Ele
era um “ronin”. Literalmente, um “homem-onda”. “Ronin” era o nome que recebia o
samurai sem mestre. Um ronin era como uma onda, uma “vaga”: eles se tornaram
então andarilhos, deambuladores, itinerantes, nômades. Pareciam mendigos e
vagabundos, e apenas isso de fato seriam, se os homens se definissem apenas
pelas aparências e roupas.
Em
determinado momento da história do Japão, os samurais se desterritorializaram,
pois somente assim poderiam continuar a serem samurais, homens livres, uma vez
que os territórios passaram ao poder (potestas) dos senhores feudais. Antes, cada
samurai possuía um mestre, cujo poder advinha da sua destreza e maestria, além
da sabedoria. Era subordinando-se a um mestre que um samurai aprendia a como
ser um samurai, “mestre de si”. Essa subordinação nada tinha a ver com servilismo,
pois a condição de servo é incompatível com a natureza do samurai.
Só
se aprende a ser samurai com outro samurai que já o seja mais. Impossível se
tornar samurai sem ter tido um mestre. Pois ser um samurai é sempre um
aprendizado de como sê-lo. Saber usar a espada é somente parte do aprendizado.
Primeiro, é preciso saber usar a mente. O maior dos mestres samurais também
teve mestre. O samurai que aprende confia em seu mestre , pois nenhum samurai tem dois mestres. Além disso, todo samurai sabe
que não houve um primeiro samurai que aprendeu a ser samurai do nada. Nunca
houve um primeiro samurai que tenha sido o “mestre dos mestres”. O que sempre existiu, para um samurai, é a necessidade de aprender a ser um samurai. O melhor samurai não é o
que sabe mais, porém o que melhor aprendeu. Assim, o ronin não tinha mais
mestre porque ele mesmo já não poderia ser o mestre de novos samurais.Pois esse é o sentido de se ter um mestre: é preciso um para se tornar mestre , mestre de si. O samurai é aquele que sabe achar um mestre, mais do que querer se impor como um.
Há
diferença de potência entre os samurais, assim como há diferença de graus entre
os tons de azul. Cada tom de azul é uma perspectiva diferente acerca do mesmo
azul, e inexiste um azul puro existindo à parte dos graus do azul. Mas existem graus onde
o azul está mais forte: nestes o azul existe mais.Uma perspectiva diverge da outra no
seio de algo que lhes é comum, assim como os graus divergem entre si em razão
da cor azul comum. Todavia um samurai e um
servo não possuem nada em comum, e é por isso que um servo não tem perspectiva,
ele é destituído da potência de divergir: ele apenas concorda, aceita,
submete-se ao incolor poder.O que caracteriza um servo, tanto no Japão medieval quanto nas épocas informatizadas que correm, é a carência de uma vida que desconhece a presença de um mestre.
Um
mestre samurai nada tem a ver com um senhor feudal.Este quer o monopólio de
sua vontade como imperativo para todos que ele pretende dominar, ao passo que o
mestre samurai, com seu exemplo, ensina cada discípulo a se fortalecer como
samurai, isto é, como homem livre.
Os senhores feudais ganharam poder com a introdução, no Japão, da arma de fogo . Já os samurais consideravam
que a arma de fogo não era digna dos homens corajosos e nobres: apenas os medrosos se enfrentam de longe, à distância, e , covardemente, não dispensam oportunidades para atirar pelas costas. Além disso, para
o samurai a boa espada é aquela que menos precisa ser desembainhada, pois antes
dela deve prevalecer a força da palavra e do caráter. Mas caso ela precise ser
desembainhada, nunca o será para servir à covardia, ao mero poder pelo
poder e à vilania. E muito menos será
usada para atingir pelas costas.
O
filme Depois da chuva narra a
história de um ronin, um samurai-andarilho que não se vende aos senhores
feudais.Os senhores feudais e os samurais já não pertencem ao mesmo mundo. Os
senhores feudais tentam comprar os
samurais, oferecendo-lhes chefia de exércitos, querendo fazer deles generais e
ostentadores de medalhas e títulos. Contudo, um general somente existe em razão
de uma hierarquia de poderes, estando ele acima, e os comandados abaixo.Entre
os samurais, porém, não existe acima, a não ser como lugar onde vive a honra, e
não existe abaixo, senão como baixeza servil dos que adulam, se ajoelham,
baixam a cabeça, dissimulam e se vendem.
Recusando-se
a usar sua sabedoria e potência a
serviço dos que desconhecem o que é
nobreza e honra , os samurais se tornam nômades-andarilhos, seguem sem destino
pelos caminhos, fiéis ao que são e aprenderam , não cedendo aos que põem em
tudo um preço. Se sabem os últimos homens livres, tendo sido os primeiros.
O não-filosófico está talvez mais
no coração da filosofia que a própria filosofia,
e significa que a filosofia não
pode contentar-se
em ser compreendida somente de maneira filosófica ou conceitual.
Mais importante do que o pensamento é o que “dá a pensar”;
mais importante do que o filósofo é o poeta.
Gilles Deleuze
Segundo
Deleuze, a filosofia não é uma prática estritamente conceitual. A filosofia
entra em uma relação direta, sem mediadores, com algo que a antecede. Não se
trata de acúmulo de experiência ou leitura isso que a antecede. Esse “antes” que
antecede a filosofia não é outra disciplina. Esse antes é um “pré”,
um pré-filosófico. Este pré-filosófico não é o conceito, tampouco o bom senso
ou o senso comum. A aurora precede o dia que a sucede.Contudo, esse “pré” com o
qual a filosofia entra em relação não é como um antes que ela, vindo depois,
põe-se no lugar, assim como dia toma o lugar da aurora. Esse pré é sempre pré:
ele não é o conceito ainda se fazendo, tal como o pré-adolescente já é o
adolescente se formando. Esse “pré-filosófico” é uma aurora que nunca deixa de
ser aurora, ou como uma criança apenas criança, e não um adulto incompleto.
O pré-filosófico não é conceitual, jamais o
será.Se a filosofia é o mundo do pensamento, o pré-filosófico é a terra do
pensar, um pensar que também se sente, um sentir que se pensa.Esse pré não é um
objeto que o conceito representa.Ele é uma terra que o pensamento conquista.Conquista
a quem?A filosofia não recebe, de presente, essa terra; tampouco é uma terra prometida. O
nômade que habita o deserto conquista o deserto.Mas o deserto não tem dono,
ninguém pode marcar nele linhas retas em seu solo, pois o vento vem e apaga. Conquistar
não é fazer do conquistado uma propriedade, restando-lhe fora, especulando ou a
deixando deserta de vida. Conquistar é povoar, habitar,encher de vida, mas sem
recortar, sem construir muros. É com itinerâncias, é com trajetos e viagens, é
se movendo sobre o deserto que o Nômade conquista um. O deserto não é nômade,
mas ele torna nômade quem o conquista, povoando-o.
A
terra que a filosofia conquista é um deserto sobre o qual ela traça mundos,
trajetos, habitares, modos de ser, sem que exista, antes, um modelo a imitar de
como ser.Pois antes dessa conquista, antes da terra pré-filosófica, não existe
algo pronto, feito, acabado, que se possa herdar, reproduzir ou imitar.O que
existe é o caos. Este não é um limite à conquista, mas aquilo sem o qual não há
conquista . É a terra o que se conquista, não o caos. A terra tem outro nome: consistência. Ter
consistência não é ser inflexível ou rígido.Ter consistência é conquistar uma
terra sem murá-la, sem fechá-la, sem finitizá-la. Toda conquista é um
co-memorar do que se conquistou. Assim, a terra não é o fim do caos, mas o
começo da consistência.Toda terra conquistada ao caos é sempre terra infinita.A
ciência finitiza, objetifica, gira em torno de objetos. A filosofia traça uma
terra infinita, a qual ela conquista sem negar o caos. Nenhuma conquista nasce
da mera negação, toda conquista é uma afirmação da capacidade que tem o
pensamento de conquistar. Não conquistar prêmios, títulos, propriedade, poder.
Mas conquistar a si mesmo, criando a si mesmo , fazendo do infinito a sua
terra.
A
filosofia não nega o caos, não o demoniza: ela conquista-lhe uma terra.A terra
não é o caos.A terra é o inaugurar de uma distância mínima, que nenhuma régua tem
como medir. Pois não é uma distância mensurável em centímetros, milímetros ou qualquer
outra unidade de medida, por menor que seja. A distância que separa a terra do caos é semelhante
àquela que separa a paisagem pintada e a matéria sem a qual não existe a
paisagem pintada. A paisagem não é a matéria da tinta, mas uma distância não
extensa que o artista conquista, como o fez Cezanne: do caos das sensações ele conquistou uma paisagem que existe como distância não física conquistada à desordem das tintas. Deleuze chama de “crivo” essa distância que
existe entre a terra e o caos. Quanto mais próximo do caos, mais rica a terra
que a ele se conquista. Porém, maior se torna também o risco...Quem se aproxima
do caos pode nele se perder .E o poeta?
Talvez
o artista, sobretudo o poeta, seja aquele que mais de perto vê o dragão. Nietzsche: “Quando
você olha para o abismo, o abismo te olha”. A terra que o poeta conquista é o
par do caos, é sua fêmea. A terra e o caos vivem um amor que pode matar ou salvar.Não
matar a terra , mas ao poeta que é o produto desse amor, amor este que também o fecunda.O poeta não cria
conceitos como o filósofo: seu pré é imediatamente o caos do qual apenas a
terra inventada pode ser o par.O poeta é o palco desse amor cósmico, tal como o
amor Ariadne-Dioniso.O poeta também vive uma conquista, mas é uma conquista amorosa,
na qual ele aprende a dizer, como Manoel , “eu-te-amo” a todas as coisas.
Venho de nobres que empobreceram.
Restou-me por fortuna a soberbia.
Com esta doença de grandezas:
Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os
pés dos seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos.
Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas
de orvalho.
"Não se escreve com lembranças de infância, mas por blocos de infância, que são devires-criança do presente". Gilles Deleuze Onde o perigo existe, ali cresce o que salva. Hölderlin
Podemos dizer que a poética de Manoel de Barros é uma original “empoética” sem regras ou cânones , uma vez que “empoemar” é um verbo que toda palavra conjuga quando perde seu limite utilitário (...).“Empoemando”, a palavra adquire a potência de expressar. Através desta potência, dá-se “um inauguramento de falas” que “insana”o significado habitual , gramatical e ordinário. Mas essa “insanidade”, ou agramaticalidade, produz uma verdadeira saúde : a de uma linguagem que redescobre a natureza extraordinária, singular, do sentido. Graças a essa poiésis da agramaticalidade,a linguagem é redescoberta como fonte de inauguramento de sentidos: “pelos meus textos sou mudado mais do que pelo meu existir”, revela-nos o poeta.
