terça-feira, 7 de abril de 2026

A corrida entre a Inteligência e o Amor

La Fontaine conta uma história na qual Atena, a Inteligência, e Eros , o Amor, disputavam uma corrida. Atena saiu na frente, parecia que venceria...Até que ela vê pela frente um abismo, e para. Então, ela vê algo que passa voando por cima de sua cabeça : apoiado em suas asas, Eros vence o abismo e chega do outro lado. O abismo que parou a Inteligência, não foi capaz de deter o Amor. 
 Atena subiu até ao Olimpo para queixar-se de Eros, alegando que ele trapaceou. Eros estava em desvantagem naquele lugar , já que ele não pertencia à aristocracia do Monte Olimpo, uma espécie de “Altar”. E o Amor não tem “Altar”, a não ser o coração de quem o cultiva como principal Afeto. 
 Os deuses do Olimpo tomaram partido de Atena e condenaram Eros. Como sentença, Zeus determinou que Eros ficasse cego. A punição foi aplicada e o Amor ficou cego... 
Mas Afrodite interveio em favor de Eros e pediu a Zeus para que fosse concedida uma bengala para o Amor. Zeus, porém, argumentou que não condizia com o Amor depender de uma bengala. Se o amor para ser vivido depender de propriedades, fama, poder, riqueza e outras “bengalas” desse tipo, então já não é mais amor, e sim interesse, conveniência, aparência. E nada disso condiz com Eros em seu sentido originário. 
 Desejando fazer justiça, Zeus se recusou a fazer o Amor depender de “bengalas”, porém não podia desfazer a sentença. Assim, Zeus considerou que seria justo o Amor ter não uma bengala, mas um “guia”. Mas quem poderia ser o guia do Amor e não tolher suas asas? Somente a Mania Divina poderia ser esse "guia". 
Em grego, “mania” é “loucura”. A “mania” é uma espécie de “desmedida”. Existe a mania enquanto loucura humana, como a loucura desmedida por dinheiro, fama, poder. Essa loucura humana é doença. Mas existe a Mania Divina enquanto guia daqueles que amam realidades das quais dinheiro, fama e poder nunca serão a medida. Para Platão, é essa Loucura Divina que guia o poeta à poesia e o filósofo à filosofia. E para alcançar tais coisas, pés não bastam: é preciso asas.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

francisco

 

Ouvi certa vez a seguinte história de autoria popular ( que aqui parafraseio e interpreto): de um lado estava São Francisco, do outro o Diabo. Separando a ambos ,  um muro; e em cima do muro estava  alguém que se dizia “Neutro”.

 Francisco  disse ao “Neutro”: “- Venha para este lado, aqui há luz e  empatia  pela vida do outro.” Do   lado oposto do muro , porém, o Diabo permanecia calado.

Vendo  o “Neutro” ainda indeciso e  parado, Francisco  prosseguia : “- Venha se juntar a nós , Buda também está aqui; também estão Lao-Tsé, Confúcio,  Orixás , Tupã, Mães-de-Santo,  Pajés ... Bem como todos aqueles que, tendo ou não religião,  agiram para defender e libertar  os oprimidos e injustiçados.”

Estranhamente, o Diabo seguia mudo, ele que gosta tanto de se vangloriar...

Então, Francisco levantou a cabeça , olhou sobre o muro e indagou ao que reinava na treva  do outro lado : “- Por que você   permanece  calado?”

“- É que esse muro onde o ‘Neutro’ está  instalado  pertence a mim”, disse o Diabo.

Do certo lado do muro, o poeta Manoel de Barros assim poetizou: “São Francisco monumentou os passarinhos.”

 

De pés descalços, ele dançou diante do Papa.”(Deleuze)

"O que é inferno? Afirmo que é o sofrimento de já não poder amar.”(Dostoiévski)

 

(obs: o texto  se refere ao personagem social-popular Francisco, um personagem muito presente na  literatura de  cordel do nosso Nordeste. Não é tratado o tema do ponto de vista de uma religião. Inclusive , dei a entender que do lado do muro onde está o personagem Francisco também podem estar agnósticos e até os sem religião. A foto que acompanha o texto mostra a escultura “Cristo sem teto”, obra do escultor Timothy Schmalz; a outra imagem é a do padre Júlio Lancelloti , que foi parado recentemente pela polícia durante evento que o padre fazia para auxiliar  os moradores de rua e sem teto)



Francisco vinha por um bosque afastado e viu uma igrejinha em ruínas. O teto da igrejinha caiu , as paredes vieram ao chão. Nada mais ficou  de pé, exceto uma cruz em madeira que permanecia  intacta, apesar do altar destruído.

 A cruz tinha o tamanho de uma pessoa, e parecia de fato uma pessoa de braços abertos.

A madeira com a qual a cruz  era feita  perseverava  viva, de tal modo que  a cruz  voltou a ser  árvore que pertence à natureza , não mais o símbolo de uma religião.

O teto da igrejinha agora era o horizontado céu; e a mãe-terra , o seu chão.

De repente, Francisco ouviu um passarinho cantando: era um rouxinol. E o mais  surpreendente : o canto parecia vir da cruz. No coração da cruz, onde a madeira vertical e a horizontal se encontram, havia um pequeno buraco no qual o rouxinol estava  pousado .  Parecia que o rouxinol , cantando, chamava Francisco para ver a “boa nova”.

Quando se aproximou e olhou para dentro do peito da cruz, Francisco viu que ali havia  um ninho bem no coração dela, no qual três filhotinhos, rompendo o ovo, acabavam de nascer. 


sábado, 28 de março de 2026

ecosofia

 

No livro “As três ecologias”,  Félix Guattari ensina que não existe apenas  uma  ecologia, existem três: a ecologia verde,  que cuida da poluição do meio ambiente; a ecologia social, que se debruça sobre as poluições que ameaçam a vida em sociedade ( como a poluição da água e do ar, o problema do saneamento básico, etc.); e a ecologia mental, também chamada por ele de ecosofia, que visa fazer a crítica dos vários poluentes que poluem a mente.

