sexta-feira, 3 de abril de 2026

francisco

 

Ouvi certa vez a seguinte história de autoria popular ( que aqui parafraseio e interpreto): de um lado estava São Francisco, do outro o Diabo. Separando a ambos ,  um muro; e em cima do muro estava  alguém que se dizia “Neutro”.

 Francisco  disse ao “Neutro”: “- Venha para este lado, aqui há luz e  empatia  pela vida do outro.” Do   lado oposto do muro , porém, o Diabo permanecia calado.

Vendo  o “Neutro” ainda indeciso e  parado, Francisco  prosseguia : “- Venha se juntar a nós , Buda também está aqui; também estão Lao-Tsé, Confúcio,  Orixás , Tupã, Mães-de-Santo,  Pajés ... Bem como todos aqueles que, tendo ou não religião,  agiram para defender e libertar  os oprimidos e injustiçados.”

Estranhamente, o Diabo seguia mudo, ele que gosta tanto de se vangloriar...

Então, Francisco levantou a cabeça , olhou sobre o muro e indagou ao que reinava na treva  do outro lado : “- Por que você   permanece  calado?”

“- É que esse muro onde o ‘Neutro’ está  instalado  pertence a mim”, disse o Diabo.

Do certo lado do muro, o poeta Manoel de Barros assim poetizou: “São Francisco monumentou os passarinhos.”

 

De pés descalços, ele dançou diante do Papa.”(Deleuze)

"O que é inferno? Afirmo que é o sofrimento de já não poder amar.”(Dostoiévski)

 

(obs: o texto  se refere ao personagem social-popular Francisco, um personagem muito presente na  literatura de  cordel do nosso Nordeste. Não é tratado o tema do ponto de vista de uma religião. Inclusive , dei a entender que do lado do muro onde está o personagem Francisco também podem estar agnósticos e até os sem religião. A foto que acompanha o texto mostra a escultura “Cristo sem teto”, obra do escultor Timothy Schmalz; a outra imagem é a do padre Júlio Lancelloti , que foi parado recentemente pela polícia durante evento que o padre fazia para auxiliar  os moradores de rua e sem teto)



Francisco vinha por um bosque afastado e viu uma igrejinha em ruínas. O teto da igrejinha caiu , as paredes vieram ao chão. Nada mais ficou  de pé, exceto uma cruz em madeira que permanecia  intacta, apesar do altar destruído.

 A cruz tinha o tamanho de uma pessoa, e parecia de fato uma pessoa de braços abertos.

A madeira com a qual a cruz  era feita  perseverava  viva, de tal modo que  a cruz  voltou a ser  árvore que pertence à natureza , não mais o símbolo de uma religião.

O teto da igrejinha agora era o horizontado céu; e a mãe-terra , o seu chão.

De repente, Francisco ouviu um passarinho cantando: era um rouxinol. E o mais  surpreendente : o canto parecia vir da cruz. No coração da cruz, onde a madeira vertical e a horizontal se encontram, havia um pequeno buraco no qual o rouxinol estava  pousado .  Parecia que o rouxinol , cantando, chamava Francisco para ver a “boa nova”.

Quando se aproximou e olhou para dentro do peito da cruz, Francisco viu que ali havia  um ninho bem no coração dela, no qual três filhotinhos, rompendo o ovo, acabavam de nascer. 


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