terça-feira, 7 de abril de 2026
A corrida entre a Inteligência e o Amor
sexta-feira, 3 de abril de 2026
francisco
Ouvi certa vez a seguinte
história de autoria popular ( que aqui parafraseio e interpreto): de um lado
estava São Francisco, do outro o Diabo. Separando a ambos , um muro; e em cima do muro estava alguém que se dizia “Neutro”.
Francisco
disse ao “Neutro”: “- Venha para este lado, aqui há luz e empatia
pela vida do outro.” Do lado
oposto do muro , porém, o Diabo permanecia calado.
Vendo o “Neutro” ainda indeciso e parado, Francisco prosseguia : “- Venha se juntar a nós , Buda
também está aqui; também estão Lao-Tsé, Confúcio, Orixás , Tupã, Mães-de-Santo, Pajés ... Bem como todos aqueles que, tendo
ou não religião, agiram para defender e
libertar os oprimidos e injustiçados.”
Estranhamente, o Diabo
seguia mudo, ele que gosta tanto de se vangloriar...
Então, Francisco levantou
a cabeça , olhou sobre o muro e indagou ao que reinava na treva do outro lado : “- Por que você permanece
calado?”
“- É que esse muro onde o
‘Neutro’ está instalado pertence a mim”, disse o Diabo.
Do certo lado do muro, o
poeta Manoel de Barros assim poetizou: “São Francisco monumentou os
passarinhos.”
“De pés descalços, ele dançou diante
do Papa.”(Deleuze)
"O que é inferno? Afirmo que é o
sofrimento de já não poder amar.”(Dostoiévski)
(obs: o texto se refere ao personagem social-popular
Francisco, um personagem muito presente na
literatura de cordel do nosso
Nordeste. Não é tratado o tema do ponto de vista de uma religião. Inclusive ,
dei a entender que do lado do muro onde está o personagem Francisco também
podem estar agnósticos e até os sem religião. A foto que acompanha o texto mostra
a escultura “Cristo sem teto”, obra do escultor Timothy Schmalz; a outra imagem
é a do padre Júlio Lancelloti , que foi parado recentemente pela polícia
durante evento que o padre fazia para auxiliar
os moradores de rua e sem teto)
Francisco vinha por um bosque afastado e viu uma igrejinha
em ruínas. O teto da igrejinha caiu , as paredes vieram ao chão. Nada mais ficou
de pé, exceto uma cruz em madeira que permanecia
intacta, apesar do altar destruído.
A cruz tinha o
tamanho de uma pessoa, e parecia de fato uma pessoa de braços abertos.
A madeira com a qual a cruz era feita perseverava viva, de tal modo que a cruz voltou a ser árvore que pertence à natureza , não mais o
símbolo de uma religião.
O teto da igrejinha agora era o horizontado céu; e a
mãe-terra , o seu chão.
De repente, Francisco ouviu um passarinho cantando: era um
rouxinol. E o mais surpreendente : o
canto parecia vir da cruz. No coração da cruz, onde a madeira vertical e a
horizontal se encontram, havia um pequeno buraco no qual o rouxinol estava pousado .
Parecia que o rouxinol , cantando, chamava Francisco para ver a “boa
nova”.
Quando se aproximou e olhou para dentro do peito da cruz,
Francisco viu que ali havia um ninho bem
no coração dela, no qual três filhotinhos, rompendo o ovo, acabavam de nascer.
sábado, 28 de março de 2026
ecosofia
No livro “As três
ecologias”, Félix Guattari ensina que
não existe apenas uma ecologia, existem três: a ecologia verde, que cuida da poluição do meio ambiente; a
ecologia social, que se debruça sobre as poluições que ameaçam a vida em
sociedade ( como a poluição da água e do ar, o problema do saneamento básico,
etc.); e a ecologia mental, também chamada por ele de ecosofia, que visa fazer
a crítica dos vários poluentes que poluem a mente.
Esses poluentes da mente ( ou da
subjetividade) são produzidos principalmente
pelos fanatismos diversos, pelas
fake news e pela mídia golpista.
Ou seja, cada ecologia se
preocupa em nos tornar cientes, pela
ação e pelo pensamento crítico, dos diversos poluentes que existem, dentro e fora de nós.
Nos rios e mares, os poluentes são
visíveis, e nos atingem com seu cheiro
nocivo , pondo em risco nossa saúde; mas também há os poluentes que
vêm da mídia golpista , cujo
cheiro é tão nocivo quanto e ameaça a saúde da mente ( tanto a individual
quanto a coletiva).
Essas três formas de poluição
nunca andam sozinhas: uma se alimenta da outra, de tal modo que a predação do
planeta anda a par com a imbecialização das mentes.
O citado “powerpoint” da Globo é o exemplo mais recente dessa
imundice midiática que , de forma
calculada, é produzida para ser canalizada para o esgoto das redes da extrema-direita.
Quem conhece minimamente
jornalismo sabe que , antes do tal “powerpoint” ser divulgado, ele passou por reuniões de
pauta, escrutínio de editores e
colaboração de revisores , até o texto ser encaminhado , com instruções
pormenorizadas, para o pessoal da comunicação visual transformar em imagem.
Até o dia escolhido para a
divulgação foi planejado: uma sexta-feira, para o “desmentido” ser feito apenas
na segunda, e assim dar tempo de o lixo circular durante o fim de semana no
zaps dos grupos teológicos-políticos, caminhoneiros, militares, atiradores e
outros perfis do gênero.
