Falarei neste Colóquio no dia 2/set:
Multitudo: poesia, arte & filosofia
textos e desenhos : elton luiz
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
domingo, 16 de agosto de 2026
regeneratio
Ao pé da amendoeira caem inertes as folhas amarelas, que
ainda ontem pareciam eternas.
Mas acima delas, em verdes folhas inesperadas, abre-se em
broto a vida renovada.
( esses versos de Manoel que estão na imagem fazer parte do poema "Aprendimentos")
sábado, 15 de agosto de 2026
(po)éticas: espinosa & manoel
Manoel & Espinosa:
(po)éticas
1- Desde menino, o filósofo
Espinosa demonstrava uma capacidade impressionante para “ler” as pessoas, revelando um saber
intuitivo acerca da natureza humana, conhecendo
o que nela há de luz e de
sombras.
Sabedor disso, o pai de
Espinosa, senhor Miguel, que era comerciante, sempre pedia conselhos ao seu filho acerca da
índole de determinado devedor.
Embora tivesse
apenas 11 anos , com olhos penetrantes o menino Espinosa conseguia
distinguir quem estava em reais dificuldades (cuja dívida era perdoada) , de quem fingia aperto por mera desonestidade.
Certa vez, o senhor Miguel nutria
esse tipo de dúvida acerca de uma senhora que lhe devia determinado valor. Ele pediu ao menino
Espinosa para ir à casa de tal senhora. O menino foi.
Quando o menino Espinosa bateu à porta da residência da devedora
suspeita , esta apenas entreabriu a porta , mal conseguindo disfarçar certo
nervosismo ( ela já adivinhava
o motivo da visita e conhecia a fama do menino...).
Fechando de novo a porta, falou:
“Espera um instante , estou lendo a
Bíblia, primeiro nossos deveres com Deus”.
Ela leu bem alto a Bíblia , de
fora dava para ouvir. Depois, reabriu a porta já com o dinheiro na mão.
Ao mesmo tempo em que colocava
rapidamente a soma na mão do menino, ela disse: “As pessoas de bem sempre leem a Bíblia e falam de Deus,
nunca se esqueça disso menino. Agora vá”, e fechou
abruptamente a porta.
Após alguns segundos, ela ouviu
novamente batidas à porta. Quando abriu, viu de novo o menino Espinosa, que com
calma, porém firme, lhe falou: “Minha senhora, o valor que a senhora me deu
está faltando” .
O menino Espinosa estendeu então novamente a mão
esperando receber mais do que o dinheiro
faltante , ele queria receber,
sobretudo, outra coisa que faltava: a
verdade.
2- Manoel de Barros se formou em
Direito. No entanto, seu primeiro cliente foi também o último. Tratava-se de um
comerciante acusado de desonestidade no
uso da balança : na hora de pesar a mercadoria, sorrateiramente ele apoiava o
dedo para aumentar o peso de forma fraudulenta.
Uma senhora prejudicada pela
desonestidade do mau comerciante
resolveu abrir um processo contra
ele.
Na primeira vez em que esteve com
o tal comerciante, Manoel pediu para conversar a sós com ele, e indagou: “É verdade o que ela diz?
Você burlou o peso?” E o dissimulado respondeu: “É verdade. Mas inventa uma
história para me defender, fique tranquilo: pagarei bem a você.”
Manoel pediu licença
ao farsante e foi conversar com o dono do escritório de advocacia,
dizendo: "Desisto do caso, não vou me vender para defender as mentiras
desse desonesto. A invenção de
que gosto é outra: não é invenção que nega a realidade; a invenção
que gosto é a da poesia: invenção que
amplia o mundo ”.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
O antídoto ao reducionismo é a pluralidade.
Em geral, os racionalistas identificam o pensar ao conhecer,
reduzindo o todo a uma de suas partes, isto é, a filosofia à teoria do
conhecimento. Esse reducionismo não só retira do pensar sua potência própria,
como também ignora que o pensar não é atividade exclusiva da filosofia, uma vez
que o pensar pode ser expresso também nas artes.
