WIMMER[1]
Não se deve lamentar os mortos:
o que vive uma vez,
vive para sempre.
Joseph Conrad,
"Lord Jim"
Nenhuma coisa pode ser destruída,
a não ser por uma causa exterior.
Espinosa,
Ética 3, Prop. IV
Conheci Wimmer há mais de 30 anos.
Ele me foi apresentado como alguém que queria ter aulas de filosofia fora do
ambiente acadêmico. Ele já contava quase 70 anos. Seu aperto de mão era firme,
para não deixar dúvidas acerca do seu caráter, firme também. E nunca ele
desviava os olhos enquanto falava, e nem quando ouvia. Ele era firme, de corpo
e alma, nisso me lembrando uma das virtudes fundamentais da Ética de
Espinosa: a firmeza[2].
Ele foi direto ao assunto: “Sou um engenheiro de formação e espírito. Não
quero morrer sem saber que coisa é essa a que chamam de filosofia. Tenho
pressa, urgência. Podemos começar o curso logo? Ele terá apenas, em princípio,
um mês.” Wimmer não era apenas um engenheiro, ele foi um grande engenheiro que ajudou a construir parte desse país.
Aceitei o desafio. Marcamos o começo do que seria o breve curso para a semana seguinte, na
residência dele.
Wimmer morava em um apartamento na zona sul do Rio, com obras de arte por toda parte,
tudo expressando um bom gosto[3].
A aula começou logo após o aperto de mão e a oferta de um simpático e muito bem
feito cafezinho. Enquanto me ouvia, percebia que havia dentro dele movimentos
mentais, havia raciocínios, mediante os quais ele ia refutando Platão ( às
vezes apenas mentalmente e em silêncio, falando
apenas com o rosto; às vezes interrompendo
e tomando a palavra, posicionando-se criticamente). Wimmer não
simpatizou com o platonismo, e foi franco comigo ao demonstrar sua antipatia. “O
maior de todos os filósofos, segundo dizem, é
isso!?” Assim me indagava ele com os olhos críticos (olhos filosóficos,
portanto).
Passei rapidamente para outras
possibilidades do pensar filosófico. Ele considerou interessante os sofistas,
demonstrou interesse sincero pelos materialistas, sobretudo os atomistas, e
ouviu com muito interesse quando lhe falei da Escola de Epicuro, que lecionava
em jardins, em contato com a Natureza. Nietzsche o fez sorrir pela primeira vez, enquanto Espinosa
o fez se ajeitar na cadeira. Eu passava por tudo muito rápido, dentro do
que era possível.
Wimmer era extremamente
inteligente e lido nos assuntos da ciência. Ele tecia relações entre
temas filosóficos e questões da ciência com extrema facilidade, embora às vezes
com certo reducionismo, e o alertei para isso, no que ele aceitou. Porém, ao
final das quase duas horas de aula notei
nele certa decepção com a filosofia, com
aquela sucessão de teorias, apesar de
ele ter simpatizado com algumas. Até que fechei os livros e as teorias, e
tentei abrir o pensamento dele para um problema , uma questão. Uma coisa é a
filosofia, outra o filosofar, o pensar. Mostrei-lhe que ele já possuía e exercia,
de alguma maneira, o filosofar, e que este poderia melhorar com o
conhecimento da filosofia.
No fim, coloquei a ele um problema, uma questão, fiz-lhe uma pergunta.
Perguntei-lhe algo cuja resposta não poderia ser encontrada em teorias ou
ciências. Uma pergunta simples, que envolvia mais o pensar a relação com a vida
do que teorizar o que a vida é. E ele não encontrou a resposta. Pela primeira
vez vi no rosto dele a expressão que somente encontro em pessoas que aceitam ser aluno. Não é fácil
aceitar ser aluno. E somente se torna capaz de ensinar quem também se comporta
como aluno: como aluno dos livros que lê, como aluno dos filmes que vê, enfim,
como aluno do Acontecimento o qual chamamos de Vida. Aceitar-se aluno, aprendiz
( o que nada tem a ver com ser neófito ou ser passivo), é talvez
pôr em prática aquela modéstia de que nos fala Espinosa. "A potência é modesta", confirma
Deleuze.
Ele percebeu que o limitava a
postura de sempre querer ser professor diante das ideias que precisamos, no
entanto, aprender ( Wimmer também era
professor de engenharia). Como ser professor ou ter opinião daquilo que
não se sabe? "O aprender vem antes do ensinar", já nos ensinava Deleuze. Ele ficou então sem
resposta : o professor que ele era, e que sempre tinha as respostas, ficou mudo, embora eu tenha percebido que
algo nele pôde então começar a ouvir.
Creio que ele percebeu que não ter a resposta não era uma carência ou falta, mas um ganho.
Aos 70 anos, já tendo muito ensinado, ele viu a necessidade, idêntica à
liberdade, que está no aprender a
aprender. Em tudo o que os filósofos ensinam, às vezes de forma dogmática e
rígida, é preciso ver o que eles aprenderam;
e o aprenderam a partir da liberdade que tinham, da sensibilidade que
tinham, da alma que tinham. E o que eles aprenderam, e transformaram em teoria
e doutrina, não esgota toda a potência do aprender. E é sempre com o novo que
se aprende ( há um poema de Murilo Mendes intitulado "O menino
experimental", no qual o poeta diz que um menino que aprende algo novo já
refuta, por isso mesmo, tudo o que ensina
a ortodoxia com suas verdades absolutas). Na escola em que os
filósofos aprenderam só existe aluno,
como na Escola de Epicuro. E esta talvez seja a “desaprendizagem” de que fala
Manoel de Barros como exercício poético : a ignorãça.
No final das mais de duas horas daquele encontro, pensei comigo: “Ele não
vai querer mais aulas, esta será a primeira e última”. No entanto, após minha
última frase ele me cumprimentou e
disse: “Vejo você na próxima semana”.
Então, a pedido dele, retornei na semana seguinte, e na outra, e na
outra, e na outra...Enfim, o curso acabou durando três anos. Não sei ao certo em qual momento as
aulas se transformaram em uma conversa, em uma “conversação”, como diz Deleuze.
Ganhei também um grande amigo naqueles encontros.
O curso teve que ser interrompido porque Wimmer adoeceu rapidamente de
uma enfermidade que não tinha cura. Ele
foi firme e corajoso naquela situação em que muitos fortes sucumbem ao desespero. Mas nunca o vi
lamentar-se da vida. Apesar de doente, muito doente, ele foi à minha defesa de
doutorado e se sentou na cadeira da frente. Ele me fez lembrar esta frase de
Nietzsche: “mesmo muito doente, jamais fui doentio.”
A última vez que o vi foi no quarto do hospital , ele já muito doente e sem expectativas de cura. Ele pediu
para todo mundo sair , pois queria conversar apenas comigo. Foi nossa última
aula. Nessa aula, porém, eu fui o aluno. A fala que ele fez ali me lembrou
Epicuro, os estoicos, Espinosa...Ele filosofou sem anunciar que estava
filosofando. Foi a melhor aula de filosofia que tive em minha vida. Não havia
na fala de Wimmer o menor traço de desespero, de ressentimento ou de ódio à
vida, mesmo diante da morte, mas de uma compreensão não filosófica da filosofia
, tal como aquela compreensão ensinada por Deleuze.
Quando Wimmer faleceu, sua esposa me confidenciou que ele aceitara que
houvesse uma missa ecumênica em sua memória , desde que eu também falasse na
ocasião. Wimmer não era exatamente ateu, ele era agnóstico. Quando expliquei
para ele certa vez o que era o agnosticismo, ele quase saltou da cadeira e
me disse: “Eu sou isso!”
Não tive como recusar aquele
pedido de um amigo, ainda mais expresso
pela boca de sua esposa. A missa aconteceu em uma igreja de Copacabana. Eu e
mais sete representantes de diversas religiões nos encontrávamos em uma salinha.
Os religiosos olhavam para mim com um olhar intrigado, pois eu estava ali como
filósofo e era assim que eu fui apresentado. A porta da salinha se abriu e fomos orientados a seguirmos até o altar. Atravessamos a nave
da igreja em silêncio, em fila indiana. Eu era o último. Quando subimos ao
altar e nos sentamos, pude perceber o quanto a igreja estava lotada. Parecia
uma plantação de algodão, tal a quantidade de idosos que ali estavam, todos com
a cabeça branquinha. Então, um a um, cada representante religioso foi chamado
para ir até ao púlpito. Primeiro, o protestante; depois, o espírita...e assim
foram os demais. Percebi que esses religiosos não conheceram pessoalmente o
Wimmer, de tal modo que suas falas seguiam um protocolo, um formalismo, uma
cartilha. Chegou então a vez de eu ir ao púlpito. Confesso que nada havia
preparado, nem sabia ao certo o que dizer. Falar do agnosticismo do Wimmer!?
Nem pensar, não havia necessidade e nem razão. Falar ali naquele espaço cristão
da sua admiração por Nietzsche!?...
Quando pisei no púlpito e olhei para o público ,subitamente me lembrei de um dos afetos filosóficos do Wimmer, lembrei-me de Espinosa. E falei então de um trecho de Espinosa no qual ele diz que quando a morte leva um recém-nascido, a morte leva a maior parte do que aquele pequeno ser era, mas não leva tudo: algo da criança fica, pois a morte não tem poder absoluto. Mas quando a morte vier levar aquele que, em vida, ligou-se , com o corpo e com a mente, ao que é eterno, deste a morte levará apenas a menor parte, uma vez que a maior parte ficará imune ao destruir do tempo[4]. Ficará como lembrança tornada afeto de um exemplo potente de vida que sempre despertará e manterá viva a melhor parte de nós.
Olhei para o rosto da esposa do Wimmer e vi que ali havia aprovação ao
que eu disse. No final da minha fala muito emocionada com a lembrança do
aluno-amigo , alguns dos presentes vieram falar comigo. Lembro bem de um senhor
muito simples, já bem idoso e com a mão duramente calejada , mão de quem muito
trabalhou e não teve tempo de se dedicar
a filosofias ( a mão dele me lembrou a do filósofo-artesão Espinosa a polir lentes...). Ele usava um
boné bem surrado no qual estava estampado o número 12 escrito em vermelho ( uma
referência ao partido de Brizola e Darcy Ribeiro à época). Com indisfarçável entusiasmo, o senhor apertou minha mão e disse: “Poxa, eu não
sabia que esse técnico do botafogo dizia coisas tão bonitas!...”. Sorri e
expliquei para ele que o tal Espinosa não era o Waldir Spinoza, então técnico
do botafogo...O Espinosa que mencionei era um filósofo de nome Bento, o Bem-Dito. “Um filósofo!”, exclamou
ele olhando para a esposa. Ele me pediu o
nome da obra na qual estava a história que contei. Virando-se para a
esposa, ele pediu a ela um papel para anotar o nome. Mas o único papel que ela
tinha era um bilhete de megasena...E foi ali mesmo que o idoso escreveu , com
todo cuidado e desenhando as letras: “ Ética, do bem-dito Espinosa”.
[1]
Texto escrito pelo prof. Elton Luiz. Neste texto, tento traduzi o que vivi a
partir da filosofia de Espinosa, sobretudo as Proposições 38, 39 e 40 da Quinta
Parte da Ética. Portanto, é para essas Proposições que remeto a leitura
do que aqui narro.
[2]
Espinosa, Ética, Parte 3, prop. 59, escólio.
[3]
Como ensina Deleuze, antes de ser uma questão teórica e conceitual, a filosofia
é um exercício de gosto. Alguém pode nada conhecer de conceitos filosóficos, e
ainda assim ter gosto por questões filosóficas expressas na pintura, na música,
no cinema, enfim, nas artes . Ao contrário, há aqueles que apenas se interessam
pela lógica de um sistema, sendo apenas filósofos de gabinete , nada tendo do gosto filosófico
nascido da vida em sua concretude e urgência. Lê-los é um desgosto...
[4] Na
ocasião , citei de memória as Proposições mencionadas aqui na nota1.












