No livro "O guardador de
águas", o poeta-pensador Manoel de Barros afirma que aprendeu a
guardar águas. Não ouro, dinheiro ou posses, mas águas. Guardar também é
cuidar.
As águas que o poeta guarda não
são exatamente coisas, elas são fluxos. Cuidar dos fluxos é o oposto de
construir cercas , gaiolas , muros ( literais ou
simbólicos). Os fluxos são sempre desterritorializados e
desterritorializantes : “não se pode ‘passar régua’ neles”, ensina Manoel.
Mas não se deve confundir esse “fluxo” manoelino
com aquilo que o sociólogo Bauman chama de “líquido” , ao descrever as sociedades contemporâneas .
No “mundo líquido”, as relações, os amores, as
políticas , as temporalidades, o trabalho, as subjetividades e até mesmo o
conhecimento se tornaram “volúveis-voláteis” ( como a liquidez do
Capital que a tudo desumaniza e reduz a juros e lucro).
O líquido aceita ser
limitado e contido por moldes. Já um fluxo é feito o sangue nas
veias: se não avançar, perece. Os fluxos
ou inventam linhas de fuga ou secam e morrem - e a secar resistem
com toda força que podem.
Os fluxos somente podem ser
guardados em espaços abertos. E abertos se tornam a sociedade, a
mente e o afeto se um fluxo de vida os atravessa.
Os fluxos nascem de fluxos, não
de coisas enrijecidas: o rio
amazonas nasceu da geleira no alto dos
Andes , mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo...até
alcançar o horizontado mar , para mar também se tornar.
Guardar as águas é guardar-se
nelas, como necessária arte dos (re)descobrimentos: "estou à janela e só
acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo
comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir"( Clarice Lispector, “A descoberta
do mundo”).
Somente uma fonte pode guardar
fluxos. A fonte guarda fluxos os doando, pois uma fonte é um fluxo de vida partejando
a si para matar sedes e irrigar desertos.
O fluxo é fluido, mas não é sem força ou
volúvel; ele é firme, possui consistência, porém não é rígido. Pedras não
vencem o avançar de um fluxo , enquanto pulsar a fonte da qual ele
transborda.
“Quem anda no trilho é trem de
ferro.
Sou água que corre entre pedras:
liberdade caça jeito.” ( Manoel
de Barros)
“A cisterna contém; a fonte
transborda”. (William Blake)
“O artista é aquele que converte
os obstáculos em meio”. (Deleuze)
( Imagem: “Sherazade”/ obra do
artista Samil Hilal. Como as palavras emancipadoras de Sherazade enfrentando o
poder repressor-falocrático do “Sultão”,
o agenciamento de livros forma um fluxo de ideias que segue em frente, irreprimível...)