Só uma observação: a Globo fez
não exatamente um powerpoint, mas a reprodução imitativa de um quadro de
investigação empregado pela polícia, o que é mais grave ainda .
Esses quadros policiais têm mais
apelo no imaginário popular. Com isso ,
a Globo, de forma calculada, tenta passar a ideia que não está mentindo e
distorcendo, mas apenas reproduzindo informação que vem da polícia.
Como dizia Nietzsche : “Se você
tiver que ouvir ou ler os seres vis, não se esqueça de tapar o nariz do
espírito...”. E Foucault , por sua vez,
estava diante de imundices assim quando pediu : “Um pouco do ar do possível,
para a gente poder respirar...”
terça-feira, 24 de março de 2026
quando a palavra já não basta
Quando pensava e falava, havia um ponto , um ponto enigmático, em que Heráclito parava de exercer o logos, e chorava. Nada mais dizia, apenas chorava. Então, os adultos se afastavam, apenas as crianças ficavam perto dele.
sábado, 21 de março de 2026
o poder teológico-político
A palavra “teologia” aparece
entre os filósofos pré-socráticos. Antes deles , já existia a palavra
“teogonia” , que é o título de um poema de Hesíodo no qual se narra a origem dos deuses, a começar por Gaia, a Mãe-Terra.
Hoje , a palavra “teologia” remete a três religiões
calcadas num texto considerado sagrado
por elas: o Alcorão ( Islamismo), a Torá ( Judaísmo) e a Bíblia (Cristianismo).
“Política”, por sua vez, vem do
termo “pólis”, que significa tanto “cidade” como “organização” ( na raiz da palavra “pró-polis” , por exemplo, está “pólis”
, pois a própolis , como uma vacina, protege a colmeia enquanto “organização-comunidade”
das abelhas).
Pólis é a organização conjunta
das liberdades, para assim construir o viver em comum, preservando a
heterogeneidade dos viveres. No centro da pólis não estão Castelos ou Templos,
embora a base de toda pólis igualmente seja um livro.
Um livro que também é objeto de
uma “fé”, não uma fé religiosa, mas uma fé na liberdade, na criatividade, na
ciência, na cultura , na educação, pois essas atividades também são
“instituições”.
Ao contrário dos “Textos Sagrados”,
o livro que serve de base à pólis pode ser reformado ou até mesmo abandonado em
nome de outro texto mais justo, desde que assim decida a sociedade, após
debate, argumentação, divergência
dialogada e votação.
O livro
que fundamenta a pólis é a Constituição.
Essa palavra significa: “o que é instituído junto”, e que apenas por um querer
junto, afirmador da pluralidade, pode ser destituído.
A Constituição deve preservar a
diversidade, inclusive a diversidade de crenças religiosas, além de proteger
também aqueles que não têm crenças religiosas.
O poder teológico é um poder que
tem seu campo de atuação restrito ao templo. Porém, acontece por vezes de tal poder usurpar esse espaço de
culto, querendo se tornar também poder político.
É assim que nasce o que Espinosa
chama de poder “teológico-político”. Para triunfar, esse tipo de poder
perseguirá como inimigo tudo aquilo que a Constituição democrática simboliza. É
por isso que o poder teológico-político somente pode perdurar cooptando
exércitos e polícias.
Esse tipo de poder também costuma
se juntar aos que fazem do Capitalismo e do Mercado um Deus, a tal ponto que a
“prosperidade” econômica individual
passa a ser valor cultuado como se fosse um Dogma ( como se vê
no atual acumpliciamento fláviorachadinha-mídiagolpista).
Dizem que o orgulho não é um bom
sentimento... Porém confesso que tenho orgulho de algo: ter sido demitido pelo
profeta-Malafaia . Ele era um dos donos
da faculdade onde eu lecionava filosofia. Eu estava começando na atividade
docente, foi difícil à época ficar sem emprego, porém não me vendi. Ele me
demitiu não por eu fazer mal meu trabalho .
Ele me demitiu por eu não obedecer à tentativa dele de cercear nossa
atividade docente. Ele nutria indisfarçável horror à filosofia e aos filósofos,
só tolerando quem lhe dissesse “amém”.
Se esse srº vivesse na Grécia Clássica,
com certeza ele seria um daqueles vingativos que condenaram
Sócrates a beber a cicuta; se ele vivesse na época de Espinosa, seria talvez
aquele que mandou um fanático religioso
ferir Espinosa com um punhal...( aliás, o ato que baniu/excomungou
Espinosa ainda não foi revogado pelas autoridades religiosas :Espinosa é considerado ainda hoje por eles como
um subversivo perigoso...) . O
profeta-malafaia aparece ali na foto
junto ao seu “Messias”. Cada profeta tem o “Messias” que merece...
sábado, 14 de março de 2026
a escova do poeta
No poema “Escova”, Manoel de Barros diz ter visto, quando criança, dois homens
sentados no chão "escovando
osso" . No início, diz o poeta, “achei que eles eram loucos” .
Mas ele olhou bem e viu que não podiam ser
loucos aqueles homens. Louco , o mais
perigoso, é quem
quer impor aos outros o seu
“mesmal” . O “mesmal” é a doença de quem imagina que seu modo de viver é
o único normal.
