Espinosa soube compreender e
dimensionar, como poucos, a
importância do Afeto na saúde e existência da alma. Todavia,
é Descartes que é considerado por muitos como o “pai da psicologia”, isto pelo
papel de base que ele concede ao ego nos processos do pensamento.
Porém,
Descartes não vê no afeto um original da alma, mas algo que deriva de outra
realidade, como efeito dela. Esta outra realidade é o corpo: é o corpo, em
última análise, a causa do afeto. Logo, para conquistar sua independência e
sossego, a alma precisa se libertar dos afetos.
Ora , para Espinosa o afeto é
um modo do pensamento, ele é algo que lhe é imanente, mesmo quando reflete um
acontecimento do corpo, como no caso das paixões ou afecções. O modelo de Descartes é a
psiquiatria, a redução de todo conteúdo psicológico à neurologia, ao passo que
Espinosa realmente dá uma positividade à psicologia, integrando-a aos outros
modos do pensamento, possibilitando assim o conhecimento e, mais ainda, o autoconhecimento pautado no agenciamento entre afeto e ideia, ideia e afeto.
Sem citar Espinosa, é o que faz, por exemplo, Jung, quando tenta mostrar que
mesmo as psicoses têm uma origem no afeto, e não exclusivamente na fisiologia
do cérebro. Jung, porém, estende o psicológico para além do indivíduo, e crê na
existência de uma psicologia coletiva
que mergulha em tempos imemoriais, acessível tão somente a uma memória
mítica, cuja linguagem é sempre simbólica, não referencial ou objetiva.
Já
Espinosa mantém a psicologia como
dimensão individual da existência do espírito, então apreendido como uma alma
ou mente. O psicológico é a dimensão da imaginação e das imagens oriundas da
existência do modo finito em sua dimensão temporal , envolvido nos acontecimentos aos quais reage.
A psicologia espinosista está integrada à dimensão espiritual das
ideias adequadas. O espírito é
singular, e não individual, dado que o individual é sempre o resultado das
afecções oriundas da ligação do espírito com o corpo.
Mas o mundo psicológico
não é uma ilusão, como não o são os produtos
da imaginação. Jung reduz o espiritual ao psicológico, ao passo que Espinosa
distingue o espiritual do psicológico, integrando este naquele, e assim
restitui a alma ao espírito, a existência à essência, mostrando-nos que somos
um só. Enfim, o psicológico é a esfera do individual por oposição ao coletivo, enquanto o espírito é o singular como expressão do Infinito.
A eternidade do espírito não é um passado imemorial de extensão
indefinida acessível apenas a uma memória mítica, dado que o eterno é incomensurável
com o tempo, porém coexiste com ele. E ambos, eternidade e tempo, constituem as duas metades do que somos.
A
palavra “espírito”, aqui, não tem sentido religioso. Algumas traduções
francesas da Ética, por exemplo,
traduzem o latim "mens" por espírito. Enquanto o termo "alma" tem sua origem na palavra grega "psiquê", "espírito" se reporta a "pneuma", que em grego significa "sopro".