Há ainda outro reducionismo tão ou mais limitador e pernicioso: o de
reduzir o afeto e o sentir ao mero sentimento, como o
fizeram os românticos. Nesse sentido, racionalistas e românticos de todas as
épocas formam as duas faces da mesma moeda.
Esse fenômeno duplamente redutor operado pelo par racionalismo-romantismo
revela , por mais paradoxal que seja, o quanto racionalistas e românticos estão
próximos, uma vez que o racionalista, em seu credo “objetivista”, confunde o afeto com o sentimento meramente
subjetivo, nesse aspecto sendo romântico; e o romântico combate a razão por que
confunde o pensar com o conhecer, tomando este por aquele, como faz o
racionalista.
O que racionalistas e românticos ignoram é que não há pensar sem afeto, e
que o afeto potencializa o pensar, ampliando o conhecer para além do mero racionalismo
e libertando a sensibilidade do emotismo
subjetivista.
É sobretudo na arte que o pensar e afeto se agenciam e se somam, expressando uma potência emancipadora ao mesmo tempo singular
e plural, ensejando perspectivas pedagógicas, clínicas e políticas criativas,
sem deixarem de ser críticas .
E quando na filosofia pensar e afeto são afirmados assim , a própria filosofia se converte em arte de
pensar, isto é, poiésis.
( este livro é apenas uma
referência para quem quiser saber mais sobre o tema)
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
A chave-mestra
(Este texto é um comentário ao
Prelúdio 51 de A gaia ciência. Nietzsche afirma que seu leitor deveria
ter “bons maxilares e estômago”, mais do que mera inteligência analítica e
memória. Pois “meus textos, dizia ele, é para serem digeridos”, isto é,
absorvidos e incorporados àquilo que em nós é vivo e singular)
Onde quer que estejas, cava profundamente;
a teus pés está a nascente.
(Nietzsche, “A gaia ciência”).
Há um estado de intuição para o qual a realidade, seja
ela qual for,
só pode ser formulada poeticamente, segundo modos
poemáticos;
e isso porque a realidade, seja ela qual for, só se
revela poeticamente.
Julio Cortázar[1]
Uma chave específica abre apenas a porta na qual está a fechadura que tem
a forma dela. Porém, nenhuma outra porta diferente ela consegue abrir, todas
estão fechadas para ela. Cada cientista em sua especialidade abre apenas uma
porta: a chave do físico, por exemplo, abre somente o universo físico, sua
chave não consegue abrir o universo psíquico; já a chave que tem o químico abre
apenas o universo químico, não serve para abrir outras realidades diferentes da
química.
O mesmo acontece com o filósofo que se torna especialista em apenas uma
parte da filosofia: se ele fizer da lógica sua chave exclusiva, por exemplo,
apenas a porta da lógica ele conseguirá abrir; se for a chave da estética a que
ele exclusivamente usa, somente essa porta específica abrirá para ele,
permanecendo as demais cerradas, inacessíveis, trancadas.
E o pior acontece quando um filósofo reduz toda a filosofia àquela porta
que ele consegue abrir, reduzindo a filosofia a apenas um aspecto dela (como
aqueles que, de forma reducionista, consideram que a filosofia é, antes de
tudo, uma lógica ou uma epistemologia[2]...).
A especialização não é um problema em si, ela apenas se torna uma limitação
quando se quer fazer dela a norma para a filosofia.
Por isso, argumenta Nietzsche, o autêntico filósofo é aquele que deve ter,
antes de tudo, uma chave-mestra. Uma chave-mestra é aquela que abre
todas as portas. Não só abre todas as portas, mas as compreende como entradas singulares
para uma mesma casa onde o pensar mora, um pensar umbilicado à vida. Uma casa
cujo piso é a terra e seus horizontes, e o teto é o céu com suas infinitas
estrelas[3]
: "Minha casa pegou fogo, o teto ruiu...Nada me esconde mais a
deslumbrante lua. " ( Koan japonês)
A porta aberta é o espaço de expressão e manifestação de Hermes. “Hermenêutica”
tem no coração o nome Hermes[4].
