sexta-feira, 24 de julho de 2026

Artigo sobre pop'filosofia e pop'educação

 Obs.: A primeira vez que ouvi falar em "pop'filosofia" foi há mais de trinta anos, em uma belíssima aula sobre Gilles Deleuze ministrada pelo  inesquecível professor e filósofo Cláudio Ulpiano , na graduação em filosofia da UERJ. A Cláudio, minha gratidão ( por este e outros inumeráveis  aprendizados). 



Título e resumo do artigo: 


DA POP’FILOSOFIA À POP’EDUCAÇÃO: APONTAMENTOS SOBRE ENSINO, APRENDIZADO E CINEMA

 

                                                                                           Elton Luiz Leite de Souza[1]

 

 

RESUMO : Este artigo busca  desenvolver a ideia de pop’filosofia , noção presente em Deleuze, como base para uma pop’educação. Buscaremos  ferramentas de leitura presentes em Deleuze, Espinosa , Nietzsche , Paulo Freire e  Manoel de Barros para com elas tematizarmos as relações de ensino e aprendizado a partir do cinema.

PALAVRAS-CHAVE: Pop’filosofia. Pop’educação. Ensino. Aprendizado. Cinema.

 



[1] Professor Adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) atuando nas áreas de filosofia, literatura , semiótica e museologia; pesquisador da obra de Manoel de Barros. É autor do livro Manoel de Barros: a poética do deslimite (2010); também organizou publicação em homenagem ao centenário do poeta: Poesia pode ser que seja fazer outro mundo (2020). E-mail: eltonluizleitedesouza@gmail.com


link para o artigo: 

https://periodicos2.uesb.br/aprender/article/view/16154


domingo, 19 de julho de 2026

Espinosa & Manoel

 

Um dos meus livros preferidos de Espinosa é o “Tratado da emenda do intelecto”. Há algumas  traduções que, equivocadamente, dizem : “Tratado sobre  a reforma do entendimento”.

Mas o termo latino original “emendatio” nada tem a ver com “reforma”, assim como diferem radicalmente, no campo político, ser reformista e ser revolucionário. Pois o que Espinosa nos propõe é uma microrrevolução. Não há verdadeira mudança social sem que haja, também , uma emendatio interna e micropolítica.

Manoel de Barros empoemou a ideia de emendatio. Por imagens, o poeta  nos explica o que quer dizer o conceito. Pois uma autêntica emendatio é descrita por Manoel   no poema  “Lacraia”, que narra    uma “peraltagem” que o poeta  cometeu quando criança.

Transvendo o mundo através de sua “visão brincativa” , o menino-manoel percebeu que uma lacraia lembra  um trem: a cabeça parece uma locomotiva, os gomos se assemelham a vagões. Então, o menino resolveu “descarrilar” a lacraia : a desmembrou em partes separadas...

Quando o menino-poeta se preparava para ir embora, aconteceu algo para o qual nada antes o preparara para ver: a cabeça da lacraia se voltou para olhar uma parte que lhe estava separada. E esta parte passou a se mover indo em direção à cabeça que a chamava sem precisar dizer nome ou palavra. As outras partes fizeram o mesmo: unindo-se, elas queriam refazer o ser que eram, “emendando-se”.

Essa força  que age em cada parte dispersa que se procura, para assim recriarem juntas a singularidade viva que eram, essa força   regeneradora também é amor, afirma o poeta. Espinosa a chamava de “conatus”: o esforço perseverante para se continuar a ser o que se é.

É essa mesma força que une uma palavra à outra para criarem, juntas, um poema, para assim dizerem mais do que palavras.




sábado, 18 de julho de 2026

O deslimite

 Quanto mais lados um polígono possui, aparentemente  mais próximo ele está do círculo. Um triângulo possui três lados, o quadrado possui quatro. O quadrado parece estar  mais próximo do círculo do que o triângulo.

O hectágono, polígono de cem lados, parece mais  próximo do círculo do que o quadrado. O megágono, polígono de um milhão de lados, parece superar o hectágono na proximidade com o círculo.

  Um círculo, porém, não possui cem  ou um milhão  de lados, pois ele simplesmente não possui lados. O megágono parece estar mais próximo do círculo quando o comparamos com um polígono com menos lados. Mas nenhum polígono se compara ao círculo: ele é incomparável.

Por isso, a única maneira de um polígono alcançar o círculo é se tornando um, é coincidindo com ele. Um polígono somente pode alcançar o círculo se libertando do afã de ampliar seus limites, pois é isso o que acontece quando ele aumenta seus lados. Coincidir com o círculo é um “deslimite”, diria o poeta Manoel de Barros.

A ciência tenta alcançar a Vida aumentando as teorias, tal como o polígono que aumenta seus lados achando que assim alcançará o círculo. Física, química, biologia, matemática, sociologia, psicologia, etc., são os lados do polígono-ciência. Contudo, mesmo que se aumente indefinidamente a quantidade cumulativa de tais ciências, nunca elas alcançam o todo da Vida, pois esse todo é um processo inaprisionável.

Diferentemente da ciência , a poesia é como o círculo: sua riqueza e multiplicidade não advém do aumento de teorias. No círculo absoluto da Vida , o pensamento , a poesia e a vida são a mesma coisa.

O círculo da Vida, porém, não tem centro ou perímetro determinados : a Vida é um círculo cujo centro está em toda parte , sendo seu perímetro ilimitado.

Olhado apenas nele mesmo , o círculo é a coisa mais simples que existe. Porém quando intuímos todos os polígonos que estão virtualmente compreendidos nele, o círculo nos aparece então como a realidade mais complexa que há, mas sem deixar de ser simples, como tudo o que é verdadeiramente rico.

Não é aumentando seus lados que um polígono pode coincidir com o círculo. Não é aumentando a inteligência que se alcança a sabedoria; não é contando todas as estrelas que existem no universo que se compreende intuitivamente o que é o céu; não é meramente aumentando o número de ações que fazemos que nos tornamos ativos; não é proliferando o número de palavras que dizemos que aprendemos a ter o que dizer.

Não por acaso, a ágora, símbolo democracia, é um  círculo. Na filosofia Ubuntu, a Vida nada tem a ver com uma linha reta cartesiana traçada individual-egoicamente; a Vida é  um círculo no qual a potência singular de cada um deve ser  apoio agenciado para o desenvolvimento da  potência singular do outro.

Na foto, as crianças mostram que essa  ideia emancipadora  pode ser construída e explicada com o corpo, brincativamente.







quinta-feira, 16 de julho de 2026

Maria e a Alma do Mundo

 

Maria morava na  rua . Quem a via , imaginava que Maria falava sozinha, que era “louca”.

Certa vez, Maria estava sentada em um banco de praça e , como de costume, parecia conversar com alguém. Quando passei por ela, dei “bom dia” . Ela parou a conversa com o invisível, conectou-se de alguma maneira ao mundo onde eu estava, e respondeu: “bom dia”. Quando olhei para ela, havia um sorriso em seu rosto acompanhado de um olhar que parecia acreditar no ser humano ainda.

Descobri que Maria não falava sozinha. Ela falava com ela mesma, no interior de sua alma. Acontece que sua alma se estendia cerca de 30 centímetros além de sua pele , como se fosse uma aura. Maria descobriu que tinha essa alma externa quando ainda era uma menina, e como menina brincava a sério de ter uma alma que não cabia totalmente nela. Ela nunca mais parou de brincar assim, sem perceber que cresceu.

 Parte da alma de Maria estava fora dela. Essa parte da alma tomava chuva, sol e vento; não aquele vento que Deus soprou como espírito, apenas vento mesmo; não raro, tal vento se impregnava com os restos de comida que Maria catava por aí.

Maria carregava uma mala que nunca abria, como também não estava aberta, apesar das aparências, a alma fora dela. Apesar de não estar aberta, atravessavam-lhe os gritos, as sirenes, os pedidos de socorro, as fumaças de tudo quanto é incêndio e os fragmentos de todos os seres que um dia formaram um todo.

Maria carregava a mala como se estivesse para ir ou para voltar: e no intervalo entre esses dois atos que ela de fato nunca fazia, nesse intervalo todo lugar se tornava o estrangeiro onde ela não podia morar.

Embora a alma externa não fosse inteira, metade dela era imaginação, metade desejo: a ideia que em uma parte morria, na outra ressuscitava pelo avesso.

 Como se fosse um espelho cujo aço se apagou, essa alma-fora não deixava Maria ver-se nela. Muitas vezes, era a partir dessa alma-fora que Maria falava, sem ninguém ouvir ou entender.

Essa voz que do fora nascia, por vezes entrava por dentro da boca de Maria, como se fosse uma prece ao contrário. Prestando atenção até onde essa voz ia, parecia que Maria ficava em silêncio. Mas a voz ia até onde não a podia mais escutar Maria; e tampouco o pode a Psiquiatria, a Psicologia, a Filosofia, a Teologia e tudo aquilo que o homem inventou para falar a si.

Talvez escute essa voz de Maria apenas os ouvidos da Arte: quando a resposta  vier , se vier, que não  seja tarde.




segunda-feira, 13 de julho de 2026

Espinosa, Manoel e os dois amores

 

Quando sentimos amor em relação a um outro ser, explica Espinosa, também nos esforçamos para que o ser amado também nos ame. E tanto maior será esse esforço para ser amado quanto maior for o amor que sentimos.  

Porém, esse amor pode passar ao ódio, caso o ser amado não corresponda da mesma forma ao nosso amor. Se o ser amado ama a um outro, além do ódio também pode nascer o ciúme naquele que é assim frustrado em seu amor; no caso, ciúme em relação àquele ou àquela que recebe  amor  de quem amamos.

Acontece algo muito diferente com o amor que Espinosa designa como “Amor Intelectual por Deus”, isto é , pela Natureza. Quanto mais nos esforçamos para amar Deus, e amá-lo é conhecê-lo, mais nos esforçamos para que os outros também o amem, conhecendo-o. Enquanto o amor naquele sentido   primeiro deseja a posse exclusiva do objeto amado, no amor por Deus se deseja que o amado também seja amado por muitos, que assim se unem nesse amor, um amor inseparável do conhecimento que o acompanha.

No primeiro tipo de amor, o amante espera ser amado por aquele a quem ama; no amor por Deus, diferentemente, é Deus que também nos ama mediante o amor que temos por ele, já que somos modos ou maneiras de ser dele. Ele ama assim a todas as coisas por intermédio de quem ele ama, e é também a todas as coisas que se ama quando se ama a Deus assim.

Talvez seja por isso que o Manoel de Barros, amando, escreveu: “Poeta é que diz eu-te-amo a todas as coisas”.




 

domingo, 12 de julho de 2026

Mendive-Espinosa

Um corpo bebe outro corpo

Um corpo come outro corpo

Um corpo sorve outro corpo         

Um corpo pare outro corpo

Um corpo fere outro corpo

Um corpo ama outro corpo

Um corpo odeia outro corpo

Um corpo se une a outro corpo

Um corpo se afasta de outro corpo

Um corpo entra em outro corpo

Um corpo sai de outro corpo

Um corpo afeta outro corpo

Um corpo é afetado por outro corpo.

 

E todos os corpos são um só Corpo,

expresso diferentemente em cada corpo.

Porém este Corpo Único não é O Corpo

pairando acima dos corpos.

Se assim  fosse não seria corpo

este Corpo Um do múltiplo,

seria ideia  incorpórea do corpo:

pura abstração, corpo morto.

 

Não existe  o Corpo Infinitamente Uno

a não ser expresso nos uns singularmente únicos;

não existe a multiplicidade de corpos únicos

a não ser como expressões singulares do Corpo Uno.

 

o corpo verde da planta

o corpo pardo do bicho

o corpo amarelo do sol

o corpo branco da água

o corpo negro da terra

meu corpo e o teu

são cores únicas da Una Cor

expressa diferentemente em cada uma.





O mito da criação, Mendive

sábado, 11 de julho de 2026

O velho pescador

 

Quando eu era ainda estudante, fui  acampar numa ilha. Certa noite , já bem tarde, decidi dar uma volta pela praia. Vi então  a seguinte cena: um pescador bem idoso, porém  firme,   empurrava  sua canoa  em direção  ao mar.

Corri para ajudá-lo. Com a canoa ainda na areia, perguntei ao velho pescador aonde ele estava indo tão tarde. Ele respondeu me pedindo para olhar para o céu e descrever o que eu via. “Vejo muitas estrelas , a noite está linda...”, falei ao pescador.  “Não sente a falta de nada?”, indagou. “É mesmo, não vejo a lua...”, respondi. O  velho pescador  então   narrou mais ou menos a seguinte história:

“Quando a noite está assim , sem a luz da lua,  as estrelas parecem que  ficam bem perto, e isso ajuda na pescaria. Explico como acontece: como fazem todas as noites , os peixes sobem até próximo à superfície e ficam à espreita de insetos que pousem na água. 

Mas em noites assim acontece algo diferente. Peixe não sabe o que são as estrelas... Então, quando os reflexos das estrelas vêm  tremeluzir na superfície da água  , parecendo que pousam nela, os peixes  olham para cima e imaginam que tais reflexos são o piscar de vaga-lumes.

Tais  vaga-lumes só existem nos olhos deles, porém  eles ignoram essa ignorância que os limita à crença estreita. E essa forma  limitada  de ver , guiada apenas pelo interesse  superficial e sem profundidade, é a pior das cegueiras que aos olhos   pode acontecer. 

Ingenuamente crédulos, os peixes  sobem para abocanhar a ilusão criada pela própria  mente deles.  Se esses peixes fossem homens, essa cegueira da auto-ilusão    teria o seguinte nome: opinião. Pois  assim são os homens que apenas vivem dentro de suas bolhas...”

(  Na filosofia , “opinião” não é a mesma coisa que ter uma perspectiva sobre um assunto. Enquanto a perspectiva  faz parte da construção de um conhecimento, inclusive do autoconhecimento ,  a opinião é uma forma reativa de negar o conhecimento ,enraizada no desconhecimento da própria ignorância. Como ensina Deleuze:  “O pensamento é o telescópio de uma astronomia apaixonada.”)


( Imagem: “Noite estrelada sobre o Ródano”/Van Gogh. Acrescentei os versos de Keats)  


 
       

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Plotino e o desejo

 

Platão dizia que o filósofo é aquele que possui asas que o fazem subir para longe da Terra, até alcançar o Céu das Ideias, e nele pousar.

Como seu antecessor, Plotino também dizia que o filósofo possui asas. Mas as asas de Plotino sobem sem parar, elas nunca pousam: elas fazem o filósofo alçar como um raio que sobe, até furar o céu e transpassá-lo , como um peixe que pula para fora do aquário.

Em Plotino, as asas de filósofo o fazem ir além do Céu, acima até mesmo de toda transcendência onde os deuses moram, até alcançar o Uno de onde proveio tudo.

Como o peixe que , na contracorrente,  subiu o rio e reencontrou a fonte que foi seu berço, o filósofo desfaz os nós do tempo, até achar  o fio que cerziu o ontem,  o hoje e o amanhã. Por esse fio invisível, fio de luz, o filósofo vai subindo até o Novelo Cósmico  do qual se desdobrou tudo o que  vive.

Enquanto sobe, o filósofo vai se despindo do peso,  da angústia,  da dor , da memória, da imaginação , da razão, da morte...Até que fique apenas  o desejo puro, para amorosamente se unir à Fonte.




sábado, 4 de julho de 2026

Para ser grande

 

Há um poema de Fernando Pessoa no qual ele nos ensina o que é preciso fazermos para “sermos grandes” .

O poeta diz mais ou menos o seguinte: “Ser grande nada tem a ver com o ambicionar o primeiro lugar em pódios, pondo-se acima dos outros. Para sermos verdadeiramente grandes devemos aprender com a lua:  ela  nunca se recusa a refletir-se inteira na mais simples poça do caminho”.

 A lua é grande porque ela não rejeita a poça julgando-a indigna de receber sua presença: ao contrário, é a presença da lua na poça que dignifica a poça. A lua engrandece a poça sem ser diminuída.

A lua não se reflete pela metade ou em parte na poça, ela se coloca por inteiro, nos ensinando o que é ser íntegra. Assim, a lua horizonta a poça: faz dela um espelho unindo terra e  céu.

A lua não se reserva apenas para os oceanos. Não é o tamanho daquilo no qual ela se reflete que faz a grandeza da lua, é a grandeza da lua que engrandece a realidade na qual ela se reflete.

A primeira vez que li esse poema foi numa aula de filosofia no antigo segundo grau.

Li o poema e não entendi tudo, mas fiquei com ele na cabeça. A querida professora que me apresentou o poema disse que o sentido dele levaria tempo para ser compreendido ;  e que eu  compreenderia o sentido quando dentro de minha mente houvesse um clarão. Poemas assim a gente lê para se ler.

Quando sai do colégio após a aula,  já era noite . Choveu  muito a tarde inteira. No asfalto ,  aqui e ali , poças que a chuva deixou.

Eu caminhava de cabeça baixa : me pesavam, como chumbo,  as decisões que urgentemente   eu precisava tomar . O vestibular se aproximava , eu queria fazer filosofia, mas  havia o risco que significava fazer filosofia numa época trevosa  ainda sob   ditadura militar; também me preocupava   como eu sobreviveria materialmente com filosofia,  eu era  de  família pobre, sem recursos. 

De repente, numa poça do caminho eu vi o reflexo da  lua cheia, ela brilhava no espaço que conseguiu abrir entre as nuvens pesadas. E de lá do alto ela  me achou empregando como meio uma simples poça no chão . Às vezes, realidades elevadas nos alcançam usando como meio as coisas mais simples e  inesperadas...

Quando vi a lua refletida na poça, de imediato ergui a cabeça e os olhos em sua direção , vencendo o peso que mantinha meu pensamento aprisionado no chão. A lua  horizontava a poça , a transformava num oceano de descobertas  e a fazia de trampolim para meus olhos se alçarem, empoemados.

E foi com os olhos assim que  vislumbrei , apesar da noite, o caminho que eu deveria seguir, pois por dentro me iluminou um clarão.

( Imagem: “Lua” / Magritte)



domingo, 28 de junho de 2026

Caos, estrela e semente

 

Segundo a mitologia, antes  de tudo  existia o Caos. Para os gregos,  assim como para a cosmologia Bantu, o “caos original ” não é destruição ou trevas. Um dos sentidos de caos é :  “Abertura Ampla”, que não pode  ser cercada, limitada  ou contida.

 Manoel de Barros diz que “não se pode passar régua no Pantanal”, pois no Pantanal os rios saltam das margens e se horizontam.

O Pantanal é o caos poético de Manoel.  E é por isso que em cada verso dele podemos achar aquela Abertura da qual vem um  ar vital  que não nos deixa sufocar.

 Foi do Caos que nasceu a primeira divindade: Gaia, a Terra. A palavra "nascer" não é muito adequada, pois todo nascer pressupõe um pai e uma mãe. O Caos não é homem ou mulher, macho ou fêmea, tampouco o Caos é filho de alguma coisa.

O adequado talvez seja dizer que Gaia emergiu do Caos, tal como uma ilha que sobe do fundo de um oceano insondável. Gaia-Pachamama  é  a Ancestral Mulher.

De Gaia nasceu Uranos, o Céu. Também aqui "nascer" é um termo inadequado, pois Gaia não tinha par: ela era plenamente ímpar, como tudo o que é singular. Talvez seja mais adequado dizer que o Céu-Uranos foi um pedaço da Terra que se separou dela, pondo-se acima a gravitar.

Nessa época , a Terra era toda ventre, múltiplos ventres. Cada ventre era uma caverna  que se estendia até o Caos, a imanência fértil. E foi por um desses ventres que veio ao mundo Eros, o Amor. Este ocupou o lugar vazio entre a Terra e o Céu.

O Amor tem por força unir o que está separado. Pela ação do Amor,  o vazio entre o Céu e a Terra foi vencido:  o Céu deitou-se então sobre a Terra, e  as estrelas do Céu  plantaram-se  na Terra, tornando-se   sementes.  

Foi assim que nasceu “Bios” ( a “Vida”) : como estrela do céu tornada semente da terra. E  é de Bios que nasce tudo o que vive.

De Bios  nasceram  o Tempo ( Cronos)  , a Justiça (Zeus) , a Arte (Dioniso)   e a Sabedoria (Atena).

Semente que nunca seca, apesar dos atuais desertos, de Bios  continuam a nascer  as   crianças , as flores, os bichos, as ideias, os poemas, as resistências, as utopias ...e o  desejo de que amanhã seja um novo dia.