quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Nise e o Museu de Imagens do Inconsciente

 

 

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Um dos meus museus favoritos é o Museu de Imagens do Inconsciente, projeto realizado por Nise da Silveira. Esse museu nos permite compreender também a diferença que há entre informação e comunicação ( termos que são complementares, porém distintos).

Antes de entrarmos nesse assunto, porém, é preciso fazer uma contextualização. Há três disciplinas que, embora possuam nomes semelhantes, estudam objetos diferentes. Essas disciplinas são: a psicologia, a psiquiatria e a psicanálise.

A psicologia estuda o comportamento humano do ponto de vista individual e social[1] , sobretudo a partir da consciência e suas manifestações ( dentre as quais as emoções). Já a psiquiatria é uma área da medicina, e tem por objeto o cérebro. Em geral , os psiquiatras buscam explicações para os comportamentos humanos em elementos químicos ou anatômicos do cérebro. Se um paciente procura um psicólogo porque está deprimido ou ansioso, por exemplo, o psicólogo procura entender a relação do paciente com suas emoções, sua interação ou não com grupos, etc., e  prescreverá terapias que visam mudar o comportamento. Já o psiquiatra prescreverá  antidepressivos ao paciente que o procura com depressão ou ansiedade , sem investigar  em detalhes a vida emocional e social do paciente. O psicólogo considera seu paciente como sujeito, ao passo que o psiquiatra o trata como objeto. Diferente do psicólogo e do psiquiatra, o psicanalista estuda a relação do “analisando”[2] com o seu inconsciente , isto é, com um tipo de realidade que escapa à consciência e que , também, não pode ser explicado apenas pela química do cérebro.

E aqui está o ponto principal que gostaríamos de destacar: o psicanalista “acessa” os conteúdos inconscientes do seu analisando por meios de relatos verbais que este lhe faz. O psicanalista busca, no conteúdo manifesto, sentidos latentes e ocultos que escapam à consciência do analisando, sobretudo porque tais conteúdos trazem sentidos que contradizem a imagem ( idealizada ou não) que o sujeito faz de si mesmo, revelando que o sujeito desconhece a si mesmo e aos seus mais profundos desejos.  E aqui está o paradoxo: a linguagem verbal é o principal meio de acesso ao inconsciente ( porém não é o único) , mas essa mesma linguagem verbal mascara e censura esses mesmos conteúdos inconscientes. Isso exige que o psicanalista seja como uma espécie de “detetive” ( Freud amava as aventuras de Sherlock Holmes) que busca as “pistas” que o inconsciente deixa no  uso que o sujeito faz da linguagem ( os lapsos, os esquecimentos, as trocas de palavras, os silêncios, as censuras ou autocensuras, etc.).

Freud adota uma classificação das enfermidades mentais formulada pela psiquiatria positivista do século XIX, que dividia tais “enfermidades” em dois grupos : as Neuroses e as Psicoses. Explicado  de uma maneira simples, a neurose nasce de um conflito entre a consciência do sujeito e seus conteúdos inconscientes, conflito esse que se expressa  em determinados sintomas portadores de sofrimento ( melancolia, tristeza, fobias, ansiedades, manias...). Ou seja, na neurose o sujeito  mantém sua consciência e sua noção de realidade, não há perda do sentido de realidade. Para Freud, apenas a neurose pode ser tratada pelo método psicanalítico ( ancorado na linguagem verbal) . Segundo ele, somente  a psiquiatria poderia lidar com a psicose.

Há dois tipos básicos de psicose[3]: a paranoia e a esquizofrenia. Em ambas, há perda do sentido da realidade. Para  Freud, quando  há a perda do sentido de realidade, a própria realidade do eu também é perdida, como consequência[4]. No neurótico há o sentido da realidade, mesmo que esse sentido o fruste e o faça sofrer ( não só psiquicamente, mas  também fisicamente por intermédio de somatizações: uma enxaqueca, por exemplo, pode ser a somatização de uma neurose).

Por perder o sentido da realidade, o psicótico não consegue elaborar simbolicamente suas vivências por intermédio da palavra, isto é, por meio do simbólico. É essa perda do sentido da realidade que leva o psicótico a delirar. Delírio não é mesma coisa que “fantasia”. Em geral os neuróticos fantasiam bastante[5], uma vez que as fantasias funcionam como uma espécie de fuga , uma fuga temporária, da realidade frustrante. Mas o delírio é uma fantasia sem freios, na qual os produtos da imaginação delirante são tomados como se fossem realidade. De maneira geral, os delírios dos paranoicos são auditivos ( eles ouvem coisas), enquanto  que dos esquizofrênicos são visuais ( eles veem coisas). Há a possibilidade também de essas enfermidades se juntarem em uma mesma pessoa, tal como se pode ver no esquizo-paranoide[6] .

Enfim, os psicóticos são incapazes de estabelecer relações sociais, segundo Freud. Na visão  desse mesmo autor, os psicóticos são fechados neles mesmos, vivem um mundo à parte e, por essa razão, seriam incapazes de se comunicarem.

Inicialmente, Jung trabalhou com Freud. Mas divergências profundas o fizeram se afastar do pai da psicanálise para assim trilhar um caminho próprio[7].  O principal ponto de divergência era a ideia que cada um tinha acerca do inconsciente. Freud concebe o inconsciente como uma instância individual cujos conteúdos são preponderantemente de natureza sexual[8], já Jung defendia que o inconsciente é constituído por aquilo que ele designará como “arquétipos”, indo além da mera natureza sexual. Os arquétipos são construções originárias do inconsciente coletivo. “Arqué-tipos”: “tipos originários”.  

Nise da Silveira, a idealizadora do Museu de Imagens do Inconsciente, era psiquiatra de formação. Contudo, logo ela rompeu com a psiquiatria , considerando que essa ciência era mais uma forma de  poder coercitivo sobre o ser humano do que uma prática que promovia a humanização. Por outro lado, a psicanálise também não a satisfazia, uma vez que seu interesse clínico era sobre a condição psicótica ( dos internos das instituições psiquiátricas) , condição essa que a psicanálise considerava impossível de receber tratamento. Por esses e outros motivos, foi em Jung [9]que Nise encontrou um suporte teórico para empreender sua prática revolucionária na terapêutica dos psicóticos.

Ao contrário do que imaginava Freud, os psicóticos ( que o senso comum chama de “loucos”) não são ilhas incomunicáveis. Na verdade, eles perderam a capacidade de se comunicar por meio das palavras. Mas as palavras atingem apenas a ponta do iceberg da alma humana[10], elas não alcançam as camadas mais profundas , as instâncias inconscientes.

 Mas há um tipo de linguagem que consegue alcançar essas profundezas, já que essa forma de linguagem se origina  de lá. Quando sonhamos, por exemplo, mergulhamos em tal linguagem. Quando acordamos, saímos de tal mundo das imagens  oníricas e vamos viver a realidade ; porém os psicóticos são tomados por tais imagens enquanto estão acordados, de tal modo que eles sonham de olhos abertos , mas sem saberem que estão sonhando .

Nise se refere às imagens como essa linguagem originária que comunica conteúdos profundos . Mais do que as palavras, são as imagens o tipo de linguagem que mais perto chega do inconsciente coletivo. As poesias de Homero e Hesíodo, bem como toda a mitologia,  estão repletas dessas imagens-arquétipos: a imagem do sol como símbolo arquetípico do Bem, a imagem-arquetípica do navio ( ou barca) como símbolo da alma em sua viagem na existência, a imagem-arquetípica da caveira como símbolo da morte, etc. Enquanto as palavras são símbolos pertencentes a determinada língua de um povo específico, as imagens ultrapassam essas barreiras nacionais e linguísticas, tornando-se , desse modo,  a linguagem universal da humanidade.

Ao invés de manter os psicóticos presos  e o tempo todo anestesiados por psicotrópicos pesadíssimos que os faziam parecer  coisas inertes, Nise criou  um  ateliê de arte dentro da instituição psiquiátrica na qual trabalhava[11] , espaço no qual eles podiam pintar, esculpir, enfim, se expressarem  e comunicar. A prática de Nise comprovou sua teoria principal: a de que os chamados psicóticos também se comunicam, uma vez que eles falam, por imagens, a língua universal dos arquétipos. É uma comunicação rica e profunda, que dificilmente se deixa reduzir à mera informação. Nise descobriu que  mesmo nunca tendo lido Homero, Hesíodo ou mitologia, os internos pintavam e esculpiam imagens que lembravam as imagens[12] narradas por esses poetas originários, o que levou Nise a defender , conforme a teoria de Jung, que havia um inconsciente comum a Homero, a Hesíodo, aos internos, enfim, um inconsciente coletivo do qual  toda a humanidade faz parte.

Assim, ela recuperou a humanidade e dignidade dos internos, fazendo-os obter conquistas consideráveis de saúde mental , muitos parando de tomar remédios psiquiátricos.

O Museu de Imagens do Inconsciente nos ensina que um museu não apenas documenta, preserva, comunica e educa, um museu também pode ser um agente auxiliar de cura, ao mesmo tempo nos mostrando a riqueza , incomensurável em palavras,  que pode ter a comunicação humana.

 

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Nise da Silveira dizia que nossa saúde mental , ou a falta dela, depende  mais do que fazemos com nossas mãos do que daquilo que teorizamos com nossa mente .

Talvez  por isso  , depois de filosofar, Espinosa se dedicava a fabricar e  polir  cuidadosamente lentes, como um simples artesão empregando suas mãos.

Após abstratos raciocínios lógicos, Wittgenstein fechava  os livros para ir plantar  flores no jardim de uma escola, feito um jardineiro.

Deleuze costumava desenhar linhas de fuga entre as aulas, nisso se assemelhando a um cartógrafo.

Plotino deixava  seus solitários  estudos metafísicos para  ir alimentar com as próprias mãos pequenos órfãos, como se fosse um cozinheiro.

Depois de escrever  profundas páginas que , segundo dizem, até lhe arrancavam lágrimas ,   Heráclito construía lúdicos   brinquedos de madeira para as crianças,  reinventando-se carpinteiro.

Mas talvez ninguém tenha ido mais longe com as mãos do que Arthur Bispo do Rosário. Desfazendo a forma das roupas e uniformes com os quais o poder excludente o vestia,  Bispo do Rosário  desconstruiu  essas fôrmas , fôrmas físicas e simbólicas, até (re) descobrir o fio livre que ali estava preso.

Com sua mão sendo o instrumento para libertar criativamente sua mente,  Bispo do Rosário reinventou  um Fio de Ariadne para bordar sua  linha de fuga:  e por esse fio , Fio do Afeto,  nossa mente também se liberta , horizonta[13] e sara.

Sobretudo para aqueles cujo pensamento ousa ir muito longe em busca de terras novas, para ele não se perder, é bom mantê-lo unido a mãos que tocam, transformam ou cuidam da realidade próxima.

São essas mãos solidárias que também nos protegem   da “mão invisível” do mercado (que  apenas sabe contar dinheiro, sem se importar eticamente de onde ele veio); e é igualmente  de mãos dadas com essas mãos educadoras que podemos mais  do que aqueles  que, querendo nos pôr medo, só sabem usar as mãos para segurar armas.

Enfim, somente  mãos que conduzem, cuidam ,alimentam ou transformam  podem ser    a afetiva âncora do pensamento no aqui e agora, sem fazê-lo perder o horizonte aberto  para o qual sempre se desterritorializa e decola .



[1] Um ramo recente da psicologia é a psicologia social.

[2] Muitos psicanalistas não gostam da expressão “paciente”, uma vez que tal ideia conota  “passividade”, e a psicanálise objetiva tirar as pessoas da passividade.

 

[3] “Psicopata” ou “sociopata” não são o mesmo que “psicótico”. Os psicopatas estão na fronteira da psicose, mas não são psicóticos. Os psicopatas e sociopatas têm o sentido da realidade, eles sabem o que fazem, e por isso são , em geral, manipuladores , dissimulados e carentes de empatia, embora muitas vezes saibam usar as palavras de forma persuasiva e “sedutora” , obtendo adesão por parte de pessoas inseguras e carentes afetivamente. Via de regra, líderes de seitas ( religiosas ou políticas) são psicopatas.

[4] “Esquizofrenia” tem por raiz “esquizo”: “fendido” ou “rachado”. O esquizofrênico tem seu eu fendido, rachado, como uma porcelana que se quebraria  e não recuperaria mais sua unidade.

[5] Um exemplo disso é o personagem principal do filme “Beleza Americana”.

[6] No filme Clube da Luta, o personagem principal, interpretado por Brad Pitt,  era esquizo-paranoide. Ou melhor, o personagem encenado por Edward Norton era um esquizo-paranoide com seu eu rachado, e uma dessas partes rachadas delirava ser o personagem encenado pelo Brad.

[7] Jung criou a Psicologia Analítica. Na verdade, seu método vai muito além da  psicologia tradicional , uma vez que suas análises descobrem e investigam uma “psicologia profunda” ,mais coletiva do que individual. O fundamento dessa psicologia profunda é o que Jung chamou de “inconsciente coletivo.”

[8] Não se deve confundir “sexualidade” com “sexo”. A sexualidade é uma energia que se manifesta desde os primeiros anos de vida, muito antes de os órgãos genitais estarem desenvolvidos e aptos para o ato sexual. Freud designa essa energia como “libido”, sendo de natureza inconsciente.

[9] O encontro com o filósofo Espinosa também foi fundamental para Nise. Ela narra esse encontro no livro Cartas a Espinosa ( recentemente, participei como palestrante do evento de lançamento da nova edição desse livro, evento que  aconteceu no Museu de Imagens do Inconsciente).

[10] Nise se refere à palavra cotidiana e prosaica, não à palavra tal como é vivida sobretudo pelos poetas e artistas, uma vez que, neles, a palavra muitas vezes se torna um meio para se mergulhar no inconsciente.

[11] No início, ela encontrou grande resistência dos psiquiatras, que não aceitavam  esse novo método terapêutico centrado na ocupação pela arte ( também chamado de terapia ocupacional).

[12] A linguagem por palavras igualmente é capaz de construir ricas imagens. Essas imagens também se apresentam sob a forma de “figuras” : as “figuras de linguagem”, tais como a metáfora, a metonímia, a alegoria, a hipérbole, etc. A linguagem poética, por exemplo, é rica de figuras de linguagem. Conforme texto-aula que escrevi ( “Objetos metafóricos, objetos metonímicos”) , os objetos também podem ser pensados como expressando , ou “presentando”, tais figuras de linguagem, pois linguagem é mais do que “língua” ( conforme tento mostrar no texto-aula “Linguagem X Língua").

[13] A expressão “horizonta” é tomada de empréstimo do poeta Manoel de Barros, que dizia ser a poesia a linguagem dos “horizontamentos”, isto é, uma linguagem de aberturas para o mundo, uma linguagem que vai além do ego e seus interesses limitados.




terça-feira, 7 de novembro de 2023

as duas mãos...

 

Em épocas remotas, um certo ser estranho que mal se distinguia dos primatas pegou o osso de um fêmur e dele fez uma arma. Assim se materializou, pela primeira vez, o poder sob a forma de ameaça de destruição e morte feita ao semelhante.

Essa mesma mentalidade ameaçadora e destrutiva depois se armou com pau,  flecha,  bala,  pólvora,  canhão ,  mísseis...Até chegar ao grau máximo dessa macabra involução : a guerra como instrumento do genocídio .

A mão daquele proto-primata que fez do osso uma arma é a mesma  que , hoje, aperta o botão que lança mísseis contra crianças  inocentes.  Essa mão perdeu os pelos, as unhas estão cortadas : ela se tornou a mão do homem branco que se autointitula “civilizado”. Mas impulsionando  essa mão coberta de sangue inocente  está o mesmo impulso cego e  irracional do proto-primata.

Porém  naquela mesma época primeva outros se valiam das mãos para criarem arte na parede das cavernas.  Eram os ancestrais dos artistas e educadores, que faziam da parede das cavernas a ancestral das lousas e telas.

De um lado, as mãos destrutíferas a serviço  da morte; de outro, a mão criadora-artística afirmadora da vida.

Alguns teóricos “utilitaristas”, quase todos estadunidenses,  consideram que a guerra é o preço a ser pago pelo progresso material da humanidade. Eles elencam  vários apetrechos tecnológicos que “evoluíram” a partir da guerra.

Ou seja,  esses teóricos “pragmático-realistas” consideram que a guerra não apenas destrói, ela também construiria tecnologias que , após a guerra, melhoram a vida do homem no planeta. Em geral, esses teóricos consideram que a mão da guerra, e não a mão artística, seria aquela que , no fim das contas, produziu a “evolução” da humanidade.

Porém, esse raciocínio que associa guerra a progresso se mostra absurdo quando se considera o último fruto dessa árvore da violência: a arma atômica com poder para destruir o próprio planeta e a humanidade inteira.

Portanto,  é uma ignorância falaciosa  usar os raciocínios para tentar justificar a existência da irracionalidade, sobretudo essa que hoje ameaça o planeta, seja pela guerra , seja   por um sistema econômico desumano-predador, que são as duas faces da mesma moeda da involução iniciada naquele fêmur ameaçador.

A guerra nos mostra que a evolução tecnológica pode estar a serviço de uma involução que  faz o homem regredir a uma mente semelhante àquela do proto-primata, ainda mais agravada pelo fanatismo religioso messiânico.

A humanidade não começou naquele fêmur levantado em ameaça, ela começou naquelas mãos que transfiguraram a realidade em arte, em linguagem, em cor e forma. E foram essas mesmas mãos que , exercendo o cuidado, ampararam o  semelhante ferido com o fêmur quebrado ( certa vez, perguntaram à antropóloga Margaret Mead quando começou a civilização, e ela respondeu dizendo que a primeira evidência de civilização foi um fêmur  fraturado  de 15.000 anos encontrado curado   em um sítio arqueológico). 



 

Sartre : a consciência e o espelho

 

                                                                                                A consciência não é uma negação do Ser,

ela está em contradição com o Ser.

Pois o Ser é, e a consciência não é: ela tem de ser.

                                                                                Sartre     

 

É comum  um filósofo empregar imagens para exemplificar um conceito . Essas imagens são mais do que meras metáforas, elas cumprem uma função didática importante, pois despertam também a sensibilidade e mesmo a imaginação. É o que faz Platão com sua Alegoria  da Caverna .  Nietzsche, por sua vez, expõe sua filosofia por intermédio de potentes imagens em Assim falou Zaratustra . Ao falar do “burro”, do “leão” e da “criança” nessa obra Nietzsche não está a falar literalmente desses seres. Ele os emprega como imagens de possibilidades da vida.

Somente o que é composto pode ser definido. Por exemplo, quando defino “Homem” como “animal racional” reconheço que “Homem” é a composição de duas coisas: “animal” e “racional”. Assim, de algo simples não pode haver uma definição. Isso significa que o simples é impensável?  Não exatamente. Pois o pensável não é limitado apenas ao que pode ser definido. O simples não pode ser definido, porém ele pode ser “clareado”[1]. A função didática das imagens ou metáforas , quando bem empregadas, é ajudar a clarear a compreensão de realidades singulares. Esta é também  a função do pensamento: clarear realidades que não se podem definir, apenas pensar. Isso se aplica à consciência. A consciência não pode ser definida , ele pode apenas ser clareada. Clarear é pensar o sentido .

A consciência não é o Ser, ela é o Nada. Há uma frase famosa de Heidegger que Sartre  retoma e amplia: “O Nada nadifica”. O que é nadificar? Somente a consciência pode nadificar. Ela nadifica o Ser. A consciência nadifica o Ser de duas maneiras sobretudo: por intermédio   da negação e da interrogação. Por exemplo,  entro na sala e procuro por João. Há várias pessoas na sala, porém João não está. Olho para as  pessoas  e vejo algo impossível de se ver: eu vejo a ausência de João. Ver a ausência de João é, ao mesmo tempo, negar a presença de todos que estão ali. Ou seja, eu nadifico o Ser que a percepção me oferece. Nadificar não é destruir fisicamente. Nadificar é projetar o nada sobre o Ser, o Nada que a consciência é, mas sem nada  alterar o Ser em seu ser. Pois quando nadificamos não é o Ser que se altera, somos nós mesmos que nos mostramos .

Sartre emprega uma imagem muito  rica para falar da consciência: trata-se do espelho. A consciência, diz Sartre, é semelhante a  um espelho.  Um espelho é uma superfície sem profundidade. A consciência, diz Sartre, também não possui profundidades. Um espelho não existe em si, ele existe para refletir realidades diferentes dele. Um espelho reflete a realidade de outras coisas. Um espelho é sempre espelho de outra coisa diferente dele mesmo. Assim é a consciência: ela é sempre consciência de outra coisa. Esta é a lição que Sartre aprendeu da fenomenologia: a consciência não é alguma coisa, ela não é uma substância, como imaginava Descartes. A consciência é sempre consciência de alguma coisa: ela está sempre “voltada para”. Esse “para” tem dois sentidos interconectados. Primeiramente, a consciência é sempre consciência voltada para alguma coisa . Nesse sentido, ela  tem sempre uma direção, como uma seta ( ® ) . E é esse estar voltada para alguma coisa que define a sua “intencionalidade”. Não por acaso, o símbolo da intencionalidade é uma seta  ( ®)  que parte da consciência e se direciona para o mundo. Por outro lado, esse “para” que define a consciência tem um sentido mais sutil, solidário com o primeiro sentido. A consciência nunca é em si, isto é, algo que existe independentemente de todo o resto. Ela é “para si”, ou seja, tudo o que ela percebe existe sob o modo de existência dela. O que seria a realidade independentemente de uma consciência? Essa é uma pergunta que uma consciência não tem como responder. 

A consciência é sempre, e antes de tudo, presença a si. A pedra não é presença a si, ela é apenas presente. Não se deve confundir, portanto, presença e presente.  Por exemplo, quando o professor faz a chamada o aluno responde acusando sua presença. A presença é sempre presença a alguma coisa. A presença é a consciência de se estar presente no mundo. A pedra não tem consciência de si, e por isso não tem presença. A consciência somente é consciência do mundo sendo também presença a si. A presença também é transcendência ao que está dado como presente.

Assim como um espelho, a consciência reflete o mundo. A partir dessa relação consciência-mundo Sartre definirá três modos de a consciência aparecer para si própria. A consciência é uma só, porém pode aparecer de três maneiras diferentes :  consciência irrefletida, consciência reflexiva e consciência pré-reflexiva. Falaremos aqui das duas primeiras modalidades da consciência. Devido à sua riqueza e complexidade, deixaremos para um próximo texto-aula a explicação da consciência pré-reflexiva, também chamada por Sartre de consciência espontânea ou consciência de terceiro grau.

A consciência irrefletida é aquela que se confunde com o próprio objeto do qual tem consciência. Ela seria como um espelho que não se percebe como um espelho, imaginando que é a própria coisa ou ser que se reflete nele. Em A Náusea, Sartre  emprega a imagem do “viscoso” para falar dessa consciência. Sempre que tentamos pegar algo viscoso ele gruda em nós e nos impregna com seu modo de ser. Na consciência irrefletida o mundo gruda na consciência, de tal modo que esta não percebe a si mesma como algo diferente do mundo ou do objeto que nela se reflete. Em O Ser e o Nada , Sartre dá o exemplo do “ciúme”. O ciumento é aquele que se torna o ciúme, como se este o fisgasse e lhe desse uma essência, uma definição. Quando os homens se autodefinem e colocam para si uma essência, mesmo que seja uma essência   que lhes seja desfavorável, assim o fazem porque não descobriram ou fogem do seu “nada”, isto é, de sua consciência enquanto projeto de ser que nunca será um ser como aqueles que vêm se projetar na consciência.