Esses poluentes da mente ( ou da subjetividade) são produzidos principalmente   pelos fanatismos diversos, pelas  fake news  e pela  mídia golpista. 

Ou seja, cada ecologia se preocupa em nos tornar  cientes, pela ação e pelo pensamento crítico, dos diversos poluentes  que existem, dentro e fora de nós.

Nos rios e mares, os poluentes são visíveis, e nos atingem com  seu cheiro nocivo , pondo em risco nossa saúde; mas também há os poluentes  que  vêm da mídia golpista ,  cujo cheiro é tão nocivo quanto e ameaça a saúde da mente ( tanto a individual quanto a coletiva).

Essas três formas de poluição nunca andam sozinhas: uma se alimenta da outra, de tal modo que a predação do planeta anda a par com a imbecialização das mentes.

O citado “powerpoint”  da Globo é o exemplo mais recente dessa imundice midiática  que , de forma calculada, é produzida para ser canalizada para   o esgoto das redes da extrema-direita.

Quem conhece minimamente jornalismo sabe que , antes do tal “powerpoint”    ser divulgado, ele passou por reuniões de pauta, escrutínio de  editores e colaboração de revisores , até o texto ser encaminhado , com instruções pormenorizadas, para o pessoal da comunicação visual  transformar em imagem.

Até o dia escolhido para a divulgação foi planejado: uma sexta-feira, para o “desmentido” ser feito apenas na segunda, e assim dar tempo de o lixo circular durante o fim de semana no zaps dos grupos teológicos-políticos, caminhoneiros, militares, atiradores e outros perfis do gênero.

Só uma observação: a Globo fez não exatamente um powerpoint, mas a reprodução imitativa de um quadro de investigação empregado pela polícia, o que é mais grave ainda .

Esses quadros policiais têm mais apelo no imaginário popular. Com  isso , a Globo, de forma calculada, tenta passar a ideia que não está mentindo e distorcendo, mas apenas reproduzindo informação que vem da polícia.

Como dizia Nietzsche : “Se você tiver que ouvir ou ler os seres vis, não se esqueça de tapar o nariz do espírito...”. E  Foucault , por sua vez, estava diante de imundices assim quando pediu : “Um pouco do ar do possível, para a gente poder respirar...”

 



 

 

terça-feira, 24 de março de 2026

quando a palavra já não basta

 Quando pensava e falava, havia um ponto , um ponto enigmático, em que Heráclito parava de exercer o logos, e chorava. Nada mais dizia, apenas chorava. Então, os adultos se afastavam,  apenas as crianças ficavam perto dele.


Demócrito, por sua vez, interrompia seu filosofar com  estouros de riso. Não havia deboche ou ironia no seu rir, apenas alegria.

Sócrates punha um ponto final em seu filosofar sempre com longos silêncios meditativos, olhando para o nada.

Platão cessava seu discurso e se dirigia ao quadro para desenhar retas e formas geométricas,  dizendo  confiar mais nelas do que nas palavras.

Aristóteles , após ordenar as palavras, levava seus discípulos para verem a ordem  que preside o mundo: recolhia sementes, peixes, estrelas-do-mar, arraias, incontáveis animais e os punha em ordem, como se fosse um silogismo.

Os estoicos diziam que as palavras são apenas a metade do sentido: a outra metade é o agir, e assim eles ensinavam fazendo, agindo, não temendo a confusão do mundo.

Espinosa afirmava que há um  momento em que a palavra não conduz mais: é preciso então estender a mão e conduzir quem está perdido.

Nietzsche escrevia caminhando. Ele escrevia  seguindo trilhas que subiam , nunca as que desciam , para que no texto o sentido também se elevasse. 


Wittgenstein escrevia e parava. E o restante do que  queria dizer ele o fazia cuidando de jardins:  adubava, podava, colhia e oferecia , de graça, aquilo que cuidou e fez nascer. 

sábado, 21 de março de 2026

o poder teológico-político

 

A palavra “teologia” aparece entre os filósofos pré-socráticos. Antes deles , já existia a palavra “teogonia” , que é o título de um   poema de Hesíodo no qual se narra  a origem dos deuses, a começar por Gaia, a Mãe-Terra.

 Hoje , a palavra  “teologia” remete a três religiões calcadas  num texto considerado sagrado por elas: o Alcorão ( Islamismo), a Torá ( Judaísmo) e a Bíblia (Cristianismo).

“Política”, por sua vez, vem do termo “pólis”, que significa tanto “cidade” como “organização” ( na raiz  da palavra “pró-polis” , por exemplo, está “pólis” , pois a própolis , como uma vacina, protege a colmeia enquanto “organização-comunidade” das abelhas).

Pólis é a organização conjunta das liberdades, para assim construir o viver em comum, preservando a heterogeneidade dos viveres. No centro da pólis não estão Castelos ou Templos, embora a base de toda pólis igualmente seja um livro.

Um livro que também é objeto de uma “fé”, não uma fé religiosa, mas uma fé na liberdade, na criatividade, na ciência, na cultura , na educação, pois essas atividades também são “instituições”.

Ao contrário dos “Textos Sagrados”, o livro que serve de base à pólis pode ser reformado ou até mesmo abandonado em nome de outro texto mais justo, desde que assim decida a sociedade, após debate, argumentação,  divergência dialogada e votação.

 O  livro que fundamenta a pólis  é a Constituição. Essa palavra significa: “o que é instituído junto”, e que apenas por um querer junto, afirmador da pluralidade, pode ser destituído.

A Constituição deve preservar a diversidade, inclusive a diversidade de crenças religiosas, além de proteger também aqueles que não têm crenças religiosas.

O poder teológico é um poder que tem seu campo de atuação restrito ao templo. Porém, acontece  por vezes de tal poder usurpar esse espaço de culto, querendo se tornar também poder político.

É assim que nasce o que Espinosa chama de poder “teológico-político”. Para triunfar, esse tipo de poder perseguirá como inimigo tudo aquilo que a Constituição democrática simboliza. É por isso que o poder teológico-político somente pode perdurar cooptando exércitos e polícias.

Esse tipo de poder também costuma se juntar aos que fazem do Capitalismo e do Mercado um Deus, a tal ponto que a “prosperidade”  econômica individual passa a ser  valor  cultuado como se fosse um Dogma ( como se vê no atual acumpliciamento fláviorachadinha-mídiagolpista).

 Mas é do inimigo que esse poder mais persegue que também vem a maior força que resiste a ele: “Onde há o perigo, ensina o poeta Hörderlin, também cresce o que salva. ”



Dizem que o orgulho não é um bom sentimento... Porém confesso que tenho orgulho de algo: ter sido demitido pelo profeta-Malafaia .  Ele era um dos donos da faculdade onde eu lecionava filosofia. Eu estava começando na atividade docente, foi difícil à época ficar sem emprego, porém não me vendi. Ele me demitiu não por eu fazer mal meu trabalho .  Ele me demitiu por eu não obedecer à tentativa dele de cercear nossa atividade docente. Ele nutria indisfarçável horror à filosofia e aos filósofos, só tolerando  quem lhe dissesse “amém”. Se esse srº  vivesse na Grécia Clássica, com certeza   ele   seria um daqueles vingativos que condenaram Sócrates a beber a cicuta; se ele vivesse na época de Espinosa, seria talvez aquele que mandou um fanático religioso  ferir Espinosa com um punhal...( aliás, o ato que baniu/excomungou Espinosa ainda não foi revogado pelas autoridades religiosas :Espinosa  é considerado ainda hoje  por eles como  um subversivo  perigoso...) . O profeta-malafaia  aparece ali na foto junto ao seu “Messias”. Cada profeta tem o “Messias” que merece...




 


sábado, 14 de março de 2026

a escova do poeta

 

No poema “Escova”,  Manoel de Barros  diz ter visto, quando criança, dois homens sentados no chão  "escovando osso" . No início, diz o poeta, “achei que eles eram loucos” .

 Mas ele olhou bem e viu que não podiam ser loucos aqueles homens. Louco ,  o mais perigoso,  é  quem  quer impor aos outros o seu   “mesmal” . O “mesmal” é a doença de quem imagina que seu modo de viver é o único normal.

Aqueles homens não podiam ser loucos, pois pareciam ver a novidade onde todos veem o igual :  escovando, eles queriam livrar o osso da craca e poeira que nele grudaram . 

No escovar deles  também havia uma  artesania semelhante à de Espinosa a polir lentes com cuidado

O poeta descobriu então que aqueles homens eram arqueólogos. Eles queriam ressuscitar no osso o mundo no qual ele foi parte de um esqueleto sob músculo e pele, há milhões de anos.

E mais do que isso, eles desejavam reviver  o sentido que estava no osso , pois nada faz sentido sozinho: o osso foi  parte de  um esqueleto  que era   parte de um ser vivente,  igualmente parte singular de um mundo hoje extinto , do qual o osso dava o testemunho.

Para eles  o osso era mais do que osso: era também o fragmento de uma história , a nossa história,  que a vida  ainda está a escrever, com ideias e corpos, apesar das necropolíticas que querem nos extinguir.

 Ao ver os arqueólogos ,   o poeta ainda criança compreendeu qual seria então seu destino: o de escovar as palavras, retirar delas a idiotia, a ignorância, o preconceito, o clichê  e as banalidades que nelas colocaram as mentes obtusas,  de tal maneira que seria também uma “ecologia mental” o que o poeta faria  ao escovar das palavras tais sujeiras e craca.

Ao escovar as palavras, o poeta  não acha  “Verdades” , “Ordens” ou “Mandamentos”; ele acha  a poesia como sentido primeiro, não conformista, das coisas : “A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que sei” , ensina o poeta. 




sexta-feira, 13 de março de 2026

A "dualidão"

 

Nietzsche assim dizia: “Odeio quem rouba minha solidão sem oferecer verdadeira companhia.” A palavra “companhia” vem de “com-pane”. Em latim, “pane” é “pão”. Assim, fazer companhia é saber dividir o pão; companheiro : “aquele com quem dividimos o pão.”

Não apenas o pão físico, aquele que mata a fome do corpo, mas sobretudo os pães da mente , os pães do espírito, os pães do afeto, pães esses que matam outro tipo de fome: fome por dignidade, fome por justiça, fome por conhecimento.Desses pães ninguém é o dono, são pães que não se compram ou vendem no mercado, são pães que não têm preço.

Nietzsche chama de “dualidão” quando duas solidões, sem perderem a singularidade de cada uma, decidem,  por liberdade, andarem e viverem juntas.  Em carta a Overbeck,  Nietzsche afirma que , ao ler Espinosa, não viu sua solidão roubada, mas acrescida por uma outra solidão singular como a sua. Enfim, uma “dualidão”.

domingo, 8 de março de 2026

Sofias...

 

Em grego, “Sofia”  é “Sabedoria”. Não se deve confundir “Sofia” com “Razão”. A  palavra “Razão” em grego  é masculina (“Logos”)  e tinha  em Zeus um dos seus símbolos.

Porém Zeus  não era a Sabedoria, pois  Sofia é filha de Zeus com Métis.  Por possuir muitos dons e capacidades, Métis era conhecida como  a deusa das “habilidades”. Não a  habilidade meramente   técnica, mas habilidade no sentido de produzir , além de ideias,  um querer e um agir múltiplo e criativo.

Métis também estava  associada à noção  de “saúde” enquanto cuidado consigo e com os outros. A palavra “caute” , base da Ética de Espinosa, provém dessa habilidade médico-curativa . Pois de “Métis” também vem “meticuloso” , no sentido do cuidado (“caute”)  que caracteriza o bom médico ( tanto os médicos do corpo quanto os médicos da alma, os pensadores-artistas).

Uma das características de “Métis” é que ela era capaz de metamorfoses, de devires. Ao enamorar-se com Métis,  Zeus buscou na metamorfose dela um processo para renascer também.

Agenciada com Métis ,   a própria Razão potencializou-se para lutas que ela não tem como vencer sozinha, lutas para enfrentar a ign0rância em suas diversas formas. Fortalecida, a Razão aprendeu habilidades  que a pura razão teórica não ensina.

 As habilidades de Métis são artes que unem o pensar ao agir. E foi desse agenciamento mais afetivo do que teórico , mais artístico e poético do que acadêmico, que nasceu  então Sofia, também conhecida como “Atena”, filha de Zeus com Métis.   

Os teóricos da Razão  inspiram-se em Zeus, mas os pensadores-artistas são  apaixonados por Sofia: e por essa paixão não apenas pensam, como também agem e criam.

Na lut4 contra a ign0rância e a obscurid4de, ontem e hoje, a Razão não vence sozinha: é preciso que a acompanhe Sofia. Às vezes, é a própria Sofia que salva a Razão de si mesma , fecundando nela sensibilidade  e vida, impedindo  assim que a Razão fique dogmaticamente estéril, rígida.

Segundo Nietzsche, hoje a filosofia atende  por outro nome, um nome feminino  também : “Ariadne”, nome que  significa “aranha”. Pois Ariadne é tecedora de fios, fios que ela tira de seu próprio ventre, como a “linha de fuga” ensinada por Deleuze .

Ariadne simboliza  a necessidade de um fio que nos agencie, um fio trançado  com  Ideias libertadoras e Afetos regeneradores, como    mãos que se seguram umas às outras  na luta e resistência ante toda forma de tir4nia, mãos de Sofia e Ariadne  unidas às mãos de Dandara, Eunice, Fernanda, Clarice, Marielle...

Esse fio-agenciamento que une e salva ganha vida na  voz de  Elza Soares:

“Eu não vou sucumbir 

Eu não vou sucumbir

Avisa na hora que tremer o chão                      

Amiga, é agora, segura a minha mão”.

( Trecho da música “Libertação”)

 

“A paixão sem a razão é cega;

 a razão sem a paixão é inativa.”

(Espinosa)

 

(Imagem: a pequena Sofia)





Letra-poema de Violeta Parra:





sábado, 7 de março de 2026

Manoel e os fluxos...

No livro "O guardador de águas", o poeta-pensador Manoel de Barros afirma que aprendeu  a guardar águas. Não ouro, dinheiro ou posses, mas águas. Guardar também é cuidar.

As águas que o poeta guarda não são exatamente coisas, elas são fluxos. Cuidar dos fluxos é o oposto de construir cercas ,  gaiolas , muros ( literais ou simbólicos).  Os fluxos são sempre desterritorializados e desterritorializantes : “não se pode ‘passar régua’ neles”, ensina Manoel.

Mas  não se deve confundir esse “fluxo” manoelino com aquilo que o sociólogo Bauman chama de “líquido” , ao descrever  as sociedades contemporâneas .

 No “mundo líquido”, as relações, os amores, as políticas , as temporalidades, o trabalho, as subjetividades e até mesmo o conhecimento se tornaram   “volúveis-voláteis” ( como a liquidez do Capital que a tudo desumaniza e reduz a juros e lucro).

 O líquido aceita ser limitado e contido por moldes. Já um fluxo é feito o sangue nas veias:  se não   avançar, perece.  Os fluxos ou inventam linhas de fuga ou secam e morrem -  e a secar resistem com toda força que podem.

 Os fluxos somente podem ser guardados em espaços  abertos. E abertos se tornam a sociedade, a mente e o afeto se um fluxo de vida os atravessa.

Os fluxos nascem de fluxos, não de coisas enrijecidas: o  rio amazonas  nasceu da geleira no alto dos Andes , mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo...até alcançar o horizontado mar , para mar também se tornar.

Guardar as águas é guardar-se nelas, como necessária arte dos (re)descobrimentos: "estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir"( Clarice Lispector, “A descoberta do mundo”).

Somente uma fonte pode guardar fluxos.  A fonte guarda fluxos os  doando, pois uma fonte é um fluxo de vida partejando a si  para matar sedes e  irrigar desertos.

 O fluxo é fluido, mas não é sem força ou volúvel; ele é firme, possui consistência, porém não é rígido. Pedras não  vencem o  avançar de um fluxo ,  enquanto pulsar a fonte da qual ele transborda.

 

“Quem anda no trilho é trem de ferro.

Sou água que corre entre pedras:

liberdade caça jeito.” ( Manoel de Barros)

 

“A cisterna contém; a fonte transborda”.   (William Blake)

 

“O artista é aquele que converte os obstáculos em meio”. (Deleuze)

 

( Imagem: “Sherazade”/ obra do artista Samil Hilal. Como as palavras emancipadoras de Sherazade enfrentando o poder repressor-falocrático  do “Sultão”, o agenciamento de livros forma um fluxo de ideias que segue em frente,  irreprimível...)






 

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

No caminho com Maiakóvski

 

“Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

(...)

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror."

