sábado, 21 de março de 2026

o poder teológico-político

 

A palavra “teologia” aparece entre os filósofos pré-socráticos. Antes deles , já existia a palavra “teogonia” , que é o título de um   poema de Hesíodo no qual se narra  a origem dos deuses, a começar por Gaia, a Mãe-Terra.

 Hoje , a palavra  “teologia” remete a três religiões calcadas  num texto considerado sagrado por elas: o Alcorão ( Islamismo), a Torá ( Judaísmo) e a Bíblia (Cristianismo).

“Política”, por sua vez, vem do termo “pólis”, que significa tanto “cidade” como “organização” ( na raiz  da palavra “pró-polis” , por exemplo, está “pólis” , pois a própolis , como uma vacina, protege a colmeia enquanto “organização-comunidade” das abelhas).

Pólis é a organização conjunta das liberdades, para assim construir o viver em comum, preservando a heterogeneidade dos viveres. No centro da pólis não estão Castelos ou Templos, embora a base de toda pólis igualmente seja um livro.

Um livro que também é objeto de uma “fé”, não uma fé religiosa, mas uma fé na liberdade, na criatividade, na ciência, na cultura , na educação, pois essas atividades também são “instituições”.

Ao contrário dos “Textos Sagrados”, o livro que serve de base à pólis pode ser reformado ou até mesmo abandonado em nome de outro texto mais justo, desde que assim decida a sociedade, após debate, argumentação,  divergência dialogada e votação.

 O  livro que fundamenta a pólis  é a Constituição. Essa palavra significa: “o que é instituído junto”, e que apenas por um querer junto, afirmador da pluralidade, pode ser destituído.

A Constituição deve preservar a diversidade, inclusive a diversidade de crenças religiosas, além de proteger também aqueles que não têm crenças religiosas.

O poder teológico é um poder que tem seu campo de atuação restrito ao templo. Porém, acontece  por vezes de tal poder usurpar esse espaço de culto, querendo se tornar também poder político.

É assim que nasce o que Espinosa chama de poder “teológico-político”. Para triunfar, esse tipo de poder perseguirá como inimigo tudo aquilo que a Constituição democrática simboliza. É por isso que o poder teológico-político somente pode perdurar cooptando exércitos e polícias.

Esse tipo de poder também costuma se juntar aos que fazem do Capitalismo e do Mercado um Deus, a tal ponto que a “prosperidade”  econômica individual passa a ser  valor  cultuado como se fosse um Dogma ( como se vê no atual acumpliciamento fláviorachadinha-mídiagolpista).

 Mas é do inimigo que esse poder mais persegue que também vem a maior força que resiste a ele: “Onde há o perigo, ensina o poeta Hörderlin, também cresce o que salva. ”



Dizem que o orgulho não é um bom sentimento... Porém confesso que tenho orgulho de algo: ter sido demitido pelo profeta-Malafaia .  Ele era um dos donos da faculdade onde eu lecionava filosofia. Eu estava começando na atividade docente, foi difícil à época ficar sem emprego, porém não me vendi. Ele me demitiu não por eu fazer mal meu trabalho .  Ele me demitiu por eu não obedecer à tentativa dele de cercear nossa atividade docente. Ele nutria indisfarçável horror à filosofia e aos filósofos, só tolerando  quem lhe dissesse “amém”. Se esse srº  vivesse na Grécia Clássica, com certeza   ele   seria um daqueles vingativos que condenaram Sócrates a beber a cicuta; se ele vivesse na época de Espinosa, seria talvez aquele que mandou um fanático religioso  ferir Espinosa com um punhal...( aliás, o ato que baniu/excomungou Espinosa ainda não foi revogado pelas autoridades religiosas :Espinosa  é considerado ainda hoje  por eles como  um subversivo  perigoso...) . O profeta-malafaia  aparece ali na foto junto ao seu “Messias”. Cada profeta tem o “Messias” que merece...




 


Nenhum comentário: