sábado, 18 de dezembro de 2021

crer e criar

 

"Criar” e “inventar” são atos diferentes. A diferença entre ambos fica mais clara nas realidades que tais atos produzem.

“Inventar” aplica-se a coisas: celular , automóvel, relógio... foram inventados. Já o “criar” é um ato que gera tudo aquilo cujo sentido se explica como arte, na acepção ampla da palavra .

“Criar” e “crer” nasceram de uma  mesma  palavra mais antiga :  “creare”. A palavra  “creare” significava tanto crer como criar. É por isso que somente cria quem crê, e quem crê sempre cria, mesmo diante das maiores impossibilidades.

Não só um poema é criado , uma filosofia também o é, na medida em que filosofia e poesia criam ideias: ideias para pensar e para sentir . Criar uma filosofia é crer no pensar libertário, criar um poema é crer no sentir  revolucionário.

 Só cria novas possibilidades para a vida que crê na liberdade; quem não crê , ata-se voluntariamente à passividade.

Também é comum dizermos :  “criei um filho”, e não “inventei um filho”; ou “criei um laço de amizade”, e não “inventei um laço de amizade”; ou “criei um jardim” ,e não “inventei um jardim”. Pois tais realidades que criamos também são formas de arte nas quais acreditamos , nada tendo a ver com coisa mecânica.

Já um revólver, enquanto objeto técnico, é fruto de invenção e, por isso, pode estar a serviço de um bandido ou de um fascista. A inventividade produz apenas coisas; e as coisas , por não possuírem vida, podem virar instrumento de morte a serviço de uma mentalidade mórbida .

 Porém a criatividade produz ideias e afetos ,  que  são a vida e a saúde do pensamento. Em todo totalitarismo , não importando se político , comportamental ou acadêmico, são sempre os criativos os que sofrerão as maiores consequências. E são sempre deles, e neles, que nascem e perseveram as resistências.

 

"É possível que crer neste mundo, nesta vida, tenha-se convertido na nossa tarefa mais difícil, a tarefa de um modo de existência por descobrir sobre o nosso plano de imanência hoje." (Deleuze & Guattari, "O que é a filosofia?")

 

(imagem: “Espaço entre palavras” / Rob Gonsalves)





"O núcleo da vida, o núcleo da criação"/ Frida Kahlo :

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

bergson e a duração

 

Quando um acontecido passa e se torna passado, e entre ele e nós vai aumentando  uma distância que só o tempo pode medir ( pois não é uma distância no espaço), esse passado que passou , sua passagem e o seu ficar para trás, é algo irreversível?

 O que passou se vai e nunca pode ser de novo vivido a não ser como um fantasma que se evoca ? 

Ou será que é o passado que retém e salva o que no presente passa? Afinal, dizia Bergson, não é o passado que passa, quem passa é o presente. 

Não é o acontecido que se afastou, fomos nós que nos afastamos dele? Somos como peixes que saíram da nascente do rio onde nascemos e fomos ao mar? 

É possível, tal como fazem os peixes, desterritorializar-se  do mar, entrar de novo na foz do rio, subi-lo contra a correnteza e alcançar de novo a fonte onde nascemos?

 Se isso for possível, esse retorno ao passado não é nostalgia, ele é o intuir a própria vida que nunca se afasta de si mesma. Ir para o passado , para essa "origem que renova" ( diria Manoel de Barros), não é um voltar, mas um ir para dentro, cada vez mais próximo de onde o tempo brota.












quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

a ética de Epicuro enquanto cuidado consigo mesmo

 

Segundo Epicuro, não há injustiça sem a quebra de um contrato. Porém, Epicuro nos ensina que há um contrato primeiro ou originário, do qual todos os outros contratos ( jurídicos, morais...) dependem.

Esse  contrato originário é um “contrato natural” , um contrato que envolve a natureza de como existimos no mundo e nos relacionamos com o cosmos, com os outros e, sobretudo, com nós mesmos.

O contrato original de que fala Epicuro não é , contudo, o famoso “contrato social” evocado pelos contratualistas do século XVIII. O contrato de Epicuro é mais original ainda. Ele não é um contrato social ou jurídico, ele é um contrato filosófico ou existencial: um contrato consigo mesmo.

Sem essa relação fundamental consigo mesmo, não nos fortalecemos para resistirmos às injustiças e arbitrariedades que ameaçam a nós mesmos e a convivência social. A função desse contrato é nos edificar, isto é, pôr de pé.

Esse contrato consigo mesmo, portanto ,  não é para dar mero poder ao ego, tampouco é algo apenas individualista. Esse contrato se expressa por uma prática: o cuidado. “Cuida de ti mesmo”, é o primeiro princípio existencial desse contrato. Ele não está escrito como lei, ele precisa ser feito enquanto motor da nossa ação e prática.

Somente aquele que sabe estabelecer esse contrato consigo mesmo está apto a ser um agente autônomo requerido pelo contrato social com os outros.

O contrato consigo mesmo é a união do pensar, do agir e do sentir:  ele é, ao mesmo tempo, filosófico, ético e estético.

Enquanto mantivermos esse contrato com a gente mesmo ( nunca o rompendo pelo  desamor a si) , nos edificarão a dignidade e a coragem , para assim enfrentarmos , de pé,   as injustiças e indignidades .










quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

a democracia originária

 

 

Rousseau é um dos maiores  pensadores da democracia. Uma de suas principais lições, mais atual do que nunca, diz mais ou menos o seguinte: o que garante o espírito democrático de uma sociedade, e distingue os cidadãos livres dos tiranos, é o princípio da maioria.

Mas há dois sentidos para maioria : um sentido derivado ( ou segundo)  e um sentido originário e primeiro  (do qual o sentido derivado depende).

No sentido derivado ou segundo , a maioria é uma noção quantitativa expressa pelo “maior número”.

Numa eleição, os vencedores são os que obtêm maior número de votos, enquanto a minoria é definida pela quantidade menor de votos obtidos. Se os derrotados forem  não democráticos, podem querer se vingar ressentidamente , não aceitando o resultado e fazendo ameaças ( como fez o Aécio Neves em 2014), pondo em risco toda a sociedade.

Já na acepção originária ou primeira, “maioria” tem um sentido qualitativo enquanto princípio ou regra constitutiva da vida democrática, e antecede a prática quantitativa e numérica eleitoral do voto.

Essa acepção primeira  de maioria  pode ser assim enunciada: “Todos devem estar de acordo que ganhará as eleições , e governará , o partido ou coligação que  obtiver o maior número de votos, a partir da decisão livre e soberana do povo.” Aqui, a  expressão “todos” indica uma maioria qualitativa.

No sentido derivado ou segundo , a maioria  representa um grupo com uma ideologia que derrotou, no número de votos, outro grupo político oponente  com ideologia e cor de bandeira diferente  .

Contudo, no sentido originário de maioria, não há oponente ao princípio, a não ser os tiranos. Somente os tiranos discordam desse princípio ameaçando que  não aceitarão o resultado do que decidir a maioria numérica - caso eles, os tiranos,  se saiam derrotados eleitoralmente .

O tirano não tem a qualidade democrática para conviver com a democracia: do ponto de vista dessa qualidade , a mentalidade do tirano é sempre “pequena”, mesmo quando eleito por um maior número.

Mas a mera  soma numérica de mentalidades pequenas forma apenas um rebanho ( ou “a facção mais numerosa”, no dizer de Oscar Wilde), nunca alcançando a qualidade pensante pressuposta pela mentalidade democrática ampla.

Um tirano pode até se sair “vitorioso” e obter maioria quantitativa numa eleição, porém jamais ele fará parte daquela maioria heterogênea dos que se põem de acordo , livremente, com o princípio originário da democracia.

No sentido quantitativo  de maioria, os oponentes devem medir  forças segundo as ideias que professam, e o voto decidirá quem ganha e quem perde. Porém, quando se trata do sentido originário-qualitativo  de maioria , os inimigos  do princípio democrático são os negacionistas da vida plural e  heterogênea.

Não foram os gregos, e sim  os povos originários da América Latina, nossos indígenas, que inspiraram Rousseau a pensar e defender o princípio constitutivo de toda sociedade democrática.

 

( Este excelente livro, “Nós”,  é apenas uma sugestão de leitura)





sábado, 11 de dezembro de 2021

as iluminuras de Manoel & Miró

 

1.Certa vez, perguntaram ao poeta Manoel de Barros qual foi  sua grande influência. Todos imaginavam que ele mencionaria um poeta, porém ele disse  que aprendeu a fazer poesia com dois pintores: Klee e Miró.

O poeta aprendeu a fazer “imagens” com os pintores : imagens construídas com palavras, cuja cores e paisagens são diretamente pintadas na tela da alma.

 Manoel chama essas imagens de “iluminuras”: um misto de luz com uma realidade ainda escura, tal como a aurora que tem atrás de si a noite ainda, a noite da qual uma nova manhã se distinguiu , brilhando.

Essa “realidade escura” que participa da criação poética não é como a treva da ignorância e do obscurantismo, ela é como  o escuro no interior do casulo ou do útero, onde cresce o embrião de uma vida nova.

Assim, as iluminuras poéticas são imagens que se lê partejando, como realidade a nascer no poema e em nós, desabrindo-nos.

2. Miró desenhava de maneira  precisa e técnica, porém essa técnica virou uma prisão que impedia o nascimento de um mundo novo  que Miró desejava  criar. Esse mundo novo não cabia na  forma “acostumada” que se tornou  Miró e seu  pintar . Já crescia virtualmente no pintor a alma nova, porém faltava um corpo para ela: ao invés de nascer, a alma nova corria o risco de abortar.

Miró desistiu da arte, mas a arte não desistiu de Miró. Quando tudo parecia perdido, certa vez  Miró começou a rascunhar com lápis de cor usando   a mão esquerda, mão que ele nunca usava . Era um rascunhar “brincativo” que alcançava realidades ainda não formadas, ignoradas pela mão direita.

A mão esquerda nada sabia de cânones ou fórmulas de sucesso, como sabia a mão direita. Nunca a mão esquerda ficou vaidosa por receber elogios; tampouco segurou, ostentando, prêmios e títulos, como se habituou a segurar a mão direita  .

Se a mão direita adquirisse a capacidade de falar e alguém lhe perguntasse qual a opinião dela sobre a mão esquerda,  ouviria: “ A mão esquerda é perigosa:  quer tirar o poder que conservo, ela é  subversiva!”.

As duas mãos tinham a mesma idade biológica, mas era a mão esquerda o corpo novo que a alma nova exigia . Ao começar a desenhar com a mão esquerda, cada desenho era o desenhar de novo nascendo , fazendo-se como novidade, experiência e descoberta.

O poder estabelecido escreve suas cartilhas com a mão direita ; porém a arte de se reinventar só a pode desenhar um instrumento não domado: a mão esquerda . A mão direita se liga a uma metade do cérebro apenas , já a mão esquerda se liga à outra metade do cérebro e ainda ao coração inteiro que, assim como ela, também está do lado esquerdo.


Miró / "O jardim"


 


____

 


 

O céu despencou...

Suas estrelas caíram no chão ,

apagadas e ocas.

A terra  não pôde lhes servir de plantação,

estava seca.

 

Porém, Sofia  pegou uma estrela murcha e quase morta

e a pintou com a  tintura azul que coloria também seus cabelos.

Soprando dentro da estrela com o ar que tirava de si mesma,

da estrela azul surgiu um balão.

E um  fio de Ariadne libertava  a estrela,

conduzida por Sofia e sua mão.


_____


Homenagem ao poeta do samba Monarco ( falecido ontem). No vídeo, Monarco canta os poemas de Alvaiade ("O mundo passa por mim todos os dias, enquanto eu passo pelo mundo uma vez. A noite é o dia que dorme, e o dia é a noite ao despertar.") e Manacéa:



sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

a luz, o filósofo e o poeta


 


O nome desta pintura é: “Aristóteles contemplando o busto de Homero”, de Rembrandt. Ela foi pintada em 1653.Aqui se pode observar a postura de grande admiração do filósofo em relação ao  poeta.

Aristóteles pousa com cuidado a mão direita , a mão com a qual ele escreve sua filosofia, sobre a cabeça do poeta, como se buscasse nela a inspiração. Homero, que era cego, faz o filósofo olhar longe...muito além de meras teorias e conceitos abstratos.

 Há nesta cena um aprendizado por contágio, um aprendizado do qual o próprio corpo afetivo e expressivo  participa, e não apenas o mero intelecto teórico.

 Parece que o filósofo recebe uma transfusão do poeta. Não uma transfusão literal de sangue, mas de afeto ( que é o sangue do espírito).

Transmutado,  parece que o filósofo olha de mais perto a vida , a vida plural e múltipla, tangível e intangível, olhando ao mesmo tempo para fora e para dentro. Como diz Manoel de Barros, quando viva e potente, a poesia provoca horizontamentos e dasabrimentos...

Há uma luz transversal e intensa, como o clarão de um relâmpago, um clarão que intensifica o ver e não fere, que parece se desprender dos livros ( no alto à esquerda). Esse clarão  passa pela  cabeça do poeta, envolve-a, e se irradia sobre o filósofo absorto, iluminando-o por fora e  por dentro , até emanar de seus olhos como luz das Ideias que acha um caminho , apesar das trevas.