 

( trecho do poema “No caminho com Maiakóvski", do poeta Eduardo Alves da Costa)

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Manoel de Barros: "Poesia pode ser que seja fazer outro mundo".

 

Certa vez, pediram ao poeta Manoel de Barros uma definição do que é a poesia. O poeta assim respondeu: “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. Nessa resposta, a palavra mais importante é o verbo “fazer”. Inclusive, a palavra “poesia” vem de um verbo grego  cujo sentido é exatamente “fazer, produzir”.

Quando se  substantiva a poesia apenas como rima e verso , perde-se a compreensão de que ela é também um verbo, uma ação, que pode produzir muitas outras coisas além de rimas e versos.

A poesia produz também percepções, pensares e sentidos outros que subvertem o “mesmal”  do “mundo acostumado” .

Manoel diz que o poeta produz versos porque , antes de escrever, “o poeta  se empoema”. Empoemar-se é um sentir que pensa, tornando-se potência criativa  que nasce de uma intensificação da vida.

Quem se empoema,   desegoifica-se  e se desabre:  não cabe mais dentro de si.  Alguns se empoemam  e dançam, outros se empoemam e pintam, outros se empoemam e cantam, outros se empoemam e  ensinam, outros se empoemam e aprendem,  outros se empoemam e se tornam generosos, corajosos, insubmissos,  libertários , enfim, intensificam o que neles é vivo .

 E com o máximo de força que podem , se esforçam para fazer outro mundo começando pelo lugar onde se está, mesmo que seja um lugar modesto, micropolítico: sala de aula, fábrica, rua, praça, residência, favela, vizinhança, janela, mundo virtual...

E primeiro que tudo, deve-se começar por fazer outro mundo dentro de si mesmo, na maneira de pensar e sentir, fazendo-se de novo página branca, sem roteiros prévios , para que nela a vida reescreva novos sentidos por descobrir , sentidos  que nos auxiliem a resistir à antipoesia dos homens cultuadores do ódio, da destruição e da morte.

É por isso que o importante naquela definição de poesia  também  é o “pode ser que seja”,  pois poesia não é   palavra de ordem , fórmula  ou dogma;  poesia  é ideia pensante  para ser sentida e reinventada, reinventando-nos , como potencialização da liberdade agenciada.

Como ensina Deleuze: “Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o filósofo é o poeta”.


(parte do que escrevi se encontra neste livro que organizei)




 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Espinosa e o "niilismo"

Para Espinosa , deus não criou o mundo do nada , tampouco é rodeado pelo nada. Para Espinosa, o nada é uma negação imaginativa-reativa feita pelos que ignoram o que é a  natureza.

O nada não existe ontologicamente,  mas apenas antropologicamente: é a imaginação reativa do homem que cria o nada ( "nihil", em latim).

Nem sempre esse nada aparece com seu nome original, mas com outros nomes. “Paraíso” e “Inferno”, por exemplo, são alguns nomes que encobrem esse nada. Até mesmo “Deus” ( esse “Deus” que Flávio Bolsonaro quer  reduzir a cabo eleitoral seu)  também pode ser  o nome desse nada, quando se faz de Deus um ente que castiga, que pune, ou seja, um deus vingativo  e preconceituoso que escolhe um povo em detrimento de toda a humanidade.

O poder teológico-político cultua  esse nada, muitas vezes em templos de ouro ( nada tendo a ver, portanto, com o Deus simples, amoroso e modesto de Francisco...). 

E quem cultua nadas assim se agrilhoa na imaginação passional-reativa, passando a viver no medo, na ignorância, na credulidade incauta, no ódio e na superstição, todas características de uma mente infantilizada que não sabe governar a si mesma, sempre precisando de um profeta, de um “messias”, de um “eleito”, enfim, de um “tirano” que os sujeite a viver como rebanho.

À sua época, Espinosa assim já diagnosticava aquilo que hoje se chama “niilismo”.


Uma das referências do texto é este livro de Espinosa, sobretudo o Capítulo III : "Que Deus é causa de tudo".




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

a própolis e o formal

 

Hoje no Brasil se fala muito em  “ ser conservador” como um comportamento oposto ao de  “ser criador”, “progressista”. Segundo Espinosa, porém, há duas maneiras de “ser conservador” . Essas duas formas podem ser explicadas , de maneira simples, a partir do seguinte exemplo:

Seria absurdo querer conservar apenas a mesa que o carpinteiro produziu, descuidando do próprio carpinteiro e sua potência criativa de produzir mais mesas, inclusive de produzir mesas diferentes daquelas que até hoje ele criou.

É no produtor, e não no produto, que criar e conservar andam juntos: o que se deve conservar é o ato de produzir o novo, e não apenas o produto pronto desse ato. Nesse sentido, conservar é proteger e cuidar, para fortalecer a potência de criar .

 Os progressistas agem para conservarem a potência criativa do produtor ( os “direitos sociais e trabalhistas”, por exemplo, existem para  essa função) , já os conservadores-reacionários querem conservar apenas os produtos transformados em propriedade que o capital compra explorando o produtor e tirando dele os direitos.

 A prática de conservar o que é criador nos é ensinada pela própria natureza : a própolis, por exemplo,  conserva/cuida  da vida da colmeia  para que esta se proteja das doenças que querem , de dentro, fragilizá-la ; e, ao mesmo tempo, a própolis é força que ajuda a colmeia a se manter  reinventando-se ,  perseverando na vida.

Porém, criar e conservar se tornam ideias antagônicas quando se quer colocar o conservar antes do criar, vendo no criar algo que ameaça uma “Ordem” rígida , paranoica. Um conservar assim é o que faz o formol: serve para conservar apenas o que já está mortificado e não  se reinventa mais, como produtos em lata de conserva...

Arte, filosofia, educação são própolis; prot0fascismo fundamentalista teológico-político é formol.  

 

( a “Ética” é o livro-própolis que Espinosa escreveu)

 



domingo, 15 de fevereiro de 2026

A mariposa

 

Eu ainda não havia despertado totalmente, mas já sentia no ar a presença  de um novo   dia que nascia.  De repente, ouvi um som agudo provocado por um bater de asas agitado e aflito  que passou roçando  meu rosto. Abri então os olhos:  era uma pequena mariposa que se aprisionou em meu quarto ainda um pouco escuro.

 Não sei se era  uma  jovem mariposa aprendendo seus primeiros voos,  sem confiança ainda; ou se era, ao contrário,  uma mariposa já muito vivida querendo fugir do mundo, desiludida. O que sei é que ela rodopiava atônita e perdida, como se estivesse presa   num labirinto cujo centro era um vazio .

 Levantei  da cama rápido querendo arranjar um jeito de auxiliar a mariposa a se libertar daquele rodamoinho angustiante  que ela mesma criou para se atar.

Fui   à janela e a abri toda para que entrasse  a luz. Foi então que vi o dia...Que dia! Após  uma noite  de chuva e frio , o céu abria-se   todo  azul , enquanto  o sol aquecia de novo tudo o que é vivo. 

Com cuidado, cheguei perto da mariposa  e apenas lhe disse  ( com a franqueza dos amigos que desejam o bem um do outro) : “Com um dia desse, com essa amplidão para explorar voando, você vem se enclausurar em meu quarto com medo!?Quem me dera ter suas asas...”

Juro: a mariposa foi acalmando seu  rodopiar aflito , reorientou suas asas para novo sentido , parou de antecipar na imaginação os perigos, emendou-se. Tomou coragem e atravessou    a janela, foi pro mundo, aceitou da liberdade o risco.

Em Espinosa, “emendar-se” é autocorrigir-se : dar ao pensamento um horizonte, para que nos pés floresçam novos passos.

 

(Este filme  é apenas uma sugestão)






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A embriaguez da criação

 

Uma das origens do carnaval remete a Dioniso, o deus das Artes. “Dioniso”  significa: “Aquele que nasceu duas vezes”.

No primeiro nascimento , Dioniso veio ao mundo chorando, como todo recém-nascido. Mas  o segundo nascimento envolve a seguinte história:

Quando era ainda criança, Dioniso foi vítima das Fúrias, seres que representam o ressentiment0, o ódio e a vinganç4. As Fúrias despedaçaram Dioniso, imaginando assim que o derrotavam.

Porém , Dioniso tinha ainda uma arte que as Fúrias desconheciam...Dioniso não estava totalmente vencido: havia uma parte dele que ainda o guardava inteiro, íntegro. Essa parte era o coração.

Os seres do  ódi0 e da destruiçã0, tanto os de ontem como os de hoje,   ignoram  a Potência que vive no coração da arte, ignorando igualmente  a força regeneradora que há na criação como força que , perseverando, resiste .

Dioniso partejou-se então do próprio coração, enquanto lugar do Afeto Transmutador , renascendo ainda mais vivo para a Vida.

Se no primeiro nascimento Dioniso nasceu chorando, agora Dioniso renascia em festa, como expressão do triunfo da Vida sobre seus carrascos :“A filosofia está sempre a enterrar seus coveiros” (Étienne  Gilson).

Originariamente, antes de ser associado ao vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em grego, “bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”.

Há os que , etilicamente, se embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na ação generosa/criadora de florir e frutificar.

O poeta Baudelaire dizia: “É preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher. Mas embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “seja uma floração de ideias e de ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva, o Deus de Espinosa é a Potência Absoluta de Floração.

 

(Imagem: “A vinha vermelha”/ Van Gogh)




Sobre a relação originária de Dioniso com a vinha, e não com o vinho, a principal referência é esta:



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Kurosawa, Van Gogh, Espinosa e Manoel de Barros: florações...

 

No filme “Sonhos”, de Kurosawa, há uma cena em que uma criança chora porque um jardim de pessegueiros foi derrubado.

Então, perguntam a ela se o choro dela era devido a não poder mais  comer os pêssegos, ou seja, se o choro  era motivado pelo interesse nos frutos, nos pêssegos.

A  criança responde mais ou menos assim: “Eu não estou chorando pelos pêssegos , pois  pêssegos podem ser comprados  em quantidades no mercado . Eu choro porque nunca mais vou poder ver a floração dos pessegueiros: a floração é única e  não se mede em dinheiro, nem se vende no mercado...”.

De repente, ainda chorando, a criança vê algo colorido num  canto daquele  jardim desolado. Ela   chega perto para ver o que é: do tronco de um pessegueiro  cortado e violentado, a vida ali resistiu e perseverava , pois pequenos embriões de floração novamente brotaram.

Então, como se tivesse ganho o mais desejado dos presentes,  a criança enxuga as lágrimas e  sorri.

O pêssego é colhido com as mãos, já  a floração é para ser colhida com os olhos, para que o próprio ver nos olhos floresça, e enxergue mais do que o mero dado.

O pêssego é o produto que pode ser separado de seu produtor, ao passo que  a floração é a arte que torna indistintos o artista e sua obra ainda em processo e  brotando dele mesmo, em generosa doação.

O pêssego mata a fome do estômago, mas  a floração mata outro tipo de fome:  fome de arte, de poesia e de criação.

As ideias são como os pêssegos, porém pensar é floração da mente unida ao corpo, como ensina Espinosa. Manoel de Barros, por sua vez, diz que “poesia é afloramento de falas”.

A liberdade não é um fruto pronto que podemos colher, a liberdade  é floração concreta no aqui e agora, como ato emancipador   fazendo-se.

Há os que cobiçam  os pêssegos apenas para pôr neles um preço e vendê-los no  mercado, reduzindo    os pêssegos a meros meios  para se acumular capital, poder e dinheiro.

Mas há os que veem riqueza na floração dos seres, uma riqueza que não se mede em dinheiro, pois é uma riqueza que se cultiva com a arte, a filosofia, a cultura e a educação.

Porém , é preciso cuidar dessa floração e agir para que ela sempre aconteça , pois odeiam essa floração, e sempre a ameaçam, os ceifadores e destruidores de jardins.

 

  "Poesia é florescer pelos olhos." (Manoel de Barros)

 

“Filosofia é prática para ensinar a ver.”( Merleau-Ponty)

 

 

( imagem: “Pessegueiros em flor”/ Van Gogh)



 

Originariamente, antes de ser a divindade do vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em grego, “bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”. Há os que , etilicamente, se embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na  ação generosa  de florir e frutificar. O poeta Baudelaire dizia: “É preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher. Mas embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “sejam uma floração de ideias e de ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva,  o Deus de Espinosa é a Potência Absoluta de Floração.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

conservar , reformar e revolucionar

 

Vida e  política giram  em torno destes três verbos: conservar, transformar e revolucionar. O conservar é o credo dos conservadores, o transformar é o interesse dos reformistas, o revolucionar é a prática dos revolucionários.

Os conservadores exaltam a Ordem e querem mantê-la, não importando se ela é injusta; os reformistas querem mudança, mas negociada e sem romper com a ordem estabelecida; já os revolucionários pensam e agem para criar uma realidade nova, sem negociatas e concessões à ordem antiga.

Os conservadores são saudosistas, os reformistas são utilitaristas, os revolucionários  são artistas ( cuja obra a criar  é , sobretudo, um novo modo de vida) .

O conservador idolatra o passado, o reformista é refém do presente “líquido” , o revolucionário age por um futuro que nos liberte do passado e crie um “fio de Ariadne” que nos tire deste distópico presente-labirinto .   

O poder é sempre conservador; a lei é o usual   instrumento do reformista; porém é o desejo de justiça que expressa a potência de todo  revolucionário.

Quando o conservador pensa em arma, ele pensa na arma literal, destrutiva; já o reformista tem por arma a política representativa; mas  a arma do revolucionário é   a educação, a cultura,  a arte , o amor...pois em tudo isso há política.

A diferença entre o conservador e o revolucionário salta aos olhos, porém nem sempre é evidente o que distingue o reformista do revolucionário. Na boca de um e de outro sempre está uma palavra: o “possível”.

Mas reformistas e revolucionários não pensam a ideia de possível da mesma maneira. No reformista, o possível é aquilo pode ser  realizado, ao passo que no revolucionário o possível é o que precisa ser criado. Realizar não é a mesma coisa que criar.

O músico que toca no palco realiza a música que o compositor, antes dele ,  criou. Já o compositor criou a música e assim a tornou real. O compositor-criador cria uma realidade nova: ele “ouve” a música que nunca foi  tocada.

O reformista  realiza o possível de acordo com o que está estabelecido em um real dado. Já  o revolucionário cria o possível ainda que o real dado lhe diga que é impossível criar outras possibilidades de vida e de existência.

O revolucionário não age a partir do já estabelecido, tampouco se ajoelha diante dos valores dados:   o revolucionário cria o possível mesmo quando, antes de sua criação, criar algo novo parecia impossível de ser criado.

Como ensina Foucault : "Um pouco de possível para não sufocarmos".

( este livro é apenas uma sugestão)



sábado, 17 de janeiro de 2026

Imitar, recriando.

 

A imitação é um dos comportamentos mais singulares que podemos observar nos seres vivos. O filhote de passarinho, ainda no ninho, aprende a voar imitando seus genitores; o pequeno leãozinho aprende a ser leão imitando seus pais. Pois imitar é a forma primeira de aprender : não só aprender a se comportar desta ou daquela maneira, mas aprender a ser aquilo que se é.

A arte também é prática de imitação (mímesis): quando um pintor  pinta uma maçã, a maçã pintada imita a maçã real; quando o escultor esculpe uma estátua de Sócrates , a escultura  imita  Sócrates .

Quando um músico compõe uma música sem palavras, a música também imita. A música não imita mediante uma imagem icônica, como na pintura e na escultura; a música imita por intermédio do ritmo. O que a música imita? Ela imita os afetos.

Como o afeto não tem uma figura visível , tal como Sócrates o tem,  toda imitação musical  de um afeto na verdade o recria. É por isso que a música também pode ser uma terapêutica clínica: ouvindo a música, nós mesmos nos ouvimos através do afeto que sentimos.

 Ouvindo  a música,  imitamos  o ritmo dela  a partir do ritmo do nosso corpo, incluindo  os ritmos respiratórios e  cardíacos. A música nos ensina que somos ritmos que imitam ritmos maiores: Pitágoras dizia que o universo é música composta pelo ritmo dos astros...

Mas há duas formas de imitação: a servil e a criativa. Na imitação servil aquele que imita  anula  sua diferença própria para assim  ser a cópia servil de um modelo.

Quem tem a propensão a imitar servilmente se submete a qualquer modelo , mesmo que o imitado seja um ser abominável . Quando muitos imitam servilmente um crápula tornado modelo, surgem os rebanhos fanáticos que pouco valor dão à vida, uma vez que pouco valor dão a si mesmos.

Porém há também a imitação criativa. Nela, a imitação é atividade para descobrir e potencializar a própria potência-ritmo, dado que o imitado é criado para favorecer agenciamentos para singularização de ritmos.

As ideias que emancipam e educam são assim: conhecê-las é vivê-las como meios que potencializam nossos ritmos . Aprender ,  ensinar, partilhar, empatizar, amar... são  composições  de   ritmos.

A própria sociedade também possui seus ritmos: a democracia é um ritmo social que protege e estimula os ritmos heterogêneos. Já a tirania é a tentativa de impor comportamentos mecanizados segundo a lógica do rebanho “mesmal” .

Por isso, não podemos deixar que as forças destrutivas externas  nos produzam movimentos internos que nos ponham sob riscos, pois tristeza, medo e apatia  são enfraquecimentos dos nossos ritmos.

Mas com nossos ritmos potencializados, aprendemos a agir sobre o mundo externo sem violentar nossos ritmos.

Na foto, é a menina, e não a pintura, a maior obra de arte. Ela não copia servilmente, ela interpreta a partir do seu ritmo, e assim se autodescobre brincativamente e afirma seu estilo: autonomiza-se.




 

“Mesmal” e “brincatividade” são ideias criadas pelo poeta-pensador Manoel de Barros. O “mesmal” é a antifilosofia e antipoesia, o mesmal é o pensar e viver igual ao modo de rebanhos; “brincatividade” é exercício lúdico que, agenciando arte e política,  muda uma realidade, mas sem perder a alegria ( a mesma que ensina Espinosa).

domingo, 11 de janeiro de 2026

Espinosa : o que alimenta corpo e mente.

 

Em sua Ética, Espinosa ensina que a saúde do corpo depende de que  ele se nutra de alimentos diferentes. Não alimentos caros, mas alimentos diferentes, até mesmo simples. Pois a multiplicidade aumenta a potência e saúde da singularidade que a incorpora  , tornando a diversidade    parte  integrante de si.

Mas para que esses alimentos diferentes potencializem o corpo que deles se alimenta, é preciso que esses alimentos se componham , ou seja, que a união deles seja um acréscimo de força, de saúde e até mesmo de harmonia, como numa polifonia musical feita com sons de instrumentos diferentes que, juntos, criam uma música singular, única.

Nosso corpo é composto de diferentes tecidos, de variadas estruturas ósseas, de sutis construções nervosas; e toda essa heterogeneidade que nos compõe , e que faz de cada um de nós um ser único, requer igualmente uma heterogeneidade de alimentos para manter-se e regenerar-se.

 Ao contrário, um corpo que se alimenta de apenas uma coisa, ou de poucas coisas, empobrece sua potência e saúde, uma vez que essa única coisa ou poucas coisas ingeridas irão alimentar apenas poucas coisas em nós , criando assim um desequilíbrio e desarmonia. Como resultado, nosso corpo será um misto debilitante  de excessos e carências. 

Se para nos alimentar dependêssemos apenas da monocultura que o agro-ogro produz, estaríamos todos doentes...O que nos salva é a riqueza plural da pluri-agricultura familiar.

O que vale para nosso corpo vale ainda mais para a nossa mente. Uma mente potente é aquela que se nutre de ideias múltiplas, diversas, plurais. Ideias que vêm não apenas de livros, mas também de músicas, filmes, poesias, exposições , enfim, ideias múltiplas que nascem da vida, ideias para serem pensadas, sentidas , vividas e postas em prática. 

São essas ideias plurais que alimentam e enriquecem de vida pensante uma mente singular. São elas que garantem a saúde da mente, tanto a mente individual quanto a coletiva . Enfim, uma polifonia de ideias expande a mente , tornando-a criativa e aberta à heterogeneidade do próprio mundo.  Não por acaso, “saber” vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são alimento ou veneno.

Pois a mente que se nutre de uma ideia única, na verdade não se alimenta, se envenena. Mente assim se fecha à heterogeneidade da realidade,  passando  a negá-la ou a temê-la . E disso se aproveitam os dogmas, as “seitas” de toda espécie ( incluindo a “seita do Mercado” ) e tudo aquilo que alimenta a ignorância em suas diversas formas.

“Nas mãos a ferramenta de operário, e na cabeça a coruscante ideia.”

Versos do poema “Spinoza”, de Machado de Assis. Estes versos inspiraram  Nise ao dizer que não é no cérebro que apenas teoriza que se encontra  a felicidade, mas naquilo que  fazemos com nossas mãos, sobretudo quando  a ocupamos transformadoramente  com arte , generosidade e educação. Pois mãos adoecem quando servem à ideia única de apenas  contar dinheiro...



Esse livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura. Tive a alegria de participar de evento organizado pelo Museu de Imagens do Inconsciente no qual foi lançada essa edição do livro de Nise sobre Espinosa. No texto que escrevi e postei aqui, a referência a Espinosa é: Ética, Quarta Parte, Apêndice, Capítulo 27.

 

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A mídia comercial costuma dizer que vivemos um período político “polarizado”. Porém, esse tipo de “informação” dissimula uma intenção ambígua, para dizer o menos. Pois só podem polarizar realidades que pertencem a um mesmo conjunto ou gênero de coisas.

Por exemplo, o alto e o baixo polarizam no conjunto de coisas que têm dimensão física; o doce e o salgado polarizam no âmbito  das coisas que têm sabor; direita e esquerda, conservadores e progressistas, polarizam dentro do conjunto das perspectivas políticas.

Mas o fascismo não é um dos polos dentro daquilo que compreendemos ser a democracia. Ao contrário, o fascismo é o que quer destruir a democracia e sua possibilidade de perspectivas diferentes  buscando  o governo do Estado . Democracia é divergência  de perspectivas, porém sem rasgar as  regras ou ameaçar com tanques quem pensa diferente.

Quando a mídia comercial  coloca o fascismo e a esquerda como “polarizando”, além de isso  ser um erro de raciocínio ( um “sofisma”),  na verdade ela  está  tomando partido, de forma dissimulada, pelo fascismo, sobretudo quando esse promete uma pauta de venda do patrimônio público, pauta que é a mesma da mídia comercial e do capitalismo predatório.