sábado, 25 de janeiro de 2025

Manoel & Espinosa: PoÉtica

 

O poeta Manoel de Barros se formou em Direito. No entanto, seu primeiro cliente foi também o último. Tratava-se de um comerciante    acusado de desonestidade no uso da balança : na hora de pesar a mercadoria , sorrateiramente ele apoiava o dedo para aumentar o peso de forma fraudulenta, e assim lucrar com o logro.

Uma senhora prejudicada pela desonestidade do mau comerciante    resolveu  abrir um processo contra ele. O processo seria o embate  da palavra mentirosa do  comerciante   fraudador contra a palavra verdadeira da mulher corajosa  que o acusava, auxiliada pela má  fama do denunciado   testemunhando contra ele.

Manoel de Barros vivia uma situação financeira difícil à época: havia nascido seu primeiro filho, muitas despesas envolvidas. Além disso, o terno e a gravata eram  uma prisão para ele , assim como a gaiola para o passarinho que ama  “voar fora da asa”.

 Na primeira vez em que esteve com o tal comerciante , Manoel pediu para conversar a sós com  ele, e indagou: “É verdade o que dizem ? Você faz trapaça para burlar  o peso?” E o dissimulado respondeu: “É verdade. Mas fique tranquilo: pagarei  bem, e sei que você precisa de dinheiro. É só inventar uma mentira bem contada que me favoreça.”

Manoel pediu  licença   ao farsante  e foi conversar com o dono do escritório de advocacia. Enquanto desfazia o nó da gravata , o poeta disse: "Desisto do caso, não vou defender essa mentira.  A invenção de que gosto é  outra”.

Uma coisa é a invenção que nega a realidade, como as fake news dos obscurantistas;  outra bem diferente é a invenção poética que amplia o sentido da realidade, tanto a realidade externa quanto a interna.

A invenção neg@cionista apequena e aprisiona; a invenção  poética   horizonta e liberta.

Quando Manoel afirma que “Poesia pode ser que seja fazer outro mundo” , ele quer dizer que a poesia nasce da mesma fonte da qual brota a  ética.


( Imagem: Espinosa & Manoel :  PoÉtica = Poesia + Ética)



 

Luiz & Manoel:



sábado, 18 de janeiro de 2025

Espinosa: saúde da mente e do corpo / Deleuze: 100 anos

 

Em sua Ética, Espinosa ensina que a saúde do corpo depende de que  ele se nutra de alimentos diferentes (Ética, Quarta Parte, Apêndice, Capítulo 27). Não alimentos caros, mas alimentos diferentes, até mesmo simples. Pois a multiplicidade aumenta a potência e saúde da singularidade que a incorpora  , fazendo a diversidade ser   parte  integrante de si.

Mas para que esses alimentos diferentes potencializem o corpo que deles se alimenta, é preciso que esses alimentos se componham , ou seja, que a união deles seja um acréscimo de força, de saúde e até mesmo de harmonia, como numa polifonia musical feita com sons de instrumentos diferentes que, juntos, criam uma música singular, única. 

Nosso corpo é composto de diferentes tecidos, de variadas estruturas ósseas, de sutis construções nervosas; e toda essa heterogeneidade que nos compõe , e que faz de cada um de nós um ser único, requer igualmente uma heterogeneidade de alimentos para manter-se e regenerar-se.

 Ao contrário, um corpo que se alimenta de apenas uma coisa, ou de poucas coisas, empobrece sua potência e saúde, uma vez que essa única coisa ou poucas coisas ingeridas irão alimentar apenas poucas coisas em nós , criando assim um desequilíbrio e uma desarmonia. Como resultado, nosso corpo será um misto debilitante  de excessos e carências.  

Se para nos alimentar dependêssemos apenas da monocultura que o agro-ogro produz, estaríamos todos doentes...O que nos salva é a riqueza plural da pluri-agricultura familiar.

