quarta-feira, 24 de junho de 2026

Espinosa: do apetite ao Cristo

 

                                                    ESPINOSA : DO APETITE AO CRISTO[1]

 

 

O sentido não é o culto ao relativismo como antídoto ao dogmatismo;

o sentido  não é a afirmação de que tudo é igual ou relativo;

o sentido é o relacional: ele é a afirmação do encontro;

não a relatividade do encontro, mas  a sua necessidade.

 

José Américo Pessanha.

 

 

Pior do que seus frutos ainda estarem verdes,

é se estar ainda verde para os  frutos já maduros.

 

Nietzsche.

 

 

1-A existência do homem, mas não apenas a do homem, está apoiada em uma noção: o apetite. A palavra apetite nasce de um termo latino que significa "pedir", assim como "petição" e "pedido". O apetite é um pedir. Enquanto tal, o apetite não é uma coisa, ele é um processo. É nesse processo, apoiado nele, que a existência transcorre e persevera. Quem o diz é Espinosa. No sentido comum do termo, quem pede,  pede alguma coisa a alguém. Contudo, ao falar do apetite Espinosa se coloca em um plano mais direto com a vida. Todo viver é um processo de apetite. A vida se mede pelo apetite. O apetite concerne não apenas ao corpo, ele concerne também à alma. Enquanto existem, e para permanecerem na existência, corpo e alma pedem: o corpo pede por corpos, a alma pede por almas.O corpo precisa de outros corpos para continuar corpo, a alma precisa de outras almas para continuar alma. Quando sentimos fome, por exemplo,a fome é   o nosso corpo  pedindo corpos ( carne, leite, água, frutas, etc.). O alimento da alma é o afeto. A alma pede amor, justiça, amizade, generosidade...A alma precisa do afeto para continuar alma, pois alma é afeto.

O pedir do corpo é o pedir mesmo da alma visto sob uma outra perspectiva; o pedir da alma é o pedir mesmo do corpo visto sob uma outra perspectiva, pois corpo e alma são a mesma realidade apreendida de duas formas diferentes pelo intelecto.Se nós pudéssemos entrar em contato com a realidade sem ser por intermédio do intelecto, se nós conseguíssemos ir além do que pode apreender o intelecto, certamente experimentaríamos  imediatamente como um aquilo que o intelecto conhece como dois. E essa experiência seria mais do que conhecimento, seria também poesia.

 O corpo e a alma são modificações singulares da Natureza ou Deus, que a nada pede, que de nada carece e a tudo produz .Quando reportamos nossa existência à Natureza como sua causa imanente, passamos do pedir ao produzir, ao afirmar. Quando o quadro fica pronto, quando a música devém realizada, se há amor e potência em seu fazer, parece que a tinta pedia o quadro, parece que os sons pediam a música, não como algo de que careciam, mas como realidade intensa  na qual tinta e som entram , e que os faz existirem mais, pois os faz existirem em composição, como expressão, criação.O mesmo vale para o apetite finito que se descobre parte da composição musical infinita que a Natureza é, polifonicamente. Deus ou a Natureza não tem apetites: Deus ou a Natureza é Potência. No ser finito, portanto, o apetite é a potência que ainda se ignora.

Em suas existências finitas  corpo e alma pedem, porém  não  pedem o mesmo. Todavia, como a maioria das pessoas vive mais a vida do corpo do que a da alma, em geral os homens buscam mais o que pede o corpo do que aquilo que pede a alma. Essa ignorância existencial os leva a substituir o que pede a alma por aquilo que pede o corpo. É por isso que muitos buscam nas coisas materiais um substituto para o afeto que a alma pede, e assim encontram em tudo que o dinheiro pode comprar uma espécie de chupeta , um substituto para o que não tem preço. As coisas que o corpo pede podem ser compradas, furtadas e até mesmo roubadas, mas não o pode ser o afeto.  O inverso também se aplica: o puro idealismo ou a rigidez moral/religiosa nada mais são, na maioria dos casos, do que a impotência de uma existência para ousar obter aquilo que seu corpo pede. Então, aquele que assim padece vai buscar um substituto nas ideias, no imaterial, e assim trai a ambos, o material e o imaterial, a ideia e o corpo, sendo que antes ele trai a si mesmo.

O pedir do apetite só pode ser visto como uma falta ou carência quando reportado exclusivamente  à existência finita no qual ele nasce, isolando essa existência de toda a natureza. Mas quando o pedir do apetite é reportado à natureza, compreendemos o apetite como um desejo de conexão, de agenciamento.

Há uma diferença entre o pedir e o implorar. Uma coisa é o corpo pedir por alimento, outra é ele implorar por mais alimento, por mais corpos. Do mesmo modo, uma coisa é a alma pedir amor, outra é implorar por amor ou por mais amor. Quando do pedir nasce o implorar, sucumbe-se a uma vida que passa a ser determinada mais por aquilo que ela não tem do que por aquilo que ela é. O ser finito que perde a dimensão positiva da sua diferença vê em tudo aquilo que não é ele coisas que lhe faltam, ao passo que aquele que está de acordo consigo vê nas diferenças possibilidades várias para se conectar e aumentar sua potência de pensar e de agir.

O apetite pode  transformar-se em mera passionalidade triste ( a que destila a falta)quando do apetite  não nasce o desejo. Para Espinosa, o desejo nasce quando o apetite se reflete sobre si mesmo. O desejo nasce quando o apetite se dobra sobre si mesmo, como a lagarta rastejante que se dobra sobre si para em metamorfose autoproduzir-se asas. O desejo nasce quando o apetite se dobra sobre si, e não   sobre a coisa externa que aparentemente lhe falta, e pela qual ele pede. O desejo é o apetite que reflete sobre aquilo que ele pede, e mede a potência desse pedir, se é liberdade ou servidão. Re-fletir, re-flexão, significa exatamente dobrar-se sobre si mesmo, criando uma pequena distância a si como dimensão crítica e clínica. Assim, a reflexão não é apenas uma atividade psíquica ligada à consciência, ela também é um exercício que concerne ao corpo que devém ativo. O desejo é a compreensão de que o pedir é conexão, e não falta. Enquanto o prazer é o efeito do apetite em sua relação com quantidades, o desejo é o apetite que descobre mais do que a quantidade: ele descobre a qualidade e, mais ainda, a intensidade. Quando o apetite se metamorfoseia em desejo, uma existência aprende não a negar ou reprimir o prazer, ela aprende a ter prazer com qualquer coisa, sobretudo com a vida em seus aspectos mais simples. O apetite é um processo, não uma coisa. Mas quando do apetite não nasce o desejo( que é  sempre puro processo), o apetite pode ficar refém do prazer exclusivo com coisas ( inclusive as coisas que se fuma e bebe, bem como aquelas mais tecnológicas, nas quais se tecla ou tagarela...).

