro, vencer com os estoicos a natureza humana, com os cínicos ultrapassá-la. Já que a natureza nos permite participar de qualquer época, por que não nos voltarmos por inteiro deste exíguo e cadente trânsito temporal para aqueles períodos que são imensos, que são eternos, que são compartilhados com mentes melhores?” (pág. 21 da edição da Companhia das Letras,

[3] Como complemento, sugiro a leitura do texto “A filosofia é um luxo?” ,  livro :  Exercícios espirituais e filosofia antiga, de Pierre Hadot ( São Paulo, É Realizações, 2014).

domingo, 27 de setembro de 2026

A democracia originária: nós...

 

Rousseau é um dos maiores  pensadores da democracia. Uma de suas principais lições, mais atual do que nunca, diz mais ou menos o seguinte: o que garante o espírito democrático de uma sociedade, e distingue os cidadãos livres dos tiranos, é o princípio da maioria.

Mas há dois sentidos para maioria : um sentido derivado  e um sentido originário e primeiro  (do qual o sentido derivado depende).

No sentido derivado, a maioria é uma noção quantitativa expressa pelo “maior número”. Numa eleição, os vencedores são os que obtêm maior número de votos. Se os derrotados forem  não democráticos, podem querer se vingar ressentidamente , não aceitando o resultado e fazendo ameaças ( como fez o miliciano em 22), pondo em risco toda a sociedade.

Já na acepção originária ou primeira, “maioria” tem um sentido qualitativo enquanto princípio ou regra constitutiva da vida democrática, e antecede a prática quantitativa e numérica eleitoral do voto.

Essa acepção primeira  de maioria  pode ser assim enunciada: “Todos devem estar de acordo que ganhará as eleições , e governará , o partido ou coligação que  obtiver o maior número de votos, a partir da decisão livre e soberana do povo.” Aqui, a  expressão “todos” indica uma maioria qualitativa, e envolve todos os cidadãos como membros da pólis, antes mesmo de haver a definição de ganhadores e  perdedores , segundo a quantidade de votos.

Os tiranos são aqueles que não aceitam essa regra qualitativa da vida democrática : o inimigo deles não é tanto o oponente em uma eleição, mas o princípio democrático que serve de base e legitima uma eleição. O resultado de uma eleição é quantitativo  e se mede por votos, mas o princípio democrático que fundamenta toda eleição é qualitativo e anti-tirânico.

O tirano não tem a qualidade democrática para conviver com a democracia: do ponto de vista dessa qualidade , a mentalidade do tirano é sempre “pequena”, mesmo quando eleito por um maior número.

Mas a mera  soma numérica de mentalidades pequenas forma apenas um rebanho ( ou “a facção mais numerosa”, no dizer de Oscar Wilde), nunca alcançando a qualidade pensante pressuposta pela mentalidade democrática ampla e heterogênea.

Não foram os gregos, e sim  os povos indígenas da América Latina que inspiraram Rousseau a pensar e defender o princípio constitutivo de toda sociedade democrática: foi com os indígenas que o filósofo  aprendeu acerca da “democracia originária”.

  

 ( Este livro , "Nós", é apenas uma sugestão de leitura)