quarta-feira, 15 de setembro de 2021

nise & espinosa

 

Nise da Silveira cita Bachelard quando este dizia que nossa saúde mental , ou a falta dela, depende  mais do que fazemos com nossas mãos do que daquilo que teorizamos com nossa mente .

Talvez  por isso  , depois de filosofar, Espinosa se dedicava a fabricar e  polir  cuidadosamente lentes, como um simples artesão .

Após abstratos raciocínios lógicos, Wittgenstein fechava  os livros para ir plantar  flores no jardim de uma escola, feito um jardineiro.

Deleuze costumava desenhar linhas de fuga entre as aulas, nisso se assemelhando a um cartógrafo.

Plotino deixava  seus solitários  estudos metafísicos para  ir alimentar com as próprias mãos pequenos órfãos, como se fosse um cozinheiro.

Depois de escrever  profundas páginas que , segundo dizem, até lhe arrancavam lágrimas ,   Heráclito construía lúdicos   brinquedos de madeira para as crianças,  reinventando-se carpinteiro.

Sobretudo para aqueles cujo pensamento ousa ir muito longe em busca de terras novas, para ele não se perder, é bom mantê-lo unido a mãos que tocam, transformam ou cuidam da realidade próxima.

São essas mãos solidárias que também nos protegem   da “mão invisível” do mercado (que  apenas sabe contar dinheiro, sem se importar eticamente de onde ele veio); e é igualmente  de mãos dadas com essas mãos libertárias  que podemos mais  do aqueles  que, querendo nos pôr medo,  imitam com a mão uma arma  fascista , para nós apontada.

Enfim, somente  mãos que conduzem, cuidam ,alimentam ou transformam  podem ser    a afetiva âncora do pensamento no aqui e agora, sem fazê-lo perder o horizonte aberto  para o qual sempre se desterritorializa e decola .


“Poesia é Oficina de Transfazer a natureza.” (Manoel de Barros)


“Em minha Ética,  quero explicar aquelas coisas que possam nos conduzir, como que pela mão.” (Espinosa)


( imagem:  o gatinho da Nise chamado “Carlinhos”, ela própria e Espinosa multicolorido)




domingo, 12 de setembro de 2021

rizomas

 

Sempre achei que as plantas plantadas num vaso se assemelham a passarinhos presos numa gaiola. Na mitologia, Urano, o Céu, foi gerado por Gaia, a Mãe-Terra: antes de brilharem no céu, as estrelas  foram sementes gestadas no ventre da Terra.

 Nas plantas, as raízes  se assemelham ao que nos passarinhos são asas, pois são com as raízes  que  as plantas   voam no seio da Terra . Do mesmo modo que o céu horizonta os passarinhos , a Terra horizonta as raízes que se alimentam e se expandem  no seio dela.  Como ensina o poeta Manoel de Barros, os horizontes são telas para a gente pintar liberdade nelas.

Assim como numa  gaiola que  tolhe o voar do passarinho, num vaso as raízes ficam atrofiadas, não se ampliam  tudo o que podem.

E assim também é a mente humana: quando plantada no vaso estreito de cômodas certezas, fica atrofiada.

Hoje, bem cedinho,  tomei a decisão: libertei  uma planta que eu cuidava, a retirei  da gaiola do estreito vaso e a soltei , plantando,   num imenso  quintal.

Tomei essa libertária decisão inspirando-me em Espinosa, que  nos tira de todo vaso estreito e nos enraíza , como rizoma liberto,    na infinita e horizontada  Terra.

E hoje pela manhã também  li uma notícia que faria sorrir Espinosa: os cientistas descobriram que , quanto mais potente e saudável é uma floresta,  entre as árvores não há competição por luz  ou disputa com uma querendo ser maior do que a outra,  pois nas florestas saudáveis e potentes as   raízes das árvores se encontram debaixo da terra , formam rizomas coletivos e se fortalecem  mutuamente, como  quem  luta junto  dando as mãos.




sábado, 11 de setembro de 2021

a cirurgia

 

Certa vez, quando eu passava por um momento muito difícil , sonhei que seria operado do coração. Angustiado, eu pensava que não sobreviveria à operação. Não sei como fui parar ali, por quais caminhos andei ou fui levado. Sabia apenas que haveria uma operação e eu era o paciente a ser operado.

 De repente, adentra a sala de cirurgia o cirurgião. Ao vê-lo, meu medo desaparece, cheguei até a sorrir...Pois o médico que me operaria era nada mais nada menos do que o poeta Fernando Pessoa!

No princípio, achei estranho . Mas depois entendi que fazia sentido ser um poeta o cirurgião de um coração angustiado.

Sem demora, o cirurgião-poeta abriu meu peito, mas não com bisturi : não sangrou , nem houve dor. Ele enfiou uma das mãos, porém não foi suficiente. Somente as duas mãos do poeta conseguiram tirar meu coração do peito .

 "Seu coração  está pesado como um paralelepípedo! Preciso extrair o que lhe pesa”, diagnosticou o cirurgião-poeta. “O que lhe pesa não é coisa física, o que lhe pesa é a mágoa com o passado, a decepção com o presente , o medo do futuro e a descrença nos homens”, disse-me ele enquanto extraía tudo isso.

Quando olhei para a mão do poeta , meu coração estava minúsculo, parecendo uma semente salva de um fruto que perecia. Indaguei : “poeta, com esse coração pequenino como vou sobreviver!?”

O cirurgião-poeta então respondeu, terminando sua arte, sua “clínica”: “Ele está assim pequeno porque  deixei apenas o coração da criança.”

Após ouvir isso despertei, e não apenas daquele sonho. Olhei pela janela: já amanhecia . Queria registrar o sonho e me virei para procurar  caneta e papel. Então, algo que estava sobre meu peito caiu ao meu lado na cama, era um livro que adormeci lendo: “O Eu Profundo e os outros Eus”, de Fernando Pessoa.


                               "As terapias verbais me terapeutam." (Manoel de Barros)






sexta-feira, 10 de setembro de 2021

o bilhete do carrasco

 

Segundo Espinosa, é uma ilusão imaginar que um homem autoritário  poderia se tornar um homem justo se assim o quisesse, como se a passagem da tirania  à justiça   dependesse  de um ato de vontade de tal homem.

 É ilusão ainda maior imaginar que quem promove a morte e a ignorância um dia mudará e passará a cultivar a vida e o conhecimento. Esse tipo  de ilusão é comum aos que se colocam  como “neutros” politicamente, além de ser a máscara esperta  dos dissimulados que tiram proveito comercial da ignorância e da necropolítica , porém posam de indignados em “notas de repúdio”  cínicas.

Essa ilusão psicológica, que se torna trágica no campo da política, nasce da  crença que se alimenta de uma passionalidade emotiva, que abdica de agir e passa a “esperar” que, enfim, o carrasco se tornará um amigo empático ao nosso sofrimento.

Publicamente,  o carrasco até finge que mudará, mas entre os seus ele ri e zomba enquanto afia seus instrumentos de tortura. Se um homem autoritário , perverso e torturador   não consegue se tornar alguém diferente,  é porque disso ele não é capaz, ou seja, essa incapacidade é uma amostra pública não da  impotência  de sua  vontade, mas da natureza vil de seu caráter, um caráter de torturador sádico.

Se olharmos para aquilo que ele de fato  é,  e  não com  esperanças cegas  de como ele deveria ser, veremos que o torturador tem uma vontade bem determinada. Determinada não em mudar, e sim  determinada em continuar a  torturar: a nós, aos doentes, a democracia.

Se um homem alcançou o poder por intermédio do voto não escondendo  de ninguém que é autoritário, genocida, preconceituoso, misógino...é uma ilusão achar que ele mudaria de natureza exatamente quando chega ao poder , como pensavam que  mudaria,  e ainda pensam que  vai mudar  , setores da mídia golpista e parte do judiciário que apoiaram e ainda apoiam , por cumplicidade, covardia  ou conveniência,  o genocida. Bastou o genocida escrever ontem  , a quatro mãos com o golpista Temer, um bilhete ambíguo se dizendo um arrependido, bastou isso para a bolsa subir e o mercado voltar a estender a mão para o fascismo, sinalizando estar disposto  a pagar qualquer preço que impeça a vitória de um projeto   popular e progressista em  2022.

Segundo Espinosa, a obtenção de  poder nunca tornará um tirano democrata, a não ser em palavras, enquanto ele ganha tempo para melhor planejar na surdina suas vilezas. A obtenção de poder tornará esse homem ainda mais despudorado  em ser como ele é , ao mesmo tempo que conseguirá reunir com mais submissão gente ao redor dele, gente que é como ele  , mas que tinha vergonha de assumir sua ignorância e baixeza  em público.

Por outro lado, isso também deixará mais evidente quem é diferente dele e de seu rebanho lunático , e a eles resistirá - com ideias que nos agenciem  e  gerem ações  firmes.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

poetas da tribo

 

Quando entrou em contato pela  primeira vez com a mentalidade do homem branco, o pensador indígena  Krenak disse que a ideia mais incompreensível para ele era de que o mundo estava condenado a um fim, a um “Juízo Final”. Ele não entendia  como  essa visão destruidora podia ser  a base de uma religião que se dizia do Amor.

Além disso, essa visão de que a terra, a Mãe-Terra, teria um dia fim parecia legitimar que o homem branco  já começasse a destruí-la   desde agora, derrubando suas florestas, poluindo seus mares e rios, enfim,  ameaçando de extinção os povos da floresta.  

Mas os povos da floresta têm um antídoto que os protege da mentalidade branca niilista.  Esse antídoto não está no cacique , o “chefe político”, ou no pajé, o “chefe religioso”; esse antídoto está naquele que é chamado de   “pessoa coletiva”.

Nos povos da floresta a “pessoa coletiva” não é alguém com “muitos eus” ou “personalidades”. Diferentemente, a “pessoa coletiva” é aquela que diz narrativas que expressam o “nós” da comunidade.

A própria linguagem ensina que não existe apenas uma pessoa  , mas seis : eu, tu, ele, nós, vós, eles. Enquanto o branco imagina  ser o “eu” a única pessoa, os povos da floresta pouco dizem “eu”, pois conjugam seu mundo na primeira pessoa do plural: o nós da pessoa coletiva.

Somente sendo uma “pessoa coletiva” se pode ser uma singularidade. A “pessoa coletiva” não profere ordens e nem cultos, ela tece narrativas. São as narrativas de uma “pessoa coletiva” que potencializam a comunidade para enfrentar as ameaças de fim de mundo.

A “pessoa coletiva” é o poeta da comunidade. Entre os povos da floresta, o poeta não tem nome próprio designando um ego, pois seu nome é “pessoa coletiva”.

O poeta da tribo expressa um poder  diferente daquele que exerce o cacique, o poeta   promove curas para enfermidades que o pajé não consegue  curar, e trava guerras cujas armas não são lanças ou flechas, pois sua guerra é a resistência por intermédio  da palavra que não deixa morrer um mundo, o mundo dos povos da floresta. 

 A “pessoa coletiva” é um “agente coletivo de enunciação”, diriam Deleuze e Guattari; e nela fontaneja um “afloramento de falas”, tal  como aflora na  pessoa coletiva Manoel de Barros, um dos poetas da nossa tribo. Segue um trecho do livro de Krenak:


"Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar  com o seu mundo? (...)Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram  e me alimentei delas , da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desses povos.(...)Muitas dessas pessoas não são indivíduos, mas 'pessoas coletivas', células que conseguem transmitir através do tempo suas visões sobre o mundo." (Ideias para adiar o fim do mundo, p. 28)




 



segunda-feira, 6 de setembro de 2021

o pastor e a sábia indígena

 

Minha querida avó sempre dizia que o orgulho não é coisa boa. Mas creio que ela me perdoaria acerca de um orgulho profissional que nutro. Pois tenho orgulho de ter sido demitido pelo pastor Malafaia. Eu era bem jovem à época , estava começando a dar aulas de ética e filosofia,  e esse senhor era um dos donos, não sei se ainda o é, de uma faculdade privada onde eu lecionava.

De forma autoritária, ele queria se intrometer nos conteúdos e na maneira como deveríamos dar aula. Ele queria ser também nosso dono. Como não aceitei, fui demitido.

Hoje vejo que aquela demissão não foi uma perda, mas uma vitória do ponto de vista da ética e da filosofia, apesar do preço ter sido alto do ponto de vista pessoal e material , pois fiquei desempregado.

E sei que minha querida avó, já falecida à época, com seu sangue indígena de alguma forma me ajudou a ter coragem.

a expressão democrática

 

A liberdade de expressão e opinião é um dos pilares da democracia. Na Grécia democrática, por exemplo, essa prática acontecia na ágora, o coração da pólis.

“Ágora” vem de “agon” , que significa “conflito” ou “disputa” . A ágora era a praça pública.  Na ágora não aconteciam disputas armadas, pois na ágora a disputa era realizada mediante palavras  que expressassem perspectivas, razões, argumentos -  sempre visando o bem comum da pólis.

A palavra “pólis” significa “cidade” ou “organização”. Este  sentido   está presente em “própolis”:  “ a favor da pólis”, pois a colmeia é uma pólis, uma organização. Na ágora, a palavra democrática era a própolis para fortalecer a pólis e sua pluralidade de perspectivas.

Em latim, “pólis” será traduzida por “civitas”,  “civilização”. Assim, o centro da pólis-civilização não é o templo ou o quartel, tampouco o mercado e sua avidez por juros e lucros. O centro da pólis-civilização é a praça, um espaço aberto e plural, sem dono ou proprietário .

As praças são espaços abertos às ruas democráticas que conectam o centro à periferia , onde gritam por dignidade  os excluídos e excluídas, muitos já quase sem comida em casa.

Muito diferentes são as ruas  suspeitas  que partem  de condomínios fechados onde se escondem carrascos que enriqueceram com o crime  . Foi de uma rua sinistra assim   que partiram os assassinos milicianos de Marielle. Hoje, um vizinho e amigo  desses  milicianos quer pôr na rua seu bando para tentar assassinar  a democracia.

A liberdade de opinião e expressão é um direito garantido pela Constituição. Mas esse direito é apenas uma forma . E uma expressão nunca é apenas uma forma, pois “expressão” vem de  “ex-pressio”: “trazer para fora” o que cada um tem dentro.

A expressão opinativa é prática discursiva que põe um conteúdo numa forma. Se o que alguém cultua dentro de si  é apenas  ódio, ignorância, idiotia, enfim, incivilidade, são esses conteúdos que serão trazidos para fora de sua obscura alma  .

 O discurso teológico-político expressa essa mentalidade de trevas. E quem tem mentalidade assim não consegue esconder: basta abrir a boca que a incivilidade se revela.

Quando esses conteúdos obscurantistas se convertem em ameaças à vida plural e democrática , já não se trata mais de opinião, religião ou pátria,  e sim de crime . Um crime mais grave  e perigoso  do que os cometidos contra  a propriedade,  que são os crimes que  levam à cadeia os pobres.

Histórica e  politicamente,  a praça e a rua não são dos fascistas  e nunca serão, por maiores que sejam suas ameaças. As ruas e praças pertencem, por direito e não por violência,  à expressão democrática.

Devemos ter cuidado, sempre . Mas nunca temer . Pois , como diz Espinosa, uma das maneiras que todo projeto de  tirano tem de parecer mais  forte é tentando nos provocar tristeza e medo que nos imobilizem e calem.




sábado, 4 de setembro de 2021

o tato

 

Dos cinco sentidos que possuímos , o tato é o mais ancestral. Muitos seres vivos não têm olhos e nem ouvidos, porém possuem algum tipo de tato. Pois não existe ser vivo que não possua tato. É pelo tato que o ser vivo toca e é tocado.

De tato  vem “contato” ( “con-tato”). Não só os corpos fazem contato quando se abraçam, também fazem contato as almas quando se entendem mutuamente.

A palavra “afeto” se origina de um verbo latino que significa “ser tocado”. Assim, o afeto é uma questão de tato: tato consigo, tato com os outros, tato com o universo. Muitas vezes, não basta ter olhos e ouvidos para compreender uma situação, é preciso ter tato.

Empatia, solidariedade, tolerância, justiça, o conviver democrático das diferenças...Tudo isso pressupõe , primeiramente, tato social.

De tato também vem “intuição”. Enquanto a “dedução” é um procedimento lógico-abstrato, a intuição é um contato imediato e concreto com a realidade, tanto as externas quanto as internas.

Todos os outros sentidos vieram do tato. O gosto, por exemplo, é o segundo sentido mais ancestral, e nasceu também do tato. Pois o gosto nasce quando algo toca/afeta nossa língua e boca. Não por acaso, “saber” vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são alimento ou veneno. E ninguém descobre a importância do ler e do pensar se não desenvolver, antes, o gosto pela leitura e pelo pensar. Pois o gosto não é algo meramente teórico, o gosto está envolvido com nossa vida e nossas ancestralidades  corpóreas .

Mesmo a visão, tida como o sentido mais intelectual e espiritual, mesmo ela nasceu do tato! Isso aconteceu há milhões de anos , e tem por personagem  um ancestral nosso que vivia debaixo d’água. Ao ser afetado/tocado pela luz, esse ancestral conseguiu fazer com que parte da pele dele se especializasse em sintetizar as ondas luminosas. Ele passou essa capacidade  para seus descendentes e, com a evolução, surgiu  uma abertura ao mundo visível:  nasceu a visão. Sem a inventividade desse ancestral submerso nas cristalinas águas, não teria podido  surgir Platão e sua contemplação do Mundo Celeste...

Ninguém melhor do que Clarice Lispector compreendeu essa potência  inesgotável do tato enquanto “(re)descoberta do mundo”. Ela dizia que escrever não é retirar de dentro da cabeça ideias prontas  já conhecidas e pensadas. Escrever é pôr-se na ponta dos pés, elevando-se o máximo possível , mas sem perder o con-tato com a terra. Depois , esticar os braços e mãos o máximo que pudermos , para  com a ponta dos dedos do pensamento tocar e colher, com o afeto-tato, o fruto que nasceu da árvore mais alta, e que parecia, aos olhos,  inalcançável.


"O mais profundo é a pele." (Paul Valéry)






quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Espinosa e o cuidado

 

Em sua Ética, Espinosa coloca o “cuidado” como prática fundamental, sem a qual não há filosofia, poesia, cultura, liberdade, democracia, enfim, vida. A palavra cuidado vem do latim “caute”. 

Cuidado não é a mesma coisa que medo. Pois medo é um receio de agir, ao passo que o cuidado é um agir mais do que necessário diante de tudo aquilo que é frágil e depende de nós, de nossa ação.

Frágil não é a mesma coisa que fraco. Frágil é tudo aquilo que traz em sua imanência uma potencialidade ainda a aflorar. Por exemplo, a criança é frágil, ela não é fraca. A criança é frágil porque há nela uma potencialidade que precisa de cuidados para crescer e frutificar. Educação, cultura, amor, o lúdico...Tudo isso são cuidados dos quais a criança precisa para que dela cresça um  adulto que  também exercerá a prática do cuidado.

A semente igualmente é frágil: ainda por nascer, há em sua imanência uma árvore da qual surgirão  frutos com novas sementes dentro . Mas essa potência somente se tornará real se for cuidada. Calor, água, terra fértil...São os meios com os quais o jardineiro  cuida da semente.

Fraco, ao contrário, é tudo aquilo que põe em risco a prática do cuidado e os seres que o cuidado potencializa. Fraco é o que somente sabe destruir, por isso seu culto às armas e às motosserras, físicas ou simbólicas. Os fracos querem sempre destruir essa virtualidade em nome de um presente reativo e cultuador  de um  passado obscuro. Fraqueza é ressentimento e espírito de vingança;  enfim, fraco é o autoritário que quer se impor gritando, ameaçando, apontando armas.

Assim, o cuidado é prática ética, pedagógica  e política para proteger tudo o que é frágil, em nós, nos outros, na sociedade, na natureza. Mas a prática do cuidado enquanto tal não pode ser frágil. A semente depende do amanhã para virar árvore e floresta, a criança depende do amanhã para se tornar adulto, porém a prática do cuidado não pode esperar pelo amanhã, pois ela é sempre necessária no aqui e agora, já.

O cuidado é prática que se faz no presente garantindo que haja futuro , a despeito das forças do passado que sempre querem  a regressão, o atraso, o retrocesso.

Por isso, a prática do cuidado tem que ser a mais potente possível, a mais firme, sem medo, com coragem, sem receio, perseverante.




quarta-feira, 1 de setembro de 2021

a democracia originária

 

Em muitas comunidades  indígenas também se delibera e vota , e várias dessas comunidades teriam muito  o que ensinar sobre democracia , inclusive aos Gregos!

É um equívoco  imaginar que o cacique é “quem manda”. Nas assembleias dos povos indígenas a democracia é direta: cada um expressa sua própria voz e ouve, diretamente, a voz do outro que também delibera.

Na política representativa um deputado representa ( ou re-apresenta) o interesse de alguém ausente , ao passo que na ágora dos indígenas cada um participa presentando-se , isto é, fazendo-se presença  diante dos outros, seus iguais.

Nas comunidades indígenas  não existe interesse privado superior  ao interesse comunitário. Em grego, “privado” é “oikos”, de onde vem “economia”. Entre os povos originários também não há quarteis  ,   templos ou mercado   querendo se  sobrepor à comunidade.

Assim, entre os indígenas  o que vem primeiro é sempre a política, e não os interesses privados econômicos  ligados a grupos ou  famílias poderosas.

Nas votações e deliberações da democracia  indígena  há apenas uma condição para a decisão  vitoriosa virar regra  .   A condição é: a posição vitoriosa precisa ser unânime. Sendo unanimemente aceita, ela será vista como vitória de cada um. Por isso, tal decisão unânime tornada regra não precisará de polícias  ou repressão  para ser cumprida.

Ela se torna unânime não porque uma parte imponha a outra seu poder, mas sim em razão de precisar haver  uma  compreensão  de que a proposta vitoriosa é boa para a comunidade como um todo. Este é o sentido original de "un-ânime": uma única ânima ou alma. Nesse mesmo sentido, Espinosa também dizia que a ação comum movida pelo amor à liberdade de todos faz nascer uma alma comum, un-ânime,  em todos que assim agem.  

Quando a regra é assim, ela é obedecida sem precisar de ameaças , pois tal regra  não é lei a serviço de elites e castas. E quando  se detectava  índole de tirano em alguém , aplicava-se como punição o ostracismo.

Segundo Lévi-Strauss, entre os indígenas a decisão vitoriosa precisava ser unânime para não gerar derrotados. Pois    derrotados podem guardar  mágoas  geradoras de ressentidas   vinganças (como o Aécio Neves em 2014, hoje cúmplice do fascista que nem espera a derrota no voto em 2022  para já nos fazer ameaças).

Essa  sabedoria política dos indígenas  evitou que nascessem ódio internos que poderiam gerar divisões da sociedade em castas e classes desiguais, com uns se julgando superiores aos outros ou se achando dono da aldeia e querendo impor “Ordem” à força.

Nas comunidades indígenas, as ocas são amplas  e acolhem muitos em igualdade, elas não são uma “Casa-grande” para  poucos privilegiados.

Nessa democracia originária  não há privilégios, a não ser o privilégio de participar da comunidade e honrar os ancestrais. E os guerreiros não são generais que ameaçam o próprio povo supondo-o “inimigo interno”. Os guerreiros só agem contra as ameaças externas que colocam  em risco a comunidade .

A unanimidade  vitoriosa , desejo comum da comunidade, não era portanto a imposição da vontade de um chefe ou de um “Partido”, ela era construída coletivamente , pois o amor à aldeia era maior do que o apego  de cada um ao  próprio ego. Unanimidades conquistadas assim não são “burras”, são sábias.





- A referência que fiz a Lévi-Strauss está neste excelente livro: