quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

livro sobre manoel de barros : poesia pode ser que seja fazer outro mundo



(trecho da Apresentação do livro)
O livro está organizado em duas partes complementares: a primeira nos faz conhecer um Manoel Pensador, enquanto que a segunda parte reúne artigos diferentes entre si, cuja unidade está na riqueza com a qual a obra do poeta dialoga com as mais diferentes artes. Dito bem simples, as duas partes falam da ideia e da imagem, do pensamento e do corpo. Ao modo de Espinosa, podemos ainda acrescentar: o que em Manoel nos faz pensar é o mesmo que nos faz sentir, visto de uma perspectiva diferente; e o   que nele nos faz sentir é o mesmo que nos faz pensar, visto de uma perspectiva diferente. É a junção dessas duas perspectivas que faz de Manoel um pop’filósofo.
A Primeira Parte busca no poeta o conceito ainda em rascunho, não mentado, nascido da artesania de Manoel: Uma sabedoria que não vem em tomos. Abrindo essa Primeira Parte se encontra o artigo de Samarone Marinho, O cotidiano primordial de Manoel de Barros. Samarone nos mostra, entre outras coisas, que a poética de Manoel se apoia em uma matéria: o cotidiano. Não o cotidiano da vida acostumada, “mesmal”. O cotidiano do poeta é um espaço de transfiguração e transvisão, no qual se descobre o valor do inútil e das desimportâncias. É nesse lugar, que também é um lugar de linguagem, que o poeta celebra as grandezas do ínfimo. O pensar do poeta não começa no Céu ou nas Abstrações, ele começa no cotidiano. E quem faz do pensar o seu cotidiano nunca mais pensa acostumado.
  No artigo seguinte, Geopoética de Manoel de Barros, em dois movimentos e um adagietto , o filósofo Paulo Oneto descobre que o chão de Manoel não é o da pedra nua e fria, mas o da terra úmida, íntima do fluxo das águas, águas estas que animam o chão do pantanal, fazendo-o território liso afim aos nômades, como Espinosa , Deleuze, Nietzsche e , antes de tudo, ao próprio Paulo, que musica esse heterogêneo fluxo, essa heterogênese. Tal geografia dos fluxos constitui uma música dos elementos que o poeta reúne, sem totalizá-los ou sistematizá-los. Por isso, a imagem escolhida pelo autor: os movimentos ou andamentos musicais agenciados ao poeta-andaleço. Música naturante, barroca, barriana.
No terceiro artigo, Manoel de Barros e a Desfilosofia, rascunho uma desfilosofia inspirada na poética de Manoel. A desfilosofia não é uma filosofia poética, tampouco uma poesia filosófica. A desfilosofia é filosofia, porém aberta à sua origem não conceitual, origem essa somente alcançável pela conexão com o prefixo “des”, aqui funcionando como um “agenciador conceitual” extraído da Oficina do poeta.
Fechando a Primeira Parte, no artigo De Viena ao Pantanal – o (in)expresso do pensamento no sentido do poético , o filósofo Antônio Jardim nos apresenta uma rica aproximação entre o filósofo Wittgenstein , um dos mais importantes pensadores da linguagem, e o nosso poeta. No diálogo do filósofo com o poeta, cerzido por Jardim,o tema não poderia ser outro: o que é o sentido?
A Segunda Parte reúne artigos cujo fio condutor é um afloramento de falas que a poética de Manoel suscita e provoca. São ensaios, didáticas da invenção manoelinas, formas em rascunho de ideias, perceptos e sensações, nascidos do agenciamento da poética de Manoel com áreas diversas, unidas ao poeta pelo olhar singular de cada autor.
Para não estragar a surpresa que tais ensaios/didáticas envolvem, deixaremos ao leitor a descoberta a ser feita no encontro com as despalavras da professora e pesquisadora Ieda Tucherman (Devires e revires e de corpos e palavras ou do supremo valor da inutilidade), da bailarina Mariana Hilgert (Ensaio poético-imagético ou um porta-retrato ), do poeta e filósofo Mário Bruno (Passarinhos de uma demolição) e do cineasta Gabraz Sanna (Pequena abertura para o deserto ).
Como Conclusão do livro, o pesquisador Luiz Henrique Barbosa apresenta um muito oportuno estudo cujo título nos lembra a singularidade incomparável do poeta: O não lugar ocupado pela poesia de Manoel de Barros na literatura brasileira.







sumário do livro : manoel de barros - a poética do deslimite







Inventar aumenta o mundo.
Manoel de Barros


O pensar não é do Ocidente ( Razão) e nem do Oriente (Mística).

Avicenna


SUMÁRIO

LISTA DE ABREVIATURAS , 5

INTRODUÇÃO , 7

- PRIMEIRA PARTE: A EXPERIÊNCIA ESTÉTICA DO DESLIMITE , 18

1. A Expulsão do Poeta da República da Razão: o problema da Mimese , 18             
A quem deve pertencer a coroa do reino da linguagem? / A Sensação não cabe em
uma forma / A linguagem como espelho do Real / O problema da Diferença / A
razão como cocheiro / Arte egípcia X arte grega

2- Estética da Forma e Estética do Deslimite, 38
Experiência e Experimentação / Espírito Clássico e Espírito Romântico /
Geofilosofia / Caos-Germe: a luta contra os clichês / “Inventar aumenta o
mundo”

- SEGUNDA PARTE : UMA DIDÁTICA DA INVENÇÃO , 60

1- “Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada” , 60
O imperceptível / Um sujeito larvar / Espaços lisos / Rebeldias

2- Ninguém pode “passar régua” nos Territórios Existenciais , 66
Da subjetividade / Da necessidade de aprender a desaprender/ Uma fonte que se
alimenta de escuros

TERCEIRA PARTE: O DESLIMITE DA NATUREZA , 72

1- Desformar a natureza , 72
O instinto lingüístico / O deslimite / Ordinário, extraordinário

2- Ignorãças , 80
Individuação e poesia / “Nadifúndios”/ A arte de ser com as coisas/ Devir,
Repetição e Diferença / A arte de ser Outro / Inventar comportamento

3-Olhos de descobrir , 101
Transver o mundo / Devir-Criança / O que pode um corpo?

QUARTA PARTE : O DESLIMITE DA PALAVRA , 111

1-Da Pragmática , 111
A Língua / Representação e expressão / A quarta dimensão da linguagem: o sentido

2- O agramatical , 120
Um devir-outro da língua / Empoemar as palavras / O delírio é uma sensatez

3- O reino da despalavra , 127
O afeto / Desarrumar a cartilha, errar a língua

CONCLUSÃO: O VOO INTERROMPIDO POR UM PONTO , 134


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS , 144

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

fim de ano



Limpar a casa: retirar a poeira acumulada que sufocava de cinza as cores. Lustrar os vidros da janela : até de novo poder atravessar  luz por ela. Reorganizar as distâncias entre as coisas : para que entre elas haja livre espaço para o correr de crianças. Reabrir a porta que mantivemos trancada: para que no coração uma linha de fuga também se refaça. Limpar tudo ao som da música, cantando junto, para que na mente também se opere a faxina. Forrar a mesa  com uma toalha multicolorida:  sobre ela colocar   pão , frutas e poesia . Depois de tudo revitalizado, reentrarmos como alguém que nos fizesse uma primeira visita.
                                                                                                                           
“É a minha própria casa,
mas creio que vim fazer uma visita a alguém.” (Maria Gabriela Llansol)       

“Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. ” (Manoel de Barros)

( imagem: “Porta e janela abertas”, de Matisse)









segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

o tempo-será...


Em toda  passagem de ano comemoramos um ano novo: um ano velho  vai, um ano novo vem. Mas o ano novo não é um começo radical : ele é a continuidade de um mesmo tempo. É por isso que o ano novo é contado e recebe um número : 2020 é um ano novo de um mesmo tempo que é numerado, então, com um ano a mais. 2020 é um novo ano de um mesmo tempo, e não um tempo novo. 2020 é anunciado como ano  novo, mas  o tempo que ele traz  em parte ainda está refém, infelizmente, de uma mentalidade retrógrada  , nostálgica de um passado de trevas.
Entre os gregos o tempo era vivido de outra maneira. O tempo não era concebido de forma linear e numérica. Os gregos viviam o tempo como repetição cíclica. Dois eventos determinam o ciclo do tempo: o nascimento e a morte, a criação e a destruição. O tempo nasce, cresce e morre, como tudo o que é vivo. Porém, o tempo renasce, vencendo sua própria morte.  O tempo que renasce é um tempo novo que nada tem a ver com o que morreu. Esse tempo novo  não é o desenvolvimento de um tempo antigo. Por isso  nenhuma data ou número pode determinar esse tempo  renascido outro. É no tempo novo, e não no tempo morrido, que o tempo mostra sua verdadeira face: deixar para trás tudo o que está morto.
Quantos tempos novos já existiram? Impossível numerar... Infinitas vezes já houve um tempo novo. Apesar disso, sempre haverá tempo novo, a despeito dos homens conservadores do antigo.  É para  criar-se novo que o tempo se destrói como antigo. Repetindo-se, o tempo  sempre retorna, diferente. O tempo não é eterno: eterna é a repetição através da qual o tempo retorna, novo.

“Só podemos destruir
sendo criadores."
(Nietzsche)








sábado, 28 de dezembro de 2019

auroras...


“O que é verdadeiramente novo nunca vira sucata” , ensina  Manoel de Barros . “Sucata”, segundo o poeta, é tudo aquilo que a “velhez venceu”. “Velhez” não é uma vida perto do fim , “velhez” é uma vida que se perdeu de seu “minadouro”, de seu embrião. Se 2019 está virando sucata, é porque ele nunca foi verdadeiramente o tempo novo. 2020 é anunciado como o tempo  novo, porém ele igualmente  virará sucata... Então onde achar   o tempo  “verdadeiramente novo”  que resiste a  virar sucata  ? Onde encontrar  tal “minadouro”  para nos umbilicarmos  a ele e não virarmos  sucata também?
À meia-noite de 31 de dezembro fogos de artifício explodem no céu. Suas cores e luzes atraem olhos esperançosos que se erguem até eles com pedidos e promessas.  Porém os fogos de artifício não duram muito: logo viram fumaça...O dia novo somente nasce mesmo  com as luzes e  cores trazidas pela   perseverante aurora, que sempre vem para nos lembrar que todo dia  é novo,  e não apenas o 1º de janeiro!
Fazendo minhas as palavras do querido poeta,  que não nos falte a força criativa  para  (re)inventar auroras que nos ajudem a vencer  toda  forma de treva, sobretudo a que ameaça   nossos direitos e dignidade, sucateando nosso futuro antes mesmo que este aconteça. Que a visão de uma aurora possa nos inspirar a olhar também para dentro, para criar   também em nós , individual  e coletivamente,   o alvorecer de recomeços.





quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

manoel : andar ao lado...


“Odeio tanto seguir como ser seguido: para me acompanhar aonde vou, é preciso aprender a amar andar ao lado. ” (Nietzsche)

Não há nenhuma virtude no mero seguir. Quem segue ignora o caminho, e não sabe se ele vai dar num lugar melhor ou no abismo. Neste último caso, a verdade só é descoberta quando já se está caindo.... Há menos virtude ainda em querer ser seguido: tal pretensão às vezes nada mais é do que a vaidade de ter atrás de si muitos, para assim não se perder sozinho neste mundo sem rumo. O importante não é o que está no fim do caminho, o importante são os meios   que possibilitam o andar ao lado e avançar: cada qual sobre suas próprias pernas, ora aprendendo, ora ensinando, sem comparamentos , no mesmo sentido indo.

 “Não preciso do fim para chegar: a estrada põe sentido em mim. ” (Manoel de Barros). 



terça-feira, 24 de dezembro de 2019

o transver...


Quando eu era criança, bem criança, no natal meus pais costumavam me dar carrinhos de presente. Eu recebia tais brinquedos e os guardava, agradecido. Porém  eu gostava mesmo era de brincar com as próprias coisas, retirando delas os sentidos acostumados . Por exemplo, gostava de pegar o chinelo de meu pai e fazer de carrinho: eu segurava o chinelo  com as mãos e o fazia correr pelo chão, inventando também para ele uma estrada, um caminho. Como realidade lúdica, brincativamente inventada,  o carrinho estava mais  em meus olhos do que no chinelo.  Nunca me fizeram falta os brinquedos, enquanto eu soube brincar com o sentido.
Brincar com o carrinho de plástico era bom, porém brincar com o chinelo  subvertido  carrinho era mais do que brincar: era ato poético-político, ainda que inocente,  para subverter o sentido do que está dado. Depois de crescido,  (re)descobri em Manoel de Barros essa mesma arte-peraltagem transformada em  exercício poético : para assim   manter vivo um devir-criança como antídoto contra o  olhar resignado.

“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo” (Manoel de Barros)



sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

para onde aponta a bússola

Segundo Nietzsche, há filosofias do “sol nascente” : nestas filosofias,  o pensamento  é como o sol que nasce e ilumina a natureza que a noite obscura ocultava. As filosofias do sol nascente coincidem com a própria origem da filosofia:  assim foi a filosofia  dos pré-socráticos, como um sol nascente a revelar a natureza, a “physis”. Mas  existem também filosofias do “sol poente”, filosofias do ocaso: elas coincidem com a filosofia europeia, na qual este mundo em que vivemos hoje foi gerado. Essas filosofias substituíram a luz nascente da physis poética , tal como existia em Tales ou Heráclito,  pela luz poente da razão objetivista  , sendo o niilismo a sombra que acompanha essa luz pragmática e despoetizada.
Mas há ainda , segundo Nietzsche, a “filosofia dos hiperbóreos”. Entre os gregos , “bóreo” era o nome do vento mitológico conhecido como “vento do norte”. Esse vento por vezes também era chamado de “vento da morte” ( nos vários sentidos que a morte tem). Assim, o hiperbóreo era um lugar que ficava  além do que podia alcançar o vento bóreo, o vento da morte ( em grego, o prefixo “hiper” também significa: “o que está em lugar superior”). Os gregos diziam que para as  regiões hiperbóreas iam alguns deuses, como Apolo, quando queriam recuperar as forças. A região hiperbórea não é exatamente o norte da Europa,  e sim o limiar  desta . Na verdade não é para o norte , e sim para o hiperbóreo, o lugar para o qual toda bússola aponta. Mas  o que mais caracteriza a região hiperbórea da terra é que nela o sol  jamais morre : ele está sempre no horizonte e corre sobre as montanhas, horizontalmente. Na região hiperbórea é sempre amanhecer...   “Hiperbóreos”,  assim deveriam ser  os pensadores  do futuro, acreditava Nietzsche,    para assim vencerem o vento da morte que sopra contra  o pensamento e a diversidade, e   não se deixarem capturar pelo  niilismo  redutor da vida  ao dinheiro e ao mercado . Como reconhecer um hiperbóreo? Um hiperbóreo é aquele em cujo horizonte aberto o sol que nunca morre é a Arte.

( imagem: capa do livro “O fazedor de amanhecer”, do poeta
 Manoel de Barros)

   


       

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

o presente do papai noel...

"Como quem espreita o céu 
  e colhe na visão um novo planeta,
  assim fiquei então."

Keats


Eu tinha cerca de 6 anos. Na noite do dia 24 de dezembro , próximo à meia-noite, meus pais me levaram ao meu quarto para me mostrarem o que o papai noel deixou para mim sobre minha cama: uma bola. Mas eu mal dava atenção ao presente, eu queria era ver o papai noel! Meus pais então me diziam: “ele já saiu pela janela!” Depois eles me levavam correndo ao quintal e apontavam para o alto: “Olha o papai noel lá, subindo ao céu em seu trenó, está vendo?” Mas eu só via as estrelas... Com a alma acesa, eu não parava de fazer perguntas aos meus pais: “O papai noel mora numa estrela? Por que ele se esconde? Ele tem medo da gente? Ele sempre foi velho ou um dia foi criança?” Meus pais acabavam indo embora para cuidarem da ceia, sem entenderem tanta curiosidade poético-metafísica... Inquieto, eu ficava ali olhando a imensa noite estrelada do verão carioca, cheio de perguntas ainda. Após um bom tempo olhando o infinito , acabava me lembrando da bola, e voltava correndo para brincar com ela até tarde. Ia dormir abraçado com a bola...
No ano seguinte mudamos para uma nova residência. Na noite do nosso primeiro natal no apartamento novo, fiquei de soslaio olhando a janela. Meus irmãos menores, impacientes , queriam ir logo para o quarto ver os presentes trazidos pelo papai noel. “Ainda não é meia-noite,ele ainda não veio”,dizia meu pai.Houve um momento em que vi meu pai e minha mãe trocarem olhares. Eles não repararam que eu notei aquela comunicação estranha, parecia que estavam combinando algo.Meu pai saiu de fininho, enquanto minha mãe entretinha a gente na sala com o panetone. Mas eu só fingia olhar para o panetone, pois minha atenção estava voltada para surpreender o papai noel em sua entrada sorrateira pela janela. Se meus queridos pais não tinham respostas para minhas indagações metafísicas, seria então ao próprio papai noel que eu interpelaria com minhas perguntas. Eu nem fazia questão da bola nova, já ficaria contente em ter de presente as respostas. Então, de rabo de olho , vi meu pai entrando no nosso quarto na ponta dos pés, sem notar que eu o via. Ele nem acendeu a luz para entrar, achei estranho... Porém em suas mãos estava o motivo daquele seu esgueirar-se feito sombra:meu pai carregava pacotes de presentes...
Foi instantânea a minha compreensão do que estava acontecendo. Não fiquei decepcionado com a situação, tampouco desiludido . Algo em mim despertou, abriu os olhos e nunca mais os fechou. Mais do que a tudo, foi a existência da linguagem que surgiu ali para mim, pois até aquele momento nunca tinha reparado na existência dela. Só existe a mentira porque existe a linguagem, embora a linguagem não seja uma mentira, mas uma invenção. A mentira é uma invenção que quer passar-se por uma verdade não inventada. Eu ainda não sabia ler direito as palavras escritas nos livros, porém começava a ler o mundo . Quando meu pai retornou à sala dizendo que viu o papai noel saindo pela janela, fiquei pensativo e não disse nada. Senti ali uma solidão diferente : um estar só sem ficar triste. Enquanto meus irmãos corriam para o quarto, fui à janela e olhei para o imenso céu de maneira nova: com uma intensa e viva alegria que só compreendi muitos anos depois ao ler Espinosa. E ao tentar apreender com o pensamento aquele infinito estrelado, entendi que era o Sentir, e não o racionalizar , o que me punha mais próximo daquela realidade insondável. Senti então que algo me crescia por dentro, livre. Acho que foi ali que começou a ser partejado em mim o filósofo.

“O homem seria metafisicamente grande, se a criança fosse seu mestre”(Kierkegaard).



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

paulo freire e a palavra-geradora


"A justiça social tem que vir antes da caridade", ensina o educador Paulo Freire. Em seu método de alfabetização de adultos, Paulo Freire ensina algo que muito lembra Espinosa: o educador deve aprender com os educandos conhecendo-os não apenas como educandos, mas como agentes construtores da realidade em que vivem. Assim, o autêntico educador deve conhecer seus educandos não como objeto, como faz a douta academia, e sim como agentes que dão sentido ao mundo em que vivem. Mesmo que não saiba ler ou escrever, um homem dá sentido ao mundo em que vive por intermédio de palavras-ferramentas, as quais Paulo Freire chama de “palavras-geradoras”. As palavras-geradoras não vivem em livros ou dicionários, elas vivem no enunciado singular do homem no mundo. Assim, quem quer ensinar tem que aprender a ouvir tais palavras na fala social e coletiva. O professor é aquele que põe livros em sua fala, ao passo que o educador é aquele em cuja fala também se encontra a fala daqueles que com ele vieram aprender mais do que lições de livros.
As palavras-geradoras, autênticas palavras-potência, desenvolvem e explicam o sentido que nelas está implicado. Pois elas não são apenas palavras, elas são também ideias, percepções, cantares, repentes, sons ancestrais... As palavras do dicionário , ao contrário, são palavras-poder : elas não geram, elas apenas roubam a fala singular para impor uma fala abstrata, a fala sem gente da gramática . O sentido das palavras-geradoras não é apenas gramatical, pois elas estão umbilicalmente ligadas a um modo de vida, e nunca um modo de vida é apenas gramatical. Assim, a verdadeira pedagogia também é exercício ético da política, como pedagogia da autonomia. A palavra-geradora me lembra as palavras geradas do lápis do poeta Manoel de Barros, que dizia: “Na ponta do meu lápis tem apenas nascimento”. O contrário da palavra-geradora é qualquer uma que, mera palavra-destruidora, venha da boca de um fascista.