Já não temos mais palavras para
nomear esse (des)governo... Às vezes, as palavras mostram seus limites não para que nós nos
calemos, mas para que aprendamos a falar
mediante ações concretas. Como ensina o filósofo Cícero, quando a eloquência das palavras nada podem , é preciso dizer mediante a
eloquência das ações , diretamente no mundo.
Há forças dominantes e dominadas. A
diferença entre dominante e dominada se estabelece em razão da quantidade de
força. As dominantes têm mais força, as dominadas o têm menos. Força em relação a quê? Força como
capacidade de dominar outra força, fazendo-se “vencedora”.
Assim, o estado natural das forças é estarem
em luta.Esse modelo
quantitativistavale para tudo o que é
força, incluindoas forças políticas e
até mesmo as forças psíquicas, pois certas ideias dominam nossa mente pela
força que têm em vencer outras ideias. Mas uma ideia que vence pela força ,
como “ideia fixa”, não significa exatamente que ela nos torna pensadores...
Dessa diferença quantitativa entre as
forças surge uma distinção qualitativa: as forças dominantes serão chamadas de
“ativas”, ao passo que as dominadas serão as “reativas”. Mas asreativas-dominadaspodem enfraqueceras ativas-dominantes , contaminando-as com
reatividade : é o que pode acontecer quando a força ativa busca apenas se
manter no poder, submetendo-se a “alianças”
com as forças reativas. A busca pelo poder alterna, às vezes com tons de
comédia noutras de tragédia, dominantes e dominados.
Seriaisto então ser “poderoso”: ser dominante a todo custo, não importando
por quais meios?
Apotência nãoé a mera força. Para
que a força se metamorfoseie em potência é preciso que nela nasça um
querer,um “minadouro do criar”, como
diz Manoel de Barros.
A potêncianão équantidade ou qualidade: ela é intensidade, e aprende a doar força aos
que não a tem,sem pedir
força-obediência em troca, pois força não lhe falta, transborda.
Esse querer que metamorfoseia o mero
poder em potênciaprecisa ser , no
entanto, conquistado: ao modo como um pintor conquista as tintas, ou um músico
os sons, ou o albatroz o ar sobre o qual aprende a voar.
Não raro, é ao preço de derrotas que
se conquista essa força-potência : "A força de um artista vem das suas
derrotas", ensina Manoel de Barros.
Na rica fala do povo do pantanal, “agroval”
significa: “lugar onde se cultiva a
vida”. “Agroval” também é o nome que Manoel de Barros escolheu para um de seus mais belos poemas.
O poema narra o que faz uma
imensa arraia quando as águas do
pantanal secam e põem a vida em perigo: a arraia abre suas grandes asas e pousa no barro, retendo parte da água
abaixo de si.
Com arte e cuidado, a arraia recria
um pequeno pantanal entre seu abdômen e
o chão úmido , para que nesse espaço
protegido o coração do pantanal possa habitar e perseverar , vivo. Generosa, a arraia deixa tudo o
que corre perigo vir morar sob suas asas, fazendo delas abrigo.
Migram para debaixo das asas da arraia não apenas
bichos, instalam-se também sementes de futuras flores e frutos, de tal modo que
nesse pantanal em rascunho tudo o que
vive devém embrião da arraia-útero.
Sob a proteção de tal Gaia-Pachamama, a vida
continua, resiste, fortalece-se; acontecem agenciamentos, contágios,
enamoramentos da vida por ela mesma, una e múltipla. Até mesmo uma festa se
esboça, feito uma Kizomba a celebrar a
vida salva pela Vida.
Pois quando as águas do pantanal vão secando , aumenta a lama e vai sumindo o
oxigênio. Os predadores sorrateiros e oportunistas lucram com a desolação e ficam
à espreita para predar a vida que sufoca .
Mas a arraia é resistente: quando o
oxigênio falta às águas, a arraia aprende a sorvê-lo do ar para partilhá-lo como “Pneuma” . Na Grécia antiga,
“Pneuma” é um dos nomes da alma, assim como “Psiquê”.
Pneuma é o sopro que dá vida ao corpo e forma com ele um único e
singular ser. Em latim, “Pneuma” é
traduzido por “Spiritus” : “sopro que dá vida”.
Apesar dos perigos em torno, nunca a
arraia se entrega ou desabraça a quem
prometeu proteger. Quando as águas novamente
caem do céu e a vida pode
recomeçar, a arraia levanta as asas e
parteja os seres que salvou do
perigo, como uma utopia que enfim sai das teorias e livros
para ser criada na prática.
Não seria tal ação da arraia o modo
como a própria natureza nos ensina o que
é a virtude ético-política que Espinosa
chamava de “fortaleza”? Não seria tal comunidade de resistência pela vida a expressão na natureza daquilo que
nossos ancestrais ,em luta contra a
tirania, nomearam Quilombo?
“Poesia pode ser que seja fazer outro
mundo.”(Manoel de Barros)
“Se roubam a liberdade de um poeta,
ele escapa por metáforas.”(Manoel de Barros)
“Toda multiplicidade é composta não
por coisas prontas, mas por realidades intensivas, pré-individuais, como o
embrião de uma realidade nova.” (Deleuze)
( o poema “Agroval” , que aqui
interpreto, faz parte do “Livro de pré-coisas”, cuja capa é de Martha Barros, filha do poeta)
O governo fascista contabiliza os dias
desde que ele começou ; nós, ao contrário, contamos quantos dias faltam para
ele acabar.
Em sua conta, ele chegou aos mil dias.
Nós contamos diferente: contamos quantos dias faltam para ele terminar.
Se nada fizermos, ainda faltam longos
e duros 459 dias para esse governo fascista acabar. Mas o que legitima nossa
luta para tentar abreviar o máximo possível esse governo é a certeza de que ele nem deveria ter
começado, não fossem o golpe , as fake news e as negociatas da Casa-grande togada
associada à mídia comercial e ao mercado.
Cada dia a mais do fascismo nãoo põe mais perto do futuro, e sim aumenta de
quantos dias será feito seu passado. Cada dia a mais dele aumenta o tamanho de
um obscuro passado que muito nos doerá lembrar no futuro.
Pois os mil dias propalados, na
verdade são décadas que regredimos em atraso.
Com a chegada da primavera, muito se
fala, com razão, das flores. Rosas, girassóis, crisântemos, margaridas...Essas
e outras flores já foram homenageadas em poemas , músicas e pinturas.
Mas pouco se fala das flores que o
cacto também sabe produzir. Considero essa omissão uma injustiça com esse artista da resistência.
Na dele, sem chamar a atenção ou fazer propaganda de si, o cacto é capaz de
atos que trazem a beleza da generosidade.
Assim age esse perseverante
resistente: o cacto é a planta que possui a maior raiz. Em alguns cactos,a extensão de sua raiz chega a nove ou dez
vezes o tamanho do corpo do cacto que vemos à superfície do chão!
Quem mede o cacto apenas pela sua
parte visível, e pensa que a parte que vê é todo o ser do cacto, por certo
ignora o que o cacto é capaz de fazer. O cacto cria imensas raízes para sondar
o subsolo , não se deixando vencer pela aridez que o cerca. As raízes do cacto
tateiam procurando veios d’água metros abaixo da paisagem seca. Ele persevera
procurando no coração da Mãe Terra a água que o Céu lhe nega.
Quando encontra a água, o cacto
anuncia sua descoberta brotando flores: em pleno árido , ele inaugura uma
primavera. Então, ele sorve o líquido e se intumesce , de água fresca ficando
grávido. Basta um pequeno furo para a água jorrar matando a sede dos
necessitados.
Foram os cactos do sertão nordestino
que, no passado, não deixaram morrer de sede a rebeldia de Lampião e seu
cangaço ; e a flor que Maria Bonita punha no cabelo também floresceu de um
cacto : o mandacaru, símbolo da força do povo nordestino.
O cacto mandacaru expressa a
resistência da vida, uma resistência que também se faz com poesia e beleza,
apesar da aridez que a cerca. O mandacaru matou a sede de Lampião e deixou a
Maria ainda mais Bonita.
Nessa época do ano, lá no sertão
nordestino , os mandacarus anunciam que já vão começar a florir.
“Quando não pode ser cristal, a
poesia vale pelo que tem de cacto.”(João Cabral de Melo Neto)
Diariamente, vemos o genocida fazer
discursos ameaçadores e delirantes diante daquele “cercadinho” em Brasília , no
qual estão arrebanhados seus adeptos.
