O poeta Manoel de Barros se
formou em Direito. No entanto, seu primeiro cliente foi também o último.
Tratava-se de um comerciante acusado de desonestidade no uso da
balança : na hora de pesar a mercadoria , sorrateiramente ele apoiava o dedo
para aumentar o peso de forma fraudulenta, e assim lucrar com o logro.
Uma senhora prejudicada pela
desonestidade do mau comerciante resolveu abrir um
processo contra ele. O processo seria o embate da palavra mentirosa do comerciante fraudador contra a palavra
verdadeira da mulher corajosaque o
acusava, auxiliada pela má fama do
denunciado testemunhando contra
ele.
Manoel de Barros vivia uma
situação financeira difícil à época: havia nascido seu primeiro filho, muitas
despesas envolvidas. Além disso, o terno e a gravata eram uma prisão para ele , assim como a gaiola para
o passarinho que ama “voar fora da asa”.
Na primeira vez em que esteve com o tal comerciante
, Manoel pediu para conversar a sós com ele, e indagou: “É verdade o que dizem
? Você faz trapaça para burlar o peso?”
E o dissimulado respondeu: “É verdade. Mas fique tranquilo: pagarei bem,
e sei que você precisa de dinheiro. É só inventar uma mentira bem contada que
me favoreça.”
Manoel pediu licença
ao farsante e foi conversar
com o dono do escritório de advocacia. Enquanto desfazia o nó da gravata , o
poeta disse: "Desisto do caso, não vou defender essa mentira. A
invenção de que gosto éoutra”.
Uma coisa é a invenção que nega a
realidade, como as fake news dos obscurantistas; outra bem diferente é a invenção poética que
amplia o sentido da realidade, tanto a realidade externa quanto a interna.
A invenção neg@cionista apequena
e aprisiona; a invenção poética horizonta
e liberta.
Quando Manoel afirma que “Poesia
pode ser que seja fazer outro mundo” , ele quer dizer que a poesia nasce da
mesma fonte da qual brota a ética.
Em sua Ética, Espinosa ensina que a saúde do corpo depende de queele se nutra de alimentos diferentes (Ética,
Quarta Parte, Apêndice, Capítulo 27). Não
alimentos caros, mas alimentos diferentes, até mesmo simples. Pois a
multiplicidade aumenta a potência e saúde da singularidade que a incorpora, fazendo a diversidade ser parte integrante de si.
Mas para que esses alimentos diferentes potencializem o corpo que deles
se alimenta, é preciso que esses alimentos se componham , ou seja, que a união
deles seja um acréscimo de força, de saúde e até mesmo de harmonia, como numa
polifonia musical feita com sons de instrumentos diferentes que, juntos, criam
uma música singular, única.
Nosso corpo é composto de diferentes tecidos, de variadas estruturas ósseas,
de sutis construções nervosas; e toda essa heterogeneidade que nos compõe , e
que faz de cada um de nós um ser único, requer igualmente uma heterogeneidade
de alimentos para manter-se e regenerar-se.
Ao contrário, um corpo que se
alimenta de apenas uma coisa, ou de poucas coisas, empobrece sua potência e
saúde, uma vez que essa única coisa ou poucas coisas ingeridas irão alimentar
apenas poucas coisas em nós , criando assim um desequilíbrio e uma desarmonia.
Como resultado, nosso corpo será um misto debilitante de excessos e carências.
Se para nos alimentar dependêssemos apenas da monocultura que o agro-ogro
produz, estaríamos todos doentes...O que nos salva é a riqueza plural da pluri-agricultura
familiar.
O que vale para nosso corpo vale ainda mais para a nossa mente. Uma mente
potente é aquela que se nutre de ideias múltiplas, diversas, plurais. Ideias
que vêm não apenas de livros, mas também de músicas, filmes, pinturas, poesias, exposições , enfim, ideias múltiplas
que nascem da vida, ideias para serem pensadas, sentidas , vividas e postas em
prática.
São essas ideias plurais que alimentam e enriquecem de vida pensante uma
mente singular. São elas que garantem a saúde da mente, tanto a mente
individual quanto a coletiva . Enfim, uma polifonia de ideias expande a mente ,
tornando-a criativa e aberta à heterogeneidade do próprio mundo.
Ao contrário, a mente que se nutre de uma ideia única, na verdade não se
alimenta, e sim se envenena. Mente assim se fecha à heterogeneidade da
realidade,passando a negá-la ou a temê-la . E disso se aproveitam
os dogmas, as “seitas” de toda espécie ( incluindo a “seita do Mercado” ), os
fanatismos, as palavras de ordem e tudo aquilo que alimenta a ignorância em
suas diversas formas.
(Imagem:
“Polifonia”/ Paul Klee)
Inspirando-me em
Espinosa, sempre gosto de trazer pintura , poesia e música para acompanharem as
ideias escritas, para assim enriquecerem com pluralidade o aprendizado ( unindo ideia e
afeto, intelecto e sensibilidade). Creio
que essa lição espinosista também se encontra em Deleuze quando criou a ideia
de “pop’filosofia”, que é a filosofia agenciada com as artes. A pop’filosofia une
mente e corpo, ideias e afetos, pois é a criação de uma filosofia aberta à não
filosofia.
Hoje, 18/01/2025, Deleuze faria 100 anos. Em homenagem a ele, deixarei uma música de um artista que era um de seus preferidos: Bob Dylan ( inclusive, Deleuze cita Bob Dylan ao falar da pop'filosofia):
Creio que não há
nenhuma surpresa nas declarações recentes do dono da empresa Meta (
proprietária do facebook) submetendo-se servilmente
ao trumpismo e outros obscur4ntismos , já que os algoritmos da IA da
Meta fazem isso há tempos, sobretudo censurando
postagens de cunho progressista.
Isso mostra que,
no “Capetalismo” ( como dizia o “Profeta Gentileza”) , nunca os interesses são exclusivamente
“econômicos”, pois o fundo é sempre político ( aqui no Brasil , por exemplo, isso se revela no ataque especulativo do “mercado” ao governo ) . No caso da empresa Meta, o fundo é
a política imperialista estadunidense e seus l4c4ios .
Aliás, em sua própria declaração , o empresário das “Big
Techs” já deu o tom e indicou o caminho neg4cionist4
que, se depender dele, suas redes tomarão , ao acumpliciar-se com ações criminosascomo se fossem “liberdade de
expressão”.
De minha parte, ante
esses poderes que ameaçam nossa dignidade e vida pensante, sempre busco na filosofia alguma ideia-ferramenta de resistência
e luta para partilhar, seja em sala de
aula, aqui ou em qualquer outro lugar .
Por exemplo, a ideia de “linha de fuga” ensinada por Deleuze & Guattari.
Dito de maneira
simples, linha de fuga não é fugir de algo, mas fazer fugir algo que algum
poder ( físico ou simbólico) quer reprimir,
aprisionar. As linhas de fuga são construídas com criatividade , crítica ,
coragem e perseverança ; e sempre a
partir de dentro de uma situação ou
lugar onde se está , nunca a partir de
fora.
Umberto Eco
chamava essa prática de subverter a lógica da mídia desumanizante/alienante, no
espaço mesmo onde ela acontece, de “guerrilha
semiótica”.
Produzir e partilhar
conhecimento, empatia, sensibilidade
social e afetos emancipadores aqui nesta
rede é, e sempre será , um exercício de linha de fuga.
É compreensível e legítima a decisão de quem escolha sair das redes, mas acho que também pode
ser uma boa estratégia a ação de quem
decida permanecer para , de dentro, construir linhas de fuga, por mais simples e
modestas que sejam.
As linhas de
fuga sempre foram necessárias, porém o serão ainda mais nesse mundo que se
avizinha.
( este livro é
apenas uma sugestão )
“Profeta Gentileza”
, ou simplesmente “Gentileza”, foi um personagem que caminhava pelas ruas do
Centro do Rio distribuindo flores de graça, sem pedir nada em troca ( muito
menos dízimo...). Foi o próprio povo que o batizou de “Gentileza”. Enquanto
ofertava gentilmente flores a quem
passava, ele dizia : “O Capetalismo mata a gentileza...”Seu “mantra” costumava ser: “Gentileza gera
gentileza”. Para ele, ser gentil era uma maneira de ser anticapitalista.
O professor Leonardo Guelman escreveu um excelente livro
sobre o Profeta Gentileza:
Como nos ensina Espinosa, a
democracia não tem por centro altares, como num templo, e nem é feita de
hierarquias rígidas, à maneira da caserna.
Quando os representantes
do templo e da caserna , extrapolando seus espaços ,
também ambicionam poder político, corre perigo a
democracia ameaçada por intolerâncias, negacionismos
e fanatismos armados com a força bruta do
militarismo a serviço do delírio teológico-político.
A força da democracia não é
bélica, a força da democracia é a das ideias plurais pensadas e
realizadas em conjunto , perseverantemente. E também em conjunto, perseverantemente, precisam ser defendidas.
8 de janeiro: #semanistiaparagolpistas!
“A virtude com a qual o homem
livre evita os perigos
revela-se tão grande quanto a
virtude com a qual ele os enfrenta”.
Aconteceu lá no começo das eras
: talvez tenha sido uma criança que, brincando, pegou uma
semente que recolheu da floresta e a plantou em um pedaço de
terra próximo de onde morava. Depois, os adultos tiraram proveito, substituindo
a brincadeira e o lúdico pela dominação técnica da natureza .
Antes, a planta crescia livre ,
sem cercas . Agora ela era cultivada pelos homens que a
desterritorializaram de um espaço livre e a
reterritorializaram em uma terra cercada . Foi assim que nasceu a
agricultura: com a domesticação do que antes crescia e vivia livre na natureza
“Domesticar” significa
: “colocar sob o poder de um domicílio”. Mas não era apenas a
planta que era assim domesticada, pois junto com
ela também era domesticada outra realidade .
O homem de então
percebeu que a planta nasce, cresce , dá frutos
e morre. Houve a compreensão de que a planta existe
dentro de um período com fases e ciclos. O homem deu um nome para essa
realidade feita de ciclos: ele a chamou de “tempo”.
Depois, o
homem abstraiu o tempo do cultivo empírico das plantas,
ficando apenas com a ideia de ciclo , estendendo-a ao
cosmos e a si mesmo. E assim se
viu criança, adulto e idoso. Ele percebeu que sua vida
tinha ciclos, como a vida da planta. Compreendeu que ele era nascimento, vida e
morte.
A domesticação do tempo
ensejou também a descoberta do domicílio onde mora o homem: enquanto
os deuses moram na eternidade, o homem tem por morada o tempo. Assim como a
planta domesticada passou a viver dentro de cercas, o relógio se tornou a
cerca que limita o tempo domesticado.
Mas a domesticação da planta não
fez morrer as florestas nas quais as plantas vivem livres, do mesmo modo que a
domesticação do tempo não eliminou o seu existir não
domesticado enquanto duração para além do relógio.
Esse tempo não
domesticado e livre é o que alguns filósofos chamam de
“devir”. O devir está para o relógio assim como a floresta está para
a agricultura, ou como a poesia está para a linguagem: como
realidade não domada, livre, que nenhuma cerca simbólica domestica.
Não é por acaso que o “Mercado” prega
que “tempo é dinheiro”, pois os juros nada mais são do que nosso tempo de vida
sendo vampirizado pelo capital.
Já a duração-devir somente pode ser experimentada
se cultivarmos em nós um olhar livre de cercas, tal como o têm a criança e o
indígena. A duração-devir expressa um valor que não pode ser medido por moeda
ou dinheiro.
Enquanto os mercadores do
tempo vivem olhando para o relógio, indígenas, crianças e
poetas vivem a olhar para as estrelas, e por elas se orientam.
Na mitologia, o tempo do relógio
é chamado de Cronos, a divindade que a todos devora, ao passo que a
duração-devir atende por Aion, que
era simbolizado por uma criança que brinca.
Em toda passagem de ano
comemoramos um ano novo: um ano velho vai, um ano novo vem. Mas o ano
novo não é um começo radical : ele é a continuidade de um mesmo tempo. É por
isso que o ano novo é contado e recebe um número:2025 será um ano novo de um
mesmo tempo que é numerado, então, com um ano a mais. 2025 é um novo ano de um
mesmo tempo, e não um tempo novo.
Entre os gregos o tempo era
vivido de outra maneira. O tempo não era concebido de forma linear e numérica.
Os gregos viviam o tempo como repetição cíclica. Dois eventos determinam o
ciclo do tempo: o nascimento e a morte, a criação e a destruição.
O tempo nasce, cresce e morre,
como tudo o que é vivo. Porém, o tempo renasce, vencendo sua própria
morte. O tempo que renasce é um tempo novo que nada tem a ver com o
que morreu.
Esse tempo novo não é
o desenvolvimento ou continuidade de um tempo antigo. Por
isso nenhuma data ou número pode determinar esse
tempo renascido outro. É no tempo novo, e não no tempo morrido, que
o tempo mostra sua verdadeira face: a de recriar a si mesmo, retirando de si mesmo a
sua aurora.
Quantos tempos novos já
existiram? Impossível numerar... Infinitas vezes já houve um tempo novo. Apesar
disso, sempre haverá tempo novo, a despeito dos homens conservadores do antigo.
É
para criar-se novo que o tempo se destrói como antigo. Repetindo-se,
o tempo sempre retorna, diferente. O tempo não é eterno: eterna é a
repetição através da qual o tempo retorna, novo.
Esse ensinamento do tempo Nietzsche
assim o traduziu: “Só podemos destruir sendo criadores."
Às amigas & amigos, desejo-lhes
que 2025 seja não apenas um ano novo, mas um tempo novo: uma aurora.
Quando eu era criança, bem
criança, meus pais só podiam me dar de presente de natal brinquedos bem simples, como carrinhos de plástico .
Eu recebia tais brinquedos e , agradecido, os guardava , quase não brincava com
eles.
Pois esses brinquedos e outros
que dependiam do dinheiro não me faziam falta , pois eu gostava mesmo era de
brincar com as próprias coisas, subvertendo seus sentidos e usos utilitários.
Por exemplo, eu gostava de pegar
o chinelo de meu pai e fazer de carrinho. Como carrinho lúdico, ao chinelo não
faltava nada, pois estava em meus olhos a fonte de vê-lo outra coisa diferente
da “visão acostumada”.
Minha mãe era costureira. Eu
também gostava de brincar com os carretéis de linhas multicoloridas dela, para
assim inventar um Fio de Ariadne como linha de fuga para
tecer outros mundos.
Há uma diferença entre fantasia e
criatividade. Imaginar que há fantasmas debaixo da cama é fantasia, e fantasia assim
alimenta o medo que infantiliza e apequena. Mas jogar um lençol sobre a cabeça para
brincar de fantasma, isso é criatividade que esconjura o medo e faz crescer por
dentro o pensamento livre. O fantasioso é refém de sua mente, já o criativo faz
de sua mente um meio para ressignificar o mundo.
Brincar com o carrinho de
plástico era bom, mas brincar com o chinelo feito carrinho era mais do que
brincar: era ato poético-político, ainda que inocente,de transmutar o sentido do que está dado.
Quando cresci, li no poeta Manoel
de Barros algo que me ajudou a compreender esse processo lúdico-transmutador.
Manoel diz que a poesia nasce de
uma brincatividade originária, brincatividade essa que existe antes da palavra,
na imanência da vida. Quando essa brincatividade ganha nossos olhos, ela
os empoema , fazendo nossos olhos “transverem o mundo”.
Hoje, creio que somente consigo enxergar
possibilidades de mudar a realidade , por menor que seja essa realidade e por mais
simples que seja a mudança, quando aquele olhar ludicamente subversivo do
menino renasce emmim, abrindo os olhos
do adulto.
Às amigas & amigos, desejo-lhes
um Feliz Natal e Boas Festas , sobretudo com saúde, saúde do corpo e da mente em
mútuo auxílio, como ensina Espinosa. E
que possamos cultivar e partilhar olhares que transvejam caminhos novos ,pessoais
e coletivos.
O tempo não é um velho, mas uma
criança: dentre seus vários brinquedos, o sempre novo é a esperança.
(Como “Cartão de Boas Festas”, partilho
aqui a obra “Iemanjá” / do artista
cubano Manuel Mendive. Na língua iorubá,
“Iemanjá” significa “Mãe que gera”, como Pachamama e Gaia , figuras da Mãe-Terra)
Manoel de Barros ensina que poesia é “delírio ôntico”. A palavra
“delírio” tem por raiz “lira”. Originariamente, lira é o instrumento tocado
pelo poeta Orfeu. Ele não apenas tocava a lira, como também cantava.
Cantar é esculpiro sopro da voz, tornando escultor nosso
Pneuma. Quem canta, partilha seu Pneuma, seu sopro vital, não apenas com o
outro ser humano que o ouve, mas com todos os seres vivos, incluindo as
plantas.Quem canta com o Pneuma, pois nem todo canto
traz o Pneuma, também se liga ao cosmos inteiro.
“Lira” também era o nome dos sulcos paralelosfeitos na terra para neles serem lançadas as
sementes, pois os sulcos lembram as paralelas cordas da lira. Assim, de-lirar é
: “lançar a semente fora da lira”. E semente que cai fora do sulco não germina.
Mas quando nasce no pensador-criador uma ideia-semente nova, ele precisa
criar também um novo sulco na terra, como uma nova sinapse que enriquece e
amplia o cérebro.
“Ôntico” vem da palavra grega “on”: “ser”. Dessa maneira, “delírio
ôntico” é criação poética de novos e diferentessentidos para o ser, incluindo o ser que desejamos ser.
O contrário do delírio ôntico é o delírio mórbido, delírio de poder,
caracterizado pela palavra lançada fora de todo sulco, palavra que cai no árido
deserto de ideias. Não é uma palavra que germina, é uma palavra morta de
sentido, como todas aquelas que saem da boca de um fascista, palavras a serviço
da destruição e morte.
Na obra Fedro, Platão dizia que a loucura é toda forma de comportamento
que rompe com o “acostumado”, diria Manoel de Barros, de um viver padronizado
instituído por um grupo.
Mas há duas formas de loucura, dizia Platão. A primeira delas é quando se
rompe com os padrões comportamentais de um determinado grupo, porém indo
acabarrecluso em uma realidade
inferior, passando a se assemelhar maisaos
bichos do que aos seres humanos. Dessa
forma de loucura vêm os crimes, as desumanidades, as barbáreis...
E há a forma de loucura divina ( a palavra “divino” tem por sentido
originário “luz fulgurosa”, como a do relâmpago). Nessa forma de loucura, alça-se a uma realidade superior, realidade
essa somente alcançável em quem vê nascer em suas costas as asas de Eros, as
asas do Amor.
Essa loucura divina tem quatro níveis , cada um deles representado pelas
divindades Apolo, Dioniso, as Musas e o
par Afrodite-Eros.
Apolo expressa o que Manoel de Barros chama de “transver”: um ver que vai
além do meramente dado; Dioniso é a potência libertária de inventar caminhos,
linhas de fuga: “O andarilho abastece de pernas as distâncias”(Manoel de
Barros); as Musas são os aprendizados e saberes que vêm das artes; e o par
Afrodite-Eros expressa a semeadora, Afrodite, e a semente , Eros-Amor: semente que
liberta tudo aquilo onde germina e desabrocha ( em Lucrécio, por exemplo,Vênus-Afrodite é quem guarda e semeia as
sementes de tudo o que tem vida e brota).
Os poetas
e filósofos gregos deram nomes diferentes para a "alma".
O mais famoso deles é Psiquê.
Na mitologia,
Psiquê formava um par com Eros, o Amor. Em grego, "Eros" também
significa "asas". Não as asas de pássaro, mas as asas de borboleta. Enquanto
os pássaros já nascem com asas, as asas da borboleta só nascem após
uma metamorfose. Pássaros nascem de ovos; borboletas , de casulos.
O casulo é uma
espécie de útero no qual a lagarta torna-se a artista que esculpe ,
pinta e borda a si mesma, para assim partejar-se outra: antes ela
rastejava, agora ela se alça e voa.
As asas que
elevam a alma são as do Afeto e das Ideias:
poesia e filosofia . Esse Afeto Pensante é
um dos sentidos de "phylo" em "phylo-sofia":
"amor por Sofia".
Sofia também é
um dos nomes da alma. Sofia é mais do que Razão. Em grego, "Razão" é
"Logos", palavra masculina. Enquanto "Razão" é raciocínio,
teoria e moral, Sofia é sensibilidade, criatividade, intuição e ética, assim
unindo o pensar à prática.
Outro nome da
alma é Pneuma. Em latim, pneuma é "spiritus": "sopro
quente e úmido", quente no sentido do calor da vida. Por isso, todo sopro
de vida "acalenta": "traz calor" que afasta o frio.
Pneuma também
é a brisa úmida que vem do oceano e vivifica o deserto, nele fazendo
brotar cores, flores, sementes, enfim, múltiplas vidas.
Quando o
recém-nascido nasce, antes de abrir os olhos ele inspira o pneuma , o sopro de
vida. Não são apenas os pequeninos pulmões do recém-nascido que se enchem de
ar, pois cada célula é acalentada pelo pneuma , inclusive as células
do nervo ótico, que assim se abrem para receberem a luz do mundo.
Esse primeiro
pneuma que o recém-nascido inspira o umbilica ao Sopro Cósmico da
respiração da Terra, nossa Mãe Ancestral. Não por acaso, meditar é
"medicar": prestar atenção na respiração que somos, respiração essa
que nos desperta para a compreensão de que , pela respiração, somos partes de
um todo cujas outras partes são os animais, as plantas, as florestas, enfim,
tudo o que vive e respira .
Este é o sentido
originário de "inspiração" : "encher-se de pneuma, sopro de
vida”. A cada vez que respiramos, trazemos para dentro de nós o sopro de vida
que irá se acrescer ao sopro de vida que vive em nós. Quando expiramos, parte
do pneuma que estava em nós retorna ao pulmão da Terra , para assim
ser de vida renovado.
Quando falamos
palavras que educam , o pneuma que partilhamos enche nossas
palavras com ar que oxigena as ideias de quem nos escuta. Talvez por isso
Clarice Lispector tenha dito: “Escrevo como se fosse para salvar a vida
de alguém”.
(Este texto é
uma pequena homenagem a Clarice, que faria aniversário nesta semana, dia 10 de
dezembro)
A VISITA
Recentemente entrou em minha casaum beija-flor. Ele foi atraído pela floração
da Espada de São Jorge que eu mantenho em minha sala , perto da janela.
Dizem que a Espada de São Jorge
repele as más energias e atrai as boas, sendo sua floraçãotão bela quanto rara.
Toda manhã eu recebo a visita
desse exímio bailarinoda natureza,
atraído pelo néctar que as flores da Espada de São Jorge oferecem de graça.
Foi assim que descobri que os beija-flores também
cantam: quando entra na sala eavista as
flores, o beija-flor emite um canto breve e agudo, como a de um soprano
inspirado , e diante das flores ele “voa parado” ( como o beija-flor de que
fala o poeta Manoel de Barros).
Uma lição esse beija-flor me
ensina toda manhã : assim como a floração da Espada de São Jorge, as ideias que
oferecem néctar para a mente são raras, e para alcançá-las é preciso perseverantemente
“voar parado”, vencendo os pesos que puxam para baixo, o que requer mais arte
do que força.
E enquanto o beija-flor me
visitava hoje pela manhã cantando com especial alegria , li no jornal a notícia
do dia, do mês e das últimas décadas , sobretudo para a democracia , trazendo um “sopro de vida” para ela , para
nós: a prisão do general-golpista. Só falta o agora o chefe dele...@sem anistia