sábado, 17 de janeiro de 2026

Imitar, recriando.

 

A imitação é um dos comportamentos mais singulares que podemos observar nos seres vivos. O filhote de passarinho, ainda no ninho, aprende a voar imitando seus genitores; o pequeno leãozinho aprende a ser leão imitando seus pais. Pois imitar é a forma primeira de aprender : não só aprender a se comportar desta ou daquela maneira, mas aprender a ser aquilo que se é.

A arte também é prática de imitação (mímesis): quando um pintor  pinta uma maçã, a maçã pintada imita a maçã real; quando o escultor esculpe uma estátua de Sócrates , a escultura  imita  Sócrates .

Quando um músico compõe uma música sem palavras, a música também imita. A música não imita mediante uma imagem icônica, como na pintura e na escultura; a música imita por intermédio do ritmo. O que a música imita? Ela imita os afetos.

Como o afeto não tem uma figura visível , tal como Sócrates o tem,  toda imitação musical  de um afeto na verdade o recria. É por isso que a música também pode ser uma terapêutica clínica: ouvindo a música, nós mesmos nos ouvimos através do afeto que sentimos.

 Ouvindo  a música,  imitamos  o ritmo dela  a partir do ritmo do nosso corpo, incluindo  os ritmos respiratórios e  cardíacos. A música nos ensina que somos ritmos que imitam ritmos maiores: Pitágoras dizia que o universo é música composta pelo ritmo dos astros...

Mas há duas formas de imitação: a servil e a criativa. Na imitação servil aquele que imita  anula  sua diferença própria para assim  ser a cópia servil de um modelo.

Quem tem a propensão a imitar servilmente se submete a qualquer modelo , mesmo que o imitado seja um ser abominável . Quando muitos imitam servilmente um crápula tornado modelo, surgem os rebanhos fanáticos que pouco valor dão à vida, uma vez que pouco valor dão a si mesmos.

Porém há também a imitação criativa. Nela, a imitação é atividade para descobrir e potencializar a própria potência-ritmo, dado que o imitado é criado para favorecer agenciamentos para singularização de ritmos.

As ideias que emancipam e educam são assim: conhecê-las é vivê-las como meios que potencializam nossos ritmos . Aprender ,  ensinar, partilhar, empatizar, amar... são  composições  de   ritmos.

A própria sociedade também possui seus ritmos: a democracia é um ritmo social que protege e estimula os ritmos heterogêneos. Já a tirania é a tentativa de impor comportamentos mecanizados segundo a lógica do rebanho “mesmal” .

Por isso, não podemos deixar que as forças destrutivas externas  nos produzam movimentos internos que nos ponham sob riscos, pois tristeza, medo e apatia  são enfraquecimentos dos nossos ritmos.

Mas com nossos ritmos potencializados, aprendemos a agir sobre o mundo externo sem violentar nossos ritmos.

Na foto, é a menina, e não a pintura, a maior obra de arte. Ela não copia servilmente, ela interpreta a partir do seu ritmo, e assim se autodescobre brincativamente e afirma seu estilo: autonomiza-se.




 

“Mesmal” e “brincatividade” são ideias criadas pelo poeta-pensador Manoel de Barros. O “mesmal” é a antifilosofia e antipoesia, o mesmal é o pensar e viver igual ao modo de rebanhos; “brincatividade” é exercício lúdico que, agenciando arte e política,  muda uma realidade, mas sem perder a alegria ( a mesma que ensina Espinosa).

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