Em sua Ética, Espinosa ensina que
a saúde do corpo depende de que ele se
nutra de alimentos diferentes. Não alimentos caros, mas alimentos diferentes,
até mesmo simples. Pois a multiplicidade aumenta a potência e saúde da
singularidade que a incorpora , tornando
a diversidade parte integrante de si.
Mas para que esses alimentos
diferentes potencializem o corpo que deles se alimenta, é preciso que esses
alimentos se componham , ou seja, que a união deles seja um acréscimo de força,
de saúde e até mesmo de harmonia, como numa polifonia musical feita com sons de
instrumentos diferentes que, juntos, criam uma música singular, única.
Nosso corpo é composto de
diferentes tecidos, de variadas estruturas ósseas, de sutis construções
nervosas; e toda essa heterogeneidade que nos compõe , e que faz de cada um de
nós um ser único, requer igualmente uma heterogeneidade de alimentos para manter-se
e regenerar-se.
Ao contrário, um corpo que se alimenta de
apenas uma coisa, ou de poucas coisas, empobrece sua potência e saúde, uma vez
que essa única coisa ou poucas coisas ingeridas irão alimentar apenas poucas
coisas em nós , criando assim um desequilíbrio e desarmonia. Como resultado,
nosso corpo será um misto debilitante de
excessos e carências.
Se para nos alimentar
dependêssemos apenas da monocultura que o agro-ogro produz, estaríamos todos
doentes...O que nos salva é a riqueza plural da pluri-agricultura familiar.
O que vale para nosso corpo vale
ainda mais para a nossa mente. Uma mente potente é aquela que se nutre de
ideias múltiplas, diversas, plurais. Ideias que vêm não apenas de livros, mas
também de músicas, filmes, poesias, exposições , enfim, ideias múltiplas que
nascem da vida, ideias para serem pensadas, sentidas , vividas e postas em
prática.
São essas ideias plurais que
alimentam e enriquecem de vida pensante uma mente singular. São elas que
garantem a saúde da mente, tanto a mente individual quanto a coletiva . Enfim,
uma polifonia de ideias expande a mente , tornando-a criativa e aberta à heterogeneidade
do próprio mundo. Não por acaso, “saber”
vem de “sabor”. Há ideias que a gente consegue sentir o gosto delas, se são
alimento ou veneno.
Pois a mente que se nutre de uma
ideia única, na verdade não se alimenta, se envenena. Mente assim se fecha à
heterogeneidade da realidade,
passando a negá-la ou a temê-la .
E disso se aproveitam os dogmas, as “seitas” de toda espécie ( incluindo a “seita
do Mercado” ) e tudo aquilo que alimenta a ignorância em suas diversas formas.
“Nas mãos a ferramenta de operário, e na cabeça a coruscante ideia.”
Versos do poema “Spinoza”, de
Machado de Assis. Estes versos inspiraram Nise ao dizer que não é no cérebro que apenas teoriza
que se encontra a felicidade, mas naquilo
que fazemos com nossas mãos, sobretudo quando a ocupamos transformadoramente com arte
, generosidade e educação. Pois mãos adoecem quando servem à ideia única de
apenas contar dinheiro...
Esse livro de Nise é apenas uma sugestão de leitura. Tive a alegria de participar de evento organizado pelo Museu de Imagens do Inconsciente no qual foi lançada essa edição do livro de Nise sobre Espinosa. No texto que escrevi e postei aqui, a referência a Espinosa é: Ética, Quarta Parte, Apêndice, Capítulo 27.
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A mídia comercial costuma dizer
que vivemos um período político “polarizado”. Porém, esse tipo de “informação”
dissimula uma intenção ambígua, para dizer o menos. Pois só podem polarizar
realidades que pertencem a um mesmo conjunto ou gênero de coisas.
Por exemplo, o alto e o baixo
polarizam no conjunto de coisas que têm dimensão física; o doce e o salgado
polarizam no âmbito das coisas que têm sabor; direita e esquerda,
conservadores e progressistas, polarizam dentro do conjunto das perspectivas
políticas.
Mas o fascismo não é um dos polos
dentro daquilo que compreendemos ser a democracia. Ao contrário, o fascismo é o
que quer destruir a democracia e sua possibilidade de perspectivas
diferentes buscando o governo do Estado . Democracia é
divergência de perspectivas, porém sem rasgar as regras ou ameaçar
com tanques quem pensa diferente.
Quando a mídia comercial
coloca o fascismo e a esquerda como “polarizando”, além de isso ser um
erro de raciocínio ( um “sofisma”), na verdade ela está
tomando partido, de forma dissimulada, pelo fascismo, sobretudo quando esse
promete uma pauta de venda do patrimônio público, pauta que é a mesma da mídia
comercial e do capitalismo predatório.

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