Imaginemos agora um espelho que soubesse separar , dele mesmo, o reflexo das coisas que nele se refletem . Um espelho que se soubesse espelho. Um espelho assim não deixaria de espelhar as coisas que não é, porém ele se saberia “outro” que o mundo. Ele mesmo seria para ele um outro: espelho que reflete o mundo e espelho que reflete a si mesmo enquanto espelho que reflete o mundo. Um espelho assim não seria apenas reflexo do mundo, mas reflexão sobre si mesmo enquanto reflexo do mundo.

“Reflexão” significa: “dobrar-se sobre si mesmo”. Nasce assim o que Sartre chama de “consciência reflexiva”. Como toda consciência é sempre “consciência de alguma coisa”, a consciência reflexiva é a consciência que toma a si mesma como objeto de consciência. É aqui que nasce o ato de julgar a si mesmo. Quando o ciumento toma consciência de que ele não é o ciúme, embora este o tenha dominado, somente assim o ciumento pode, quem sabe, libertar-se do ciúme. A consciência reflexiva torna o homem capaz de rever seus comportamentos e avaliar suas escolhas. Enquanto a consciência irrefletida é refém do presente ( daquilo que Espinosa chamava de “afecções), a consciência reflexiva estabelece uma relação fundamental com o passado: a consciência reflexiva é consciência do “ter sido”. Em geral, é capaz de reflexão quem avalia seu passado . Não como um passado que foi, mas sim como   passado que é.

Para Sartre, o passado constitutivo da consciência reflexiva não se confunde com o passado enquanto objeto da memória. Esse passado imanente à reflexão não é um objeto, ele é a própria consciência que toma consciência de si como um “tendo sido”  que já não mais é. A consciência põe a si mesma, ao mesmo tempo que transcende a si mesma ( ela se nadifica : põe-se como objeto e transcende a esse mesmo pôr-se). Enquanto na consciência irrefletida prepondera um “eu” com “e” minúsculo, um “eu” passional e irrefletido, na consciência reflexiva surge o “Eu” com “E” maiúsculo com capacidade de julgar acerca de si mesmo. Também aqui, a consciência se compreende como VALOR (no sentido ético-moral do termo).



[1] A expressão “clarear” é empregada pela fenomenologia como sinônimo de “pôr algo sob a luz”. No caso, a luz do entendimento. Assim, mesmo realidades que não comportam uma definição lógica-analítica, elas podem ser, no entanto, pensadas-clareadas.     



                                                       

domingo, 5 de novembro de 2023

O humanismo de Sartre

 

Sartre foi um dos maiores pensadores  de todos os tempos. Porém, ao invés de teorizar nas academias,  ele preferia escrever e filosofar nos cafés e ruas .  Já perto do fim da vida, quando passava por dificuldades financeiras, Sartre ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, que pagava uma  fortuna. Mas Sartre recusou o prêmio, dizendo que jamais se deixaria comprar pelo dinheiro  burguês.

Sartre  foi muito perseguido pelos intolerantes religiosos da época. Gritavam para ele: “comunista, ateu!”, como se isso fosse o pior dos xingamentos. Sartre respondia que , antes de tudo,  ele era  um humanista.

Sua fé era na história e no ser humano, embora dissesse que o ser humano ainda era apenas um projeto a ser criado, cuja criação dependia que se transformasse a sociedade para  libertá-la das garras dos homens que são lobos de  outros seres humanos.

Sempre provocativo, Sartre dizia mais ou menos o seguinte:

“Sou humanista, porém combato o poder falocrático e predatório do homem.  Pois  se nós perguntássemos às florestas o que elas acham  desses homens que as derrubam por ganância, e se pudessem falar, as árvores diriam: esses predadores não são seres humanos, eles são demônios! Se indagássemos  aos mares e rios o que eles acham que são os homens que os poluem com lixo industrial , os mares e rios diriam: são demônios esses poluidores! Se perguntássemos aos animais que são caçados e exterminados por caçadores  que arrancam  suas peles , cortam suas asas e decepam  suas cabeças por mera diversão doentia,  se perguntássemos a eles o que  é o homem, esses animais diriam: é uma besta,  um demônio! Como um ser  assim, que massacra seus semelhantes em guerras fratricidas, como pode um ser assim   se proclamar à imagem e semelhança de um Deus que ele diz ser  do Amor? De minha parte, busco construir um humanismo em relação ao  qual os bichos, as árvores, os rios, enfim, a própria terra   não veriam nesse humanismo um  carrasco  , mas um amigo e aliado . E o mais importante: no  humanismo que defendo, o amor e a fraternidade entre os seres humanos não dependeriam de um Deus iracundo  que a isso obrigasse. Pois meu humanismo é  liberdade .”

Quando Sartre faleceu, seu cortejo fúnebre percorreu as ruas lotadas de Paris, milhares de pessoas foram se despedir do filósofo. Nem todos os que ali estavam concordavam com ele, tampouco compreendiam totalmente seus escritos.

Mas o afeto presente em cada uma daquelas pessoas do povo era o testemunho da seguinte lembrança : quando Paris foi ocupada pelos nazistas e seu terror, Sartre não se escondeu, ele resistiu e lutou , sempre à frente e com coragem, mesmo quando a liberdade e a paz pareciam apenas um sonho, uma utopia. Ser livre, dizia Sartre, é se engajar na luta contra os inimigos da liberdade.

Influenciado pelo existencialismo de Sartre, Caetano assim cantou: “Existimos, a que será que se destina?”, “Vida sem utopia, não entendo que exista...”

 








Trecho do filme Waking life sobre o existencialismo: 


sábado, 4 de novembro de 2023

os pré-socráticos

 

Quem o mais profundo pensa,

ama o mais vivo.              

                            Hölderlin

 

É com Aristóteles que a metafísica é formatada. No entanto, Aristóteles tem o hábito de sempre refutar os filósofos que o antecederam, para assim oferecer  o que ele acredita ser a melhor resposta. Quase todas as obras de Aristóteles, portanto, iniciam-se com o filósofo recapitulando as ideias dos filósofos que o antecederam. Assim procede Aristóteles quando escreve sobre a Física, a Ética  e não seria diferente com a Metafísica.

Contrariamente aos pré-socráticos, que afirmam que tudo é physis , Aristóteles  concorda com Platão quando este diz que faltou aos pré-socráticos uma compreensão do mundo imaterial onde repousa a autêntica realidade. Contudo, Aristóteles refuta Platão quando este professa que o mundo da physis é uma pura ilusão e que o Imaterial reside em outro mundo, um Mundo Inteligível de Ideias Puras.

Aristóteles concederá aos pré-socráticos alguma razão, embora também os refute. E o mesmo procedimento terá com Platão: em parte concordando com o autor de Timeu , em parte dele discordando. Para Aristóteles, o Imaterial não está afastado da physis. A realidade é composta tanto do material quanto do imaterial, embora a realidade primeira seja a realidade Imaterial. Aristóteles  chamará de “substância” a união dessas duas realidades. E é na realidade material que se encontra a principal característica do mundo sensível: o movimento. Então, para compreender como Aristóteles chegou às suas formulações metafísicas, é preciso compreender os pré-socráticos, ainda que brevemente. E é isso que faremos à frente. 

 

- Os primeiros filósofos e a filosofia

O nome “pré-socráticos” expressa um conjunto heterogêneo de pensadores. O termo “pré” não significa que eles vieram exatamente “antes” de Sócrates no tempo. Ao contrário, alguns lhe foram contemporâneos. Assim, o termo “pré” designa uma visão da filosofia que toma Sócrates como referência e padrão. Outros ainda empregam  a expressão “pré-platônicos”, uma vez que tomam Platão como o início da filosofia.

É errada a visão que considera inexistir nos  pré-socráticos uma reflexão sobre o ser humano. Entretanto, a maior dificuldade  para a  reconstrução  dessa visão que eles possuíam do homem repousa na escassez de fontes. Poucos escritos dos pré-socráticos chegaram até nós. Sabe-se, por exemplo, que Demócrito , o atomista, teria escrito bem mais que Platão! Todavia, apenas fragmentos nos chegaram.

Segundo  argumentam Deleuze e Guattari no livro O que é a Filosofia? ( Editora 34), é com os pré-socráticos que surge, pela primeira vez, o termo “filósofo”. Este termo nasce  mais especificamente com Tales de Mileto[1]. O filósofo veio ao mundo  antes da filosofia. O filósofo surgiu em um espaço “entre” o Ocidente e o Oriente, pois foi nessa área limítrofe das colônias da Grécia que o filósofo apareceu. Há algo do Oriente em Tales, isto é, há nele um tipo de sabedoria que não se apoia apenas em conceitos. Há nele a poesia, a alegoria, a linguagem simbólica – acompanhadas de uma intuição profunda, quase mística. Enfim, o filósofo também era, em seu berço, um poeta. Muitos pré-socráticos, até mesmo Parmênides, evocam as Musas para inspirá-los. Pitágoras, apesar de matemático, criara uma doutrina esotérica acerca da transmigração das almas, o que faz dele o primeiro filósofo a acreditar na imortalidade da alma .

A filosofia, sustentam Deleuze e Guattari,   nasceu um pouco mais tarde. A filosofia surgiu após já ter nascido o filósofo.  Enquanto este apareceu às margens da Grécia, a filosofia é fruto genuíno de Atenas, o coração do Ocidente. Para a filosofia emergir, foi preciso que o filósofo perdesse essa aura poética e mística,foi necessário que ele deixasse de ser um sábio:foi preciso que ele desse as costas para o Oriente místico.

A filosofia aparece  somente em Atenas, no auge da Grécia Clássica.A filosofia nasceu em um determinado meio político ávido por debates e disputas verbais. A Grécia de então era um meio atravessado por rivalidades de toda ordem. Nesse ambiente  era fundamental a constituição de associações. Nasce então  uma ideia muito especial de “amizade” que será considerada a base da filosofia. A filosofia seria um exercício dialogado entre aqueles que buscam a sabedoria tendo como elo uma forma muito especial, não privada, de amizade.Na Grécia Clássica, o filósofo se torna um “amigo da sabedoria”, um “amigo do conceito”. Enquanto amigo do conceito, o filósofo vai também  defender o conceito dos seus “falsos amigos”: os meros sofistas. Um amigo,um verdadeiro amigo,nunca faz seu amigo de meio para obtenção de coisas materiais. Segundo pensava Platão, os sofistas faziam da sabedoria um meio para obtenção de fama e dinheiro. Na verdade, então, eles não faziam sabedoria,mas”falsa sabedoria”, uma “aparência de sabedoria”. Sócrates, Platão e Aristóteles dedicaram boa parte de seus ensinamentos para refutar esses falsos amigos do conceito.

No Banquete, porém, Platão demonstra que o termo “philia” , presente em “philosophia”, não designa apenas “amizade”. “Philia” também significa , de forma mais profunda, “amor”. De maneira provocativa e sutil, Platão quer com isso dizer que o filósofo não é apenas um amigo do conceito: ele também é um amante do conceito, ele é um enamorado do saber. Enquanto “amigo do conceito”, podem aparecer rivais,como os sofistas.Mas como amante do conceito, o filósofo não tem rivais, uma vez que ele e a sabedoria formam uma unidade cujo elo é o amor. Aqui, Platão reata com certo misticismo pré-socrático de fundo pitagórico , no qual tinha grande importância a intuição silenciosa do Bem,isto é, daquilo que  a mera palavra não alcança (  mais tarde ,  Plotino e Santo Agostinho dedicarão belíssimas páginas a esse tema).

Esse aspecto de amante da sabedoria dará ao filósofo uma condição de “estrangeiro”, ou seja, de alguém que não se deixa determinar pelas convenções de uma determinada pólis. Sem dúvida, Sócrates é um personagem importantíssimo nos diálogos de Platão, talvez o mais  relevante.Todavia, importante também é o personagem apenas designado como “o estrangeiro”, isto é, aquele que porta uma fala que transcende ao estabelecido pelas leis e costumes que os homens estabelecem, de forma convencionada , em uma determinada pólis. O filósofo é atopos: inclassificável segundo um topos, segundo um lugar.

Se a condição de “amigo” liga o filósofo aos homens, nascendo assim questões pedagógicas e políticas,  a condição de “amante” o liga ao divino que imortaliza sua alma, fazendo-a conhecer e viver a união amorosa com o Celeste.

 

- Principais pré-socráticos

Apesar da diversidade de doutrinas que caracteriza esse grupo de filósofos, uma questão pode ser apresentada como sendo a característica geral dos pré-socráticos: a busca pelo Um. Diante da multiplicidade de aspectos que a natureza apresenta aos órgãos da sensibilidade, os pré-socráticos buscavam a unidade que tornaria essa multiplicidade pensável e inteligível. A esta unidade eles deram um  nome: arqué. Este termo grego possui uma rica carga semântica. Os principais sentidos atribuídos a arqué são: origem, princípio, comando e causa. Os pré-socráticos empregavam arqué no sentido de causa. Perguntar sobre a  arqué era indagar acerca da causa que gerou tudo o que existe.

Diante da multiplicidade de aspectos cambiantes que nossos sentidos testemunham, o pensamento se erguia diante dessa multiplicidade e fazia uma exigência: o Um, a arqué, a causa. A pré-socrática representou o primeiro momento de tematização de um problema que acompanhará toda a filosofia , de Tales de Mileto  a Deleuze: as relações entre o Um e o Múltiplo. Se o múltiplo constitui a realidade tal como ela se apresenta aos sentidos, alcançar o Um exige outro instrumento distinto da sensibilidade. Assim, emerge igualmente nesse período uma visão de que o homem é constituído por dois princípios: a sensibilidade, necessariamente ligada ao múltiplo, sendo ela própria múltipla, e o Logos, este igualmente Um, tal como a arqué. Assim, seria o Logos o instrumento que poria o homem em contato com a arqué, com o Um.

Os primeiros pré-socráticos estão ainda muito próximos da poesia. Há neles uma visão do caráter divino da natureza. Em grego, natureza é “physis”, palavra esta cujo sentido  se reporta ao processo de  “nascer” ou “brotar”. Mais do que se pautarem pela abstração dos conceitos, eles ainda se apoiam em imagens, apesar de já se fazer presente a exigência de racionalização comandada pelo Logos.

Tales de Mileto dizia que “tudo é água”. A água seria a arqué da qual tudo nasceu. Como ele chegou a essa posição?Após a chuva, ele percebia que a natureza se renovava ou renascia. Quando estão saudáveis, os olhos estão sempre umedecidos. Do mar vêm vários seres vivos. A placenta, que é o primeiro berço de todo ser vivo, é um reservatório de água. As fontes trazem vida aos desertos. Assim, onde está a água se encontra  a vida. Por outro lado, Tales  constatou que tudo o que morre e definha vai perdendo água e secando. A terra sem umidade se torna estéril. Enfim, Tales intuiu que a água é o princípio da vida. Então, existe a água visível em suas mais variadas formas. Mas existe ainda a água enquanto arqué ou causa de tudo o que existe. Esta água universal não tem um aspecto particular, e só o logos intuitivo a pode apreender. Ela não é doce ou salgada: ela é simplesmente água, a pura água que apenas o pensamento pode intuir e conceber.

Heráclito, por sua vez, afirma que o fogo é a arqué ou o  Um do qual tudo é feito. Este Um, no entanto, reúne nele o múltiplo, de tal modo que este Um é idêntico ao movimento, ao devir. O fogo nunca fica imóvel, e é por isso que ele também é a imagem do tempo. E é isso que diz o célebre fragmento de Heráclito: “Nós não podemos entrar duas vezes no mesmo rio”. Quando saímos do rio e retornarmos para entrar nele, suas águas já passaram, assim como nós mesmos já somos “outro”. Muda o rio e mudamos nós. Nada é, tudo devém, pensava Heráclito. “Devir” significa: “vir de novo”. Cada “momento” do devir é uma repetição, um re-venir. Cada momento do devir é uma repetição dele mesmo, que sempre se repete diferente, pois nunca ele é o mesmo, assim como as águas do rio do tempo. Segundo dirá Platão, ninguém mais que Heráclito compreendeu tão perfeitamente o mundo sensível, que sempre é regido pela mudança. Hegel, Nietzsche, Bérgson e Deleuze foram muito influenciados por essa intuição heraclítica do devir.

Mas por que as coisas mudam? Heráclito dirá: “não existe um porquê”( Aristóteles , por sua vez, responderá a Heráclito afirmando que as coisas mudam para realizar um fim: a forma). Heráclito dizia que há no devir uma “inocência” pela qual o devir  constrói e destrói, tal como crianças que brincam de construir e destruir castelos de areia. Não raro, Heráclito  era visto observando crianças brincando e jogando. E a muitos ele dizia que aprendia mais com elas do que com os doutos. Para muitos, um obscuro. Para outros, o primeiro dos pensadores trágicos. Com Heráclito teria nascido o primeiro pensamento da imanência. “Imanência” provém de “i-manare”. “Manancial” se origina de manare. Manancial é a mesma coisa que “fluxo”. Assim, imanência é, literalmente, o que existe interior ao fluxo, ao devir, ao tempo. Por oposição, temos o vocábulo  “transcendência”. “Transcendência” é: “ir para além dos entes” ( no núcleo da palavra transcendência  existe o termo “ens”, “ente”).

Vale destacar outro pré-socrático: Empédocles. Ao invés de apontar para apenas um elemento como arqué, Empédocles nos diz que a causa de tudo são as quatro raízes e os dois princípios. As quatro raízes são: a água, o fogo, o ar e a terra. Os dois princípios são o Amor e o Ódio. O Amor é a Vida, ao passo que o Ódio é a morte. Sob o poder do Amor, as quatro raízes se combinam para gerar tudo o que existe, uma vez que tudo o que existe seria a união da água, da terra, do fogo e do ar. O ódio, por sua vez, é o princípio que dissolve o ser organizado e faz as quatro  raízes  voltarem a existir separadas. O ódio faz as raízes existirem sós.O ódio é a solidão.O ódio não destrói as quatro raízes, ele apenas desfaz os seres que nascem de sua união e composição. Além de realidades meramente físicas, Empédocles introduz Afetos (Amor e Ódio) na gênese do mundo. Estes afetos não estariam apenas no homem, eles não seriam tão somente subjetivos. Tais  afetos seriam também cósmicos e presidiriam, ao mesmo tempo, a vida dos homens e a vida do universo.

Outro pré-socrático importante foi Anaximandro. Com Anaximandro, o pensamento atinge graus de abstração nunca antes alcançados. Para este pensador, a arqué não é a água, o ar , a terra, o fogo ou a mera combinação deles. Para ele, a arqué não pode ser nada de determinado, pois tudo o que é determinado possui um limite, uma identidade. E tudo o que possui limites não é o todo. Assim, para ele  a arqué ou causa de tudo será chamada de Apeiron. A-peiron:o que não tem limites.Mas por quê existem as coisas com limites, as coisas finitas? A resposta de Anaximandro introduz um elemento de julgamento moral: as coisas finitas existem por uma culpa. Todo ser finito que se separa do infinito o faz por uma culpa. Dessa forma, tudo o que é limitado, por isso mesmo, sofre. O sofrimento é a condição existencial de tudo o que existe separado. Anaximandro acreditava que a sabedoria seria um processo de reatamento com o que não tem limites, o que implicava em uma regra de vida que se libertasse do império das coisas limitadas. Por exemplo, bens materiais, por maiores que sejam, são coisas com limites.Todo apego ao limitado, seja o limitado das coisas ou o limitado do “ego” ( embora Anaximandro não empregue exatamente esta palavra tão moderna),  todo apego alimenta ainda mais a culpa e o sofrimento.  Por essa razão, impede a liberdade e o pensamento.

Por fim, existiu Parmênides.Para este filósofo , a arqué não é mais nada físico, tampouco a combinação de coisas físicas.A arqué também não é, para ele, algo que se assemelhe a afetos humanos.  A arqué, porém, também não seria o infinito, o que carece de fins. Para Parmênides, a arqué, a causa de tudo, seria o Ser. E o que é o Ser?A resposta de Parmênides é seca,lacônica, e já anuncia,firmemente, o princípio fundante da  lógica: o Ser é o Ser. O Ser é idêntico a ele mesmo. O Ser não devém. Quando a água devém nuvem, ela deixa de ser água para se transformar em outra coisa. Como pode algo deixar de ser?Aceitar o devir é aceitar um paradoxo:afirmar que o não ser é.Assim, pensava Parmênides, o Ser não se move, ele não muda: ele simplesmente É. Os sentidos nos enganam: eles não nos mostram o Ser, eles nos mostram apenas as aparências. Desse modo, existiriam dois caminhos: o da Verdade, caminho este que apenas a alma pode trilhar,  e o da opinião,que é o caminho no qual reinam as aparências e ilusões nascidas de vivermos apenas a vida do corpo. O caminho da Verdade  é o do Ser,ao passo que o da opinião é o caminho da mera aparência, isto é, do não ser. Com Parmênides são esboçadas  as primeiras exigências de um pensamento lógico, que posteriormente será desenvolvido por Aristóteles;em Parmênides também se dá início à célebre  distinção entre Essência e aparência, tema este que merecerá especial atenção de Platão, e que marcará, até hoje, o vocabulário da filosofia.

 



[1] Outras fontes dizem que o termo nasceu com Pitágoras ( ver  Luc Brisson , Introdução à filosofia do mito, editora Paulus).


Tive a alegria de ter sido aluno de Gerd Bornheim ( cujo livro é uma referência obrigatória sobre o assunto): 





sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Sartre e o existencialismo

 

Há uma ideia fundamental do existencialismo sartreano: “A existência precede a essência”. Mas a existência não precede a essência tal como a madeira precede a cadeira que virará, pois a madeira não escolheu virar uma cadeira de madeira, alguém escolheu por ela. A madeira não é escolha, ela não possui subjetividade. A existência só faz sentido para um ser dotado de subjetividade. Este é o sinônimo de existência: subjetividade. O homem pode escolher  uma essência para defini-lo, e dizer “eu sou um professor”, “eu sou um médico”, “eu sou um policial”, porém essas “essências” nunca darão a ele um ser definitivo que esgote as possibilidades de ele ser outra coisa. Até mesmo quando um homem diz : “eu sou um homem”, mesmo aqui a mera definição de ser um homem não torna alguém de fato um homem, a não ser em palavras, pois ser um homem não é um título ou uma etiqueta, mas depende de nossas escolhas: ser um homem é escolher a humanidade, o conhecimento, a liberdade, a ética e, sobretudo, ser responsável por essas escolhas.

“A existência precede a essência” significa: O ato de escolher sempre precede aquilo que escolhemos. A possibilidade precede toda realidade que escolhemos ser . Antes de ser uma cadeira de madeira, a madeira poderia se tornar uma mesa ou uma estátua de madeira. Mas se tornar uma coisa ou outra ela não pode escolher. Tampouco a madeira escolhe ser madeira: ela simplesmente o é. Virar uma cadeira, uma mesa ou estátua não é escolha dela. O Ser não escolhe ser ( existir): ele simplesmente é. O homem não pode ser sem escolher ser o seu projeto de ser. Escolher não é definir, escolher é afirmar a possibilidade de ser enquanto processo aberto. A madeira não escolhe ser a mesa porque ela não age para tal, ela é agida por alguém que escolhe por ela.

Acontece  algo análogo com o homem quando toma para si uma essência que o define excluindo a possibilidade de ser outra coisa. Quem se define assim está  se escolhendo não ter escolha, está fugindo de sua liberdade, como um barco que ancora no porto e vai envelhecendo ali. Não há definição do homem, pois mesmo a definição é uma escolha que se ignora.

A escolha autêntica é aquela  na qual tenho consciência de minha escolha. Quando escolho de forma autêntica ser um ser humano, escolho introduzir na essência um campo de possíveis, de tal maneira que reinvento o que é ser um ser humano, religando a essência à minha existência. Escolher autenticamente é ligar a essência ao campo de possibilidades que vai além dos limites lógicos e epistemológicos da essência.

Quando escolho inautenticamente ser professor, na verdade me comporto como um ator pouco criativo, nada indagador e ativo, que apenas se adapta ao papel prévio que escolheu para ele o diretor. Quem é o diretor? Sartre não tem dúvida que esse diretor é o sistema que nos desumaniza, insensibiliza e rouba de nós os nossos possíveis, a nossa liberdade. Esse diretor é o sistema, o poder, o capitalismo. Esse diretor faz de nós figurantes de nossa própria vida, e o pior é que ele nos ilude fazendo-nos crer ( a “má-fé”) que somos nós que escolhemos suas escolhas.

Quando escolho ser professor autenticamente, na verdade vejo que ser professor é uma possibilidade minha, de minha existência, e não uma essência que esgota todas as minhas possiblidades. E o que é ser um professor autenticamente? A história mostra que os professores que melhor foram professores nunca foram apenas professores, foram também poetas, libertários, artistas, inovadores, enfim, pessoas, mas sem deixar de serem professores, porém enriquecendo tal atividade, tornando-a mais próxima da existência.

A liberdade não é um exercício meramente subjetivo da vontade, a liberdade envolve nosso ser inteiro, pois em nosso projeto de ser também está implicado o que pensamos , desejamos e imaginamos. Não existem , separados, a vontade e a consciência. A vontade é a própria consciência que se tornou ativa; a vontade é a própria   consciência consciente do seu querer. E é sempre em uma situação concreta que podemos  ser livres, uma vez que a liberdade não é um dado interno à nossa subjetividade. A liberdade é a expressão de nossas possibilidades querendo se realizar no mundo, apesar da inextirpável contingência deste mesmo mundo.

Essa frase de Sartre que intitula nosso texto é uma crítica à filosofia tradicional que afirmava o inverso, dizendo: “A essência precede a existência”. Vejamos o exemplo mais representativo dessa postura: Aristóteles.

Resumiremos  , de forma bem simples, a visão de Aristóteles. Uma mesa para existir enquanto indivíduo concreto, para ser “esta mesa” onde apoio meu caderno, tal ser precisou de outros seres que existiram antes dele. Se não existissem esses seres antes, esta mesa não poderia estar aqui à minha frente. Antes de a mesa existir, foi preciso que existissem: a madeira de que ela é feita ( ou seja, foi preciso que existisse a árvore), foi preciso também que existissem: o serrote, os pregos, os martelos...Foi preciso que existisse também o carpinteiro que a fez. Não “O” carpinteiro em geral, mas este carpinteiro individual. E o mais importante: para esta mesa ter sido produzida foi necessário que o carpinteiro a fabricasse a partir de uma ideia que ele tinha em seu intelecto. Por último, e não menos importante, foi indispensável que o carpinteiro tivesse em mente para qual fim ele resolveu criar tal mesa. Ele não a criou por diversão ou por puro acaso, pois ninguém produz uma mesa por acaso, argumenta Aristóteles. O carpinteiro já sabia o que queria produzir. Então, cabe a pergunta: de todas as coisas que já existiam antes de a mesa concreta ter sido fabricada, qual era a mais indispensável? Qual desses seres que preexistiam à produção da cadeira era o mais necessário?

Em tudo o que é produzido, pelo homem ou pela natureza, é sempre o mais necessário que vem primeiro. Então, na produção da simples mesa podemos elencar quatro causas necessárias à sua produção: a causa material ( a madeira), a causa instrumental ( também chamada de motriz ou eficiente : os instrumentos, inclusive os braços e a força física do carpinteiro), a causa formal ( a essência ou forma “cadeira” que existe no interior do intelecto do carpinteiro) e a causa final ( que é o fim para o qual a cadeira fora feita).Uma cadeira pode ser de madeira ou ferro. Logo, a causa material pode variar. Pode variar também a causa eficiente , conforme o carpinteiro empregue este ou aquele instrumento. Mas não podem variar a causa formal e a causa final. A causa formal não pode variar porque o carpinteiro não pode ter na mente a forma ou modelo de uma cadeira e produzir, no entanto, uma mesa. Se ele quiser produzir uma cadeira, ele precisa primeiro definir o que é uma cadeira de maneira universal. A madeira não se transforma sozinha em uma cadeira, tampouco os braços do carpinteiro e as ferramentas produzirão uma cadeira sem que, antes, o carpinteiro saiba o que é uma cadeira. Então, parece que de todas as causas a mais necessária seria a causa que dá a essência. A causa que dá a essência, e que diz o que uma coisa é, já sabemos que é a causa formal. Mas e a causa final, ela estaria subordinada também à causa formal, à essência?

Sabemos que tanto Aristóteles quanto São Tomás enfatizam a causa final. É esta a mais determinante. A causa formal determina o que uma coisa é, sua essência. Todavia, a causa final parece determinar algo mais profundo, mais decisivo, e que somente a causa formal não pode determinar.

Recapitulemos alguns pontos do problema. Como vimos, é este carpinteiro enquanto indivíduo que produz esta cadeira. Sozinha, em seu aspecto puramente formal, a essência, ou causa formal, não pode produzir esta cadeira, pois ela necessita das outras causas. Sobretudo, ela necessita da causa instrumental. É preciso não perder de vista essa diferença entre as ordens causais. Pois bem, somente a causa formal não pode pôr a existência da cadeira.

Uma coisa é a cadeira enquanto forma na mente do carpinteiro, pois esta forma é universal, destituída de matéria ou potência. Ela sozinha não é um ente. Porém, e este é o ponto mais importante, para ela passar à existência, e se tornar um ente dotado de essência e existência, não bastam apenas a causa material e a instrumental,  é necessária a causa final. A causa final determina o porquê ou a razão de criarmos uma cadeira, e não o que ela é apenas. Enquanto nos circunscrevemos à questão do que é uma cadeira, é a causa formal que tem autoridade e responde. Todavia, quando indagamos acerca da razão de existir uma cadeira, somente a causa formal, a que dá a essência, somente ela não tem como responder, pois é preciso a causa final. E a causa final não concerne apenas à essência, ela diz respeito também, e sobretudo, à existência ( como causa motriz última) . Logo, a causa final determina sobretudo o ente enquanto união da forma com a matéria, do ato com a potência. Mas ela não é uma causa física, como o são as causas material e instrumental. Ela, a causa final , é uma causa metafísica, no caso do homem e dos seres naturais.

 Substituamos a cadeira pelo homem. A causa formal é a essência comum a todos os homens. Todavia,  o homem enquanto ente não é apenas essa forma essencial, pois todo ente existe. E o homem não pode existir a não ser como Pedro, Carlos, Joana, etc. Suponhamos que Paulo é o pai de Pedro. Paulo é a causa instrumental ( ou causa motriz próxima) na produção de Pedro. A forma homem já existe em ato na alma de Paulo. Porém, para Pedro existir é preciso a causa final. É esta que dirá para quê Pedro existe. E ele não existe apenas para ser filho de Paulo. A existência de Pedro confere atualidade ao ato de existir da essência. Assim, não são apenas a causa material , instrumental e formal que explicam o ente que o homem é, é preciso a causa final:  é esta que dá sentido à sua existência~enciae formal que explicam o ente que o homem  homem. do por que uma caidera  formal n, à sua vida. É essa causa final que confere à existência do homem uma finalidade metafísica.

Em todos os seres finitos a existência não pode vir da própria essência, já que a essência é sempre uma forma universal. Por outro lado, a existência do ente finito não pode vir apenas das causas materiais. Assim, é a causa final que responde pela existência dos entes finitos dotados de matéria e forma. Em Tomás de Aquino, por sua vez,    nos seres finitos a existência é recebida, participada. Deve existir ,por isso,  um ente perfeito que seja a própria existência. Nesse ente perfeito  a essência necessariamente existe, independentemente das causas materiais. Por isso, esse ente perfeito é auto-existente: ele é seu próprio existir.

Nesse modelo aristotélico-tomista, é Deus a razão de ser de toda existência. O artesão produz este indivíduo cadeira  , mas ele não produz a essência que determinará a madeira a se tornar cadeira. A essência precederia a produção  da existência da cadeira. É contra essa ideia que se volta a frase sartreana.  E para levar sua crítica  às últimas consequências, Sartre traz a questão da existência para o âmbito do homem, isto é, do humanismo, retirando-a do âmbito teológico-metafísico. Em Aristóteles, a essência precede a produção da existência. “Produção” é “poiésis” em grego, o que significa dizer que, no Realismo aristotélico-tomista, a lógica antecede a poesia, o conhecimento viria antes do que fazemos com esse conhecimento. Em Sartre, ao contrário, existir é tomar consciência de que a existência é sempre poética da existência, isto é, possibilidade que se realiza, agindo.

É por isso que  Existencialismo não é  Realismo: este crê que existem Essências que conferem sentido e inteligibilidade  à existência, ao passo que o Existencialismo defende que o sentido da existência não lhe  é prévio ,  somos nós que, existindo, damos sentido à existência.

Embora Sartre defenda que não existe uma essência que nos defina, ele considera no entanto que não podemos compreender o que somos sem nos colocarmos dentro da condição humana . A condição humana não é uma essência universal e abstrata, ela é a marca de que estamos inseridos num tempo, num espaço e em determinada situação. Agir livremente é sempre agir para mudar inumanas condições que apequenam e sujeitam o homem a viver uma existência de renúncia , medo, ignorância, resignação.




                                                                                            



quinta-feira, 2 de novembro de 2023

crer é criar

 

O filósofo Husserl dizia que o pensar teórico  , sempre formal e abstrato, requer a “suspensão das crenças”.   Não apenas  “crença” no sentido religioso , mas crença até mesmo enquanto impulso intuitivo do coração, enquanto sede viva do Afeto.

O pensar teórico   exige que nos dispamos de tudo , até ficar apenas a nudez  seca da “razão pura” e seu olhar sem corpo.

Já o poeta Coleridge retruca o filósofo e diz: a poesia requer não a suspensão das crenças, mas das descrenças. Sobretudo da descrença que nos derrota antes mesmo de começarmos a luta.

Mas a descrença é tão ardilosa e dissimulada, que ela se disfarça muitas vezes sob a forma de crença teológico-política, chamada por  Espinosa  de “superstição” , e por Nietzsche de “niilismo reativo”. Crenças reativas assim , sobretudo quando se armam de messianismos bélicos, parecem nos querer produzir a descrença no humano...

Por isso,  a crença de que fala o poeta é outra: é a crença na vida. Não por acaso, as palavras “crer” e “criar” têm uma fonte comum: o antigo  verbo “creare”. Assim, só cria quem crê: quem não crê, não cria.

Van Gogh tinha uma crença  assim nas tintas, e dessa crença  ele criou uma arte nova. Paulo Freire nutria uma crença assim na educação, e alimentado por essa crença ele criou um método revolucionário de ensino.

Só cria um laço de amizade quem crê numa pessoa, fazendo dela uma amiga. Só cria um bicho de estimação ou uma plantinha que seja, regando-a todo dia, quem crê na vida e no cuidado que ela requer.

O professor cria suas aulas porquê crê no aluno; e o aluno exercita o aprender, um aprender ativo, quando também crê no professor:  para dessa maneira ambos, professor e aluno, crerem em si mesmos e no processo que ambos criam juntos, potencializando o espaço social da universidade ou escola. E quem crê num criar ativo assim, sabe fazer e receber crítica.

Essa percepção da relação íntima entre crer e criar é o que constitui a poesia no seu sentido originário , e  que não precisa apenas de versos para se expressar, uma vez que é tal poesia  que cria música, pintura , exposições, novos  métodos de ensinar e , sobretudo, novos modos de vida, novas maneiras de ser e estar como antídoto à descrença crente dos niilistas reativos e seu poder destrutivo que nada cria.


 “Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’, mais importante do que o filósofo é o poeta.” ( Deleuze)

“Quem não tem instrumentos de pensar, inventa.” (Manoel de Barros)

“Poesia pode ser que seja fazer outro mundo.” ( Manoel de Barros)







quarta-feira, 1 de novembro de 2023

libertário X liberal

 

Propagando   ideias equivocadas ,   setores da mídia corporativa vêm chamando o trevoso candidato à presidência da  Argentina , o tal Milei,  ora de “libertário”, ora de “ultraliberal”, como se essas expressões fossem sinônimas.  Mas libertário e liberal são modos completamente diferentes de praticar e viver a liberdade.

Não é difícil encontrar a palavra “liberdade” na boca daqueles que a evocam como se fosse um direito para eles dizerem e fazerem atrocidades.   Por exemplo, o inelegível e seus comparsas  sempre evocam  a ideia de liberdade para eles falarem mentiras e fazerem ameaças autoritárias. E tudo aquilo que se opõe a tais falas e  atos autoritários , eles chamam de “censura”, mesmo as leis .  

Já libertário   é aquele que põe a liberdade em prática,  nascendo dessa prática uma mudança transformadora enquanto qualidade potencializadora   partilhada em comum na relação com os outros.

Um livro,  um poema, uma filosofia...podem ser libertários, desde que despertem  ações libertárias na prática, aqui e agora. A primeira vez que li a palavra libertário foi num livro de Maiakóvski , cuja poesia era definida como libertária.

Um autoritário pode evocar cinicamente a ideia de liberdade para realizar seus autoritarismos, porém nunca um autoritário pode realizar um ato libertário : ao contrário, é o  ato libertário que, quando realizado, põe fim ao poder  autoritário. O ato libertário está para um ser autoritário assim como o alho está para o vampiro...

Em nome de tal mundo “conservador-liberal”, querem nos impor hoje  um infame conluio entre o autoritarismo político e   o “autoritarismo do Mercado” , ambos fornecedores de capital e armas ao messianismo “teológico-colonialista”  exterminador de crianças.  

Em geral, tanto autoritários como liberais  advogam  ser a liberdade uma propriedade individual sua , algo que emana de seu ego. Já libertário é quem , singularmente, vive e promove relações emancipadoras , pois toda singularidade o é em uma relação : toda singularidade é parte de uma multiplicidade, ensina o libertário Espinosa.

Ao se referir ao Milei    como um “libertário”, na verdade a  mídia corporativa  confunde “indivíduo” com “singularidade”, “liberal” com “libertário”. Essa confusão é proposital, e visa afastar as pessoas da compreensão do  que é realmente libertário e antiautoritário.

Pela mesma razão , é uma contradição entre termos a expressão “anarco-capitalismo”. O anarquismo autêntico não promove a rivalidade competitiva do capitalismo, e sim a cooperação com autonomia, base e fermento de uma sociedade realmente democrática.

Tanto o liberal quanto o autoritário se unem em seus ódios destrutivos ao que é o Comum. Já o autêntico libertário  zela pela produção em comum do Comum, pois de “comum” vem “comunidade”.

O Comum não é aquilo do qual todos são donos e proprietários, o comum é aquilo que não pode ser reduzido à lógica da propriedade: do Comum ninguém é o dono, e mais participa do Comum quem promove relações libertárias, tais como a cooperação, a justiça, a empatia e a solidariedade, bases igualmente de uma educação libertária .




 

                  NECESSIDADE E LIBERDADE EM ESPINOSA 


Espinosa distingue “necessário” de “coação” ou “constrangimento”. Por exemplo, todo ser humano deseja  amar, ter saúde,  crescer material e espiritualmente, enfim, realizar suas potencialidades. Essa realização de potencialidades  é uma necessidade mais do que humana: é uma necessidade vital. Realizar essas potencialidades é a mesma coisa que  exercer a liberdade : a liberdade de ser o que se deseja ser . A liberdade concerne tanto ao desejo singular  quanto aos meios sociais para se efetivar as potencialidades.  Para Espinosa, somente a democracia é o meio necessário para a realização da necessária liberdade, pois a autêntica liberdade é uma necessidade singular e coletiva.

Já a coação é aquilo que obriga a um comportamento contrário à necessidade e que, por isso, fere a liberdade. Toda coação constrange, limita;  ao passo que tudo aquilo que é necessário liberta, horizonta ( como diria  Manoel de Barros).

Tiranos-autoritários coagem e constrangem, já educadores educam para o que é necessário: e necessário é tudo o que é libertário.