sábado, 7 de março de 2026

Manoel e os fluxos...

No livro "O guardador de águas", o poeta-pensador Manoel de Barros afirma que aprendeu  a guardar águas. Não ouro, dinheiro ou posses, mas águas. Guardar também é cuidar.

As águas que o poeta guarda não são exatamente coisas, elas são fluxos. Cuidar dos fluxos é o oposto de construir cercas ,  gaiolas , muros ( literais ou simbólicos).  Os fluxos são sempre desterritorializados e desterritorializantes : “não se pode ‘passar régua’ neles”, ensina Manoel.

Mas  não se deve confundir esse “fluxo” manoelino com aquilo que o sociólogo Bauman chama de “líquido” , ao descrever  as sociedades contemporâneas .

 No “mundo líquido”, as relações, os amores, as políticas , as temporalidades, o trabalho, as subjetividades e até mesmo o conhecimento se tornaram   “volúveis-voláteis” ( como a liquidez do Capital que a tudo desumaniza e reduz a juros e lucro).

 O líquido aceita ser limitado e contido por moldes. Já um fluxo é feito o sangue nas veias:  se não   avançar, perece.  Os fluxos ou inventam linhas de fuga ou secam e morrem -  e a secar resistem com toda força que podem.

 Os fluxos somente podem ser guardados em espaços  abertos. E abertos se tornam a sociedade, a mente e o afeto se um fluxo de vida os atravessa.

Os fluxos nascem de fluxos, não de coisas enrijecidas: o  rio amazonas  nasceu da geleira no alto dos Andes , mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo...até alcançar o horizontado mar , para mar também se tornar.

Guardar as águas é guardar-se nelas, como necessária arte dos (re)descobrimentos: "estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir"( Clarice Lispector, “A descoberta do mundo”).

Somente uma fonte pode guardar fluxos.  A fonte guarda fluxos os  doando, pois uma fonte é um fluxo de vida partejando a si  para matar sedes e  irrigar desertos.

 O fluxo é fluido, mas não é sem força ou volúvel; ele é firme, possui consistência, porém não é rígido. Pedras não  vencem o  avançar de um fluxo ,  enquanto pulsar a fonte da qual ele transborda.

 

“Quem anda no trilho é trem de ferro.

Sou água que corre entre pedras:

liberdade caça jeito.” ( Manoel de Barros)

 

“A cisterna contém; a fonte transborda”.   (William Blake)

 

“O artista é aquele que converte os obstáculos em meio”. (Deleuze)

 

( Imagem: “Sherazade”/ obra do artista Samil Hilal. Como as palavras emancipadoras de Sherazade enfrentando o poder repressor-falocrático  do “Sultão”, o agenciamento de livros forma um fluxo de ideias que segue em frente,  irreprimível...)






 

 

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