segunda-feira, 31 de outubro de 2022

a necessária limpeza...

 

Agora que  o miliciano foi derrotado, será preciso todo um trabalho de limpeza em tudo aquilo que ele tocou no Palácio do Planalto.

Será preciso limpar não apenas o que ele sujou com suas mãos sujas de sangue, mas também o que ele poluiu com sua língua e fala torpes.

Será necessário benzer o lugar, defumar também; que os pajés possam expulsar os maus espíritos que por quatro anos fizeram morada ali.

Exorcistas, pais e mães de santo, caça-fantasmas, especialistas em desfazer mau agouro...toda ajuda de todos os planos será necessária para afastar tudo o que de ruim criou raiz ali.

Álcool, creolina, desinfetante, água sanitária...tudo isso será preciso pra dissolver a sujeira.

Limpo o lugar, que não tarde o devido julgamento do poluidor-miliciano  por seus crimes contra os indivíduos, contra o coletivo  e contra a humanidade.

Nietzsche dizia que só mesmo tapando o nariz do espírito conseguimos não ser envenenados pela espurcícia que exala de seres como esse que poluiu o país por quatro anos. 

Para sobrevivermos a épocas assim, aconselha Nietzsche, é preciso respirarmos fundo e enchermos nossos pulmões com o ar livre que nos mantenha resistindo vivos.

Estávamos há quase quatro anos com nossa respiração suspensa , mas ainda vivos pelo oxigênio das ideias e afetos que soubemos reservar e partilhar para não sufocarmos.

Já podemos voltar a respirar e tomarmos novamente fôlego para  não descansarmos  até vermos  esse miliciano e seus cúmplices onde precisam estar: na cadeia.





domingo, 30 de outubro de 2022

vitória da democracia

 

Queridas companheiras e companheiros,

Sempre gosto de lembrar que “companhia” vem de “com-panis”: “partilhar o pão”. Assim, companheira/companheiro é: “aquele/aquela com os quais dividimos o pão”.

Há o pão que alimenta o corpo, mas há também o pão que alimenta a mente, o querer e o coração.

Poesia, amizade, justiça, empatia, educação, filosofia, artes...são pães que  alimentam a nossa sensibilidade individual e coletiva para que possamos também lutar , com mais força  ainda , pela conquista diária pelos dois pães.

 Pois como diz o poeta Manoel de Barros: “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo.”

Abraços fraternos por esses quatro anos em que juntos partilhamos o pão da poesia libertária que  ajudou a manter alimentada a nossa perseverança.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

democracia X pântano

 

Sem dúvida, o debate de logo mais é importante. Porém, existe um discurso do miliciano e sua campanha, discurso esse reforçado pela posição ambígua da mídia corporativa, de que esse debate “pode mudar tudo”.

Porém, esse tipo de fala do miliciano ( reforçado, repito, pela mídia golpista) já é uma estratégia retórica para provocar o terror antes mesmo de o debate  começar ! É uma fala que visa fomentar a insegurança na campanha de Lula de que “tudo pode ser perdido hoje  à noite”.

É preciso, claro, que Lula tenha cuidado. Mas cuidado não é medo. Cuidado é um agir que cuida e protege , sobretudo que cuida e protege  a si mesmo e as ideias que se defende.

Todos sabemos que o miliciano não vai ao debate para debater, e sim para fazer jogo sujo. Quando uma das partes deixa claro que jogará sujo, os mediadores não podem ter uma atitude passiva  e supostamente “neutra”. Os mediadores têm que ser ativos na proteção das regras.

Burlar regras é crime, cometer fakes news é crime. E diante de um crime não há neutralidade: é preciso combatê-lo. Quem vê um crime e não age, ou está com medo ou é conivente. Creio que a equipe de Lula deveria exigir da Globo uma posição firme , desde já, contra os crimes que todos sabemos que o fascista irá cometer.

 Para um democrata como Lula, é difícil rebaixar-se ao nível de pântano onde adora ficar o genocida, pois o pântano é o meio natural do fascista, e é por isso que ele tentará atrair Lula para esse lugar.

Por isso, Lula deve ignorar o miliciano e não interagir. Lula  deve olhar apenas para a câmera , para nós, antes tendo olhado para dentro de si mesmo e lá encontrar a força de sua história, e nela se apoiar.





quinta-feira, 27 de outubro de 2022

fluxos manoelinos...

 

O poeta-pensador Manoel de Barros  ensina : “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”

O trilho representa um caminho já dado, um caminho que rouba o ir livre dos nossos passos. Quem anda em trilhos não reinventa caminhos: passivamente aceita o destino que lhe traçaram.

Na mitologia Grega, trilho assim era a representação do férreo Destino governado pelas   sinistras Moiras.

Muito diferente era o Fio de Ariadne enquanto fio do Afeto libertário: fio puxado de um novelo inesgotável. Fio para bordar caminhos a serem inventados.

A água que corre é muito diferente do líquido contido e estagnado em recipiente limitado . Muitos dizem que vivemos “tempos líquidos”... O líquido é uma realidade volúvel, volátil, tal como a liquidez do capital e seu mercado.

Mas a água de que fala Manoel é fluxo de vida inaprisionável: ela é riqueza que não tem preço, e impulsiona os não conformados.

