Assim nasceram as artes:
Zeus , a divindade que simboliza a ética e a justiça, venceu em luta as forças
da barbárie. Porém, Zeus percebeu que não bastava vencer as forças da barbárie naquele presente apenas , era preciso criar
uma memória de que se é possível
vencê-las novamente, pois há sempre o risco dessas forças da barbárie retornarem de seus bueiros e trevas, reaparecendo
disfarçadas com outros nomes, em outros
tempos históricos ( como reapareceram na
Itália fascista, na Alemanha nazista, nas ditaduras militares da América Latina e suas versões
milicianas... ).
Então, Zeus esposou
Mnemosyne, a divindade que simboliza a memória. Zeus queria, agenciado com
Mnemosyne, criar uma memória da ética , uma
ética da memória, para assim co-memorar , criar memória, de que se é possível
vencer a barbárie. Desse amor entre a ética e a memória nasceram então as nove
Musas, cada uma simbolizando uma arte.
“Musa” significa:
“conhecimento por intermédio das artes”, isto é, um conhecimento que nasce
quando se desperta a sensibilidade à ética, à justiça, ao conhecimento, à
criatividade e à coragem. Arte no sentido mais amplo , arte como meio de educação, incluindo a educação política.[1]
Pois arte não é distração ou passatempo, arte é a expressão de uma vitória da
potência emancipadora ante toda forma de barbárie, ontem e hoje.
Uma das Musas se chamava
“Clio”, e simbolizava a História: Clio era a arte da memória a serviço do não esquecimento do passado[2].
Quanto mais um povo esquece seu passado, ou não o compreende, mais as forças da
barbárie tiram proveito dessa ignorância e reaparecem como se fossem uma “moral
” , “religião” ou “política” novas. Mas
se a gente raspar as máscaras sob as quais se escondem esses aproveitadores,
veremos o mesmo sinistro rosto sujo de
sangue das forças reativas que Zeus, defendendo a ética e a justiça,
venceu.
O lugar no qual as Musas habitam se chama “Museu”[3].
Um autêntico Museu, portanto, nada tem a
ver com um depósito de coisas mortas
. Um autêntico Museu guarda, protege e co-memora as lutas travadas no
passado, lutas essas que hoje devem nos inspirar para as urgentes lutas do presente. São lutas assim que guarda
o Museu da Maré ( onde vive o acervo da luta de Marielle) e o Museu Histórico de
Bacurau, museu-arquetípico de um Brasil que é muito maior do que o “brazil militarista-miliciano” cultuador de armas. O principal acervo desse museu
arquetípico é a memória das lutas populares pela dignidade, justiça , democracia e soberania.
No Museu Histórico de
Bacurau ainda vivem Zumbi, Dandara, Virgulino, Carolina de Jesus, Lima Barreto,
Glauber, Cartola, Luísa Mahin...Pois o principal patrimônio desse Museu não é o passado, e sim
um futuro que ainda nem nasceu. Um futuro buscado por aqueles que por ele lutaram
, e que devem nos inspirar na luta
presente contra as forças obscurantistas que nos ameaçam com o
retorno de um passado de tortura, censura e medo.
Deixo aqui, como epígrafe, versos de
dois poetas ( Maiakovski e Manoel de Barros) que não se conheceram pessoalmente, mas cujas
poéticas emancipadoras dialogam através dos tempos, sem perderem a atualidade:
“A arte não é um espelho do mundo,
mas um martelo para forjá-lo”. (Maiakovski)
“Poesia pode ser que seja fazer outro
mundo”. (Manoel de Barros)
Este texto que escrevi é uma versão
atualizada de um capítulo deste livro que escrevi:

Estes dois livros são apenas sugestões para quem quiser saber mais:


[1]
Como educação para a autonomia, como ensina Paulo Freire, despertando o
pensamento crítico, sem dúvida, mas sem perder a criatividade. Essa educação
também implica uma alfabetização museal que nos permita saber ler os objetos como
resultado de práticas sociais, como no filme Bacurau. Nesse sentido,
toda alfabetização não é uma autêntica alfabetização se também não for, ao
mesmo tempo, uma alfabetização política: “O pior analfabeto é o analfabeto
político.”( Brecht)
[2]
Em grego, “verdade” se escreve “alethéia”. Essa palavra nasce da junção da
letra “a” com função de negação mais o
termo “lethes”, que significa “esquecimento”. Não o esquecimento de qualquer
coisa anal, mas o esquecimento do essencial, isto é, daquilo que nunca pode ser esquecido. Assim, originariamente “verdade”
significa: “não esquecimento”.
[3] Como
afirma Tereza Scheiner, o primeiro e mais importante museu que existe é o
“Museu Interior”. Nesse museu, portanto, as Musas são a potência da
criatividade, da memória, da imaginação e da inteligência conjugados.
