segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

o samurai espinosista



Ele era um “ronin”. Literalmente, um “homem-onda”. “Ronin” era o nome que recebia o samurai sem mestre. Um ronin era como uma onda, uma “vaga”: eles se tornaram então andarilhos, deambuladores, itinerantes, nômades. Pareciam mendigos e vagabundos, e apenas isso de fato seriam, se os homens se definissem apenas pelas aparências e roupas.
Em determinado momento da história do Japão, os samurais se desterritorializaram, pois somente assim poderiam continuar a serem samurais, homens livres, uma vez que os territórios passaram ao poder  (potestas) dos senhores feudais. Antes, cada samurai possuía um mestre, cujo poder advinha da sua destreza e maestria, além da sabedoria. Era subordinando-se a um mestre que um samurai aprendia a como ser um samurai, “mestre de si”. Essa subordinação nada tinha a ver com servilismo, pois a condição de servo é incompatível com a natureza do samurai.
Só se aprende a ser samurai com outro samurai que já o seja mais. Impossível se tornar samurai sem ter tido um mestre. Pois ser um samurai é sempre um aprendizado de como sê-lo. Saber usar a espada é somente parte do aprendizado. Primeiro, é preciso saber usar a mente. O maior dos mestres samurais também teve mestre. O samurai que aprende confia em seu mestre , pois nenhum samurai tem dois mestres. Além disso, todo samurai sabe que não houve um primeiro samurai que aprendeu a ser samurai do nada. Nunca houve um primeiro samurai que tenha sido o “mestre dos mestres”. O que sempre existiu, para um samurai,  é a necessidade de aprender a ser um samurai. O melhor samurai não é o que sabe mais, porém o que melhor aprendeu. Assim, o ronin não tinha mais mestre porque ele mesmo já não poderia ser o mestre de novos samurais.Pois esse é o sentido de se ter um mestre: é preciso um  para se tornar mestre , mestre de si. O samurai é aquele que sabe achar um mestre, mais do que querer se impor como um.
Há diferença de potência entre os samurais, assim como há diferença de graus entre os tons de azul. Cada tom de azul é uma perspectiva diferente acerca do mesmo azul, e inexiste um azul puro existindo à parte  dos graus do azul. Mas existem graus onde o azul está mais forte: nestes  o azul existe mais.Uma perspectiva diverge da outra no seio de algo que lhes é comum, assim como os graus divergem entre si em razão da cor azul comum. Todavia  um samurai e um servo não possuem nada em comum, e é por isso que um servo não tem perspectiva, ele é destituído da potência de divergir: ele apenas concorda, aceita, submete-se ao incolor poder.O que caracteriza um servo, tanto no Japão medieval  quanto nas épocas informatizadas que correm, é a carência de uma vida que desconhece  a presença de um mestre.
Um mestre samurai nada tem a ver com um senhor feudal.Este quer o monopólio de sua vontade como imperativo para todos que ele pretende dominar, ao passo que o mestre samurai, com seu exemplo, ensina cada discípulo a se fortalecer como samurai, isto é, como homem livre.
 Os senhores feudais ganharam poder com a introdução, no Japão, da arma de fogo . Já os samurais consideravam que a arma de fogo não era digna dos homens  corajosos e nobres: apenas os medrosos se enfrentam de longe, à distância, e , covardemente, não dispensam oportunidades para atirar  pelas  costas. Além disso, para o samurai a boa espada é aquela que menos precisa ser desembainhada, pois antes dela deve prevalecer  a força da palavra e do caráter. Mas caso ela precise ser desembainhada, nunca o será para servir à covardia, ao mero poder pelo poder  e à vilania. E muito menos será usada para atingir pelas costas.
O filme Depois da chuva narra a história de um ronin, um samurai-andarilho que não se vende aos senhores feudais.Os senhores feudais e os samurais já não pertencem ao mesmo mundo. Os senhores feudais tentam comprar  os samurais, oferecendo-lhes chefia de exércitos, querendo fazer deles generais e ostentadores de medalhas e títulos. Contudo, um general somente existe em razão de uma hierarquia de poderes, estando ele acima, e os comandados abaixo.Entre os samurais, porém, não existe acima, a não ser como lugar onde vive a honra, e não existe abaixo, senão como baixeza servil dos que adulam, se ajoelham, baixam a cabeça, dissimulam e se vendem.

Recusando-se a usar sua sabedoria e potência  a serviço  dos que desconhecem o que é nobreza e honra , os samurais se tornam nômades-andarilhos, seguem sem destino pelos caminhos, fiéis ao que são e aprenderam , não cedendo aos que põem em tudo um preço. Se sabem os últimos homens livres, tendo sido os primeiros.







sábado, 16 de janeiro de 2016

ariadne-dioniso

                                                                    

 O não-filosófico está talvez mais no coração da filosofia que a própria filosofia,
 e significa que a filosofia não pode contentar-se
em ser compreendida somente de maneira filosófica ou conceitual.
Mais importante do que o pensamento é o que “dá a pensar”;
mais importante do que o filósofo é o poeta.
Gilles Deleuze
  
Segundo Deleuze, a filosofia não é uma prática estritamente conceitual. A filosofia entra em uma relação direta, sem mediadores, com algo que a antecede. Não se trata de acúmulo de experiência ou leitura isso que a antecede. Esse “antes” que antecede a filosofia   não é outra disciplina. Esse antes é um “pré”, um pré-filosófico. Este pré-filosófico não é o conceito, tampouco o bom senso ou o senso comum. A aurora precede o dia que a sucede.Contudo, esse “pré” com o qual a filosofia entra em relação não é como um antes que ela, vindo depois, põe-se no lugar, assim como dia toma o lugar da aurora. Esse pré é sempre pré: ele não é o conceito ainda se fazendo, tal como o pré-adolescente já é o adolescente se formando. Esse “pré-filosófico” é uma aurora que nunca deixa de ser aurora, ou como uma criança apenas criança, e não  um adulto incompleto.
 O pré-filosófico não é conceitual, jamais o será.Se a filosofia é o mundo do pensamento, o pré-filosófico é a terra do pensar, um pensar que também se sente, um sentir que se pensa.Esse pré não é um objeto que o conceito representa.Ele é uma terra que o pensamento conquista.Conquista a quem?A filosofia não recebe, de presente, essa terra; tampouco é uma terra prometida. O nômade que habita o deserto conquista o deserto.Mas o deserto não tem dono, ninguém pode marcar nele linhas retas em seu solo, pois o vento vem e apaga. Conquistar não é fazer do conquistado uma propriedade, restando-lhe fora, especulando ou a deixando deserta de vida. Conquistar é povoar, habitar,encher de vida, mas sem recortar, sem construir muros. É com itinerâncias, é com trajetos e viagens, é se movendo sobre o deserto que o Nômade conquista um. O deserto não é nômade, mas ele torna nômade quem o conquista, povoando-o.
A terra que a filosofia conquista é um deserto sobre o qual ela traça mundos, trajetos, habitares, modos de ser, sem que exista, antes, um modelo a imitar de como ser.Pois antes dessa conquista, antes da terra pré-filosófica, não existe algo pronto, feito, acabado, que se possa herdar, reproduzir ou imitar.O que existe é o caos. Este não é um limite à conquista, mas aquilo sem o qual não há conquista . É a terra o que se conquista, não o caos. A terra  tem outro nome: consistência. Ter consistência não é ser inflexível ou rígido.Ter consistência é conquistar uma terra sem murá-la, sem fechá-la, sem finitizá-la. Toda conquista é um co-memorar do que se conquistou. Assim, a terra não é o fim do caos, mas o começo da consistência.Toda terra conquistada ao caos é sempre terra infinita.A ciência finitiza, objetifica, gira em torno de objetos. A filosofia traça uma terra infinita, a qual ela conquista sem negar o caos. Nenhuma conquista nasce da mera negação, toda conquista é uma afirmação da capacidade que tem o pensamento de conquistar. Não conquistar prêmios, títulos, propriedade, poder. Mas conquistar a si mesmo, criando a si mesmo , fazendo do infinito a sua terra.
A filosofia não nega o caos, não o demoniza: ela conquista-lhe uma terra.A terra não é o caos.A terra é o inaugurar de uma distância mínima, que nenhuma régua tem como medir. Pois não é uma distância mensurável em centímetros, milímetros ou qualquer outra unidade de medida, por menor que seja. A distância que separa a terra do caos é semelhante àquela que separa a paisagem pintada e a matéria sem a qual não existe a paisagem pintada. A paisagem não é a matéria da tinta, mas uma distância não extensa que o artista conquista, como o fez Cezanne: do caos das sensações ele conquistou uma paisagem que  existe como distância não física conquistada à desordem das tintas. 
         Deleuze chama de “crivo” essa distância que existe entre a terra e o caos. Quanto mais próximo do caos, mais rica a terra que a ele se conquista. Porém, maior se torna também o risco...Quem se aproxima do caos pode nele se perder .E o poeta?                                                           
Talvez o artista, sobretudo o poeta, seja aquele que  mais de perto vê o dragão. Nietzsche: “Quando você olha para o abismo, o abismo te olha”. A terra que o poeta conquista é o par do caos, é sua fêmea. A terra e o caos vivem  um amor que pode matar ou salvar.Não matar a terra , mas ao poeta que é o produto desse amor, amor este que também  o fecunda.O poeta não cria conceitos como o filósofo: seu pré é imediatamente o caos do qual apenas a terra inventada pode ser o par.O poeta é o palco desse amor cósmico, tal como o amor Ariadne-Dioniso.O poeta também vive uma conquista, mas é uma conquista amorosa, na qual ele aprende a dizer, como Manoel , “eu-te-amo” a todas as coisas.



(Cezanne, A montanha Santa Vitória)





sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

monumentar passarinhos

Livro sobre nada ( Manoel de Barros)
Venho de nobres que empobreceram.
Restou-me por fortuna a soberbia.
Com esta doença de grandezas:
Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os
pés dos seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos.
Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas
de orvalho.

sábado, 9 de janeiro de 2016

a empoética de manoel



(trecho do livro)
"Não se escreve com lembranças de infância,
mas por blocos de infância, que são devires-criança do presente".
Gilles Deleuze

Onde o perigo existe,
ali cresce o que salva.
Hölderlin

Podemos dizer que a poética de Manoel de Barros é uma original “empoética” sem regras ou cânones , uma vez que “empoemar” é um verbo que toda palavra conjuga quando perde seu limite utilitário (...).“Empoemando”, a palavra adquire a potência de expressar. Através desta potência, dá-se “um inauguramento de falas” que “insana”o significado habitual , gramatical e ordinário. Mas essa “insanidade”, ou agramaticalidade, produz uma verdadeira saúde : a de uma linguagem que redescobre a natureza extraordinária, singular, do sentido. Graças a essa poiésis da agramaticalidade,a linguagem é redescoberta como fonte de inauguramento de sentidos: “pelos meus textos sou mudado mais do que pelo meu existir”, revela-nos o poeta.
Empoemar as palavras é subverter os clichês e as representações que as fazem “acostumadas”. Esta empoética não possui regra de fabricação, a não ser o retirar das coisas as suas próprias regras: errar o idioma, fazer agramática.O “errar o idioma” não se faz por uma fala pessoal que se equivoca nas regras, mas por intermédio de uma “fala coletiva” que diz um sentido que foge a toda regra, que leva a própria regra a variar.
Empoemar a palavra é torná-la despalavra, verbo-substantivo onde se pode enxergar “o feto dos nomes”. Empoemar é um verbo que toda palavra pode conjugar desde que “abra seu roupão para o poeta”, e o deixe sê-la.
A essência da poética de Manoel de Barros, sua empoética terapêutica, consiste em produzir uma didática da invenção. Esta nos ensina que não apenas o poema, mas a própria Vida somente se explica como um “milagre estético”:

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto no final da frase.