O desejo não concerne apenas ao corpo, o desejo concerne ao corpo e à alma. É por isso que o desejo também é, no que concerne à alma, a ideia adequada do apetite, o seu vencer a mera passionalidade. O desejo não é negação ou repressão do apetite, mas a sua potencialização, de tal modo que aprendemos, pelo desejo, a ter apetite também pelas ideias, pela justiça, pela arte, pelo infinito; do mesmo modo que o corpo também aprende a ter apetite por ouvir, por deambular, por dançar, e não apenas por comer , beber e se anestesiar. O desejo não é o remédio, tampouco o apetite é a doença. O desejo é a saúde, a salut.

 

***   ***

Minha alma tem a forma do meu corpo:

Mas como é afinal meu corpo?

Eu nunca exato o vi.

Murilo Mendes

 

2-Não se alcança a saúde através de  um mero lutar contra a doença; não se conquista a alegria por um mero reprimir a tristeza. Do ponto de vista do esforço, e a existência não é um estado mas um processo ou  esforço mesmo para existir, esforçar-se para conquistar a alegria e esforçar-se para impedir a tristeza não se diferem, enquanto esforço ou conatus. Todavia, do ponto de vista da ideia da alegria, quando de fato a  conquistamos, percebemos que o esforço para conquistar e viver a alegria nada tem a ver com o esforço para reprimir a tristeza, uma vez que a tristeza é aquilo que diminui todo esforço, todo desejo, toda existência, a começar pela nossa. Assim, não é diminuindo a existência que, por acúmulo, chegaremos a aumentá-la. Quando tomamos uma vacina para lutar contra uma doença, por exemplo, a vacina age primeiro fortalecendo a ação do nosso corpo para manter-se na saúde, pois é a afirmação da saúde que vence a doença, e não o mero querer destruir a doença . Nele mesmo, o vírus que gera a doença não é uma doença, mas um outro ser cuja ideia de saúde difere da nossa.

Apenas quando se alcança a saúde é que se compreende o que é a doença e como vencê-la ( e não apenas perpetuá-la através de nossas próprias forças); somente quando se alcança a alegria é que se faz um ideia adequada da tristeza, inclusive das falsas alegrias da tristeza ( como o deboche, o zombar, o ironizar, etc.).

 

***   ***

 

3.As palavras "modo", "modéstia" e "medicina" têm uma origem comum:elas nascem de um termo latino que significa "medida". Assim, em Espinosa os modos são medidas do ser, são maneiras do ser se expressar/produzir singularmente, ele que não tem medida, posto que é puro processo e devir.A modéstia não é um negar, mas o afirmar de uma medida que não perde o infinito. O modesto não quer o infinito, como o pretensioso, tampouco nega a medida, como o humilde; o modesto  afirma o infinito na imanência de sua medida, jamais deixando que ela se feche ou perca consistência. A medicina não é exatamente saber tudo sobre fórmulas ou saber descrever e definir doenças. O autêntico médico é aquele que sabe prescrever a medida do remédio, o remédio como medida.

Assim, há duas concepções de medida: medida que se mantém exterior ao medido, como uma régua, e que se define  por um limite rígido, um contorno, um padrão ( em geral, tais medidas são apenas formas destituídas de conteúdo); e há a medida que traz em sua imanência o medido como seu conteúdo. E o conteúdo é sempre a potência. Por isso, os modos são medidas intrínsecas à potência, são medidas que jamais se fecham: delas jamais nascem padrões, paradigmas ou tudo aquilo que se coloca de forma transcendente aos processos, como Verdade ou Poder. Somente quando se considera a medida como algo exterior e que não varia , somente assim é que nascem as ideias de excesso ou falta: o excesso como aquilo que excede a medida, e erroneamente se identifica esse exceder como potência. Na verdade, a potência é o conteúdo imanente de uma medida que não o nega, e que se expande ao afirmá-lo, afirmando-se. Cada modo é uma maneira de ser do mesmo ser que se expressa de infinitas outras maneiras, cada maneira sendo uma variação ou grau intensivo, que traz em seu coração aquilo que  mede, como potência que não se fecha. Ser a medida da potência sem medida é afirmar-se como diferença que difere, em primeiro lugar, de si.

O homem não é a medida de todas as coisas, pois todas as coisas são uma medida singular do mesmo ser do qual o homem também é uma medida diferente. O pensamento não é outra coisa senão uma medida que revela também aquele que mede, e não apenas o medido. O pensar nunca é um produto de um sujeito, ele é sempre um processo cuja causa se encontra na potência que ele expressa. A Ética de Espinosa está sustentada em uma simples lição: sejamos  uma medida que não diminua o que medimos, o que implica que nos apreendamos , como diria Manoel de Barros, como uma forma em rascunho, uma forma em deslimite.

É o não fechamento do medido que possibilita que existam medidas comuns que se aplicam a seres diferentes, desde que haja um bom encontro. Por exemplo, a amizade não é uma medida exterior aos amigos, mas uma medida comum que os amplia. A educação não é uma régua que pertence exclusivamente ao professor, pois a educação é uma medida comum ao educando e ao educador: uma medida comum não é uma igualização homogeneizante, dado que é somente por uma medida comum que educando e educador podem se encontrar na afirmação de suas diferenças. Uma medida é mais potente quanto mais ela afirma o medido como algo que lhe é imanente e o torna capaz de produzir agenciamentos.

