O DOUTOR
ESPINOSA EM CONVERSA COM O POETA AUGUSTO DOS ANJOS[1]
Talvez devêssemos viver de tal modo que, por nossas palavras e práticas,
não fôssemos um exemplo, um triste exemplo, para os versos de Augusto dos Anjos,
dando-lhes razão. Não por questões morais, tampouco para ser “politicamente
correto”. Os célebres versos dizem mais ou menos o seguinte: “A boca que hoje
te beija, é a mesma que amanhã vai te escarrar”.
Não se deve reduzir poesia a
ressentimentos psicológicos. Mas há nesse poeta uma leitura da alma dos homens,
revelando como ele supunha que os homens são.
O poeta traduziu em versos as
volubilidades do “outro”. É em relação ao outro que o poeta aconselha precaução
e cautela , quando do outro recebemos amor e afeto. Ele quer dizer que o amor
do outro facilmente se converte em ódio e desprezo, como se fosse uma lei da
natureza humana. Os que hoje te amam, amanhã irão ou poderão te odiar, como se
o amor fosse apenas a antecâmara do ódio. Há nessa visão amargura? Ou apenas
ironia? Talvez, quem sabe, haja nesses versos
apenas aquele tipo de fingimento típico do poeta, como dizia Fernando
Pessoa.
Mudando o foco do outro para nós mesmos, o Drº Espinosa, Clínico
Geral, diria: “Se tua boca hoje beija
algo, jamais deixe que tua boca amanhã escarre naquilo que ela beijou.” Ele prosseguiria: “ Não ceda a
essa pequenez, pois ela nada mais é do que a imagem que o escravo, o homem
triste, faz de sua liberdade”. Não há nenhuma liberdade em resolver escarrar
naquilo que ontem se beijou. Se alguém crê que é livre escarrar hoje naquilo
que ontem beijou, não apenas o escarro de hoje não é livre, como também não o
era o beijo de ontem. Não havia amor naquele beijo. Não apenas ao outro não
havia amor, como também não havia a si mesmo. Sem falar naqueles que apenas
escarram e escarram, sempre achando motivos e razões para escarrar, pois na
verdade não sabem beijar ( e essa incapacidade não raro encobre um ressentimento
por nunca terem sido beijados).E há aqueles que apenas beijam na esperança de
serem beijados ( estes são inclinados a sutis vinganças, quando não recebem de
volta o beijo que negociaram, como se fosse um mercado de trocas, ou de compra
e venda).
Clinicamente, em nome de uma prática não fascista e rancorosa, o Doutor
Espinosa preceitua: não deixe de beijar o que você supõe ser merecedor do teu
beijo. Beije, sem pedir nada em troca. Seja grato por ter a quem beijar, e não
cobre ao beijado reconhecimentos pelo teu beijo. Não suponha que é ele que tem
que te ser grato. Antes de tudo , porém, valorize teu beijo beijando tão
somente o que merece ser beijado.
Aqui, beijo não é apenas o colar os lábios no rosto de alguém. É mais do
que isso....Amizade, amor, admiração, elogio...são beijos. Maledicência,
inimizade, intriga, zombaria...são escarros. Se por algum motivo você supõe que
aquele que ontem você beijou não merece
mais que hoje você o beije, não transforme esse pensamento , ou imaginação, em
ato, pois é vil todo pensamento que se expressa em escarro. Se ele não merece
hoje seu beijo, não o beije mais. Porém não ceda à tentação de escarrar, pois
se escarrará não no outro, mas no seu próprio beijo de ontem. Sua capacidade de
beijar perderá a alegria vital e espontânea, de tal maneira
que teu beijo será visto com desconfiança, e os sinceros fugirão do teu beijo.
Se alguém que você beijou não merece mais seu beijo, esqueça esse alguém,
afaste-se, e guarde sua energia, seu desejo, seu amor, sua imaginação, seu
afeto...para achar novamente quem seja
digno do teu beijo. Mas se você imagina que ninguém merece teu beijo, vá se
olhar no espelho, e veja se ainda não está no seu rosto restos do escarro que
você recebeu de quem ontem te beijou. Não deixe que os outros vejam primeiro
que você essa mancha.
Nunca beije alguém por mera pena desse tal alguém nunca ter sido beijado.
Cautela com os beijos fáceis que você
recebe: não é por socos ou tapas, mas por beijos que os Judas se revelam e
traem. Nem beije qualquer um apenas para ter quem beijar. Evite contabilizar os
beijos que recebe, e nem cobre pelos beijos dados. Se você for escarrado por
quem ontem te beijou, limpe bem seu rosto, remova esse passado, não o deixe
enrijecer, e seja firme na decisão de
nunca buscar vingar-se beijando
um outro apenas na esperança de amanhã poder escarrá-lo.
Não deixe na boca um escarro pronto como vingança, deixe um beijo que
desarma o inimigo. É no exercício constante do beijar como expressão autêntica de
afetos generosos que alguém se torna
digno de ser beijado por aqueles que valorizam o próprio beijo.
[1]
Texto elaborado pelo prof. Elton Luiz (referência: escólio da Proposição 20 da
Quinta Parte da Ética)







