quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A chave-mestra

 

(Este texto é um comentário ao Prelúdio 51 de A gaia ciência. Nietzsche afirma que seu leitor deveria ter “bons maxilares e estômago”, mais do que mera inteligência analítica e memória. Pois “meus textos, dizia ele, é para serem digeridos”, isto é, absorvidos e incorporados àquilo que em nós é vivo e singular)

 

 

 

Onde quer que estejas, cava profundamente;

a teus pés está a nascente.  

(Nietzsche, “A gaia ciência”).

 

Há um estado de intuição para o qual a realidade, seja ela qual for,

só pode ser formulada poeticamente, segundo modos poemáticos; 

e isso porque a realidade, seja ela qual for, só se revela poeticamente.

Julio Cortázar[1]

 

Uma chave específica abre apenas a porta na qual está a fechadura que tem a forma dela. Porém, nenhuma outra porta diferente ela consegue abrir, todas estão fechadas para ela. Cada cientista em sua especialidade abre apenas uma porta: a chave do físico, por exemplo, abre somente o universo físico, sua chave não consegue abrir o universo psíquico; já a chave que tem o químico abre apenas o universo químico, não serve para abrir outras realidades diferentes da química.

O mesmo acontece com o filósofo que se torna especialista em apenas uma parte da filosofia: se ele fizer da lógica sua chave exclusiva, por exemplo, apenas a porta da lógica ele conseguirá abrir; se for a chave da estética a que ele exclusivamente usa, somente essa porta específica abrirá para ele, permanecendo as demais cerradas, inacessíveis, trancadas.

E o pior acontece quando um filósofo reduz toda a filosofia àquela porta que ele consegue abrir, reduzindo a filosofia a apenas um aspecto dela (como aqueles que, de forma reducionista, consideram que a filosofia é, antes de tudo, uma lógica ou uma epistemologia[2]...). A especialização não é um problema em si, ela apenas se torna uma limitação quando se quer fazer dela a norma para a filosofia.

Por isso, argumenta Nietzsche, o autêntico filósofo é aquele que deve ter, antes de tudo, uma chave-mestra. Uma chave-mestra é aquela que abre todas as portas. Não só abre todas as portas, mas as compreende como entradas singulares para uma mesma casa onde o pensar mora, um pensar umbilicado à vida. Uma casa cujo piso é a terra e seus horizontes, e o teto é o céu com suas infinitas estrelas[3] : "Minha casa pegou fogo, o teto ruiu...Nada me esconde mais a deslumbrante lua. " ( Koan japonês)

A porta aberta é o espaço de expressão e manifestação de Hermes. “Hermenêutica” tem no coração o nome  Hermes[4]. Assim, a chave-mestra também é chave hermenêutica que destranca e põe em comunicação espaços disciplinares fechados, ensejando assim uma inter/transdisciplinaridade.

A chave-mestra não torna aquele que a possui mais especialista em uma área do que o especialista da área em questão. Conforme já dissemos em outro texto-aula[5], “holístico” vem da palavra grega “holos”, que pode significar tanto “todo” como “completo”. A visão holística se contrapõe  à postura meramente compartimentada e estanque do conhecimento ( que Paulo Freire nomeia como “ensino bancário”).

O pensamento holístico integra as dimensões epistemológicas, éticas e estéticas à situação existencial do educando, tendo como objetivo potencializá-lo como ser humano. A chave-mestra é uma chave holística, uma vez que o autêntico conhecimento é um processo integrador de partes conectadas a um todo, como as partes de um ser vivo. Não um todo fechado, mas um todo cujos limites são limiares que se abrem a horizontes.

Na verdade, a chave-mestra abre todas as portas porque as conecta como partes de uma mesma realidade que se abre não apenas à Razão, mas também ao Afeto[6].

 

Texto branco sobre fundo azul

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

 

 



[1] Nesta outra epígrafe do escritor e pensador argentino Julio Cortázar que escolhi para acompanhar esta aula que escrevi, há a expressão “modos poemáticos”.  Poemático é mais do que mera rima e versos, isto é, poesia no sentido literário. Filósofos como Nietzsche às vezes escrevem fazendo o conceito filosófico assumir um “modo poemático”, de tal maneira que filosofia e poesia se tornam umbilicados.

[2] A esse respeito, vale a pena consultar a letra “W” do Abecedário de Gilles Deleuze.

[3] De maneira análoga, Heidegger dizia que só a poesia é a linguagem que consegue adentrar à “Casa do Ser”.

[4] Por esse seu simbolismo de porta destrancada e aberta, Hermes também foi a divindade mais propensa a sincretismos e misturas com as narrativas originárias de outros povos. No contato com a cultura egípcia, por exemplo, nasce Hermes Trimegisto , que significa “Hermes três vezes grande”, sendo sua grandeza associada à justiça, à potência regeneradora/transmutadora  e à sabedoria. “Tábua de esmeraldas” é um texto-referência inspirado em Hermes Trimegisto, e que Jorge Bem Jor transformou em música : https://www.youtube.com/watch?v=DBQD31zO43o

[5] “SOBRE A PRÁTICA DE ENSINAR FILOSOFIA” ( já disponibilizado no classroom).

[6] Escrevi e disponibilizei outro texto-aula explicando  um pouco mais acerca da ideia de Afeto. Essa relação íntima entre Pensamento e Afeto nos remete a Espinosa e ao Terceiro Gênero de Conhecimento.





domingo, 9 de agosto de 2026

Espinosa e as ideias vitais

 

Para Espinosa, as ideias que realmente ensinam não são meras realidades abstratas, tampouco apenas teoria. As  Ideias vitais são como seres vivos: elas possuem olhos, coração e mãos.

Os olhos das Ideias servem  para abrir mais os nossos, quando precisamos ver mais longe ; o coração das Ideias transfunde sangue para o nosso, quando é  necessário termos mais sangue corajoso correndo em nossas veias; as mãos das Ideias conduzem a nossa, quando o que escrevemos não é apenas palavras no papel.

Em Espinosa, as Ideias não existem no “Além”, como em Platão, elas vivem em nós como  potência para  pensar este mundo onde vivemos, aqui e agora.

Mesmo  que em torno hajam  trevas, as Ideias nunca ficam cegas, uma vez que vem delas a luz que seus olhos irradiam , como um farol.

Quando as Ideias estendem suas mãos para nós e nos conduzem, somos nós mesmos que,  sobre nossas próprias pernas, nos conduzimos eticamente sobre o mundo.

 Ideias que  conduzem não  teorizam caminhos  planejados apenas  no papel , Ideias que conduzem são elas mesmas caminhos : elas  sabem abri-los mesmo em desertos ou transpassando rochas.

E aquele a quem as Ideias conduzem pelas mãos, sempre oferece sua outra mão para conduzir também a quem ainda não sabe o caminho, de tal maneira que quem é conduzido pelas Ideias nunca caminha sozinho, e jamais solta a mão daqueles aos quais estendeu a sua.


( este belo livro fala da amizade de Espinosa com um simples filhote de  pardal que o filósofo encontrou ferido fora do ninho. Espinosa   cuidou do pardal e o criou . “Rebelde”, foi este o nome que Espinosa deu ao pardal, criando-o livre e fora de gaiolas - físicas ou simbólicas. O livro é apenas uma sugestão )




Para quem morar perto e puder, deixo aqui o convite:

https://www.udesc.br/ceart/noticia/udesc_promove_palestra_sobre_arte__educacao_e_didaticas_da_invencao_a_partir_de_manoel_de_barros

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Espinosa e a psicologia

Espinosa  soube compreender e dimensionar, como poucos,  a importância   do Afeto na saúde e existência da alma. Todavia, é Descartes que é considerado por muitos como o “pai da psicologia”, isto pelo papel de base que ele concede ao ego nos processos do pensamento.

 Porém, Descartes não vê no afeto um original da alma, mas algo que deriva de outra realidade, como efeito dela. Esta outra realidade é o corpo: é o corpo, em última análise, a causa do afeto. Logo, para conquistar sua independência e sossego, a alma precisa se libertar dos afetos. 

Ora , para Espinosa o afeto é um modo do pensamento, ele é algo que lhe é imanente, mesmo quando reflete um acontecimento do corpo, como no caso das paixões ou afecções. O modelo de Descartes é a psiquiatria, a redução de todo conteúdo psicológico à neurologia, ao passo que Espinosa realmente dá uma positividade à psicologia, integrando-a aos outros modos  do pensamento, possibilitando assim o conhecimento e, mais ainda, o autoconhecimento pautado no agenciamento entre afeto e ideia, ideia e afeto. 

Sem citar Espinosa, é o que faz, por exemplo, Jung, quando tenta mostrar que mesmo as psicoses têm uma origem no afeto, e não exclusivamente na fisiologia do cérebro. Jung, porém, estende o psicológico para além do indivíduo, e crê na existência de uma psicologia coletiva  que mergulha em tempos imemoriais, acessível tão somente a uma memória mítica, cuja linguagem é sempre simbólica, não referencial ou objetiva. 

Já Espinosa  mantém a psicologia como dimensão individual da existência do espírito, então apreendido como uma alma ou mente. O psicológico é a dimensão da imaginação e das imagens oriundas da existência do modo finito  em sua dimensão temporal , envolvido nos acontecimentos aos quais reage. 

A psicologia espinosista está integrada à dimensão espiritual das ideias adequadas. O espírito[1] é singular, e não individual, dado que o individual é sempre o resultado das afecções oriundas da ligação do espírito com o corpo. 

Mas o mundo psicológico não é  uma ilusão, como não o são os produtos da imaginação. Jung reduz o espiritual ao psicológico, ao passo que Espinosa distingue o espiritual do psicológico, integrando este naquele, e assim restitui a alma ao espírito, a existência à essência, mostrando-nos que somos um só. Enfim, o psicológico é a esfera do individual por oposição ao coletivo, enquanto o espírito é o singular como expressão do Infinito.

A eternidade do espírito não é um passado imemorial de extensão indefinida acessível apenas a uma memória mítica, dado que o eterno é incomensurável com o tempo, porém coexiste com ele. E ambos, eternidade e tempo, constituem as duas metades do que somos.

 



[1] A palavra “espírito”, aqui, não tem sentido religioso. Algumas traduções francesas da Ética, por exemplo,  traduzem o latim "mens" por espírito. Enquanto o termo "alma" tem sua origem na palavra grega "psiquê", "espírito" se reporta a "pneuma", que em grego significa "sopro". 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Não se ensina apenas com palavras

 

Quando pensava e falava, havia um ponto , um ponto enigmático, em que Heráclito parava de exercer o logos, e chorava... Nada mais dizia, apenas chorava. Então, os adultos se afastavam,  apenas as crianças ficavam perto dele e, para confortá-lo, com o filósofo brincavam.

Demócrito, por sua vez, interrompia seu filosofar com  estouros de riso. Não havia deboche ou ironia no seu rir, apenas alegria.

Sócrates punha um ponto final em seu filosofar sempre com longos silêncios meditativos, olhando para o nada.

Platão cessava seu discurso e se dirigia ao quadro para desenhar retas e formas geométricas,  dizendo  confiar mais nelas do que nas palavras.

Aristóteles , após ordenar as palavras, levava seus discípulos para verem a ordem  que preside o mundo: recolhia sementes, peixes, estrelas-do-mar, arraias, incontáveis animais e os punha em ordem, como se fosse um silogismo.

Os estoicos diziam que as palavras são apenas a metade do sentido: a outra metade é o agir, e assim eles ensinavam fazendo, agindo, não temendo a confusão do mundo.

Espinosa afirmava que há um  momento em que a palavra não conduz mais: é preciso então estender a mão e conduzir quem está perdido.

Nietzsche escrevia muitas vezes caminhando. Era comum  ele terminar de escrever um pensamento, fechar o caderno e continuar a caminhar por uma subida íngreme, cujo fim era o pico de elevadas montanhas onde o ar é raro e, por isso,  não se pode ficar muito, tampouco estar acompanhado de quem teme alturas.

Wittgenstein escrevia e parava. E o restante do que  queria dizer ele o fazia cuidando de jardins:  adubava, podava, colhia e oferecia , de graça, aquilo que cuidou e fez nascer.





sábado, 1 de agosto de 2026

clínicas...

 

A palavra “clínica”  significa:  “aproximar-se para cuidar”. O bom médico é um clínico quando não nos reduz a um mero objeto no qual está a doença, e sim se aproxima de nossa existência para envolvê-la com cuidados para potencializar nossa saúde.

Clínica é um chegar perto e aproximar-se não apenas no sentido físico, também é   chegar perto animicamente, existencialmente. E para criar uma proximidade assim com o outro, com o mundo e com nós mesmos,  o meio mais adequado é o Afeto.

Sobretudo em épocas nas quais o adoecimento das mentes pela ignorância  se tornou  estratégia de dominação do  poder teológico-político mancomunado com a exploração bélico-capitalista  , nessas épocas os filósofos e artistas  mais necessários são aqueles que também são clínicos.

Eles nos ensinam que a melhor maneira de afastar  a doença não é temendo-a ou odiando-a, mas amar perseverante a saúde, a saúde da mente e do corpo,  e  cultivá-las cotidianamente  nas mais simples ações. Essa forma de cultivo da saúde também é um ato político.

Deleuze é meu pneumologista: é nele que encontro ar quando estou sufocando; Manoel de Barros é meu oculista: é com ele que aprendo a transver o mundo, para assim tentar vislumbrar caminhos por entre esse deserto pedregoso; Fernando Pessoa é meu cardiologista: para manter pulsando, sob o cético coração do adulto, o inocente coração da criança que crê ainda; e Espinosa é meu clínico geral: para desadoecer corpo e mente ante esses tempos distópicos.

Neste momento, desenvolvo uma pesquisa na universidade sobre Espinosa. A partir de setembro, pretendo fazer alguns encontros quinzenais  para falar de Espinosa . Esses encontros serão abertos ao público em geral, presencial e virtualmente. Quem quiser participar/acompanhar  de alguma maneira (serão concedidos carga horária e certificado) , é só falar comigo. Abraços.





Este livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura ( tive a alegria de participar , com uma palestra, do evento de lançamento da nova edição desta obra). Para ajudá-la em seu trabalho de cuidados  clínicos, consigo e com os outros, Nise dizia  ter aprendido a seguinte lição com Espinosa: “nossa felicidade e saúde mental depende mais daquilo que fazemos com as mãos do que daquilo que teorizamos com o cérebro”. Mãos que alimentam, mãos que escrevem lições no quadro numa sala de aula, mãos  que pintam, que plantam , que bordam, que partilham, que doam...São mãos mais saudáveis e felizes do que aquelas que apenas imitam armas, como a mão dos fascistas,   ou que  só sabem contar dinheiro, como a mão do “mercado”.



sexta-feira, 31 de julho de 2026

A origem do homem e da mulher, segundo a mitologia

 

Segundo a mitologia, assim foi criado o homem:  Prometeu começou a obra  a partir  do barro, porém  pediu ajuda aos  outros deuses. Hefesto, o deus artesão-operário, deu a Prometeu , para este pôr nos homens, o dom  de usar as mãos. Assim nasceu o “homo faber”: “aquele que transforma a natureza com as mãos”.

Mas isso não foi suficiente , pois as feras sobrepujavam em força e facilmente caçavam esses primeiros homens. Prometeu pediu auxílio então a Atena. Esta deu a Prometeu, para este colocar nos homens, o dom da inteligência. E assim nasceu o “homo sapiens”:  “o homem capaz de falar,  contar, enfim, teorizar”.

Porém o homo sapiens só teorizava, com o homo faber não se unia. Dessa desunião as feras tiravam proveito,   predando facilmente  os homens. Prometeu percebeu que faltava alguma coisa para unir o homem ao homem, o eu ao outro, a identidade à diferença, para assim fortalecê-los reciprocamente.

Prometeu pediu enfim auxílio a Zeus, que ofertou a Prometeu, para este plantar nos homens, a semente do sentimento ético da justiça. Prometeu preparou então um terreno para plantar essa semente, fertilizando esse terreno com o adubo da coragem. Esse terreno onde a semente da justiça foi plantada recebeu o nome de “coração”.

As decisões que nascessem do coração seriam chamadas de “sentenças”  : “decisões sentidas e proferidas em favor da comunidade”. Zeus fez apenas uma exigência: que essa semente fosse plantada em todos os homens. E assim nasceu o “homo eticus” : “o homem cuja força e poder está em seu coração justo”.

Os homens aprenderam então a cooperar e não apenas a pensar egoisticamente no interesse próprio. Nasceu assim a sociedade. Agindo como ser social , o homem aprendeu a  somar esforços, canalizar as criatividades e reunir meios para vencer as feras com a força da engenhosidade.

Contudo , alguns não confiavam nas sentenças  do coração justo  e resolveram criar  as leis escritas. Outros imaginavam  que não vieram  do barro, e logo começaram a  crer que eram superiores  e “eleitos dos deuses”: propalavam que  não vinham  do barro, mas do ouro . Entre eles surgiu um tirano que tomou o poder com um exército, rasgou as leis e transformou em escravos os oriundos do  homo faber.  Esse tirano  ainda mandou as covardes botinas do ódio  pisotearem  os corações justos . Assim nasceu  uma elite militar-teocrática pior do que  os leões e  hienas  que antes predavam os homens.

Horrorizado, Zeus pensou em dizimar os homens com um raio. Em vez disso, pegou o barro e o umedeceu com sua saliva. Tomando como modelo Atena e Afrodite, nesse barro foi moldada a primeira mulher : Pandora.

Mas dentro de Pandora Zeus não esculpiu totalmente, e foi nesse interior livre que nasceu um aliado do coração justo  na luta contra  a tirania dos homens. Esse aliado foi o  útero, espaço de criação  de algo que , até então, somente  os deuses eram capazes de criar: a Vida.


( Imagem:  “O núcleo da criação”/Frida Kahlo)



Parte do que escrevi tem por referência estes livros:





sexta-feira, 24 de julho de 2026

Artigo sobre pop'filosofia e pop'educação

 Obs.: A primeira vez que ouvi falar em "pop'filosofia" foi há mais de trinta anos, em uma belíssima aula sobre Gilles Deleuze ministrada pelo  inesquecível professor e filósofo Cláudio Ulpiano , na graduação em filosofia da UERJ. A Cláudio, minha gratidão ( por este e outros inumeráveis  aprendizados). 



Título e resumo do artigo: 


DA POP’FILOSOFIA À POP’EDUCAÇÃO: APONTAMENTOS SOBRE ENSINO, APRENDIZADO E CINEMA

 

                                                                                           Elton Luiz Leite de Souza[1]

 

 

RESUMO : Este artigo busca  desenvolver a ideia de pop’filosofia , noção presente em Deleuze, como base para uma pop’educação. Buscaremos  ferramentas de leitura presentes em Deleuze, Espinosa , Nietzsche , Paulo Freire e  Manoel de Barros para com elas tematizarmos as relações de ensino e aprendizado a partir do cinema.

PALAVRAS-CHAVE: Pop’filosofia. Pop’educação. Ensino. Aprendizado. Cinema.

 



[1] Professor Adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) atuando nas áreas de filosofia, literatura , semiótica e museologia; pesquisador da obra de Manoel de Barros. É autor do livro Manoel de Barros: a poética do deslimite (2010); também organizou publicação em homenagem ao centenário do poeta: Poesia pode ser que seja fazer outro mundo (2020). E-mail: eltonluizleitedesouza@gmail.com


link para o artigo: 

https://periodicos2.uesb.br/aprender/article/view/16154


domingo, 19 de julho de 2026

Espinosa & Manoel

 

Um dos meus livros preferidos de Espinosa é o “Tratado da emenda do intelecto”. Há algumas  traduções que, equivocadamente, dizem : “Tratado sobre  a reforma do entendimento”.

Mas o termo latino original “emendatio” nada tem a ver com “reforma”, assim como diferem radicalmente, no campo político, ser reformista e ser revolucionário. Pois o que Espinosa nos propõe é uma microrrevolução. Não há verdadeira mudança social sem que haja, também , uma emendatio interna e micropolítica.

Manoel de Barros empoemou a ideia de emendatio. Por imagens, o poeta  nos explica o que quer dizer o conceito. Pois uma autêntica emendatio é descrita por Manoel   no poema  “Lacraia”, que narra    uma “peraltagem” que o poeta  cometeu quando criança.

Transvendo o mundo através de sua “visão brincativa” , o menino-manoel percebeu que uma lacraia lembra  um trem: a cabeça parece uma locomotiva, os gomos se assemelham a vagões. Então, o menino resolveu “descarrilar” a lacraia : a desmembrou em partes separadas...

Quando o menino-poeta se preparava para ir embora, aconteceu algo para o qual nada antes o preparara para ver: a cabeça da lacraia se voltou para olhar uma parte que lhe estava separada. E esta parte passou a se mover indo em direção à cabeça que a chamava sem precisar dizer nome ou palavra. As outras partes fizeram o mesmo: unindo-se, elas queriam refazer o ser que eram, “emendando-se”.

Essa força  que age em cada parte dispersa que se procura, para assim recriarem juntas a singularidade viva que eram, essa força   regeneradora também é amor, afirma o poeta. Espinosa a chamava de “conatus”: o esforço perseverante para se continuar a ser o que se é.

É essa mesma força que une uma palavra à outra para criarem, juntas, um poema, para assim dizerem mais do que palavras.




sábado, 18 de julho de 2026

O deslimite

 Quanto mais lados um polígono possui, aparentemente  mais próximo ele está do círculo. Um triângulo possui três lados, o quadrado possui quatro. O quadrado parece estar  mais próximo do círculo do que o triângulo.

O hectágono, polígono de cem lados, parece mais  próximo do círculo do que o quadrado. O megágono, polígono de um milhão de lados, parece superar o hectágono na proximidade com o círculo.

  Um círculo, porém, não possui cem  ou um milhão  de lados, pois ele simplesmente não possui lados. O megágono parece estar mais próximo do círculo quando o comparamos com um polígono com menos lados. Mas nenhum polígono se compara ao círculo: ele é incomparável.

Por isso, a única maneira de um polígono alcançar o círculo é se tornando um, é coincidindo com ele. Um polígono somente pode alcançar o círculo se libertando do afã de ampliar seus limites, pois é isso o que acontece quando ele aumenta seus lados. Coincidir com o círculo é um “deslimite”, diria o poeta Manoel de Barros.

A ciência tenta alcançar a Vida aumentando as teorias, tal como o polígono que aumenta seus lados achando que assim alcançará o círculo. Física, química, biologia, matemática, sociologia, psicologia, etc., são os lados do polígono-ciência. Contudo, mesmo que se aumente indefinidamente a quantidade cumulativa de tais ciências, nunca elas alcançam o todo da Vida, pois esse todo é um processo inaprisionável.

Diferentemente da ciência , a poesia é como o círculo: sua riqueza e multiplicidade não advém do aumento de teorias. No círculo absoluto da Vida , o pensamento , a poesia e a vida são a mesma coisa.

O círculo da Vida, porém, não tem centro ou perímetro determinados : a Vida é um círculo cujo centro está em toda parte , sendo seu perímetro ilimitado.

Olhado apenas nele mesmo , o círculo é a coisa mais simples que existe. Porém quando intuímos todos os polígonos que estão virtualmente compreendidos nele, o círculo nos aparece então como a realidade mais complexa que há, mas sem deixar de ser simples, como tudo o que é verdadeiramente rico.

Não é aumentando seus lados que um polígono pode coincidir com o círculo. Não é aumentando a inteligência que se alcança a sabedoria; não é contando todas as estrelas que existem no universo que se compreende intuitivamente o que é o céu; não é meramente aumentando o número de ações que fazemos que nos tornamos ativos; não é proliferando o número de palavras que dizemos que aprendemos a ter o que dizer.

Não por acaso, a ágora, símbolo democracia, é um  círculo. Na filosofia Ubuntu, a Vida nada tem a ver com uma linha reta cartesiana traçada individual-egoicamente; a Vida é  um círculo no qual a potência singular de cada um deve ser  apoio agenciado para o desenvolvimento da  potência singular do outro.

Na foto, as crianças mostram que essa  ideia emancipadora  pode ser construída e explicada com o corpo, brincativamente.







quinta-feira, 16 de julho de 2026

Maria e a Alma do Mundo

 

Maria morava na  rua . Quem a via , imaginava que Maria falava sozinha, que era “louca”.

Certa vez, Maria estava sentada em um banco de praça e , como de costume, parecia conversar com alguém. Quando passei por ela, dei “bom dia” . Ela parou a conversa com o invisível, conectou-se de alguma maneira ao mundo onde eu estava, e respondeu: “bom dia”. Quando olhei para ela, havia um sorriso em seu rosto acompanhado de um olhar que parecia acreditar no ser humano ainda.

Descobri que Maria não falava sozinha. Ela falava com ela mesma, no interior de sua alma. Acontece que sua alma se estendia cerca de 30 centímetros além de sua pele , como se fosse uma aura. Maria descobriu que tinha essa alma externa quando ainda era uma menina, e como menina brincava a sério de ter uma alma que não cabia totalmente nela. Ela nunca mais parou de brincar assim, sem perceber que cresceu.

 Parte da alma de Maria estava fora dela. Essa parte da alma tomava chuva, sol e vento; não aquele vento que Deus soprou como espírito, apenas vento mesmo; não raro, tal vento se impregnava com os restos de comida que Maria catava por aí.

Maria carregava uma mala que nunca abria, como também não estava aberta, apesar das aparências, a alma fora dela. Apesar de não estar aberta, atravessavam-lhe os gritos, as sirenes, os pedidos de socorro, as fumaças de tudo quanto é incêndio e os fragmentos de todos os seres que um dia formaram um todo.

Maria carregava a mala como se estivesse para ir ou para voltar: e no intervalo entre esses dois atos que ela de fato nunca fazia, nesse intervalo todo lugar se tornava o estrangeiro onde ela não podia morar.

Embora a alma externa não fosse inteira, metade dela era imaginação, metade desejo: a ideia que em uma parte morria, na outra ressuscitava pelo avesso.

 Como se fosse um espelho cujo aço se apagou, essa alma-fora não deixava Maria ver-se nela. Muitas vezes, era a partir dessa alma-fora que Maria falava, sem ninguém ouvir ou entender.

Essa voz que do fora nascia, por vezes entrava por dentro da boca de Maria, como se fosse uma prece ao contrário. Prestando atenção até onde essa voz ia, parecia que Maria ficava em silêncio. Mas a voz ia até onde não a podia mais escutar Maria; e tampouco o pode a Psiquiatria, a Psicologia, a Filosofia, a Teologia e tudo aquilo que o homem inventou para falar a si.

Talvez escute essa voz de Maria apenas os ouvidos da Arte: quando a resposta  vier , se vier, que não  seja tarde.