sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Manoel de Barros: "Poesia pode ser que seja fazer outro mundo".

 

Certa vez, pediram ao poeta Manoel de Barros uma definição do que é a poesia. O poeta assim respondeu: “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo”. Nessa resposta, a palavra mais importante é o verbo “fazer”. Inclusive, a palavra “poesia” vem de um verbo grego  cujo sentido é exatamente “fazer, produzir”.

Quando se  substantiva a poesia apenas como rima e verso , perde-se a compreensão de que ela é também um verbo, uma ação, que pode produzir muitas outras coisas além de rimas e versos.

A poesia produz também percepções, pensares e sentidos outros que subvertem o “mesmal”  do “mundo acostumado” .

Manoel diz que o poeta produz versos porque , antes de escrever, “o poeta  se empoema”. Empoemar-se é um sentir que pensa, tornando-se potência criativa  que nasce de uma intensificação da vida.

Quem se empoema,   desegoifica-se  e se desabre:  não cabe mais dentro de si.  Alguns se empoemam  e dançam, outros se empoemam e pintam, outros se empoemam e cantam, outros se empoemam e  ensinam, outros se empoemam e aprendem,  outros se empoemam e se tornam generosos, corajosos, insubmissos,  libertários , enfim, intensificam o que neles é vivo .

 E com o máximo de força que podem , se esforçam para fazer outro mundo começando pelo lugar onde se está, mesmo que seja um lugar modesto, micropolítico: sala de aula, fábrica, rua, praça, residência, favela, vizinhança, janela, mundo virtual...

E primeiro que tudo, deve-se começar por fazer outro mundo dentro de si mesmo, na maneira de pensar e sentir, fazendo-se de novo página branca, sem roteiros prévios , para que nela a vida reescreva novos sentidos por descobrir , sentidos  que nos auxiliem a resistir à antipoesia dos homens cultuadores do ódio, da destruição e da morte.

É por isso que o importante naquela definição de poesia  também  é o “pode ser que seja”,  pois poesia não é   palavra de ordem , fórmula  ou dogma;  poesia  é ideia pensante  para ser sentida e reinventada, reinventando-nos , como potencialização da liberdade agenciada.

Como ensina Deleuze: “Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o filósofo é o poeta”.


(parte do que escrevi se encontra neste livro que organizei)




 


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