“Contemplar” vem de  “com-templo”:  “entrar onde mora o divino”. Quando  entramos no divino, o divino também nos entra, nos é habitado.  Divino não no sentido religioso, mas enquanto espaço transfigurador das Musas.

A palavra “divino” vem de um termo muito antigo do sânscrito, significando “brilho da luz”.  A palavra “musa” , por sua vez, significa: “conhecimento que vem das artes.” Talvez seja esse conhecimento transmutador que o  filósofo busque quando, antes de escrever seus conceitos, apoia sua mão sobre a cabeça generosa  e criativa do poeta.




 

sábado, 4 de dezembro de 2021

poesia pode ser que seja fazer outro mundo

 

Certa vez,  pediram ao poeta Manoel de Barros uma definição de poesia. O poeta assim respondeu: “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. Nessa resposta, a palavra mais importante é o verbo “fazer”. Inclusive, a palavra “poesia” vem de um verbo grego cujo sentido é exatamente “fazer, produzir”.

Quando se substantiva a poesia apenas como rima e verso , perde-se a compreensão de que ela é também um verbo, uma ação, que pode produzir muitas outras coisas além de rimas e versos. A poesia produz também percepções, pensares e sentidos outros que subvertem o “mesmal” do “mundo acostumado” .

Manoel diz que o poeta produz versos porque , antes de escrever, “o poeta se empoema”. Empoemar-se é um sentir que pensa, um pensar que sente, tornando-se potência criativa intensificadora  da vida.

A vida nos empoema quando ela mesma escreve sua poesia em nós. Ideias que libertam e ações que transformam são o sentido de tal poesia ao mesmo tempo cósmica, ética, política , pensante e vital. Pois como  Natureza Naturante, a vida é a primeira e mais potente poeta, ensina Espinosa.

Quem se empoema, desegoifica-se e se desabre: não cabe mais dentro de si. Alguns se empoemam e dançam, outros se empoemam e pintam, outros se empoemam e cantam, outros se empoemam e ensinam, outros se empoemam e aprendem, outros se empoemam e se tornam generosos, corajosos, insubmissos, libertários , enfim, intensificam o que neles é vivo . E com o máximo de força que podem , se esforçam para fazer outro mundo começando pelo lugar onde se está, mesmo que seja um lugar modesto, micropolítico: sala de aula, fábrica, rua, praça, residência, favela, vizinhança, janela, mundo virtual...

E primeiro que tudo, deve-se começar por fazer outro mundo dentro de si mesmo, um mundo que não pertença apenas a si mesmo, um mundo que possa ser partilhado e nos agenciar em nossas diferenças.

É por isso que o importante naquela definição de poesia também é o “pode ser que seja”, pois poesia não é palavra de ordem , fórmula ou receita; poesia é ideia pensante para ser sentida e reinventada, reinventando-nos , como potencialização da liberdade agenciada.

 

“Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o filósofo é o poeta”. (Deleuze)


"As minhocas arejam a terra; os poetas, a linguagem."(Manoel de Barros)

 

( este livro é apenas uma sugestão de leitura, pena que Manoel não esteja nele...rs...😉)







domingo, 28 de novembro de 2021

a educação e seu tempo

 

Esta ideia está esboçada no filósofo e poeta Emerson ( que aqui interpreto): a educação autêntica, aquela que realmente muda as vidas individualmente  e prepara um futuro  social digno, essa educação emancipadora tem que começar sempre o mais cedo possível. Mas qual é esse “mais cedo”?

Em relação ao adulto, o jovem está nesse tempo mais cedo, pois o jovem  vem antes do adulto. Mas a criança vem antes do jovem, pois ela  vive num tempo ainda mais cedo. 

O que caracteriza o “mais cedo” é que ele é um tempo cujo sentido é a abertura ao futuro. Assim, a criança é pura abertura ao futuro, mais do que o jovem. Por isso, a criança é pura potencialidade, assim como a semente da qual virá o fruto.

Segundo Emerson, porém, existe ainda uma realidade anterior à criança, um “mais cedo” ainda mais cedo. E é nesse tempo mais cedo de todos que a educação libertária precisa começar.

Mas Emerson não está se referindo à vida no interior do útero, pois o tempo mais cedo fundamental vem antes até mesmo  dessa existência uterina.

Contudo, esse tempo mais cedo originário  não é uma vida anterior no sentido de outras vidas vividas num além religioso ou metafísico. Pois esse “mais  cedo” referido pelo filósofo é a realidade social. A sociedade é anterior ao indivíduo, e é portanto nela que é preciso começar a educação.

 Nesse sentido, a educação é a mais elevada, potente e necessária das práticas políticas e éticas, pois  educar não é apenas  tornar o indivíduo um empreendedor-consumidor econômico, tampouco um mero soldado  da "Ordem" estabelecida, e sim um agente-cidadão transformador de sua realidade social e política.

No adulto, o jovem que ele foi ainda está dentro dele e o influencia . E o jovem, por sua vez,  ainda traz dentro de si a criança que também o influencia ( como mostra a psicanálise).

Se a criança sofreu traumas , estes ainda persistirão , como sintoma, no comportamento do jovem. Contudo, o jovem pode procurar ajuda,  tomar consciência, agir sobre si e superar esses traumas do passado que limitam sua vida presente.

A sociedade vem antes da criança, imprime-se nela  e influencia seu  ser futuro.  Uma sociedade injusta, desigual, autoritária e individualista imprime traumas na criança que ela sozinha não tem como vencer. Traumas que roubam seu futuro, como o trauma da violência  e da miséria, tanto as misérias e violências  materiais como  as simbólicas.

Assim, a educação autêntica precisa começar nessa realidade social “ o mais cedo possível”, inclusive detectar seus efeitos limitadores na criança, pois a realidade social influencia decisivamente   o desenvolvimento psicológico, afetivo, social e  cognitivo da criança.

É preciso agir nesse “mais cedo” para  que não seja “tarde demais” a construção de um futuro digno.




sábado, 27 de novembro de 2021

dos sultões, ontem e hoje

 

O fascista  esteve recentemente  lá pelas terras do Oriente Médio e ficou encantado com algumas coisas  que viu por lá, tanto que nem queria voltar, estendendo ao máximo  seu  turismo de mau gosto bancado  com nosso dinheiro público.

Ele adorou o abominável machismo institucionalizado daquelas sociedades , onde as mulheres são tratadas como seres inferiores. Ele também se identificou profundamente com as estranhas monarquias daquelas terras, obscuras  ditaduras   do deserto.

O genocida ficou tão encantado com esses aspectos deploráveis que até sonhou que era sultão. Traidor que é, no  sonho ele  trocou o tal “Deus Acima de todos ” por Alá e Maomé.

Dizem que ele quer implantar por aqui coisa parecida,  porém adaptada ao seu jeito tacanho:  um sultanato teo-miliciano.

Isso me lembra uma história :

Havia uma aldeia onde um sultão  resolveu vingar-se das mulheres. Seu ressentimento era devido ao fato de que nenhuma mulher o amava espontaneamente, apenas à força. Rico e poderoso , ele conseguia ter tudo, menos amor. 

Valendo-se de seu poder, e querendo se vingar, ele resolveu obrigar  todas as mulheres solteiras da aldeia a se casarem com ele , uma a uma. Seu plano era, após a  lua de mel, tirar a vida de cada uma.  Ele aprisionou as mulheres em seu castelo . E antes que ele escolhesse uma para ser sua primeira vítima , tomou a frente de todas e ofereceu-se  uma jovem chamada  Sherazade.

Quando o sultão a levou para o quarto  e ordenou que ela fosse para a cama, Sherazade pediu: “Posso lhe contar uma história?”. E ouviu como resposta: “uma história a uma hora dessas!? Conte, mas seja rápida...”. Mas quando Sherazade começou a narrar a história, o sultão ficou tão absorvido que não reparou o passar do tempo.

Quando já estava amanhecendo, Sherazade disse: “não consegui terminar a narrativa, posso recomeçar amanhã?”.  “Sim, mas de amanhã você não passa!” , ameaçou  o sultão .

No dia seguinte, Sherazade  prosseguia com a história e logo a emendava com outra. O sultão não conseguia ficar imune a esse poder que ele desconhecia: o poder da  palavra  que cria mundos (o sultão imaginava, ao contrário, que poderosa é a palavra que ameaça de morte) . 

Sherazade  tecia suas histórias mais do que com palavras: ela as tecia com o fio da vida, e a este estendia  como linha de fuga, “Fio de Ariadne”. A narrativa durou uma, duas, dez, cem... mil e uma noites: “inventar aumenta o mundo”, já dizia Manoel de Barros.

  Sherazade simboliza a vida que se expressa    múltipla nas escolas, museus, teatros, cinemas e livros,  apesar dos sultões de hoje que ameaçam      calá-la . Como ensina Manoel de Barros, “poesia é afloramento de falas.”

 

( imagem: “Sherazade”, obra-instalação de Sami Hilal  . Os livros se agenciam num mesmo fluxo de vida  que segue em frente , como um  rio inaprisionável )