sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Espinosa e o "niilismo"

Para Espinosa , deus não criou o mundo do nada , tampouco é rodeado pelo nada. Para Espinosa, o nada é uma negação imaginativa-reativa feita pelos que ignoram o que é a  natureza.

O nada não existe ontologicamente,  mas apenas antropologicamente: é a imaginação reativa do homem que cria o nada ( "nihil", em latim).

Nem sempre esse nada aparece com seu nome original, mas com outros nomes. “Paraíso” e “Inferno”, por exemplo, são alguns nomes que encobrem esse nada. Até mesmo “Deus” ( esse “Deus” que Flávio Bolsonaro quer  reduzir a cabo eleitoral seu)  também pode ser  o nome desse nada, quando se faz de Deus um ente que castiga, que pune, ou seja, um deus vingativo  e preconceituoso que escolhe um povo em detrimento de toda a humanidade.

O poder teológico-político cultua  esse nada, muitas vezes em templos de ouro ( nada tendo a ver, portanto, com o Deus simples, amoroso e modesto de Francisco...). 

E quem cultua nadas assim se agrilhoa na imaginação passional-reativa, passando a viver no medo, na ignorância, na credulidade incauta, no ódio e na superstição, todas características de uma mente infantilizada que não sabe governar a si mesma, sempre precisando de um profeta, de um “messias”, de um “eleito”, enfim, de um “tirano” que os sujeite a viver como rebanho.

À sua época, Espinosa assim já diagnosticava aquilo que hoje se chama “niilismo”.


Uma das referências do texto é este livro de Espinosa, sobretudo o Capítulo III : "Que Deus é causa de tudo".




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

a própolis e o formal

 

Hoje no Brasil se fala muito em  “ ser conservador” como um comportamento oposto ao de  “ser criador”, “progressista”. Segundo Espinosa, porém, há duas maneiras de “ser conservador” . Essas duas formas podem ser explicadas , de maneira simples, a partir do seguinte exemplo:

Seria absurdo querer conservar apenas a mesa que o carpinteiro produziu, descuidando do próprio carpinteiro e sua potência criativa de produzir mais mesas, inclusive de produzir mesas diferentes daquelas que até hoje ele criou.

É no produtor, e não no produto, que criar e conservar andam juntos: o que se deve conservar é o ato de produzir o novo, e não apenas o produto pronto desse ato. Nesse sentido, conservar é proteger e cuidar, para fortalecer a potência de criar .

 Os progressistas agem para conservarem a potência criativa do produtor ( os “direitos sociais e trabalhistas”, por exemplo, existem para  essa função) , já os conservadores-reacionários querem conservar apenas os produtos transformados em propriedade que o capital compra explorando o produtor e tirando dele os direitos.

 A prática de conservar o que é criador nos é ensinada pela própria natureza : a própolis, por exemplo,  conserva/cuida  da vida da colmeia  para que esta se proteja das doenças que querem , de dentro, fragilizá-la ; e, ao mesmo tempo, a própolis é força que ajuda a colmeia a se manter  reinventando-se ,  perseverando na vida.

Porém, criar e conservar se tornam ideias antagônicas quando se quer colocar o conservar antes do criar, vendo no criar algo que ameaça uma “Ordem” rígida , paranoica. Um conservar assim é o que faz o formol: serve para conservar apenas o que já está mortificado e não  se reinventa mais, como produtos em lata de conserva...

Arte, filosofia, educação são própolis; prot0fascismo fundamentalista teológico-político é formol.  

 

( a “Ética” é o livro-própolis que Espinosa escreveu)

 



domingo, 15 de fevereiro de 2026

A mariposa

 

Eu ainda não havia despertado totalmente, mas já sentia no ar a presença  de um novo   dia que nascia.  De repente, ouvi um som agudo provocado por um bater de asas agitado e aflito  que passou roçando  meu rosto. Abri então os olhos:  era uma pequena mariposa que se aprisionou em meu quarto ainda um pouco escuro.

 Não sei se era  uma  jovem mariposa aprendendo seus primeiros voos,  sem confiança ainda; ou se era, ao contrário,  uma mariposa já muito vivida querendo fugir do mundo, desiludida. O que sei é que ela rodopiava atônita e perdida, como se estivesse presa   num labirinto cujo centro era um vazio .

 Levantei  da cama rápido querendo arranjar um jeito de auxiliar a mariposa a se libertar daquele rodamoinho angustiante  que ela mesma criou para se atar.

Fui   à janela e a abri toda para que entrasse  a luz. Foi então que vi o dia...Que dia! Após  uma noite  de chuva e frio , o céu abria-se   todo  azul , enquanto  o sol aquecia de novo tudo o que é vivo. 

Com cuidado, cheguei perto da mariposa  e apenas lhe disse  ( com a franqueza dos amigos que desejam o bem um do outro) : “Com um dia desse, com essa amplidão para explorar voando, você vem se enclausurar em meu quarto com medo!?Quem me dera ter suas asas...”

Juro: a mariposa foi acalmando seu  rodopiar aflito , reorientou suas asas para novo sentido , parou de antecipar na imaginação os perigos, emendou-se. Tomou coragem e atravessou    a janela, foi pro mundo, aceitou da liberdade o risco.

Em Espinosa, “emendar-se” é autocorrigir-se : dar ao pensamento um horizonte, para que nos pés floresçam novos passos.

 

(Este filme  é apenas uma sugestão)






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A embriaguez da criação

 

Uma das origens do carnaval remete a Dioniso, o deus das Artes. “Dioniso”  significa: “Aquele que nasceu duas vezes”.

No primeiro nascimento , Dioniso veio ao mundo chorando, como todo recém-nascido. Mas  o segundo nascimento envolve a seguinte história:

Quando era ainda criança, Dioniso foi vítima das Fúrias, seres que representam o ressentiment0, o ódio e a vinganç4. As Fúrias despedaçaram Dioniso, imaginando assim que o derrotavam.

Porém , Dioniso tinha ainda uma arte que as Fúrias desconheciam...Dioniso não estava totalmente vencido: havia uma parte dele que ainda o guardava inteiro, íntegro. Essa parte era o coração.

Os seres do  ódi0 e da destruiçã0, tanto os de ontem como os de hoje,   ignoram  a Potência que vive no coração da arte, ignorando igualmente  a força regeneradora que há na criação como força que , perseverando, resiste .

Dioniso partejou-se então do próprio coração, enquanto lugar do Afeto Transmutador , renascendo ainda mais vivo para a Vida.

Se no primeiro nascimento Dioniso nasceu chorando, agora Dioniso renascia em festa, como expressão do triunfo da Vida sobre seus carrascos :“A filosofia está sempre a enterrar seus coveiros” (Étienne  Gilson).

Originariamente, antes de ser associado ao vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em grego, “bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”.

Há os que , etilicamente, se embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na ação generosa/criadora de florir e frutificar.

O poeta Baudelaire dizia: “É preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher. Mas embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “seja uma floração de ideias e de ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva, o Deus de Espinosa é a Potência Absoluta de Floração.

 

(Imagem: “A vinha vermelha”/ Van Gogh)




Sobre a relação originária de Dioniso com a vinha, e não com o vinho, a principal referência é esta:



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Kurosawa, Van Gogh, Espinosa e Manoel de Barros: florações...

 

No filme “Sonhos”, de Kurosawa, há uma cena em que uma criança chora porque um jardim de pessegueiros foi derrubado.

Então, perguntam a ela se o choro dela era devido a não poder mais  comer os pêssegos, ou seja, se o choro  era motivado pelo interesse nos frutos, nos pêssegos.

A  criança responde mais ou menos assim: “Eu não estou chorando pelos pêssegos , pois  pêssegos podem ser comprados  em quantidades no mercado . Eu choro porque nunca mais vou poder ver a floração dos pessegueiros: a floração é única e  não se mede em dinheiro, nem se vende no mercado...”.

De repente, ainda chorando, a criança vê algo colorido num  canto daquele  jardim desolado. Ela   chega perto para ver o que é: do tronco de um pessegueiro  cortado e violentado, a vida ali resistiu e perseverava , pois pequenos embriões de floração novamente brotaram.

Então, como se tivesse ganho o mais desejado dos presentes,  a criança enxuga as lágrimas e  sorri.

O pêssego é colhido com as mãos, já  a floração é para ser colhida com os olhos, para que o próprio ver nos olhos floresça, e enxergue mais do que o mero dado.

O pêssego é o produto que pode ser separado de seu produtor, ao passo que  a floração é a arte que torna indistintos o artista e sua obra ainda em processo e  brotando dele mesmo, em generosa doação.

O pêssego mata a fome do estômago, mas  a floração mata outro tipo de fome:  fome de arte, de poesia e de criação.

As ideias são como os pêssegos, porém pensar é floração da mente unida ao corpo, como ensina Espinosa. Manoel de Barros, por sua vez, diz que “poesia é afloramento de falas”.

A liberdade não é um fruto pronto que podemos colher, a liberdade  é floração concreta no aqui e agora, como ato emancipador   fazendo-se.

Há os que cobiçam  os pêssegos apenas para pôr neles um preço e vendê-los no  mercado, reduzindo    os pêssegos a meros meios  para se acumular capital, poder e dinheiro.

Mas há os que veem riqueza na floração dos seres, uma riqueza que não se mede em dinheiro, pois é uma riqueza que se cultiva com a arte, a filosofia, a cultura e a educação.

Porém , é preciso cuidar dessa floração e agir para que ela sempre aconteça , pois odeiam essa floração, e sempre a ameaçam, os ceifadores e destruidores de jardins.

 

  "Poesia é florescer pelos olhos." (Manoel de Barros)

 

“Filosofia é prática para ensinar a ver.”( Merleau-Ponty)

 

 

( imagem: “Pessegueiros em flor”/ Van Gogh)



 

Originariamente, antes de ser a divindade do vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em grego, “bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”. Há os que , etilicamente, se embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na  ação generosa  de florir e frutificar. O poeta Baudelaire dizia: “É preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher. Mas embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “sejam uma floração de ideias e de ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva,  o Deus de Espinosa é a Potência Absoluta de Floração.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

conservar , reformar e revolucionar

 

Vida e  política giram  em torno destes três verbos: conservar, transformar e revolucionar. O conservar é o credo dos conservadores, o transformar é o interesse dos reformistas, o revolucionar é a prática dos revolucionários.

Os conservadores exaltam a Ordem e querem mantê-la, não importando se ela é injusta; os reformistas querem mudança, mas negociada e sem romper com a ordem estabelecida; já os revolucionários pensam e agem para criar uma realidade nova, sem negociatas e concessões à ordem antiga.

Os conservadores são saudosistas, os reformistas são utilitaristas, os revolucionários  são artistas ( cuja obra a criar  é , sobretudo, um novo modo de vida) .

O conservador idolatra o passado, o reformista é refém do presente “líquido” , o revolucionário age por um futuro que nos liberte do passado e crie um “fio de Ariadne” que nos tire deste distópico presente-labirinto .   

O poder é sempre conservador; a lei é o usual   instrumento do reformista; porém é o desejo de justiça que expressa a potência de todo  revolucionário.

Quando o conservador pensa em arma, ele pensa na arma literal, destrutiva; já o reformista tem por arma a política representativa; mas  a arma do revolucionário é   a educação, a cultura,  a arte , o amor...pois em tudo isso há política.

A diferença entre o conservador e o revolucionário salta aos olhos, porém nem sempre é evidente o que distingue o reformista do revolucionário. Na boca de um e de outro sempre está uma palavra: o “possível”.

Mas reformistas e revolucionários não pensam a ideia de possível da mesma maneira. No reformista, o possível é aquilo pode ser  realizado, ao passo que no revolucionário o possível é o que precisa ser criado. Realizar não é a mesma coisa que criar.

O músico que toca no palco realiza a música que o compositor, antes dele ,  criou. Já o compositor criou a música e assim a tornou real. O compositor-criador cria uma realidade nova: ele “ouve” a música que nunca foi  tocada.

O reformista  realiza o possível de acordo com o que está estabelecido em um real dado. Já  o revolucionário cria o possível ainda que o real dado lhe diga que é impossível criar outras possibilidades de vida e de existência.

O revolucionário não age a partir do já estabelecido, tampouco se ajoelha diante dos valores dados:   o revolucionário cria o possível mesmo quando, antes de sua criação, criar algo novo parecia impossível de ser criado.

Como ensina Foucault : "Um pouco de possível para não sufocarmos".

( este livro é apenas uma sugestão)



sábado, 17 de janeiro de 2026

Imitar, recriando.

 

A imitação é um dos comportamentos mais singulares que podemos observar nos seres vivos. O filhote de passarinho, ainda no ninho, aprende a voar imitando seus genitores; o pequeno leãozinho aprende a ser leão imitando seus pais. Pois imitar é a forma primeira de aprender : não só aprender a se comportar desta ou daquela maneira, mas aprender a ser aquilo que se é.

A arte também é prática de imitação (mímesis): quando um pintor  pinta uma maçã, a maçã pintada imita a maçã real; quando o escultor esculpe uma estátua de Sócrates , a escultura  imita  Sócrates .

Quando um músico compõe uma música sem palavras, a música também imita. A música não imita mediante uma imagem icônica, como na pintura e na escultura; a música imita por intermédio do ritmo. O que a música imita? Ela imita os afetos.

Como o afeto não tem uma figura visível , tal como Sócrates o tem,  toda imitação musical  de um afeto na verdade o recria. É por isso que a música também pode ser uma terapêutica clínica: ouvindo a música, nós mesmos nos ouvimos através do afeto que sentimos.

 Ouvindo  a música,  imitamos  o ritmo dela  a partir do ritmo do nosso corpo, incluindo  os ritmos respiratórios e  cardíacos. A música nos ensina que somos ritmos que imitam ritmos maiores: Pitágoras dizia que o universo é música composta pelo ritmo dos astros...

Mas há duas formas de imitação: a servil e a criativa. Na imitação servil aquele que imita  anula  sua diferença própria para assim  ser a cópia servil de um modelo.

Quem tem a propensão a imitar servilmente se submete a qualquer modelo , mesmo que o imitado seja um ser abominável . Quando muitos imitam servilmente um crápula tornado modelo, surgem os rebanhos fanáticos que pouco valor dão à vida, uma vez que pouco valor dão a si mesmos.

Porém há também a imitação criativa. Nela, a imitação é atividade para descobrir e potencializar a própria potência-ritmo, dado que o imitado é criado para favorecer agenciamentos para singularização de ritmos.

As ideias que emancipam e educam são assim: conhecê-las é vivê-las como meios que potencializam nossos ritmos . Aprender ,  ensinar, partilhar, empatizar, amar... são  composições  de   ritmos.

A própria sociedade também possui seus ritmos: a democracia é um ritmo social que protege e estimula os ritmos heterogêneos. Já a tirania é a tentativa de impor comportamentos mecanizados segundo a lógica do rebanho “mesmal” .

Por isso, não podemos deixar que as forças destrutivas externas  nos produzam movimentos internos que nos ponham sob riscos, pois tristeza, medo e apatia  são enfraquecimentos dos nossos ritmos.

Mas com nossos ritmos potencializados, aprendemos a agir sobre o mundo externo sem violentar nossos ritmos.

Na foto, é a menina, e não a pintura, a maior obra de arte. Ela não copia servilmente, ela interpreta a partir do seu ritmo, e assim se autodescobre brincativamente e afirma seu estilo: autonomiza-se.




 

“Mesmal” e “brincatividade” são ideias criadas pelo poeta-pensador Manoel de Barros. O “mesmal” é a antifilosofia e antipoesia, o mesmal é o pensar e viver igual ao modo de rebanhos; “brincatividade” é exercício lúdico que, agenciando arte e política,  muda uma realidade, mas sem perder a alegria ( a mesma que ensina Espinosa).

domingo, 11 de janeiro de 2026

Espinosa : o que alimenta corpo e mente.

 

Em sua Ética, Espinosa ensina que a saúde do corpo depende de que  ele se nutra de alimentos diferentes. Não alimentos caros, mas alimentos diferentes, até mesmo simples. Pois a multiplicidade aumenta a potência e saúde da singularidade que a incorpora  , tornando a diversidade    parte  integrante de si.

Mas para que esses alimentos diferentes potencializem o corpo que deles se alimenta, é preciso que esses alimentos se componham , ou seja, que a união deles seja um acréscimo de força, de saúde e até mesmo de harmonia, como numa polifonia musical feita com sons de instrumentos diferentes que, juntos, criam uma música singular, única.

Nosso corpo é composto de diferentes tecidos, de variadas estruturas ósseas, de sutis construções nervosas; e toda essa heterogeneidade que nos compõe , e que faz de cada um de nós um ser único, requer igualmente uma heterogeneidade de alimentos para manter-se e regenerar-se.

 Ao contrário, um corpo que se alimenta de apenas uma coisa, ou de poucas coisas, empobrece sua potência e saúde, uma vez que essa única coisa ou poucas coisas ingeridas irão alimentar apenas poucas coisas em nós , criando assim um desequilíbrio e desarmonia. Como resultado, nosso corpo será um misto debilitante  de excessos e carências. 

Se para nos alimentar dependêssemos apenas da monocultura que o agro-ogro produz, estaríamos todos doentes...O que nos salva é a riqueza plural da pluri-agricultura familiar.

O que vale para nosso corpo vale ainda mais para a nossa mente. Uma mente potente é aquela que se nutre de ideias múltiplas, diversas, plurais. Ideias que vêm não apenas de livros, mas também de músicas, filmes, poesias, exposições , enfim, ideias múltiplas que nascem da vida, ideias para serem pensadas, sentidas , vividas e postas em prática. 

São essas ideias plurais que alimentam e enriquecem de vida pensante uma mente singular. São elas que garantem a saúde da mente, tanto a mente individual quanto a coletiva . Enfim, uma polifonia de ideias expande a mente , tornando-a criativa e aberta à heterogeneidade do próprio mundo.  Não por acaso, “saber” vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são alimento ou veneno.

Pois a mente que se nutre de uma ideia única, na verdade não se alimenta, se envenena. Mente assim se fecha à heterogeneidade da realidade,  passando  a negá-la ou a temê-la . E disso se aproveitam os dogmas, as “seitas” de toda espécie ( incluindo a “seita do Mercado” ) e tudo aquilo que alimenta a ignorância em suas diversas formas.

“Nas mãos a ferramenta de operário, e na cabeça a coruscante ideia.”

Versos do poema “Spinoza”, de Machado de Assis. Estes versos inspiraram  Nise ao dizer que não é no cérebro que apenas teoriza que se encontra  a felicidade, mas naquilo que  fazemos com nossas mãos, sobretudo quando  a ocupamos transformadoramente  com arte , generosidade e educação. Pois mãos adoecem quando servem à ideia única de apenas  contar dinheiro...



Esse livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura. Tive a alegria de participar de evento organizado pelo Museu de Imagens do Inconsciente no qual foi lançada essa edição do livro de Nise sobre Espinosa. No texto que escrevi e postei aqui, a referência a Espinosa é: Ética, Quarta Parte, Apêndice, Capítulo 27.

 

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A mídia comercial costuma dizer que vivemos um período político “polarizado”. Porém, esse tipo de “informação” dissimula uma intenção ambígua, para dizer o menos. Pois só podem polarizar realidades que pertencem a um mesmo conjunto ou gênero de coisas.

Por exemplo, o alto e o baixo polarizam no conjunto de coisas que têm dimensão física; o doce e o salgado polarizam no âmbito  das coisas que têm sabor; direita e esquerda, conservadores e progressistas, polarizam dentro do conjunto das perspectivas políticas.

Mas o fascismo não é um dos polos dentro daquilo que compreendemos ser a democracia. Ao contrário, o fascismo é o que quer destruir a democracia e sua possibilidade de perspectivas diferentes  buscando  o governo do Estado . Democracia é divergência  de perspectivas, porém sem rasgar as  regras ou ameaçar com tanques quem pensa diferente.

Quando a mídia comercial  coloca o fascismo e a esquerda como “polarizando”, além de isso  ser um erro de raciocínio ( um “sofisma”),  na verdade ela  está  tomando partido, de forma dissimulada, pelo fascismo, sobretudo quando esse promete uma pauta de venda do patrimônio público, pauta que é a mesma da mídia comercial e do capitalismo predatório.

 


 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

caput laranja...

 

O capitalismo é niilista em sua essência. Um dos sentidos de  “nihil” é  “nada”.        Sabe-se que a quantidade de capital especulativo que circula no mundo corresponde a mais de cinco vezes o valor dos bens reais que existem no planeta, inclusive terras. E mais de 90% desse capital está na mão de apenas 1% da população.  Ou seja, se esse 1% resolvesse, ao mesmo tempo, comprar terras , eles comprariam o planeta terra inteiro e ainda ficariam faltando mais quatro do nosso planeta. Como não existem outros quatro planetas terras, mas apenas uma única e singular terra, as outras quatro terras são , na verdade, a nossa terra mesma sendo asfixiada , poluída e  destruída quatro vezes, aos poucos.

   O capitalismo não é o comércio de bens e coisas. Ele é uma pulsão de m0rte em cujo rastro de nascimento estão as guerras (sobretudo as mais covardes), a pirataria, o roubo, a escravidão, a pilhagem...

O capital não é o níquel  da moeda, tampouco o papel de que é feita a nota. O níquel veio do seio da terra; e o papel, da floresta. Terra e floresta são vida. O capital é  uma abstração numérica sem vida, um nada.

Curiosamente, capital deriva do latim “caput”, “cabeça”. O capital não é o braço que trabalha ou a mão que escreve ou pinta,  mas apenas a vida abstrata de uma cabeça que não sonha ou poetiza, apenas conta, contabiliza, maximiza. “Caput” é a cabeça vazia de ideias, é a cabeça acéfala, como a cabeça de Trump.

  O capital não tem nome. O  euro, o peso, o real....não são “o” capital. Essas moedas têm nome em razão de seus respectivos enraizamentos na história dos povos onde nasceram. É um povo que dá nome à sua moeda, é o povo o seu genitor. No entanto, quem deu nome ao capital? Quem é seu pai? É com notas ou moedas que o povo compra o leite e o pão. No mundo do capital, porém, tais coisas viram “commodities”, coisa nenhuma, pura nada da especulação numérica, mas que pode arrasar economias inteiras, levando seus povos à fome.

    "Comunismo" traz em seu nome a realidade da qual ele extrai seu sentido: "comunidade", "comuna". O mesmo ocorre com "socialismo" :o "social". "Democracia" traz o termo "povo" (demo) como sua razão de ser.

Porém, quanto mais necr0político é um poder , mais aquilo que ele designa tende ao abstrato,  um nada  de solidariedade, de empatia e de generosidade. Não por acaso, "nazismo" também não designa nada de vital e concreto,  pois é um mero acrônimo das iniciais do partido de H1tler.






 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

o que não vira sucata...

 

1.Arrumar a casa. Limpar a poeira acumulada, para que as cores sufocadas respirem em nova aparição.

Cuidar dos suportes físicos, para que eles sejam a imagem externa da integridade do nosso espírito.

Lustrar os vidros, para que nesta transparência nosso pensamento se possa ver.

Reorganizar as distâncias entre as coisas, para que o espaço não seja um vazio, e para que a presença dos objetos não atrapalhe  o correr livre das crianças .

Praticar o desapego daquilo cujo tempo passou, para que a luz do dia toque de novo os olhos do nosso desejo: e que este seja como uma aurora a raiar.

Fazer tudo ao som da música, cantando junto, para que na mente também se opere a faxina.

Depois de tudo revitalizado, alegrar que sejamos nossa primeira visita.

 

2. Segundo o poeta Manoel de Barros, tudo o que é verdadeiramente novo nunca vira sucata. Avião, automóvel , celular de último tipo...tudo vira sucata. Até mesmo o tempo que o calendário conta vira sucata.

Mas o que não vira sucata? Onde se encontra o verdadeiramente novo? Não é no produto criado que se encontra o novo, e sim no ato de criação. O rio só  mantém seu fluxo vivo e avança se estiver umbilicado à nascente da qual continua a fontanejar, autocriando-se.

Os povos originários , por exemplo,  vivem muito mais próximos do tempo que não vira sucata, pois os indígenas  não vivem  o tempo sob números abstratos, e sim a partir dos  acontecimentos singulares da própria natureza, segundo os ritmos do sol e da lua.

Os números são abstrações porque conseguem representar somente as quantidades, nunca as qualidades , os ritmos e as intensidades. Somente um tempo concreto, singular, qualitativo e intenso tem força para resistir a virar   sucata, pois  um tempo assim tem a potência da vida e de seus ritmos.

 Mas onde encontrar esse tempo singular? Onde fica sua nascente, seu nascedouro, sua natência?

O poeta assim responde: os dias, os anos, os séculos, os milênios...tudo isso vira sucata. Mas o que nunca vira sucata é a aurora. A aurora é a nascente  da qual brota o autêntico  tempo novo.

E nós mesmos nunca viraremos sucata, não importa a idade que tenhamos, enquanto nos horizontarmos afetados por uma aurora . Para que,  juntando forças,  possamos    “fazer amanheceres”, como ensina o poeta, apesar  dessa noite longa...

O tempo não é um velho, mas uma criança: dentre os seus vários brinquedos, o sempre  novo é a esperança.

Às amigas & amigos, desejo autênticos Amanheceres.