sábado, 29 de maio de 2021

a pequenina musa

 

“Museu” provém de “Musa”. Originalmente, “musa” significa : “conhecimento que vem das artes”. Tanto os poetas como os primeiros filósofos evocavam as Musas para auxiliá-los na seguinte tarefa: vencer o esquecimento daquilo que não pode ser esquecido. Assim, o conhecimento das Musas não é só intelecto ou razão, ele é , também, recordação: “re-cordis”, “trazer de novo ao coração”, como lugar do Afeto.

As Musas são filhas de Zeus , divindade ligada à justiça e à ética, com Mnemósyne, Deusa da Memória. Zeus uniu-se a Mnemósyne após uma guerra vencida por ele contra as forças da brutalidade , tanto as  físicas como as simbólicas.

Dessa união entre a ética e a memória nasceram as Musas, divindades da cultura e do patrimônio. Assim, todo patrimônio cultural nasce do matrimônio gerador de uma ética da memória, de uma memória da ética.

A cultura e a educação não existem apenas para relembrar algo que se deu no passado e passou. Cultura e educação não são mera erudição. Cultura e educação existem  para fazer lembrar e dar a conhecer que se é possível vencer a barbárie e a ignorância  , e dessa lembrança também depende a criação do  nosso próprio futuro. Pois a barbárie e a ignorância  sempre ressurgem  do  bueiro onde se escondem , reaparecendo ao longo da história com nomes diferentes: nazismo, fascismo, negacionismo, necropolítica...

Segundo o poeta Manoel de Barros, todo ato criativo é uma “imitagem". A imitagem não é um tornar-se mera cópia passiva de um Modelo ou Padrão. Ao contrário, a imitagem é a produção de uma diferença , como nos ensina a pequena menina em sua fabricação brincativa de um estilo . Em toda imitagem há a aprendizagem   da própria diferença que se é, e que essa diferença não é negação do outro ,  mas a expressão de uma liberdade que potencializa um agenciamento, um encontro.  Nesse encontro, a menina ao mesmo tempo aprende e ensina. Em sua imitagem, é a menina, e não a escultura, a obra de maior arte.

Que a pequenina Musa, em sua inocência brincativa, nos ajude a não esquecer o que precisa ser sempre lembrado: que a vida é conhecimento , arte e liberdade, e que isso nos dê forças ante a barbárie.

 

“Às vezes começa-se a brincar de pensar,

e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco.”

( Clarice Lispector)

 

"Minha poesia não tem função explicativa, só brincativa."(Manoel de Barros)


"Nesta vida,

 pode-se aprender três coisas de uma criança:

 estar sempre alegre,

 nunca ficar inativo

 e chorar com força por tudo o que se quer."

(Leminski)









( infelizmente, não consegui achar os nomes dos fotógrafos, ou fotógrafas, das duas fotos, nem o nome da menina e do menino. Na escala avaliativa das crianças, "bobão" ocupa o topo  dos piores nomes...rs...)

sexta-feira, 28 de maio de 2021

#forabolsonaro

 

Os gregos inventaram a “ágora” , a praça pública, como espaço-símbolo  da democracia.  “Ágora”  vem de “agon” : “conflito”  ou “disputa”. Na ágora aconteciam disputas  travadas com palavras.  Os romanos, por sua vez,  inventaram as ruas. Não como espaço político,  mas como meio de travessia   para além dos muros das cidades:  as ruas atravessavam  espaços livres e  não povoados.

Impérios  e cidades desapareceram  destruídos por guerras ou catástrofes: com eles, desapareceram também suas praças. Mas as ruas que atravessam campos e espaços abertos nunca desaparecem totalmente : se ninguém mais passa por elas, as ruas se integram à natureza , tornando-se trilhas em esboço que somente os andarilhos nômades sabem achar.

A Revolução Francesa se inspirou no ideário da praça como espaço de poder a se contrapor aos templos da intolerância religiosa  e aos castelos dos senhores feudais. Surgem então os “parlamentos”: lugar onde “parla-se” (ou  “fala-se”) .  Radicalizando ainda mais a ideia de democracia, Espinosa dizia que mais importante do que a praça é a rua , sobretudo como espaço comum para abrigar a multiplicidade reunida para defender a liberdade   e  se opor  a toda forma de tirania. 

As ruas vão além do “parla-se”, pois nelas sobretudo  age-se.  Essa multiplicidade unida nunca cabe totalmente no espaço centrípeto das praças, pois somente no espaço centrífugo das ruas cabe o existir em movimento da multiplicidade agenciada , cuja potência excede o poder de governos e Estados: enquanto a  força destes é a da mera polícia,   a potência da multiplicidade  é o desejo comum por justiça, igualdade , liberdade  , democracia, vida.

 Da praça nasceu o parlamento para se opor aos templos e castelos. Porém quando o próprio parlamento se torna sucursal do templo teológico-político e de   mentalidades medievais encasteladas, somente as ruas têm força para agenciar nossa liberdade plural , e assim ser  nosso escudo contra o fascismo e suas tentativas de nos atemorizar com suas ameaças.

As praças simbolizam o centro das cidades, ao passo que as ruas  são rizomas que alcançam também as periferias e  margens, conectando aqueles a quem o poder centralizador exclui e marginaliza. A rua assim compreendida será sempre  o espaço múltiplo e aberto daqueles que defendem a democracia,  sendo muito maior    que esse infame conluio entre templo  , quarteis e milícias.


"A rua põe sentido em mim. "(Manoel de Barros)


“Sim, as ruas têm alma!” (João do Rio)


(compreendo e aceito quem argumenta não ser ainda  hora de irmos às ruas. Porém, mesmo a gente não indo às ruas, com o genocida no poder haverá a 3ª e até uma 4ª onda; sem as ruas, 2022  pode nem chegar... Trago as  palavras de Espinosa, válidas para ontem, hoje e amanhã: “O que o tirano mais teme é a indignação , pois é esse o afeto que une os justos e os põe unidos na rua”. Acrescentando para agora : ir às ruas , mas com máscara e todo o cuidado possível com nossas vidas e as dos outros )




Aqui no Rio o local será junto ao monumento a Zumbi . Nos eventos promovidos pelo genocida eles levam só armas , pseudopatriotismo  truculento e  mais nada, além de se gabarem de aglomerar  sem máscara. Já neste evento de amanhã  há a orientação da devida segurança, além da  lembrança de sermos solidários com a dor do outro. Por isso   se pede que, quem puder, leve 1kg de alimento não perecível para doação aos que sofrem a urgência da  fome:





Artigo compartilhado da página Universidade e Democracia , da UFF: 

https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/05/manifestacoes-e-covid-19-e-possivel-reduzir-os-riscos-em-atos-de-rua-na-pandemia/?fbclid=IwAR32i3v3AiblebyyHuxQjkWhxdvexDt0tGkSYEli83yvW_H0VfC0DS9BVqQ

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Nelson Sargento

 

Não se deve confundir “popular” com “populismo”. O popular não é  a classe D ou E : tais classificações  fazem parte da ideologia de “pedigree” que reforça a lógica Casa-grandista de que ter propriedades e dinheiro, não importando os meios , faz de alguém um superior, um   “Classe A”. O popular nada tem a ver com esse alfabeto do poder.

O popular é multiplicidade horizontal sem castas, como a “multitudo” democrática de que fala Espinosa. O popular não é pobreza, mas uma forma de riqueza que não se mede em dinheiro ou capital. O popular não é o que vende muito, o popular é o que não se deixa comprar  pelos donos do sistema, como são comprados os  “pobres de direita”.

O popular é uma nobreza nascida da potência criativa multifacetada e heterogênea, e não de pedigrees elitistas pouco nobres.  A nobreza-popular se aprende na alma de Cartola,  no sax de Pixinguinha, na voz de Clementina ,  na viola do Paulinho, no samba e cores de Nelson Sargento, no lápis de Manoel de Barros : “Aproveito do povo sintaxes tortas” , ensina o poeta.

“Popular” não é só um substantivo, como “povo”; “popular” também pode ser   um verbo expressando a ação de  (re)inventar um povo: “escreve-se em função de um povo por vir e que ainda não tem linguagem.”(Deleuze).

Hoje faleceu o grande poeta da Mangueira Nelson Sargento, nossa pequena e sentida homenagem a esse poeta e artista popular.













No desfile histórico da Mangueira falando dos heróis populares que não estão nos livros oficiais de história, Nelson Sargento fez o papel de Zumbi. O apelido "sargento" veio do fato de ele ter servido no exército, porém ele vivia sendo repreendido pelos milicos porque, em vez do fuzil, Nelson estava sempre com o violão  de poeta na mão. Este samba é fruto da parceria entre Nelson Sargento & Cartola :




quarta-feira, 26 de maio de 2021

só a arte salva

 

O filósofo Heidegger dizia que  uma coisa é  “diminuir a distância” , outra  bem diferente é “criar proximidade”. A tecnologia diminui as distâncias, sem dúvida. Mas uma coisa é diminuir a distância entre seres no espaço, outra bem diferente é criar proximidade com o sentido daquilo que nos é mais essencial e indispensável.  Esse sentido nem sempre está dado, às vezes ele precisa ser descoberto ou mesmo inventado.