O que vale para nosso corpo vale ainda mais para a nossa mente. Uma mente potente é aquela que se nutre de ideias múltiplas, diversas, plurais. Ideias que vêm não apenas de livros, mas também de músicas, filmes, pinturas,  poesias, exposições , enfim, ideias múltiplas que nascem da vida, ideias para serem pensadas, sentidas , vividas e postas em prática.  

São essas ideias plurais que alimentam e enriquecem de vida pensante uma mente singular. São elas que garantem a saúde da mente, tanto a mente individual quanto a coletiva . Enfim, uma polifonia de ideias expande a mente , tornando-a criativa e aberta à heterogeneidade do próprio mundo.  

Ao contrário, a mente que se nutre de uma ideia única, na verdade não se alimenta, e sim se envenena. Mente assim se fecha à heterogeneidade da realidade,  passando  a negá-la ou a temê-la . E disso se aproveitam os dogmas, as “seitas” de toda espécie ( incluindo a “seita do Mercado” ), os fanatismos, as palavras de ordem e tudo aquilo que alimenta a ignorância em suas diversas formas.


(Imagem: “Polifonia”/ Paul Klee)




Inspirando-me em Espinosa, sempre gosto de trazer pintura , poesia e música para acompanharem as ideias escritas, para assim enriquecerem  com pluralidade o aprendizado ( unindo ideia e afeto, intelecto  e sensibilidade). Creio que essa lição espinosista também se encontra em Deleuze quando criou a ideia de “pop’filosofia”, que é a filosofia agenciada com as artes. A pop’filosofia une mente e corpo, ideias e afetos, pois é a criação de uma filosofia aberta à não filosofia. 

Hoje, 18/01/2025, Deleuze faria 100 anos. Em homenagem a ele, deixarei uma música de um artista que era um de seus preferidos: Bob Dylan ( inclusive, Deleuze cita Bob Dylan ao falar da pop'filosofia):




sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

As linhas de fuga e o "Capetalismo"

 

Creio que não há nenhuma surpresa nas declarações recentes do dono da empresa Meta ( proprietária  do  facebook)  submetendo-se   servilmente ao trumpismo e outros obscur4ntismos , já que os algoritmos  da IA  da Meta   fazem isso há tempos, sobretudo censurando postagens de cunho progressista.

Isso mostra que, no “Capetalismo” ( como dizia o “Profeta Gentileza”) , nunca os interesses são exclusivamente “econômicos”, pois o fundo é sempre político ( aqui no Brasil ,  por exemplo, isso se revela  no ataque especulativo do “mercado” ao  governo ) . No caso da empresa Meta, o fundo é a política imperialista estadunidense e seus l4c4ios .

Aliás, em sua  própria declaração , o empresário das “Big Techs”  já deu o tom e indicou o caminho neg4cionist4 que, se depender dele,  suas redes  tomarão  , ao acumpliciar-se com   ações  criminosas  como se fossem  “liberdade de expressão”.

De minha parte, ante esses poderes que ameaçam nossa dignidade e vida pensante, sempre busco  na filosofia alguma ideia-ferramenta de resistência e luta para  partilhar, seja em sala de aula, aqui ou em qualquer outro  lugar . Por exemplo, a ideia de “linha de fuga” ensinada por Deleuze & Guattari.

Dito de maneira simples, linha de fuga não é fugir de algo, mas fazer fugir algo que algum poder ( físico ou simbólico)  quer reprimir, aprisionar. As linhas de fuga são construídas com criatividade , crítica , coragem e perseverança ; e  sempre a partir de dentro de  uma situação ou lugar onde se está ,  nunca a partir de fora.

Umberto Eco chamava essa prática de subverter a lógica da mídia desumanizante/alienante, no espaço  mesmo onde ela acontece,   de “guerrilha semiótica”.

Produzir e partilhar  conhecimento, empatia, sensibilidade social e afetos emancipadores  aqui nesta rede é, e  sempre será , um exercício de  linha de fuga.

É compreensível  e legítima a decisão de quem  escolha sair das redes, mas acho que também pode ser uma boa  estratégia a ação de quem decida permanecer para , de dentro, construir linhas de fuga, por mais simples e modestas que sejam.

