sábado, 8 de abril de 2023
sexta-feira, 7 de abril de 2023
o peixe, o rio e o mar
Não sou peixe de aquário,
sou peixe de rio cujo fluxo é livre, libertário.
Nada do que faço ou digo é ornamento,
tudo o que crio é para unir o que posso ao que é necessário.
Nascido junto à fonte
da qual o rio brota ,
meu maior desejo é alcançar o mar.
É por isso que faço de minhas nadadeiras
também asas que sobre as águas aprenderam a voar.
quinta-feira, 6 de abril de 2023
eros, Paulo Freire, Plotino, Manoel & Espinosa
Eros
primeiro amou Afrodite, achando que
Afrodite era tudo; até que Eros conheceu
Psiquê, esquecendo de imediato Afrodite.
No
início , Eros foi só de Afrodite; depois
esqueceu Afrodite e passou a ser só de Psiquê. Com isso, Eros produziu
tristeza em Afrodite , ao mesmo tempo que mantinha Psiquê ignorante de
que ele já havia amado, e muito, um outro ser.
Por isso, Eros fazia de tudo para que Afrodite
e Psiquê se ignorassem, como se a alegria de uma fosse a dor da outra, de tal
maneira que a felicidade de ambas ele não poderia oferecer.
Na
mitologia, Eros é o Amor, Afrodite simboliza o Corpo, enquanto Psiquê é a
Alma. Assim, os gregos achavam que o
Amor não pode amar, ao mesmo tempo, o Corpo e a Alma.
O
Corpo proporciona prazer ao Amor, ao
passo que a Alma lhe faz nascer a Sabedoria ( Sophia). “Prazer” em grego é
“hedon”, de onde nasce “hedonismo”. Entregar-se ao Hedonismo ou buscar a Sabedoria: essa escolha deve ser, segundo os gregos, a decisão
que a parte de nós que ama deve fazer.
Platão,
por exemplo, fez da escolha exclusiva do Amor pela Alma a base de sua
filosofia, ao mesmo tempo condenando o Corpo como não tendo, para o pensar,
nenhuma serventia. Para Platão, filosofar é aprender a morrer.
Plotino
não concordava com essa visão dicotômica , nisso inspirando Espinosa. Segundo Plotino, a função maior do
Eros-Amor , a sua utilidade suprema , não é escolher entre a Alma e o Corpo,
mas fazer a Alma e o Corpo unirem-se um ao outro para viverem o ato de pensar como paixão
pelo viver.
Concordando
com Plotino e Espinosa, o poeta Manoel de Barros ensina: "Se a gente não
der o amor , ele apodrece dentro de nós."
Manoel
não se refere ao mero amor no sentido piegas-romântico. Pois como ensina
amorosa-politicamente o educador Paulo Freire, antes de darmos o amor à caridade,
para fazê-la, é preciso dar amor à justiça social , para assim realizá-la.
Não se
dá esse amor sem nos darmos em entrega e agirmos corajosamente para
torná-lo realidade concreta , dentro e fora de nós , fazendo desse afeto causa
atuante de nossas ações e palavras .
Diante
de tanta barbaridade insana que tomou conta de uma parcela obscurantista da
sociedade brasileira, é preciso mais do que nunca, juntos, darmos esse amor perseverante-atuante
à educação emancipadora e cuidadora, fazendo dela a nossa saúde, a nossa resistência , o nosso
escudo e a nossa bandeira.
( este
livro é apenas uma sugestão de leitura)
sexta-feira, 31 de março de 2023
ditadura nunca mais
Eu tinha cerca de 12 anos e fazia o
antigo ginásio. Era uma época difícil, sufocante...A ditadura militar censurava, perseguia , prendia e torturava quem pensasse diferente
do poder autoritário dominante.
Quem não passou por isso não faz
ideia da violência, violência física e simbólica, da ditadura . Somente quem
nela foi carrasco, cúmplice ou capitão do mato tem saudade daquela triste
época.
Quando cresci e estudei história ,
aprendi que esses perseguidos pelo terror eram pessoas que sentiam que o mundo
precisava ser mudado , e agiam para isso. Ainda criança, eu também sentia
que o mundo dos homens estava errado , mas não encontrava nos livros lições que
dissessem isso, pois pensar estava proibido.
Àquela época, a escola não era um
espaço de descobertas : a ditadura controlava tudo, e usava as cartilhas e tabuadas como meios de adestramento.
Poesia e literatura? Só eram aceitos
os parnasianos, como aquele poeta elitista autor do Hino Nacional que a gente
não entendia nada da letra , porém nos
obrigavam a cantar em posição militar, rigidamente, batendo continência
para a bandeira, como se ela fosse um general sisudo sobre o Monte Parnaso.
Até que chegou à escola uma
professora nova de língua e literatura. Tudo nela era diferente: a roupa, o jeito , o olhar , enfim, a pessoa. Foi a
primeira vez que entendi de verdade o que era uma educadora e tudo o que a arte
pode em termos de (auto)descoberta .
Em vez de adotar livros parnasianos
para a gente ler decorando datas e palavras que a gente não entendia, palavras
mortas que nada nos diziam a não ser: “obedeçam!”, ela adotou um livro
diferente cujas palavras a serem
interpretadas eram letras de música dos
Festivais da Canção acontecidos recentemente.
Assim , foi como poesia que li , pela
primeira vez, Chico Buarque, Caetano , Paulinho da Viola e Gilberto Gil. Antes
de conhecer a música deles , eu me empoemei , ainda criança, com a poesia sob a forma de letra. Algo em mim se
horizontou e veio para fora: era eu mesmo,
ainda de mim desconhecido.
Foi a primeira vez que experimentei
o que é ler, pois ler é ler-se. Eu não entendia todas as palavras , mas
sentia que eram palavras vivas que me ensinavam
um sentido que eu sabia ser o mesmo que os milicos não queriam que a
gente aprendesse, um sentido libertário da plural e popular poesia.
A querida professora
transformava a sala de aula numa lúdica academia , uma academia livre de
adestradoras cartilhas, onde a gente era
alfabetizado no pensar lendo a poesia de Chico, Caetano, Gilberto Gil , Geraldo Vandré
e Paulinho da Viola.
Ditadura nunca mais! Democracia sempre!
quinta-feira, 30 de março de 2023
presença e necessidade da filosofia
Quando alguém cobra dos políticos
lisura no trato com a coisa pública,
este alguém está exigindo uma virtude ética: a honestidade. E Ética é uma
disciplina da filosofia.
Quando alguém diz: “O que esse cara fala não tem lógica! ”, quem
assim critica também está reconhecendo a
importância da filosofia, pois Lógica é
uma disciplina filosófica.
Quando alguém ,sentindo, expressa: “
Essa música é bela !”, igualmente emprega um valor da filosofia , uma
vez que o “belo” ( assim como o
“cômico”, o “grotesco”, o “sublime”, etc)
é uma categoria da Estética, uma disciplina da filosofia.
Quando alguém fala : “Sou pragmático,
odeio teorias”, este alguém também não escapa da filosofia , pois
“Pragmatismo” e “Utilitarismo” são correntes da filosofia.
E mesmo quando alguém questiona :
“para que estudar filosofia?”, este alguém também está a
filosofar, dado que questiona sobre a
Teoria do Conhecimento ( ou Epistemologia), uma disciplina da filosofia.
E aqueles que precisam escrever
Monografias, Dissertações de Mestrado ou Teses de Doutorado, mesmo que cursando
“faculdades técnicas” , terão que estudar Metodologia Científica, uma
disciplina filosófica.
Enfim, é impossível alguém
existir e não se colocar em algum
momento questões como: “O que é a vida
?”, “O que é o tempo?”, “O que é a
liberdade?”, “O que é o amor?”, “Quem eu
sou?...” Não apenas para formular tais
perguntas, mas também para vislumbrar respostas para elas, quem assim indaga
igualmente bate à porta da filosofia ,
mesmo que nunca tenha lido livros de filosofia, pois essas são questões de uma disciplina da
filosofia chamada “Metafísica”.
A filosofia não está apenas nos livros escritos pelos filósofos, ela se
encontra ainda mais nas
situações da vida que nos obrigam a pensar, já que é impossível viver de forma digna e pensante
sem se deparar com questões filosóficas. Cabe à escola e às faculdades, não importando
de que curso seja, despertarem o
exercício do pensar , para que essa atividade vital não atrofie por falta de uso.
As crianças são filósofas
/questionadoras por natureza, a mesma natureza de que fala Espinosa.
Infelizmente, poderes tolhedores
que cercam as crianças as afastam, com o tempo, dessa natureza questionadora.
Os tiranos de toda espécie sempre temem o pensar, e fazem o máximo que
podem para impedir que as pessoas, sobretudo os jovens, façam essa descoberta do
pensar , ou se já o descobriram,
não o exerçam . Não por acaso, Platão dizia que o tirano é o antifilósofo.
Pois exercer o pensar é, antes de tudo, aprender a governar a si mesmo , apesar
das “cicutas” , literais e simbólicas ,
com as quais os obscurantistas tentam
ameaçar aquilo que em nós é pensante.
Antes de estar nos livros, a
filosofia está na vida, pois pensar é
uma exigência da própria vida , e
antídoto contra os inimigos da educação emancipadora ( cuja “cicuta” mais recente é a tentativa de retirada da Filosofia, da
Sociologia e das Artes do Ensino Médio).
domingo, 26 de março de 2023
Espinosa e o Absolutamente Infinito
Em Espinosa, Deus é a própria
natureza. Cada ser que existe é um modo ou maneira de ser de Deus, que se
expressa de infinitas maneiras, sendo cada maneira um modo singular de Deus se
expressar.
Quanto mais se compreende Deus, mais
essa compreensão é acompanhada de um afeto: o amor. Mas não se trata do amor
cujo oposto é o ódio. Pois não tem contrário o
amor que nasce da compreensão do Absolutamente Infinito , pois não há
nada contrário ao Absolutamente Infinito.
O Absolutamente Infinito não pode ser
destruído, tampouco ser objeto de cobiças que ensejam disputas egoicas. Ninguém
fala pelo Absolutamente Infinito, a não
ser aqueles em cuja voz se podem ouvir infinitas vozes, incluindo a voz
do canto dos passarinhos e a voz daqueles que não têm voz.
Espinosa ensina que quem ama de
verdade esse amor não fica à espera de ser amado por Deus. Pois ficar à espera
de ser correspondido pelo amor que se ama é viver o amor que pode ser apagado
pelo ódio , no caso da não correspondência.
Como somos modos de Deus, é Deus mesmo
que se ama no amor que temos por ele. Quem vive à espera de ser amado por Deus,
na verdade não se ama, tampouco é capaz de amar empaticamente ao outro . É amando a Deus que amamos a nós
mesmos no amor que Deus tem de si através de nós.
Como Deus é cada coisa, amar a Deus é
amar cada coisa . Não no sentido piegas , mas no sentido de compreender que
cada coisa existe por uma necessidade. E é essa necessidade de existir o outro
nome do amor. Quem ama esse amor não ama
esperando ser amado em troca, pois ama por necessidade.
Uma necessidade que é idêntica à
liberdade. Assim compreendida, a liberdade
não é fazer aquilo que o ego quer, liberdade é agir conforme a
necessidade que se explica pelo Absolutamente Infinito , tal como ele se expressa
em cada acontecimento singular aqui e agora, inclusive no acontecimento de amar
o Absolutamente Infinito infinitamente.
O amor assim compreendido é um afeto
ativo que tem por causa a ideia objetiva de Deus, o Absolutamente Infinito, na
medida em que nos compreendemos como efeito dessa causa agindo não só
externamente , mas sobretudo intimamente a nós.
Os homens da imaginação dizem: “Deus te ama, desde que
você siga nossa religião”. Mas Espinosa ensina que é pela compreensão da
natureza que nasce em nós o amor por Deus e de Deus, enquanto Potência generosa
e transformadora, ao mesmo tempo ética, clínica e política.
sábado, 25 de março de 2023
os "nadifúndios" do poeta
Há dois sentidos para a palavra
“nada”. O primeiro deles vem do latim “nihil.” Essa palavra é a origem de “niilismo”,
um comportamento-sintoma que não deve ser confundido com o mero pessimismo ou
negativismo, pois o niilismo reativo pode
se esconder sob máscaras as mais diversas em comportamentos tidos aparentemente como “positivos” , “normalizados”.
Além de “nihil” significar “nada”,
nihil também significa “nulo”. No Direito, por exemplo , usa-se a expressão
“nihil” para designar atos que são juridicamente nulos.
Assim, o niilismo não é um culto ao
“Nada” ou ao “Nirvana”, o niilismo reativo é um comportamento cujo valor para a vida é nulo, sem autenticidade .
Por exemplo, os cultuadores do poder
teológico-político vivem evocando a ideia de “Verdade”, porém essa ideia de
“Verdade” na boca deles é nula , pois anula a própria ideia autêntica de verdade.
A “Verdade” deles não é uma mentira, é uma “nulidade”: enquanto a mentira se
explica no âmbito da linguagem, a nulidade-niilista é mais grave, uma vez que
ela expressa uma estreiteza existencial .
Muitos espertalhões usam a palavra
“Deus” como cabo eleitoral deles. Embora falem em Deus para combater o “ateísmo
comunista”, esse Deus deles, porém, anula a própria ideia do que se espera que
seja Deus: esses espertalhões anulam a ideia de Deus muito mais do que a
negação feita pelos ateus.
O anarquismo critica a necessidade de
partidos, mas não nega a política; já a extrema-direita fascista e os partidos do “centrão” são nulos de ideias políticas.
Uma coisa é criticar uma realidade, outra bem diferente é tornar nula uma
realidade pela inautenticidade com a qual se a
pratica.
Se retirarmos as máscaras atrás das
quais se esconde o niilista, veremos que sua “Verdade”, seu “Deus” e sua
“política” são apenas um coisa: o dinheiro ( alguns deles preferem “joias”...).
Mas há outro sentido para a palavra
“nada”, sentido esse originado do latim
“nata” ( raiz de “natal”: “lugar onde se nasce”). Esse sentido talvez explique
o motivo de Manoel de Barros afirmar que sua poesia vem de suas “natências” ou
“nadifúndios”, enquanto riqueza de vida que nos protege das pobrezas existenciais
niilistas.
O saber que apreende esses “nadifúndios”
chama-se : ignorãça. Ignorãça não é ignorar o nome das coisas, ignorãça é saber
de coisas que ainda não têm nome : “As coisas que ainda não têm nome são mais
ditas pelas crianças”, ensina o poeta.
Uma caneta de ouro na mão de um
niilista ,mesmo que ele tenha poder e dinheiro, escreve só pobreza. Já o
simples lápis do poeta retira do nada de suas natências a sua riqueza: “Na
ponta do meu lápis tem apenas nascimento.”
Manoel põe nascimento em seu lápis para que a gente,
ao lê-lo, de vida se enriqueça : “Perder o nada é um empobrecimento” , afirma o
poeta.
(obs: existe ainda o “niilismo ativo”
mencionado por Nietzsche, “só podemos destruir sendo criadores”, que nada tem a ver com o “niilismo reativo”
que abordamos aqui).
segunda-feira, 20 de março de 2023
o céu de Espinosa
Certa vez, eu estava explicando para
uma turma um poema de Fernando Pessoa. Era uma turma muito simpática e
atenciosa, que sempre pedia para eu tocar nesses temas poéticos-filosóficos ,
apesar de não caírem na prova...rs...
Quando terminei a narrativa, uma
aluna perguntou de repente : “Professor, qual seu signo?” Quando
respondi “touro”, ela ficou incrédula, e disse com humor : “professor, você não
pode ser touro, os professores de touro gostam de ensinar apenas coisas
utilitaristas sem poesia ...rs...”
Então, ela me pediu a data e hora do
meu nascimento, incluindo os minutos,
ela queria fazer meu “mapa astral”. Como eu sabia esses detalhes, passei a informação para ela. Na aula
seguinte, ela entrou sorridente na sala e disse: “Sabia que havia alguma coisa
diferente, você é assim por causa de seu
ascendente: Aquário!”
Em homenagem àquela turma simpática ( e a todos que , presencial ou virtualmente,
apoiam meu trabalho), elaborei um pequeno “horóscopo filosófico”, no qual o céu
sob o qual nascemos expressa a atmosfera que irradia de determinado filósofo .
Àquela época, eu morava perto de uma
pracinha. De minha janela via as mães com seus filhinhos nos carrinhos de bebê.
Deitados dentro dos carrinhos, os bebês ficavam o tempo todo olhando para o céu. Pensei comigo: “se tudo
nos influencia, ainda mais quando somos crianças, deve haver uma profunda
influência dessa primeira imagem do céu
na alma e personalidade dos bebês”.
Assim, os que nasceram no verão veem
um céu com um sol intenso. Os bebês que
trouxerem esse sol para dentro deles se
tornarão pensadores-artistas . Chamei esse céu de CÉU DE NIETZSCHE.
Os que nasceram no inverno, ao
contrário, veem um céu cinza, e assim terão que buscar criar um sol dentro de si . Os que nascem sob
esse céu tenderão a ser mais introspectivos, buscando mais a “luz interior” .
Chamei esse céu de CÉU DE SCHOPENHAUER.
Os que nasceram sob o céu da
primavera veem um sol que é como uma grande semente que faz tudo germinar. Os
que plantarem dentro de si esse
sol-semente tenderão a ter uma crença
inabalável na vida, acreditando que a vida pode de novo sempre brotar, apesar
do deserto. Chamei esse céu de CÉU DE EPICURO.
Enfim, os que nasceram no outono veem
um céu de um azul profundo porém transparente, onde o sol brilha vivamente mas
sem ofuscar, um sol como parte do infinito sempre aberto para voos emancipatórios:
“Eu tentei me horizontar às andorinhas”
(Manoel de Barros). Os que nasceram sob esse sol e céu , se aprenderem com esse
sol e céu a se horizontarem, crescerão filósofos. Chamei esse céu de CÉU DE
ESPINOSA.
Hoje começa o outono. Que a gente
consiga criar uma abertura na mente e
no coração para que possam entrar a luz e o azul desse “Céu de Espinosa”, e que a perseverança do
pensar libertário desse filósofo nos
inspire e fortaleça diante de toda forma de treva.
(Imagem: “Outono”/ Monet)
Obs: Nesse “horóscopo-brincativo” (
“brincatividade” é ideia criada pelo poeta Manoel de Barros) poderíamos colocar
outros filósofos ainda ao lado desses que mencionei para cada estação
poético-existencial. Lucrécio e Sêneca, por exemplo, também são outono; Sartre
é verão; Epicteto e Bergson, primavera; e Cioran, inverno.
quinta-feira, 16 de março de 2023
o ensino da filosofia
Como professor de filosofia,
gosto de trabalhar também com outras
áreas e públicos. Porém, não é raro eu ouvir o seguinte comentário de quem é de
uma área técnica: “Filosofia nada tem a ver com nossa área” , e assim insinuam que
seria perda de tempo ensinar filosofia
aos alunos das “faculdades técnicas” ( e
do ensino médio “profissionalizante” a serviço
do mercado).
Sêneca[1]
dizia que nenhuma prática humana é meramente técnica. Pois aquilo que as mãos
fazem tecnicamente depende da vontade
que as guia. E a vontade se liga ao
caráter ( “éthos”), que por sua vez está relacionado ao modo como nos inserimos
na realidade social.
Do ponto de vista técnico, um
revólver opera da mesma maneira na mão de um bandido ou na mão daquele que deve
zelar pelas regras da justiça. Um revólver não sabe a diferença entre bom
e mau,
justo e injusto. Supor que uma
prática humana é meramente técnica , é imaginar que ela possa ser feita
independentemente de valores sociais e éticos.
A gramática é uma técnica a serviço
da escrita enquanto expressão humana. Mas não é a gramática que tem o que
dizer, quem tem o que dizer é quem se serve da gramática para escrever.
Supor que as faculdades “técnicas” e
o ensino médio não precisam da filosofia ( bem como da sociologia e das artes) , significa dizer que
tais ensinos técnicos têm a pretensão de
serem “neutros”, ou seja, indiferentes à
realidade humana , social e planetária.
Desde a época de Sócrates, retirar
dos jovens o contato com a filosofia sempre foi o projeto de tiranos . Não por
acaso, excluir a filosofia e a sociologia do ensino médio, impondo
à força o ensino técnico-militar, é o projeto acefalizante dos tiranos de hoje.
O educador Paulo Freire fazia uma
distinção entre a autêntica educação e o
mero “ensino bancário”.
A educação autêntica alfabetiza não
apenas na leitura de textos e livros, ela visa alfabetizar , antes de tudo, na
leitura crítica e criativa do mundo. Já na educação bancária a informação é “depositada” pelo “tutor” no aluno como se
este fosse uma conta que precisa dar lucro. É um modelo quantitativista,
tecnocrata e mercadológico do conhecimento, no qual o aluno é tratado como
coisa e número, não como agente pensante .
Nietzsche dizia que por trás do “que”
há sempre um “quem” ( por mais que esse “quem” tente se dissimular usando como biombo a “neutralidade
técnica”). Assim, a quem interessa a
retirada da filosofia, da sociologia e das artes na formação dos alunos?
Os computadores e a tecnologia nos
mostram que a inteligência pode ser artificial ( como no Chat GPT), porém
somente a filosofia pode nos ensinar que pensar é uma potência natural que
precisa ser descoberta e desenvolvida, uma potência ao mesmo tempo ética ,
política e existencial.
Inteligência e pensamento não são a
mesma coisa, assim como não são o mesmo ensino e educação.
[1]
Sêneca, Cartas a Lucílio, “Carta 95”.
http://www.filosofianaescola.com.br/2012/01/existencialismo-trecho-do-filme-waking.html
quarta-feira, 15 de março de 2023
Hesíodo e as cinco raças
HESÍODO E AS CINCO RAÇAS[1]
A
eternidade está longe:
brinca
de tempo-será.
Manoel
Bandeira
Os
mortos e os vivos são pó.
A
diferença entre eles?
Os
vivos são pó que o vento levanta.
Vaidade
é o nome desse vento.
Padre
Antônio Vieira
Segundo Hesíodo, há cinco
tipos ou raças de homem. Cada tipo recebe como símbolo um determinado metal. O
que vale , portanto, é o aspecto simbólico, não a referência material literal,
empírica. Assim, há homens de ouro, de prata, de bronze, de ferro e de barro.
Quando Hesíodo escreveu,
há mais de 2. 700 anos, os homens de ouro e prata eram apenas lembrança - uma lembrança poética, ética e mítica. No
tempo em que viveu o poeta o homem de bronze já anunciava o seu ocaso, pois no
horizonte próximo já vinha o homem de ferro, com seu pesado fardo a carregar. O
homem de barro era anunciado pelo poeta para um futuro incerto.
O homem de ouro era
aquele que vivia na companhia do divino. Não havia entre o plano humano e o
divino um abismo: o homem aprendia a sabedoria sem precisar de livros. Sábio,
mas não erudito, o homem crescia no corpo e no espírito: a passagem do tempo
não era envelhecimento, e sim ampliação
de sua capacidade de estar à altura da companhia do divino.
Não havia escultura,
pintura ou outra arte, pois o artístico
era a própria vida, que era feita mais de cores do que de formas. Os deuses
ainda não tinham templo, uma vez que a
casa deles era a mesma dos homens de ouro: ambos habitavam a terra como chão e
o céu como teto, sem paredes.
Porém, alguns desses
homens não souberam honrar a companhia do divino: passaram a se achar seus
representantes e falar por eles, com a intenção de obterem poder sobre os
outros homens. Então os deuses se afastaram, e tais homens, sozinhos,
desapareceram.
Os deuses criaram então
os homens de prata. Estes viviam 100 anos como crianças apenas. Viviam
brincando nos jardins onde nada faltava. E, cansados de tanto brincar,
adormeciam e entravam em um sono sem sonhos, pois sonhos apenas existem para
aqueles cuja realidade é frustrante, cabendo então ao sonho realizar o que o
desejo desperto não obtém. Mas como os homens de prata de nada careciam, pois
de nada sentiam falta, do sonhar dormindo não precisavam. Eles vivam na
inocência de uma vida sem culpa. Após completarem 100 anos, os deuses deixavam
enfim que os homens crescessem, para rapidamente envelhecer e morrer, sem dor,
dormindo. Porém, nem todos se contentavam apenas com o lúdico, não poucos se
tornavam tolos, caprichosos, egoístas, “infantis”: choravam pela presença dos
deuses, exigindo que estes lhes fizessem favores e concedessem privilégios.
Assim, o ciúme crescia entre os homens-infantis. Os deuses novamente se afastaram, e tais homens
pereceram.
Uma nova raça de
homens foi criada pelos deuses: os homens
de bronze. Estes eram corajosos e destemidos, porém belicosos e querelantes.
Ambicionavam o domínio, a posse , o poder. Mas como eram independentes e
honravam os deuses, estes deixaram que crescessem em número e habilidades. Uma dessas
habilidades se destacou: o engenho para criar armas. O homem de bronze se
tornou o homem da guerra, da busca pela glória. Porém, tornou-se também o
campeão da violência contra o outro
homem, fazendo os vencidos de escravos. Logo a pretensão também se tornou marca
desses homens, de tal modo que quiseram guerrear com o próprio invisível onde
morava o divino, revelando assim que o
poder os enlouquecera. Os deuses, sem piedade, exterminaram tais homens de
bronze.
Foram criados então os
homens de ferro. Estes nasceram sob a carga da necessidade: nus, precisavam
cobrir o corpo; famintos, necessitavam achar alimentos; fracos , sentiram que
precisavam se unir . Para tal, inventaram o Estado, as leis, as obrigações e o
trabalho. Viviam mais ocupados com a terra do que com o céu. E todos os seus
engenhos e conhecimentos estavam voltados para inventarem meios que amenizassem
a penosa existência. Entre alguns deles , porém, não lhes satisfazia essa vida
rasteira, rasa. Nesses insubmissos ao poder do mero útil nasceu uma fuga, uma "linha de
fuga", que tomou a forma de uma metamórfica iluminação: eles adquiriram então olhos e ouvidos para
verem e ouvirem a dança e o canto das Musas Divinas. Conferindo um novo uso às
mãos , não apenas para o trabalho mas
para a criação, esculpiram o que viram nas pedras, criando esculturas que davam
a ver o invisível ; dando às palavras nova função, diziam por elas o que lhes
cantavam as Musas, inventando assim a poesia. No meio da indigência nasceu o
artista, o poeta, para com a arte "celestar as coisas do chão", conforme
ensina Manoel de Barros. Hesíodo foi um desses celestadores.
Havia ainda uma quinta raça por vir , dizia o poeta. Nela não haverá mais a menor lembrança do divino, apenas imaginações parcas. Essa raça nascerá sob a marca do precário, do fugidio, do inconstante, do vazio, do "líquido" ( não enquanto fluxo poético heraclítico, mas semelhante à fluidez inconstante do Capital...) . O homem nascido nessa época será o homem de barro. Não o barro que pode ser modelado e se tornar receptáculo para o belo ou para o útil, como os vasos , ânforas e jarras; tampouco se trata do barro como meio de expressão do popular estilo, como nas pequenas estátuas modeladas pelas mãos do artista nordestino; nem são os barros que Manoel traz como sobrenome, barros do Pantanal onde a vida se modela vária e múltipla.
Na
mitologia, Prometeu fez o homem a partir do barro; porém a habilidade manual, a
inteligência e sobretudo o coração, como sede do afeto da justiça, vieram dar
vida ao peso morto. Mas o barro desse homem de barro de que fala Hesíodo é
apenas o barro mesmo, barro que apenas o
vento, e não as virtudes e as ideias, põe de pé.
Das épocas de ouro e
prata esse homem de barro desejará
apenas o metal, a parte material, ignorando o simbolismo. Tal homem de barro
nutrirá a mesma sanha belicosa dos
homens de bronze, porém desconhecendo as virtudes guerreiras destes, sobretudo
a honra. Dos homens de ferro os homens de barro herdarão as carências e
necessidades, mas não a profundidade visionária de seus artistas. A principal
marca do homem de barro, diz Hesíodo, será sua total insensibilidade a tudo
aquilo que não seja seu próprio ego.
Eles talvez sejam os
últimos dos homens, pensava Hesíodo. Porém não serão os deuses a destruí-los,
pois os deuses tais homens terão destruídos antes, de tal sorte que os templos que
construirão serão, na verdade, túmulos. E
construirão muitos...E quanto mais vazio de deuses for tal túmulo, mais estátuas
de ouro o preencherão como objeto de culto.
Não serão os deuses que destruirão tais
homens, serão eles mesmos a arma de tal
destruição, do barro ficando apenas o pó que o vento leva...
[1] Texto-aula elaborado pelo prof. Elton.
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