Enquanto instrumento técnico, o telescópio diminui a distância entre a lua e nossos olhos, isso é fato. Porém, quando lemos num poema  a lua em versos, o poeta não põe a lua perto de nós no espaço, porém ele a põe  tão próximo que, empoemando-nos, experimentamos seu sentido também em nós, no "devir-lunar" que nos tornamos. E quando a lua está mais viva e cheia de luz , como na potente Superlua que surgirá hoje à noite , o devir-lunar pode se tornar ainda mais vivo e intenso ,  e assim fazer   recuar a noite : a de fora e , quem sabe, a de dentro.

Esses momentos de isolamento social nos colocaram longe espacialmente, porém nunca estaremos sozinhos existencial e politicamente se mantivermos viva e intensificarmos a  proximidade com as ideias e valores  que nos fazem seres pensantes e solidários.  Mantendo-nos próximos dessas ideias, estaremos próximos de nós mesmos.

A arte serve para nos ensinar a aprendermos criar proximidade com tudo aquilo que,  para existir e se tornar real, precisa ser criado, pessoal ou coletivamente. A ideia de liberdade, por exemplo, só existe ser for  produzida em um devir-libertário.

No céu de hoje à noite, a Superlua surgirá para quem  levantar a cabeça e a encontrar. Ela durará um tempo, depois passará, como tudo.

Mas no poema ela estará salva e pode ser sempre reencontrada  : sempre nova e a brilhar, para que algo em nós  a brilhar a gente também  possa encontrar , apesar dessa noite espessa.


“Só a arte salva.” (Deleuze)







 

sábado, 22 de maio de 2021

a pessoa coletiva

 

A palavra “hermenêutica” vem do grego e significa “interpretação”. No coração de hermenêutica há um nome próprio: “Hermes”. “Hermenêutica” :  “arte relativa a Hermes”. Quando Dioniso foi despedaçado por seus carrascos , Hermes guardou de  Dioniso o coração , semente da  arte de renascer. Deus mensageiro, Hermes agora também transportava o coração como mensagem primeira . Simbolicamente, isso significa que o sentido das mensagens que alguém lê e interpreta depende , em primeiro lugar, do coração que a pessoa tem : se o coração for  pequeno, apequenará o sentido; se o coração for generoso, enriquecerá a mensagem  ; se o coração for ignorante, surdo será a toda mensagem; se o coração for sábio, aprenderá a ouvir a mensagem ( por mais simples que a mensagem seja).

A Constituição Brasileira está fundada na seguinte mensagem:  a “Dignidade da Pessoa Humana”. Essa mensagem  tem sentido político, social, sanitário, educacional...O coração dessa mensagem é a ideia de “pessoa”. Mas pessoa não é o mesmo  que  ego, tampouco é uma dimensão  apenas individual-neoliberal. A própria linguagem  nos auxilia a compreender a dimensão plural da pessoa, pois  existem seis  pessoas: as três pessoas do singular ( eu, tu , ele) mais as três pessoas do plural ( nós, vós , eles). Deleuze  afirma  que há ainda uma “quarta pessoa do singular”, a que se expressa no pronome reflexivo  “se” ( como em  “pensa-se”).

Assim, a “pessoa humana” não é apenas o “eu”, ela é também  o “nós”. Quando a pessoa individual sofre uma injustiça ou se vê no hospital à beira da morte por culpa de um governo genocida, é a pessoa coletiva “nós” que também se vê ameaçada e atingida, pois faz parte desse nós aquela pessoa que o poder trata  como mera estatística. Uma das características de todo poder genocida é  tratar  o nós, o nós coletivo e plural, como um “eles”. Pois o pronome “ele” também pode ser aplicado a uma coisa, como na frase: “onde guardei ele,  o celular?” . O poder genocida reduz toda  pessoa ao “ele” da coisa : para fazer da morte de uma pessoa  apenas  um “CPF cancelado”...

O que caracteriza toda pessoa , e a distingue das meras coisas ,  é a capacidade de pensar, sentir e agir. Não é apenas a primeira pessoa do singular que é capaz disso, também é capaz a primeira pessoa do plural, o nós. Não é somente o  “eu” que tem coração, o nós também precisa ter, pois é desse coração coletivo  que podem nascer empatias, agenciamentos e a  interpretação ativa do que precisamos fazer para mudar uma situação de indignidade e opressão. “Coragem” vem do latim “cor”: “coração”.

Assim, pensa pouco quem apenas diz ensimesmado: “Eu penso, logo existo”. Espinosa ensina que há mais potência libertária quando  conjugamos  o pensar , o sentir  e o agir na primeira pessoa do plural , pois o coração da democracia  é esta mensagem: “nós devemos pensar, sentir e agir  coletivamente para tornarmos nossa existência  social digna”.








quinta-feira, 20 de maio de 2021

Roberto Machado

 

Ontem faleceu o grande professor e filósofo Roberto Machado. Tive a feliz oportunidade de ter sido aluno dele em duas disciplinas: uma no mestrado e outra  no doutorado em filosofia, ambas na Ufrj ( embora eu fizesse os cursos na Uerj, havia a possibilidade de puxar disciplinas para cursar na Ufrj). A disciplina no mestrado foi sobre Nietzsche; a do doutorado, Kant ( mais especificamente, a estética de Kant).

O que me fez buscar  fazer uma matéria com Roberto Machado foi o seguinte fato: quando eu cursava o mestrado, fiz uma matéria lecionada por um professor que também era autoridade religiosa. Era alguém famoso, com muitos livros publicados, que trazia “holofotes midiáticos” para a Uerj, mas a um grande custo. Pois esse professor não preparava aula, praticamente lecionava atrás apenas do nome midiático, e parecia estar mais no púlpito de sua igreja do que na ágora filosófica ( que deve reunir debate argumentado com rigor de pesquisa). Quando ele falou de Nietzsche, por exemplo,  disse coisas que Nietzsche nunca disse ou escreveu. No final do curso, o trabalho que entreguei para ele foi exatamente sobre Nietzsche. O trabalho consistia em trazer a própria fala de Nietzsche. Não fiz o trabalho com a intenção de negar a voz daquele professor, e sim de trazer a própria voz de Nietzsche expressa diretamente em seus textos. Como ensina Espinosa, “a simples presença da ideia verdadeira já destrói a ideia falsa”. O tal professor  deixou os trabalhos na secretaria e afixou as notas num mural, sem esclarecer seus critérios de correção pessoalmente. Quando vi a relação das notas, só havia nota dez, exceto para um aluno: exatamente este que fala com vocês. Foi a pior nota que tirei em toda minha vida. Quando peguei o trabalho para ler as argumentações dele, não havia nada escrito...

Então, fui fazer a matéria na Ufrj com o professor Roberto, reconhecidamente um grande conhecedor de Nietzsche. Ele nos apresentava Nietzsche bem de perto, de tal modo que pela voz de Roberto a gente podia  ouvir a voz do próprio Nietzsche que vinha do livro do filósofo que Roberto mantinha sempre aberto sobre sua mesa na sala de aula. No final do curso, entreguei um trabalho sobre Nietzsche para ele, que era conhecido por ser muito rigoroso em suas avaliações. Para a minha grande alegria, recebi uma excelente nota dele, e no trabalho ele fez observações para que eu pudesse melhorar ainda mais, pois ele fez críticas construtivas.

Eu ainda era bem jovem e estava começando a dar aula. Sem dúvida, as palavras do Professor Roberto Machado me deram força, pois elas me ajudaram também a compreender que aquela “nota” que aquele outro professor me dera não foi bem uma nota, e sim uma tentativa de me calar com uma cicuta.



terça-feira, 18 de maio de 2021

Augusto de Campos: a "não velhez"

 

A poesia de Augusto de Campos -  que fez recentemente 90 anos!

(como diria Manoel de Barros, esse a "velhez" não pega. "Velhez" não é uma idade, velhez é uma vida que se deixa derrotar pelo "mesmal")




domingo, 16 de maio de 2021

ariadnes

 

Na mitologia , o “fio de Ariadne” era uma linha segura  por aqueles que desejavam ir longe, muito longe, pois o fio saía de um novelo inesgotável que não deixava  que se perdessem aqueles que trilhavam caminhos ignorados  pelos mapas. “Ariadne” significa, em grego, “aranha”. Assim como na aranha, é  do ventre de Ariadne que nasce seu  fio artista. 

Ariadne também é o símbolo da Vida  : ventre absoluto, o fio que sai dela é para fazer linhas de fuga. Alguns bordam quadros com tal fio, outros compõem música; há ainda os que fazem versos com esse fio, enquanto outros  tecem filosofias.

O fio se desprende de um novelo. “Novelo” significa: “novo elo”. O ventre de Ariadne é a pura potência para gerar novos elos . Às vezes, porém,  o fio de Ariadne precisa ser descoberto. Certa vez em um hospital psiquiátrico um interno se despiu do uniforme de louco que lhe colocaram, desfez a forma das roupas com significado pronto e acostumado, até achar de novo o fio tal como ele era antes de  um uniforme com  ele ser fabricado. O fio assim encontrado se metamorfoseou em sentido novo a ser bordado: e foi assim que Arthur Bispo do Rosário religou sua vida ao novelo criativo da humanidade inteira,  para assim bordar paisagens, personagens e recriar seu mundo.

O poder autoritário pode até tentar cortar o fio, ou com ele fabricar uniformes para tudo vestir homogêneo. Mas enquanto houver  o existir não conformista,   o  fio cortado pode ainda  ser achado e de novo puxado para com ele se bordar   resistências críticas e criativas. Quando a gente dá as mãos para defender a  democracia, a pluralidade e a liberdade , nós mesmos  nos tornamos elos de um fio de Ariadne puxado do novelo plural da vida.

O fio de Ariadne se opõe ao “fio das Moiras”, divindades que teciam o Destino. Embora não fosse de ferro, o fio das Moiras era férreo: ninguém podia escapar do destino que elas traçavam, às vezes parecendo que elas teciam "camisas de força". O fio de Ariadne, ao contrário, é fio libertário para os que desejam  reinventar destinos.

(Uma pequena homenagem à grande atriz Eva Wilma, na foto com outras Ariadnes como ela, formando de mãos dadas um fio-agenciamento em luta pela defesa da arte e da vida : Eva Tudor, Tônia Carreiro, Leila Diniz, Odete Lara , Norma Bengel e Ruth Escobar)








sábado, 15 de maio de 2021

manoel: liberdade caça jeito

 

Fala-se  muito  hoje  da “condição líquida” das relações humanas. Esse “mundo líquido” revelaria uma carência de  consistência e firmeza, tornando tudo  inconstante , narcísico, superficial e  volúvel  ao extremo, das relações afetivas  à política. Tudo é feito para consumos rápidos, e com a mesma velocidade descartado.

As realidades líquidas  só tomam forma quando  moldadas por um recipiente.  Esse   molde-recipiente  pode ser  uma opinião, uma “Verdade” , um Dogma. Quanto mais  rígido  , mais o molde-recipiente dá a ilusão ao líquido de que ele , enfim, se tornou alguma coisa sólida . Mas um líquido   estagnado logo se turva, assim como  a mente estagnada    pela ignorância .

Muito diferente desse “mundo líquido” é a “água-fluxo” de que fala Manoel de Barros : “Sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.” Essa água é a vida inaprisionável que  nasceu de uma fonte  e busca o oceano , seu horizonte aberto, com a máxima potência que pode. As pedras são os obstáculos que tentam pará-la,  negá-la, desacreditá-la , mortificá-la...Porém  a água corre  e  persevera , criando meios para não deixar morrer  seu fluxo livre.

Enfim, essa água   de que fala o poeta tem consistência, embora não seja rígida; ela é firme em seu avançar, por isso não é estática como a pedra. Quando moldes tolhedores a ameaçam, ela arranja forças e transborda ,  produzindo uma linha  de fuga para que a gente também  avance    fluindo com ela.

Segundo o filósofo Deleuze,  “ linha de fuga”  não é fugir de algo por medo  , linha de fuga é  libertar a nós mesmos de todo  molde estreito que seja menor do que aquilo que  podemos ser e alcançar, individual e coletivamente.

 

“A cisterna contém;

a fonte transborda.” (Blake)




 



- "Libertango": o tango como um fluxo sonoro que se liberta:



quarta-feira, 12 de maio de 2021

sobre a criança e as três metamorfoses em Nietzsche

 

Durante a ditadura militar os milicos ordenaram que se retirasse a filosofia e a sociologia no ensino dos jovens. Os inimigos do pensamento sabem muito bem que nada há de “inútil” nessas disciplinas. Mas eles interferiram também na outra ponta do ensino, retirando Nietzsche e Marx como tema para ingresso nas Pós-Graduações de filosofia.

 O caráter “subversivo” da filosofia é trabalhado muito bem no curta  “Meu amigo Nietzsche”. O filme mostra a amizade que nasce entre uma criança e o filósofo, entre a criança e a descoberta do que há de mais potente nela mesma.

Não por acaso, a “criança” é uma das personagens mais importantes no pensamento de Nietzsche, que dizia  poder  o homem  passar por três metamorfoses : a do burro ( ou “camelo”), a do leão e a da criança.

O burro é aquele que diz “sim” ao que está dado: ele aceita, passivamente, os valores estabelecidos. Sua forma de aceitação é “dar as costas” para carregar. É assim que o burro se sente “útil” : carregando o peso que em suas costas colocaram. Todos nascemos mais ou menos burros, pois carregamos , desde a infância , os valores de um mundo que já achamos pronto, dado. Quando o poder  diz que só se deve ensinar às crianças tabuada e gramática, e nada de artes e filosofia, o que ele quer é manter submissos seus carregadores também no futuro.

O leão pode nascer do burro quando este sofre uma metamorfose, aprendendo a dizer “Não”. Ninguém sobe no dorso de um leão: ele  vê em tudo uma jaula onde querem prendê-lo. O leão  é ferozmente  crítico e cético, imaginando que ser  potente é negar . O leão pode mais do que o burro,  porém  é incapaz de criar , pois para criar é preciso crer. E o leão em nada crê.  O leão imagina que  crer é ser como o burro que ele já foi. Do leão pode surgir nova metamorfose:   a criança, aquela que redescobre a força do “Sim”.

 Pois o Sim da criança não é como o sim alienado  do burro. O Sim da criança sobreviveu ao não do leão, o incorporou como crítica, porém vai além dele, tornando-se afirmação de uma  potência criativa . A criança não carrega, como o burro; nem ruge e ameaça, como o leão. Ela libertou-se de todo peso, corre e dança, e há nela uma força mais poderosa que a dos dentes e garras.

O burro é refém dos valores do  presente que o esmaga e aliena; já o leão nasceu quando este presente virou passado que o leão não quer mais que se repita. Mas a criança é , ao mesmo tempo, metamorfose no presente e libertação do passado em razão de uma  crença ativa  no futuro , uma “linha de fuga”, como criação de novas possibilidades para a vida, a despeito das forças obscurantistas que ameaçam retê-la. Não se trata de otimismo ou esperança:  “Só podemos destruir sendo criadores.”(Nietzsche)






O filme tem vários detalhes muito sutis compondo sua narrativa. Um deles é o nome da autoescola que está no cartaz que o menino lê  : "Freud" ,  o nome da autoescola.  De certo modo, aprender a ler o inconsciente ensina a "dirigir" a vida, e Nietzsche é uma das influências de Freud. Quando o menino potencializa sua escrita e pensamento   a partir da leitura de Nietzsche, ele se encontra na sala de aula com a professora, e no quadro está o desenho a giz ( feito por ele?) de dois corações, cada um com o seguinte nome dentro : Rée e Lou. O primeiro nome é uma referência ao poeta Paul Rée, amigo de Nietzsche, e o outro é o primeiro nome  de Lou Salomé, grande filósofa e pensadora  que namorou Rée. Há uma cena do filme onde também aparece o nome  "Salomé" escrito em um  muro, e perto desse muro há uma carroça que lembra uma famosa foto onde aparecem os três: Nietzsche, Rée e  Lou Salomé. Na foto,  Lou Salomé está  com um  chicote na mão. Isso explica certa passagem na obra do filósofo  muito mal interpretada por leitores apressados, passagem esta na qual Nietzsche diz: "vai estar com as mulheres? Não se esqueça do chicote...". Mas o chicote não é para a mão do homem , como erradamente se interpreta , e sim para a mão da Mulher-Lou-Ariadne  : o chicote como crítica ativa e necessária ao falocratismo  da moral do homem.




“Super-homem” é uma tradução inadequada para o que Nietzsche chama de “übermensch”, uma vez que  diz o oposto do que Nietzsche quis dizer. “Übermensch” não é o homem ainda mais forte e com poder. Pois “über” tem o sentido daquilo que está “acima” ou “além”. Mas não acima como o teto está acima  ou além do chão , ou o  céu acima e além  da terra. O “acima-além” que “über” expressa é como a borboleta que está acima da lagarta, indo além dela em potência  : como realidade nova que está além-acima enquanto metamorfose ou superação  nascida. Assim, a melhor tradução é “Além-do-homem”.