As linhas de fuga sempre foram necessárias, porém o serão ainda mais nesse mundo que se avizinha.


( este livro é apenas uma sugestão )



 

“Profeta Gentileza” , ou simplesmente “Gentileza”, foi um personagem que caminhava pelas ruas do Centro do Rio distribuindo flores de graça, sem pedir nada em troca ( muito menos dízimo...). Foi o próprio povo que o batizou de “Gentileza”. Enquanto ofertava gentilmente  flores a quem passava, ele dizia : “O Capetalismo mata a gentileza...”  Seu “mantra” costumava ser: “Gentileza gera gentileza”. Para ele, ser gentil era uma maneira de ser anticapitalista.



 

O professor Leonardo Guelman escreveu um excelente livro sobre o Profeta Gentileza:



quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

sem anistia

 

Como nos ensina Espinosa, a  democracia não tem por centro altares, como num templo, e nem é feita de  hierarquias rígidas, à maneira da caserna.

Quando os representantes do  templo  e da caserna , extrapolando seus espaços , também ambicionam  poder político, corre perigo  a democracia ameaçada por intolerâncias, negacionismos e  fanatismos  armados com a força  bruta do militarismo a serviço do delírio teológico-político.

A força da democracia não é bélica, a força da democracia  é a das ideias plurais pensadas e realizadas em conjunto , perseverantemente. E também em conjunto,  perseverantemente,  precisam ser defendidas.

8 de janeiro: #semanistiaparagolpistas!

 

“A virtude com a qual o homem livre evita os perigos

revela-se tão grande quanto a virtude com a qual ele os enfrenta”.

( Espinosa, Ética, Quarta Parte, proposição  69)

domingo, 5 de janeiro de 2025

Aion

 

Aconteceu lá no começo das eras :  talvez tenha sido uma criança que, brincando,  pegou uma  semente  que recolheu da floresta  e a plantou em um pedaço de  terra próximo de onde  morava. Depois, os adultos tiraram proveito, substituindo a brincadeira e o lúdico pela dominação técnica da natureza .

Antes, a planta crescia livre , sem cercas . Agora ela era cultivada  pelos homens  que a desterritorializaram   de um espaço livre e a reterritorializaram em uma terra cercada . Foi assim que  nasceu a agricultura: com a domesticação do que antes crescia e vivia livre na natureza

“Domesticar”  significa : “colocar sob o poder de um domicílio”. Mas não era apenas a planta  que era assim domesticada,  pois junto com ela  também era domesticada outra realidade .

O homem  de então percebeu que a planta nasce, cresce , dá  frutos e  morre.   Houve a compreensão de que a planta existe dentro de um período com fases e ciclos. O homem deu um nome para essa realidade feita de ciclos: ele a chamou de “tempo”. 

Depois, o homem  abstraiu o tempo do cultivo empírico das plantas, ficando  apenas com a ideia de ciclo , estendendo-a  ao cosmos e  a si mesmo. E assim se viu  criança,  adulto e idoso. Ele percebeu que sua vida tinha ciclos, como a vida da planta. Compreendeu que ele era nascimento, vida e morte.

A domesticação do tempo ensejou  também a descoberta do domicílio onde mora o homem: enquanto os deuses moram na eternidade, o homem tem por morada o tempo. Assim como a planta domesticada passou a viver dentro de cercas, o relógio se tornou  a cerca que limita o tempo domesticado.

Mas a domesticação da planta não fez morrer as florestas nas quais as plantas vivem livres, do mesmo modo que a domesticação do tempo não eliminou o seu existir não domesticado  enquanto duração para além do  relógio.

Esse tempo não domesticado  e livre é o que alguns filósofos chamam  de “devir”. O devir  está para o relógio assim como a floresta está para a agricultura, ou  como a poesia está para a linguagem: como realidade não domada, livre,  que nenhuma cerca simbólica domestica.