Aqueles homens não podiam ser
loucos, pois pareciam ver a novidade onde todos veem o igual : escovando, eles queriam livrar o osso da
craca e poeira que nele grudaram .
No escovar deles também havia uma artesania semelhante à de Espinosa a polir
lentes com cuidado
O poeta descobriu então que
aqueles homens eram arqueólogos. Eles queriam ressuscitar no osso o mundo no
qual ele foi parte de um esqueleto sob músculo e pele, há milhões de anos.
E mais do que isso, eles
desejavam reviver o sentido que estava
no osso , pois nada faz sentido sozinho: o osso foi parte de
um esqueleto que era parte de um ser vivente, igualmente parte singular de um mundo hoje extinto
, do qual o osso dava o testemunho.
Para eles o osso era mais do que osso: era também o
fragmento de uma história , a nossa história,
que a vida ainda está a escrever,
com ideias e corpos, apesar das necropolíticas que querem nos extinguir.
Ao ver os arqueólogos , o poeta ainda criança compreendeu qual seria
então seu destino: o de escovar as palavras, retirar delas a idiotia, a
ignorância, o preconceito, o clichê e as
banalidades que nelas colocaram as mentes obtusas, de tal maneira que seria também uma “ecologia
mental” o que o poeta faria ao escovar
das palavras tais sujeiras e craca.
Ao escovar as palavras, o
poeta não acha “Verdades” , “Ordens” ou “Mandamentos”; ele
acha a poesia como sentido primeiro, não
conformista, das coisas : “A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que
sei” , ensina o poeta.
sexta-feira, 13 de março de 2026
A "dualidão"
Nietzsche assim dizia: “Odeio quem rouba minha solidão sem oferecer
verdadeira companhia.” A palavra “companhia” vem de “com-pane”. Em latim,
“pane” é “pão”. Assim, fazer companhia é saber dividir o pão; companheiro : “aquele
com quem dividimos o pão.”
Não apenas o pão físico, aquele que mata a fome do corpo, mas sobretudo
os pães da mente , os pães do espírito, os pães do afeto, pães esses que matam
outro tipo de fome: fome por dignidade, fome por justiça, fome por
conhecimento.Desses pães ninguém é o dono, são pães que não se compram ou
vendem no mercado, são pães que não têm preço.
Nietzsche chama de “dualidão” quando duas solidões, sem perderem a
singularidade de cada uma, decidem, por
liberdade, andarem e viverem juntas. Em carta a Overbeck, Nietzsche afirma que , ao ler Espinosa, não
viu sua solidão roubada, mas acrescida por uma outra solidão singular como a
sua. Enfim, uma “dualidão”.
domingo, 8 de março de 2026
Sofias...
Em grego, “Sofia” é
“Sabedoria”. Não se deve confundir “Sofia” com “Razão”. A palavra
“Razão” em grego é masculina (“Logos”) e
tinha em Zeus um dos seus símbolos.
Porém Zeus não era a
Sabedoria, pois Sofia é filha de Zeus com Métis. Por
possuir muitos dons e capacidades, Métis era conhecida como a deusa
das “habilidades”. Não a habilidade meramente técnica,
mas habilidade no sentido de produzir , além de ideias, um querer e
um agir múltiplo e criativo.
Métis também
estava associada à noção de “saúde” enquanto cuidado
consigo e com os outros. A palavra “caute” , base da Ética de Espinosa, provém
dessa habilidade médico-curativa . Pois de “Métis” também vem “meticuloso” , no
sentido do cuidado (“caute”) que caracteriza o bom médico ( tanto os
médicos do corpo quanto os médicos da alma, os pensadores-artistas).
Uma das características de
“Métis” é que ela era capaz de metamorfoses, de devires. Ao enamorar-se com
Métis, Zeus buscou na metamorfose dela um processo para renascer
também.
Agenciada com Métis
, a própria Razão potencializou-se para lutas que ela não tem
como vencer sozinha, lutas para enfrentar a ign0rância em suas diversas formas.
Fortalecida, a Razão aprendeu habilidades que a pura razão teórica
não ensina.
As habilidades de Métis são
artes que unem o pensar ao agir. E foi desse agenciamento mais afetivo do que
teórico , mais artístico e poético do que acadêmico, que
nasceu então Sofia, também conhecida como “Atena”, filha de Zeus com
Métis.
Os teóricos da
Razão inspiram-se em Zeus, mas os pensadores-artistas
são apaixonados por Sofia: e por essa paixão não apenas pensam, como
também agem e criam.
Na lut4 contra a ign0rância e a
obscurid4de, ontem e hoje, a Razão não vence sozinha: é preciso que a acompanhe
Sofia. Às vezes, é a própria Sofia que salva a Razão de si mesma , fecundando
nela sensibilidade e vida, impedindo assim que a Razão
fique dogmaticamente estéril, rígida.
Segundo Nietzsche, hoje a
filosofia atende por outro nome, um nome feminino também
: “Ariadne”, nome que significa “aranha”. Pois Ariadne é tecedora de
fios, fios que ela tira de seu próprio ventre, como a “linha de fuga” ensinada
por Deleuze .
Ariadne simboliza a
necessidade de um fio que nos agencie, um fio
trançado com Ideias libertadoras e Afetos regeneradores,
como mãos que se seguram umas às outras na
luta e resistência ante toda forma de tir4nia, mãos de Sofia e
Ariadne unidas às mãos de Dandara, Eunice, Fernanda, Clarice,
Marielle...
Esse fio-agenciamento que une e
salva ganha vida na voz de Elza Soares:
“Eu não vou sucumbir
Eu não vou sucumbir
Avisa na hora que tremer o
chão
Amiga, é agora, segura a minha
mão”.
( Trecho da música “Libertação”)
“A paixão sem a razão é cega;
a razão sem a paixão é inativa.”
(Espinosa)
(Imagem: a pequena Sofia)
sábado, 7 de março de 2026
Manoel e os fluxos...
No livro "O guardador de
águas", o poeta-pensador Manoel de Barros afirma que aprendeu a
guardar águas. Não ouro, dinheiro ou posses, mas águas. Guardar também é
cuidar.
As águas que o poeta guarda não
são exatamente coisas, elas são fluxos. Cuidar dos fluxos é o oposto de
construir cercas , gaiolas , muros ( literais ou
simbólicos). Os fluxos são sempre desterritorializados e
desterritorializantes : “não se pode ‘passar régua’ neles”, ensina Manoel.
Mas não se deve confundir esse “fluxo” manoelino
com aquilo que o sociólogo Bauman chama de “líquido” , ao descrever as sociedades contemporâneas .
No “mundo líquido”, as relações, os amores, as
políticas , as temporalidades, o trabalho, as subjetividades e até mesmo o
conhecimento se tornaram “volúveis-voláteis” ( como a liquidez do
Capital que a tudo desumaniza e reduz a juros e lucro).
O líquido aceita ser
limitado e contido por moldes. Já um fluxo é feito o sangue nas
veias: se não avançar, perece. Os fluxos
ou inventam linhas de fuga ou secam e morrem - e a secar resistem
com toda força que podem.
Os fluxos somente podem ser
guardados em espaços abertos. E abertos se tornam a sociedade, a
mente e o afeto se um fluxo de vida os atravessa.
Os fluxos nascem de fluxos, não
de coisas enrijecidas: o rio
amazonas nasceu da geleira no alto dos
Andes , mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo...até
alcançar o horizontado mar , para mar também se tornar.
Guardar as águas é guardar-se
nelas, como necessária arte dos (re)descobrimentos: "estou à janela e só
acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo
comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir"( Clarice Lispector, “A descoberta
do mundo”).
Somente uma fonte pode guardar
fluxos. A fonte guarda fluxos os doando, pois uma fonte é um fluxo de vida partejando
a si para matar sedes e irrigar desertos.
O fluxo é fluido, mas não é sem força ou
volúvel; ele é firme, possui consistência, porém não é rígido. Pedras não
vencem o avançar de um fluxo , enquanto pulsar a fonte da qual ele
transborda.
“Quem anda no trilho é trem de
ferro.
Sou água que corre entre pedras:
liberdade caça jeito.” ( Manoel
de Barros)
“A cisterna contém; a fonte
transborda”. (William Blake)
“O artista é aquele que converte
os obstáculos em meio”. (Deleuze)
( Imagem: “Sherazade”/ obra do
artista Samil Hilal. Como as palavras emancipadoras de Sherazade enfrentando o
poder repressor-falocrático do “Sultão”,
o agenciamento de livros forma um fluxo de ideias que segue em frente, irreprimível...)
segunda-feira, 2 de março de 2026
No caminho com Maiakóvski
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
(...)
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror."
( trecho do poema “No caminho com Maiakóvski", do poeta
Eduardo Alves da Costa)
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Manoel de Barros: "Poesia pode ser que seja fazer outro mundo".
Certa vez, pediram ao poeta
Manoel de Barros uma definição do que é a poesia. O poeta assim respondeu:
“Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. Nessa resposta, a palavra mais
importante é o verbo “fazer”. Inclusive, a palavra “poesia” vem de um verbo
grego cujo sentido é exatamente “fazer, produzir”.
Quando se substantiva
a poesia apenas como rima e verso , perde-se a compreensão de que ela é também
um verbo, uma ação, que pode produzir muitas outras coisas além de rimas e
versos.
A poesia produz também
percepções, pensares e sentidos outros que subvertem o “mesmal” do
“mundo acostumado” .
Manoel diz que o poeta produz
versos porque , antes de escrever, “o poeta se empoema”. Empoemar-se
é um sentir que pensa, tornando-se potência criativa que nasce de
uma intensificação da vida.
Quem se
empoema, desegoifica-se e se
desabre: não cabe mais dentro de si. Alguns se
empoemam e dançam, outros se empoemam e pintam, outros se empoemam e
cantam, outros se empoemam e ensinam, outros se empoemam e
aprendem, outros se empoemam e se tornam generosos, corajosos,
insubmissos, libertários , enfim, intensificam o que neles é vivo .
E com o máximo de força que
podem , se esforçam para fazer outro mundo começando pelo lugar onde se está,
mesmo que seja um lugar modesto, micropolítico: sala de aula, fábrica, rua,
praça, residência, favela, vizinhança, janela, mundo virtual...
E primeiro que tudo, deve-se
começar por fazer outro mundo dentro de si mesmo, na maneira de pensar e
sentir, fazendo-se de novo página branca, sem roteiros prévios , para que nela
a vida reescreva novos sentidos por descobrir , sentidos que nos
auxiliem a resistir à antipoesia dos homens cultuadores do ódio, da destruição
e da morte.
