domingo, 8 de março de 2026

Sofias...

 

Em grego, “Sofia”  é “Sabedoria”. Não se deve confundir “Sofia” com “Razão”. A  palavra “Razão” em grego  é masculina (“Logos”)  e tinha  em Zeus um dos seus símbolos.

Porém Zeus  não era a Sabedoria, pois  Sofia é filha de Zeus com Métis.  Por possuir muitos dons e capacidades, Métis era conhecida como  a deusa das “habilidades”. Não a  habilidade meramente   técnica, mas habilidade no sentido de produzir , além de ideias,  um querer e um agir múltiplo e criativo.

Métis também estava  associada à noção  de “saúde” enquanto cuidado consigo e com os outros. A palavra “caute” , base da Ética de Espinosa, provém dessa habilidade médico-curativa . Pois de “Métis” também vem “meticuloso” , no sentido do cuidado (“caute”)  que caracteriza o bom médico ( tanto os médicos do corpo quanto os médicos da alma, os pensadores-artistas).

Uma das características de “Métis” é que ela era capaz de metamorfoses, de devires. Ao enamorar-se com Métis,  Zeus buscou na metamorfose dela um processo para renascer também.

Agenciada com Métis ,   a própria Razão potencializou-se para lutas que ela não tem como vencer sozinha, lutas para enfrentar a ign0rância em suas diversas formas. Fortalecida, a Razão aprendeu habilidades  que a pura razão teórica não ensina.

 As habilidades de Métis são artes que unem o pensar ao agir. E foi desse agenciamento mais afetivo do que teórico , mais artístico e poético do que acadêmico, que nasceu  então Sofia, também conhecida como “Atena”, filha de Zeus com Métis.   

Os teóricos da Razão  inspiram-se em Zeus, mas os pensadores-artistas são  apaixonados por Sofia: e por essa paixão não apenas pensam, como também agem e criam.

Na lut4 contra a ign0rância e a obscurid4de, ontem e hoje, a Razão não vence sozinha: é preciso que a acompanhe Sofia. Às vezes, é a própria Sofia que salva a Razão de si mesma , fecundando nela sensibilidade  e vida, impedindo  assim que a Razão fique dogmaticamente estéril, rígida.

Segundo Nietzsche, hoje a filosofia atende  por outro nome, um nome feminino  também : “Ariadne”, nome que  significa “aranha”. Pois Ariadne é tecedora de fios, fios que ela tira de seu próprio ventre, como a “linha de fuga” ensinada por Deleuze .

Ariadne simboliza  a necessidade de um fio que nos agencie, um fio trançado  com  Ideias libertadoras e Afetos regeneradores, como    mãos que se seguram umas às outras  na luta e resistência ante toda forma de tir4nia, mãos de Sofia e Ariadne  unidas às mãos de Dandara, Eunice, Fernanda, Clarice, Marielle...

Esse fio-agenciamento que une e salva ganha vida na  voz de  Elza Soares:

“Eu não vou sucumbir 

Eu não vou sucumbir

Avisa na hora que tremer o chão                      

Amiga, é agora, segura a minha mão”.

( Trecho da música “Libertação”)

 

“A paixão sem a razão é cega;

 a razão sem a paixão é inativa.”

(Espinosa)

 

(Imagem: a pequena Sofia)





Letra-poema de Violeta Parra:





sábado, 7 de março de 2026

Manoel e os fluxos...

No livro "O guardador de águas", o poeta-pensador Manoel de Barros afirma que aprendeu  a guardar águas. Não ouro, dinheiro ou posses, mas águas. Guardar também é cuidar.

As águas que o poeta guarda não são exatamente coisas, elas são fluxos. Cuidar dos fluxos é o oposto de construir cercas ,  gaiolas , muros ( literais ou simbólicos).  Os fluxos são sempre desterritorializados e desterritorializantes : “não se pode ‘passar régua’ neles”, ensina Manoel.

Mas  não se deve confundir esse “fluxo” manoelino com aquilo que o sociólogo Bauman chama de “líquido” , ao descrever  as sociedades contemporâneas .

 No “mundo líquido”, as relações, os amores, as políticas , as temporalidades, o trabalho, as subjetividades e até mesmo o conhecimento se tornaram   “volúveis-voláteis” ( como a liquidez do Capital que a tudo desumaniza e reduz a juros e lucro).

 O líquido aceita ser limitado e contido por moldes. Já um fluxo é feito o sangue nas veias:  se não   avançar, perece.  Os fluxos ou inventam linhas de fuga ou secam e morrem -  e a secar resistem com toda força que podem.

 Os fluxos somente podem ser guardados em espaços  abertos. E abertos se tornam a sociedade, a mente e o afeto se um fluxo de vida os atravessa.

Os fluxos nascem de fluxos, não de coisas enrijecidas: o  rio amazonas  nasceu da geleira no alto dos Andes , mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo...até alcançar o horizontado mar , para mar também se tornar.

Guardar as águas é guardar-se nelas, como necessária arte dos (re)descobrimentos: "estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir"( Clarice Lispector, “A descoberta do mundo”).

Somente uma fonte pode guardar fluxos.  A fonte guarda fluxos os  doando, pois uma fonte é um fluxo de vida partejando a si  para matar sedes e  irrigar desertos.

 O fluxo é fluido, mas não é sem força ou volúvel; ele é firme, possui consistência, porém não é rígido. Pedras não  vencem o  avançar de um fluxo ,  enquanto pulsar a fonte da qual ele transborda.

 

“Quem anda no trilho é trem de ferro.

Sou água que corre entre pedras:

liberdade caça jeito.” ( Manoel de Barros)

 

“A cisterna contém; a fonte transborda”.   (William Blake)

 

“O artista é aquele que converte os obstáculos em meio”. (Deleuze)

 

( Imagem: “Sherazade”/ obra do artista Samil Hilal. Como as palavras emancipadoras de Sherazade enfrentando o poder repressor-falocrático  do “Sultão”, o agenciamento de livros forma um fluxo de ideias que segue em frente,  irreprimível...)






 

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

No caminho com Maiakóvski

 

“Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

(...)

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror."

 

( trecho do poema “No caminho com Maiakóvski", do poeta Eduardo Alves da Costa)

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Manoel de Barros: "Poesia pode ser que seja fazer outro mundo".

 

Certa vez, pediram ao poeta Manoel de Barros uma definição do que é a poesia. O poeta assim respondeu: “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. Nessa resposta, a palavra mais importante é o verbo “fazer”. Inclusive, a palavra “poesia” vem de um verbo grego  cujo sentido é exatamente “fazer, produzir”.

Quando se  substantiva a poesia apenas como rima e verso , perde-se a compreensão de que ela é também um verbo, uma ação, que pode produzir muitas outras coisas além de rimas e versos.

A poesia produz também percepções, pensares e sentidos outros que subvertem o “mesmal”  do “mundo acostumado” .

Manoel diz que o poeta produz versos porque , antes de escrever, “o poeta  se empoema”. Empoemar-se é um sentir que pensa, tornando-se potência criativa  que nasce de uma intensificação da vida.

Quem se empoema,   desegoifica-se  e se desabre:  não cabe mais dentro de si.  Alguns se empoemam  e dançam, outros se empoemam e pintam, outros se empoemam e cantam, outros se empoemam e  ensinam, outros se empoemam e aprendem,  outros se empoemam e se tornam generosos, corajosos, insubmissos,  libertários , enfim, intensificam o que neles é vivo .

 E com o máximo de força que podem , se esforçam para fazer outro mundo começando pelo lugar onde se está, mesmo que seja um lugar modesto, micropolítico: sala de aula, fábrica, rua, praça, residência, favela, vizinhança, janela, mundo virtual...

E primeiro que tudo, deve-se começar por fazer outro mundo dentro de si mesmo, na maneira de pensar e sentir, fazendo-se de novo página branca, sem roteiros prévios , para que nela a vida reescreva novos sentidos por descobrir , sentidos  que nos auxiliem a resistir à antipoesia dos homens cultuadores do ódio, da destruição e da morte.

É por isso que o importante naquela definição de poesia  também  é o “pode ser que seja”,  pois poesia não é   palavra de ordem , fórmula  ou dogma;  poesia  é ideia pensante  para ser sentida e reinventada, reinventando-nos , como potencialização da liberdade agenciada.

Como ensina Deleuze: “Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o filósofo é o poeta”.


(parte do que escrevi se encontra neste livro que organizei)




 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Espinosa e o "niilismo"

Para Espinosa , deus não criou o mundo do nada , tampouco é rodeado pelo nada. Para Espinosa, o nada é uma negação imaginativa-reativa feita pelos que ignoram o que é a  natureza.

O nada não existe ontologicamente,  mas apenas antropologicamente: é a imaginação reativa do homem que cria o nada ( "nihil", em latim).

Nem sempre esse nada aparece com seu nome original, mas com outros nomes. “Paraíso” e “Inferno”, por exemplo, são alguns nomes que encobrem esse nada. Até mesmo “Deus” ( esse “Deus” que Flávio Bolsonaro quer  reduzir a cabo eleitoral seu)  também pode ser  o nome desse nada, quando se faz de Deus um ente que castiga, que pune, ou seja, um deus vingativo  e preconceituoso que escolhe um povo em detrimento de toda a humanidade.

O poder teológico-político cultua  esse nada, muitas vezes em templos de ouro ( nada tendo a ver, portanto, com o Deus simples, amoroso e modesto de Francisco...). 

E quem cultua nadas assim se agrilhoa na imaginação passional-reativa, passando a viver no medo, na ignorância, na credulidade incauta, no ódio e na superstição, todas características de uma mente infantilizada que não sabe governar a si mesma, sempre precisando de um profeta, de um “messias”, de um “eleito”, enfim, de um “tirano” que os sujeite a viver como rebanho.

À sua época, Espinosa assim já diagnosticava aquilo que hoje se chama “niilismo”.


Uma das referências do texto é este livro de Espinosa, sobretudo o Capítulo III : "Que Deus é causa de tudo".




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

a própolis e o formal

 

Hoje no Brasil se fala muito em  “ ser conservador” como um comportamento oposto ao de  “ser criador”, “progressista”. Segundo Espinosa, porém, há duas maneiras de “ser conservador” . Essas duas formas podem ser explicadas , de maneira simples, a partir do seguinte exemplo:

Seria absurdo querer conservar apenas a mesa que o carpinteiro produziu, descuidando do próprio carpinteiro e sua potência criativa de produzir mais mesas, inclusive de produzir mesas diferentes daquelas que até hoje ele criou.

É no produtor, e não no produto, que criar e conservar andam juntos: o que se deve conservar é o ato de produzir o novo, e não apenas o produto pronto desse ato. Nesse sentido, conservar é proteger e cuidar, para fortalecer a potência de criar .

 Os progressistas agem para conservarem a potência criativa do produtor ( os “direitos sociais e trabalhistas”, por exemplo, existem para  essa função) , já os conservadores-reacionários querem conservar apenas os produtos transformados em propriedade que o capital compra explorando o produtor e tirando dele os direitos.

 A prática de conservar o que é criador nos é ensinada pela própria natureza : a própolis, por exemplo,  conserva/cuida  da vida da colmeia  para que esta se proteja das doenças que querem , de dentro, fragilizá-la ; e, ao mesmo tempo, a própolis é força que ajuda a colmeia a se manter  reinventando-se ,  perseverando na vida.

Porém, criar e conservar se tornam ideias antagônicas quando se quer colocar o conservar antes do criar, vendo no criar algo que ameaça uma “Ordem” rígida , paranoica. Um conservar assim é o que faz o formol: serve para conservar apenas o que já está mortificado e não  se reinventa mais, como produtos em lata de conserva...

Arte, filosofia, educação são própolis; prot0fascismo fundamentalista teológico-político é formol.  

 

( a “Ética” é o livro-própolis que Espinosa escreveu)

 



domingo, 15 de fevereiro de 2026

A mariposa

 

Eu ainda não havia despertado totalmente, mas já sentia no ar a presença  de um novo   dia que nascia.  De repente, ouvi um som agudo provocado por um bater de asas agitado e aflito  que passou roçando  meu rosto. Abri então os olhos:  era uma pequena mariposa que se aprisionou em meu quarto ainda um pouco escuro.

 Não sei se era  uma  jovem mariposa aprendendo seus primeiros voos,  sem confiança ainda; ou se era, ao contrário,  uma mariposa já muito vivida querendo fugir do mundo, desiludida. O que sei é que ela rodopiava atônita e perdida, como se estivesse presa   num labirinto cujo centro era um vazio .