Não é por acaso que o “Mercado” prega que  “tempo é dinheiro”, pois os  juros nada  mais são  do que nosso tempo de vida  sendo vampirizado pelo capital. 

 Já a  duração-devir somente pode ser experimentada se cultivarmos em nós um olhar livre de cercas, tal como o têm a criança e o indígena. A duração-devir expressa um valor que não pode ser medido por moeda ou dinheiro.

Enquanto os mercadores do tempo  vivem olhando para o relógio, indígenas, crianças e poetas  vivem a olhar para as estrelas, e por elas se orientam.

Na mitologia, o tempo do relógio é chamado de  Cronos, a divindade que a todos devora, ao passo que a  duração-devir  atende por  Aion, que era simbolizado por uma criança  que brinca.







 

domingo, 29 de dezembro de 2024

Auroras...

 

Em toda  passagem de ano comemoramos um ano novo: um ano velho  vai, um ano novo vem. Mas o ano novo não é um começo radical : ele é a continuidade de um mesmo tempo. É por isso que o ano novo é contado e recebe um número:2025 será um ano novo de um mesmo tempo que é numerado, então, com um ano a mais. 2025 é um novo ano de um mesmo tempo, e não um tempo novo.

Entre os gregos o tempo era vivido de outra maneira. O tempo não era concebido de forma linear e numérica. Os gregos viviam o tempo como repetição cíclica. Dois eventos determinam o ciclo do tempo: o nascimento e a morte, a criação e a destruição.

O tempo nasce, cresce e morre, como tudo o que é vivo. Porém, o tempo renasce, vencendo sua própria morte.  O tempo que renasce é um tempo novo que nada tem a ver com o que morreu.

Esse tempo novo  não é o desenvolvimento ou continuidade de um tempo antigo. Por isso  nenhuma data ou número pode determinar esse tempo  renascido outro. É no tempo novo, e não no tempo morrido, que o tempo mostra sua verdadeira face: a de  recriar a si mesmo, retirando de si mesmo a sua aurora.

Quantos tempos novos já existiram? Impossível numerar... Infinitas vezes já houve um tempo novo. Apesar disso, sempre haverá tempo novo, a despeito dos homens conservadores do antigo.

É para  criar-se novo que o tempo se destrói como antigo. Repetindo-se, o tempo  sempre retorna, diferente. O tempo não é eterno: eterna é a repetição através da qual o tempo retorna, novo.

Esse ensinamento do tempo Nietzsche assim o traduziu: “Só podemos destruir sendo criadores."

 

Às amigas & amigos, desejo-lhes que 2025 seja não apenas um ano novo, mas um tempo novo: uma aurora.




A aurora/alvorada de Cartola: 





 

domingo, 22 de dezembro de 2024

Brincatividades

 

Quando eu era criança, bem criança, meus pais só podiam me dar de presente de natal brinquedos  bem simples, como carrinhos de plástico . Eu recebia tais brinquedos e , agradecido, os guardava , quase não brincava com eles.

Pois esses brinquedos e outros que dependiam do dinheiro não me faziam falta , pois eu gostava mesmo era de brincar com as próprias coisas, subvertendo  seus sentidos e usos utilitários.

Por exemplo, eu gostava de pegar o chinelo de meu pai e fazer de carrinho. Como carrinho lúdico, ao chinelo não faltava nada, pois estava em meus olhos a fonte de vê-lo outra coisa diferente da “visão acostumada”.

Minha mãe era costureira. Eu também gostava de brincar com os carretéis de linhas multicoloridas dela, para assim inventar um Fio de Ariadne como linha de fuga   para tecer outros mundos.

Há uma diferença entre fantasia e criatividade. Imaginar que há fantasmas debaixo da cama é fantasia, e fantasia assim alimenta o medo que infantiliza e apequena.    Mas jogar um lençol sobre a cabeça para brincar de fantasma, isso é criatividade que esconjura o medo e faz crescer por dentro o pensamento livre. O fantasioso é refém de sua mente, já o criativo faz de sua  mente um meio para ressignificar o mundo.

 Brincar com o carrinho de plástico era bom, mas brincar com o chinelo feito carrinho era mais do que brincar: era ato poético-político, ainda que inocente,  de transmutar o sentido do que está dado.

Quando cresci, li no poeta Manoel de Barros algo que me ajudou a compreender esse processo lúdico-transmutador.

Manoel diz que a poesia nasce de uma brincatividade originária, brincatividade essa que existe antes da palavra, na imanência da vida. Quando essa brincatividade ganha nossos olhos, ela os empoema , fazendo nossos olhos   “transverem  o mundo”.

Hoje, creio que somente consigo enxergar  possibilidades de mudar a realidade  , por menor que seja essa realidade e por mais simples que seja a mudança, quando aquele olhar ludicamente subversivo do menino renasce em  mim, abrindo os olhos do adulto.

Às amigas & amigos, desejo-lhes um Feliz Natal e Boas Festas , sobretudo com saúde, saúde do corpo e da mente em mútuo auxílio, como ensina Espinosa.  E que possamos cultivar e partilhar olhares que transvejam caminhos novos ,pessoais e coletivos.

O tempo não é um velho, mas uma criança: dentre seus vários brinquedos, o sempre novo é a esperança.


(Como “Cartão de Boas Festas”, partilho aqui a obra  “Iemanjá” / do artista cubano  Manuel Mendive. Na língua iorubá, “Iemanjá” significa “Mãe que gera”, como Pachamama e Gaia , figuras da Mãe-Terra)



 


O mundo do menino impossível

(Jorge de Lima)

 

Fim da tarde, boquinha da noite

com as primeiras estrelas

e os derradeiros sinos.

 

Entre as estrelas e lá detrás da igreja

surge a lua cheia

para chorar com os poetas.

 

E vão dormir as duas coisas novas desse mundo:

o sol e os meninos.

 

Mas ainda vela

o menino impossível

aí do lado

enquanto todas as crianças mansas

dormem

acalentadas

por Mãe-negra Noite.

O menino impossível

que destruiu

os brinquedos perfeitos

que os vovós lhe deram:

o urso de Nürnberg,

o velho barbado jagoeslavo,

as poupées de Paris aux

cheveux crêpes,

o carrinho português

feito de folha-de-flandres,

a caixa de música checoeslovaca,

o polichinelo italiano

made in England,

o trem de ferro de U. S. A.

e o macaco brasileiro

de Buenos Aires

moviendo da cola y la cabeza.

 

O menino impossível

que destruiu até

os soldados de chumbo de Moscou

e furou os olhos de um Papai Noel,

brinca com sabugos de milho,

caixas vazias,

tacos de pau,

pedrinhas brancas do rio...

 

“Faz de conta que os sabugos

são bois...”

“Faz de conta...”

“Faz de conta...”

E os sabugos de milho

mugem como bois de verdade...

 

e os tacos que deveriam ser

soldadinhos de chumbo são

cangaceiros de chapéus de couro...

 

E as pedrinhas balem!

Coitadinhas das ovelhas mansas

longe das mães

presas nos currais de papelão!

 

É boquinha da noite

no mundo que o menino impossível

povoou sozinho!

 

A mamãe cochila.

O papai cabeceia.

O relógio badala.

 

E vem descendo

uma noite encantada

da lâmpada que expira

lentamente

na parede da sala...

 

O menino pousa a testa

e sonha dentro da noite quieta

da lâmpada apagada

com o mundo maravilhoso

que ele tirou do nada...

 

Chô! Chô! Pavão!

Sai de cima do telhado

Deixa o menino dormir
Seu soninho sossegado!

 




 

 


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Hoje, 19/12, dia do nascimento do poeta-pensador Manoel de Barros

 

Manoel de Barros ensina que poesia é “delírio ôntico”. A palavra “delírio” tem por raiz “lira”. Originariamente, lira é o instrumento tocado pelo poeta Orfeu. Ele não apenas tocava a lira, como também cantava.

 Cantar é esculpir  o sopro da voz, tornando escultor nosso Pneuma. Quem canta, partilha seu Pneuma, seu sopro vital, não apenas com o outro ser humano que o ouve, mas com todos os seres vivos, incluindo as plantas  .  Quem canta com o Pneuma, pois nem todo canto traz o Pneuma, também se liga ao cosmos inteiro.

“Lira” também era o nome dos sulcos paralelos  feitos na terra para neles serem lançadas as sementes, pois os sulcos lembram as paralelas cordas da lira. Assim, de-lirar é : “lançar a semente fora da lira”. E semente que cai fora do sulco não germina.

Mas quando nasce no pensador-criador uma ideia-semente nova, ele precisa criar também um novo sulco na terra, como uma nova sinapse que enriquece e amplia o cérebro.

“Ôntico” vem da palavra grega “on”: “ser”. Dessa maneira, “delírio ôntico” é criação poética de novos e diferentes  sentidos para o ser, incluindo o ser que desejamos ser.

O contrário do delírio ôntico é o delírio mórbido, delírio de poder, caracterizado pela palavra lançada fora de todo sulco, palavra que cai no árido deserto de ideias. Não é uma palavra que germina, é uma palavra morta de sentido, como todas aquelas que saem da boca de um fascista, palavras a serviço da destruição e morte.

Na obra Fedro, Platão dizia que a loucura é toda forma de comportamento que rompe com o “acostumado”, diria Manoel de Barros, de um viver padronizado instituído por um grupo.

Mas há duas formas de loucura, dizia Platão. A primeira delas é quando se rompe com os padrões comportamentais de um determinado grupo, porém indo acabar  recluso em uma realidade inferior, passando a se assemelhar mais  aos bichos  do que aos seres humanos. Dessa forma de loucura vêm os crimes, as desumanidades, as barbáreis...

E há a forma de loucura divina ( a palavra “divino” tem por sentido originário “luz fulgurosa”, como a do relâmpago). Nessa forma de loucura,   alça-se a uma realidade superior, realidade essa somente alcançável em quem vê nascer em suas costas as asas de Eros, as asas do Amor.

Essa loucura divina tem quatro níveis , cada um deles representado pelas divindades  Apolo, Dioniso, as Musas e o par Afrodite-Eros.

Apolo expressa o que Manoel de Barros chama de “transver”: um ver que vai além do meramente dado; Dioniso é a potência libertária de inventar caminhos, linhas de fuga: “O andarilho abastece de pernas as distâncias”(Manoel de Barros); as Musas são os aprendizados e saberes que vêm das artes; e o par Afrodite-Eros expressa a semeadora, Afrodite, e a semente , Eros-Amor: semente que liberta tudo aquilo onde germina e desabrocha ( em Lucrécio, por exemplo,  Vênus-Afrodite é quem guarda e semeia as sementes de tudo o que tem vida e brota).




 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Mínimas III

 

Nietzsche acreditava nas estrelas como divindades:

a luz que emanam bendiz todo caos.

 

O Deus de Descartes era a Régua:

no altar da Retidão,como vítima,

ele queria que fosse sacrificado o coração .

 

Platão invejava os pardais:

e como tais assobiou na palavra.

 

Como criança assaz curiosa,

Aristóteles queria desmontar toda a natureza,

ao preço de se perder o divino brinquedo.

 

Espinosa dava aulas sem dizer palavra:

de espírito  a espírito,

de coração a coração se falava e se escutava.

sábado, 14 de dezembro de 2024

Clarice: um sopro de vida / O beija-flor

 

Os  poetas e filósofos gregos deram   nomes diferentes para a "alma". O mais famoso deles é Psiquê.

Na mitologia, Psiquê formava um par com Eros, o Amor. Em grego, "Eros" também significa "asas". Não as asas de pássaro, mas as asas de borboleta. Enquanto os pássaros  já nascem com asas, as asas da borboleta só nascem após uma metamorfose. Pássaros nascem de ovos; borboletas ,  de casulos.

O casulo é uma espécie de útero no qual a lagarta torna-se a artista  que esculpe , pinta e borda a si mesma, para assim partejar-se outra:  antes ela rastejava, agora ela se alça e voa.

As asas que elevam a alma são as do Afeto e das Ideias: poesia  e  filosofia  . Esse Afeto Pensante é um  dos sentidos de "phylo" em "phylo-sofia": "amor por Sofia".

Sofia também é um dos nomes da alma. Sofia é mais do que Razão. Em grego, "Razão" é "Logos", palavra masculina. Enquanto "Razão" é raciocínio, teoria e moral, Sofia é sensibilidade, criatividade, intuição e ética, assim unindo o pensar à prática.

Outro nome da alma é  Pneuma. Em latim, pneuma  é "spiritus":  "sopro quente e úmido", quente no sentido do calor da vida. Por isso, todo sopro de vida "acalenta": "traz calor" que afasta o frio.

Pneuma  também é a brisa úmida que vem do oceano e vivifica o deserto, nele fazendo brotar  cores, flores, sementes, enfim, múltiplas vidas.

Quando o recém-nascido nasce, antes de abrir os olhos ele inspira o pneuma , o sopro de vida. Não são apenas os pequeninos pulmões do recém-nascido que se enchem de ar, pois cada célula é acalentada pelo pneuma  , inclusive as células do nervo ótico, que assim se abrem para receberem a luz do mundo.

Esse primeiro pneuma que o recém-nascido inspira o umbilica  ao Sopro Cósmico da respiração da Terra, nossa Mãe Ancestral.  Não por acaso, meditar é "medicar": prestar atenção na respiração que somos, respiração essa que nos desperta para a compreensão de que , pela respiração, somos partes de um todo cujas outras partes são os animais, as plantas, as florestas, enfim, tudo o que vive e respira .

Este é o sentido originário de "inspiração" : "encher-se de pneuma, sopro de vida”. A cada vez que respiramos, trazemos para dentro de nós o sopro de vida que irá se acrescer ao sopro de vida que vive em nós. Quando expiramos, parte do pneuma que estava em nós retorna ao pulmão  da Terra , para assim ser de vida renovado.

Quando falamos palavras que educam , o pneuma  que partilhamos  enche nossas palavras com ar  que oxigena as ideias de quem nos escuta. Talvez por isso Clarice Lispector  tenha dito: “Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém”.

 

(Este texto é uma pequena homenagem a Clarice, que faria aniversário nesta semana, dia 10 de dezembro)



 

                                                               A VISITA

Recentemente  entrou em minha casa  um beija-flor. Ele foi atraído pela floração da Espada de São Jorge que eu mantenho  em minha sala , perto da janela.

Dizem que a Espada de São Jorge repele as más energias e atrai as boas, sendo sua floração  tão bela quanto rara.  

Toda manhã eu recebo a visita desse exímio bailarino  da natureza, atraído pelo néctar que as flores da Espada de São Jorge  oferecem de graça.

Foi assim  que descobri que os beija-flores também cantam: quando entra na sala e  avista as flores, o beija-flor emite um canto breve e agudo, como a de um soprano inspirado , e diante das flores ele “voa parado” ( como o beija-flor de que fala o poeta Manoel de Barros).

Uma lição esse beija-flor me ensina toda manhã : assim como a floração da Espada de São Jorge, as ideias que oferecem néctar para a mente são raras, e para alcançá-las é preciso perseverantemente “voar parado”, vencendo os pesos que puxam para baixo, o que requer mais arte do que força.

 

E enquanto o beija-flor me visitava hoje pela manhã cantando com especial alegria , li no jornal a notícia do dia, do mês e das últimas décadas , sobretudo para a democracia  , trazendo um “sopro de vida” para ela , para nós: a prisão do general-golpista. Só falta o agora o chefe dele...@sem anistia

 

 (Imagem: “Beija-flor”/ de Maudie Lewis)