Empoemar as palavras é subverter os clichês e as representações que as fazem “acostumadas”. Esta empoética não possui regra de fabricação, a não ser o retirar das coisas as suas próprias regras: errar o idioma, fazer agramática.O “errar o idioma” não se faz por uma fala pessoal que se equivoca nas regras, mas por intermédio de uma “fala coletiva” que diz um sentido que foge a toda regra, que leva a própria regra a variar.
Empoemar a palavra é torná-la despalavra, verbo-substantivo onde se pode enxergar “o feto dos nomes”. Empoemar é um verbo que toda palavra pode conjugar desde que “abra seu roupão para o poeta”, e o deixe sê-la.
A essência da poética de Manoel de Barros, sua empoética terapêutica, consiste em produzir uma didática da invenção. Esta nos ensina que não apenas o poema, mas a própria Vida somente se explica como um “milagre estético”:
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto no final da frase.
("O menino que carregava água na peneira", livro: Exercícios de ser criança)
Mais importante
do que o pensamento é o que “dá a pensar”;
mais importante
do que o filósofo é o poeta.
Deleuze
Em seu livro
sobre Espinosa[1],
Yovel se refere ao terceiro gênero de
conhecimento do autor da Ética como uma “metamorfose mental”. Antônio Houaiss afirma, por
sua vez, que a poesia de Manoel de Barros está a serviço de uma experiência
clínica: a da “felicidade mental”[2].
A metamorfose poético-filosófica como medicina
animi .
Há uma
influência dos estoicos sobre Espinosa no esforço que este empreende para
instituir uma medicina da alma ou medicina
animi. Para Espinosa, é absurdo que o homem tenha criado uma medicina
corporis e que, no entanto, tenha descuidado de uma medicina animi,
uma vez que ele é constituído por essas duas realidades, e não apenas por uma
delas. O homem pôde produzir a medicina
corporis quando conseguiu vencer o
curandeirismo nas questões que envolviam a saúde do seu corpo. Todavia, no que
diz respeito à salut de sua alma, entrega-se o homem ainda a práticas
encantatórias, mágicas, como se apenas de um milagre pudesse nascer tal salut
e felicidade.
Segundo
Yovel, essa metamorfose mental é a expressão de um "olhar sinóptico",
isto é, um olhar que liga coisas diferentes, coisas estas que não pertencem à
extensão de um mesmo conceito. Parece-nos que esse olhar sinóptico muito
próximo está do que em Manoel é uma visão
fontana. O olhar sinóptico desfaz os limites dos conjuntos extensivos, e
nos faz perceber a singularidade de cada coisa em sua relação com o Todo que se
expressa no coração de cada ente singular e diferente: “é no ínfimo que eu vejo
a exuberância”[3],
“só as coisas rasteiras me celestam : a desgrandeza é de Deus”[4] .
Cada
coisa está conectada à outra através do todo: a vitória está conectada com a
derrota, o acerto está conectado com o erro, a verdade está
conectada com a falsidade, o juiz está conectado com o bandido, a razão
está conectada com a imaginação, a realidade está conectada com o sonho. Estar
conectado não significa estar subordinado, ou que um seja superior ao outro. O importante, o que dá
sentido aos termos de cada relação , é o que está no meio, é a própria relação.
Quando nos colocamos na perspectiva da relação, percebemos que juiz e bandido,
razão e imaginação, acerto e erro, etc., são termos relativos não apenas
uns aos outros, mas relativos à relação que lhes dá um sentido.
Todavia,
afirmar a relação nada tem a ver com defender o relativismo. O relativismo
nasce quando se supõe que bandido e juiz são o mesmo, assim como a verdade ou o
erro. O relativismo geralmente segue de mãos dadas com o ceticismo e o
cinismo, vez que reduz a relação aos termos. Mas quem dá as mãos ao ceticismo
finda por andar em círculos, quem as dá ao cinismo cedo descobrirá que se
encontra sozinho. Somente a compreensão, como diz Espinosa, pode conduzir-nos
pelas mãos e nos levar para onde já estamos. E o lugar onde estamos é sempre o
de uma relação, a começar pela relação de cada um consigo mesmo.
Por
isso, quando nos colocamos na perspectiva da relação afirmamos apenas ela
como necessária, de tal forma que compreendemos que, sob uma outra relação, o
que hoje é bandido pode se tornar um justo, ou o que sob determinada relação é
erro sob outra poderia ser acerto, ou o que sob determinada relação é ensino
pode ser aprendizado sob outra relação. Através da relação e da conexão
cada coisa se liga não apenas a outra que lhe seja oposta, ela se liga também
ao todo e , através deste, a ela própria, para assim mudar, devir,
(re)inventar-se.
Sob
determinada relação, a droga é veneno; sob outra, remédio. Todavia, isto não
significa dizer que ela nunca é veneno .Ao contrário, significa dizer que nem
sempre a droga é veneno, ou que nem sempre a razão é razão: sob certa relação,
a razão pode ser veneno, o juiz pode ser bandido, e o bandido pode ser um
santo. Pensar as coisas sob o viés da relação é pensar como é produzido o
sentido que lhes atribuímos, e que este sentido sempre está inserido em uma
prática que nós mesmos construímos, mesmo que passivamente. Enquanto pensarmos
a relação apenas em termos duais ( juiz-bandido, verdade-falsidade) corremos o
risco de ficarmos reféns das dicotomias e dos discursos que se alimentam
do preto e do branco, do não e do sim apenas.
Na
pintura, o discurso racional sempre se expressou com o predomínio da forma, do
limite, em detrimento da cor. O discurso passional, ao contrário, sempre
realçou a sombra, o claro-escuro, o fundo negro, as trevas...Em ambos os casos,
sempre se colocou a cor em segundo plano. Sabe-o disso não apenas quem pinta :
a cor desborda os limites, bem como introduz uma pluralidade expressiva
irredutível à gramática redutora do preto, branco, cinza e sombra. Pelas cores,
percebemos que a sombra não é a ausência da luz ou o efeito de um princípio
ativo distinto da luz ( a treva). Pois as cores também produzem sombras, como
se o pode ver em Vermeer[5].
O olhar
sinóptico não é um olhar relativista ou que aceita, resignadamente,
que tudo é igual, homogêneo. O resumo de algo às vezes é dito “sinopse”.
Para fazermos a sinopse de um livro ou filme, é preciso que o tenhamos visto ou
lido. Mas quem viu, inteira, a própria vida? Em princípio, somente podemos
fazer a sinopse de um dia que vivemos à meia-noite do mesmo. Essa idéia ,
porém, confunde a sinopse com a reprodução abreviada do que se viveu ou do que
se teve a experiência.
Quem
viu, inteiro, Deus ou a Natureza? A experiência com o infinito nunca pode
terminar, como se termina a leitura de um livro.Quem leu um livro se torna apto
a relatar o que leu. Mas e quem viu Deus ou o Absoluto, do que se torna capaz
de narrar?E deve fazê-lo em prosa? Ou apenas em versos o conteúdo do que viu
pode caber? Manoel de barros nos fala de um “olhar divinatório”[6]: olhar que “celesta” as
coisinhas do chão.
Quando
Espinosa emprega o termo “sinopse” ele está a querer dizer que o infinito está
resumido em cada coisa, por mais simples que seja esta “coisinha do chão”, não
importando se ela é uma vitória ou uma derrota, uma dor ou uma alegria, um
idoso ou uma criança que acaba de nascer. Enquanto vivemos o dia, e o
tomamos mais como algo que passa do que como algo que dura, não
conseguimos experimentar/viver cada parte dele como o resumo dele mesmo. Se a
isto soubéssemos enquanto o vivemos, seríamos como um artista a criar uma obra,
dado que o todo não é um texto pronto,mas uma virtualidade , uma matéria ou
potência a criar. Então, quando à meia-noite fazemos uma sinopse do dia, o
fazemos segundo as possibilidades existenciais daquela parte do dia, e não
segundo toda a potência que foi o dia inteiro. Inclusive, parte dessa potência
que escapa à consciência pode ser melhor resumida e expressa em um sonho
que nos desperta no meio da noite, fazendo-nos compreender algo que não
percebemos durante o dia.
O
que vale para um dia vale igualmente para uma vida inteira: cada momento de uma
vida é um resumo da vida inteira. Quem descobre isso, e o vive, olha não só a
parte,o resumo, mas o todo, o que está sempre a se viver,pois o todo é sempre
maior que cada parte sua, e é maior até mesmo que a soma das mesmas:o
dia que vivemos é maior do que as partes dele que vivemos, assim como é maior
que cada parte dela a vida nossa mesma. É maior não como um pé que não cabe
em um sapato, ou um livro que não cabe em uma bolsa. É maior porque torna
maior cada parte que a expressa, assim como um tom mais vivo de azul
torna mais azul o grau de azul que o expressa. Quando uma parte se liga ao todo
do qual ela é uma expressão, ela se torna maior porque ela,através do todo, se
liga a todas as partes que expressam o mesmo todo: embora única e singular, ela
se descobre ligada ao inumerável que expressa o mesmo todo de mil outras
perspectivas, e nenhuma dessas outras perspectivas é a dela própria, o que
acentua sua diferença, ao mesmo tempo em que a liga e a integra ao todo que é
sua alma heterogênea.O todo não é totalizável, ele não é quantificável: nele
“não se pode passar régua”, ele é uma incógnita.
Cada
parte de uma vida é uma sinopse de uma vida inteira, embora a vida inteira seja
maior do que a mera soma de suas sinopses. De nossa vida inteira vivemos quase
exclusivamente a parte atual, a mesma que a cada momento passa. Mas o que passa
é a parte atual, não a vida inteira, que é sempre virtual. A parte atual é
governada pela percepção, ao passo que a vida inteira somente é experimentada
por uma invenção que a torna deslimitada, idêntica ao gosto superior de viver.
O olhar
sinóptico, porém, não é um olhar da percepção, da memória ou da imaginação:
ele é o olhar da alma que, enfim, se tornou inteira, sabendo-se parte do que é
infinito, e o infinito é a multiplicidade do que existe de infinitas
maneiras. O olhar sinóptico é aquele que vê cada coisa finita como um
resumo singular do infinito, uma vez que o infinito lhe está imanente como
aquilo que nunca a deixa ser finita, limitada. Para ligar cada resumo a outro é
preciso, antes, ter a experiência do todo, e este nunca é um livro ou texto. O
todo é sempre extratextual. Ele se assemelha mais a uma música: não a música
que está em uma partitura ou cd, mas a música que flui, que dura, e que faz de
nós mesmos o seu intérprete, de tal modo que apreender tal música não se faz
sem que criemos e aperfeiçoemos nosso próprio estilo e gosto, tal como o
artista, o músico, que ama tanto o tocar quanto o que precede e prepara o
tocar: o estudo,o treinar,o aperfeiçoar, enfim, o esforço.
[1] YOVEL, Y. Espinosa e outros hereges. Lisboa: Imprensa Nacional, 1993, p. 161
e seguintes.
[2] Texto de apresentação presente
na orelha de O guardador de águas
, edição da Art Editora, São Paulo, 1989.
a não ser por uma causa exterior. Espinosa, Ética 3, Prop. IV
Conheci Wimmer há mais de vinte anos. Ele me foi apresentado como alguém que queria ter aulas de filosofia fora do ambiente acadêmico. Ele já contava quase 70 anos. Seu aperto de mão era firme, para não deixar dúvidas acerca do seu caráter, firme também. E nunca ele desviava os olhos enquanto falava,e nem quando ouvia. Ele era firme, de corpo e alma.Ele foi direto ao assunto:“Sou um engenheiro de formação e espírito.Não quero morrer sem saber que coisa é essa a que chamam de filosofia. Tenho pressa,urgência. Podemos começar o curso logo? Ele terá apenas, em princípio, um mês.” Wimmer não era apenas um engenheiro,ele foi um grande engenheiro que ajudou a construir parte desse país. Aceitei o desafio. Marcamos o começo do que seria o breve curso para a semana seguinte,na residência dele. Wimmer morava em um apartamento na zona sul do Rio, com obras de arte por toda parte, tudo expressando um bom gosto.A aula começou logo após o aperto de mão e a oferta de um simpático e muito bem feito cafezinho. Enquanto me ouvia, percebia que havia dentro dele movimentos mentais, havia raciocínios, mediante os quais ele ia refutando Platão ( às vezes apenas mentalmente e em silêncio,falando apenas com o rosto, às vezes interrompendo e tomando a palavra,posicionando-se criticamente).Wimmer não simpatizou com o platonismo, e foi franco comigo ao demonstrar sua antipatia. O maior de todos os filósofos, segundo dizem, é isso?Assim me indagava ele com os olhos críticos.
Passei rapidamente para outras possibilidades do pensar filosófico. Ele considerou interessante os sofistas, demonstrou interesse sincero pelos materialistas, sobretudo os atomistas,e ouviu com muito interesse quando lhe falei da Escola de Epicuro,que lecionava em jardins,em contato com a Natureza.Nietzsche o fez sorrir pela primeira vez, e Espinosa o fez se ajeitar na cadeira. Eu passava por tudo muito rápido, dentro do que era possível.
Wimmer era extremamente inteligente e lido nos assuntos da ciência. Ele tecia relações entre temas filosóficos e questões da ciência com extrema facilidade, embora às vezes com certo reducionismo, e o alertei para isso, no que ele aceitou. Porém, ao final das quase duas horas de aula notei nele certa decepção com a filosofia, com aquela sucessão de teorias, apesar de ele ter simpatizado com algumas. Até que fechei os livros e as teorias, e tentei abrir o pensamento dele para um problema ,uma questão. Uma coisa é a filosofia, outra o filosofar, o pensar. Mostrei-lhe que ele já possuía e exercia, de alguma maneira, o filosofar, e que este poderia melhorar com o conhecimento da filosofia.
No fim,coloquei a ele um problema,uma questão, fiz-lhe uma pergunta. Perguntei-lhe algo cuja resposta não poderia ser encontrada em teorias ou ciências.Uma pergunta simples, que envolvia mais o pensar a relação com a vida do que teorizar o que a vida é. E ele não encontrou a resposta. Pela primeira vez vi no rosto dele a expressão que somente encontro em pessoas que aceitam ser aluno. Não é fácil aceitar ser aluno. E somente se torna capaz de ensinar quem também se comporta como aluno:como aluno dos livros que lê, como aluno dos filmes que vê, enfim, como aluno do Acontecimento o qual chamamos de Vida.Aceitar-se aluno, aprendiz ( o que nada tem a ver com ser neófito ou ser passivo), é talvez pôr em prática aquela modéstia de que nos fala Espinosa. "A potência é modesta",confirma Deleuze. Ele percebeu que o limitava a postura de sempre querer ser professor diante das ideias que precisamos, no entanto, aprender ( Wimmer também era professor de engenharia). Como ser professor ou ter opinião daquilo que não se sabe?"O aprender vem antes do ensinar", já nos ensinava Deleuze. Ele ficou então sem resposta : o professor que ele era, e que sempre tinha as respostas, ficou mudo, embora eu tenha percebido que algo nele pôde então começar a ouvir. Creio que ele percebeu que não ter a resposta não era uma carência ou falta ,mas um ganho.Aos 70 anos, já tendo muito ensinado, ele viu a necessidade, idêntica à liberdade, que está no aprender a aprender.Em tudo o que os filósofos ensinam, às vezes de forma dogmática e rígida, é preciso ver o que eles aprenderam ; e o aprenderam a partir da liberdade que tinham, da sensibilidade que tinham, da alma que tinham.E o que eles aprenderam, e transformaram em teoria e doutrina, não esgota toda a potência do aprender. E é sempre com o novo que se aprende ( há um poema de Murilo Mendes, intitulado "O menino experimental", no qual o poeta diz que um menino que aprende algo novo já refuta, por isso mesmo, tudo o que ensina a ortodoxia com suas verdades absolutas). Na escola em que os filósofos aprenderam só existe aluno, como na Escola de Epicuro. E esta talvez seja a “desaprendizagem” de que fala Manoel de Barros como exercício poético , a ignorãça. Pensei comigo: “Ele não vai querer mais aulas, esta será a primeira e última”. No entanto, ao fim da aula ele me cumprimentou e disse:”Vejo você na próxima semana”.