É por isso que o importante
naquela definição de poesia também é o “pode ser que
seja”, pois poesia não é palavra de ordem ,
fórmula ou dogma; poesia é ideia pensante para
ser sentida e reinventada, reinventando-nos , como potencialização da liberdade
agenciada.
Como ensina Deleuze: “Mais
importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o
filósofo é o poeta”.
(parte do que escrevi se encontra
neste livro que organizei)
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Espinosa e o "niilismo"
Para Espinosa , deus não criou o mundo do nada , tampouco é rodeado pelo nada. Para Espinosa, o nada é uma negação imaginativa-reativa feita pelos que ignoram o que é a natureza.
O nada não existe
ontologicamente, mas apenas
antropologicamente: é a imaginação reativa do homem que cria o nada ( "nihil", em latim).
Nem sempre esse nada aparece com seu nome original, mas com outros nomes. “Paraíso” e “Inferno”, por exemplo, são alguns nomes que encobrem esse nada. Até mesmo “Deus” ( esse “Deus” que Flávio Bolsonaro quer reduzir a cabo eleitoral seu) também pode ser o nome desse nada, quando se faz de Deus um ente que castiga, que pune, ou seja, um deus vingativo e preconceituoso que escolhe um povo em detrimento de toda a humanidade.
O poder teológico-político cultua esse nada, muitas vezes em templos de ouro ( nada tendo a ver, portanto, com o Deus simples, amoroso e modesto de Francisco...).
E quem cultua nadas assim se agrilhoa na imaginação passional-reativa, passando a viver no medo, na ignorância, na credulidade incauta, no ódio e na superstição, todas
características de uma mente infantilizada que não sabe governar a si mesma,
sempre precisando de um profeta, de um “messias”, de um “eleito”, enfim, de um
“tirano” que os sujeite a viver como rebanho.
À sua época, Espinosa assim já
diagnosticava aquilo que hoje se chama “niilismo”.
Uma das referências do texto é este livro de Espinosa, sobretudo o Capítulo III : "Que Deus é causa de tudo".
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
a própolis e o formal
Hoje no Brasil se fala muito em “ ser conservador” como um comportamento
oposto ao de “ser criador”, “progressista”. Segundo Espinosa, porém, há
duas maneiras de “ser conservador” . Essas duas formas podem ser explicadas ,
de maneira simples, a partir do seguinte exemplo:
Seria absurdo querer conservar
apenas a mesa que o carpinteiro produziu, descuidando do próprio carpinteiro e
sua potência criativa de produzir mais mesas, inclusive de produzir mesas
diferentes daquelas que até hoje ele criou.
É no produtor, e não no produto,
que criar e conservar andam juntos: o que se deve conservar é o ato de produzir
o novo, e não apenas o produto pronto desse ato. Nesse sentido, conservar é
proteger e cuidar, para fortalecer a potência de criar .
Os progressistas agem para conservarem a
potência criativa do produtor ( os “direitos sociais e trabalhistas”, por
exemplo, existem para essa função) , já os
conservadores-reacionários querem conservar apenas os produtos transformados em
propriedade que o capital compra explorando o produtor e tirando dele os
direitos.
A prática de conservar o
que é criador nos é ensinada pela própria natureza : a própolis, por
exemplo, conserva/cuida da
vida da colmeia para que esta se proteja das doenças que querem , de
dentro, fragilizá-la ; e, ao mesmo tempo, a própolis é força que ajuda a
colmeia a se manter reinventando-se , perseverando na vida.
Porém, criar e conservar se
tornam ideias antagônicas quando se quer colocar o conservar antes do criar,
vendo no criar algo que ameaça uma “Ordem” rígida , paranoica. Um conservar
assim é o que faz o formol: serve para conservar apenas o que já está mortificado
e não se reinventa mais, como produtos
em lata de conserva...
Arte, filosofia, educação são
própolis; prot0fascismo fundamentalista teológico-político é formol.
( a “Ética” é o livro-própolis
que Espinosa escreveu)
domingo, 15 de fevereiro de 2026
A mariposa
Eu ainda não havia despertado
totalmente, mas já sentia no ar a presença
de um novo dia que nascia. De repente, ouvi um som agudo provocado por
um bater de asas agitado e aflito que
passou roçando meu rosto. Abri então os
olhos: era uma pequena mariposa que se
aprisionou em meu quarto ainda um pouco escuro.
Não sei se era
uma jovem mariposa aprendendo
seus primeiros voos, sem confiança
ainda; ou se era, ao contrário, uma
mariposa já muito vivida querendo fugir do mundo, desiludida. O que sei é que
ela rodopiava atônita e perdida, como se estivesse presa num labirinto cujo centro era um vazio .
Levantei
da cama rápido querendo arranjar um jeito de auxiliar a mariposa a se
libertar daquele rodamoinho angustiante
que ela mesma criou para se atar.
Fui
à janela e a abri toda para que entrasse
a luz. Foi então que vi o dia...Que dia! Após uma noite
de chuva e frio , o céu abria-se
todo azul , enquanto o sol aquecia de novo tudo o que é vivo.
Com cuidado, cheguei perto da
mariposa e apenas lhe disse ( com a franqueza dos amigos que desejam o
bem um do outro) : “Com um dia desse, com essa amplidão para explorar voando,
você vem se enclausurar em meu quarto com medo!?Quem me dera ter suas asas...”
Juro: a mariposa foi acalmando
seu rodopiar aflito , reorientou suas
asas para novo sentido , parou de antecipar na imaginação os perigos,
emendou-se. Tomou coragem e atravessou
a janela, foi pro mundo, aceitou da liberdade o risco.
Em Espinosa, “emendar-se” é autocorrigir-se
: dar ao pensamento um horizonte, para que nos pés floresçam novos passos.
(Este filme é apenas uma sugestão)
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
A embriaguez da criação
Uma das origens do carnaval remete
a Dioniso, o deus das Artes. “Dioniso” significa: “Aquele que nasceu duas vezes”.
No primeiro nascimento , Dioniso
veio ao mundo chorando, como todo recém-nascido. Mas o segundo nascimento envolve a seguinte
história:
Quando era ainda criança, Dioniso
foi vítima das Fúrias, seres que representam o ressentiment0, o ódio e a
vinganç4. As Fúrias despedaçaram Dioniso, imaginando assim que o derrotavam.
Porém , Dioniso tinha ainda uma
arte que as Fúrias desconheciam...Dioniso não estava totalmente vencido: havia
uma parte dele que ainda o guardava inteiro, íntegro. Essa parte era o coração.
Os seres do ódi0 e da destruiçã0, tanto os de ontem como os
de hoje, ignoram
a Potência que vive no coração da arte, ignorando igualmente a força regeneradora que há na criação como força
que , perseverando, resiste .
Dioniso partejou-se então do
próprio coração, enquanto lugar do Afeto Transmutador , renascendo ainda mais
vivo para a Vida.
Se no primeiro nascimento Dioniso
nasceu chorando, agora Dioniso renascia em festa, como expressão do triunfo da
Vida sobre seus carrascos :“A filosofia está sempre a enterrar seus coveiros”
(Étienne Gilson).
Originariamente, antes de ser associado
ao vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em grego,
“bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”.
Há os que , etilicamente, se
embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na ação generosa/criadora
de florir e frutificar.
O poeta Baudelaire dizia: “É
preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher. Mas
embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “seja uma floração de ideias e de
ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva, o Deus de Espinosa é a
Potência Absoluta de Floração.
(Imagem: “A vinha vermelha”/ Van Gogh)
Sobre a relação originária de Dioniso com a vinha, e não com o vinho, a principal referência é esta:
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Kurosawa, Van Gogh, Espinosa e Manoel de Barros: florações...
No filme “Sonhos”, de Kurosawa,
há uma cena em que uma criança chora porque um jardim de pessegueiros foi
derrubado.
Então, perguntam a ela se o choro
dela era devido a não poder mais comer os pêssegos, ou seja, se o
choro era motivado pelo interesse nos frutos, nos pêssegos.
A criança responde
mais ou menos assim: “Eu não estou chorando pelos pêssegos ,
pois pêssegos podem ser comprados em quantidades no
mercado . Eu choro porque nunca mais vou poder ver a floração dos pessegueiros:
a floração é única e não se mede em dinheiro, nem se vende no
mercado...”.
De repente, ainda chorando, a
criança vê algo colorido num canto daquele jardim
desolado. Ela chega perto para ver o que é: do tronco de um
pessegueiro cortado e violentado, a vida ali resistiu e perseverava
, pois pequenos embriões de floração novamente brotaram.
Então, como se tivesse ganho o
mais desejado dos presentes, a criança enxuga as lágrimas
e sorri.
O pêssego é colhido com as mãos,
já a floração é para ser colhida com os olhos, para que o próprio
ver nos olhos floresça, e enxergue mais do que o mero dado.
O pêssego é o produto que pode
ser separado de seu produtor, ao passo que a floração é a arte que
torna indistintos o artista e sua obra ainda em processo e brotando
dele mesmo, em generosa doação.
O pêssego mata a fome do
estômago, mas a floração mata outro tipo de fome: fome de
arte, de poesia e de criação.
As ideias são como os pêssegos,
porém pensar é floração da mente unida ao corpo, como ensina Espinosa. Manoel
de Barros, por sua vez, diz que “poesia é afloramento de falas”.
A liberdade não é um fruto pronto
que podemos colher, a liberdade é floração concreta no aqui e agora,
como ato emancipador fazendo-se.
Há os que cobiçam os
pêssegos apenas para pôr neles um preço e vendê-los no mercado,
reduzindo os pêssegos a meros meios para se
acumular capital, poder e dinheiro.
Mas há os que veem riqueza na
floração dos seres, uma riqueza que não se mede em dinheiro, pois é uma riqueza
que se cultiva com a arte, a filosofia, a cultura e a educação.
Porém , é preciso cuidar dessa
floração e agir para que ela sempre aconteça , pois odeiam essa floração, e
sempre a ameaçam, os ceifadores e destruidores de jardins.
"Poesia é
florescer pelos olhos." (Manoel de Barros)
“Filosofia é prática para ensinar
a ver.”( Merleau-Ponty)
( imagem: “Pessegueiros em flor”/
Van Gogh)
Originariamente, antes de ser a
divindade do vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em
grego, “bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”. Há os que , etilicamente,
se embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na ação generosa de florir e frutificar. O poeta Baudelaire
dizia: “É preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher.