("O menino que carregava água na peneira", livro: Exercícios de ser criança)


****   ***   ****

A única coisa que a diferença quer
é  diferenciar-se.
Diferindo  de si mesma,
ela se torna múltipla:
(re)inventa-se.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

o cacto



Vem a chuva e molha a planta:
não mais  cabisbaixa,
o caule de novo  levanta,
e abre-se acima uma porta com o céu.

Outra vive perto do rio.
E sabe com raízes achar o fluxo,
sugando o rio para   dentro de si.

Mas o cacto mora no deserto.
Não há água perto,
no chão ou no céu.
Uma arte inventou o cacto:
o de ter longas raízes.

Sondando o fundo da terra,
metros e metros abaixo
do que pode ver a vista,
tal sobrevivente encontra a água
que morou no céu um dia.

Ele a chama para si
e a guarda como tesouro
mais valioso do que prata ou ouro:
prenhe de chuvas e rios,
firme se alegra ,
e a água oferta a quem sede tiver.






manoel & espinosa



Mais importante do que o pensamento é o que “dá a pensar”;
mais importante do que o filósofo é o poeta.
Deleuze


Em seu livro sobre Espinosa[1], Yovel se refere ao terceiro gênero de conhecimento do autor da Ética como uma “metamorfose mental”. Antônio Houaiss afirma, por sua vez, que a poesia de Manoel de Barros está a serviço de uma experiência clínica: a da “felicidade mental”[2]. A metamorfose poético-filosófica como medicina animi .
Há uma influência dos estoicos sobre Espinosa no esforço que este empreende para instituir uma medicina da alma ou medicina animi. Para Espinosa, é absurdo que o homem tenha criado uma medicina corporis e que, no entanto, tenha descuidado de uma medicina animi, uma vez que ele é constituído por essas duas realidades, e não apenas por uma delas. O homem  pôde produzir a medicina corporis quando conseguiu vencer  o curandeirismo nas questões que envolviam a saúde do seu corpo. Todavia, no que diz respeito à salut de sua alma, entrega-se o homem ainda a práticas encantatórias, mágicas, como se apenas de um milagre pudesse nascer tal salut e felicidade.
Segundo Yovel, essa metamorfose mental é a expressão de um "olhar sinóptico", isto é, um olhar que liga coisas diferentes, coisas estas que não pertencem à extensão de um mesmo conceito. Parece-nos que esse olhar sinóptico muito próximo está do que em Manoel é uma visão fontana. O olhar sinóptico desfaz os limites dos conjuntos extensivos, e nos faz perceber a singularidade de cada coisa em sua relação com o Todo que se expressa no coração de cada ente singular e diferente: “é no ínfimo que eu vejo a exuberância”[3], “só as coisas rasteiras me celestam : a desgrandeza é de Deus”[4] .
Cada coisa está conectada à outra através do todo: a vitória está conectada com a derrota, o acerto está conectado com o erro, a  verdade está  conectada com a falsidade, o juiz está conectado com o bandido, a razão está conectada com a imaginação, a realidade está conectada com o sonho. Estar conectado não significa estar subordinado, ou que um seja  superior ao outro. O importante, o que dá sentido aos termos de cada relação , é o que está no meio, é a própria relação. Quando nos colocamos na perspectiva da relação, percebemos que juiz e bandido, razão e imaginação, acerto e erro, etc., são termos relativos não apenas  uns aos outros, mas relativos à relação que lhes dá um sentido.
Todavia, afirmar a relação nada tem a ver com defender o relativismo. O relativismo nasce quando se supõe que bandido e juiz são o mesmo, assim como a verdade ou o erro. O relativismo geralmente segue  de mãos dadas com o ceticismo e o cinismo, vez que reduz a relação aos termos. Mas quem dá as mãos ao ceticismo finda por andar em círculos, quem as dá ao cinismo cedo descobrirá que se encontra sozinho. Somente a compreensão, como diz Espinosa, pode conduzir-nos pelas mãos e nos levar para onde já estamos. E o lugar onde estamos é sempre o de uma relação, a começar pela relação de cada um consigo mesmo.
Por isso, quando nos colocamos na perspectiva da relação afirmamos apenas ela como necessária, de tal forma que compreendemos que, sob uma outra relação, o que hoje é bandido pode se tornar um justo, ou o que sob determinada relação é erro sob outra poderia ser acerto, ou o que sob determinada relação é ensino pode ser aprendizado sob  outra relação. Através da relação e da conexão cada coisa se liga não apenas a outra que lhe seja oposta, ela se liga também ao todo e , através deste, a ela própria, para assim mudar, devir, (re)inventar-se.
Sob determinada relação, a droga é veneno; sob outra, remédio. Todavia, isto não significa dizer que ela nunca é veneno .Ao contrário, significa dizer que nem sempre a droga é veneno, ou que nem sempre a razão é razão: sob certa relação, a razão pode ser veneno, o juiz pode ser bandido, e o bandido pode ser um santo. Pensar as coisas sob o viés da relação é pensar como é produzido o sentido que lhes atribuímos, e que este sentido sempre está inserido em uma prática que nós mesmos construímos, mesmo que passivamente. Enquanto pensarmos a relação apenas em termos duais ( juiz-bandido, verdade-falsidade) corremos o risco de ficarmos reféns das dicotomias e dos discursos que se alimentam  do preto e do branco, do não e do sim apenas.
Na pintura, o discurso racional sempre se expressou com o predomínio da forma, do limite, em detrimento da cor. O discurso passional, ao contrário, sempre realçou a sombra, o claro-escuro, o fundo negro, as trevas...Em ambos os casos, sempre se colocou a cor em segundo plano. Sabe-o disso não apenas quem pinta : a cor desborda os limites, bem como introduz uma pluralidade expressiva irredutível à gramática redutora do preto, branco, cinza e sombra. Pelas cores, percebemos que a sombra não é a ausência da luz ou o efeito de um princípio ativo distinto da luz ( a treva). Pois as cores também produzem sombras, como se o pode ver em Vermeer[5].
olhar sinóptico não é um olhar relativista ou que aceita, resignadamente, que tudo é igual, homogêneo. O resumo de algo  às vezes é dito “sinopse”. Para fazermos a sinopse de um livro ou filme, é preciso que o tenhamos visto ou lido. Mas quem viu, inteira, a própria vida? Em princípio, somente podemos fazer a sinopse de um dia que vivemos à meia-noite do mesmo. Essa idéia , porém, confunde a sinopse com a reprodução abreviada do que se viveu ou do que se teve a experiência.
Quem viu, inteiro, Deus ou a Natureza? A experiência com o infinito nunca pode terminar, como se termina a leitura de um livro.Quem leu um livro se torna apto a relatar o que leu. Mas e quem viu Deus ou o Absoluto, do que se torna capaz de narrar?E deve fazê-lo em prosa? Ou apenas em versos o conteúdo do que viu pode caber? Manoel de barros nos fala de um “olhar divinatório”[6]: olhar que “celesta” as coisinhas do chão.
Quando Espinosa emprega o termo “sinopse” ele está a querer dizer que o infinito está resumido em cada coisa, por mais simples que seja esta “coisinha do chão”, não importando se ela é uma vitória ou uma derrota, uma dor ou uma alegria, um idoso ou uma criança que acaba de nascer. Enquanto vivemos  o dia, e o tomamos  mais como algo que passa do que como algo que dura, não conseguimos experimentar/viver cada parte dele como o resumo dele mesmo. Se a isto soubéssemos enquanto o vivemos, seríamos como um artista a criar uma obra, dado que o todo não é um texto pronto,mas uma virtualidade , uma matéria ou potência a criar. Então, quando à meia-noite fazemos uma sinopse do dia, o fazemos segundo as possibilidades existenciais daquela parte do dia, e não segundo toda a potência que foi o dia inteiro. Inclusive, parte dessa potência que escapa à consciência  pode ser melhor resumida e expressa em um sonho que nos desperta no meio da noite, fazendo-nos compreender algo que não percebemos durante o dia.
O que vale para um dia vale igualmente para uma vida inteira: cada momento de uma vida é um resumo da vida inteira. Quem descobre isso, e o vive, olha não só a parte,o resumo, mas o todo, o que está sempre a se viver,pois o todo é sempre maior que cada   parte sua, e é maior até mesmo que a soma das mesmas:o dia que vivemos é maior do que as partes dele que vivemos, assim como é maior que cada parte dela a vida nossa mesma. É maior não como um pé que não cabe  em um sapato, ou um livro que não cabe em uma bolsa. É maior porque torna maior cada parte que  a expressa, assim como um tom mais vivo de azul torna mais azul o grau de azul que o expressa. Quando uma parte se liga ao todo do qual ela é uma expressão, ela se torna maior porque ela,através do todo, se liga a todas as partes que expressam o mesmo todo: embora única e singular, ela se descobre ligada ao inumerável que expressa o mesmo todo de mil outras perspectivas, e nenhuma dessas outras perspectivas é a dela própria, o que acentua sua diferença, ao mesmo tempo em que a liga e a integra ao todo que é sua alma heterogênea.O todo não é totalizável, ele não é quantificável: nele “não se pode passar régua”, ele é uma incógnita.
Cada parte de uma vida é uma sinopse de uma vida inteira, embora a vida inteira seja maior do que a mera soma de suas sinopses. De nossa vida inteira vivemos quase exclusivamente a parte atual, a mesma que a cada momento passa. Mas o que passa é a parte atual, não a vida inteira, que é sempre virtual. A parte atual é governada pela percepção, ao passo que a vida inteira somente é experimentada por uma invenção que a torna deslimitada, idêntica ao gosto superior de viver.
olhar sinóptico, porém, não é um olhar da percepção, da memória ou da imaginação: ele é o olhar da alma que, enfim, se tornou inteira, sabendo-se parte do que é infinito, e o infinito é a multiplicidade do que existe de infinitas  maneiras. O olhar sinóptico  é aquele que vê cada coisa finita como um resumo singular do infinito, uma vez que o infinito lhe está imanente como aquilo que nunca a deixa ser finita, limitada. Para ligar cada resumo a outro é preciso, antes, ter a experiência do todo, e este nunca é um livro ou texto. O todo é sempre extratextual. Ele se assemelha mais a uma música: não a música que está em uma partitura ou cd, mas a música que flui, que dura, e que faz de nós mesmos o seu intérprete, de tal modo que apreender tal música não se faz sem que criemos e aperfeiçoemos nosso próprio estilo e gosto, tal como o artista, o músico, que ama tanto o tocar quanto o que precede e prepara o tocar: o estudo,o treinar,o aperfeiçoar, enfim, o esforço.








[1] YOVEL, Y. Espinosa e outros hereges. Lisboa: Imprensa Nacional, 1993, p. 161 e seguintes.

[2] Texto de apresentação presente na  orelha de O guardador de águas , edição da Art Editora, São Paulo, 1989.

[3] “Desejar Ser”, Livro sobre nada, p. 55.

[4] Ibid., , p 41.

[5] Cf.HÖRNAK, S. Espinosa e Vermeer: imanência na filosofia e na pintura . São Paulo: Paulus, 2010.

[6] Entrevista concedida à jornalista Bianca Ramoneda e publicada no site da Leia Brasil.




sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Wimmer

Não se deve lamentar os mortos:
o que vive uma vez,
vive para sempre.
Joseph Conrad, "Lord Jim"



Nenhuma coisa pode ser destruída, 
a não ser por uma causa exterior.
Espinosa, Ética 3, Prop. IV

Conheci Wimmer há mais de vinte anos. Ele me foi apresentado como alguém que queria ter aulas de filosofia fora do ambiente acadêmico. Ele já contava quase 70 anos. Seu aperto de mão era firme, para não deixar dúvidas acerca do seu caráter, firme também. E nunca ele desviava os olhos enquanto falava,e nem quando ouvia. Ele era firme, de corpo e alma.Ele foi direto ao assunto:“Sou um engenheiro de formação e espírito.Não quero morrer sem saber que coisa é essa a que chamam de filosofia. Tenho pressa,urgência. Podemos começar o curso logo? Ele terá apenas, em princípio, um mês.” Wimmer não era apenas um engenheiro,ele foi um grande engenheiro   que ajudou a construir parte desse país. Aceitei o desafio. Marcamos o começo do que seria o  breve curso para a semana seguinte,na residência dele.
Wimmer  morava em um  apartamento na zona sul  do Rio, com obras de arte por toda parte, tudo expressando um bom gosto.A aula começou logo após o aperto de mão e a oferta de um simpático e muito bem feito cafezinho. Enquanto me ouvia, percebia que havia dentro dele movimentos mentais, havia raciocínios, mediante os quais ele ia refutando Platão ( às vezes apenas mentalmente e em  silêncio,falando apenas com o rosto,  às vezes  interrompendo  e tomando a palavra,posicionando-se criticamente).Wimmer não simpatizou com o platonismo, e foi franco comigo ao demonstrar sua antipatia. O maior de todos os filósofos, segundo dizem, é  isso?Assim me indagava ele com os olhos críticos.
Passei rapidamente  para outras possibilidades do pensar filosófico. Ele considerou interessante os sofistas, demonstrou interesse sincero pelos materialistas, sobretudo os atomistas,e ouviu com muito interesse quando lhe falei da Escola de Epicuro,que lecionava em jardins,em contato com a Natureza.Nietzsche o fez  sorrir pela primeira vez, e  Espinosa  o fez se ajeitar na cadeira. Eu passava por tudo muito rápido, dentro do que era possível.
Wimmer era extremamente  inteligente e lido nos assuntos da ciência. Ele tecia relações entre temas filosóficos e questões da ciência com extrema facilidade, embora às vezes com certo reducionismo, e o alertei para isso, no que ele aceitou. Porém, ao final das quase duas horas de aula  notei nele  certa decepção com a filosofia, com aquela  sucessão de teorias, apesar de ele ter simpatizado com algumas. Até que fechei os livros e as teorias, e tentei abrir o pensamento dele para um problema ,uma questão. Uma coisa é a filosofia, outra o filosofar, o pensar. Mostrei-lhe  que ele já possuía e  exercia,  de alguma maneira, o filosofar, e que este poderia melhorar com o conhecimento da filosofia.
No fim,coloquei a ele um problema,uma questão, fiz-lhe uma pergunta. Perguntei-lhe algo cuja resposta não poderia ser encontrada em teorias ou ciências.Uma pergunta simples, que envolvia mais o pensar a relação com a vida do que teorizar o que a vida é. E ele não encontrou a resposta. Pela primeira vez vi no rosto dele a expressão que somente encontro em  pessoas que aceitam ser aluno. Não é fácil aceitar ser aluno. E somente se torna capaz de ensinar quem também se comporta como aluno:como aluno dos livros que lê, como aluno dos filmes que vê, enfim, como aluno do Acontecimento o qual chamamos de Vida.Aceitar-se aluno, aprendiz ( o que nada tem a ver com ser neófito ou ser passivo),  é talvez  pôr em prática aquela modéstia de que nos fala  Espinosa. "A potência é modesta",confirma Deleuze. Ele percebeu que o limitava  a postura de sempre querer ser professor diante das ideias que precisamos, no entanto, aprender ( Wimmer também era  professor de engenharia). Como ser professor ou ter opinião daquilo que não se sabe?"O aprender vem antes do ensinar",  já nos ensinava Deleuze. Ele ficou então sem resposta : o professor que ele era, e que sempre  tinha as respostas,  ficou mudo, embora eu tenha percebido que algo nele pôde então começar a ouvir. Creio que ele percebeu que não ter a resposta   não era uma carência ou falta ,mas um ganho.Aos 70 anos, já tendo muito ensinado, ele viu a necessidade, idêntica à liberdade, que está no  aprender a aprender.Em tudo o que os filósofos ensinam, às vezes de forma dogmática e rígida, é preciso ver o que eles aprenderam ; e o aprenderam a partir da liberdade que tinham, da sensibilidade que tinham, da alma que tinham.E o que eles aprenderam, e transformaram em teoria e doutrina, não esgota toda a potência do aprender. E é sempre com o novo que se aprende ( há um poema de Murilo Mendes, intitulado "O menino experimental", no qual o poeta diz que um menino que aprende algo novo já refuta, por isso mesmo, tudo o que ensina  a ortodoxia com suas verdades absolutas). Na escola em que os filósofos  aprenderam só existe aluno, como na Escola de Epicuro. E esta talvez seja a “desaprendizagem” de que fala Manoel de Barros como exercício poético , a ignorãça. Pensei comigo: “Ele não vai querer mais aulas, esta será a primeira e última”. No entanto, ao fim da aula ele me cumprimentou e disse:”Vejo você na próxima semana”.
O curso durou três anos. Não sei ao certo em qual momento as aulas se transformaram em uma conversa, em uma “conversação”, como diz Deleuze. Ganhei também um grande amigo naqueles encontros.
Wimmer adoeceu rapidamente de uma enfermidade que  não tinha cura. Ele foi firme e corajoso naquela situação em que muitos  fortes sucumbem ao desespero. Mas nunca o vi lamentar-se da vida.Apesar de doente, muito doente, ele foi à minha defesa de doutorado e se sentou na cadeira da frente.
Quando Wimmer faleceu, sua esposa me confidenciou que ele aceitara que houvesse uma missa ecumênica em sua memória , desde que eu também falasse na ocasião. Wimmer não era exatamente ateu, ele era agnóstico. Quando expliquei para ele certa vez o que era o agnosticismo, ele quase saltou da cadeira e me  disse: “Eu sou isso”.
 Não tive como não aceitar aquele pedido de um amigo,ainda mais  expresso pela boca de sua esposa. A missa aconteceu em uma igreja de Copacabana. Eu e mais sete representantes de diversas religiões nos encontrávamos em uma salinha .Os religiosos olhavam para mim com um olhar intrigado, pois eu estava ali como filósofo e era assim que eu fui apresentado. A porta desta salinha  se abriu e fomos orientados  a seguirmos até o altar. Atravessamos a nave da igreja em silêncio e em fila indiana. Eu era o último. Quando subimos ao altar e nos sentamos, pude perceber o quanto a igreja estava lotada.Parecia uma plantação de algodão, tal a quantidade de idosos que ali estavam,todos com a cabeça branquinha. Então, um a um, cada representante religioso foi chamado para ir até ao púlpito. Primeiro, o protestante; depois,o espírita...e assim foram os demais. Percebi que esses religiosos não conheceram pessoalmente o Wimmer, de tal modo que suas falas seguiam um protocolo, um formalismo,uma cartilha. Chegou então a vez de eu ir ao púlpito. Confesso que nada havia preparado, nem sabia ao certo o que dizer.Falar do agnosticismo do Wimmer!? Nem pensar, não havia necessidade e nem porquê. Falar ali naquele espaço cristão da sua admiração por Nietzsche!?...

