segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

manoel de barros: a não velhez

( trecho do artigo:http://brasileiros.com.br/2015/01/manoel-de-barros-uma-didatica-da-invencao/ )

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas 
por crianças.
Manoel de Barros

A velhez não é uma idade. Ela é um estado. Ela é, a velhez, a antipoesia: a “velhez não tem embrião” [1]. A velhez é refém da “palavra acostumada”, da “mente acostumada”, da “sociedade acostumada”, da “teoria acostumada”. Torna-se um acostumado aquele que perdeu a capacidade de achar dentro de si “minadouros”[2]. O acostumado, em filosofia, tem um célebre nome: recognição. O olho acostumado perde o dom de descobrir: “O mundo foi renovado, durante a noite, com as chuvas. Sai garoto pelo piquete com olho de descobrir”[3].
A velhez  é a impossibilidade de se perceber como “forma em rascunho”, como minadouro de sentidos. A palavra que apenas informa tem essa velhez jornalística, uma vez que para o jornal de amanhã, para a vida de amanhã, ela já será cadáver: “A palavra  até hoje  me encontra na infância” ( 2010a, p.111).
As infâncias não remetem a uma fase de crescimento que antecede a vida adulta, elas são devires de (re)invenção.É sobretudo em  Deleuze e Guattari ( 1980) que encontramos a idéia de devir tal como a empregamos  ( SOUZA, 2010).Devir é uma forma de comunhão por imitagem  (2010b, p. 177). A imitagem não é um tornar-se cópia de um Modelo, como em Platão; a imitagem é a produção de uma variação por contágio: “é ir imitando os camaleões sendo pedra sendo lata sendo lesma” (1992, p. 314).O devir é uma metamorfose da qual o próprio poeta fez seu Tratado de Metamorfoses (  1992, p.250).
No poema “Invenção” ( 2010b, p. 151),  o poeta dialoga com um menino que nasceu do seu lápis: "inventei um menino levado da breca para me ser",  diz o poeta, "passarinhos botavam primaveras em suas palavras", "(...) ao fim me falou que ele não fora inventado por esse cara poeta/ porque fui eu que inventei ele" . O "eu” deste último verso não é um  eu lírico, ele  é um agente coletivo como lugar da invenção.Ele é o “eu” do menino que o poeta inventou para (re) inventá-lo, empoemá-lo ( 1989), enfim,   para terapeutá-lo ( 1996).Há um elo ,uma distância mínima, um hífen entre o poeta e o menino. Tal distância não é a do julgamento, não é a distância do afastamento; trata-se de uma distância  que possibilita o afeto, o contágio, o ser tocado: é a distância intensiva de quem , como o poeta, "escreve com o corpo" ( 1992, p. 212).
O menino disse ao poeta enquanto o poeta o inventava: sou eu que te invento poeta, enquanto você me inventa. Esse menino, diz o poeta, é “a criança que me escreve” ( 2010b, p.147). O menino que inventa o poeta se torna um intercessor: “A liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças"( 2010d, p.469) , como exercício de ser criança (  1999).Por mais que passem os anos, esse menino será sempre um menino que nos faz devir um, por mais idade que tenhamos.
A distância mínima que possibilita a  invenção não pode ser medida com régua: ela   é    a origem, a fonte, que está sempre no meio, como espaço de comunhão, de  “imitagem”. Processo semelhante experimentou Clarice: “Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco” (LISPECTOR, 1984, p11). Talvez nosso poeta experimentasse algo parecido quando afirmou: “Nossa linguagem não tem função explicativa, só brincativa” . Entre o menino e o poeta há uma distância mínima onde ocorre um contágio, um afeto , uma transubstanciação (1992, p320), uma epifania, um devir-criança, enfim. Este intervalo não é um espaço vazio, ele é o lugar das “raízes crianceiras” ( 2010b, p 187).
O tempo do devir-criança não pode ser medido pelo relógio; ele é o “tempo quando” (2010b, p. 133). Do ponto de vista dos fatos cronológicos encadeados linearmente, o devir é um desacontecimento (1992, p. 238). O desacontecer remete a um “tempo quando” não cronológico, tempo de metamorfoses. O quando é o tempo de "ir às origens de uma coisa ou ser" (  2010b, p. 133): “eu não amava que botassem data na minha existência.(...) Nossa data maior era o quando.O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio” (Idem).
 O "des" do desacontecer é o mesmo "des" do desaprender que Manoel aprendeu de Klee: "Ocorre que falo em desaprender pra chegar ao degrau da infância" ( apud BARBOSA, 2003, p. 127). O “quando” do tempo quando  não é data: não é passado, presente ou futuro. O quando é acontecimento que expressa uma metamorfose, tal como relatado no poema “Palavra” ( apud  RANGEL, 2001):  o poeta  estava sentado em um lugar. Até que veio a palavra e tirou o lugar debaixo dele. Ele continuou sendo, porém sem lugar. Todo lugar limita um espaço de estar, de ficar. Sem o lugar, o poeta permaneceu  ainda sendo, mas não no aqui, apenas no quando. Este quando é um lugar também, mas sem contornos, sem limites, posto que é um lugar de metamorfoses, de nadifúndios (1989, p. 14). "O artista está sujeito a essas metamorfoses" ( apud BARBOSA, 2003, p.125) que o fazem ir além do "mesmal" (apud  BARBOSA, 2003, p123).





[1] Ibid., p. 98.
[2]Ibid.,p.145.                                                                                                                                                                   
[3] Poema “Mundo renovado”, Livro de pré-coisas.

Referências

- Obras de Manoel de Barros consultadas:

Compêndio para uso dos pássaros. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1961.
Gramática expositiva do chão. Rio de Janeiro: Ed. Tordos, 1969.
Arranjos para assobio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
O guardador de águas. São Paulo: Art Editora, 1989.
Gramática expositiva do chão — poesia quase toda. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992 ( segunda edição).
Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996 .
Livro de pré-coisas. Rio de Janeiro: Record, 1997a.
O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 1997b .
Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 1998.
Exercícios de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.
Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Record, 2000.
Memórias inventadas – a infância. São Paulo: Editora Planeta, 2003.
Concerto a céu aberto para solos de ave. Rio de Janeiro: Record, 2004.
Cantigas por um passarinho à toa. Rio de Janeiro: Record, 2005.
Memórias inventadas – a segunda infância. São Paulo: Editora Planeta, 2006.
Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2007.
Encontros: Manoel de Barros . Rio de Janeiro, Azougue, 2010a (Org. Adalberto Müller).
Memórias inventadas - as infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Planeta, 2010b.
Menino do mato.São Paulo : Leya, 2010c.           
Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010d.
Escritos em verbal de ave. São Paulo : Leya, 2011.

Outras referências:

ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pioneira, 2000, 13ª edição.

BARBOSA, Luiz Henrique. Palavras do chão: um olhar sobre a linguagem adâmica  em Manoel de Barros. Belo Horizonte: Fumec/Annablume, 2003.

CAVALCANTI,Ana Símbolo e alegoria – a gênese da concepção de linguagem em Nietzsche. São Paulo: Annablume, 2005

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Kafka - pour une littérature mineure. Paris:
Minuit, 1975.

_____________. Mille plateaux. Paris: Minuit, 1980.

_____________. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34,1992.

LISPECTOR, Clarice.A Descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira , 1984.

PESSOA, Fernando. O eu profundo e os outros eus.Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2006.

RANGEL, Pedro Paulo. Manoel de Barros por Pedro Paulo Rangel.Coleção Poesia Falada, vol. 08.CD.Rio de Janeiro: Luz da Cidade, 2001.

SOUZA, Elton Luiz Leite de. Manoel de Barros: a poética do deslimite. Rio de Janeiro: 7letras/FAPERJ, 2010.


( desenho de Manoel de Barros)



(Chagall, O tempo não tem margem , 1930-1939)










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