Sei que o orgulho não é algo
muito bom e se deve evitar. Mas tenho
dois orgulhos em minha vida de professor. O primeiro : ter
sido demitido pelo Silas Malafaia, que era um dos donos de uma faculdade
privada na qual comecei a dar aulas de filosofia. Como todo tirano, ele não
suportava filosofia. Como eu não dizia “amém” às suas tentativas de nos
amordaçar, ele me deu uma “cicuta”: fui demitido.
Na ocasião, foi uma situação
difícil, eu estava começando na
profissão e fiquei desempregado. Mas pensar nas perseguições pelas quais passou
Espinosa me ajudou a compreender e superar a situação , pois hoje veio que aquela
demissão foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida de professor
de filosofia.
O outro orgulho que tenho foi ter
reprovado Flávio Bolsonaro, ele era
inscrito numa disciplina que eu lecionava,
filosofia do direito.
Ele já fazia na época o que faz
hoje : burlava as regras , trapaceava , mentia
, enfim, um dissimulado. Além disso, quase não ia às aulas. Creio que naquela
época ele era funcionário fantasma em Brasília: recebia sem trabalhar. Ser
aluno fantasma era só mais uma faceta do mesmo mau-caratismo.
Querendo talvez despertar medo
nos outros , ele não escondia de ninguém suas ligações com a milícia. Ele até
se gabava disso. Hoje vejo que não o reprovei : fiz justiça. E amanhã meu voto
não é de reprovação a ele , mas de aprovação à democracia, por isso voto em Lula.
Se eu pudesse colocaria em
destaque no meu currículo Lattes a demissão que sofri do tirano teológico-político e a reprovação que fiz do miliciano como exemplos do meu esforço pedagógico
de trazer para a minha prática as ideias que ensino.
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Quando a gente assiste a um debate
político na tevê, todos nós assistimos a
uma mesma transmissão. É possível ver,
no momento mesmo da transmissão, se há
tentativa de manipulação .
Mas não acontece o mesmo com o
universo das Big Techs. Quando acesso
uma rede digital , por exemplo, o que aparece para mim, dizem, aparece só para mim.
O que vejo e as sugestões de coisas para eu ver que as algoritmos mostram estariam
pautados nas minhas escolhas e
preferências.
Mas isso é uma ardilosa e calculada
maneira de esconder a real lógica do
sistema. O que aparece para cada um nós não é apenas o resultado de nossas
escolhas e preferências, pois os algoritmos , na verdade, tentam induzir que
determinado conteúdo é escolha nossa, quando na verdade são eles que são
programados para mostrar determinadas
coisas e esconder outras.
O poder do algoritmo não é apenas o de mostrar: também é ,
sobretudo, o de esconder. Inclusive, as Big Tecks cobram para mostrar, fazendo
disso um negócio. Quem não paga ou não é interessante para eles, é escondido,
invisibilizado.
Quando abro meu spotify, por
exemplo, aparecem sugestões de música
gospel, um tipo de música que não ouço; quando acesso o youtube, a maioria dos
conteúdos sugeridos/induzidos são de
canais que não acompanho; sem falar em vários conteúdos da extrema-direita que
apareceram aqui para mim no facebook.
O que a Globo mostra todos veem.
Mas o que os algoritmos do facebook decidem
mostrar , como se fosse verdade, a todos os usuários que acessam sua plataforma?
Não nos esqueçamos que os algoritmos
seguem uma lógica: a lógica binária do um e zero ( 1 x 0 ) ou do sim e não. A
lógica dos algoritmos é polarizada. Eles alimentam a polarização para assim
determinar qual lado é zero e qual é o
um.
Esse fenômeno tem reflexos na política
não apenas do Brasil, mas em todas as partes do mundo em que as Big Techs dominam.
Para os algoritmos de tal sistema binário, nós somos o “zero”, enquanto que o “1”
é, aqui no Brasil e no mundo, aqueles que não vão atrapalhar seus negócios espúrios.
E negócios espúrios não combinam com a democracia...
As únicas maneiras de resistirmos
a isso é não sermos dependentes cognitiva e subjetivamente desse poder ( que
têm seus mecanismos de sedução...) , além da necessária regulação imediata desse
poder , que tem dono e lado.
Na tevê , ao menos, há a
possibilidade de um debate. E se esse for manipulado, é possível denunciá-lo e enfrentá-lo
à luz do dia. Mas no universo das Big Techs não há debate: há apenas a
imposição de uma versão única que circula como se fosse verdade , procurando
despertar, sobretudo, sentimentos irrefletidos de medo e ódio. Esse
tipo de conteúdo circulou na véspera da eleição, e muitos desses conteúdos
anti-Lula nem chegaram até nosso conhecimento: a manipulação ocorreu em larga escala e circulou às nossas
costas, nas trevas, e endereçado a um
público manipulável .