quarta-feira, 17 de maio de 2023

filosofia e diferença

 

                                       FILOSOFIA E DIFERENÇA[1]

 

Na Introdução do livro O que é a filosofia?, Deleuze e Guattari afirmam que os conceitos filosóficos são criados. Por serem criados, eles também recebem a assinatura daquele que os criou. Assim, o filósofo empresta seu nome para que este designe mais do que sua mera pessoa. Por exemplo, a Substância de Aristóteles, o Uno de Plotino, o Cogito de Descartes, a Mônada de Leibniz, a Vontade de Potência de Nietzsche, a Duração de Bergson, o Rizoma de Deleuze e Guattari...

A ideia de Substância em Aristóteles não é a mesma que em Espinosa; a noção de Dialética em Platão tem sentido diferente da Dialética em Marx. Se a ideia de Substância existisse em si , isto é, incriada, ela seria a mesma em Aristóteles e Espinosa; se a noção de Dialética fosse a mesma em Platão e Marx, não haveria diferença entre Platão e Marx, isto é, seus nomes não seriam assinaturas que expressam , cada um, modos distintos de construir sentidos para a realidade. Quando assina a criação de um conceito, o nome do filósofo  não designa mais apenas a sua pessoa, seu nome passa a expressar um novo mundo que o filósofo instaurou.

Na pintura “A Escola de Atenas”, de Rafael,  em sua cena central  vemos  dois filósofos: Platão e Aristóteles. O primeiro faz um gesto apontando para cima , ao passo que o segundo estende a mão de forma espalmada. Em uma das mãos cada um segura sua obra principal, e a posição do livro acompanha a direção do gesto realizado pela outra mão. Assim, Platão segura em posição vertical sua obra Timeu, enquanto Aristóteles mantém na horizontal a sua Ética a Nicômaco. A mão de Platão e a posição do livro Timeu reproduzem  a principal ideia de Platão: a de que a filosofia é uma ascensão rumo ao Céu Transcendente das Ideias; já a Ética de Aristóteles busca estudar as relações humanas tal como essas acontecem no plano horizontal da pólis.

Se o quadro de Rafael fosse um filme, veríamos que ,antes de se colocar ao lado de Platão , Aristóteles andava atrás de seu mestre Platão, quando então era seu discípulo. Foi um ato de autonomia filosófica , e não de mera rivalidade egoica, Aristóteles colocar-se agora ao lado do seu antigo mestre, pois agora o próprio Aristóteles se tornava um mestre. Ele se tornou um mestre criando o conceito de Substância, instaurando assim um espaço filosófico diferente , no qual não há mais lugar para o Céu das Ideias de Platão.

Mas o centro do quadro não é Platão ou Aristóteles. Na pintura, chama-se ponto de fuga o lugar pictórico no qual se encontra o centro do quadro. Na referida obra, o centro do quadro é o espaço entre Platão e Aristóteles, isto é, o centro do quadro é a Diferença.

A filosofia não é Platão, a filosofia não é Aristóteles: nenhum filósofo específico é a filosofia, a não ser que se transforme a filosofia em religião-seita e se faça de um determinado filósofo um Deus a proferir Dogmas inquestionáveis, os quais requerem obediência acrítica , e não pensar livre.

O filósofo que mais se aproxima desse intervalo da Diferença é aquele que  busca um processo de desterritorialização no qual os Conceitos criados se abrem a um Plano de Imanência não conceitual, Plano esse traçado  tal como os traços de Van Gogh que povoam a tela branca , para sobre esses traços Van Gogh criar seu girassol, seus campos de trigo, seu sol nascente[2]...

O filósofo da Diferença realiza algo semelhante: ele não parte de Deus ou de Transcendências, ele parte de uma realidade primeira semelhante ao que para o pintor é a tela branca :  sobre essa realidade inaugural[3] , realidade essa “Para Além do Bem e do Mal”, o filósofo traça um Plano de Imanência ( como a Natureza Naturante ou o Absolutamente Infinito em Espinosa) , e sobre esse Plano cria seus Conceitos .  Os Conceitos são o girassol do Filósofo.



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

[2] Segundo Deleuze, uma tela branca nunca está realmente branca, pois “clichês” a ocupam previamente antes mesmo de o pintor começar a pintar. Por isso, para quebrar esse mecanismo psicossocial dos clichês, alguns pintores como Pollock e Van Gogh procedem por traços que visam quebrar a “representação realista do senso comum”. Esses traços são assignificantes, ou seja, eles não significam nada a não ser movimentos, intensidades, velocidades. Desse modo, o girassol de Van Gogh não é pintado diretamente sobre a tela branca, uma vez que o girassol nasce desses traços que lhe preparam um plano, um espaço de expressão ( e não de representação).

[3] Apoiando-se na Semiótica e Ontologia de Peirce, Deleuze designa essa realidade inaugural de “Zeroidade” ( é sobre essa “Zeroidade” que depois surgem a Primeiridade das realidades singulares, a Segundidade das relações  e a Terceiridade das regras). Manoel de Barros, por sua vez, chama de o  “Antesmente Verbal” a essa realidade inaugural .








Van Gogh: "O semeador" e "Girassol":







terça-feira, 16 de maio de 2023

bacchus...

 

                                                APOLO E DIONISO[1]

 

Em A visão dionisíaca do mundo, Nietzsche identifica Apolo e Dioniso a dois processos: o sonho, estado provocado por  Apolo, e a embriaguez, processo despertado por  Dioniso.

Todo sonho é um  desejo de plasmar a realidade. O sonho dá uma forma à realidade, mesmo que seja a realidade de uma utopia. Quem  sonha tem os olhos fechados para a realidade efetiva, pois o olhar que sonha se abre ao que somente  pode ser visto de forma sonhada. Goethe se refere a esse olhar que sonha como o “olhar solar”: pois é esse olhar que ilumina paisagens internas, mesmo em meio às trevas externas. Não por acaso, Apolo é identificado ao sol.

Toda obra de arte apolínia é um sonho que plasma tintas, pedras, metais, sons...mediante  uma forma que  figura e dá a ver o que antes o artista sonhou.

Já Dioniso é a embriaguez: algo que acontece enquanto estamos acordados, porém despertando outros olhos, até mesmo “olhos lunares” que ao mistério veem claro .

 Se Apolo é o referencial do artista, Dioniso por sua vez é a própria   vida compreendida como  obra de arte[2]. Em Apolo ainda há uma oposição entre real e sonho. Se essa distinção se embaralha, corre-se o risco de surgir o delírio mórbido negador da realidade.

Mas em Dioniso a própria vida se torna obra de arte a ser musicada, pintada, dançada, poetizada,  enfim, criada[3]. Como ensina Manoel de Barros, arte é “delírio ôntico”: criação de novos sentidos para o ser ( “on”). O delírio mórbido, delírio de poder, nega a pluralidade da vida e do pensar, já o delírio ôntico é potência poética do pensar enquanto expressão  da vida,  incluindo a vida plural das ideias.

Nietzsche nomeia Dioniso como a “potência da primavera”, a mesma potência de Perséfone. Apolo é forma que plasma e dá uma figura, já Dioniso-Perséfone  é potência que faz brotar , (re)nascer e fulgurar ( como as estrelas-flores que Van Gogh pintou).

A palavra embriaguez em grego se escreve “bacchus” ( é por esse motivo que os romanos chamam Dioniso de “Baco”).  A embriaguez dionisíaca não é provocada apenas pelo vinho. A embriaguez dionisíaca é todo processo no qual uma potência fende os limites de uma forma, produzindo assim uma linha de fuga em relação a cercas, limites, egos. Embriaguez é um processo que “desabre”, diria Manoel de Barros ( como a borboleta que desabre a lagarta). Van Gogh é embriagado  de tinta, Manoel de Barros é embriagado  de poesia, Fernado Pessoa é embriagado  de eus, Clarice é embriagada  de vida...Somente experimentando uma embriaguez assim é que se cria verdadeiramente arte.

A primavera embriaga a semente não para ela sonhar que é broto, e sim para ela se metamorfosear em broto, com a máxima potência que puder. A embriaguez poética embriaga  o poeta não para ele sonhar com o poema utópico, e sim para ele  se metamorfosear em mundo, pois “poesia pode ser que seja fazer outro mundo”, ensina Manoel de Barros.

Ninguém melhor do que o poeta Baudelaire soube expressar essa embriaguez dionisíaca, ao dizer: “É preciso embriagar-se...Mas, com quê? Com vinho, poesia ou virtude , a escolher. Mas embriaguem-se!”

Resumindo : Apolo representa a Forma, ao passo que Dioniso expressa a Potência. A palavra potência tem a mesma raiz que o termo “possibilidade”. Assim, toda potência é realidade também, porém é uma realidade potencial ( ou virtual). Por exemplo, quando está em sua casa e fora do hospital ou consultório, o médico tem a potência para curar, mesmo que naquele momento ele não esteja exercendo tal potência; a cantora tem a potência para cantar, mesmo que se encontre  em silêncio e fora do palco.

Quando o médico está a curar, a potência passa ao ato : a potência é atualizada, isto é, torna-se atual. Mesmo sendo atualizada , nunca a potencialidade se esgota totalmente na forma como ela é atualizada : sempre permanece uma reserva de possibilidade que permite que tal potencialidade seja atualizada  de maneira diferente, sendo então renovada, reaprendida, reensinada. Não é apenas o que agora é atual que é real, pois a potência também é real, embora de uma realidade diferente. Toda realidade atual somente pode ser renovada ,  reinventada e repensada se não perder a ligação de seus fios com o  novelo da Potência, tal como os fios libertários de Ariadne. Por outro, toda potencialidade , para não ficar apenas no nível da idealização ou teoria, precisa se atualizar e se tornar ato efetivo no mundo.

Assim, o par forma-matéria deve ser complementado e ampliado pela relação potência-ato ou virtualidade-atualidade. Quando uma teoria é dogmática, ela tende a realçar a forma em detrimento da matéria-potência-virtualidade. Mas quanto mais rico, plural e diverso for um pensar, mais ele tende a colocar a potência-possibilidade-virtualidade em primeiro plano, compreendendo que as formas são necessárias, embora possam enrijecer se perderem de vista as potências-virtualidades que as fazem nascer.

O pensador-artista-criador de não importa qual área possui olhos e mãos para ver e tocar essa potência-virtualidade-possibilidade, para assim pôr em ato uma obra, um agir e um criar que atualizam essa potência-virtualidade-possibilidade em realidade concreta que dá sentido novo a nós mesmos, à sociedade e ao mundo.

 

 



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.

[2] No filme “Meu amigo Nietzsche”, o menino vive uma embriaguez assim quando descobre a potência das ideias que metamorfosearam seu modo de vida: ele se tornou um artista cuja obra a criar era a si mesmo... Essa embriaguez faz brotar primaveras, auroras...

 

[3] Artes como o teatro  e a dança têm maior potência dionisíaca do que a pintura e a escultura: nestas, apenas a mão se envolve na produção da obra, ao passo que no teatro e  na dança ( na qual a música também está presente) é o corpo inteiro que participa da criação. 







 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

a busca

 

                                                            A BUSCA[1]

 

Atribui-se a Platão a célebre distinção entre  o filósofo e o sábio. O sábio é aquele que possui a sabedoria, ao passo que o filósofo é aquele que a busca. O sábio é um personagem cuja luz vem das misteriosas  estrelas do céu noturno  do Oriente, já o filósofo está em busca da aurora do sol nascente.

Muito se fala da Sabedoria enquanto objeto que o filósofo busca, e do próprio filósofo, aquele que a busca. Mas pouco se dá atenção ao  que está entre a Sabedoria e o filósofo: a própria busca,  o desejo de buscar. É na natureza desse buscar que se encontra o sentido existencial  da filosofia como modo de vida.

O filósofo não busca fama, poder, dinheiro , ouro : ele não busca nada que os homens do senso comum consideram digno de busca. O filósofo não busca terras desconhecidas ou paisagens ainda não pisadas para se conquistar e ser o dono , ele busca realidades  cuja descoberta e conquista dependem , primeiro, da descoberta e conquista de si mesmo.

O filósofo não busca porque está perdido, ele busca porque já se encontrou: ele se encontrou na própria busca pela sabedoria , busca essa que se mede pelo quanto que nela se avançou : “O andarilho abastece de pernas as distância”, filosofa o poeta-pensador Manoel de Barros.

O filósofo não busca a sabedoria apenas lendo livros de filosofia, pois mesmo numa pintura, numa música , num filme, num poema, numa obra literária e até mesmo no desenho colorido de uma criança,  ele sabe achar  o caminho que o conduz à sabedoria.

O filósofo não busca a sabedoria apenas com a mente, tal como faz o mero teórico, nem apenas em palavras, como o propagandista-retórico; o filósofo busca a sabedoria com a mente e com as palavras , sem dúvida, porém ele também a busca    com o coração, enquanto sede do Afeto Transmutador, e ainda mais ele a busca com suas ações  e  práticas.



[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton Luiz.



Este livro é apenas uma sugestão:



domingo, 14 de maio de 2023

Pachamamas...

 

Eu nasci de cesariana. Para justificar a necessidade da cesariana, o médico disse à minha mãe que eu estava numa posição diferente no ventre dela, parecia que eu queria , ao invés de vir para fora, parecia que eu queria ir para dentro do coração de minha mãe...

Mal sabia o médico que lá de dentro do ventre de minha mãe eu ouvia vozes muito estranhas vindas de fora , vozes de gente autoritária e cheia de ódio, vozes de censura e ameaça. Eram as vozes dos milicos da ditadura que dominavam o país àquela época.

Querendo me afastar daquelas vozes falocráticas, fui cada vez mais em direção ao som do bater do coração de minha mãe, hino amoroso de Gaia e Pachamama, símbolos da Mãe-Terra. Eu queria ir para dentro do coração da Mãe-Terra e nascer dentro dela, pois ali os cultuadores da morte não alcançam.

Sócrates dizia que a filosofia é uma espécie de “maiêutica”. A palavra “maiêutica” significa : “arte de partejar e trazer ao mundo”. Em Sócrates, o parteiro é a razão. Que me perdoe o grande filósofo grego, mas nascem com mais amor à vida os que  são partejados pelo coração da Mãe-Terra, expresso na mãe pessoal de cada um.

Mas descobri que o coração não tem porta: aqueles que nos amam de verdade já nos trazem  lá dentro do coração deles  desde toda a eternidade, ensina Espinosa. Esse guardar no coração é a prática mais potente do cuidado com o outro de nós diferente, seja esse outro o  filho, o amigo ou simplesmente o outro cidadão, espelho da alteridade.

Os médicos tiveram dificuldades para me tirar lá de dentro de minha mãe...rs...Só aceitei sair quando consegui trazer o coração da Mãe-Terra comigo, para ser meu escudo  para me proteger na luta contra os inimigos   do pensamento, da alegria, da educação, da arte, enfim, os inimigos da vida.

E descobri que com esse escudo nunca se luta sozinho: pois atrás desse escudo sempre vêm se juntar os que lutam do lado certo.


( imagem: “O abraço amoroso de Pachamama”/ Frida Kahlo)





sexta-feira, 12 de maio de 2023

as desaprendizagens

 

Certa vez, perguntaram ao poeta Manoel de Barros qual foi  sua grande influência. Todos imaginavam que ele mencionaria um poeta, porém Manoel  disse  que aprendeu a ser poeta com um  pintor :  Miró.

Mas o poeta não aprendeu com o pintor fórmulas, cartilhas ou tudo aquilo que , aprendido de forma obrigatória, depois se torna matéria cobrada em prova. Na verdade, Manoel diz que aprendeu com Miró a fazer desaprendizagens. Foi assim:

Miró desenhava de maneira  precisa e técnica, porém essa técnica virou uma prisão que impedia o nascimento de um mundo novo  que Miró desejava  criar.

Esse mundo novo não cabia na  forma “acostumada” que se tornou  Miró e seu  pintar . Já crescia virtualmente no pintor uma alma nova, porém faltava um corpo para ela: ao invés de nascer, a alma nova corria o risco de abortar.

Miró desistiu da arte, mas a arte não desistiu de Miró. Quando tudo parecia perdido, certa vez  Miró começou a rascunhar com lápis de cor usando   a mão esquerda, mão que ele nunca usava . Era um rascunhar “brincativo” que alcançava realidades ainda não formadas, ignoradas pela mão direita.

A mão esquerda nada sabia de cânones ou fórmulas de sucesso, como sabia a mão direita. Nunca a mão esquerda ficou vaidosa por receber elogios; tampouco segurou, ostentando, prêmios e títulos, como se habituou a segurar a mão direita  .

Se a mão direita adquirisse a capacidade de falar e alguém lhe perguntasse qual a opinião dela sobre a mão esquerda,  ouviria: “ A mão esquerda é perigosa:  quer tirar o poder que conservo, ela é  subversiva!”.

As duas mãos tinham a mesma idade biológica, mas era a mão esquerda o corpo novo que a alma nova exigia . Ao começar a desenhar com a mão esquerda, cada desenho era o desenhar de novo nascendo , fazendo-se como novidade, experiência e descoberta.

O poder estabelecido escreve suas cartilhas com a mão direita ; porém a arte de se reinventar só a pode desenhar um instrumento não domado: a mão esquerda . A mão direita se liga a uma metade do cérebro apenas , já a mão esquerda se liga à outra metade do cérebro e ainda ao coração inteiro que, assim como ela, também está do lado esquerdo.


(imagem: “O jardim”/ Miró)






domingo, 7 de maio de 2023

o pote do poeta

 

O filósofo Deleuze ensina que só conseguimos mudar alguma coisa fazendo agenciamentos, pois ninguém muda nada, inclusive a si mesmo, sozinho . No coração da palavra agenciamento se encontra o termo “agente”. Mas o que é um agente?

Um agente pode ser qualquer coisa que favoreça um agenciamento, um aumento de mútuas potências. Por exemplo, uma música pode ser um agente  potencializador de nossa sensibilidade. Também podem ser o agente de um agenciamento um livro, um filme, um quadro... Mesmo algo considerado inútil pelo poder dominante pode servir a agenciamentos cuja “utilidade” não se mede em dinheiro.

Nem sempre um agente para um agenciamento se mostra evidente. De certo modo, é preciso saber achar um agente para nossos agenciamentos, ou até mesmo criá-lo . Sobretudo, é preciso aprendermos nós mesmos a sermos um agente para agenciamentos que potencializem os outros quando eles se encontram conosco. Quando nos agenciamos para mudarmos uma situação social, por exemplo, nos tornamos agentes uns dos outros.

Há um poema de Manoel de Barros que narra a potência que pode ter um agenciamento: o agente do poema é um pote que o poeta encontra no meio do mato jogado fora de "barriga vazia para cima".

Não faz muito tempo esse pote deve ter sido o centro das atenções: todos ficavam felizes e o queriam perto. Ele assim era tratado por guardar algo que despertava interesse, talvez tenha sido um pote cheio de sorvete...

Tamanha deve ser a dor que o pote sente agora, abandonado . Rejeitado pelos homens após estes o sugarem, apenas a natureza quis o pote. A natureza nunca despreza: ela recebe e regenera, preenche vazios - disso também já sabia Espinosa.

“Inútil”, o pote já não servia para nada, a não ser para metamorfoses, pois é isto que a natureza produz em tudo aquilo que, ao receber os cuidados dela , sofre um contágio, uma comunhão: "depois desse desmanche em natureza, as latas podem até namorar com as borboletas", pressagiou o poeta.

Tempos depois, o poeta teve que passar pelo mesmo lugar ermo. Lembrou do pote e se preparou para rever aquela imagem triste do sofrimento.

Porém, nesse intervalo de tempo , sem que o poeta soubesse, um passarinho passou voando “atoamente” sobre o pote e cuspiu uma semente em seu ventre vazio. Ali já havia areia e cisco que a natureza depositou: “as chuvas e os ventos deram à gravidez do pote forças de parir".

E onde antes crescia o vazio, um poema vivo o pote partejou: do ventre do pote um pé de rosas desabrochou, oferecendo beleza sem nada pedir em troca.

“Se a gente não der o amor ele apodrece dentro de nós”, agradeceu o poeta ao pote por essa lição-agenciamento  que recebeu sob a forma de rosas.





- O pote-lata de Gil:



 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

o menino e a Rainha

 

Os jornais estão noticiando a coroação do Rei da Inglaterra. Como sou simpatizante de Bakunin...rs...( e como o monarquismo brasileiro é um dos sustentáculos do miliciano-fascista), esse culto à monarquia colonialista  me lembrou uma história:

Tempos atrás, um amigo me perguntou se eu aceitaria lecionar filosofia para seus dois filhos, um de 10 anos e outro ainda mais jovem. Aceitei. O curso era para durar 1 mês, acabou durando 1 ano.

O mais velho se chamava Alexandre, carinhosamente rebatizado “Xandinho”. Certo dia , ele e o irmãozinho estavam brigados. Aproveitei para dizer ao Xandinho: “você sabia que ‘Alexandre’ significa ‘protetor da humanidade?’”. Ao ouvir isso, ele olhou para o irmãozinho e, sem dizer nada, o abraçou com cuidado .

Naqueles encontros, eu “ia até à infância e voltava”, como diz Manoel de Barros, e aquele que ia não era o mesmo que retornava. E o que voltava vinha de lápis de cor na mão, e aprendia que as ideias que valem a pena ensinar se deixam desenhar com lápis de cor.

Algumas ideias eu ensinava falando, outras eu desenhava para eles colorirem: a forma era minha, mas as cores eram eles que escolhiam para pintar, com as mãos livres . E eles coloriam sempre multicoloridamente, nunca em preto e branco.

Perto do fim do ano, houve um feriadão. Toda a família desse amigo viajou para Londres, incluindo os dois meninos. No retorno, assim que entrei no apartamento, o pai pediu para o Xandinho me contar  o que aconteceu em Londres, mas o menino saiu correndo, como se tivesse feito uma arte, uma “peraltagem”, diria Manoel de Barros .

Eles foram ver, entre outras coisas, a cerimônia na qual a Rainha da Inglaterra passa à frente do público, e todos se ajoelham em reverência, olhos no chão. Então , o pai mesmo me contou o que aconteceu: quando a Rainha , cheia de pompa e ouro, passou diante deles, todos se ajoelharam diante de seu poder, exceto o Xandinho. Ele ficou de pé, de braços cruzados, firme, olhando diretamente para a Rainha, que virou a cabeça para olhar , espantada, o pequeno insubmisso-rebelde.

Quando a mãe indagou ao menino porque ele não se ajoelhou como todo mundo, ele respondeu : “Não ajoelho diante de quem é igual a mim”. Ao ouvir isso, a mãe disse ao pai: “acho que já está na hora de nosso filho parar de ter aulas de filosofia...”.

Nesse mesmo dia em que ouvi o relato, dei minha última aula aos garotos. No fim, o menino da peraltagem me perguntou: “Vai ter prova?”. Respondi: “Não , você já está aprovado. Com dez.”

Como ensina Kierkegaard: “O homem seria metafisicamente grande se a criança fosse seu mestre.”

( este livro conta a história de um pequeno  pardal que o filósofo Espinosa encontrou caído no chão,  fora do ninho. Espinosa cuidou do pardal, fortaleceu suas asas e o libertou, dando  o seguinte nome ao seu amigo-pardal: “O Rebelde”).




quinta-feira, 4 de maio de 2023

a (re)visita de um amigo

 

Meu caro 4 de maio,

já posso te chamar de amigo?

Creio que já o somos,

e não desde agora.

Não demora chega  o dia 5,

sei que você já precisa ir embora.

Agradeço-lhe como me acordou hoje:

com a mesma novidade de quando nasci,

apesar de já serem muitos os dias de aniversário.

Amo  rever-te,

saiba disso, amigo raro.

Espero te ver de novo,

no próximo ano,

logo ao abrir de maio.

Desejo ainda muito te receber,

sei lá ainda por quantos encontros.

Não te peço nada,

nem te faço promessa.

Nunca olho para suas mãos quando chega,

nelas não indago por presentes .

O que gosto é de apertar a mão da gente,

e mais uma linha na palma escrever, sem pressa.

Sou muito grato pelo seu retorno ,

que seja sempre assim o seu chegar: novo.

Contigo aprendo a perdoar  o que passou,

reabrindo  no peito o horizonte  que sou.

Já reparou: tudo se enfeita de azul para te ver chegar,

e mesmo o sol egocêntrico esquece seus dezembros,

para em plácida luz nos aquecer  e renovar.

 

Meu amigo 4 de maio,

sei que te escondes nessa data,

qual máscara a cobrir teu verdadeiro rosto, o tempo.

Não cobro teu retorno,

tudo farei para merecê-lo,

seja qual for minha idade.

Leve minha eterna gratidão a teu pai,

cujo nome é eternidade.




 

 

DE PÉ

 

Quando na manhã  me levanto,

pelos meus olhos acorda outro           

diferente daquele que ontem se foi  deitar.

Fui dormir árvore,

desperto broto,

de novo a vida a germinar.

 

Levanto-me como se levanta Espinosa

em cada página de sua obra:

sem lamentar o que foi,

sem temer o que será,

bem-dizendo o que é.

Feito a vida em seu  esforço,

pronta a começar de novo,

pondo-se de pé.

terça-feira, 2 de maio de 2023

jardins de maio

Para quem no inverno acreditou nas sementes já quase  mortas,

e ainda as dividiu com quem não as tinha;  

e  na primavera as plantou no ventre das horas,

cuidando para que não as sufocasse a erva daninha.

 

Para quem no verão não festejou antes do momento,

colhendo verde o que ainda precisava de tempo.

 

Chegou  o outono, maio já não é só promessa :

com alegria e gratidão,

colha o que nasceu do grão ,

sem pressa.


segunda-feira, 1 de maio de 2023

pão e rosas

 

1-Uma das palavras mais bonitas em grego é “eudaimonia”. No coração dessa palavra está o nome “Daimon”, pois “eudaimonia” é : “estar na companhia de um bom Daimon”.  Em português,  “eudaimonia” é traduzida pela palavra  “felicidade”.

Para os gregos, felicidade não é andar sozinho, mesmo que seja em carruagem de ouro; felicidade é andar na companhia de um “bom Daimon”.

Na mitologia, o Daimon não mora no inacessível e aristocrático Olimpo, o Daimon mora onde houver a necessidade de uma travessia, pois ele é a divindade dos caminhos, sobretudo  dos caminhos que precisam ser criados, mesmo que no deserto  ou para escapar de labirintos. 

Para os gregos, assim como para nossos povos  indígenas, a felicidade não é propriedade egoica de um indivíduo, a felicidade é agenciamento coletivo: impossível o indivíduo ser feliz se a pólis está triste, tampouco pode o indivíduo ter saúde com a pólis  doente.

“Companhia” vem de “com-panis”. E “panis” é, em português, “pão”. Assim, fazer companhia é  saber “dividir o pão”. Companheiros: “aqueles que dividem o pão”.

Há o pão que alimenta o corpo, como aquele que faltou ao povo e trouxe o sofrimento  da fome. A elitista Maria Antonieta, zombando, disse: “Não têm pão? Que comam brioches!”

Nasceu então no povo a fome por outro pão: o pão da justiça social , pão que  tem por  fermento a arte, a educação e a poesia,  pois poesia também é  pão que alimenta a luta.

2- No livro “1984”, George Orwell  mostra que  uma das táticas empregadas pelo  poder para se perpetuar (seja o poder fardado , seja o poder do dinheiro) , é apagar certas palavras dos discursos e práticas, para assim tentar apagar também a realidade que tais palavras  designam.

Parece estar acontecendo isso com a palavra “trabalhador”, que o poder do Capital tenta apagar colocando no lugar “colaborador” ,isto é,  colaborador do Capital   que retira do próprio trabalhador a consciência de seus direitos . Com isso,  propaga-se  a ideologia de que o outro trabalhador não é um companheiro, mas um “competidor”.

Neste dia  em que se comemora o “Dia do Trabalhador”, todos os filmes do diretor Ken Loach são uma boa dica. Deixo aqui a sugestão de um filme dele. Em “Pão e Rosas”, as “rosas” são a  cultura, as artes, a educação, a poesia .