domingo, 1 de novembro de 2026

assim nasceram as artes

 

Assim nasceram as artes: Zeus , a divindade que simboliza a ética e a justiça, venceu em luta as forças da barbárie. Porém, Zeus percebeu que não bastava vencer as forças da  barbárie  naquele presente apenas , era preciso criar uma memória de que se é possível  vencê-las novamente, pois há sempre o risco dessas forças da barbárie  retornarem  de seus bueiros e trevas, reaparecendo disfarçadas com  outros nomes, em outros tempos históricos ( como reapareceram  na Itália fascista, na Alemanha nazista, nas ditaduras militares  da América Latina e suas versões milicianas... ).

Então, Zeus esposou Mnemosyne, a divindade que simboliza a memória. Zeus queria, agenciado com Mnemosyne,  criar uma memória da ética , uma ética da memória, para assim co-memorar , criar memória, de que se é possível vencer a barbárie. Desse amor entre a ética e a memória nasceram então as nove Musas, cada uma simbolizando uma arte.

“Musa” significa: “conhecimento por intermédio das artes”, isto é, um conhecimento que nasce quando se desperta a sensibilidade à ética, à justiça, ao conhecimento, à criatividade e à coragem. Arte no sentido mais amplo , arte como meio de  educação, incluindo a educação política.[1] Pois arte não é distração ou passatempo, arte é a expressão de uma vitória da potência emancipadora  ante toda  forma de barbárie, ontem e hoje.

Uma das Musas se chamava “Clio”, e simbolizava a História: Clio era a arte da memória  a serviço do não esquecimento do passado[2]. Quanto mais um povo esquece seu passado, ou não o compreende, mais as forças da barbárie tiram proveito dessa ignorância e reaparecem como se fossem uma “moral ” ,  “religião” ou “política” novas. Mas se a gente raspar as máscaras sob as quais se escondem esses aproveitadores, veremos o mesmo  sinistro rosto sujo de sangue das forças reativas que Zeus, defendendo a ética e a  justiça,  venceu. 

 O lugar no qual as Musas habitam  se chama “Museu”[3]. Um autêntico Museu, portanto,  nada tem a ver com um  depósito de coisas mortas .  Um autêntico Museu guarda,  protege e co-memora as lutas travadas no passado, lutas essas  que hoje  devem nos inspirar para as urgentes  lutas do presente. São lutas assim que guarda o Museu da Maré ( onde vive o acervo da luta de Marielle) e o Museu Histórico de Bacurau, museu-arquetípico de um Brasil que é muito maior do que o “brazil militarista-miliciano”  cultuador de  armas. O principal acervo desse museu arquetípico é a memória das lutas populares pela dignidade, justiça  , democracia e  soberania.

No Museu Histórico de Bacurau ainda vivem Zumbi, Dandara, Virgulino, Carolina de Jesus, Lima Barreto, Glauber, Cartola, Luísa Mahin...Pois o  principal  patrimônio desse Museu não é o passado, e sim um futuro que ainda nem nasceu. Um   futuro buscado por aqueles que por ele lutaram , e que  devem nos inspirar na luta presente  contra as  forças obscurantistas que nos ameaçam com o retorno de um passado de tortura, censura e medo.

 

Deixo aqui, como epígrafe, versos de dois poetas ( Maiakovski e Manoel de Barros)  que não se conheceram pessoalmente, mas cujas poéticas emancipadoras dialogam através dos tempos, sem perderem a atualidade:

“A arte não é um espelho do mundo, mas um martelo para forjá-lo”. (Maiakovski)

“Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. (Manoel de Barros)

 

Este texto que escrevi é uma versão atualizada de um capítulo deste livro que escrevi:

 

 

Estes dois livros são  apenas sugestões  para quem quiser saber mais:

 



[1] Como educação para a autonomia, como ensina Paulo Freire, despertando o pensamento crítico, sem dúvida, mas sem perder a criatividade. Essa educação também implica uma alfabetização museal que nos permita saber ler os objetos como resultado de práticas sociais, como no filme Bacurau. Nesse sentido, toda alfabetização não é uma autêntica alfabetização se também não for, ao mesmo tempo, uma alfabetização política: “O pior analfabeto é o analfabeto político.”( Brecht)

[2] Em grego, “verdade” se escreve “alethéia”. Essa palavra nasce da junção da letra “a” com função de negação mais   o termo “lethes”, que significa “esquecimento”. Não o esquecimento de qualquer coisa anal, mas o esquecimento do essencial, isto é, daquilo que  nunca pode  ser esquecido. Assim, originariamente “verdade” significa: “não esquecimento”.

[3] Como afirma Tereza Scheiner, o primeiro e mais importante museu que existe é o “Museu Interior”. Nesse museu, portanto, as Musas são a potência da criatividade, da memória, da imaginação e da inteligência conjugados.