ESPINOSA
: DO APETITE AO CRISTO[1]
O sentido não é o culto ao
relativismo como antídoto ao dogmatismo;
o sentido não é a afirmação de que tudo é igual ou
relativo;
o sentido é o relacional: ele é a
afirmação do encontro;
não a relatividade do encontro,
mas a sua necessidade.
José Américo Pessanha.
Pior do que seus frutos ainda estarem
verdes,
é se estar ainda verde para os frutos já maduros.
Nietzsche.
1-A existência do
homem, mas não apenas a do homem, está apoiada em uma noção: o apetite.
A palavra apetite nasce de um termo latino que significa "pedir",
assim como "petição" e "pedido". O apetite é um pedir.
Enquanto tal, o apetite não é uma coisa, ele é um processo. É nesse processo,
apoiado nele, que a existência transcorre e persevera. Quem o diz é Espinosa. No
sentido comum do termo, quem pede, pede
alguma coisa a alguém. Contudo, ao falar do apetite Espinosa se coloca em um
plano mais direto com a vida. Todo viver é um processo de apetite. A vida se
mede pelo apetite. O apetite concerne não apenas ao corpo, ele concerne também
à alma. Enquanto existem, e para permanecerem na existência, corpo e alma
pedem: o corpo pede por corpos, a alma pede por almas.O corpo precisa de outros
corpos para continuar corpo, a alma precisa de outras almas para continuar
alma. Quando sentimos fome, por exemplo,a fome é o nosso corpo pedindo corpos ( carne, leite, água, frutas,
etc.). O alimento da alma é o afeto. A alma pede amor, justiça, amizade, generosidade...A
alma precisa do afeto para continuar alma, pois alma é afeto.
O pedir do corpo é o
pedir mesmo da alma visto sob uma outra perspectiva; o pedir da alma é o pedir
mesmo do corpo visto sob uma outra perspectiva, pois corpo e alma são a mesma
realidade apreendida de duas formas diferentes pelo intelecto.Se nós pudéssemos
entrar em contato com a realidade sem ser por intermédio do intelecto, se nós
conseguíssemos ir além do que pode apreender o intelecto, certamente
experimentaríamos imediatamente como um
aquilo que o intelecto conhece como dois. E essa experiência seria mais do que
conhecimento, seria também poesia.
O corpo e a alma são modificações singulares
da Natureza ou Deus, que a nada pede, que de nada carece e a tudo produz .Quando
reportamos nossa existência à Natureza como sua causa imanente, passamos do
pedir ao produzir, ao afirmar. Quando o quadro fica pronto, quando a música
devém realizada, se há amor e potência em seu fazer, parece que a tinta pedia o
quadro, parece que os sons pediam a música, não como algo de que careciam, mas
como realidade intensa na qual tinta e
som entram , e que os faz existirem mais, pois os faz existirem em composição,
como expressão, criação.O mesmo vale para o apetite finito que se descobre
parte da composição musical infinita que a Natureza é, polifonicamente. Deus ou
a Natureza não tem apetites: Deus ou a Natureza é Potência. No ser finito,
portanto, o apetite é a potência que ainda se ignora.
Em suas existências
finitas corpo e alma pedem, porém não
pedem o mesmo. Todavia, como a maioria das pessoas vive mais a vida do
corpo do que a da alma, em geral os homens buscam mais o que pede o corpo do
que aquilo que pede a alma. Essa ignorância existencial os leva a substituir o
que pede a alma por aquilo que pede o corpo. É por isso que muitos buscam nas
coisas materiais um substituto para o afeto que a alma pede, e assim encontram
em tudo que o dinheiro pode comprar uma espécie de chupeta , um substituto para
o que não tem preço. As coisas que o corpo pede podem ser compradas, furtadas e
até mesmo roubadas, mas não o pode ser o afeto.
O inverso também se aplica: o puro idealismo ou a rigidez
moral/religiosa nada mais são, na maioria dos casos, do que a impotência de uma
existência para ousar obter aquilo que seu corpo pede. Então, aquele que assim
padece vai buscar um substituto nas ideias, no imaterial, e assim trai a ambos,
o material e o imaterial, a ideia e o corpo, sendo que antes ele trai a si
mesmo.
O pedir do apetite só
pode ser visto como uma falta ou carência quando reportado exclusivamente à existência finita no qual ele nasce,
isolando essa existência de toda a natureza. Mas quando o pedir do apetite é
reportado à natureza, compreendemos o apetite como um desejo de conexão, de
agenciamento.
Há uma diferença entre
o pedir e o implorar. Uma coisa é o corpo pedir por alimento, outra é ele
implorar por mais alimento, por mais corpos. Do mesmo modo, uma coisa é a alma
pedir amor, outra é implorar por amor ou por mais amor. Quando do pedir nasce o
implorar, sucumbe-se a uma vida que passa a ser determinada mais por aquilo que
ela não tem do que por aquilo que ela é. O ser finito que perde a dimensão
positiva da sua diferença vê em tudo aquilo que não é ele coisas que lhe
faltam, ao passo que aquele que está de acordo consigo vê nas diferenças
possibilidades várias para se conectar e aumentar sua potência de pensar e de
agir.
O apetite pode transformar-se em mera passionalidade triste
( a que destila a falta)quando do apetite
não nasce o desejo. Para Espinosa, o desejo nasce quando o apetite se
reflete sobre si mesmo. O desejo nasce quando o apetite se dobra sobre si
mesmo, como a lagarta rastejante que se dobra sobre si para em metamorfose
autoproduzir-se asas. O desejo nasce quando o apetite se dobra sobre si, e
não sobre a coisa externa que
aparentemente lhe falta, e pela qual ele pede. O desejo é o apetite que reflete
sobre aquilo que ele pede, e mede a potência desse pedir, se é liberdade ou
servidão. Re-fletir, re-flexão, significa exatamente dobrar-se sobre si mesmo,
criando uma pequena distância a si como dimensão crítica e clínica. Assim, a
reflexão não é apenas uma atividade psíquica ligada à consciência, ela também é
um exercício que concerne ao corpo que devém ativo. O desejo é a compreensão de
que o pedir é conexão, e não falta. Enquanto o prazer é o efeito do apetite em
sua relação com quantidades, o desejo é o apetite que descobre mais do que a
quantidade: ele descobre a qualidade e, mais ainda, a intensidade. Quando o
apetite se metamorfoseia em desejo, uma existência aprende não a negar ou
reprimir o prazer, ela aprende a ter prazer com qualquer coisa, sobretudo com a
vida em seus aspectos mais simples. O apetite é um processo, não uma coisa. Mas
quando do apetite não nasce o desejo( que é
sempre puro processo), o apetite pode ficar refém do prazer exclusivo
com coisas ( inclusive as coisas que se fuma e bebe, bem como aquelas mais
tecnológicas, nas quais se tecla ou tagarela...).
O desejo não concerne
apenas ao corpo, o desejo concerne ao corpo e à alma. É por isso que o desejo
também é, no que concerne à alma, a ideia adequada do apetite, o seu vencer a
mera passionalidade. O desejo não é negação ou repressão do apetite, mas a sua
potencialização, de tal modo que aprendemos, pelo desejo, a ter apetite também
pelas ideias, pela justiça, pela arte, pelo infinito; do mesmo modo que o corpo
também aprende a ter apetite por ouvir, por deambular, por dançar, e não apenas
por comer , beber e se anestesiar. O desejo não é o remédio, tampouco o apetite
é a doença. O desejo é a saúde, a salut.
*** ***
Minha alma tem a forma do meu corpo:
Mas como é afinal meu corpo?
Eu nunca exato o vi.
Murilo Mendes
2-Não se alcança a
saúde através de um mero lutar contra a
doença; não se conquista a alegria por um mero reprimir a tristeza. Do ponto de
vista do esforço, e a existência não é um estado mas um processo ou esforço mesmo para existir, esforçar-se para
conquistar a alegria e esforçar-se para impedir a tristeza não se diferem,
enquanto esforço ou conatus. Todavia, do ponto de vista da ideia da alegria,
quando de fato a conquistamos,
percebemos que o esforço para conquistar e viver a alegria nada tem a ver com o
esforço para reprimir a tristeza, uma vez que a tristeza é aquilo que diminui
todo esforço, todo desejo, toda existência, a começar pela nossa. Assim, não é
diminuindo a existência que, por acúmulo, chegaremos a aumentá-la. Quando
tomamos uma vacina para lutar contra uma doença, por exemplo, a vacina age
primeiro fortalecendo a ação do nosso corpo para manter-se na saúde, pois é a
afirmação da saúde que vence a doença, e não o mero querer destruir a doença .
Nele mesmo, o vírus que gera a doença não é uma doença, mas um outro ser cuja
ideia de saúde difere da nossa.
Apenas quando se
alcança a saúde é que se compreende o que é a doença e como vencê-la ( e não
apenas perpetuá-la através de nossas próprias forças); somente quando se
alcança a alegria é que se faz um ideia adequada da tristeza, inclusive das
falsas alegrias da tristeza ( como o deboche, o zombar, o ironizar, etc.).
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3.As palavras
"modo", "modéstia" e "medicina" têm uma origem
comum:elas nascem de um termo latino que significa "medida". Assim,
em Espinosa os modos são medidas do ser, são maneiras do ser se
expressar/produzir singularmente, ele que não tem medida, posto que é puro
processo e devir.A modéstia não é um negar, mas o afirmar de uma medida que não
perde o infinito. O modesto não quer o infinito, como o pretensioso, tampouco
nega a medida, como o humilde; o modesto
afirma o infinito na imanência de sua medida, jamais deixando que ela se
feche ou perca consistência. A medicina não é exatamente saber tudo sobre
fórmulas ou saber descrever e definir doenças. O autêntico médico é aquele que
sabe prescrever a medida do remédio, o remédio como medida.
Assim, há duas
concepções de medida: medida que se mantém exterior ao medido, como uma régua,
e que se define por um limite rígido, um
contorno, um padrão ( em geral, tais medidas são apenas formas destituídas de
conteúdo); e há a medida que traz em sua imanência o medido como seu conteúdo.
E o conteúdo é sempre a potência. Por isso, os modos são medidas intrínsecas à
potência, são medidas que jamais se fecham: delas jamais nascem padrões,
paradigmas ou tudo aquilo que se coloca de forma transcendente aos processos,
como Verdade ou Poder. Somente quando se considera a medida como algo exterior
e que não varia , somente assim é que nascem as ideias de excesso ou falta: o
excesso como aquilo que excede a medida, e erroneamente se identifica esse
exceder como potência. Na verdade, a potência é o conteúdo imanente de uma
medida que não o nega, e que se expande ao afirmá-lo, afirmando-se. Cada modo é
uma maneira de ser do mesmo ser que se expressa de infinitas outras maneiras,
cada maneira sendo uma variação ou grau intensivo, que traz em seu coração
aquilo que mede, como potência que não
se fecha. Ser a medida da potência sem medida é afirmar-se como diferença que
difere, em primeiro lugar, de si.
O homem não é a medida
de todas as coisas, pois todas as coisas são uma medida singular do mesmo ser
do qual o homem também é uma medida diferente. O pensamento não é outra coisa
senão uma medida que revela também aquele que mede, e não apenas o medido. O
pensar nunca é um produto de um sujeito, ele é sempre um processo cuja causa se
encontra na potência que ele expressa. A Ética de Espinosa está sustentada em
uma simples lição: sejamos uma medida
que não diminua o que medimos, o que implica que nos apreendamos , como diria
Manoel de Barros, como uma forma em rascunho, uma forma em deslimite.
É o não fechamento do
medido que possibilita que existam medidas comuns que se aplicam a seres
diferentes, desde que haja um bom encontro. Por exemplo, a amizade não é uma
medida exterior aos amigos, mas uma medida comum que os amplia. A educação não
é uma régua que pertence exclusivamente ao professor, pois a educação é uma
medida comum ao educando e ao educador: uma medida comum não é uma igualização
homogeneizante, dado que é somente por uma medida comum que educando e educador
podem se encontrar na afirmação de suas diferenças. Uma medida é mais potente
quanto mais ela afirma o medido como algo que lhe é imanente e o torna capaz de
produzir agenciamentos.
*** ***
4.Segundo Espinosa,
Cristo é a ideia da perfeição humana. Toda ideia o é de um corpo. Assim, Cristo
não é apenas a ideia da perfeição da alma humana, ele também é a perfeição do
corpo humano. Corpo múltiplo, heterogêneo, plural e, ao mesmo tempo, singular,
intensamente vivo, amoroso. O corpo de Cristo não é um corpo simbólico ,
substituto, que se ingere em ritos administrados em um templo. O corpo de
Cristo também é um corpo orgânico, físico, político, metafísico, poético, sem
deixar de ser o nosso corpo mesmo tal como existe no mais simples cotidiano. O
corpo de Cristo não é uma convenção, ele não é apenas "carne", ele
também é cérebro, pulmão, sangue, desejo. Em Espinosa, a perfeição não é uma
ideia pronta, pois toda perfeição é inseparável de um exercício de aperfeiçoamento:
a perfeição não é o quadro pronto, mas o seu perseverante esboço e, antes mesmo
deste, a inspiração, a intuição. A perfeição não é a música na partitura, mas a
sua execução, o seu durar. A perfeição nunca é um produto ou fim a alcançar,
ela é sempre meio, instrumento, processo.
A perfeição da alma é
pensar, a perfeição do corpo é agir. O corpo de Cristo é o corpo mesmo do homem
enquanto este age tendo como meio o amor, a justiça, a generosidade,a amizade
e, também, a indignação. O corpo de Cristo não bebe apenas água, ele também
festeja o vinho. O corpo de Cristo não é um corpo morto que eterniza a dor e o sofrimento, ele é o corpo
que nasce, que renasce, sempre em nome da Vida.
Cristo, portanto, é a
ideia da perfeição humana, e não a ideia que corresponde a um grupo da espécie
humana. Cristo não é uma ideia que determina uma parte da humanidade como
cristã, pois a determinação de uma parte da humanidade como cristã seria também,
ao mesmo tempo, a determinação de uma outra parte como não cristã, o que sempre
leva ao conflito e ao ódio ,a começar pelos inúmeros subgrupos que existem no
interior do grupo que se diz cristão ! Se há cristão, é porque existe não
cristão. Se Cristo fosse hoje vivo, ele não seria cristão, ele seria , antes de
tudo, um ser cujo esforço maior, esforço de compreensão e amor, todo o seu
esforço seria para ser um ser humano , todo seu esforço seria para realizar a
ideia da perfeição humana, que ele passaria a ensinar não escrevendo livros, papers
ou teses, ele a ensinaria com o exemplo vivo, ele ensinaria agindo. E onde
houver alguém agindo assim, ali o Cristo está vivo, porque o estará , no ser
humano , o corpo e o espírito. Não uma Perfeição Imaculada, Livresca, mas um
devir-aperfeiçoamento, o qual sempre depende de um esforço, de um desejo, de um
apetite.A ideia de Cristo não é uma ideia que recorta uma parte da humanidade
como objeto dela, dado que ela diz respeito à humanidade inteira, enquanto
espírito e corpo, desde que em processo ou devir de aperfeiçoamento, o que se
faz na alegria, na liberdade, na compreensão.
Cristo é a ideia da perfeição da humanidade
como um todo, e não a ideia da perfeição de uma parte dela como sendo cristã. Quando
se considera Cristo como não tendo sido um homem, passa-se a imaginar que o que
ele fez um homem não o pode fazer, a não ser com a intervenção de um milagre (
ou com o pagamento de tributos, tributos
em moeda e em obediência, aos espertos
representantes de Deus na terra...).
Mas o que Cristo fez senão amar? Dependeria de um milagre o
homem amar? Por que não dependeria de um milagre o homem odiar? O ódio define
mais a natureza do homem do que o amor? Mas quem determinou isso, o próprio
homem? Mas e se for o contrário, se for
o amor de fato o que determina a essência do homem, por que é mais
difícil aceitar essa tese do que aquela que afirma ser o ódio o que mais define
o homem? Além disso, amor e ódio são mais do que sentimentos psicológicos, eles
são expressões existenciais de como nos
relacionamos com a potência. Visto assim, o amor é um fortalecimento, uma
intensificação do existir , ao passo que o ódio é um enfraquecimento.
Para Espinosa, a
essência do homem não pode ser definida sozinha. A essência é sempre uma
relação ou agenciamento de essências .O homem não é um todo à parte, ele não é
um ego que pensa e, por isso, existe. A essência do homem é ser a modificação singular da essência mesma de
Deus ou da Natureza, que é absolutamente infinita.O valor exemplar de Cristo é
que sua essência é uma afirmação potente da essência da Natureza ou Deus,
essência esta que se expressa em cada essência singular, e não apenas na
essência de Cristo.
Para haver amor é
necessário existir um encontro. O homem somente se torna capaz de compreender a
essência própria quando ele a vive como um encontro. Se ele a conceber como
algo isolado, como um todo à parte, que existe em si mesma e em oposição a
outras essências, ele tornará abstrata a ideia do amor, tornará imaginativa a
ideia do Cristo, que é a ideia do homem mesmo; pois um ser sozinho não tem como
compreender o que é o amor, pois este é sempre encontro. O homem sozinho está
sempre pronto mais a odiar do que a amar, sobretudo se ele se sentir sozinho em
meio aos homens ou, o que é pior, se sentir sozinho diante de si mesmo, se ele
não for um bom encontro para si mesmo.
A parte 4 deste
texto-aula tem por referência este livro:






