terça-feira, 24 de março de 2026

quando a palavra já não basta

 Quando pensava e falava, havia um ponto , um ponto enigmático, em que Heráclito parava de exercer o logos, e chorava. Nada mais dizia, apenas chorava. Então, os adultos se afastavam,  apenas as crianças ficavam perto dele.


Demócrito, por sua vez, interrompia seu filosofar com  estouros de riso. Não havia deboche ou ironia no seu rir, apenas alegria.

Sócrates punha um ponto final em seu filosofar sempre com longos silêncios meditativos, olhando para o nada.

Platão cessava seu discurso e se dirigia ao quadro para desenhar retas e formas geométricas,  dizendo  confiar mais nelas do que nas palavras.

Aristóteles , após ordenar as palavras, levava seus discípulos para verem a ordem  que preside o mundo: recolhia sementes, peixes, estrelas-do-mar, arraias, incontáveis animais e os punha em ordem, como se fosse um silogismo.

Os estoicos diziam que as palavras são apenas a metade do sentido: a outra metade é o agir, e assim eles ensinavam fazendo, agindo, não temendo a confusão do mundo.

Espinosa afirmava que há um  momento em que a palavra não conduz mais: é preciso então estender a mão e conduzir quem está perdido.

Nietzsche escrevia caminhando. Ele escrevia  seguindo trilhas que subiam , nunca as que desciam , para que no texto o sentido também se elevasse. 


Wittgenstein escrevia e parava. E o restante do que  queria dizer ele o fazia cuidando de jardins:  adubava, podava, colhia e oferecia , de graça, aquilo que cuidou e fez nascer. 

sábado, 21 de março de 2026

o poder teológico-político

 

A palavra “teologia” aparece entre os filósofos pré-socráticos. Antes deles , já existia a palavra “teogonia” , que é o título de um   poema de Hesíodo no qual se narra  a origem dos deuses, a começar por Gaia, a Mãe-Terra.

 Hoje , a palavra  “teologia” remete a três religiões calcadas  num texto considerado sagrado por elas: o Alcorão ( Islamismo), a Torá ( Judaísmo) e a Bíblia (Cristianismo).

“Política”, por sua vez, vem do termo “pólis”, que significa tanto “cidade” como “organização” ( na raiz  da palavra “pró-polis” , por exemplo, está “pólis” , pois a própolis , como uma vacina, protege a colmeia enquanto “organização-comunidade” das abelhas).

Pólis é a organização conjunta das liberdades, para assim construir o viver em comum, preservando a heterogeneidade dos viveres. No centro da pólis não estão Castelos ou Templos, embora a base de toda pólis igualmente seja um livro.

Um livro que também é objeto de uma “fé”, não uma fé religiosa, mas uma fé na liberdade, na criatividade, na ciência, na cultura , na educação, pois essas atividades também são “instituições”.

Ao contrário dos “Textos Sagrados”, o livro que serve de base à pólis pode ser reformado ou até mesmo abandonado em nome de outro texto mais justo, desde que assim decida a sociedade, após debate, argumentação,  divergência dialogada e votação.

 O  livro que fundamenta a pólis  é a Constituição. Essa palavra significa: “o que é instituído junto”, e que apenas por um querer junto, afirmador da pluralidade, pode ser destituído.

A Constituição deve preservar a diversidade, inclusive a diversidade de crenças religiosas, além de proteger também aqueles que não têm crenças religiosas.

O poder teológico é um poder que tem seu campo de atuação restrito ao templo. Porém, acontece  por vezes de tal poder usurpar esse espaço de culto, querendo se tornar também poder político.

É assim que nasce o que Espinosa chama de poder “teológico-político”. Para triunfar, esse tipo de poder perseguirá como inimigo tudo aquilo que a Constituição democrática simboliza. É por isso que o poder teológico-político somente pode perdurar cooptando exércitos e polícias.

Esse tipo de poder também costuma se juntar aos que fazem do Capitalismo e do Mercado um Deus, a tal ponto que a “prosperidade”  econômica individual passa a ser  valor  cultuado como se fosse um Dogma ( como se vê no atual acumpliciamento fláviorachadinha-mídiagolpista).

 Mas é do inimigo que esse poder mais persegue que também vem a maior força que resiste a ele: “Onde há o perigo, ensina o poeta Hörderlin, também cresce o que salva. ”



Dizem que o orgulho não é um bom sentimento... Porém confesso que tenho orgulho de algo: ter sido demitido pelo profeta-Malafaia .  Ele era um dos donos da faculdade onde eu lecionava filosofia. Eu estava começando na atividade docente, foi difícil à época ficar sem emprego, porém não me vendi. Ele me demitiu não por eu fazer mal meu trabalho .  Ele me demitiu por eu não obedecer à tentativa dele de cercear nossa atividade docente. Ele nutria indisfarçável horror à filosofia e aos filósofos, só tolerando  quem lhe dissesse “amém”. Se esse srº  vivesse na Grécia Clássica, com certeza   ele   seria um daqueles vingativos que condenaram Sócrates a beber a cicuta; se ele vivesse na época de Espinosa, seria talvez aquele que mandou um fanático religioso  ferir Espinosa com um punhal...( aliás, o ato que baniu/excomungou Espinosa ainda não foi revogado pelas autoridades religiosas :Espinosa  é considerado ainda hoje  por eles como  um subversivo  perigoso...) . O profeta-malafaia  aparece ali na foto junto ao seu “Messias”. Cada profeta tem o “Messias” que merece...




 


sábado, 14 de março de 2026

a escova do poeta

 

No poema “Escova”,  Manoel de Barros  diz ter visto, quando criança, dois homens sentados no chão  "escovando osso" . No início, diz o poeta, “achei que eles eram loucos” .

 Mas ele olhou bem e viu que não podiam ser loucos aqueles homens. Louco ,  o mais perigoso,  é  quem  quer impor aos outros o seu   “mesmal” . O “mesmal” é a doença de quem imagina que seu modo de viver é o único normal.

Aqueles homens não podiam ser loucos, pois pareciam ver a novidade onde todos veem o igual :  escovando, eles queriam livrar o osso da craca e poeira que nele grudaram . 

No escovar deles  também havia uma  artesania semelhante à de Espinosa a polir lentes com cuidado

O poeta descobriu então que aqueles homens eram arqueólogos. Eles queriam ressuscitar no osso o mundo no qual ele foi parte de um esqueleto sob músculo e pele, há milhões de anos.

E mais do que isso, eles desejavam reviver  o sentido que estava no osso , pois nada faz sentido sozinho: o osso foi  parte de  um esqueleto  que era   parte de um ser vivente,  igualmente parte singular de um mundo hoje extinto , do qual o osso dava o testemunho.

Para eles  o osso era mais do que osso: era também o fragmento de uma história , a nossa história,  que a vida  ainda está a escrever, com ideias e corpos, apesar das necropolíticas que querem nos extinguir.

 Ao ver os arqueólogos ,   o poeta ainda criança compreendeu qual seria então seu destino: o de escovar as palavras, retirar delas a idiotia, a ignorância, o preconceito, o clichê  e as banalidades que nelas colocaram as mentes obtusas,  de tal maneira que seria também uma “ecologia mental” o que o poeta faria  ao escovar das palavras tais sujeiras e craca.

Ao escovar as palavras, o poeta  não acha  “Verdades” , “Ordens” ou “Mandamentos”; ele acha  a poesia como sentido primeiro, não conformista, das coisas : “A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que sei” , ensina o poeta. 




sexta-feira, 13 de março de 2026

A "dualidão"

 

Nietzsche assim dizia: “Odeio quem rouba minha solidão sem oferecer verdadeira companhia.” A palavra “companhia” vem de “com-pane”. Em latim, “pane” é “pão”. Assim, fazer companhia é saber dividir o pão; companheiro : “aquele com quem dividimos o pão.”

Não apenas o pão físico, aquele que mata a fome do corpo, mas sobretudo os pães da mente , os pães do espírito, os pães do afeto, pães esses que matam outro tipo de fome: fome por dignidade, fome por justiça, fome por conhecimento.Desses pães ninguém é o dono, são pães que não se compram ou vendem no mercado, são pães que não têm preço.

Nietzsche chama de “dualidão” quando duas solidões, sem perderem a singularidade de cada uma, decidem,  por liberdade, andarem e viverem juntas.  Em carta a Overbeck,  Nietzsche afirma que , ao ler Espinosa, não viu sua solidão roubada, mas acrescida por uma outra solidão singular como a sua. Enfim, uma “dualidão”.

domingo, 8 de março de 2026

Sofias...

 

Em grego, “Sofia”  é “Sabedoria”. Não se deve confundir “Sofia” com “Razão”. A  palavra “Razão” em grego  é masculina (“Logos”)  e tinha  em Zeus um dos seus símbolos.

Porém Zeus  não era a Sabedoria, pois  Sofia é filha de Zeus com Métis.  Por possuir muitos dons e capacidades, Métis era conhecida como  a deusa das “habilidades”. Não a  habilidade meramente   técnica, mas habilidade no sentido de produzir , além de ideias,  um querer e um agir múltiplo e criativo.

Métis também estava  associada à noção  de “saúde” enquanto cuidado consigo e com os outros. A palavra “caute” , base da Ética de Espinosa, provém dessa habilidade médico-curativa . Pois de “Métis” também vem “meticuloso” , no sentido do cuidado (“caute”)  que caracteriza o bom médico ( tanto os médicos do corpo quanto os médicos da alma, os pensadores-artistas).

Uma das características de “Métis” é que ela era capaz de metamorfoses, de devires. Ao enamorar-se com Métis,  Zeus buscou na metamorfose dela um processo para renascer também.

Agenciada com Métis ,   a própria Razão potencializou-se para lutas que ela não tem como vencer sozinha, lutas para enfrentar a ign0rância em suas diversas formas. Fortalecida, a Razão aprendeu habilidades  que a pura razão teórica não ensina.

 As habilidades de Métis são artes que unem o pensar ao agir. E foi desse agenciamento mais afetivo do que teórico , mais artístico e poético do que acadêmico, que nasceu  então Sofia, também conhecida como “Atena”, filha de Zeus com Métis.   

Os teóricos da Razão  inspiram-se em Zeus, mas os pensadores-artistas são  apaixonados por Sofia: e por essa paixão não apenas pensam, como também agem e criam.

Na lut4 contra a ign0rância e a obscurid4de, ontem e hoje, a Razão não vence sozinha: é preciso que a acompanhe Sofia. Às vezes, é a própria Sofia que salva a Razão de si mesma , fecundando nela sensibilidade  e vida, impedindo  assim que a Razão fique dogmaticamente estéril, rígida.

Segundo Nietzsche, hoje a filosofia atende  por outro nome, um nome feminino  também : “Ariadne”, nome que  significa “aranha”. Pois Ariadne é tecedora de fios, fios que ela tira de seu próprio ventre, como a “linha de fuga” ensinada por Deleuze .

Ariadne simboliza  a necessidade de um fio que nos agencie, um fio trançado  com  Ideias libertadoras e Afetos regeneradores, como    mãos que se seguram umas às outras  na luta e resistência ante toda forma de tir4nia, mãos de Sofia e Ariadne  unidas às mãos de Dandara, Eunice, Fernanda, Clarice, Marielle...

Esse fio-agenciamento que une e salva ganha vida na  voz de  Elza Soares:

“Eu não vou sucumbir 

Eu não vou sucumbir

Avisa na hora que tremer o chão                      

Amiga, é agora, segura a minha mão”.

( Trecho da música “Libertação”)

 

“A paixão sem a razão é cega;

 a razão sem a paixão é inativa.”

(Espinosa)

 

(Imagem: a pequena Sofia)





Letra-poema de Violeta Parra:





sábado, 7 de março de 2026

Manoel e os fluxos...

No livro "O guardador de águas", o poeta-pensador Manoel de Barros afirma que aprendeu  a guardar águas. Não ouro, dinheiro ou posses, mas águas. Guardar também é cuidar.

As águas que o poeta guarda não são exatamente coisas, elas são fluxos. Cuidar dos fluxos é o oposto de construir cercas ,  gaiolas , muros ( literais ou simbólicos).  Os fluxos são sempre desterritorializados e desterritorializantes : “não se pode ‘passar régua’ neles”, ensina Manoel.

Mas  não se deve confundir esse “fluxo” manoelino com aquilo que o sociólogo Bauman chama de “líquido” , ao descrever  as sociedades contemporâneas .

 No “mundo líquido”, as relações, os amores, as políticas , as temporalidades, o trabalho, as subjetividades e até mesmo o conhecimento se tornaram   “volúveis-voláteis” ( como a liquidez do Capital que a tudo desumaniza e reduz a juros e lucro).

 O líquido aceita ser limitado e contido por moldes. Já um fluxo é feito o sangue nas veias:  se não   avançar, perece.  Os fluxos ou inventam linhas de fuga ou secam e morrem -  e a secar resistem com toda força que podem.

 Os fluxos somente podem ser guardados em espaços  abertos. E abertos se tornam a sociedade, a mente e o afeto se um fluxo de vida os atravessa.

Os fluxos nascem de fluxos, não de coisas enrijecidas: o  rio amazonas  nasceu da geleira no alto dos Andes , mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo...até alcançar o horizontado mar , para mar também se tornar.

Guardar as águas é guardar-se nelas, como necessária arte dos (re)descobrimentos: "estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir"( Clarice Lispector, “A descoberta do mundo”).

Somente uma fonte pode guardar fluxos.  A fonte guarda fluxos os  doando, pois uma fonte é um fluxo de vida partejando a si  para matar sedes e  irrigar desertos.

 O fluxo é fluido, mas não é sem força ou volúvel; ele é firme, possui consistência, porém não é rígido. Pedras não  vencem o  avançar de um fluxo ,  enquanto pulsar a fonte da qual ele transborda.

 

“Quem anda no trilho é trem de ferro.

Sou água que corre entre pedras:

liberdade caça jeito.” ( Manoel de Barros)

 

“A cisterna contém; a fonte transborda”.   (William Blake)

 

“O artista é aquele que converte os obstáculos em meio”. (Deleuze)

 

( Imagem: “Sherazade”/ obra do artista Samil Hilal. Como as palavras emancipadoras de Sherazade enfrentando o poder repressor-falocrático  do “Sultão”, o agenciamento de livros forma um fluxo de ideias que segue em frente,  irreprimível...)






 

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

No caminho com Maiakóvski

 

“Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

(...)

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror."

 

( trecho do poema “No caminho com Maiakóvski", do poeta Eduardo Alves da Costa)

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Manoel de Barros: "Poesia pode ser que seja fazer outro mundo".

 

Certa vez, pediram ao poeta Manoel de Barros uma definição do que é a poesia. O poeta assim respondeu: “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. Nessa resposta, a palavra mais importante é o verbo “fazer”. Inclusive, a palavra “poesia” vem de um verbo grego  cujo sentido é exatamente “fazer, produzir”.

Quando se  substantiva a poesia apenas como rima e verso , perde-se a compreensão de que ela é também um verbo, uma ação, que pode produzir muitas outras coisas além de rimas e versos.

A poesia produz também percepções, pensares e sentidos outros que subvertem o “mesmal”  do “mundo acostumado” .

Manoel diz que o poeta produz versos porque , antes de escrever, “o poeta  se empoema”. Empoemar-se é um sentir que pensa, tornando-se potência criativa  que nasce de uma intensificação da vida.

Quem se empoema,   desegoifica-se  e se desabre:  não cabe mais dentro de si.  Alguns se empoemam  e dançam, outros se empoemam e pintam, outros se empoemam e cantam, outros se empoemam e  ensinam, outros se empoemam e aprendem,  outros se empoemam e se tornam generosos, corajosos, insubmissos,  libertários , enfim, intensificam o que neles é vivo .

 E com o máximo de força que podem , se esforçam para fazer outro mundo começando pelo lugar onde se está, mesmo que seja um lugar modesto, micropolítico: sala de aula, fábrica, rua, praça, residência, favela, vizinhança, janela, mundo virtual...

E primeiro que tudo, deve-se começar por fazer outro mundo dentro de si mesmo, na maneira de pensar e sentir, fazendo-se de novo página branca, sem roteiros prévios , para que nela a vida reescreva novos sentidos por descobrir , sentidos  que nos auxiliem a resistir à antipoesia dos homens cultuadores do ódio, da destruição e da morte.

É por isso que o importante naquela definição de poesia  também  é o “pode ser que seja”,  pois poesia não é   palavra de ordem , fórmula  ou dogma;  poesia  é ideia pensante  para ser sentida e reinventada, reinventando-nos , como potencialização da liberdade agenciada.

Como ensina Deleuze: “Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o filósofo é o poeta”.


(parte do que escrevi se encontra neste livro que organizei)




 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Espinosa e o "niilismo"

Para Espinosa , deus não criou o mundo do nada , tampouco é rodeado pelo nada. Para Espinosa, o nada é uma negação imaginativa-reativa feita pelos que ignoram o que é a  natureza.

O nada não existe ontologicamente,  mas apenas antropologicamente: é a imaginação reativa do homem que cria o nada ( "nihil", em latim).

Nem sempre esse nada aparece com seu nome original, mas com outros nomes. “Paraíso” e “Inferno”, por exemplo, são alguns nomes que encobrem esse nada. Até mesmo “Deus” ( esse “Deus” que Flávio Bolsonaro quer  reduzir a cabo eleitoral seu)  também pode ser  o nome desse nada, quando se faz de Deus um ente que castiga, que pune, ou seja, um deus vingativo  e preconceituoso que escolhe um povo em detrimento de toda a humanidade.

O poder teológico-político cultua  esse nada, muitas vezes em templos de ouro ( nada tendo a ver, portanto, com o Deus simples, amoroso e modesto de Francisco...). 

E quem cultua nadas assim se agrilhoa na imaginação passional-reativa, passando a viver no medo, na ignorância, na credulidade incauta, no ódio e na superstição, todas características de uma mente infantilizada que não sabe governar a si mesma, sempre precisando de um profeta, de um “messias”, de um “eleito”, enfim, de um “tirano” que os sujeite a viver como rebanho.

À sua época, Espinosa assim já diagnosticava aquilo que hoje se chama “niilismo”.


Uma das referências do texto é este livro de Espinosa, sobretudo o Capítulo III : "Que Deus é causa de tudo".




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

a própolis e o formal

 

Hoje no Brasil se fala muito em  “ ser conservador” como um comportamento oposto ao de  “ser criador”, “progressista”. Segundo Espinosa, porém, há duas maneiras de “ser conservador” . Essas duas formas podem ser explicadas , de maneira simples, a partir do seguinte exemplo:

Seria absurdo querer conservar apenas a mesa que o carpinteiro produziu, descuidando do próprio carpinteiro e sua potência criativa de produzir mais mesas, inclusive de produzir mesas diferentes daquelas que até hoje ele criou.

É no produtor, e não no produto, que criar e conservar andam juntos: o que se deve conservar é o ato de produzir o novo, e não apenas o produto pronto desse ato. Nesse sentido, conservar é proteger e cuidar, para fortalecer a potência de criar .

 Os progressistas agem para conservarem a potência criativa do produtor ( os “direitos sociais e trabalhistas”, por exemplo, existem para  essa função) , já os conservadores-reacionários querem conservar apenas os produtos transformados em propriedade que o capital compra explorando o produtor e tirando dele os direitos.

 A prática de conservar o que é criador nos é ensinada pela própria natureza : a própolis, por exemplo,  conserva/cuida  da vida da colmeia  para que esta se proteja das doenças que querem , de dentro, fragilizá-la ; e, ao mesmo tempo, a própolis é força que ajuda a colmeia a se manter  reinventando-se ,  perseverando na vida.

Porém, criar e conservar se tornam ideias antagônicas quando se quer colocar o conservar antes do criar, vendo no criar algo que ameaça uma “Ordem” rígida , paranoica. Um conservar assim é o que faz o formol: serve para conservar apenas o que já está mortificado e não  se reinventa mais, como produtos em lata de conserva...

Arte, filosofia, educação são própolis; prot0fascismo fundamentalista teológico-político é formol.  

 

( a “Ética” é o livro-própolis que Espinosa escreveu)