Assim, a chave-mestra também é chave hermenêutica que destranca e põe em
comunicação espaços disciplinares fechados, ensejando assim uma inter/transdisciplinaridade.
A chave-mestra não torna aquele que a possui mais especialista em uma
área do que o especialista da área em questão. Conforme já dissemos em outro
texto-aula[5],
“holístico” vem da palavra grega “holos”, que pode significar tanto “todo” como
“completo”. A visão holística se contrapõe à postura meramente compartimentada e estanque
do conhecimento ( que Paulo Freire nomeia como “ensino bancário”).
O pensamento holístico integra as dimensões epistemológicas, éticas e
estéticas à situação existencial do educando, tendo como objetivo
potencializá-lo como ser humano. A chave-mestra é uma chave holística, uma vez
que o autêntico conhecimento é um processo integrador de partes conectadas a um
todo, como as partes de um ser vivo. Não um todo fechado, mas um todo cujos
limites são limiares que se abrem a horizontes.
Na verdade, a chave-mestra abre todas as portas porque as conecta como
partes de uma mesma realidade que se abre não apenas à Razão, mas também ao
Afeto[6].
[1]
Nesta outra epígrafe do escritor e pensador argentino Julio Cortázar que
escolhi para acompanhar esta aula que escrevi, há a expressão “modos
poemáticos”. Poemático é mais do que
mera rima e versos, isto é, poesia no sentido literário. Filósofos como
Nietzsche às vezes escrevem fazendo o conceito filosófico assumir um “modo
poemático”, de tal maneira que filosofia e poesia se tornam umbilicados.
[2]
A esse respeito, vale a pena consultar a letra “W” do Abecedário de Gilles
Deleuze.
[3]
De maneira análoga, Heidegger dizia que só a poesia é a linguagem que consegue adentrar
à “Casa do Ser”.
[4]
Por esse seu simbolismo de porta destrancada e aberta, Hermes também foi a divindade
mais propensa a sincretismos e misturas com as narrativas originárias de outros
povos. No contato com a cultura egípcia, por exemplo, nasce Hermes
Trimegisto , que significa “Hermes três vezes grande”, sendo sua grandeza associada
à justiça, à potência regeneradora/transmutadora e à sabedoria. “Tábua de esmeraldas” é um texto-referência inspirado em Hermes Trimegisto, e que Jorge Bem Jor
transformou em música : https://www.youtube.com/watch?v=DBQD31zO43o
[5]
“SOBRE A PRÁTICA DE ENSINAR FILOSOFIA” ( já disponibilizado no classroom).
[6]
Escrevi e disponibilizei outro texto-aula explicando um pouco mais acerca da ideia de Afeto. Essa
relação íntima entre Pensamento e Afeto nos remete a Espinosa e ao Terceiro
Gênero de Conhecimento.
domingo, 9 de agosto de 2026
Espinosa e as ideias vitais
Para Espinosa, as ideias que
realmente ensinam não são meras realidades abstratas, tampouco apenas teoria.
As Ideias vitais são como seres vivos:
elas possuem olhos, coração e mãos.
Os olhos das Ideias servem para abrir mais os nossos, quando precisamos
ver mais longe ; o coração das Ideias transfunde sangue para o nosso, quando
é necessário termos mais sangue corajoso
correndo em nossas veias; as mãos das Ideias conduzem a nossa, quando o que
escrevemos não é apenas palavras no papel.
Em Espinosa, as Ideias não existem no
“Além”, como em Platão, elas vivem em nós como
potência para pensar este mundo
onde vivemos, aqui e agora.
Mesmo
que em torno hajam trevas, as
Ideias nunca ficam cegas, uma vez que vem delas a luz que seus olhos irradiam ,
como um farol.
Quando as Ideias estendem suas mãos
para nós e nos conduzem, somos nós mesmos que,
sobre nossas próprias pernas, nos conduzimos eticamente sobre o mundo.
Ideias que
conduzem não teorizam
caminhos planejados apenas no papel , Ideias que conduzem são elas
mesmas caminhos : elas sabem abri-los
mesmo em desertos ou transpassando rochas.
E aquele a quem as Ideias conduzem
pelas mãos, sempre oferece sua outra mão para conduzir também a quem ainda não
sabe o caminho, de tal maneira que quem é conduzido pelas Ideias nunca caminha
sozinho, e jamais solta a mão daqueles aos quais estendeu a sua.
( este belo livro fala da amizade de
Espinosa com um simples filhote de
pardal que o filósofo encontrou ferido fora do ninho. Espinosa cuidou do pardal e o criou . “Rebelde”, foi
este o nome que Espinosa deu ao pardal, criando-o livre e fora de gaiolas -
físicas ou simbólicas. O livro é apenas uma sugestão )
Para quem morar perto e puder, deixo aqui o convite:
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Espinosa e a psicologia
Espinosa soube compreender e dimensionar, como poucos, a importância do Afeto na saúde e existência da alma. Todavia, é Descartes que é considerado por muitos como o “pai da psicologia”, isto pelo papel de base que ele concede ao ego nos processos do pensamento.
Porém, Descartes não vê no afeto um original da alma, mas algo que deriva de outra realidade, como efeito dela. Esta outra realidade é o corpo: é o corpo, em última análise, a causa do afeto. Logo, para conquistar sua independência e sossego, a alma precisa se libertar dos afetos.
Ora , para Espinosa o afeto é um modo do pensamento, ele é algo que lhe é imanente, mesmo quando reflete um acontecimento do corpo, como no caso das paixões ou afecções. O modelo de Descartes é a psiquiatria, a redução de todo conteúdo psicológico à neurologia, ao passo que Espinosa realmente dá uma positividade à psicologia, integrando-a aos outros modos do pensamento, possibilitando assim o conhecimento e, mais ainda, o autoconhecimento pautado no agenciamento entre afeto e ideia, ideia e afeto.
Sem citar Espinosa, é o que faz, por exemplo, Jung, quando tenta mostrar que mesmo as psicoses têm uma origem no afeto, e não exclusivamente na fisiologia do cérebro. Jung, porém, estende o psicológico para além do indivíduo, e crê na existência de uma psicologia coletiva que mergulha em tempos imemoriais, acessível tão somente a uma memória mítica, cuja linguagem é sempre simbólica, não referencial ou objetiva.
Já Espinosa mantém a psicologia como dimensão individual da existência do espírito, então apreendido como uma alma ou mente. O psicológico é a dimensão da imaginação e das imagens oriundas da existência do modo finito em sua dimensão temporal , envolvido nos acontecimentos aos quais reage.
A psicologia espinosista está integrada à dimensão espiritual das ideias adequadas. O espírito[1] é singular, e não individual, dado que o individual é sempre o resultado das afecções oriundas da ligação do espírito com o corpo.
Mas o mundo psicológico não é uma ilusão, como não o são os produtos da imaginação. Jung reduz o espiritual ao psicológico, ao passo que Espinosa distingue o espiritual do psicológico, integrando este naquele, e assim restitui a alma ao espírito, a existência à essência, mostrando-nos que somos um só. Enfim, o psicológico é a esfera do individual por oposição ao coletivo, enquanto o espírito é o singular como expressão do Infinito.
A eternidade do espírito não é um passado imemorial de extensão
indefinida acessível apenas a uma memória mítica, dado que o eterno é incomensurável
com o tempo, porém coexiste com ele. E ambos, eternidade e tempo, constituem as duas metades do que somos.
[1] A palavra “espírito”, aqui, não tem sentido religioso. Algumas traduções francesas da Ética, por exemplo, traduzem o latim "mens" por espírito. Enquanto o termo "alma" tem sua origem na palavra grega "psiquê", "espírito" se reporta a "pneuma", que em grego significa "sopro".
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Não se ensina apenas com palavras
Quando pensava e falava, havia um
ponto , um ponto enigmático, em que Heráclito parava de exercer o logos, e
chorava... Nada mais dizia, apenas chorava. Então, os adultos se
afastavam, apenas as crianças ficavam
perto dele e, para confortá-lo, com o filósofo brincavam.
Demócrito, por sua vez,
interrompia seu filosofar com estouros
de riso. Não havia deboche ou ironia no seu rir, apenas alegria.
Sócrates punha um ponto final em
seu filosofar sempre com longos silêncios meditativos, olhando para o nada.
Platão cessava seu discurso e se
dirigia ao quadro para desenhar retas e formas geométricas, dizendo
confiar mais nelas do que nas palavras.
Aristóteles , após ordenar as
palavras, levava seus discípulos para verem a ordem que preside o mundo: recolhia sementes,
peixes, estrelas-do-mar, arraias, incontáveis animais e os punha em ordem, como
se fosse um silogismo.
Os estoicos diziam que as
palavras são apenas a metade do sentido: a outra metade é o agir, e assim eles
ensinavam fazendo, agindo, não temendo a confusão do mundo.
Espinosa afirmava que há um momento em que a palavra não conduz mais: é
preciso então estender a mão e conduzir quem está perdido.
Nietzsche escrevia muitas vezes
caminhando. Era comum ele terminar de
escrever um pensamento, fechar o caderno e continuar a caminhar por uma subida
íngreme, cujo fim era o pico de elevadas montanhas onde o ar é raro e, por
isso, não se pode ficar muito, tampouco
estar acompanhado de quem teme alturas.
Wittgenstein escrevia e parava. E
o restante do que queria dizer ele o
fazia cuidando de jardins: adubava,
podava, colhia e oferecia , de graça, aquilo que cuidou e fez nascer.
sábado, 1 de agosto de 2026
clínicas...
A palavra “clínica” significa: “aproximar-se para cuidar”. O bom médico é um
clínico quando não nos reduz a um mero objeto no qual está a doença, e sim se
aproxima de nossa existência para envolvê-la com cuidados para potencializar
nossa saúde.
Clínica é um chegar perto e
aproximar-se não apenas no sentido físico, também é chegar
perto animicamente, existencialmente. E para criar uma proximidade assim com o
outro, com o mundo e com nós mesmos, o
meio mais adequado é o Afeto.
Sobretudo em épocas nas quais o
adoecimento das mentes pela ignorância se
tornou estratégia de dominação do poder teológico-político mancomunado com a
exploração bélico-capitalista , nessas
épocas os filósofos e artistas mais
necessários são aqueles que também são clínicos.
Eles nos ensinam que a melhor
maneira de afastar a doença não é
temendo-a ou odiando-a, mas amar perseverante a saúde, a saúde da mente e do
corpo, e
cultivá-las cotidianamente nas
mais simples ações. Essa forma de cultivo da saúde também é um ato político.
Deleuze é meu pneumologista: é
nele que encontro ar quando estou sufocando; Manoel de Barros é meu oculista: é
com ele que aprendo a transver o mundo, para assim tentar vislumbrar caminhos
por entre esse deserto pedregoso; Fernando Pessoa é meu cardiologista: para
manter pulsando, sob o cético coração do adulto, o inocente coração da criança
que crê ainda; e Espinosa é meu clínico geral: para desadoecer corpo e mente
ante esses tempos distópicos.
Neste momento, desenvolvo uma
pesquisa na universidade sobre Espinosa. A partir de setembro, pretendo fazer
alguns encontros quinzenais para falar
de Espinosa . Esses encontros serão abertos ao público em geral, presencial e
virtualmente. Quem quiser participar/acompanhar
de alguma maneira (serão concedidos carga horária e certificado) , é só falar
comigo. Abraços.
Este livro de Nise é apenas uma
sugestão de leitura ( tive a alegria de participar , com uma palestra, do
evento de lançamento da nova edição desta obra). Para ajudá-la em seu trabalho de
cuidados clínicos, consigo e com os
outros, Nise dizia ter aprendido a
seguinte lição com Espinosa: “nossa felicidade e saúde mental depende mais
daquilo que fazemos com as mãos do que daquilo que teorizamos com o cérebro”.
Mãos que alimentam, mãos que escrevem lições no quadro numa sala de aula,
mãos que pintam, que plantam , que
bordam, que partilham, que doam...São mãos mais saudáveis e felizes do que
aquelas que apenas imitam armas, como a mão dos fascistas, ou que só sabem contar dinheiro, como a mão do “mercado”.
sexta-feira, 31 de julho de 2026
A origem do homem e da mulher, segundo a mitologia
Segundo
a mitologia, assim foi criado o homem:
Prometeu começou a obra a
partir do barro, porém pediu ajuda aos outros deuses. Hefesto, o deus
artesão-operário, deu a Prometeu , para este pôr nos homens, o dom de usar as mãos. Assim nasceu o “homo faber”:
“aquele que transforma a natureza com as mãos”.
Mas
isso não foi suficiente , pois as feras sobrepujavam em força e facilmente
caçavam esses primeiros homens. Prometeu pediu auxílio então a Atena. Esta deu
a Prometeu, para este colocar nos homens, o dom da inteligência. E assim nasceu
o “homo sapiens”: “o homem capaz de
falar, contar, enfim, teorizar”.
Porém
o homo sapiens só teorizava, com o homo faber não se unia. Dessa desunião as
feras tiravam proveito, predando
facilmente os homens. Prometeu percebeu
que faltava alguma coisa para unir o homem ao homem, o eu ao outro, a
identidade à diferença, para assim fortalecê-los reciprocamente.
Prometeu
pediu enfim auxílio a Zeus, que ofertou a Prometeu, para este plantar nos
homens, a semente do sentimento ético da justiça. Prometeu preparou então um
terreno para plantar essa semente, fertilizando esse terreno com o adubo da
coragem. Esse terreno onde a semente da justiça foi plantada recebeu o nome de
“coração”.
As
decisões que nascessem do coração seriam chamadas de “sentenças” : “decisões sentidas e proferidas em favor da
comunidade”. Zeus fez apenas uma exigência: que essa semente fosse plantada em
todos os homens. E assim nasceu o “homo eticus” : “o homem cuja força e poder
está em seu coração justo”.
Os
homens aprenderam então a cooperar e não apenas a pensar egoisticamente no
interesse próprio. Nasceu assim a sociedade. Agindo como ser social , o homem
aprendeu a somar esforços, canalizar as
criatividades e reunir meios para vencer as feras com a força da engenhosidade.
Contudo
, alguns não confiavam nas sentenças do
coração justo e resolveram criar as leis escritas. Outros imaginavam que não vieram do barro, e logo começaram a crer que eram superiores e “eleitos dos deuses”: propalavam que não vinham
do barro, mas do ouro . Entre eles surgiu um tirano que tomou o poder
com um exército, rasgou as leis e transformou em escravos os oriundos do homo faber.
Esse tirano ainda mandou as
covardes botinas do ódio pisotearem os corações justos . Assim nasceu uma elite militar-teocrática pior do que os leões e
hienas que antes predavam os
homens.
Horrorizado,
Zeus pensou em dizimar os homens com um raio. Em vez disso, pegou o barro e o
umedeceu com sua saliva. Tomando como modelo Atena e Afrodite, nesse barro foi
moldada a primeira mulher : Pandora.
Mas
dentro de Pandora Zeus não esculpiu totalmente, e foi nesse interior livre que
nasceu um aliado do coração justo na
luta contra a tirania dos homens. Esse
aliado foi o útero, espaço de
criação de algo que , até então,
somente os deuses eram capazes de criar:
a Vida.
( Imagem: “O núcleo
da criação”/Frida Kahlo)
Parte do que escrevi tem por referência estes livros:











