sábado, 5 de setembro de 2020

A cirurgia (a semente)

 

Certa vez, quando eu passava por um momento muito difícil , sonhei que seria operado do coração. Angustiado, eu pensava que não sobreviveria à operação. 

Não sei como fui parar ali na sala de operação, por quais caminhos andei ou fui levado. Sabia apenas que haveria uma operação e eu era o paciente a ser operado. 

De repente, adentra a sala de cirurgia o cirurgião. Ao vê-lo, meu medo desaparece, cheguei até a  sorrir...Pois o médico que me operaria era nada mais nada menos do que o poeta Fernando Pessoa! No  princípio, achei estranho . Mas  depois percebi que fazia sentido ser um  poeta o cirurgião de um coração  angustiado. 

Sem demora, o cirurgião-poeta abriu meu peito, mas não com bisturi : não sangrou , nem houve dor. Ele enfiou uma das mãos, porém não foi suficiente. Somente as duas mãos do poeta conseguiram tirar meu coração do peito : "Ele está pesado como um paralelepípedo! Preciso extrair o que lhe pesa”, diagnosticou o cirurgião-poeta. 

“O que lhe pesa não é coisa física, o que lhe pesa é a mágoa com o passado, a decepção com o presente , o medo do futuro e a descrença nos homens”, disse-me ele enquanto extraía tudo isso. 

Quando olhei para a mão do poeta ,  meu coração estava minúsculo, parecendo uma semente salva de um fruto que perecia.  Protestei: “poeta, com esse coração pequenino não vou sobreviver!” 

O cirurgião-poeta então respondeu, terminando sua arte, sua “clínica”: “Ele está assim pequeno porque deixei apenas o coração da criança.” 

Após ouvir isso acordei, e não apenas daquele sonho,  já amanhecia . Queria registrar  o sonho e me virei para pegar caneta e papel. Então, algo que estava sobre meu peito caiu ao meu lado na cama, era um livro que adormeci lendo: “O Eu Profundo e os outros Eus”, de Fernando Pessoa.

 

Como ensina o poeta-pensador Manoel de Barros: “Os delírios verbais me terapeutam."





Obs.: Este texto que escrevi foi publicado originalmente neste livro de minha autoria ( no livro, o título original que dei ao texto é : "A semente"):


( SOUZA, Elton Luiz Leite de. Filosofia do direito , ética e justiça - Filosofia contemporânea. Porto Alegre, Editora Núria Fabris, 2008).




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 Nota complementar: Segundo Espinosa, os raciocínios são importantes, porém os raciocínios expressam apenas a potência da mente. Quando se trata de vencer os afetos que despotencializam a vida, tanto a vida individual quanto a vida coletiva, apenas raciocínios não conseguem , pois os afetos não estão apenas na mente , eles estão também  no corpo. Não apenas um indivíduo possui corpo, também o possui a sociedade, o corpo social. E o corpo social também adoece...Assim, somente um afeto é capaz de vencer outro afeto : somente um afeto afirmador da vida , da vida pessoal e coletiva, é capaz de vencer o afeto que enfraquece a vida , a nega  e a põe sob risco. Somente a alegria é capaz de vencer a tristeza, só o amor derrota o ódio. O amor ao pensamento engendra a ação que não se curva à ignorância; a alegria de querer  viver é potência e  antídoto contra os que nos querem mortos. Os afetos também pertencem ao campo da ética e da política, com afetos também se resiste e luta.









2 comentários:

M. disse...

Que sonho maravilhoso!!!
Com certeza ele foi profundamente terapêutico. Meus sonhos têm me guiado, a vida inteira, ao encontro de meu verdadeiro Eu! Às vezes são angustiantes, mas sempre libertadores!

Elton Luiz Leite de Souza disse...

obrigado, um abraço.