Quando pisei no púlpito e olhei para o público ,subitamente me lembrei de um dos afetos filosóficos do Wimmer,lembrei-me de  Espinosa. E falei então de um trecho de Espinosa no qual ele diz que quando a morte leva um recém-nascido, a morte leva a maior parte do que aquele pequeno ser era,mas não leva tudo:algo da criança fica, pois a morte não tem poder absoluto. Mas quando a morte vier levar  aquele que,em vida,ligou-se ao que é eterno, deste a morte levará apenas a menor parte, pois a maior parte ficará : ficará imune ao destruir do tempo ("Ética", proposição 38 da Quinta Parte). Olhei para o rosto da esposa do Wimmer e vi que ali havia aprovação ao que eu disse. Ao fim,alguns vieram falar comigo.Um senhor muito simples, já bem idoso, com indisfarçável entusiasmo  apertou minha mão e disse: “Poxa, eu não sabia que esse técnico do botafogo dizia coisas tão bonitas!...”. Sorri e expliquei para ele que o tal Espinosa não era o Waldir Spinoza, então técnico do botafogo...Ele me pediu o  nome da obra, assim como outros pediram e anotaram,tudo gente simples. E o mais importante para mim:não trai meu amigo.



Nos Jardins de Epicuro,com Wimmer e sua esposa,Maria José:
(imensas saudades do aluno-amigo...)





quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

o que é verdadeiramente novo nunca vira sucata



O que é hoje velho,não foi um dia novo: sempre foi velho.
E o que é verdadeiramente novo nunca fica velho: o novo é o tempo por vir.
Deleuze

O que é verdadeiramente novo
nunca vira sucata.
Manoel de Barros



Arrumar a casa.
Limpar a poeira acumulada, para que as cores sufocadas respirem em nova aparição.
Cuidar dos suportes físicos, para que eles sejam a imagem externa da integridade do nosso espírito.
Lustrar os vidros, para que nesta transparência nosso pensamento se possa ver.
Reorganizar as distâncias entre as coisas, para que o espaço não seja um vazio, e para que a presença dos objetos não impeça o deambular de nossa percepção.
Praticar o desapego daquilo cujo tempo passou, para que a luz do dia toque de novo os olhos do nosso desejo: e que este seja como uma aurora a raiar.
Fazer tudo ao som da música, cantando junto, para que na mente também se opere a faxina.
Depois de tudo revitalizado, alegrar que sejamos nossa primeira visita.



***   ***
Entre um segundo e outro do dia, 
unindo-os para a cotidiana travessia, 
é aí que se vive o verdadeiro ano novo: 
em nossas mãos, enquanto avançamos, 
ao invés de champanhe ou fogos, 
a água, o pão e o sonho.

***   ***


O tempo não é um velho,
mas uma criança:
dentre os seus vários brinquedos,
o sempre  novo é a esperança.


***   ***







quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

manoel de barros: o olho divinatório


Se as portas da percepção estivessem limpas,
cada coisa apareceria como é: infinita.
W.  Blake


Certa vez, quando perguntado sobre sua poética, Manoel de Barros respondeu:

Penso que nasci com o olho divinatório, que é o que chamam de dom. É assim que Sófocles, no Édipo Rei, chamou. Ele disse que o artista nasce com esse olho divinatório. E que esse olho deve ser completado com outro olho, que é o olho do conhecimento. E completou que a arte é feita da reunião desses dois olhos. Isto seja: que a arte é o terceiro olho. Eu andei lendo os poetas, os filósofos, ouvindo os músicos, vendo os Picassos para ganhar o olho do conhecimento. Acho que a construção de minha poesia, que é uma construção meio caipira e meio erudita é fruto desse terceiro olho e mais de uma disfunção lírica. Essa disfunção vem do grande fastio que tenho pela palavra acostumada.    
                                       
 “Olho divinatório”: olho de transver as coisas, desformar a natureza. Assim, a poética de Manoel de Barros é inseparável de uma percepção. Esta não é um “fazimento cerebral”, mas um instrumento de incorporação. Incorporar as coisas é sê-las, é mimetizá-las como um camaleão. 
O olho de transver é uma “visão fontana”  na qual o mundo, renovado em seu inacabamento , renasce e jorra em sua eterna  novidade:  

Tudo que os livros me ensinassem
os  espinheiros já me ensinaram.
Tudo que nos livros eu aprendesse nas fontes eu aprendera.
O saber não vem das fontes?


(trecho do livro)