Os fluxos ou inventam caminhos onde possam avançar , ou então secam ( porém a secar resistem com a máxima  potência que podem).

Os fluxos correm entre as pedras, e nunca se submetem ao poder paralisante delas. Pois um fluxo é como o sangue que corre nas veias: se não avançar, perece.

Os fluxos somente podem ser guardados em espaços  abertos. E abertos se tornam a sociedade, a mente e o afeto se um fluxo de vida os atravessa.

Um fluxo é fluido, mas não é sem força ou volúvel; um fluxo  é firme, possui consistência, porém não é rígido. Pedras não  vencem o  avançar de um fluxo ,  enquanto viver a fonte da qual ele brota: “A cisterna contém, a fonte transborda”(Blake).

Os versos de Manoel também nos ajudam a distinguir entre “liberdade” e “libertário”. Ser libertário é pôr a liberdade em ação, pois liberdade nada é se não for ação : ação de educar, ação de amar, ação de aprender, ação de revolucionar, mesmo que sejam pequenas revoluções micropolíticas realizadas no aqui e agora, já.

O fascista sempre diz: “o Supremo quer cercear minha liberdade”, pois o fascista instrumentaliza a ideia de liberdade a seu favor, para assim pregar barbaridades. Mas nunca um fascista pode ser um libertário, pois ser libertário é exatamente ser antifascista. O contrário  de libertário é reacionário.   

“Liberdade” às vezes é apenas uma palavra vazia que une fascistas-militaristas e liberais reacionários, a caserna e o mercado.

Liberdade é um substantivo , porém ser libertário é fazer-se verbo que se conjuga em vários modos, tempos e pessoas. Pois não apenas o “eu” é pessoa, também são pessoas o tu, o ele...e sobretudo o nós enquanto pessoa plural que se diz em múltiplas e heterogêneas vozes.


(imagem: “Sherazade”, obra de Hilal Sami. Sherazade é a poeta-libertária que enfrentou e venceu o sinistro Sultão. Todas as  ideias que  libertam se agenciam num fluxo que se horizonta e avança  indo em frente, como libertários que se dão as mãos).






domingo, 23 de outubro de 2022

"As regras são sempre mal vistas por aqueles que fazem mau uso de sua liberdade. " (Kant)

 

Quando um criminoso comete um crime contra um cidadão, esse crime não é apenas contra esse cidadão específico, mas contra a sociedade inteira. É por isso que a punição de um crime mediante a lei não é vingança, mas justiça. Pois  a sociedade, por intermédio de seus agentes da justiça, deve agir  para defender a vítima e conter o criminoso. Protegendo a vítima , a sociedade protege a si mesma e a todos os que pautam sua conduta pela cidadania.

Se em um debate o  miliciano comete seus crimes à vista de todos, é um absurdo esperar que apenas a vítima desses crimes tome a inciativa de se defender, ficando os mediadores do debate apenas assistindo passivamente, supondo estarem em um lugar “neutro”. Mas diante de um crime não há neutralidade: ou se  combate  o crime ou se é conivente com ele.

 Todos sabem que o miliciano  vai aos debates não para debater, e sim para dar golpes baixos e dizer mentiras criminosas. A própria Globo tem um serviço informativo denunciando  as  fakes news, e o miliciano é o campeão disparado dessas denúncias.

A Globo deveria incluir em suas regras de debate uma regra ainda mais fundamental: uma regra que proteja as próprias regras. Fazendo isso, ela não está favorecendo Lula, e sim ao próprio debate enquanto instrumento da democracia.

Essa regra fundamental poderia ser formulada assim: o candidato que emitir falas  que são comprovadamente mentiras e fakes news será advertido  imediatamente pelos mediadores, dando direito ao candidato ofendido de se defender na hora. Vestindo a carapuça, o miliciano dirá , claro, que isso é censura, pois o criminoso sempre considera a regra uma censura às suas ações criminosas...Como diz Kant: "As regras são sempre mal vistas por aqueles que fazem mau uso de sua liberdade."

Creio que a OAB e a ABI deveriam orientar a Globo  a tomar essa decisão e, com coragem,  não deixar que o debate sirva à mentira.

Nas lutas esportivas, quando um lutador mal-intencionado dá um golpe baixo, na mesma hora o juiz o penaliza. Seria um absurdo esperar que aquele que sofre um golpe baixo solicite ao juiz que este consulte um júri externo para avaliar se aquele golpe sujo feito às vistas de todos foi ou não um golpe baixo!

A Globo tem instrumentos democráticos  para barrar o jogo sujo do miliciano. É só ela honrar e dar efetiva  credibilidade ao que ela mesma informa ser fake news em seus jornais e telejornais, para assim impedir que essas fakes sejam usadas como golpe sujo não só contra Lula, mas contra a própria democracia.

As regras não devem ser  apenas punitivas de comportamentos já feitos, elas também devem ser prescritivas , isto é, deixar claro que comportamentos ilícitos não serão tolerados. E quando o criminoso tem antecedentes largamente conhecidos, como é o caso do miliciano, não impedir que ele cometa novamente seus crimes ou é medo ou é conivência.





sábado, 22 de outubro de 2022

Epicteto e a edificação

 

A filosofia não é apenas teoria. A filosofia também é desejo de produção de um modo de vida ao  mesmo tempo não servil  e não autoritário , e só a mera teoria  não consegue isso.

Por isso, alguns filósofos enfatizam certas condutas a aprender. Assim é, por exemplo, a "exortação" nos estoicos , ou a “consolação” em Boécio, ou a "crítica" em Nietzsche, ou ainda a "fortaleza" em Espinosa.

Talvez tenhamos perdido essa dimensão existencial da filosofia , mais “clínica” e política do que teorética e acadêmica.

De todas as condutas  filosóficas a aprender para  fazer dela uma prática, talvez a mais necessária seja a “edificação”. É sobretudo em Epicteto que a edificação alcança sua máxima necessidade: quando se está perdido, “sem chão e sem teto” , a edificação é a mais necessária das artes a aprender, dela dependendo nossa sobrevivência em épocas de terror e ocaso, como foi aquela em que viveu Epicteto, muito parecida com os dias que correm.

A ideia de “edificação” vem da arte de construir. Em toda edificação, seja a de um “edifício” ou a de si próprio, deve-se tornar concreto um desejo para pôr de pé mais do que paredes.

Pois edificar não é fazer subir  muros apenas. Edificar é pôr de pé uma morada, um espaço ao mesmo tempo físico e afetivo, corpóreo e mental; um espaço onde se habita, se vive, se resiste, se congrega, se recebe os amigos, se divide o alimento, se descansa da batalha de ontem e se renovam as forças para a batalha de amanhã.

No deserto, edificam-se fortalezas. Nas variadas formas de batalhas, edificam-se fronts. E quando nos querem escravos, são Quilombos que precisamos construir, dentro e fora de nós.

Edificar é a arte de pôr de pé. Quando rastejar, curvar, prostrar , ajoelhar...são os comportamentos servilmente adaptados a esta sombria época, edificar-se é fazer-se morada sempre aberta onde a insubmissão pensante e atuante possa abrigar-se , manter-se viva e resistir. Para Epicteto, "edificação" é o verdadeiro nome da educação autêntica.

Um povo  somente se põe de pé  se o seu projeto maior for edificar creches, escolas e universidades, e não  bancos, quarteis e templos. 

 

“Erguer-se... como se ergue

a aurora do seio da noite.”

(Homero, Ilíada)




 

- A letra é do grande poeta Torquato Neto:



quinta-feira, 20 de outubro de 2022

ao Dia do Poeta

 


Certa vez, pediram ao poeta Manoel de Barros uma definição do que é a poesia. O poeta assim respondeu: “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. Nessa resposta, a palavra mais importante é o verbo “fazer”. Inclusive, a palavra “poesia” vem de um verbo grego  cujo sentido é exatamente “fazer, produzir”.

Quando se  substantiva a poesia apenas como rima e verso , perde-se a compreensão de que ela é também um verbo, uma ação, que pode produzir muitas outras coisas além de rimas e versos.

A poesia produz também percepções, pensares e sentidos outros que subvertem o “mesmal”  do “mundo acostumado” .

Manoel diz que o poeta produz versos porque , antes de escrever, “o poeta  se empoema”. Empoemar-se é um sentir que pensa, tornando-se potência criativa  que nasce de uma intensificação da vida.

A vida nos empoema quando ela mesma escreve sua poesia em nós. A vida produz poesia fazendo nascer na mente e no corpo ideias  e sensações que nos aumentam a vida .Pois a  vida é a primeira dos poetas, cujos poemas nós mesmos somos, ensina Espinosa.

Quem se empoema,   desegoifica-se  e se desabre:  não cabe mais dentro de si.  Alguns se empoemam  e dançam, outros se empoemam e pintam, outros se empoemam e cantam, outros se empoemam e  ensinam, outros se empoemam e aprendem,  outros se empoemam e se tornam generosos, corajosos, insubmissos,  libertários , enfim, intensificam o que neles é vivo ;  e com o máximo de força que podem , se esforçam para fazer outro mundo começando pelo lugar onde se está, mesmo que seja um lugar modesto, micropolítico: sala de aula, fábrica, rua, praça, residência, favela, vizinhança, janela, mundo virtual...

E primeiro que tudo, deve-se começar por fazer outro mundo dentro de si mesmo, na maneira de pensar e sentir, fazendo-se de novo página branca, sem roteiros prévios , para que nela a vida reescreva novos sentidos por descobrir , sentidos  que nos auxiliem a resistir à antipoesia dos homens cultuadores do ódio, da destruição e da morte.

É por isso que o importante naquela definição de poesia  também  é o “pode ser que seja”,  pois poesia não é   palavra de ordem , fórmula  ou dogma;  poesia  é ideia pensante  para ser sentida e reinventada, reinventando-nos , como potencialização da liberdade agenciada.

Como ensina Deleuze: “Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o filósofo é o poeta”.


( foto:  o poeta Manoel de Barros)



- Bethânia recita trecho do poema "Em defesa do poeta", da poeta portuguesa Natália Correia:








quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Espinosa: a trindade obscurantista

 

Espinosa dizia que há uma espécie de “trindade obscurantista” que reduz os homens e as sociedades ao pior deles mesmos, pondo em risco a pluralidade social , a educação e a democracia.

Essa trindade obscurantista é composta pelos  seguintes personagens ou tipos: o escravo, o tirano e o sacerdote.

O escravo é aquele que se deixa dominar pelas “paixões tristes”. O escravo  não apenas as sofre, o que é natural de acontecer tendo em vista a condição humana, porém ele se alimenta delas, como se isso preenchesse algum buraco em sua vida. O ódio, a ignorância, o medo, o ressentimento... são exemplos de paixões tristes.

Se uma serpente nos morde, é inevitável que em nós entre o veneno, cabendo-nos imediatamente buscar o antídoto. Mas a paixão triste pode fazer  do homem um dependente do veneno que o enfraquece , ao mesmo tempo maldizendo quem traz antídotos.

O tirano é quem se vale das paixões tristes para dominar os ressentidos e ignorantes. O  tirano canaliza as paixões tristes e as emprega a seu favor, inclusive politicamente. O tirano chega ao poder  não por amor à coisa pública, mas tirando proveito  das paixões tristes e as fazendo de arma contra os que ele estigmatiza como  inimigos.

 O sacerdote é aquele que passa a mão sobre a cabeça do escravo, bendizendo a ignorância .  Em geral, os sacerdotes são pequenos, e só ficam maiores do que os escravos os mantendo ajoelhados. O sacerdote prega que a tristeza é melhor do que a alegria, que o obedecer é melhor do que o  rebelar-se, que filosofia, ciência e arte são perigosas, “demoníacas”...

O tirano escraviza o corpo do escravo, o sacerdote escraviza a alma. “Sacerdote”, aqui, não é exatamente uma autoridade religiosa literal, mas um tipo  que se aplica  a várias espécies  de homens. Espinosa chama de poder teológico-político a essa aliança abominável  entre tiranos e sacerdotes, cuja força cresce quanto mais o escravo ignora sua escravidão.

O próprio Espinosa foi perseguido por essa aliança abominável. Tentaram queimar seus livros,  bani-lo e até assassiná-lo...

Mas nunca Espinosa se calou diante desses inimigos do pensamento livre e digno. Hoje, mais do que nunca, vale sua perseverante lição: não devemos   lamentar ou temer  por uma situação adversa, seja ela qual for; devemos buscar  compreender as causas que produziram tal situação , para assim  mudá-la com a máxima  potência que tivermos, nisso concentrando nossos esforços, unindo ideia e ação, não sem  o amor e a alegria por estarmos lutando do lado certo .

Esse concentrar de esforços libertários tem um nome: filosofia prática.


( o livro de Deleuze é apenas uma sugestão de leitura).



segunda-feira, 17 de outubro de 2022

as erínias e suas sombras

 

Os cúmplices do miliciano às vezes o chamam de “mito”. Eles não estão totalmente errados... Como ensina Jung, há mitos que expressam a luz, ao passo que outros mitos simbolizam as sombras.

O conhecimento, as artes, a ética...são as luzes que devem iluminar as palavras e ações humanas, enquanto que o ódio, a ignorância , a torpeza...são sombras que turvam a mente de alguns.

Zeus, Atena, As Graças...expressam a luz;  as Erínias , os Cíclopes...simbolizam as sombras. Quando usadas como instrumentos da luz, as palavras ensinam, educam, informam. Contudo, as sombras às vezes usam as  palavras e as deixam turvas e opacas, para assim colocá-las a serviço da enganação, da falsidade , da superstição , enfim, da mentira.

Quando as palavras são usadas como instrumentos das sombras, surge o que os filósofos gregos chamavam de “erística”. Essa palavra vem de “Erínias”, divindades trevosas que simbolizam o ódio e a violência.

 Enquanto a lógica é um instrumento da luz quando se precisa argumentar para se defender as  ideias, a erística é uma arma ardilosa das sombras quando os farsantes querem dar aparência de argumentação às suas mentiras.

Os erísticos aparentam debater, quando na verdade eles dissimulam  seu ódio e ignorância empregando as palavras. O erístico finge argumentar, quando na verdade sua única intenção é ofender. Por essa razão, é impossível debater com um erístico, pois debater é supor que o outro com o qual se debate tem ideias a defender.

Mas o erístico não tem ideias, apenas rancor e ódio às ideias. Sua estratégia é sempre tentar atingir o outro do ponto de vista pessoal. Seu objetivo não é defender ideias, mas rebaixar o discurso, destruir o outro e enganar o público incauto.

Na democracia há debates. Porém, os  erísticos se valem dos debates para espalhar suas não democráticas palavras de escuridão .

Qual a estratégia argumentativa para a luz enfrentar as sombras? As sombras são previsíveis:  elas são sempre sombras e nunca mudam. Então, é preciso que o Lula prepare uma fala que não deixe brecha para a sombra.

É impossível dialogar ou debater com as trevas. Lula precisa preparar previamente as respostas acerca dos assuntos dos quais o genocida sempre o acusa, de tal maneira que Lula responda não ao genocida, mas aos indecisos  que precisam ser esclarecidos .

