sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia do trabalhador

 

No livro “1984”,  George Orwell mostra que  um  poder t1rano não se mantém apenas com a violência física, ele também recorre à  violência simbólica : apagando  certas palavras  do uso público para assim tentar eliminar  da realidade os seres que tais palavras designam.

É o que acontece hoje  com a palavra “trabalhador”, que está sendo apagada pela mídia e donos do poder , com o apoio servil de capitães do mato, para em seu lugar   pôr “colaborador”.

Quando a França foi ocupada pelos n4zistas, eram chamados de “colaboradores” os franceses que , de forma submissa, faziam o que os dominadores  mandavam.

Não por acaso, o nome “colaborador” nasceu da boca dos patrões para designar o trabalhador que não se envolve com sindicatos, greves, luta por direitos... “Colaborador” é, na visão do Capital, o “trabalhador homem de bem”.

Porém,  “Dia do Trabalho” , conforme emprega a mídia comercial, é uma expressão  vazia, “sem gente dentro”,  diria o poeta Manoel de Barros. O curioso é que em outras datas comemorativas a mídia não diz  “Dia da Medicina”, mas “Dia do Médico”, ou “Dia da Advocacia”, e sim “Dia do Advogado”, ou  “Dia do Ensino”, mas “Dia do Professor”. Por que no dia de hoje  a mídia corporativa tenta esconder aquele que  exerce o trabalho? 

Além disso, médico, advogado , professor também são trabalhadores: cada atividade é exercida para produzir saúde, justiça, conhecimento...Pode-se, claro, com elas ganhar dinheiro, porém o dinheiro assim ganho vem do trabalho, da produtividade com coisas reais.

O Capital, ao contrário, não trabalha: ele explora quem trabalha, e quer que o explorado colabore com a exploração. 

Uma das palavras mais bonitas em grego é “eudaimonia”. No coração dessa palavra está o nome “Daimon”, pois “eudaimonia” é : “estar na companhia de um bom Daimon”.

“Daimon” é o ser que auxilia nas travessias.  Em português,  “eudaimonia” é   “felicidade”. Assim, felicidade autêntica não é posse, é travessia e processo construídos no dia a dia.

 Para os gregos, assim como para nossos indígenas, a felicidade não é mero triunfo pessoal,  mas  agenciamento coletivo na luta por travessias que nos levem à vida digna.

“Companhia” vem de “com-pane”. Em português, “pane” é “pão”. Fazer companhia é  saber “dividir o pão”. Companheiros: “aqueles que dividem o pão”.

Há o pão que alimenta o corpo: se ele faltar, vem a fome.   Mas há também o pão da dignidade e da justiça, pão que  tem o fermento da arte, da educação e da poesia,   pão que alimenta a luta de quem não se submete, como rebanho, a tir4nias...

 Creio que “colaborador” e “empreendedor” são termos que propagam a ideologia  de que o outro não é um companheiro, mas um “rival-competidor”.

Ser trabalhador  é fazer-se  companheiro das lutas comuns pela conquista e partilha dos dois pães: o que alimenta o corpo e o que nutre/liberta o espírito. Pois ser trabalhador não é só trabalhar, também é ter tempo livre para estudar,  viajar, enfim, viver com dignidade.










                        ( este filme é uma excelente dica para hoje, ele está disponível no youtube)