domingo, 6 de dezembro de 2015

dançando sobre a mesa




O filme Filhos da Esperança (Children of Men, 2006) , de Alfonso Cuarón , passa-se em 2027 e é determinado por um acontecimento sem precedentes: há 18 anos , desde 2009, não nascia um único ser humano. Todas as mulheres do mundo, da África à Ásia, da Oceania à Europa, e de todas as Américas, tornaram-se inférteis. Por conta disso, não havia mais futuro: encurtando-se mais e mais, o horizonte enfim chegaria à praia, e nada para se ver ao longe haveria.
Enfim, a infertilidade generalizada das mulheres anunciava que a humanidade teria fim. Não havia mais crianças já de algum tempo. Em breve, não haveria mais adolescentes. Depois, inexistiria a juventude. Estranha ideia: geralmente associamos a noção de extinção a seres de um passado muito remoto. Porém, um dinossauro se tornava, no filme, a juventude ( e não haveria, no futuro, nem mesmo arqueólogos para descobrirem que um dia existira a juventude...). Na continuidade das extinções, seria a vez dos adultos desaparecerem, restando apenas os idosos :mais do que nunca, de novo crianças ( aliás , um dos personagens mais “jovens” do filme é, por sinal, o mais idoso, e é representado pelo ator Michael Caine ; a juventude de tal personagem se expressa sobretudo através da sua preferência musical pelo rock, sendo a música o último registro no qual a juventude, como “fóssil”, ainda sobrevive ) .
O filme mostra escolas vazias, museus às moscas, obras de arte que hoje valem milhões sendo encontradas jogadas na rua. Ainda existiam os livros, mas não existia mais a leitura. Ninguém mais escrevia, ninguém mais lia; não havia mais professor e aluno, expectativas e projetos. Restavam apenas seres humanos lutando para permanecerem humanos. Quando desaparecem o pintor, o professor, o aluno , o escritor, o educador, etc., corre perigo o próprio humano, que é decerto a base, mas que tão frágil se mostra diante do assalto do seu contrário, o inumano, a barbárie ,a violência. E é essa a atmosfera do filme: uma guerra constante de todos contra todos.
Não obstante o fato de quase todas as instituições terem desaparecido, permanecia , no entanto, uma. Somos levados a crer que a existência dessa instituição nada teria a ver com o futuro e com o humano. Essa instituição é o Estado. Embora não houvesse mais justiça, havia o Estado. Apesar de não existirem mais faculdades de Direito, existia o Estado. E o seu braço armado, a polícia, estava mais atarefado do que nunca. Como prender alguém visando a sua ressocialização se a própria sociedade já estava condenada à pena de morte? Não se prendia, matava-se. Assim, tornava-se uma assertiva incontestável, e não por questões metafísicas ou religiosas, mas políticas, a opinião de que a morte era a única certeza.
A abolição do futuro apagava, ao mesmo tempo, a lembrança do passado, e tornava o presente uma enlouquecida estrada cujo ponto de chegada e ponto de partida se encontrariam no meio dela, abolindo-a e a tudo que sobre ela caminhou e deixou rastro.
Outro fato chama a atenção no filme: havia aqueles que se contrapunham ao poder do Estado, e se valiam de armas para realizarem seus intentos. Eles se diziam “ a resistência”. Mas frágeis eram as idéias que justificavam o uso daquelas armas. Obscuros eram também seus propósitos.Examinando bem suas posições, parecia que era o uso das armas que justificava ter idéias, fossem estas quais fossem, o que acabava sendo o mesmo que atestar que as idéias já não mais existiam, tampouco a fronteira, que é já uma idéia, que separa , e distingue, a esquerda da direita, os progressistas dos conservadores, a revolução do terror.
Contudo, no meio do filme acontece algo de extraordinário e  imprevisto. Afinal, o extraordinário não seria extraordinário se não fosse imprevisto. Nada de mais ordinário que a previsibilidade ( o que nos permite concluir o quanto que a ciência, com o seu ideal de previsibilidade, nisto dando o braço ao cálculo financeiro, pactua com a ordinariedade). Uma refugiada extremamente jovem, negra, pobre, muito pobre, aparece grávida. O sagrado fizera novamente uma esquiva aos homens, e reaparecera não no ventre de uma mulher poderosa, tampouco no altar de um templo, mas no ventre de uma marginalizada. Eis o sentido do sagrado: ele é marginal, no sentido de estar à margem de tudo o que o homem põe no centro. E quase sempre o homem põe no centro o poder, e em torno deste passa a gravitar. Mas o sagrado também é poder, e revela que a margem está por toda parte.
Quando os homens que se consideram da resistência descobrem a grávida, resolvem se apropriar dela ,e passam a calcular a vantagem que poderiam tirar do fato.Ventila-se inclusive a idéia de matá-la, pois vislumbravam nisso uma vantagem política. Porém, um personagem um tanto cético e resignado até então, chamado Theo (representado pelo ator Clive Owen) , sente-se tomado por um impulso involuntário para proteger a menina grávida. Aos poucos, movido por essa exigência, sua índole vai mudando. Vê-se que ele passa a acreditar em algo. Esta crença muda seu rosto, seus gestos, suas percepções, sem que ele entenda exatamente por que. Não que ele se torne outro. Ao contrário, era como se ele, conforme dizia Espinosa, se tornasse ele mesmo. Desconfiando dos homens da resistência, Theo resolve fugir com a grávida, e passa a ser perseguido após descobrir que tanto ele quanto ela seriam mortos.
Uma das cenas mais fortes do filme , apresentada em um plano-sequência admirável, acontece quando os dois personagens tentam se esconder em um prédio em ruínas abarrotado de refugiados. Na verdade, eram três os personagens, uma vez que o bebê acabara de nascer momentos antes. Diante do prédio, um exército atirava sem parar contra os que estavam lá dentro escondidos, pois entre estes se encontravam também os líderes da resistência, que por sua vez tentavam capturar Theo e sua protegida. Até mesmo um tanque disparava contra a construção, fazendo voarem destroços por toda parte e deixando o ar saturado por uma poeira cinza. O barulho era ensurdecedor. De repente, como se fosse um indignado e são protesto contra toda aquela loucura, um chorinho de nada começa a ser ouvido. Era o chorinho do bebê enrolado nos trapos que a mãe improvisara como manta. Pouco a pouco, os refugiados, pondo a própria vida em risco, saem de seus esconderijos e esticam a cabeça para se certificarem de onde vinha aquele chorinho. Um soldado ouve o choro e cala a arma. Faz sinal para que um outro também escute e lhe imite. Resguardando-se como que para obedecerem a um imperativo mais forte do que a ordem de comando , cada soldado guardou a arma, até mesmo o tanque não mais atirava. Só se ouvia o chorinho como expressão do poder da vida, que ali fazia calar o poder da morte. Os três passam por entre os soldados. Alguns se ajoelham, outros choram, muitos sorriem...Passa diante deles não um rei ou um príncipe, mas uma simples criança humana , tão singular em sua natureza universal: une vie, uma simples vida, como dizia Deleuze.
Passava por eles a fonte sem a qual todo valor seca, aquilo sem o qual não há instituição que sobreviva, nem teoria que mereça sair da boca humana. Sem o devido cuidado e valorização dessa fonte, o quadro vira só tinta, a música se torna apenas som, o poema se converte tão somente em letra no papel e o tempo se torna apenas contagem que avança para o fim.
No mito grego, um segundo estômago fora colocado em Pandora, a primeira mulher, como algo destituído de utilidade: esse segundo estômago seria tão somente um buraco excedente, que obrigaria o homem a muito esforço para preenchê-lo, ao mesmo tempo que dotaria a mulher de uma insatisfação crônica. Contudo, nesse segundo estômago deu-se o milagre estético, vingou um poema:ele se tornou o útero.
Como diz Deleuze, todo órgão se explica por uma função que ele cumpre.O funcionalismo, como império das utilidades, preside não apenas o mundo orgânico, como também o mundo econômico, tecnológico , acadêmico e mesmo o mundo cultural.Segundo a visão funcionalista, utilitária, tudo existe para cumprir uma função: a função do cérebro, enquanto órgão, é fazer teorias ( teses, monografias, ciências...); a função dos olhos, enquanto órgão, é ver o "mundo objetivo"; a função de uma mesa é servir de apoio para o almoço ou a janta... Mas a criação, pela qual algo novo nasce, afirma Deleuze, nada tem a ver com o exercício da função de um órgão.A criação vem de um corpo ainda "sem órgaõs": ela vem de uma parte do corpo sem função utilitária ou pragmática. É como uma graça, uma espontaneidade que não se explica pelas programações e metas do mundo funcional, que é sempre "focado", ávido por resultados.
corpo sem órgãos não é outro corpo, mas nosso corpo mesmo quando o libertamos de existir à maneira de uma empresa ou fábrica, e o experimentamos-vivemos como um laboratório ou oficina: como "Uma Oficina de Transfazer Natureza", nas palavras de Manoel de Barros.O segundo estômago de Pandora se transfez: reinventou-se útero.
O futuro não é gerado por nenhum dos órgãos constituídos do presente, seja esse “órgão” a ciência, o capital ou o Estado. O que esses órgãos fazem é construir um arremedo de futuro em razão de seus interesses presentes. Mas a linguagem da graça não a pode entender todo aquele que apenas crê no resultado a serviço de um interesse.  Esses órgãos põem o futuro em risco, e nada põe tanto o futuro em risco do que um presente sem futuro. O futuro somente pode nascer onde existam as subversões a este mundo presidido pelos órgãos e suas funções, pelos órgãos e suas metas, pelos órgãos e seus “focos”.
Sem dúvida, sentar-se à mesa para almoçar ou jantar , ou nela realizar  “reunião de negócios”, dá uma razão de ser funcional, utilitária,à mesa. E a essa razão ninguém questiona...A não ser aqueles que sentem a necessidade de subir  sobre a mesa, subvertendo a lógica das utilidades, fazendo da mesa  um palco;  e, dançando, nela servem outros alimentos; dançando, justificam a sublevação pela instauração de outra realidade que, pelo afeto, falam por aqueles que os almoços&negócios excluem.






(da trilha sonora do filme)

 (da trilha sonora do filme)


(da trilha sonora do filme)