sábado, 26 de outubro de 2019

a porta de Marielle


                                                                                    
No Museu da Maré há um espaço  dedicado a Marielle Franco. Na exposição que leva seu nome,  foi escolhido  um objeto singular para nos fazer lembrar  a vereadora:  nada mais nada menos do que  a porta do seu gabinete .Enquanto era parte de seu gabinete, a referida porta era muito diferente de uma porta habitual, pois  Marielle costumava colar   mensagens nela, além de  sempre mantê-la  aberta àqueles que vinham procurar por sua ajuda.
Pela ação de Marielle , aquela porta continha  uma potencialidade de sentidos. E “potencialidade de sentidos” é o outro nome pelo qual atende a  poesia enquanto prática de ressignificar as coisas e o mundo. Pois poesia não é só versos: poesia também é produção de sentidos que podem transformar  uma simples porta em um agente  coletivo de enunciação . Quando um objeto é parte da  produção de sentidos, ele deixa de ser  coisa inerte e se torna expressão de um mundo, ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, tangível e intangível. Transportada então para o interior do Museu da Maré, aquela porta se tornou um símbolo-mensagem do próprio ser de Marielle: porta aberta, receptiva, como seu sorriso.
Não por acaso, na mitologia era sob uma  porta aberta,  espaço de travessias, que se manifestava Hermes, a divindade  associada à comunicação das mensagens que  requerem a prática da interpretação. Em grego, “interpretação” se escreve “hermenêutica”: “atividade relativa a Hermes”. Mensagem não é a mesma coisa que informação. “A capital do Brasil é Brasília”, “dois mais dois é igual a quatro”, tais coisas não são mensagens. Mensagem é tudo aquilo cujo sentido requer a atividade de interpretação: “A palavra abriu o roupão para mim: ela quer que eu a seja”, este verso de Manoel de Barros não é informação, é mensagem. “O homem é um animal político”, outra mensagem. Mensagem não é para se decorar ou reproduzir, mensagem é para despertar nosso pensar e nosso sentir para aprendermos a ler mais do que frases ou palavras, e assim lermos também o mundo. Nem sempre mensagens se vestem com palavras, às vezes as mensagens  vêm inscritas  nas coisas ou são as próprias coisas portando sentidos a serem interpretados. Enquanto objeto exposto , a porta de Marielle é mensagem que simboliza o sentido da travessia e da abertura ao outro, sobretudo  ao outro  que é marginalizado, injustiçado, explorado, perseguido.
Os Museus Casa   são espaços que já foram residência, quase sempre  palácios e mansões, em geral de gente oriunda da elite. O museu  Casa de Rui Barbosa, por exemplo, foi a casa de verdade de Rui Barbosa. Mas pessoas do povo como Cartola, Nelson Sargento, Lima Barreto, Maria Carolina de Jesus,  e tantos outros, não tiveram casa para ser patrimônio musealizado. A casa deles é a favela, a cultura popular, a resistência, a criatividade e a inventividade do povo que luta. A porta de Marielle é parte de uma casa assim: uma casa plural, aberta, heterogênea.
Os assassinos de Marielle obstruíram covardemente seus passos. Mas a porta que ela simboliza , enquanto abertura à justiça, à educação e à cultura, esta porta nós não podemos deixar fechar.


- Artigo publicado originalmente no site Ateliê de Humanidades:  
https://ateliedehumanidades.com/







-imagem: a porta do gabinete de Marielle:




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