terça-feira, 6 de novembro de 2018

escrever à mão e a lápis

Manoel de Barros só escrevia à mão sua poesia, e sempre a lápis. Nunca lapiseira de plástico,sempre  lápis de madeira. Curiosamente, “digitar” é um ato que faz parte da atividade de “bater”, “golpear”. Quem digita, bate com os dedos nas teclas. Escrever à mão expressa outro tipo de movimento: desenhar. Quem escreve agencia sua mão com o corpo do lápis, e  por intermédio deste é nosso corpo que também escreve, com seus nervos e fibras, incluindo as do coração.
Quem escreve à mão  desenha, parecendo às vezes que o lápis também dança na ponta de seu grafite, como a bailarina  equilibrada na ponta dos pés. Para tal arte de expressar-se escrevendo, mais adequado  é o lápis do que a caneta: a tinta que sai desta é coisa química, mas o grafite que o lápis liberta veio da imanência da terra, é vida. O cérebro não funciona da mesma maneira quando se digita e quando se escreve à mão, quando se bate e quando se desenha, quando se golpeia e quando se dança. Há certa violência em bater-digitar. Talvez essa seja uma das razões que explique porque  os fascistas gostem tanto de violentar também as teclas e, por intermédio destas, as ideias, encontrando no meio digital um ampliador de suas violências físicas e simbólicas.Nada contra o digitar, porém escrever à mão, a lápis, é ato mais afim ao poema que , como gente, também nasce: “Na ponta do meu lápis há apenas nascimento”(Manoel de Barros).
                                                                                                                                                                        
( fonte da foto: blog “Os Fazedores”. A foto  é uma composição com um desenho feito pelo  próprio Manoel)

sábado, 3 de novembro de 2018

- espinosa e o direito de resistência

Espinosa evocava  um “direito de resistência”. O sentido original de “Resistir” é : “pôr-se novamente de pé”, após ter caído. “Pôr-se de pé” não apenas no sentido físico, também    simbolicamente, já que o “permanecer  de pé” é a ação que define o que é ser humano. Os vermes rastejam, os bovinos andam de quatro. Mas se   o homem  rastejar ou se conformar a ser quadrúpede, não é mais humano, torna-se outra coisa sem nome. Esse direito de resistência não é um direito  que dependa exclusivamente de juízes ou ministros do Supremo para ser evocado e defendido. Quem o pode evocar  e defender é quem se vê em perigo, sobretudo quando até  juízes se põem de quatro perante o poder do arbítrio. Esse direito de resistência é mais do que um direito: é um dever quando estamos sob a ameaça de um tirano. Para Espinosa , não se esquivar a esse dever é o que caracteriza o autêntico pensar em sua dimensão prática, ética, política. O contrário da resistência é a obediência: esta produz súditos-servis, aquela produz cidadãos. Existe a solidão individual, mas há também a solidão em grupo, mesmo que neste haja  muitos. A solidão individual é aquela de um indivíduo sem relações externas, já a solidão em grupo  é a de um rebanho sem relações outras que não seja a de obediência a um tirano. Essa solidão em grupo   tira a singularidade de cada um em nome de uma identidade  homogênea  reativa. Por isso,  tal identidade  não é um pensamento  comum nascido do agenciamento de pensares singulares, mas um modo de viver padronizado que não tolera alteridade.  Somente a multiplicidade se ligando a si mesma, reinventando-se povo, pode pôr-se de pé e resistir aos tiranos. O direito de resistência significa exatamente isto: o pôr-se de pé de um indivíduo na imanência de um pôr-se de pê coletivo que não se deixa derrubar  pelo arbítrio.






terça-feira, 30 de outubro de 2018

mitos


Às vezes, os simpatizantes do “coiso” o chamam de "mito". De certo modo, eles não estão errados. Pois mitos não são apenas Zeus, Hermes, Afrodite, Eros, Dioniso e outros. Também são mitos , por exemplo, os "Ciclopes" , que eram seres de um olho só na testa simbolizando “estreiteza de visão”. Os Ciclopes eram inimigos de Zeus, o deus da ética e da justiça, e de Eros, o deus do amor. Os Ciclopes, segundo Jung, simbolizam o que de besta bárbara ainda vive no homem, como sombra persistente mesmo hoje nesse mundo tecnológico, pois o Coiso-Ciclope também usa a tecnologia a serviço de sua visão estreita. Outro mito que parece simbolizar o “coiso” são as “Eríneas”, deusas do ódio e da vingança. Foram elas que despedaçaram “Orfeu”, o poeta que cantava a vida e a arte. Elas o despedaçaram pelo seguinte motivo: quando Eurídice morreu, o poeta Orfeu parou de cantar. Para os gregos, “Eurídice” também é um dos nomes da alma, assim como “Psiquê” e “Pneuma”. Então, as Eríneas queriam que Orfeu esquecesse a alma e servisse a elas, cantando assim a guerra , o ódio e a vingança, para ajudá-las a espalhar tais coisas pelo mundo. Como Orfeu se recusou a usar sua arte para servir a tal barbárie, as Eríneas o despedaçaram. Mas isso não fez morrer o poeta, pois seu filho de nome “Museu”, poeta como o pai, recolheu os pedaços que Orfeu se tornou e os reuniu novamente, fazendo surgir assim a primeira exposição do mundo, na qual não apenas Orfeu, como também Eurídice, a arte, a poesia, a cultura, enfim, a civilização estariam conservados e expostos como prova de que o Coiso-Eríneas não venceram definitivamente a arte, a poesia e a vida.



segunda-feira, 29 de outubro de 2018

as esferas celestes II

As mesmas forças que arredondaram a terra e as estrelas, também fizeram esféricos nossos olhos, e assim eles permanecem não importando o que de torto a gente veja. Creio que também são esféricas as ideias que em nosso pensamento são sois e estrelas e, como estas, servem para a orientação do nosso avançar, apesar da noite extrema.


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

a fortaleza


No poema “Agroval”, Manoel de Barros narra o que faz uma imensa  arraia quando as águas do pantanal secam e põem a vida em risco: a arraia abre suas grandes asas  e pousa no barro, retendo parte da água abaixo de si. Entre seu abdômen e o chão úmido  a arraia inventa um “pantanal menor”, um pantanal de resistência. Para que a vida não morra, a arraia convida tudo o que vive para vir morar sob suas asas. Migram e se instalam ali não apenas bichos, instalam-se  também sementes e brotos de futuras flores, de tal modo que debaixo da arraia tudo o que vive acha um  ventre. Sob a proteção de tal Gaia, a vida continua, resiste, cresce, fortalece-se; sob o coração da arraia acontecem alianças, agenciamentos, contágios, enamoramentos da vida por ela mesma, una e múltipla. Até mesmo uma festa se esboça, feito uma  Kizomba a celebrar a vida salva pela Vida. Pois lá fora, quando as águas secam,  os predadores  sorrateiros lucram com a morte, e ficam à espreita . Mas a arraia é forte, resistente, não a vencem  os predadores oportunistas. Não seria tal ação da arraia o modo como a própria  natureza nos ensina o que é a virtude ético-política  que Espinosa chamava de “fortaleza”? Não seria tal comunidade de resistência  pela vida a expressão na natureza daquilo que nossos ancestrais ,em luta  contra a tirania,   nomearam  Quilombo?

“Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”(Manoel de Barros)

“Se roubam a liberdade de um poeta, ele escapa por metáforas”(Manoel de Barros)



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*"Agroval" é um neologismo criado pelo poeta e significa: "lugar onde se cultiva a vida".

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

espinosa e a saúde da mente




Em Espinosa, a palavra “emenda” (emendatio , em latim) tem dois  sentidos aproximados: curar e  regenerar .  É assim que o intelecto, ou mente,  conquista sua saúde: emendando-se. A mente se  emenda por intermédio de ideias e afetos ativos, compreendendo e agindo. A emendatio não é um processo apenas intelectual de ler livros, mesmo que sejam os livros de Espinosa. Emendar também é ligar-se, “desabrir-se”, como diz Manoel de Barros, conhecendo-se como parte : do cosmos, da natureza e da comunidade humana. O oposto da emendatio é o colocar-se como  um todo à parte, à parte sobretudo da comunidade humana,  como  dono  de uma  “Verdade” que não aceita alteridade. Não se cura a mente  sem curar também , e antes de tudo, o modo de vida , incluindo a vida social e coletiva.  “Mente” não é apenas razão , “mente” é a união do pensamento e do afeto . Depois, com a mente em saúde ,  pode-se então buscar seu aprimoramento ou aperfeiçoamento. Espinosa chamava de “Lógica” a esse aprimoramento. Em suas obras, ele anuncia que escreveria uma lógica , assim como uma medicina e uma dietética: estas para o aperfeiçoamento do corpo, aquela para o aperfeiçoamento da mente. Infelizmente, o filósofo faleceu antes de escrever tais obras. Para aperfeiçoar a mente é preciso, primeiro, curá-la, ligá-la à pluralidade aberta.E a isto Espinosa chamava de “ética”.  Sozinha, sem a ética, a lógica  não tem esse poder de abrir a mente. Ao contrário, uma mente doente pode valer-se da lógica para dar vazão à sua doença, fechando-se ainda mais em sua estreiteza mental, que gera um comportamento igualmente estreito. Uma mente doente  é uma mente intolerante,  antipoética e antifilosófica, enfim, antidemocrática. A lógica é apenas linguagem, simulação do pensamento. O pensamento é abertura. A mente doente, fechada em sua clausura, pode valer-se da mera linguagem para dissimular ou esconder sua loucura. Um rebanho de mentes doentes forma uma mentalidade fechada  que se retroalimenta ao fazer-se surda a toda lógica que não seja a da sua própria loucura. Quando a mente é doente, a mera linguagem pode ajudar a esconder essa doença, travestindo-a inclusive de discurso religioso ou político, ou a mistura dos dois. Quando a mente está em saúde  pela potência das ideias, ela aprende a expandir-se em cada palavra que expressa e em cada ação que seu corpo realiza, para assim ser remédio a serviço da saúde em sua luta contra a doença.



domingo, 21 de outubro de 2018

sofia e o general...


É impossível "chover para cima", ou as ondas nascerem na margem da praia e irem para o horizonte. Sabemos que é impossível acontecerem essas coisas porque compreendemos o que é natural acontecer: é natural a chuva vir de cima, é natural as ondas se formarem no horizonte e chegarem à praia. Sabemos da impossibilidade de “chover para cima” porque sabemos, primeiro, qual é a realidade da chuva, a sua maneira de ser. É conhecendo a realidade de alguma coisa que podemos saber de sua impossibilidade e , também, de suas possibilidades. Se sei que a realidade natural da chuva é cair do céu, antes que ela de fato caia penso sua possibilidade e me preparo :busco um guarda-chuva, limpo a calha ou ponho a planta na janela para ser molhada. Mas aquele que não conhece a realidade natural das coisas, volta e meia delira impossibilidades como se fossem possibilidades que sua imaginação crê serem mais reais do que a própria realidade que a ciência e a filosofia nos fazem compreender. Porém , é apenas na imaginação e na linguagem que a chuva pode “chover para cima”: se for em um poema, é apenas verso; mas se for em uma mente ignorante e supersticiosa, tal ideia confusa torna-se um perigo contra a própria existência, se os portadores de tal mente delirante se apossarem do Estado e da educação das crianças. Quando Espinosa dizia que “a democracia é o mais natural dos regimes”, ele quis fazer uma imagem semelhante àquela da chuva. Assim , é natural o homem ser livre e rebelar-se , cedo ou tarde, contra aqueles que vão contra essa sua natureza democrática. Os que combatem essa natureza democrática também combaterão a ciência, a filosofia e a liberdade de agir e pensar , pois ciência, filosofia e liberdade de pensamento são expressões daquela natureza democrática do homem e nos permitem compreendê-la e efetuá-la. Quando Espinosa afirma que "a democracia é o regime mais natural", não há otimismo nisso, tampouco idealismo. É a compreensão de uma necessidade semelhante àquela que faz a chuva vir do céu. Nesse sentido, democracia não é só voto, partido, parlamento. Democracia é, e sempre será, re-existência: religar o homem à existência, resistir pela existência, potencializando-a .





sexta-feira, 19 de outubro de 2018

- a tempestade


Dispo-me das roupas de cima.
Dispo-me das roupas de baixo.
Prossigo ainda me despindo da pele,
da carne, do sangue, dos ossos, dos nervos...
E assim, com a alma nua em pêlo,
com frio e saudade, mas sem medo,
saio à rua para enfrentar a tempestade.



quarta-feira, 17 de outubro de 2018

slogans...


Este texto  não tem natureza religiosa ou teológica, é apenas “Análise do Discurso”. O uso de  uma ideia religiosa como slogan publicitário revela as contradições aberrantes do discurso do “coiso”.  Seu slogan político-publicitário prega: “Deus acima de todos”.  Porém, entre os cristãos, Deus tem outros dois nomes: “Amor” e “Pessoa”. A ideia de “dignidade da pessoa humana”, base dos Direitos Humanos que o “coiso” combate, é um valor da filosofia estoica absorvido pelo cristianismo e depois  incorporado à Constituição como um Princípio  . Se o Deus que o “coiso” prega  é o cristão, seria possível então substituir  a expressão “Deus acima de todos” por “o Amor acima de todos” ( embora o “Amor” possa soar falso quando é só  peça de publicidade, quando é apenas propaganda... ). Mas basta ouvir o que prega  o “coiso” , e ver o que fazem seus seguidores , para se perceber  que seu  “Deus” não atende por Amor ou Pessoa. Se não atende por esses dois nomes, o que é então esse “Deus” tornado slogan político-publicitário? Alguém que pregasse em nome daqueles dois nomes despertaria apoio de nazistas e da ku klux klan?
Além disso, quando o “coiso” cita a passagem bíblica ”Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”, ele se equivoca profundamente no sentido que dá à  ideia de “verdade” , opondo-a à  ideia de mentira ou falsidade  . O “coiso” parece ignorar, não por acaso,  que na mesma passagem bíblica a “Verdade”  em questão é  “Verdade do  Amor”: “Conhecereis o Amor e o Amor vos libertará”. Libertar  do quê? Antes de tudo, do ódio . O oposto do Amor-Verdade  cristão não é a mentira-falsidade, o oposto é o ódio em suas variadas faces, este é o sentido da   passagem bíblica que o “coiso” , por ignorância ou má-fé, não alcançou.
Quem lida com slogan publicitário sabe disto: slogan é  sempre instrumento de um comércio, não importa se de coisas ou de ideias. Mas slogans se tornam mera vendilhagem quando propalam propaganda enganosa.

(imagem: “Cristo expulsando os vendilhões  do Templo”, de Michelangelo)



(nome desta escultura: "Cristo sem-teto", do artista Timothy P. Schmalz  )