Multitudo: poesia, arte & filosofia
textos e desenhos : elton luiz
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
sábado, 12 de setembro de 2026
Penélope
Após se perder no oceano e quase
morrer, Ulisses naufraga na ilha de
Calipso, que o salva e sara. Depois, Calipso oferece a Ulisses uma bebida que o
tornaria imortal, ou seja, ele ficaria livre da dor, da tristeza, da velhice,
da morte...
Mas Calipso faz uma exigência: se
ele escolher tomar a bebida da imortalidade, deveria ficar para sempre na ilha,
esquecendo sua condição humana. Então, Ulisses deveria fazer a seguinte
escolha: ou escolher uma espécie de “zona de conforto” sem fim, ou escolher a condição
humana , com tudo o que nela há de risco, dor, contradição, perda, angústia...
Para surpresa de Calipso, Ulisses
escolhe a condição humana, renunciando à “zona de conforto” interminável que
lhe oferecia Calipso. Quando indagado por Calipso por qual razão renunciava à
imortalidade, Ulisses responde que nada havia de mais forte nele do que a
saudade da sua terra natal, na qual o esperava Penélope, seu par ( um par é
composto por dois seres ímpares que se
somam).
Porém, em Ítaca, a terra natal de Ulisses,
Penélope estava sendo assediada e ameaçada pelos “pretendentes”.
No livro O que é a
filosofia? , Deleuze & Guattari retomam essa história e a interpretam da seguinte forma: “Penélope” é para
Ulisses o mesmo que o Afeto potencializador representa para o
pensador de não importa qual área. Pois não somente as ideias nos servem de
orientação, também são como “bússolas” os Afetos que dão sentido e direção
a uma vida.
Alguns “pretendentes” queriam comprar Penélope, outros a ameaçavam violentar
e tê-la à força. Mas Penélope não se põe à venda e resiste às
ameaças dos usurpadores.
Em não importa qual área ou
situação, os “pretendentes” simbolizam aqueles que acham que tudo tem um
preço, incluindo os seres humanos. Os
pretendentes têm a pretensão de obter coisas para as quais não se prepararam ,
não se cultivaram e nem se dedicaram. Por isso, querem obter as coisas por meio
da trapaça ou da força, incluindo a força suja do dinheiro inescrupuloso , passando
por cima dos valores, da ética, enfim, das pessoas.
Simbolicamente, Penélope é
a parte da alma sã que aguarda o retorno do eu a si mesmo, o eu que se perdeu
do caminho que o conduz a si mesmo: “voltar ao lar em si mesmo” , como escreve
o poeta Rilke.
O nome “Penélope” significa : “Aquela que tece”. Ela tecia puxando o fio do
afeto do qual seu coração corajoso era o novelo. Todos aqueles que , tecendo palavras,
ideias e ações, assim perseveram e resistem à infâmia e à ignomínia , as de
ontem e as de hoje, têm em Penélope a
sua ancestral.
domingo, 6 de setembro de 2026
luzeiros
1.O galo canta porque
ele pressente, ainda em meio à noite, a manhã chegando. Não seria esta a
essência de todo cantar: anunciar , na manhã que vem, todas as manhãs que ainda
vão chegar?
Sempre haverá uma manhã por vir, por mais longa que seja a
noite. Disso sabe quem canta.
“Poeta é fazedor de amanhecer.”
(Manoel de Barros)
“Descanse tranquilo onde cantam:
os maus não cantam.”
( Schiller)
2. Quando uma nave
espacial sai da terra e entra no espaço, de imediato os
astronautas veem que o céu não está
apenas acima: ele está também atrás, dos
lados e igualmente abaixo.
Nessa perspectiva desegoificada , tudo é céu...Não um “céu”
prometido para depois da morte, e para o qual se negocia dízimo como entrada , mas um céu horizontado da Vida por toda
parte.
E nesse céu nenhum
inferno pode ser achado, muito
menos o tal inferno que os
“inquisidores” de toda espécie, ameaçando quem é livre, dizem existir
debaixo.
Nesse céu há apenas o fogo das estrelas , sóis e cometas, que não queimam
por terem pecado, e sim porque neles o mistério é luzeiro iluminado.
“Poesia é celestar as coisas do chão.”
(Manoel de Barros)
“Filosofar é se colocar da perspectiva da eternidade, para
melhor ver o que acontece no aqui e agora.”
(Espinosa)
domingo, 30 de agosto de 2026
Manoel de Barros: uma didática da invenção
No poema “Escova”, Manoel de Barros diz ter visto, quando criança, dois homens
sentados no chão "escovando
osso" . No início, diz o poeta, “achei que eles eram loucos” .
Mas ele olhou bem e viu que não podiam ser
loucos aqueles homens. Louco , o mais
perigoso, é quem
quer impor aos outros o seu
“mesmal” . O “mesmal” é a doença de quem imagina que seu modo de viver é
o único normal.
Aqueles homens não podiam ser
loucos, pois pareciam ver a novidade onde todos veem o igual : escovando, eles queriam livrar o osso da
craca e poeira que nele grudaram .
No escovar deles também havia uma artesania semelhante à de Espinosa a polir
lentes com cuidado
O poeta descobriu então que
aqueles homens eram arqueólogos. Eles queriam ressuscitar no osso o mundo no
qual ele foi parte de um esqueleto sob músculo e pele, há milhões de anos.
E mais do que isso, eles
desejavam reviver o sentido que estava
no osso , pois nada faz sentido sozinho: o osso foi parte de
um esqueleto que era parte de um ser vivente, igualmente parte singular de um mundo hoje
extinto , do qual o osso dava o testemunho.
Para eles o osso era mais do que osso: era também o
fragmento de uma história , a nossa história,
que a vida ainda está a escrever,
com ideias e corpos, apesar das necropolíticas que querem nos extinguir.
Ao ver os arqueólogos , o poeta ainda criança compreendeu qual seria
então seu destino: o de escovar as palavras, retirar delas a idiotia, a
ignorância, o preconceito, o clichê e as
banalidades que nelas colocaram as mentes obtusas, de tal maneira que seria também uma “ecologia
mental” o que o poeta faria ao escovar
das palavras tais sujeiras e craca.
Ao escovar as palavras, o
poeta não acha “Verdades” , “Ordens” ou “Mandamentos”; ele
acha a poesia como sentido primeiro, não
conformista, das coisas : “A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que
sei” , ensina o poeta.
sábado, 29 de agosto de 2026
democracia
Em muitas
comunidades indígenas também se delibera
e vota , e várias dessas comunidades teriam muito o que ensinar sobre democracia até aos
Gregos! É um equívoco imaginar que o
cacique é “quem manda”. Nas assembleias dos povos indígenas a democracia é
direta: cada um expressa sua própria voz e ouve, diretamente, a voz do outro
que também delibera.
Na política
representativa dos brancos um deputado representa ( ou re-apresenta) o
interesse de alguém ausente , ao passo que na ágora dos indígenas cada um
participa presentando-se , isto é, fazendo-se presença diante dos outros, seus iguais.
Nas comunidades
indígenas não existe interesse privado
superior ao interesse comunitário. Em
grego, “privado” é “oikos”, de onde vem “economia”. Entre os povos originários
também não há quarteis , templos ou mercado querendo se
sobrepor à comunidade. Assim, entre os indígenas o que vem primeiro é sempre a política, e não
os interesses privados econômicos
ligados a grupos ou famílias
poderosas.
Nas votações e
deliberações da democracia indígena há apenas uma condição para a decisão vitoriosa virar regra . A
condição é: a posição vitoriosa precisa ser unânime. Sendo unanimemente aceita,
ela será vista como vitória de cada um. Por isso, tal decisão unânime tornada
regra não precisará de polícias ou
repressão para ser cumprida.
Ela se torna unânime não
porque uma parte imponha a outra seu poder, mas sim porque todos compreendem que a proposta vitoriosa é boa para a
comunidade como um todo. Quando a regra é assim, ela é obedecida sem precisar
de ameaças , pois tal regra não é lei a
serviço de elites e castas. E quando se
detectava índole de tirano em alguém ,
aplicava-se como punição o ostracismo.
Segundo Lévi-Strauss,
entre os indígenas a decisão vitoriosa precisava ser unânime para não gerar
derrotados. Pois derrotados podem
guardar mágoas geradoras de ressentidas vinganças ( como Aécio Neves em 2014 , Bolsonaro em 2022 e o
Flávio Rachadinha já está preparando a mesma coisa...).
Essa sabedoria política dos indígenas evitou que nascessem ódio internos que
poderiam gerar divisões da sociedade em castas e classes desiguais, com uns se
julgando superiores aos outros ou se achando dono da aldeia e querendo impor
“Ordem” à força.
Nas comunidades
indígenas, as ocas são amplas e acolhem
muitos em igualdade, elas não são uma “Casa-grande” para poucos privilegiados. Nessa democracia
originária não há privilégios, a não ser
o privilégio de participar da comunidade e honrar os ancestrais. E os
guerreiros não são generais que ameaçam o próprio povo supondo-o “inimigo
interno”. Os guerreiros só agem contra as ameaças externas que colocam em risco a comunidade .
A unanimidade vitoriosa , desejo comum da comunidade, não
era portanto a imposição da vontade de um chefe ou de um “Partido”, ela era
construída coletivamente, pois o amor à aldeia era maior do que o apego de cada um ao
próprio ego. Unanimidades conquistadas assim não são “burras”, são
sábias.
/// /// /// ///
O espaço simbólico da democracia é a praça,
um espaço horizontal. Na Grécia , a praça era chamada de “ágora”, o coração da pólis.
“Ágora” vem de “agon”, que significa “conflito”
ou “disputa”. Não a disputa bélica baseada na força bruta, e sim disputa de
ideias apoiada na força da palavra tornada argumento.
Os que empreendiam tal disputa
medida pela força das palavras veiculadoras de ideias eram chamados de “politikos”.
O espaço contrário ao da pólis
era o “oikos”, a “vida privada”. De oikos nasce oikonomia , economia, enquanto
dimensão dos interesses privados. Na pólis, ao contrário, deveriam preponderar
os interesses públicos
Na ágora, perspectivas diferentes
se enfrentavam mediante argumentos . E o
critério que definia qual perspectiva seria vitoriosa , obtendo mais votos, era
aquela que mais expressasse o interesse
comum, o interesse público.
Mas quando alguém ou algum grupo
se valia do espaço político para fazer prevalecer interesses meramente privados,
usavam a palavra como meio de ardilosidade, dissimulação e ataque.
Por isso, só pode haver debate
político se aqueles que se enfrentam por meio de argumentos tiverem como motor
de suas palavras o interesse público. Ao contrário, quando uma das partes usa o
espaço público para tentar sujeitá-lo a interesse privados ou criminosos, quando
isso acontece é impossível o debate de ideias, uma vez que a parte que
escamoteia interesses inconfessos se valerá apenas de erística.
“Erística” vem de “éris”, que significa “ódio”, inclusive
ódio de classe , como se viu na entrevista-erística que o JN , servindo a
interesses antagônicos ao da democracia, fez com o Lula.
É por esse e outros motivos que
considero mais adequado o Lula não ir a esses espaços erísticos , nos quais
será apenas atacado por aqueles que , servindo ao capital predatório ou a
interesses autoritários ( e capital predatório e autoritarismos se apoiam um no
outro), querem submeter a pólis ao mercado, à caserna ou a templos ( ou aos
três mancomunados).
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
domingo, 16 de agosto de 2026
regeneratio
Ao pé da amendoeira caem inertes as folhas amarelas, que
ainda ontem pareciam eternas.
Mas acima delas, em verdes folhas inesperadas, abre-se em
broto a vida renovada.
( esses versos de Manoel que estão na imagem fazer parte do poema "Aprendimentos")
sábado, 15 de agosto de 2026
(po)éticas: espinosa & manoel
Manoel & Espinosa:
(po)éticas
1- Desde menino, o filósofo
Espinosa demonstrava uma capacidade impressionante para “ler” as pessoas, revelando um saber
intuitivo acerca da natureza humana, conhecendo
o que nela há de luz e de
sombras.
Sabedor disso, o pai de
Espinosa, senhor Miguel, que era comerciante, sempre pedia conselhos ao seu filho acerca da
índole de determinado devedor.
Embora tivesse
apenas 11 anos , com olhos penetrantes o menino Espinosa conseguia
distinguir quem estava em reais dificuldades (cuja dívida era perdoada) , de quem fingia aperto por mera desonestidade.
Certa vez, o senhor Miguel nutria
esse tipo de dúvida acerca de uma senhora que lhe devia determinado valor. Ele pediu ao menino
Espinosa para ir à casa de tal senhora. O menino foi.
Quando o menino Espinosa bateu à porta da residência da devedora
suspeita , esta apenas entreabriu a porta , mal conseguindo disfarçar certo
nervosismo ( ela já adivinhava
o motivo da visita e conhecia a fama do menino...).
Fechando de novo a porta, falou:
“Espera um instante , estou lendo a
Bíblia, primeiro nossos deveres com Deus”.
Ela leu bem alto a Bíblia , de
fora dava para ouvir. Depois, reabriu a porta já com o dinheiro na mão.
Ao mesmo tempo em que colocava
rapidamente a soma na mão do menino, ela disse: “As pessoas de bem sempre leem a Bíblia e falam de Deus,
nunca se esqueça disso menino. Agora vá”, e fechou
abruptamente a porta.
Após alguns segundos, ela ouviu
novamente batidas à porta. Quando abriu, viu de novo o menino Espinosa, que com
calma, porém firme, lhe falou: “Minha senhora, o valor que a senhora me deu
está faltando” .
O menino Espinosa estendeu então novamente a mão
esperando receber mais do que o dinheiro
faltante , ele queria receber,
sobretudo, outra coisa que faltava: a
verdade.
2- Manoel de Barros se formou em
Direito. No entanto, seu primeiro cliente foi também o último. Tratava-se de um
comerciante acusado de desonestidade no
uso da balança : na hora de pesar a mercadoria, sorrateiramente ele apoiava o
dedo para aumentar o peso de forma fraudulenta.
Uma senhora prejudicada pela
desonestidade do mau comerciante
resolveu abrir um processo contra
ele.
Na primeira vez em que esteve com
o tal comerciante, Manoel pediu para conversar a sós com ele, e indagou: “É verdade o que ela diz?
Você burlou o peso?” E o dissimulado respondeu: “É verdade. Mas inventa uma
história para me defender, fique tranquilo: pagarei bem a você.”
Manoel pediu licença
ao farsante e foi conversar com o dono do escritório de advocacia,
dizendo: "Desisto do caso, não vou me vender para defender as mentiras
desse desonesto. A invenção de
que gosto é outra: não é invenção que nega a realidade; a invenção
que gosto é a da poesia: invenção que
amplia o mundo ”.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
O antídoto ao reducionismo é a pluralidade.
Em geral, os racionalistas identificam o pensar ao conhecer,
reduzindo o todo a uma de suas partes, isto é, a filosofia à teoria do
conhecimento. Esse reducionismo não só retira do pensar sua potência própria,
como também ignora que o pensar não é atividade exclusiva da filosofia, uma vez
que o pensar pode ser expresso também nas artes.
Há ainda outro reducionismo tão ou mais limitador e pernicioso: o de
reduzir o afeto e o sentir ao mero sentimento, como o
fizeram os românticos. Nesse sentido, racionalistas e românticos de todas as
épocas formam as duas faces da mesma moeda.
Esse fenômeno duplamente redutor operado pelo par racionalismo-romantismo
revela , por mais paradoxal que seja, o quanto racionalistas e românticos estão
próximos, uma vez que o racionalista, em seu credo “objetivista”, confunde o afeto com o sentimento meramente
subjetivo, nesse aspecto sendo romântico; e o romântico combate a razão por que
confunde o pensar com o conhecer, tomando este por aquele, como faz o
racionalista.
O que racionalistas e românticos ignoram é que não há pensar sem afeto, e
que o afeto potencializa o pensar, ampliando o conhecer para além do mero racionalismo
e libertando a sensibilidade do emotismo
subjetivista.
É sobretudo na arte que o pensar e afeto se agenciam e se somam, expressando uma potência emancipadora ao mesmo tempo singular
e plural, ensejando perspectivas pedagógicas, clínicas e políticas criativas,
sem deixarem de ser críticas .
E quando na filosofia pensar e afeto são afirmados assim , a própria filosofia se converte em arte de
pensar, isto é, poiésis.
( este livro é apenas uma
referência para quem quiser saber mais sobre o tema)
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
A chave-mestra
(Este texto é um comentário ao
Prelúdio 51 de A gaia ciência. Nietzsche afirma que seu leitor deveria
ter “bons maxilares e estômago”, mais do que mera inteligência analítica e
memória. Pois “meus textos, dizia ele, é para serem digeridos”, isto é,
absorvidos e incorporados àquilo que em nós é vivo e singular)
Onde quer que estejas, cava profundamente;
a teus pés está a nascente.
(Nietzsche, “A gaia ciência”).
Há um estado de intuição para o qual a realidade, seja
ela qual for,
só pode ser formulada poeticamente, segundo modos
poemáticos;
e isso porque a realidade, seja ela qual for, só se
revela poeticamente.
Julio Cortázar[1]
Uma chave específica abre apenas a porta na qual está a fechadura que tem
a forma dela. Porém, nenhuma outra porta diferente ela consegue abrir, todas
estão fechadas para ela. Cada cientista em sua especialidade abre apenas uma
porta: a chave do físico, por exemplo, abre somente o universo físico, sua
chave não consegue abrir o universo psíquico; já a chave que tem o químico abre
apenas o universo químico, não serve para abrir outras realidades diferentes da
química.
O mesmo acontece com o filósofo que se torna especialista em apenas uma
parte da filosofia: se ele fizer da lógica sua chave exclusiva, por exemplo,
apenas a porta da lógica ele conseguirá abrir; se for a chave da estética a que
ele exclusivamente usa, somente essa porta específica abrirá para ele,
permanecendo as demais cerradas, inacessíveis, trancadas.
E o pior acontece quando um filósofo reduz toda a filosofia àquela porta
que ele consegue abrir, reduzindo a filosofia a apenas um aspecto dela (como
aqueles que, de forma reducionista, consideram que a filosofia é, antes de
tudo, uma lógica ou uma epistemologia[2]...).
A especialização não é um problema em si, ela apenas se torna uma limitação
quando se quer fazer dela a norma para a filosofia.
Por isso, argumenta Nietzsche, o autêntico filósofo é aquele que deve ter,
antes de tudo, uma chave-mestra. Uma chave-mestra é aquela que abre
todas as portas. Não só abre todas as portas, mas as compreende como entradas singulares
para uma mesma casa onde o pensar mora, um pensar umbilicado à vida. Uma casa
cujo piso é a terra e seus horizontes, e o teto é o céu com suas infinitas
estrelas[3]
: "Minha casa pegou fogo, o teto ruiu...Nada me esconde mais a
deslumbrante lua. " ( Koan japonês)
A porta aberta é o espaço de expressão e manifestação de Hermes. “Hermenêutica”
tem no coração o nome Hermes[4].
Assim, a chave-mestra também é chave hermenêutica que destranca e põe em
comunicação espaços disciplinares fechados, ensejando assim uma inter/transdisciplinaridade.
A chave-mestra não torna aquele que a possui mais especialista em uma
área do que o especialista da área em questão. Conforme já dissemos em outro
texto-aula[5],
“holístico” vem da palavra grega “holos”, que pode significar tanto “todo” como
“completo”. A visão holística se contrapõe à postura meramente compartimentada e estanque
do conhecimento ( que Paulo Freire nomeia como “ensino bancário”).
O pensamento holístico integra as dimensões epistemológicas, éticas e
estéticas à situação existencial do educando, tendo como objetivo
potencializá-lo como ser humano. A chave-mestra é uma chave holística, uma vez
que o autêntico conhecimento é um processo integrador de partes conectadas a um
todo, como as partes de um ser vivo. Não um todo fechado, mas um todo cujos
limites são limiares que se abrem a horizontes.
Na verdade, a chave-mestra abre todas as portas porque as conecta como
partes de uma mesma realidade que se abre não apenas à Razão, mas também ao
Afeto[6].
[1]
Nesta outra epígrafe do escritor e pensador argentino Julio Cortázar que
escolhi para acompanhar esta aula que escrevi, há a expressão “modos
poemáticos”. Poemático é mais do que
mera rima e versos, isto é, poesia no sentido literário. Filósofos como
Nietzsche às vezes escrevem fazendo o conceito filosófico assumir um “modo
poemático”, de tal maneira que filosofia e poesia se tornam umbilicados.
[2]
A esse respeito, vale a pena consultar a letra “W” do Abecedário de Gilles
Deleuze.
[3]
De maneira análoga, Heidegger dizia que só a poesia é a linguagem que consegue adentrar
à “Casa do Ser”.
[4]
Por esse seu simbolismo de porta destrancada e aberta, Hermes também foi a divindade
mais propensa a sincretismos e misturas com as narrativas originárias de outros
povos. No contato com a cultura egípcia, por exemplo, nasce Hermes
Trimegisto , que significa “Hermes três vezes grande”, sendo sua grandeza associada
à justiça, à potência regeneradora/transmutadora e à sabedoria. “Tábua de esmeraldas” é um texto-referência inspirado em Hermes Trimegisto, e que Jorge Bem Jor
transformou em música : https://www.youtube.com/watch?v=DBQD31zO43o
[5]
“SOBRE A PRÁTICA DE ENSINAR FILOSOFIA” ( já disponibilizado no classroom).
[6]
Escrevi e disponibilizei outro texto-aula explicando um pouco mais acerca da ideia de Afeto. Essa
relação íntima entre Pensamento e Afeto nos remete a Espinosa e ao Terceiro
Gênero de Conhecimento.