Lula não deve interagir com o genocida, nem deve ouvi-lo. Lula deve ouvir apenas a si mesmo , e, com firmeza, dirigir-se apenas à câmera. Para a luz vencer as sombras, a luz deve afirmar a si mesma e colocar a sombra em seu devido lugar: as trevas.

Os afetos também são fundamentais. Mas os afetos devem nascer da ação firme das ideias, nunca  de reações a ataques malevolamente calculados pelas sombras.

A única maneira de lutarmos argumentativamente  contra a palavra mentirosa é empregando a palavra verdadeira. A palavra verdadeira dever ser, ao mesmo tempo, escudo que nos protege e instrumento que destrua as sombras mentirosas.


( foto: Lula no Complexo do Alemão, comunidade ofendida pelo miliciano no debate).



sábado, 15 de outubro de 2022

ao Dia das Professoras e Professores

 

Neste Dia dos Professores, minha homenagem aos dois mestres que primeiro me alfabetizaram:

Eu tinha por volta de seis anos, ainda não estava na escola. Queria muito  aprender a ler porque um grande amigo meu , o Edinho, lia para mim as histórias dos gibis. Edinho tinha dez anos ,  era  apaixonado por gibis. Ele era o irmão mais velho que não tive (sou primogênito).

Então, minha mãe me colocou  para ter aulas particulares de alfabetização com uma  vizinha, a querida professora Maria. Lembro até hoje: ela morava numa casa com um imenso quintal. No meio do quintal havia um grande viveiro aberto  com passarinhos  cantando o tempo todo.

Havia especialmente um  que me marcou profundamente. Ele não era o maior de todos fisicamente , porém  seu canto era muito singular e potente . Diferente também sua cor: era um passarinho azul.

A mesa da professora ficava perto da janela. Então, na minha imaginação eu ali tinha dois professores: a que com cuidado e atenção me ensinava as letras da língua, e o passarinho que me ensinava a poesia de seu canto livre.  Eu amava ser aluno dos dois.

A língua que a professora me ensinava eu ainda não conseguia ler, porém a língua do passarinho parecia que já estava dentro de mim.

Às vezes, enquanto a professora tentava me alfabetizar na língua das letras,  na língua do passarinho eu  até já me arriscava a falar, quando então eu assobiava no meio da aula. A professora olhava para mim e sorria. Eu voltava para  casa assobiando a lição poética que aprendi do mestre  passarinho azul.

Quanto à língua das letras, eu já sabia que “b” + “a” formava “ba”, e que “l” + “a” era “la”, mas eu não conseguia ler o todo que elas formavam quando se juntavam  na palavra “bala”. Eu ia das letras  às sílabas, porém não conseguia passar das sílabas à palavra. Via apenas as partes, não via o todo, e o todo é sempre maior do que suas partes.

 À noite antes de dormir, eu abria um gibi e  ficava olhando as imagens e identificando as letras e sílabas. Até que houve uma noite em que, de repente, enquanto assobiava inocentemente,  vi a palavra “bala”.

Foi como um raio que  a palavra iluminou minha mente. Ela sempre estivera ali, eu é que não a via. Não que me faltassem os olhos do corpo, eram outros olhos que ainda não estavam abertos em mim .

Pulei de uma palavra à outra, depois às frases, e destas à história inteira, para depois ficar pensando como ela foi criada. E achei que criar tinha relação com a lição do mestre passarinho azul...

 A querida professora me ensinou a gramática, mas creio ter sido o passarinho que me ensinou a ler mais do que palavras, e é o canto dele que ainda ouço em todo libertário, como Cláudio Ulpiano, Espinosa e  Manoel de Barros,  que assim ensina :“Sei falar a língua dos pássaros: é só cantar.”







quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Ao Dia das Crianças e ao devir-criança que precisamos (re)criar todos os dias

 

É por volta dos seis  anos que a criança começa a levantar questões: “o que é vida?”, “o que é o tempo?”, “de onde vim?” , “para onde vou?”... Nessa idade, toda criança é uma filósofa.

 Antes, quando aprendeu a andar, a pequena criança pôs-se de pé vencendo a gravidade . Agora, quando começa  aprender a pensar, a  criança também quer   levantar-se e pôr-se de pé, exercendo a compreensão de si e do mundo.

 É de pé que se podem ver  horizontes, tanto os externos quanto os internos : pôr-se de pé  é “horizontar-se” ,  ensina o poeta Manoel de Barros.

Esse impulso para levantar-se é a força da vida se expressando na criança; e a educação nada é se não for um meio para manter esse impulso ainda mais vivo e potente, pois é na singularidade da criança que também se ergue a humanidade, por mais que tiranos a queiram de joelhos.

A criança levanta questões para levantar-se. E mais importante do que as respostas que possamos dar, mais importante é manter vivo esse impulso de questionar , para que a criança, crescendo por fora e por dentro, possa se levantar mais alto do que a gente mesmo que a ajuda a levantar-se : para que o futuro que há nelas também   nos erga.

Quando levanta questões, a criança não quer que a gente a coloque nos nossos ombros  para torná-la dependente  das  nossas pernas adultas cheias de certezas; ela quer se levantar com as próprias pernas, mesmo que seja para depois sair correndo brincativamente numa  linha de fuga lúdica.

E se nossas pernas quiserem alcançar aonde vão as crianças, é preciso criar em nós também um devir-criança.  Pois a própria criança nos ensina que pensar não é reproduzir ou obedecer, pensar é erguer, erguendo-se. E o tamanho conquistado será da amplitude das questões levantadas.

Segundo  o poeta  Fernando Pessoa,   o que nos põe de pé não são pés e pernas, o que nos põe de pé é a coluna  cervical , cujo formato lembra exatamente um ponto de interrogação [? ].  Os pensamentos e quereres nascem na cabeça, porém não chegariam às mãos e pernas, transformando-se em ação sobre o mundo,  se não fosse pela coluna cervical  que transforma pensamentos e quereres em impulso que move o corpo.

A coluna cervical une a teoria à prática, o sonho à realidade, a utopia à efetividade, enfim, o que apenas pensamos internamente  ao que precisa ser feito  externamente e no mundo.

Certa vez , perguntaram ao poeta Sérgio Sampaio o que ele achava do envelhecer e do passar dos anos. O poeta respondeu mais ou menos o seguinte: “Cada ano que passa é um garoto novo que o tempo junta aos outros garotos que ele em mim já criou. Hoje tenho 40 anos : são 40 garotos que sou. Cada um deles me recriou”.

 

( imagem: “Poesia” / Haroldo de Campos)











domingo, 9 de outubro de 2022

o tempo da educação é o mais cedo possível

 

Esta ideia se encontra esboçada no filósofo e poeta Emerson ( que aqui interpreto): a educação autêntica, aquela que realmente muda as vidas individualmente  e prepara um futuro  social digno, essa educação emancipadora tem que começar sempre o mais cedo possível. Mas qual é esse “mais cedo”?

Em relação ao adulto, o jovem está nesse tempo mais cedo, pois o jovem  vem antes do adulto. Mas a criança vem antes do jovem, pois ela  vive num tempo ainda mais cedo.

O que caracteriza o “mais cedo” é que ele é um tempo cujo sentido é a abertura ao futuro. Assim, a criança é pura abertura ao futuro, mais do que o jovem. Por isso, a criança é pura potencialidade, assim como a semente da qual virá o fruto.

Segundo Emerson, porém, existe ainda uma realidade anterior à criança, um “mais cedo” ainda mais cedo. E é nesse tempo mais cedo de todos que a educação libertária precisa começar.

Mas Emerson não está se referindo à vida no interior do útero, pois o tempo mais cedo fundamental vem antes até mesmo  dessa existência uterina.

Contudo, esse tempo mais cedo originário  não é uma vida anterior no sentido de outras vidas vividas num além religioso ou metafísico. Pois esse “mais  cedo” referido pelo filósofo é a realidade social. A sociedade é anterior ao indivíduo, e é portanto nela que é preciso começar a educação.

 Nesse sentido, a educação é a mais elevada, potente e necessária das práticas políticas e éticas, pois  educar não é apenas  tornar o indivíduo um empreendedor-consumidor econômico, tampouco um mero adaptado/conformado  da "Ordem" estabelecida, e sim um agente-cidadão transformador de sua realidade social e política.

No adulto, o jovem que ele foi ainda está dentro dele e o influencia . E o jovem, por sua vez,  ainda traz dentro de si a criança que também o influencia ( como mostra a psicanálise).

Se a criança sofreu traumas , estes ainda persistirão , como sintoma, no comportamento do jovem. Contudo, o jovem pode procurar ajuda,  tomar consciência, agir sobre si e superar esses traumas do passado que limitam sua vida presente.

 A sociedade vem antes da criança, imprime-se nela  e influencia seu  ser futuro.  Uma sociedade injusta, desigual, autoritária e individualista imprime traumas na criança que ela sozinha não tem como vencer. Traumas que roubam seu futuro, como o trauma da violência  e da miséria, tanto as misérias e violências  materiais como  as simbólicas.

Assim, a educação autêntica precisa começar nessa realidade social “ o mais cedo possível”, inclusive detectar seus efeitos limitadores na criança, pois a realidade social influencia decisivamente   o desenvolvimento psicológico, afetivo, social e  cognitivo da criança.

É preciso agir nesse “mais cedo”, aqui e agora,  para  que não seja “tarde demais” a construção de um futuro digno.




sábado, 8 de outubro de 2022

Espinosa: olhos, coração e mãos das ideias

 

Para Espinosa, as ideias que realmente ensinam não são meras realidades abstratas, tampouco são apenas teoria. As  Ideias vitais são como seres vivos: elas possuem olhos, coração e mãos.

Os olhos das Ideias servem  para abrir mais os nossos, quando precisamos ver mais longe ; o coração das Ideias transfunde sangue para o nosso, quando é  necessário termos mais sangue corajoso correndo em nossas veias; as mãos das Ideias conduzem a nossa, quando o que escrevemos não é apenas palavras no papel.

Em Espinosa, as Ideias não existem no “Além”, como em Platão, elas vivem em nós como  potência para  pensar este mundo onde vivemos, aqui e agora.

Mesmo  que em torno hajam  trevas, as Ideias nunca fiquem cegas, uma vez que vem delas a luz que seus olhos irradiam , como um farol.

Quando as Ideias estendem suas mãos para nós e nos conduzem, somos nós mesmos que,  sobre nossas próprias pernas, nos conduzimos eticamente sobre o mundo.

 Ideias que  conduzem não  teorizam caminhos  planejados apenas  no papel , Ideias que conduzem são elas mesmas caminhos : elas  sabem abri-los mesmo em desertos ou transpassando rochas.

E aquele a quem as Ideias conduzem pelas mãos, sempre oferece sua outra mão para conduzir também a quem ainda não sabe o caminho, de tal maneira que quem é conduzido pelas Ideias nunca caminha sozinho, e jamais solta a mão daqueles aos quais estendeu a sua.


(Este livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura. Para ajudá-la em seu trabalho de cuidados  clínicos, consigo e com os outros, Nise dizia  ter aprendido a seguinte lição com Bachelard e Espinosa: “nossa felicidade e saúde mental depende mais daquilo que fazemos com as mãos do que daquilo que teorizamos com o cérebro”. Mãos que alimentam, mãos que escrevem lições no quadro numa sala de aula, mãos  que pintam, que plantam , que bordam, que partilham, que doam...São mãos mais saudáveis e felizes do que aquelas que apenas sabem apontar armas e contar dinheiro)




quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Pequena Homenagem a Francisco e seu dia ( 4 de outubro)

 

Ouvi certa vez a seguinte história de autoria popular ( que aqui parafraseio e interpreto): de um lado estava São Francisco, do outro o Diabo. Separando a ambos ,  um muro; e em cima do muro estava  alguém que se dizia “Neutro”.

 Francisco  disse ao “Neutro”: “- Venha para este lado, aqui há luz e  empatia  pela vida do outro.”

Do   lado oposto do muro , porém, o Diabo permanecia calado.

Vendo  o “Neutro” ainda indeciso e  parado, Francisco  prosseguia : “- Venha se juntar a nós , Buda também está aqui; também estão Lao-Tsé, Confúcio,  Orixás , Tupã, Mães-de-Santo,  Pajés ... Bem como todos aqueles que, tendo ou não religião,  agiram para defender e libertar  os oprimidos e injustiçados.”

Estranhamente, o Diabo seguia mudo, ele que gosta tanto de se vangloriar...

Então, Francisco levantou a cabeça , olhou sobre o muro e indagou ao que reinava na treva  do outro lado : “- Por que você   permanece  calado?”

“- É que esse muro onde o ‘Neutro’ está  instalado  pertence a mim”, disse o Diabo.

Do certo lado do muro, o poeta Manoel de Barros assim poetizou: “São Francisco monumentou os passarinhos.”


 

“De pés descalços, ele dançou diante do Papa.”(Deleuze)

 

"O que é inferno? Afirmo que é o sofrimento de já não poder amar.”(Dostoiévski)

 

(obs: A postagem se refere ao personagem social-popular Francisco, um personagem muito presente na  literatura de  cordel do nosso Nordeste. Não é tratado o tema do ponto de vista de uma religião. Inclusive , dei a entender que do lado do muro onde está o personagem Francisco também podem estar agnósticos e até os sem religião. A foto que acompanha a postagem  mostra a escultura “Cristo sem teto”, obra do escultor Timothy Schmalz; a outra imagem é a do padre Júlio Lancelloti , que foi parado recentemente pela polícia durante evento que o padre fazia para auxiliar  os moradores de rua e sem teto)



 





Trecho do filme "Irmão Sol, Irmã Lua", de Franco Zeffirelli:




terça-feira, 4 de outubro de 2022

os cactos do Nordeste

 

Pequena Homenagem ao Povo do Nordeste

 

Com a chegada da primavera, muito se fala, com razão, das flores. Rosas, girassóis, crisântemos, margaridas...Essas e outras flores já foram homenageadas em poemas , músicas e pinturas.

Mas pouco se fala das flores que o cacto também sabe produzir. Considero essa omissão  uma injustiça com esse artista da resistência. Na dele, sem chamar a atenção ou fazer propaganda de si, o cacto é capaz de atos que trazem a beleza da generosidade.

Assim age esse perseverante resistente: o cacto é a planta que possui a maior raiz. Em alguns cactos,  a extensão de sua raiz chega a nove ou dez vezes o tamanho do corpo do cacto que vemos à superfície do chão!

Quem mede o cacto apenas pela sua parte visível, e pensa que a parte que vê é todo o ser do cacto, por certo ignora o que o cacto é capaz de fazer. O cacto cria imensas raízes para sondar o subsolo , não se deixando vencer pela aridez que o cerca. As raízes do cacto tateiam procurando veios d’água metros abaixo da paisagem seca. Ele persevera procurando no coração da Mãe Terra a água que o Céu lhe nega.

Quando encontra a água, o cacto anuncia sua descoberta brotando flores: em pleno árido , ele inaugura uma primavera. Então, ele sorve o líquido e se intumesce , de água fresca ficando grávido. Basta um pequeno furo para a água jorrar matando a sede dos necessitados.

Foram os cactos do sertão nordestino que, no passado, não deixaram morrer de sede a rebeldia de Lampião e seu cangaço ; e a flor que Maria Bonita punha no cabelo também floresceu de um cacto : o mandacaru, símbolo da força do povo nordestino.

O cacto mandacaru expressa a resistência da vida, uma resistência que também se faz com poesia e beleza, apesar da aridez que a cerca. O mandacaru matou a sede de Lampião e deixou a Maria ainda mais Bonita.

Nessa época do ano, lá no sertão nordestino , os mandacarus anunciam que já vão começar a florir.

 

  

“Quando não pode ser cristal, a poesia vale pelo que tem de cacto.”(João Cabral de Melo Neto, grande poeta nordestino)

 

 

 

( imagem: “flor do mandacaru)










segunda-feira, 3 de outubro de 2022

afeto, sentimento e política

As pesquisas eleitorais são tentativas de dar previsibilidade a  uma realidade  que não é totalmente racionalizável, que é a realidade  dos sentimentos, sobretudo aqueles que são irracionais, volúveis , imediatistas, reativos. Ou seja, esses sentimentos não são previsíveis, mas podem ser manipulados por aproveitadores.

Segundo Espinosa, o campo da política se apoia mais nos afetos do que nas ideias adequadas. Todos os afetos nascem de relações. Porém, há dois tipos básicos de relações ou encontros , dos quais nascem dois tipos opostos de afetos.

 Há os bons e os maus encontros. Os bons encontros são relações que favorecem a conquista de autonomia por  parte daqueles  que vivem essas relações. Os bons encontros geram afetos de alegria,  amor,  amizade,  justiça,  empatia , solidariedade. Esses afetos aumentam a potência de pensar, agir e sentir. Os maus encontros, ao contrário, geram tristeza, ódio, medo, ignorância, ressentimento, enfim, sentimentos que diminuem a capacidade de agir e pensar das pessoas.

A democracia é o sistema de relações que visam produzir afetos que autonomizam as pessoas, são afetos que precisam ser cultivados, educados, emancipados, enfim, eles requerem perseverante  tempo.

As diversas formas de tirania fazem o oposto: o tirano fomenta o medo, o ódio e  a superstição, sempre visando um controle imediato, irrefletido, impulsivo...Sempre ajudado pela servidão voluntária.

A extrema-direita usa e explora a imediatidade dos afetos reativos, sobretudo o medo e o ódio. A democracia aposta na educação política do povo, o que implica no cultivo de afetos que demandam tempo e  reflexão.

Os partidos democráticos não são imediatistas, eles visam  um projeto de sociedade a ser construído com educação, cultura, arte. Já o fascismo é imediatista : ele se vale das eleições como expediente para minar a própria democracia em sua base.

Quanto mais perto da data das eleições, mais o fascismo põe em ação suas máquinas financeiras, midiáticas, teológico-políticas, milicianas... É uma máquina infernal que parasita a democracia em conluio com a mídia corporativista e o sistema financeiro.

Na véspera e dia das eleições essa máquina funcionou a todo vapor: fake news foram enviadas em massa sem que o TSE agisse e a mídia corporativa denunciasse, enquanto  as igrejas do poder teológico-político abriram no domingo pela manhã  para fazer campanha abertamente para o fascista. 

Enfim, nada disso as pesquisas conseguem prever e antecipar, já que o que aconteceu na véspera  das eleições  foi resultado da ação dessa máquina fascista teológico-política despertando sentimentos  irracionais de rebanho.

Mas não devemos nos esquecer que Lula se saiu vitorioso! Arquimedes dizia: “deem-me um ponto firme que , apoiando uma alavanca nele, consigo mover uma rocha”.

É preciso fazer dessa vitória de Lula o nosso ponto de Arquimedes, e de alavanca todas as forças democráticas que , unidas, ainda podem tirar  do nosso caminho  no segundo turno a rocha pesada e  soturna  do fascismo teológico-político. Essa rocha  se mostrou mais pesada do que imaginávamos, mas não é irremovível.



______


- Segue mensagem da campanha de Lula ( via Paulo Vasconcelos):

"Bom dia com muito boas notícias ☀️


1. PT saiu de 54 pra 80 deputados federais.


2. PSOL elegeu a maior bancada da sua história, com 14 deputados federais.


3. São Paulo elegeu Erica Hilton; Minas Gerais elegeu Duda Salabert, duas mulheres trans novas deputadas federais.


4. Fabio Felix do PSOL foi o mais votado para a câmara legislativa do DF.


5. Somente em SP não se elegeram alguns grandes expoentes da direita:

Joice Hasselman

Janaína Pascoal

Cel. Telhada

Fernando Holiday

Sérgio Camargo

Douglas Garcia

Nise Yamaguchi

Adriles 

Eduardo Cunha

Felipe Folgosi

Cristiana Brasil


6. O irmão de Michele Bolsonaro foi derrotado no DF.


7. Fabricio Queiroz NÃO se elegeu no Rio.


8. Guilherme Boulos teve mais de 1 milhão de votos em São Paulo e agora vai ocupar Brasília.


O jogo está sendo jogado. Estamos com seis milhões de votos na frente para Presidente. Seis milhões! 


Arregaçar as mangas, ousar lutar, vencer, montar um ministério porreta, fazer um excelente governo, recolocar o Brasil onde ele merece estar e virar este jogo.


Nunca foi fácil para quem pensa, age e sonha como nós. 


Nunca!"