(Uma pequena homenagem aos
estudantes da UFF. Imediatamente após o resultado do primeiro turno dando a
vitória parcial ao miliciano, eles saíram às ruas e começaram a resistência e a
virada. Eles foram, da vitória, a
fagulha)
Há quatro modelos de educação: a
Academia, o Liceu , a Escola Estoica e os Jardins de Epicuro. Falaremos, ainda
que rapidamente e de forma simplificada, de cada uma dessas formas de se pensar
e praticar a educação.
Foi Platão quem inventou a Academia. Na porta da Academia Platão afixou a
seguinte placa: “Só pode entrar aqui quem for geômetra”. Assim, na Academia de
Platão somente eram ensinadas coisas exatas: fórmulas, dogmas, gramáticas . Os
poetas eram proibidos de entrar lá.
Já o Liceu é obra de Aristóteles. Este queria mostrar que há ordem não
apenas na matemática, a ordem também existe na própria natureza. Para provar
isso, Aristóteles recolhia flores de uma mesma espécie e dizia: “apesar de cada
indivíduo ser diferente, todos nasceram de um mesmo molde : tudo o que existe
se explica por uma Identidade-Padrão". Quando um aluno mais curioso ia
explorar o mundo e aparecia com uma flor diferente, uma flor única e rara,
Aristóteles mandava jogar a flor fora, alegando que a diferença é um erro da
natureza que nos afasta da Razão.
Platão fundou a Academia; Aristóteles, o Liceu. Ambos escolheram o centro
da pólis ( cidade) para construírem seus respectivos espaços de ensino. Atitude
completamente diversa tiveram os estoicos. A atitude deles se expressa no
própria nome da escola estoica, pois “estoico” tem por raiz o termo “stöa”, que
significa , em grego, “porta” ou “portal”. Isso em razão de os estoicos
preferirem abrir suas escolas junto à porta da cidade. Àquela época, as cidades
eram muradas, fechadas sobre si, como hoje são “as bolhas” das redes digitais:
quanto mais alguém é refém de uma “bolha”, mais esse alguém se fecha nele mesmo e odeia o que é diferente
de sua bolha , no viver e no pensar. De
maneira semelhante, os espaços externos às bolhas-cidades eram vistos como
áreas perigosas, nas quais o outro era o inimigo. Ao abrirem suas escolas junto
à porta das cidades , os estoicos queriam fomentar uma atitude mental
completamente liberta de bolhas ( físicas ou simbólicas). Para eles, a
filosofia deve educar para o horizontamento[1]
de perspectivas. Mais importante do que ser cidadão de uma pólis, é ser cidadão
do mundo, da Cosmópolis. Somente sendo cidadãos do mundo nos tornamos bons cidadãos de nossa pólis, somente sendo
cidadãos do mundo aceitaremos as diferenças de modo de vida e de pensar que existem para além de nossa
pólis. O afeto pelo mundo desperta o interesse por outras línguas, por outras
culturas, por outros saberes, por outros existires, sem que vejamos essas
diferenças como inimigos nossos. O afeto pelo mundo potencializa trocas,
diálogos, ensinos e aprendizagens para além do monólogo existencial e reativo
das bolhas. Com essa visão plural e horizontada do ensino, os estoicos foram os
primeiros pensadores a lançarem as bases do humanismo e da igualdade entre
homens e mulheres, além de condenarem toda e qualquer forma de escravidão,
sendo os precursores do Direito Natural ( que depois influenciará pensadores emancipadores
diversos, como Espinosa, Rousseau e Marx).
Já Epicuro aprendeu a fazer dos
jardins salas de aula: como espaço aberto à natureza multivariada, a mesma
Natureza que depois encontramos em Espinosa.
E as flores diferentes que a Razão
homogeneizante desprezava , Epicuro as acolhia em seu jardim, as plantava e
regava. Ao invés de tabuada e gramática, cantos e cores; no lugar de moral e
cívica, ética e artes . Não apenas a alma dizia “presente” na hora da chamada,
também dizia “presente” o corpo, com a vida intensificada. A ideia de “jardim”
sobreviveu ao tempo e às perseguições , e sua semente ainda vive nos nossos
“jardins de infância”[2].
Havia algo da infância nos jardins de Epicuro, como (re)invenção de um
devir-criança , feito a “não velhez” do poeta Manoel de Barros . Quando Manoel
afirma que “Meu quintal é maior do que o mundo”, é porque seu quintal é a
versão poética do Jardim de Epicuro, cuja grandeza não se mede com régua ou
números, pois “o valor de uma coisa há que ser medida pela sua capacidade de
nos encantar”, afirma Manoel.
Hoje, a academia se tornou sinônimo de universidade, isso é fato[3].
A universidade é composta de bibliotecas , laboratórios , refeitórios, isto é,
coisas físicas, e mais os educadores, funcionários e estudantes, a sua parte
viva.
Quando todos se unem para proteger e intensificar essa vida, mostrando ao
povo que o saber ali produzido também faz parte de sua existência , a
universidade então sai dos muros da academia, ganha praças e ruas, e se torna
novamente o espaço aberto ensinado pelos estoicos e o Jardim sem cercas de
Epicuro: conhecimento que potencializa a vida digna.
[1]
“Horizontar” é um verbo-acontecimento criado pelo poeta Manoel de Barros.
[2]
Os Parques Naturais , os Jardins
Botânicos , os Ecomuseus e outras instituições museais semelhantes têm no
Jardim de Epicuro um de seus ancestrais.
[3] Já
o “liceu” se tornou inspiração para algumas propostas de ensino médio.
(foto partilhada da página A UFF
pela Democracia. Este rapaz da foto se chama Elcimar Moreira da Silva , ele é
estudante de Física da UFF )










