sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A embriaguez da criação

 

Uma das origens do carnaval remete a Dioniso, o deus das Artes. “Dioniso”  significa: “Aquele que nasceu duas vezes”.

No primeiro nascimento , Dioniso veio ao mundo chorando, como todo recém-nascido. Mas  o segundo nascimento envolve a seguinte história:

Quando era ainda criança, Dioniso foi vítima das Fúrias, seres que representam o ressentiment0, o ódio e a vinganç4. As Fúrias despedaçaram Dioniso, imaginando assim que o derrotavam.

Porém , Dioniso tinha ainda uma arte que as Fúrias desconheciam...Dioniso não estava totalmente vencido: havia uma parte dele que ainda o guardava inteiro, íntegro. Essa parte era o coração.

Os seres do  ódi0 e da destruiçã0, tanto os de ontem como os de hoje,   ignoram  a Potência que vive no coração da arte, ignorando igualmente  a força regeneradora que há na criação como força que , perseverando, resiste .

Dioniso partejou-se então do próprio coração, enquanto lugar do Afeto Transmutador , renascendo ainda mais vivo para a Vida.

Se no primeiro nascimento Dioniso nasceu chorando, agora Dioniso renascia em festa, como expressão do triunfo da Vida sobre seus carrascos :“A filosofia está sempre a enterrar seus coveiros” (Étienne  Gilson).

Originariamente, antes de ser associado ao vinho, Dioniso era o deus da vinha, do seu florir e frutificar. Em grego, “bacchus” ( de onde nasce “Baco”) significa “embriaguez”.

Há os que , etilicamente, se embriagam com o vinho; mas a autêntica embriaguez está na ação generosa/criadora de florir e frutificar.

O poeta Baudelaire dizia: “É preciso embriagar-se. De quê? De vinho virtude ou poesia, a escolher. Mas embriaguem-se!” Creio que o poeta quer dizer: “seja uma floração de ideias e de ações que frutifiquem!” Visto dessa perspectiva, o Deus de Espinosa é a Potência Absoluta de Floração.

 

(Imagem: “A vinha vermelha”/ Van Gogh)




Sobre a relação originária de Dioniso com a vinha, e não com o vinho, a principal referência é esta:



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