 

*** ***

 

4.Segundo Espinosa, Cristo é a ideia da perfeição humana. Toda ideia o é de um corpo. Assim, Cristo não é apenas a ideia da perfeição da alma humana, ele também é a perfeição do corpo humano. Corpo múltiplo, heterogêneo, plural e, ao mesmo tempo, singular, intensamente vivo, amoroso. O corpo de Cristo não é um corpo simbólico , substituto, que se ingere em ritos administrados em um templo. O corpo de Cristo também é um corpo orgânico, físico, político, metafísico, poético, sem deixar de ser o nosso corpo mesmo tal como existe no mais simples cotidiano. O corpo de Cristo não é uma convenção, ele não é apenas "carne", ele também é cérebro, pulmão, sangue, desejo. Em Espinosa, a perfeição não é uma ideia pronta, pois toda perfeição é inseparável de um exercício de aperfeiçoamento: a perfeição não é o quadro pronto, mas o seu perseverante esboço e, antes mesmo deste, a inspiração, a intuição. A perfeição não é a música na partitura, mas a sua execução, o seu durar. A perfeição nunca é um produto ou fim a alcançar, ela é sempre meio, instrumento, processo.

A perfeição da alma é pensar, a perfeição do corpo é agir. O corpo de Cristo é o corpo mesmo do homem enquanto este age tendo como meio o amor, a justiça, a generosidade,a amizade e, também, a indignação. O corpo de Cristo não bebe apenas água, ele também festeja o vinho. O corpo de Cristo não é um corpo morto que  eterniza a dor e o sofrimento, ele é o corpo que nasce, que renasce, sempre em nome da Vida.

Cristo, portanto, é a ideia da perfeição humana, e não a ideia que corresponde a um grupo da espécie humana. Cristo não é uma ideia que determina uma parte da humanidade como cristã, pois a determinação de uma parte da humanidade como cristã seria também, ao mesmo tempo, a determinação de uma outra parte como não cristã, o que sempre leva ao conflito e ao ódio ,a começar pelos inúmeros subgrupos que existem no interior do grupo que se diz cristão ! Se há cristão, é porque existe não cristão. Se Cristo fosse hoje vivo, ele não seria cristão, ele seria , antes de tudo, um ser cujo esforço maior, esforço de compreensão e amor, todo o seu esforço seria para ser um ser humano , todo seu esforço seria para realizar a ideia da perfeição humana, que ele passaria a ensinar não escrevendo livros, papers ou teses, ele a ensinaria com o exemplo vivo, ele ensinaria agindo. E onde houver alguém agindo assim, ali o Cristo está vivo, porque o estará , no ser humano , o corpo e o espírito. Não uma Perfeição Imaculada, Livresca, mas um devir-aperfeiçoamento, o qual sempre depende de um esforço, de um desejo, de um apetite.A ideia de Cristo não é uma ideia que recorta uma parte da humanidade como objeto dela, dado que ela diz respeito à humanidade inteira, enquanto espírito e corpo, desde que em processo ou devir de aperfeiçoamento, o que se faz na alegria, na liberdade, na compreensão.

 Cristo é a ideia da perfeição da humanidade como um todo, e não a ideia da perfeição de uma parte dela como sendo cristã. Quando se considera Cristo como não tendo sido um homem, passa-se a imaginar que o que ele fez um homem não o pode fazer, a não ser com a intervenção de um milagre ( ou com o pagamento de  tributos, tributos em moeda e em obediência,  aos espertos representantes de Deus na terra...).

Mas o que Cristo  fez senão amar? Dependeria de um milagre o homem amar? Por que não dependeria de um milagre o homem odiar? O ódio define mais a natureza do homem do que o amor? Mas quem determinou isso, o próprio homem? Mas e se for o contrário, se for  o amor de fato o que determina a essência do homem, por que é mais difícil aceitar essa tese do que aquela que afirma ser o ódio o que mais define o homem? Além disso, amor e ódio são mais do que sentimentos psicológicos, eles são expressões existenciais  de como nos relacionamos com a potência. Visto assim, o amor é um fortalecimento, uma intensificação do existir , ao passo que o ódio é um enfraquecimento.

Para Espinosa, a essência do homem não pode ser definida sozinha. A essência é sempre uma relação ou agenciamento de essências .O homem não é um todo à parte, ele não é um ego que pensa e, por isso, existe. A essência do homem é ser  a modificação singular da essência mesma de Deus ou da Natureza, que é absolutamente infinita.O valor exemplar de Cristo é que sua essência é uma afirmação potente da essência da Natureza ou Deus, essência esta que se expressa em cada essência singular, e não apenas na essência de Cristo.

Para haver amor é necessário existir um encontro. O homem somente se torna capaz de compreender a essência própria quando ele a vive como um encontro. Se ele a conceber como algo isolado, como um todo à parte, que existe em si mesma e em oposição a outras essências, ele tornará abstrata a ideia do amor, tornará imaginativa a ideia do Cristo, que é a ideia do homem mesmo; pois um ser sozinho não tem como compreender o que é o amor, pois este é sempre encontro. O homem sozinho está sempre pronto mais a odiar do que a amar, sobretudo se ele se sentir sozinho em meio aos homens ou, o que é pior, se sentir sozinho diante de si mesmo, se ele não for um bom encontro para si mesmo.

 

A parte 4 deste texto-aula tem por referência este livro:



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

terça-feira, 23 de junho de 2026

O DOUTOR ESPINOSA EM CONVERSA COM O POETA AUGUSTO DOS ANJOS

 

O DOUTOR ESPINOSA EM CONVERSA COM O POETA AUGUSTO DOS ANJOS[1]

 

Talvez devêssemos viver de tal modo que, por nossas palavras e práticas, não fôssemos um exemplo, um triste exemplo, para os versos de Augusto dos Anjos, dando-lhes razão. Não por questões morais, tampouco para ser “politicamente correto”. Os célebres versos dizem mais ou menos o seguinte: “A boca que hoje te beija, é a mesma que amanhã vai te escarrar”.

 Não se deve reduzir poesia a ressentimentos psicológicos. Mas há nesse poeta uma leitura da alma dos homens, revelando como ele supunha que os homens são.  O poeta traduziu em versos  as volubilidades do “outro”. É em relação ao outro que o poeta aconselha precaução e cautela , quando do outro recebemos amor e afeto. Ele quer dizer que o amor do outro facilmente se converte em ódio e desprezo, como se fosse uma lei da natureza humana. Os que hoje te amam, amanhã irão ou poderão te odiar, como se o amor fosse apenas a antecâmara do ódio. Há nessa visão amargura? Ou apenas ironia? Talvez, quem sabe, haja nesses versos  apenas aquele tipo de fingimento típico do poeta, como dizia Fernando Pessoa.

Mudando o foco do outro para nós mesmos, o Drº Espinosa, Clínico Geral,  diria: “Se tua boca hoje beija algo, jamais deixe que tua boca amanhã escarre naquilo que  ela beijou.” Ele prosseguiria: “ Não ceda a essa pequenez, pois ela nada mais é do que a imagem que o escravo, o homem triste, faz de sua liberdade”. Não há nenhuma liberdade em resolver escarrar naquilo que ontem se beijou. Se alguém crê que é livre escarrar hoje naquilo que ontem beijou, não apenas o escarro de hoje não é livre, como também não o era o beijo de ontem. Não havia amor naquele beijo. Não apenas ao outro não havia amor, como também não havia a si mesmo. Sem falar naqueles que apenas escarram e escarram, sempre achando motivos e razões para escarrar, pois na verdade não sabem beijar ( e essa incapacidade não raro encobre um ressentimento por nunca terem sido beijados).E há aqueles que apenas beijam na esperança de serem beijados ( estes são inclinados a sutis vinganças, quando não recebem de volta o beijo que negociaram, como se fosse um mercado de trocas, ou de compra e venda).

Clinicamente, em nome de uma prática não fascista e rancorosa, o Doutor Espinosa preceitua: não deixe de beijar o que você supõe ser merecedor do teu beijo. Beije, sem pedir nada em troca. Seja grato por ter a quem beijar, e não cobre ao beijado reconhecimentos pelo teu beijo. Não suponha que é ele que tem que te ser grato. Antes de tudo , porém, valorize teu beijo beijando tão somente o que merece ser beijado.

Aqui, beijo não é apenas o colar os lábios no rosto de alguém. É mais do que isso....Amizade, amor, admiração, elogio...são beijos. Maledicência, inimizade, intriga, zombaria...são escarros. Se por algum motivo você supõe que aquele que ontem você beijou  não merece mais que hoje você o beije, não transforme esse pensamento , ou imaginação, em ato, pois é vil todo pensamento que se expressa em escarro. Se ele não merece hoje seu beijo, não o beije mais. Porém não ceda à tentação de escarrar, pois se escarrará não no outro, mas no seu próprio beijo de ontem. Sua capacidade de beijar  perderá  a alegria vital e espontânea, de tal maneira que teu beijo será visto com desconfiança, e os sinceros fugirão do teu beijo.

Se alguém que você beijou não merece mais seu beijo, esqueça esse alguém, afaste-se, e guarde sua energia, seu desejo, seu amor, sua imaginação, seu afeto...para achar  novamente quem seja digno do teu beijo. Mas se você imagina que ninguém merece teu beijo, vá se olhar no espelho, e veja se ainda não está no seu rosto restos do escarro que você recebeu de quem ontem te beijou. Não deixe que os outros vejam primeiro que você essa mancha.

Nunca beije alguém por mera pena desse tal alguém nunca ter sido beijado. Cautela com os beijos fáceis  que você recebe: não é por socos ou tapas, mas por beijos que os Judas se revelam e traem. Nem beije qualquer um apenas para ter quem beijar. Evite contabilizar os beijos que recebe, e nem cobre pelos beijos dados. Se você for escarrado por quem ontem te beijou, limpe bem seu rosto, remova esse passado, não o deixe enrijecer, e seja firme na decisão de  nunca  buscar vingar-se beijando um outro apenas na esperança de amanhã poder escarrá-lo.

Não deixe na boca um escarro pronto como vingança, deixe um beijo que desarma o inimigo. É no exercício constante do beijar como expressão autêntica de afetos generosos  que alguém se torna digno de ser beijado por aqueles que valorizam o próprio  beijo.

 

 



[1] Texto elaborado pelo prof. Elton Luiz (referência: escólio da Proposição 20 da Quinta Parte da Ética)

domingo, 21 de junho de 2026

A partida de Perséfone

Segundo a mitologia, Hades é a divindade que habita a região trevosa muito abaixo da superfície da terra. Nesse lugar nenhuma luz entra.

Certa vez, Hades ouviu um canto cheio de vida vindo da superfície. Ele subiu e viu Perséfone cantando...Ela estava com sua mãe , a deusa Ceres. De “ceres” vem “cereal”, pois Ceres é a divindade do plantio e colheita dos cereais. Ceres é filha de Cronos, o Tempo, com Cibele, a divindade  da fertilidade.

E foi em sua neta Perséfone que a fertilidade de Cibele se tornou uma força criativa semelhante àquela que vemos no artista, pois Perséfone é a deusa cuja arte é fazer nascer flores. Quando Perséfone canta, nascem flores, mesmo no árido deserto...Perséfone mata outra fome diferente daquela que Ceres mata: Perséfone mata a fome de beleza, de poesia e de cores.

Hades se apaixonou pelas flores e quis levá-las para enfeitar sua noite eterna. Foi uma imensa surpresa, pois ninguém imaginava que pudesse nascer em Hades um desejo por cores.

Num ato condenável, ele raptou  Perséfone para fazê-la morar lá embaixo . Porém, naquele mundo carente de luz , de Perséfone nasciam rosas só com espinhos , sem as pétalas, flores da dor que elas eram.

Enquanto isso, sentindo a falta de Perséfone, Ceres ficou deserta : o grão não mais germinava nela. Havia agora fome de pão e de  beleza, de pão e de poesia, e ninguém sabia qual das duas fomes doía mais: a primeira esvaziava o estômago, a segunda ao coração secava .

Zeus interveio e foi feito então um acordo. Durante parte do ano Perséfone subiria para viver entre nós,  sua chegada nos  trazendo a primavera.  Durante outra parte do ano, uma parte  doída para nós, Perséfone viveria lá embaixo . Desta maneira nasceu o inverno: o período em que Perséfone desce para ir morar com Hades.

 Mas para nos confortar um pouco e minorar a tristeza pela sua ausência, Perséfone criou flores que florescem no inverno. Foi assim que nasceram a Tulipa, a Angélica , o Crisântemo , a Orquídea e o Lírio que, como ensina Manoel de Barros, “brota  de monturos...”

Hoje começa o inverno. Perséfone nos deixa...

Ainda bem que pode nos socorrer e acalentar outra narrativa originária  , uma narrativa de autoria do povo  tupi-guarani, cujo sangue também corre nas nossas veias. Para esse povo, o   ipê  é  a árvore-filha mais potente e perseverante de Pindorama, a Mãe-Terra;  pois o ipê é capaz de florescer o ano inteiro em resistente primavera, mesmo sob tenebroso inverno...

“Árvore da Vida”, assim nossos povos originários chamam  o ipê. Nem o inverno , nem os vis predadores armados com  motosserra  impedem o ipê de dizer , florindo,  o que  o poeta Goethe disse em versos: “O céu da teoria é cinza; mas sempre verdejante é a árvore da vida.”

( Imagem: “Raízes”/ Frida Kahlo)

 





sábado, 20 de junho de 2026

O passarinho-utopia

 

Aprendi a ler quando tinha 5 anos, na casa de uma querida professora que dava aulas particulares de alfabetização. Lembro até hoje: na casa dela tinha   um imenso quintal,  no meio do qual  existia um grande viveiro com passarinhos  cantando o tempo todo.

Havia especialmente um passarinho que me marcou profundamente. Ele não era o maior  fisicamente , porém  sua cor azul celeste e  seu canto  singular e potente fizeram ninho em  mim.

A mesa da professora ficava perto da janela. Então, na minha imaginação eu  sentia ter dois mestres: a que com dedicação me ensinava as letras da língua, e o passarinho-artista que, como um Orfeu,  me ensinava a língua dos cantos.

Eu amava ser aluno dos dois. A língua que a professora me ensinava eu ainda não conseguia ler, porém a língua do passarinho parecia que já estava dentro de mim. Às vezes, enquanto a professora tentava me alfabetizar na língua dos homens,  na língua do passarinho eu  até já me arriscava a falar, assobiando no meio da aula. A professora olhava para mim e sorria.

Ler palavras eu ainda não conseguia , mas já sabia assobiar a poesia  que  aprendia com  o mestre  passarinho azul.

Quanto à língua dos homens, eu já sabia que “b” + “a” formava “ba”,  que “l” + “a” fazia  “la”, mas eu não conseguia ler o todo que as letras  formavam quando se juntavam  na palavra “bala”. Eu ia das letras  às sílabas, porém não conseguia passar das sílabas à palavra. Via apenas as partes, não via o todo, e o todo é sempre maior do que suas partes.

À noite antes de dormir, eu abria um gibi e  ficava olhando as imagens e identificando as letras e sílabas. Até que houve uma noite em que, enquanto assobiava inocentemente,  vi de repente a palavra “bala”.

Foi instantaneamente que a palavra apareceu, fulgurante. Ela sempre estivera ali, eu é que não a via. Não que me faltassem os olhos do corpo, eram outros olhos que ainda não estavam abertos em mim .  A palavra que abre os olhos da mente é como um raio, diz Espinosa.

Pulei de uma palavra à outra, depois às frases,  destas à história inteira, e corri para contá-la para minha mãe . Maior do que a emoção que tive ao aprender a ler, foi a alegria de partilhar , recriando, o que li.

A querida professora me ensinou a gramática, mas creio ter sido aquele passarinho azul que me ensinou a ler mais do que palavras;  e é o canto dele que ainda ouço nas poesias de   Manoel de Barros ,  no pensar de Espinosa e na voz de  todos aqueles e aquelas que, com a potência da arte, nos emancipam.

Como ensina Manoel : “A gente é rascunho de pássaro. Não acabaram de fazer...”


( Imagem:  “Transportado pelo passarinho-utopia” / escultura de Fredrik Raddum)







sábado, 13 de junho de 2026

"Inventar comportamento"

 

Nietzsche dizia: “É preciso proteger os fortes dos fracos.”  Em Nietzsche, “forte”  nada tem a ver com músculos ou armas, forte de verdade é  a “potência”, a criatividade, enfim, tudo aquilo que é  afirmação da vida. “Fraco” , ao contrário, é o ressentido, o autoritário, o negador da vida, mesmo que tenha um exército a seu serviço.

Essa frase de Nietzsche  se aplica a várias coisas, inclusive ao futebol . Na bola, o forte é  mais do que mero atleta : o forte-potente também é    o criativo, o artístico, o pensador. O criativo respeita as regras, mas não se limita a elas,  pois ele exerce  uma potência singular  :  sua arte de jogar/pensar.

Por isso , ele também sabe  inventar o improvável que não está previsto na “regra acostumada”,  sem fazer de sua invenção  uma burla ou infração. Por exemplo, quando  o craque Leônidas da Silva inventou a “bicicleta”, o juiz do jogo parou sem saber o que fazer, pois Leônidas “inventou um comportamento” apoiado apenas naquilo que “pode um corpo”, como já ensinava  Espinosa. Quem “inventa comportamento” é poeta, explica  Manoel de Barros. 

Em geral, o craque-criativo-pensador sofre violências e agressões. Do ponto de vista meramente físico, o jogador que entra violentamente no craque, imaginando que assim o vence, só aparentemente o violento-brigão é forte. Do ponto de vista do futebol, porém, o mero violento  é fraco. Forte é o pensador-criador, e é por isso que ele precisa ser protegido. Quando se aplica o cartão amarelo ou vermelho para  proteger o forte-criativo dos fracos-violentos, é porque se quer proteger igualmente o futebol da mera  força bruta.

Talvez tal cuidado pudesse nos inspirar na  política: proteger os fortes (os que têm ideias fortalecedoras da democracia ) dos fracos (os que possuem apenas a força do dinheiro, da mídia ou da mera violência  que idolatra destruição e armas...).

Baudelaire dizia: “seja sempre poeta, mesmo em prosa”. Sem precisar ler Baudelaire, Leônidas da Silva aprendeu  a lição: “sendo um poeta, mesmo com a bola."


(Imagem: Leônidas e sua “bicicleta”)





sábado, 6 de junho de 2026

a travessia

 

Eu tinha por volta de seis anos .  Fui com minha família a Sepetiba.  De repente, precisamos atravessar uma larga rua. Na verdade, olhando hoje para trás não sei se a rua era de fato larga ou se assim me parecia, tendo em vista a criança que eu era.

Lembro-me de estar de mãos dadas com meu pai, enquanto  minha mãe segurava as mãos de outros dois irmãos menores. Olhei para a rua com olhos que meus pais não sabiam que eu tinha. Nem eu mesmo sabia que  tinha tais olhos, pois somente soube  da existência deles quando eles se abriram  e exigiam  que eu fizesse o que eles "transviam". 

Apesar da rua perigosa, esses olhos de ousadia vislumbraram uma travessia.  Acho que foi a primeira vez na vida que compreendi o que é ter uma ideia. Ter uma ideia não é só imaginá-la, mas pô-la em prática, torná-la real, mesmo sob  riscos. Uma ideia faz nascer olhos que vislumbram o que ela quer.

Então, vi a outra margem da rua como a me desafiar. Nasceu em mim um desejo de independência, um desejo de enfrentar o perigo do qual a mão de meu pai queria me proteger.

Sem hesitar, larguei a mão dele e iniciei minha travessia, meu único apoio eram minhas pernas, que corriam. A mão do pai oferecia  segurança, mas ao preço da obediência. Ousei largar dela e fazer a travessia. Fui rápido e firme; estava  nervoso, mas feliz, até sorria. Quem é livre se alegra, aprendi essa lição depois com Espinosa.

Subitamente surgiu um carro não sei de onde. Era um carro soturno ,  hostil,  como os milicos da dit4dura da época. Parecia que o carro queria me punir  pela transgressão que eu ousara. A liberdade tem seus riscos...

Mas eu já estava no meio da minha linha de fuga, não podia abortá-la. Não há linha de fuga sem  coragem , ensina Deleuze.

O carro sisudo  vinha para cima de mim, como um abutre. Parecia que eu não tinha a menor chance de escapar , era um monstro metálico contra um menino...

 Foi então que dei um salto como nunca dera antes. Saltei mais do que metros, saltei mais do que um pedaço de rua, hoje sei. Creio que somente Espinosa poderia entender aquele salto que nem eu mesmo sabia que podia, pois o filósofo dizia : “Ninguém sabe tudo o que pode o corpo”.

Foi minha alma insubmissa  que fez minha mão abandonar a segurança do já conhecido; mas foi meu corpo que , saltando, pôs minha liberdade a salvo, mais viva do que nunca,  conquistando um chão novo , na outra margem.  

Meus pais não brigaram comigo, até ficaram admirados com o salto e não me tolheram, e por isso lhes sou grato. Meus pais eram pessoas pobres, simples. Mas penso que foi ali , até onde eles puderam me conduzir, que da criança saltou o filósofo.  


(Imagem: o “salto” de Chagall)





domingo, 31 de maio de 2026

Manoel de Barros e o monturo

 

Dia desses, uma turma me perguntou qual poema de Manoel de Barros eu mais gosto. Respondi que eram muitos os poemas... Mas para não deixar a turma sem resposta, mencionei o poema  “monturo”.

Notei um ponto de interrogação no rosto dos alunos, e um deles me perguntou: “Professor, o  que é um monturo?” Antes que eu respondesse , outro aluno abriu rapidamente o celular e digitou alguma coisa. Voltando-se para mim, falou: “Professor, a Inteligência Artificial está dizendo que  ‘monturo é um monte de lixo’ ”.

Com humor, retruquei : “um monturo não é exatamente um monte de lixo,  talvez a IA não tenha sensibilidade para entender essa diferença”, e a turma, concordando , riu.

Prossegui dizendo que o poeta não fala de um monturo literal, mas de realidades que podem se tornar um monturo. Para continuar explicando  o que era um monturo, precisei narrar o poema, que diz mais ou menos o seguinte: 

Passando certa vez por um lugar ermo, Manoel viu um monturo. Num  monturo estão coisas que já deram sentido a uma vida, coisas que eram   partes de um todo,mas que agora são apenas fragmentos que a natureza recolheu sem julgamento ou desprezo.

No monturo podiam ser  vistos:  os cacos do que sobrou de uma taça que outrora já esteve repleta de vinho  ; os restos de um diário cujos dias anotados há muito viraram passado   ;  a metade de uma concha que talvez já tenha guardado uma pérola dentro; as penas que já voaram  no céu aberto como partes de uma asa; a casca seca de uma cigarra que já encheu de cantos a floresta; a mortalha  de folhas amarelas que vicejaram  verdes  na primavera; os  ponteiros parados de um relógio que já marcaram horas apressadas ; um pé de chinelo solitário e  roído pelos anos em  seu solado gasto ; um álbum de retrato cujas fotos  o esquecimento apagou.

Junto a esses restos  também estavam: cacos de certezas que pareciam inquebrantáveis ; farrapos de verdades que pareciam eternas...

Mas debaixo do monturo aconteceu uma surpresa, um “milagre poético”: sob os cacos e pedaços, uma semente ainda estava inteira . E depois de a chuva regar o monturo e o sol o aquecer, o tempo sarou o monturo e deu à semente forças para germinar.

      Da semente brotou  um caule em  rascunho  . O caule   se enroscou e subiu por um pequeno raio de sol que furou a noite do monturo. E do túmulo que o monturo era, a perseverante  semente fez dele um útero do qual nasceu uma flor: um reluzente  lírio.

 

"Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético.”

(Manoel de Barros)

 

 “A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia,

 e pela dor eu descobri o poder da alegria.”

(Belchior)

 

                                  (imagem: “O semeador”/ Van Gogh)




domingo, 24 de maio de 2026

verdade, falsidade, argumentação e retórica

 

No âmbito da p0lítica, onde nem sempre a verdade ou a falsidade são explícitas e evidentes, os políticos se valem de um artifício argumentativo e retórico: o “verossímil”. Essa palavra significa:  “semelhante ao verdadeiro”. Quem se apoia no verossímil quer , sobretudo, que aquele que o ouve acredite nele e considere  que aquilo que ele diz é verdadeiro, e não uma mentira ou falsidade.

 Mas esse tipo de estratégia argumentativa-retórica tem um limite: ela depende do caráter de quem fala e do público que o ouve. Se for um público  desinformado, que não conhece bem o assunto, enfim, um rebanho  incauto ou fanatizado como o das seitas, mesmo um mau-caráter falando as maiores mentiras conseguirá  se passar por um “homem de bem”, ao qual o público acéfalo dirá “amém”. Ao contrário, se for um público minimamente informado, informado sobretudo acerca do caráter de quem lhes fala procurando persuadir, o logro discursivo ficará evidente.

É por essa razão que um discurso verossímil depende muito do caráter daquele que o diz. Se aquele que fala não têm uma boa reputação, o que ele dirá não será visto por um público bem informado como verossímil, mas como pseudossímil: “semelhante ao falso”. Pois aqueles que têm um caráter falso mais chances têm de dizerem coisas também falsas.

Algo que é semelhante ao verdadeiro é aceitável como base de uma argumentação, porque é aceitável o verdadeiro; mas o que é semelhante ao falso não é aceitável, nem como argumentação,  já  que o falso não é aceitável. 

O político “esperto” não tenta fazer passar o falso pelo verdadeiro, pois isso daria muito na pinta,  mas o pseudossímil como se fosse o verossímil. Porém o que parece falsidade não é a mesma coisa do que o que parece verdade. O que parece falsidade quase sempre o é, já o que parece verdade pode ser ou não verdade, depende das provas.

Os que argumentam apoiados no verossímil não temem as provas, mas  os que “argumentam” se defendendo com o pseudossímil  agem não visando a verdade, e sim  na esperança de que não sejam achadas as provas de sua falsidade. Sua aparente calma e segurança advém do fato de que sabem que as provas foram ou destruídas ou muito bem escondidas, sob o mar, sob a terra ou sob (muito)dinheiro. 
O verossímil é o verdadeiro se tentando provar; o pseudossímil é o falso tentando se dissimular.




sábado, 23 de maio de 2026

Agroval, fortitudo.

 

Gosto de comentar Manoel “me manoelizando” , entrando num “devir-manoel”. Esse “manoelizar-me” me ajuda a ter o que falar  acerca de temas  que a filosofia , as  ciências e a política também tratam, porém injetando poesia em seus conceitos, como sangue novo em coração fatigado.

Hoje, senti a necessidade de retornar a Manoel  , para nele achar abrigo debaixo das asas protetoras de sua arraia . Essa arraia-manoelina  vive no poema “Agroval”. Na rica  fala do povo do Pantanal, “agroval” significa:  “lugar onde se cultiva a vida”.

O poema narra o que faz uma imensa  arraia quando as águas do Pantanal secam e põem a vida em perigo: a arraia abre suas grandes asas  e pousa no barro, retendo parte da água abaixo de si.

Com arte e cuidado, a arraia recria um  pequeno Pantanal entre seu abdômen e o chão úmido , para que nesse espaço  protegido o coração do Pantanal possa habitar e perseverar  , vivo.

Generosa, a arraia deixa tudo o que  corre perigo  vir morar sob suas asas, fazendo delas abrigo.

Migram  para debaixo das asas da arraia não apenas bichos, instalam-se  também sementes  de futuras flores e frutos, de tal modo que nesse Pantanal em rascunho  tudo o que vive devém embrião da arraia-útero.

 Sob a proteção de tal Gaia-Pachamama, a vida continua, resiste, fortalece-se; acontecem agenciamentos, contágios, enamoramentos da vida por ela mesma, una e múltipla. Até mesmo uma festa se esboça, feito uma  Kizomba a celebrar a vida salva pela Vida.

Pois quando as águas do Pantanal  vão secando , aumenta a lama e vai sumindo o oxigênio.  Os predadores   sorrateiros e oportunistas  lucram com a desolação  e   ficam à espreita para predar a vida que sufoca .

Mas a arraia é resistente: quando o oxigênio falta às águas, a arraia aprende a sorvê-lo do ar para  partilhá-lo como “Pneuma” . Na Grécia poética-filosófica, “Pneuma” é um dos nomes da alma, assim como “Psiquê”.

Pneuma é o sopro que dá  vida ao corpo e forma com ele um único e singular ser. Em latim,  “Pneuma” é traduzido por “Spiritus” : “sopro que dá vida”.

Apesar dos perigos em torno, nunca a arraia  se entrega ou desabraça aos que  buscam sua proteção e cuidado.

Quando as águas novamente  caem do céu e  a vida pode recomeçar, a arraia levanta as asas e  parteja  os seres que salvou do perigo, como uma utopia que enfim sai das teorias e  livros  para ser criada na prática.

 Não seria tal ação da arraia o modo como a própria  natureza nos ensina o que é a virtude ético-política  que Espinosa chamava de “fortaleza”?

Não por acaso, na língua banto “fortaleza”( “fortitudo”)  é “quilombo”:  comunidade ancestral  de resistência  pela vida e   luta  contra toda forma de   tirania.




 


terça-feira, 19 de maio de 2026

Desejo e apetite em Espinosa

 

                                               DESEJO E APETITE EM ESPINOSA[1]

 

Concluindo a  Parte Três de sua Ética , Espinosa apresenta uma “Definição dos Afetos.” A Primeira Definição tem por objeto o desejo[2] , e afirma: “O desejo é a própria essência do homem na medida em que esta se concebe determinada , por qualquer uma das afecções que nela se dão, a fazer algo.”

O desejo não é a essência do ser humano entendida como eterna , mas enquanto está ligada às afecções[3] do corpo nas relações que este estabelece com outros corpos.  Importante também é a palavra “fazer” na definição que Espinosa oferece do desejo. O fazer é a esfera da ética. Por essa razão, há uma relação estreita entre desejo e ética[4]. Não se deve confundir o “querer” com o “fazer”. Pois há aqueles que apenas querem fazer, que têm a vontade de fazer, porém não fazem. E há os que fazem, que agem. Querer é apenas vontade, já fazer é mais do que apenas ter vontade: fazer  é passar à ação, o que inclui também o corpo. Mais adiante, voltaremos a essa distinção entre vontade e desejo.

Espinosa pensa o desejo de uma maneira muito diferente da visão do senso comum ou da psicanálise. O desejo não está circunscrito à esfera sexual[5], tampouco é determinado por uma “falta de ser”. Na verdade, o desejo é um esforço para perseverar na existência e se aperfeiçoar ( no sentido de aumento de potência). Não lhe falta a existência, não lhe carece o esforço para perseverar na existência ou no seu ser. Esse “esforço” também recebe o nome de “conatus”( definido na Proposição 6 da Terceira Parte). Ou seja, cada modo se esforça para perseverar no seu ser, no seu existir.

Aqui, é preciso estar atento ao vocabulário de Espinosa, uma vez que ele por vezes emprega termos diferentes para dizer a mesma coisa, porém de maneira mais abrangente. Nesse ponto tão fundamental de sua filosofia, ao abordar o tema do desejo  Espinosa quer nos pôr próximos da gênese de nós mesmos, conduzindo-nos a compreender uma realidade que antecede o sujeito constituído. Nesse sentido, os termos “conatus” , “apetite” e “desejo” são tratados como sinônimos, embora seja o desejo a ideia na qual conatus e apetite se realizam e ganham uma identidade ( não como estado , e sim como processo). Podemos dizer que o conatus é a potência em seu estado mais imediato, o apetite é esse esforço direcionado a objetos , enquanto que o desejo[6] é esse mesmo esforço tomando consciência ou (auto)conhecimento de si mesmo, mediando-se, para assim não ser determinado pelos objetos[7] ( ver, na Parte III, as Proposições  6 e 7).

Outro termo que não deve ser confundido com o desejo é a noção de “vontade”. A vontade é o conatus referido apenas à alma enquanto esta tem ideias , já que , em Espinosa, não há separação entre vontade e intelecto.  Ou seja, a ideia impele à ação, ela também é “querer”. Mas o desejar, por concernir à mente e ao corpo[8], é mais do que o querer ( e é também por isso que os termos “vontade” e “potência” não são, em Espinosa, equivalentes[9]).

O desejo se origina do que Espinosa chama de apetite. O apetite concerne tanto ao corpo quanto à mente, ao passo que a vontade diz respeito apenas à mente. O desejo nada mais é do que o apetite consciente dele mesmo.

O apetite consciente de si mesmo já não se deixa determinar pelas coisas que não são ele mesmo, coisas que lhe estão fora, como bens, dinheiro, riqueza, fama. Quando se torna consciente de si mesmo, o apetite  tornado desejo  se liberta da ideia de que, para alcançar a felicidade,  precise possuir , ter, comprar , ostentar e acumular coisas ,  ou rivalizar e competir para tê-las como dono exclusivo delas.

Mas o apetite consciente de si mesmo não significa a mesma coisa que ter consciência do apetite. É preciso termos cuidado com o emprego das palavras para não projetarmos em Espinosa questões que não são dele. Espinosa não está dizendo que o apetite dependa da consciência reflexiva de um sujeito moral. Ele afirma , ao contrário, que o desejo é o apetite consciente dele mesmo, e desse ser consciente dele mesmo participa não apenas a mente , participa também o corpo. Esse estar consciente não é uma reflexão, uma “interiorização” moralizante, mas uma ação do apetite pensando ele mesmo, sua singularização e potência, enfim, a sua conquista ética, que é a conquista de si mesmo.

Quando o apetite se torna consciente dele mesmo, não é apenas o apetite que se torna consciente de si mesmo, mas todo o nosso ser: nós mesmos nos tornamos conscientes de nós mesmos na medida em que exercemos potentemente o  desejo , isto é, na medida em  que nos tornamos causa, para nós mesmos e para os outros,  mais de alegrias do que de tristezas, mais de amores do que de ódios, mais de ações do que de reações.

Originariamente, a  palavra “apetite” tem o sentido de “pedir” , “ir em direção a”. Se o ato de pedir não for consciente de si mesmo, se ele não se pensar, desse pedir pode nascer um implorar , um mendigar, enfim, um padecer dependente , servo, reativamente passivo. Se o ato de pedir não for consciente de si mesmo, ele pode ser atraído e ir em direção a algo que o fará perder-se de si mesmo. E quando o apetite não é consciente de si mesmo, disso se valem os pregadores da culpa e da "falta" com  seus discursos teológicos-moralizantes que demonizam o desejo. 

Portanto, é  assim que o apetite devém desejo: pedindo, antes de tudo, a si mesmo,  indo em direção a si mesmo, à sua potência. Nesse sentido originário, ser consciente[10] é , em Espinosa, ter ciência e pensar  sua própria existência, agindo.  

 



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

[2] A alegria ( Definição 2) , a tristeza ( Definição 3) , o amor ( Definição 6) e o ódio( Definição 7) , juntamente com o desejo ( Definição 1) constituem os cinco afetos fundamentais , dos quais todos os outros derivam. Contudo, a alegria e o amor têm sentidos distintos conforme derivem de uma paixão ou de uma ação ( mas nunca a tristeza e o ódio nascem de uma ação).

[3] Ou seja, embora seja um afeto, o desejo está em íntima relação com as afecções do corpo.

[4] E também a política, conforme se verá nos tratados de Espinosa que abordam mais diretamente o tema da política, incluindo o tema da democracia. Os afetos, portanto, também são temas da política.

[5] Quando se refere à dimensão sexual, Espinosa emprega o termo “libido”. Em latim, desejo é “cupiditas”.

[6] Aqui, ainda não estamos distinguindo entre as ações e as paixões, uma vez que o desejo pode padecer ou ser ativo. Não é na mera ação que o corpo faz que está a diferença entre agir e padecer, mas na ideia que acompanha essa ação: quando é uma ideia adequada, tem-se uma ação; quando inadequada, um padecer, uma paixão.

[7] Como são determinados pelos objetos as pulsões, no sentido psicanalítico .

[8] O desejo se refere às afecções do corpo e às ideias que nascem dessas afecções. Assim, o desejo pode padecer de ideias confusas, como nas paixões tristes, ou se potencializar com ideias adequadas ( que não nascem das afecções) ,  tornando-se ativo, ético.

[9] Como são em Nietzsche.

[10] Em Espinosa, tornar-se consciente  nunca é apenas uma questão psicológica, pois tornar-se consciente é  também uma questão corpórea , uma vez que o apetite concerne à mente e ao corpo.