O curso durou três anos. Não sei ao certo em qual momento as aulas se transformaram em uma conversa, em uma “conversação”, como diz Deleuze. Ganhei também um grande amigo naqueles encontros.
Wimmer adoeceu rapidamente de uma enfermidade que não tinha cura. Ele foi firme e corajoso naquela situação em que muitos fortes sucumbem ao desespero. Mas nunca o vi lamentar-se da vida.Apesar de doente, muito doente, ele foi à minha defesa de doutorado e se sentou na cadeira da frente.
Quando Wimmer faleceu, sua esposa me confidenciou que ele aceitara que houvesse uma missa ecumênica em sua memória , desde que eu também falasse na ocasião. Wimmer não era exatamente ateu, ele era agnóstico. Quando expliquei para ele certa vez o que era o agnosticismo, ele quase saltou da cadeira e me disse: “Eu sou isso”.
Não tive como não aceitar aquele pedido de um amigo,ainda mais expresso pela boca de sua esposa. A missa aconteceu em uma igreja de Copacabana. Eu e mais sete representantes de diversas religiões nos encontrávamos em uma salinha .Os religiosos olhavam para mim com um olhar intrigado, pois eu estava ali como filósofo e era assim que eu fui apresentado. A porta desta salinha se abriu e fomos orientados a seguirmos até o altar. Atravessamos a nave da igreja em silêncio e em fila indiana. Eu era o último. Quando subimos ao altar e nos sentamos, pude perceber o quanto a igreja estava lotada.Parecia uma plantação de algodão, tal a quantidade de idosos que ali estavam,todos com a cabeça branquinha. Então, um a um, cada representante religioso foi chamado para ir até ao púlpito. Primeiro, o protestante; depois,o espírita...e assim foram os demais. Percebi que esses religiosos não conheceram pessoalmente o Wimmer, de tal modo que suas falas seguiam um protocolo, um formalismo,uma cartilha. Chegou então a vez de eu ir ao púlpito. Confesso que nada havia preparado, nem sabia ao certo o que dizer.Falar do agnosticismo do Wimmer!? Nem pensar, não havia necessidade e nem porquê. Falar ali naquele espaço cristão da sua admiração por Nietzsche!?...
Quando pisei no púlpito e olhei para o público ,subitamente me lembrei de um dos afetos filosóficos do Wimmer,lembrei-me de Espinosa. E falei então de um trecho de Espinosa no qual ele diz que quando a morte leva um recém-nascido, a morte leva a maior parte do que aquele pequeno ser era,mas não leva tudo:algo da criança fica, pois a morte não tem poder absoluto. Mas quando a morte vier levar aquele que,em vida,ligou-se ao que é eterno, deste a morte levará apenas a menor parte, pois a maior parte ficará : ficará imune ao destruir do tempo ("Ética", proposição 38 da Quinta Parte). Olhei para o rosto da esposa do Wimmer e vi que ali havia aprovação ao que eu disse. Ao fim,alguns vieram falar comigo.Um senhor muito simples, já bem idoso, com indisfarçável entusiasmo apertou minha mão e disse: “Poxa, eu não sabia que esse técnico do botafogo dizia coisas tão bonitas!...”. Sorri e expliquei para ele que o tal Espinosa não era o Waldir Spinoza, então técnico do botafogo...Ele me pediu o nome da obra, assim como outros pediram e anotaram,tudo gente simples. E o mais importante para mim:não trai meu amigo.
Nos Jardins de Epicuro,com Wimmer e sua esposa,Maria José:
O que é hoje velho,não foi um dia novo: sempre foi velho. E o que é verdadeiramente novo nunca fica velho: o novo é o tempo por vir. Deleuze O que é verdadeiramente novo nunca vira sucata. Manoel de Barros
Arrumar a casa.
Limpar a poeira acumulada, para que as cores sufocadas respirem em nova aparição.
Cuidar dos suportes físicos, para que eles sejam a imagem externa da integridade do nosso espírito.
Lustrar os vidros, para que nesta transparência nosso pensamento se possa ver.
Reorganizar as distâncias entre as coisas, para que o espaço não seja um vazio, e para que a presença dos objetos não impeça o deambular de nossa percepção.
Praticar o desapego daquilo cujo tempo passou, para que a luz do dia toque de novo os olhos do nosso desejo: e que este seja como uma aurora a raiar.
Fazer tudo ao som da música, cantando junto, para que na mente também se opere a faxina.
Depois de tudo revitalizado, alegrar que sejamos nossa primeira visita.
*** *** Entre um segundo e outro do dia, unindo-os para a cotidiana travessia, é aí que se vive o verdadeiro ano novo: em nossas mãos, enquanto avançamos, ao invés de champanhe ou fogos, a água, o pão e o sonho. *** ***
Certa vez, quando perguntado sobre sua poética, Manoel de Barros respondeu:
Penso que nasci com o olho divinatório, que é o que chamam de dom. É assim que Sófocles, no Édipo Rei, chamou. Ele disse que o artista nasce com esse olho divinatório. E que esse olho deve ser completado com outro olho, que é o olho do conhecimento. E completou que a arte é feita da reunião desses dois olhos. Isto seja: que a arte é o terceiro olho. Eu andei lendo os poetas, os filósofos, ouvindo os músicos, vendo os Picassos para ganhar o olho do conhecimento. Acho que a construção de minha poesia, que é uma construção meio caipira e meio erudita é fruto desse terceiro olho e mais de uma disfunção lírica. Essa disfunção vem do grande fastio que tenho pela palavra acostumada.
“Olho divinatório”: olho de transver as coisas, desformar a natureza. Assim, a poética de Manoel de Barros é inseparável de uma percepção. Esta não é um “fazimento cerebral”, mas um instrumento de incorporação. Incorporar as coisas é sê-las, é mimetizá-las como um camaleão.
O olho de transver é uma “visão fontana” na qual o mundo, renovado em seu inacabamento , renasce e jorra em sua eterna novidade:
Tudo que os livros me ensinassem
os espinheiros já me ensinaram.
Tudo que nos livros eu aprendesse nas fontes eu aprendera.
O filme Filhos da Esperança (Children
of Men, 2006) , de Alfonso Cuarón , passa-se em 2027 e é determinado por um
acontecimento sem precedentes: há 18 anos , desde 2009, não nascia um único
ser humano. Todas as mulheres do mundo, da África à Ásia, da Oceania à Europa,
e de todas as Américas, tornaram-se inférteis. Por conta disso, não havia mais
futuro: encurtando-se mais e mais, o horizonte enfim chegaria à praia, e nada
para se ver ao longe haveria.
Enfim, a infertilidade generalizada das mulheres anunciava que a humanidade
teria fim. Não havia mais crianças já de algum tempo. Em breve, não haveria
mais adolescentes. Depois, inexistiria a juventude. Estranha ideia: geralmente
associamos a noção de extinção a seres de um passado muito remoto. Porém, um
dinossauro se tornava, no filme, a juventude ( e não haveria, no futuro, nem
mesmo arqueólogos para descobrirem que um dia existira a juventude...). Na
continuidade das extinções, seria a vez dos adultos desaparecerem, restando
apenas os idosos :mais do que nunca, de novo crianças ( aliás , um dos
personagens mais “jovens” do filme é, por sinal, o mais idoso, e é representado
pelo ator Michael Caine ; a juventude de tal personagem se expressa sobretudo
através da sua preferência musical pelo rock, sendo a música o último registro
no qual a juventude, como “fóssil”, ainda sobrevive ) .
O filme mostra escolas vazias, museus às moscas, obras de arte que hoje valem
milhões sendo encontradas jogadas na rua. Ainda existiam os livros, mas não
existia mais a leitura. Ninguém mais escrevia, ninguém mais lia; não havia mais
professor e aluno, expectativas e projetos. Restavam apenas seres humanos
lutando para permanecerem humanos. Quando desaparecem o pintor, o professor, o
aluno , o escritor, o educador, etc., corre perigo o próprio humano, que é decerto
a base, mas que tão frágil se mostra diante do assalto do seu contrário, o
inumano, a barbárie ,a violência. E é essa a atmosfera do filme: uma guerra
constante de todos contra todos.
Não obstante o fato de quase todas as
instituições terem desaparecido, permanecia , no entanto, uma. Somos levados a
crer que a existência dessa instituição nada teria a ver com o futuro e com o
humano. Essa instituição é o Estado. Embora não houvesse mais justiça, havia o
Estado. Apesar de não existirem mais faculdades de Direito, existia o Estado. E
o seu braço armado, a polícia, estava mais atarefado do que nunca. Como prender
alguém visando a sua ressocialização se a própria sociedade já estava condenada
à pena de morte? Não se prendia, matava-se. Assim, tornava-se uma assertiva
incontestável, e não por questões metafísicas ou religiosas, mas políticas, a
opinião de que a morte era a única certeza.
A abolição do futuro apagava, ao mesmo
tempo, a lembrança do passado, e tornava o presente uma enlouquecida estrada
cujo ponto de chegada e ponto de partida se encontrariam no meio dela,
abolindo-a e a tudo que sobre ela caminhou e deixou rastro.
Outro fato chama a atenção no filme: havia aqueles que se contrapunham ao poder
do Estado, e se valiam de armas para realizarem seus intentos. Eles se diziam “
a resistência”. Mas frágeis eram as idéias que justificavam o uso daquelas
armas. Obscuros eram também seus propósitos.Examinando bem suas posições,
parecia que era o uso das armas que justificava ter idéias, fossem estas quais fossem,
o que acabava sendo o mesmo que atestar que as idéias já não mais existiam,
tampouco a fronteira, que é já uma idéia, que separa , e distingue, a esquerda
da direita, os progressistas dos conservadores, a revolução do terror.
Contudo, no meio do filme acontece algo de extraordinário e imprevisto.
Afinal, o extraordinário não seria extraordinário se não fosse imprevisto. Nada
de mais ordinário que a previsibilidade ( o que nos permite concluir o quanto
que a ciência, com o seu ideal de previsibilidade, nisto dando o braço ao
cálculo financeiro, pactua com a ordinariedade). Uma refugiada extremamente
jovem, negra, pobre, muito pobre, aparece grávida. O sagrado fizera novamente
uma esquiva aos homens, e reaparecera não no ventre de uma mulher poderosa,
tampouco no altar de um templo, mas no ventre de uma marginalizada. Eis o
sentido do sagrado: ele é marginal, no sentido de estar à margem de tudo o que
o homem põe no centro. E quase sempre o homem põe no centro o poder, e em torno
deste passa a gravitar. Mas o sagrado também é poder, e revela que a margem
está por toda parte.
Quando os homens que se consideram da resistência descobrem a grávida, resolvem
se apropriar dela ,e passam a calcular a vantagem que poderiam tirar do
fato.Ventila-se inclusive a idéia de matá-la, pois vislumbravam nisso uma
vantagem política. Porém, um personagem um tanto cético e resignado até então,
chamado Theo (representado pelo ator Clive Owen) , sente-se tomado por um
impulso involuntário para proteger a menina grávida. Aos poucos, movido por
essa exigência, sua índole vai mudando. Vê-se que ele passa a acreditar em
algo. Esta crença muda seu rosto, seus gestos, suas percepções, sem que
ele entenda exatamente por que. Não que ele se torne outro. Ao contrário, era
como se ele, conforme dizia Espinosa, se tornasse ele mesmo. Desconfiando dos
homens da resistência, Theo resolve fugir com a grávida, e passa a ser
perseguido após descobrir que tanto ele quanto ela seriam mortos.
Uma das cenas mais fortes do filme , apresentada em um plano-sequência
admirável, acontece quando os dois personagens tentam se esconder em um prédio
em ruínas abarrotado de refugiados. Na verdade, eram três os personagens, uma
vez que o bebê acabara de nascer momentos antes. Diante do prédio, um exército
atirava sem parar contra os que estavam lá dentro escondidos, pois entre estes
se encontravam também os líderes da resistência, que por sua vez tentavam
capturar Theo e sua protegida. Até mesmo um tanque disparava contra a
construção, fazendo voarem destroços por toda parte e deixando o ar saturado
por uma poeira cinza. O barulho era ensurdecedor. De repente, como se fosse um
indignado e são protesto contra toda aquela loucura, um chorinho de nada começa
a ser ouvido. Era o chorinho do bebê enrolado nos trapos que a mãe improvisara
como manta. Pouco a pouco, os refugiados, pondo a própria vida em risco, saem
de seus esconderijos e esticam a cabeça para se certificarem de onde vinha
aquele chorinho. Um soldado ouve o choro e cala a arma. Faz sinal para que um
outro também escute e lhe imite. Resguardando-se como que para obedecerem a um
imperativo mais forte do que a ordem de comando , cada soldado guardou a arma,
até mesmo o tanque não mais atirava. Só se ouvia o chorinho como expressão do
poder da vida, que ali fazia calar o poder da morte. Os três passam por entre
os soldados. Alguns se ajoelham, outros choram, muitos sorriem...Passa diante
deles não um rei ou um príncipe, mas uma simples criança humana , tão singular
em sua natureza universal: une vie, uma simples vida, como
dizia Deleuze.
Passava por eles a fonte sem a qual
todo valor seca, aquilo sem o qual não há instituição que sobreviva, nem teoria
que mereça sair da boca humana. Sem o devido cuidado e valorização dessa fonte,
o quadro vira só tinta, a música se torna apenas som, o poema se converte tão
somente em letra no papel e o tempo se torna apenas contagem que avança para o
fim.
No mito grego, um segundo estômago fora
colocado em Pandora, a primeira mulher, como algo destituído de utilidade: esse
segundo estômago seria tão somente um buraco excedente, que obrigaria o homem a
muito esforço para preenchê-lo, ao mesmo tempo que dotaria a mulher de uma
insatisfação crônica. Contudo, nesse segundo estômago deu-se o milagre
estético, vingou um poema:ele se tornou o útero.
Como diz Deleuze, todo órgão se explica
por uma função que ele cumpre.O funcionalismo, como império das utilidades,
preside não apenas o mundo orgânico, como também o mundo econômico, tecnológico
, acadêmico e mesmo o mundo cultural.Segundo a visão funcionalista, utilitária,
tudo existe para cumprir uma função: a função do cérebro, enquanto órgão, é
fazer teorias ( teses, monografias, ciências...); a função dos olhos, enquanto
órgão, é ver o "mundo objetivo"; a função de uma mesa é servir de
apoio para o almoço ou a janta... Mas a criação, pela qual algo novo nasce,
afirma Deleuze, nada tem a ver com o exercício da função de um órgão.A criação
vem de um corpo ainda "sem órgaõs": ela vem de uma parte do corpo sem
função utilitária ou pragmática. É como uma graça,
uma espontaneidade que não se explica pelas programações e metas
do mundo funcional, que é sempre "focado", ávido por
resultados.
O corpo sem órgãos não
é outro corpo, mas nosso corpo mesmo quando o libertamos de existir à maneira
de uma empresa ou fábrica, e o experimentamos-vivemos como um laboratório ou
oficina: como "Uma Oficina de Transfazer Natureza", nas palavras de
Manoel de Barros.O segundo estômago de Pandora se transfez: reinventou-se
útero. O futuro não é gerado por nenhum dos
órgãos constituídos do presente, seja esse “órgão” a ciência, o capital ou o
Estado. O que esses órgãos fazem é construir um arremedo de futuro em razão de
seus interesses presentes. Mas a linguagem da graça não a pode entender todo
aquele que apenas crê no resultado a serviço de um interesse. Esses órgãos põem o futuro em risco, e nada
põe tanto o futuro em risco do que um presente sem futuro. O futuro somente
pode nascer onde existam as subversões a este mundo presidido pelos órgãos e
suas funções, pelos órgãos e suas metas, pelos órgãos e seus “focos”.
Sem dúvida, sentar-se à mesa para
almoçar ou jantar , ou nela realizar “reunião
de negócios”, dá uma razão de ser funcional, utilitária,à mesa. E a essa razão ninguém questiona...A
não ser aqueles que sentem a necessidade de subir sobre a mesa, subvertendo a lógica das utilidades, fazendo da mesa um palco; e, dançando, nela servem outros
alimentos; dançando, justificam a sublevação pela instauração de outra
realidade que, pelo afeto, falam por aqueles que os almoços&negócios excluem.