Mas embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “sejam uma floração de ideias
e de ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva, o Deus de Espinosa é a Potência Absoluta de
Floração.
sábado, 24 de janeiro de 2026
conservar , reformar e revolucionar
Vida
e política giram em torno destes três verbos: conservar,
transformar e revolucionar. O conservar é o credo dos conservadores, o
transformar é o interesse dos reformistas, o revolucionar é a prática dos
revolucionários.
Os conservadores
exaltam a Ordem e querem mantê-la, não importando se ela é injusta; os
reformistas querem mudança, mas negociada e sem romper com a ordem
estabelecida; já os revolucionários pensam e agem para criar uma realidade nova,
sem negociatas e concessões à ordem antiga.
Os conservadores
são saudosistas, os reformistas são utilitaristas, os
revolucionários são artistas ( cuja obra a criar é ,
sobretudo, um novo modo de vida) .
O conservador
idolatra o passado, o reformista é refém do presente “líquido” , o
revolucionário age por um futuro que nos liberte do passado e crie um “fio de
Ariadne” que nos tire deste distópico presente-labirinto .
O poder é sempre
conservador; a lei é o usual instrumento do reformista; porém
é o desejo de justiça que expressa a potência de
todo revolucionário.
Quando o
conservador pensa em arma, ele pensa na arma literal, destrutiva; já o
reformista tem por arma a política representativa; mas a arma do
revolucionário é a educação, a cultura, a arte , o
amor...pois em tudo isso há política.
A diferença
entre o conservador e o revolucionário salta aos olhos, porém nem sempre é
evidente o que distingue o reformista do revolucionário. Na boca de um e de outro
sempre está uma palavra: o “possível”.
Mas reformistas
e revolucionários não pensam a ideia de possível da mesma maneira. No
reformista, o possível é aquilo pode ser realizado, ao passo que no revolucionário o
possível é o que precisa ser criado. Realizar não é a mesma coisa que criar.
O músico que
toca no palco realiza a música que o compositor, antes dele , criou. Já o compositor criou a música e assim
a tornou real. O compositor-criador cria uma realidade nova: ele “ouve” a
música que nunca foi tocada.
O
reformista realiza o possível de acordo com o que está estabelecido
em um real dado. Já o revolucionário cria o possível ainda que o
real dado lhe diga que é impossível criar outras possibilidades de vida e de
existência.
O revolucionário
não age a partir do já estabelecido, tampouco se ajoelha diante dos valores
dados: o revolucionário cria o possível mesmo quando, antes de
sua criação, criar algo novo parecia impossível de ser criado.
Como ensina
Foucault : "Um pouco de possível para não sufocarmos".
( este livro é
apenas uma sugestão)
sábado, 17 de janeiro de 2026
Imitar, recriando.
A imitação é um dos
comportamentos mais singulares que podemos observar nos seres vivos. O filhote
de passarinho, ainda no ninho, aprende a voar imitando seus genitores; o
pequeno leãozinho aprende a ser leão imitando seus pais. Pois imitar é a forma
primeira de aprender : não só aprender a se comportar desta ou daquela maneira,
mas aprender a ser aquilo que se é.
A arte também é prática de
imitação (mímesis): quando um pintor
pinta uma maçã, a maçã pintada imita a maçã real; quando o escultor
esculpe uma estátua de Sócrates , a escultura
imita Sócrates .
Quando um músico compõe uma
música sem palavras, a música também imita. A música não imita mediante uma
imagem icônica, como na pintura e na escultura; a música imita por intermédio
do ritmo. O que a música imita? Ela imita os afetos.
Como o afeto não tem uma figura
visível , tal como Sócrates o tem, toda
imitação musical de um afeto na verdade
o recria. É por isso que a música também pode ser uma terapêutica clínica:
ouvindo a música, nós mesmos nos ouvimos através do afeto que sentimos.
Ouvindo
a música, imitamos o ritmo dela
a partir do ritmo do nosso corpo, incluindo os ritmos respiratórios e cardíacos. A música nos ensina que somos
ritmos que imitam ritmos maiores: Pitágoras dizia que o universo é música
composta pelo ritmo dos astros...
Mas há duas formas de imitação: a
servil e a criativa. Na imitação servil aquele que imita anula
sua diferença própria para assim
ser a cópia servil de um modelo.
Quem tem a propensão a imitar
servilmente se submete a qualquer modelo , mesmo que o imitado seja um ser
abominável . Quando muitos imitam servilmente um crápula tornado modelo, surgem
os rebanhos fanáticos que pouco valor dão à vida, uma vez que pouco valor dão a
si mesmos.
Porém há também a imitação
criativa. Nela, a imitação é atividade para descobrir e potencializar a própria
potência-ritmo, dado que o imitado é criado para favorecer agenciamentos para
singularização de ritmos.
As ideias que emancipam e educam
são assim: conhecê-las é vivê-las como meios que potencializam nossos ritmos .
Aprender , ensinar, partilhar,
empatizar, amar... são composições de
ritmos.
A própria sociedade também possui
seus ritmos: a democracia é um ritmo social que protege e estimula os ritmos
heterogêneos. Já a tirania é a tentativa de impor comportamentos mecanizados
segundo a lógica do rebanho “mesmal” .
Por isso, não podemos deixar que
as forças destrutivas externas nos
produzam movimentos internos que nos ponham sob riscos, pois tristeza, medo e
apatia são enfraquecimentos dos nossos
ritmos.
Mas com nossos ritmos
potencializados, aprendemos a agir sobre o mundo externo sem violentar nossos
ritmos.
Na foto, é a menina, e não a
pintura, a maior obra de arte. Ela não copia servilmente, ela interpreta a
partir do seu ritmo, e assim se autodescobre brincativamente e afirma seu
estilo: autonomiza-se.
“Mesmal” e “brincatividade” são
ideias criadas pelo poeta-pensador Manoel de Barros. O “mesmal” é a
antifilosofia e antipoesia, o mesmal é o pensar e viver igual ao modo de
rebanhos; “brincatividade” é exercício lúdico que, agenciando arte e política, muda uma realidade, mas sem perder a alegria (
a mesma que ensina Espinosa).
domingo, 11 de janeiro de 2026
Espinosa : o que alimenta corpo e mente.
Em sua Ética, Espinosa ensina que
a saúde do corpo depende de que ele se
nutra de alimentos diferentes. Não alimentos caros, mas alimentos diferentes,
até mesmo simples. Pois a multiplicidade aumenta a potência e saúde da
singularidade que a incorpora , tornando
a diversidade parte integrante de si.
Mas para que esses alimentos
diferentes potencializem o corpo que deles se alimenta, é preciso que esses
alimentos se componham , ou seja, que a união deles seja um acréscimo de força,
de saúde e até mesmo de harmonia, como numa polifonia musical feita com sons de
instrumentos diferentes que, juntos, criam uma música singular, única.
Nosso corpo é composto de
diferentes tecidos, de variadas estruturas ósseas, de sutis construções
nervosas; e toda essa heterogeneidade que nos compõe , e que faz de cada um de
nós um ser único, requer igualmente uma heterogeneidade de alimentos para manter-se
e regenerar-se.
Ao contrário, um corpo que se alimenta de
apenas uma coisa, ou de poucas coisas, empobrece sua potência e saúde, uma vez
que essa única coisa ou poucas coisas ingeridas irão alimentar apenas poucas
coisas em nós , criando assim um desequilíbrio e desarmonia. Como resultado,
nosso corpo será um misto debilitante de
excessos e carências.
Se para nos alimentar
dependêssemos apenas da monocultura que o agro-ogro produz, estaríamos todos
doentes...O que nos salva é a riqueza plural da pluri-agricultura familiar.
O que vale para nosso corpo vale
ainda mais para a nossa mente. Uma mente potente é aquela que se nutre de
ideias múltiplas, diversas, plurais. Ideias que vêm não apenas de livros, mas
também de músicas, filmes, poesias, exposições , enfim, ideias múltiplas que
nascem da vida, ideias para serem pensadas, sentidas , vividas e postas em
prática.
São essas ideias plurais que
alimentam e enriquecem de vida pensante uma mente singular. São elas que
garantem a saúde da mente, tanto a mente individual quanto a coletiva . Enfim,
uma polifonia de ideias expande a mente , tornando-a criativa e aberta à heterogeneidade
do próprio mundo. Não por acaso, “saber”
vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são
alimento ou veneno.
Pois a mente que se nutre de uma
ideia única, na verdade não se alimenta, se envenena. Mente assim se fecha à
heterogeneidade da realidade,
passando a negá-la ou a temê-la .
E disso se aproveitam os dogmas, as “seitas” de toda espécie ( incluindo a “seita
do Mercado” ) e tudo aquilo que alimenta a ignorância em suas diversas formas.
“Nas mãos a ferramenta de operário, e na cabeça a coruscante ideia.”
Versos do poema “Spinoza”, de
Machado de Assis. Estes versos inspiraram Nise ao dizer que não é no cérebro que apenas teoriza
que se encontra a felicidade, mas naquilo
que fazemos com nossas mãos, sobretudo quando a ocupamos transformadoramente com arte
, generosidade e educação. Pois mãos adoecem quando servem à ideia única de
apenas contar dinheiro...
Esse livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura. Tive a alegria de participar de evento organizado pelo Museu de Imagens do Inconsciente no qual foi lançada essa edição do livro de Nise sobre Espinosa. No texto que escrevi e postei aqui, a referência a Espinosa é: Ética, Quarta Parte, Apêndice, Capítulo 27.
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A mídia comercial costuma dizer
que vivemos um período político “polarizado”. Porém, esse tipo de “informação”
dissimula uma intenção ambígua, para dizer o menos. Pois só podem polarizar
realidades que pertencem a um mesmo conjunto ou gênero de coisas.
Por exemplo, o alto e o baixo
polarizam no conjunto de coisas que têm dimensão física; o doce e o salgado
polarizam no âmbito das coisas que têm sabor; direita e esquerda,
conservadores e progressistas, polarizam dentro do conjunto das perspectivas
políticas.
Mas o fascismo não é um dos polos
dentro daquilo que compreendemos ser a democracia. Ao contrário, o fascismo é o
que quer destruir a democracia e sua possibilidade de perspectivas
diferentes buscando o governo do Estado . Democracia é
divergência de perspectivas, porém sem rasgar as regras ou ameaçar
com tanques quem pensa diferente.
Quando a mídia comercial
coloca o fascismo e a esquerda como “polarizando”, além de isso ser um
erro de raciocínio ( um “sofisma”), na verdade ela está
tomando partido, de forma dissimulada, pelo fascismo, sobretudo quando esse
promete uma pauta de venda do patrimônio público, pauta que é a mesma da mídia
comercial e do capitalismo predatório.
















