Um dos meus livros
preferidos de Espinosa é o “Tratado da emenda do intelecto”. Há algumas traduções que, equivocadamente, dizem :
“Tratado sobre a reforma do
entendimento”.
Mas o termo latino
original “emendatio” nada tem a ver com “reforma”, assim como diferem
radicalmente, no campo político, ser reformista e ser revolucionário. Pois o
que Espinosa nos propõe é uma microrrevolução. Não há verdadeira mudança social
sem que haja, também , uma emendatio interna e micropolítica.
Manoel de Barros empoemou
a ideia de emendatio. Por imagens, o poeta
nos explica o que quer dizer o conceito. Pois uma autêntica emendatio é
descrita por Manoel no poema “Lacraia”, que narra uma “peraltagem” que o poeta cometeu quando criança.
Transvendo o mundo
através de sua “visão brincativa” , o menino-manoel percebeu que uma lacraia
lembra um trem: a cabeça parece uma
locomotiva, os gomos se assemelham a vagões. Então, o menino resolveu
“descarrilar” a lacraia : a desmembrou em partes separadas...
Quando o menino-poeta se
preparava para ir embora, aconteceu algo para o qual nada antes o preparara
para ver: a cabeça da lacraia se voltou para olhar uma parte que lhe estava
separada. E esta parte passou a se mover indo em direção à cabeça que a chamava
sem precisar dizer nome ou palavra. As outras partes fizeram o mesmo:
unindo-se, elas queriam refazer o ser que eram, “emendando-se”.
Essa força que age em cada parte dispersa que se
procura, para assim recriarem juntas a singularidade viva que eram, essa
força regeneradora também é amor,
afirma o poeta. Espinosa a chamava de “conatus”: o esforço perseverante para se
continuar a ser o que se é.
É essa mesma força que
une uma palavra à outra para criarem, juntas, um poema, para assim dizerem mais
do que palavras.


.jpg)
.gif)