 Levantei  da cama rápido querendo arranjar um jeito de auxiliar a mariposa a se libertar daquele rodamoinho angustiante  que ela mesma criou para se atar.

Fui   à janela e a abri toda para que entrasse  a luz. Foi então que vi o dia...Que dia! Após  uma noite  de chuva e frio , o céu abria-se   todo  azul , enquanto  o sol aquecia de novo tudo o que é vivo. 

Com cuidado, cheguei perto da mariposa  e apenas lhe disse  ( com a franqueza dos amigos que desejam o bem um do outro) : “Com um dia desse, com essa amplidão para explorar voando, você vem se enclausurar em meu quarto com medo!?Quem me dera ter suas asas...”

Juro: a mariposa foi acalmando seu  rodopiar aflito , reorientou suas asas para novo sentido , parou de antecipar na imaginação os perigos, emendou-se. Tomou coragem e atravessou    a janela, foi pro mundo, aceitou da liberdade o risco.

Em Espinosa, “emendar-se” é autocorrigir-se : dar ao pensamento um horizonte, para que nos pés floresçam novos passos.

 

(Este filme  é apenas uma sugestão)






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A embriaguez da criação

 

Uma das origens do carnaval remete a Dioniso, o deus das Artes. “Dioniso”  significa: “Aquele que nasceu duas vezes”.

No primeiro nascimento , Dioniso veio ao mundo chorando, como todo recém-nascido. Mas  o segundo nascimento envolve a seguinte história:

Quando era ainda criança, Dioniso foi vítima das Fúrias, seres que representam o ressentiment0, o ódio e a vinganç4. As Fúrias despedaçaram Dioniso, imaginando assim que o derrotavam.

Porém , Dioniso tinha ainda uma arte que as Fúrias desconheciam...Dioniso não estava totalmente vencido: havia uma parte dele que ainda o guardava inteiro, íntegro. Essa parte era o coração.

Os seres do  ódi0 e da destruiçã0, tanto os de ontem como os de hoje,   ignoram  a Potência que vive no coração da arte, ignorando igualmente  a força regeneradora que há na criação como força que , perseverando, resiste .

Dioniso partejou-se então do próprio coração, enquanto lugar do Afeto Transmutador , renascendo ainda mais vivo para a Vida.

Se no primeiro nascimento Dioniso nasceu chorando, agora Dioniso renascia em festa, como expressão do triunfo da Vida sobre seus carrascos :“A filosofia está sempre a enterrar seus coveiros” (Étienne  Gilson).

Originariamente, antes de ser associado ao vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em grego, “bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”.

Há os que , etilicamente, se embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na ação generosa/criadora de florir e frutificar.

O poeta Baudelaire dizia: “É preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher. Mas embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “seja uma floração de ideias e de ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva, o Deus de Espinosa é a Potência Absoluta de Floração.

 

(Imagem: “A vinha vermelha”/ Van Gogh)




Sobre a relação originária de Dioniso com a vinha, e não com o vinho, a principal referência é esta:



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Kurosawa, Van Gogh, Espinosa e Manoel de Barros: florações...

 

No filme “Sonhos”, de Kurosawa, há uma cena em que uma criança chora porque um jardim de pessegueiros foi derrubado.

Então, perguntam a ela se o choro dela era devido a não poder mais  comer os pêssegos, ou seja, se o choro  era motivado pelo interesse nos frutos, nos pêssegos.

A  criança responde mais ou menos assim: “Eu não estou chorando pelos pêssegos , pois  pêssegos podem ser comprados  em quantidades no mercado . Eu choro porque nunca mais vou poder ver a floração dos pessegueiros: a floração é única e  não se mede em dinheiro, nem se vende no mercado...”.

De repente, ainda chorando, a criança vê algo colorido num  canto daquele  jardim desolado. Ela   chega perto para ver o que é: do tronco de um pessegueiro  cortado e violentado, a vida ali resistiu e perseverava , pois pequenos embriões de floração novamente brotaram.

Então, como se tivesse ganho o mais desejado dos presentes,  a criança enxuga as lágrimas e  sorri.

O pêssego é colhido com as mãos, já  a floração é para ser colhida com os olhos, para que o próprio ver nos olhos floresça, e enxergue mais do que o mero dado.

O pêssego é o produto que pode ser separado de seu produtor, ao passo que  a floração é a arte que torna indistintos o artista e sua obra ainda em processo e  brotando dele mesmo, em generosa doação.

O pêssego mata a fome do estômago, mas  a floração mata outro tipo de fome:  fome de arte, de poesia e de criação.

As ideias são como os pêssegos, porém pensar é floração da mente unida ao corpo, como ensina Espinosa. Manoel de Barros, por sua vez, diz que “poesia é afloramento de falas”.

A liberdade não é um fruto pronto que podemos colher, a liberdade  é floração concreta no aqui e agora, como ato emancipador   fazendo-se.

Há os que cobiçam  os pêssegos apenas para pôr neles um preço e vendê-los no  mercado, reduzindo    os pêssegos a meros meios  para se acumular capital, poder e dinheiro.

Mas há os que veem riqueza na floração dos seres, uma riqueza que não se mede em dinheiro, pois é uma riqueza que se cultiva com a arte, a filosofia, a cultura e a educação.

Porém , é preciso cuidar dessa floração e agir para que ela sempre aconteça , pois odeiam essa floração, e sempre a ameaçam, os ceifadores e destruidores de jardins.

 

  "Poesia é florescer pelos olhos." (Manoel de Barros)

 

“Filosofia é prática para ensinar a ver.”( Merleau-Ponty)

 

 

( imagem: “Pessegueiros em flor”/ Van Gogh)



 

Originariamente, antes de ser a divindade do vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em grego, “bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”. Há os que , etilicamente, se embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na  ação generosa  de florir e frutificar. O poeta Baudelaire dizia: “É preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher. Mas embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “sejam uma floração de ideias e de ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva,  o Deus de Espinosa é a Potência Absoluta de Floração.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

conservar , reformar e revolucionar

 

Vida e  política giram  em torno destes três verbos: conservar, transformar e revolucionar. O conservar é o credo dos conservadores, o transformar é o interesse dos reformistas, o revolucionar é a prática dos revolucionários.

Os conservadores exaltam a Ordem e querem mantê-la, não importando se ela é injusta; os reformistas querem mudança, mas negociada e sem romper com a ordem estabelecida; já os revolucionários pensam e agem para criar uma realidade nova, sem negociatas e concessões à ordem antiga.

Os conservadores são saudosistas, os reformistas são utilitaristas, os revolucionários  são artistas ( cuja obra a criar  é , sobretudo, um novo modo de vida) .

O conservador idolatra o passado, o reformista é refém do presente “líquido” , o revolucionário age por um futuro que nos liberte do passado e crie um “fio de Ariadne” que nos tire deste distópico presente-labirinto .   

O poder é sempre conservador; a lei é o usual   instrumento do reformista; porém é o desejo de justiça que expressa a potência de todo  revolucionário.

Quando o conservador pensa em arma, ele pensa na arma literal, destrutiva; já o reformista tem por arma a política representativa; mas  a arma do revolucionário é   a educação, a cultura,  a arte , o amor...pois em tudo isso há política.

A diferença entre o conservador e o revolucionário salta aos olhos, porém nem sempre é evidente o que distingue o reformista do revolucionário. Na boca de um e de outro sempre está uma palavra: o “possível”.

Mas reformistas e revolucionários não pensam a ideia de possível da mesma maneira. No reformista, o possível é aquilo pode ser  realizado, ao passo que no revolucionário o possível é o que precisa ser criado. Realizar não é a mesma coisa que criar.

O músico que toca no palco realiza a música que o compositor, antes dele ,  criou. Já o compositor criou a música e assim a tornou real. O compositor-criador cria uma realidade nova: ele “ouve” a música que nunca foi  tocada.

O reformista  realiza o possível de acordo com o que está estabelecido em um real dado. Já  o revolucionário cria o possível ainda que o real dado lhe diga que é impossível criar outras possibilidades de vida e de existência.

O revolucionário não age a partir do já estabelecido, tampouco se ajoelha diante dos valores dados:   o revolucionário cria o possível mesmo quando, antes de sua criação, criar algo novo parecia impossível de ser criado.

Como ensina Foucault : "Um pouco de possível para não sufocarmos".

( este livro é apenas uma sugestão)