Esse cercadinho é a imagem externa de um outro “cercadinho”: o da limitação de ideias.
Às vezes, uma única imagem revela toda
uma mentalidade. Esse “cercadinho” é a imagem visível de uma limitação externa
que revela uma estreiteza interna.
Não sei se vocês já repararam, esse cercadinho está ficando cada vez mais apertado . Como vem diminuindo o
número de adeptos, e para não mostrar o vazio no centro desse cercadinho, o
fascista manda diminuir o diâmetro do cercadinho, para assim dar a ilusão de
que ele está cheio. Ou seja, para dar a ilusão de coesão , estreita-se ainda
mais o cercadinho.
Quanto menos gente tem, mais o
cercadinho fica apertado. Se continuar assim, no último dos adeptos veremos a
verdade do que esse cercadinho realmente é, pois esse cercadinho estará colado no último alienado como uma camisa de força.
Não por acaso, o termo “fascismo” vem
de uma palavra italiana que significa exatamente “feixe”. A imagem do fascismo
é esta: um feixe de hastes de madeira amarrados rigidamente , formando assim um
todo homogêneo sem lugar para a diferença.
As cordas que amarram o feixe é a
Ordem fascista, Ordem rígida como cordas de aço, instrumentos de tortura física
e simbólica. O feixe está amarrado junto ao cabo de um machado, símbolo da violência
destrutiva
que derrubou as árvores heterogêneas da
floresta e as transformou em hastes homogeneizadas pelo cercadinho da Ordem.
Essa situação me lembrou o que
aconteceu com Robinson Crusoé. Quando Robinson Crusoé se viu sozinho na ilha,
ele passou a ter uma dificuldade estranha : a dificuldade em ficar de pé. O espaço aberto
e horizontado parecia dificultar ao Robinson ficar ereto.
Até que Robinson compreendeu que, ali
na ilha, era a primeira vez que ele de fato estava apoiado nas próprias pernas. Ele se deu conta que vivera apenas ancorado nos outros que também estavam ancorados nele, como
gados apertados em cerca estreita. Os
gados às vezes são conservados num imobilismo extremo para atrofiarem
as pernas e aumentarem o peso visando o abate.
Na ilha, Robinson aprendeu, enfim, a
ficar de pé e a caminhar sobre as próprias pernas. Mas ele somente aprendeu a dançar quando encontrou na ilha o Sexta-Feira, o indígena livre que veio da
incercável floresta.
(este excelente livro é apenas uma sugestão de
leitura)
Tempos atrás fui convidado para dar
um curso de Direitos Humanos para as forças policiais da Bahia. Àquela época,
essas forças policiais eram consideradas
as mais violentas do Brasil. Os policiais não estavam no curso porque queriam,
e sim em razão de receberem benefícios ( frequentar o curso aumentava o soldo
deles) .
Quando entrei na sala no primeiro dia
de aula, reparei que a maioria estavaarmada , pois muitos vinham de operações policiais ou estavam indo para
uma. Antes mesmo de eu me apresentar, uma agente de segurança me fuzilou com
uma pergunta : “O senhor já subiu uma favela?”
Respondi indo ao quadro para
escreverumafrase de Nietzsche, que usei como escudo para
me proteger daquelefuzilamento feito
com palavras preconceituosas.
Foi esta a frase de Nietzscheque escrevi no quadro:“Quando queremos lutar contra as
monstruosidades que existem no mundo, devemos tomar o máximo cuidado para que
nós mesmos não nos tornemos monstros.”
Depois respondi que não só já subi o
morro de uma favela , como também já morei no altode uma: morei no Morro dos Macacos, em Vila
Isabel, terra da Escola de Samba Vila Isabel, berço de poetas. Morei lá quando
era estudante de filosofia na Uerj, que fica ali perto. Também disse que várias
vezes li Nietzsche e Espinosa no interior de um trem da Central do Brasil, e
várias vezes também subi o morro com Nietzsche e Espinosa na mão, pois são
essas as armas nas quais acredito , e é com elas que luto.
E terminei dizendo que esses filósofos agora me
acompanham na sala de aula, na minha fala de professor. E que eu acreditava que
potencializou ainda mais suas filosofias o fato de Espinosa
e Nietzsche terem andado de trem e subido o morro .
A monstruosidade de que fala Nietzsche não é
apenas a violência física , a monstruosidade também é a brutal e desumanainjustiça social que produz a opulência
gananciosa de riqueza para poucos, ao mesmo tempocondenando milhões à miséria. A
monstruosidade também é a falta de creche e escola para as crianças da favela,
roubando-lhes o futuro; monstruosidade também é a milícia que veste uniformes
da polícia. Monstruosidade maior é um presidente miliciano-genocida.
Quando o curso terminou, senti que
muitos me apoiaram , isto é, se
desarmaram. Um deles, inclusive, me mostrou um quadro de aviso que ele havia
feito com um pedaço de lousa de mais ou menos um metro quadrado . Ele me
disse que ia afixar o quadro no mural de avisos da delegacia dele. No quadro
feito por ele estava escrito: “Quando queremos lutar contra as monstruosidades
que existem no mundo, devemos tomar o máximo cuidado para que nós mesmos não
nos tornemos monstros.”
"O contato com a realidade dada faz a vida dormir;
somente a arte desperta a vida e a mantém acordada," (Nietzsche)
Segundo a mitologia, Hades é a divindade
que habita a região escura muito abaixo
da superfície da terra. Nesse lugar nenhuma luz entra.
Certa vez, porém, Hades ouviu risos
vindo da superfície. Ele subiu e viu Perséfone... Ela estava com sua mãe , a deusa
Ceres. De “ceres” vem “cereal”, pois Ceres é a divindade do plantio e colheita
dos cereais.
Ceres , por sua vez, é filha de Cibele, a divindade da fertilidade. Cibele é o Feminino Ancestral
( os povos originários da América a chamam de Pachamama).
E foi em sua neta Perséfone que a fertilidade
de Cibele se tornou uma força criativa semelhante àquela que vemos no artista,
pois Perséfone é a divindade cuja arte é
fazer nascer flores: múltiplas e heterogêneas, flores de todas as cores.
Perséfone mata outra fome diferente
daquela que Ceres mata: Perséfone mata a fome de arte, de poesia e de criatividade.
Hades se apaixonou pelas flores e
quis levá-las para enfeitar sua noite eterna. Foi uma imensa surpresa,ninguém imaginava que pudesse nascer no taciturnoHades um desejo por cores.
Num ato condenável, Hades raptou
então Perséfone para fazê-la morar lá embaixo . Porém, naquele mundo carente de
luz , de Perséfone nasciam rosas só com espinhos , sem as pétalas, flores da
dor que elas eram.
Enquanto isso, sentindo a falta de
Perséfone, Ceres ficou deserta : o grão não mais germinava nela. Havia agora
fome de pão e de beleza, de pão e de poesia, e ninguém sabia qual das duas
fomes doía mais: a primeira esvaziava o estômago, a segunda ao coração secava .
A pedido de Ceres, Zeus interveio e
foi feito então um acordo. Durante parte do ano Perséfone viveria lá embaixo
com Hades : sua ausência entre nós recebeu o nome de inverno.
Até que vem o ansiado tempo em que
Perséfone sobe de voltae enche de vida a
terra :tudo recomeça , renovado.
Hoje, a treva não está somente lá
embaixo,treva piornos ameaça aqui em cima.Apesar disso, nada detémPerséfone: hoje, 22 de setembro, começa
aprimavera, tempo em que Perséfone
chega para florir de vidaa terra.
“O céu da teoria é cinza;
mas sempre verdejante é a árvore da
vida.” (Goethe)
Amanhã
será o centenário do pensador da
educação Paulo Freire. Alguns se referem ao “método Paulo Freire” como se fosse
uma técnica. Mas as expressões “técnica”
e “método” não se aplicam adequadamente à práxis pedagógica de Paulo Freire.
Pois “técnica” e “método” são meios para aplicação de fórmulas , ao passo que a
prática de Paulo Freire é uma poética da autonomia , isto é, um processo de singularização que nunca pode ser reduzido a
uma fórmula ou padrão , pois fórmulas e padrões sãoinstrumentos de um poder que desautonomiza.
A poética educacional de Paulo Freire dialoga também com
Espinosa. Ambos convergem no seguinte ponto: o educador que deseja ensinar deve, antes de
tudo, compreender que o aprender vem antes do ensinar.
Assim, o autêntico educador deve conhecer seus educandos
não como objeto, e sim como agentes que dão sentido ao mundo em que vivem. O
educador deve buscar conhecer a comunidade onde vivem seus educandos, e daí
extrair as palavras que , em potência, trazem aquela comunidade e a expressam.
Essas palavras são chamadas por Paulo Freire de
"palavras geradoras". Essas palavras não valem apenas pelo aspecto
formal-linguístico, pois elas são potências geradoras de sentidos nascidos das
práticas concretas.
As palavras geradoras geram outras palavras que,
virtualmente, vivem dentro delas. Não são palavras de dicionário ou livro, são
palavras que o próprio educando fala, com as quais dá sentido ao seu mundo.
A poética freireana auxilia o educando a partejar as
outras palavras que vivem na imanência da palavra geradora. Com isso, é a
própria mente do educando que também aprende com a palavra que sua fala já
dizia, palavra essa que , desdobrada, também revela a riqueza de seu mundo. Não
riqueza medida em dinheiro, mas riqueza que se expressa no conhecimento que autonomiza.
As palavras geradoras, palavras-potências, desenvolvem e
explicam o sentido que nelas está implicado. E esse sentido não é apenas o de
uma palavra, mas do mundo no qual se produz ummodo de vida. No caso da alfabetização de adultos, as palavras geradoras
atestam que, mesmo sem saber ler as palavras, aqueles que as produziram já
sabiam ler o mundo.
“Geradora”, “generosidade” e “gente” são palavras com a
mesma raiz semântica. Por isso, palavra geradora é palavra generosa que nos
potencializa como gente, tanto ao que ensina quanto ao que aprende.
O contrário da educação potencializadora é o
“ensino bancário”, no qual o conhecimento é “depositado” pelo professor no
aluno como se este fosse uma conta que precisa dar lucro. É um modelo
quantitativista, tecnocrata e mercadológico do conhecimento, no qual o aluno é tratado
como coisa, não como gente . O ensino bancário reproduz a lógica do dinheiro e seu poder concentrador e
excludente.
As palavra geradoras não pertencem a cartilhas, elas
pertencem às falas populares que o poder dominante cala ou não deixa que sejam ouvidas.
"A justiça social tem
que vir antes da caridade.” (Paulo Freire)
“Aprendo com o povo
sintaxes tortas.” ( Manoel de Barros)
Há um poema de Manoel de Barros no
qual o poeta descreve o que aconteceu num monturo que ele encontrou no meio de um caminho ermo.
Monturo não é exatamente um monte de
lixo. Num monturo estão coisas que já
deram sentido a uma vida, coisas que erampartes de um todo,mas que agora
são apenas fragmentos que a natureza recolheu sem julgamento ou desprezo.
No monturo podiam servistos: os cacos do que sobrou de uma taça que outrora
já esteve repleta de vinho ; os restos
de um diário cujos dias anotados há muito viraram passado ; a metade de uma concha que talvez já tenha
guardado uma pérola dentro; as penas que já voaram no céu aberto como partes de uma asa; a casca
seca de uma cigarra que já encheu de cantos a floresta; a mortalha de folhas amarelas que vicejaram verdes na
primavera; os ponteiros parados de um
relógio que já marcaram horas apressadas ; um pé de chinelo solitário e roído pelos anos em seu solado gasto ; um álbum de retrato cujas
fotos o esquecimento apagou.
Junto a esses restos também estavam: cacos de certezas que pareciam
inquebrantáveis ; farrapos de verdades que pareciam eternas...
Mas debaixo do monturo aconteceu uma
surpresa, um “milagre poético”: sob os cacos e pedaços, uma semente ainda
estava inteira . E depois de a chuva regar o monturo e o sol o aquecer, o tempo
sarou o monturo e deu à semente forças para germinar.
Da semente brotou um caule em rascunho . O caule se enroscou e subiu por um pequeno raio de
sol que furou a noite do monturo. E do túmulo que o monturo era, a semente fez
dele um útero do qual nasceu uma flor: um lírio.
“Poeta é ser que vê semente germinar.
Nas fendas do insignificante ele
procura grãos de sol.”(Manoel de Barros)
"Não é por fazimentos cerebrais
que se chega ao milagre estético.”(Manoel de Barros)
- Trecho do filme "Língua de brincar", de Gabraz Sanna: