quinta-feira, 4 de novembro de 2021

da origem das palavras

 

“Perseverança” vem de “perseverare” : “manter-se firme”, como deve ser  a mão estendida para segurar quem ameaça cair.

“Amor” se origina da união da letra  “a” com função privativa ( como em “a-fasia” : “não fala”) mais a abreviação da palavra morte: “mor”. Assim, amor é : “não morte”. Quando nos unimos por amor à democracia, é pela “não morte” da democracia que nos unimos.

“Oportunidade” nasce de “oportunus”, que era o nome do vento que trazia de volta ao porto o navio que se perdeu numa tempestade.

“Filosofia” é a união de “phylo” , “amor” ou “amizade”, mais “sophia”, também chamada de “sabedoria”. A palavra “sophia” não é a mesma coisa que razão. Pois sophia  também é sensibilidade , afeto e ação. “Sophia”, inclusive, pode ser nome de gente, porém ninguém se chama “Razão”, embora os intolerantes se julguem donos dela.

“Educador” é “aquele que conduz”; e forma par com “educando”: “aquele que é conduzido”, porém sobre as próprias pernas , com autonomia.

“Absoluto” : “o que não é soluto”. É “soluto” tudo aquilo que se dissolve. Mesmo a pedra é soluta e se dissolve, até mesmo o aço, embora exija muito tempo para o aço dissolver-se. Assim, “absoluto” não é o mesmo que “eternidade”. Pois “eternidade” se opõe ao tempo, ao passo que um momento do tempo pode ser absoluto, desde que o salve a criatividade , fazendo-o viver no poema, na música, enfim, na arte. O girassol que Van Gogh viu certo dia num campo florido, esse girassol desapareceu para todo o sempre , nem pó é mais...Porém, ele se tornou absoluto  no girassol que Van Gogh pintou. As técnicas de conservação aplicadas sobre o quadro não são para conservarem as tintas por elas mesmas, mas enquanto elas são o meio expressivo que dão corpo ao girassol  absoluto que Van Gogh criou com as tintas. Assim é também o Pantanal que encontramos nos versos de Manoel de Barros: Pantanal Absoluto que os fascistas nunca conseguirão queimar ou destruir totalmente, por mais que tentem.

“Dioniso” : “aquele que nasceu duas vezes”. A primeira vez que Dioniso nasceu foi quando veio ao mundo: como todo recém-nascido, veio ao mundo chorando. A segunda vez que ele nasceu foi após ser despedaçado por seus carrascos, quando então Dioniso renasceu do próprio coração. E desse renascer Dioniso surgiu sorrindo, na alegria do triunfo da vida.


“A poesia está guardada nas palavras, é tudo o que sei.”(Manoel de Barros).




quarta-feira, 3 de novembro de 2021

"Marighella", de Wagner Moura

 

Trecho do filme "Marighella", de Wagner Moura . O hino deixa de ser uma marcha autoritária cantada em posição rígida e militar,  para se tornar um grito doído , cantado coletivamente, expressando um misto de dor, tragédia e perseverante resistência daqueles que, ontem e hoje, convergindo vozes diferentes, ainda creem que este  país pode ser algo diferente.



terça-feira, 2 de novembro de 2021

Nelson Freire

 

A palavra “música” vem de “Musa”. No sentido original, “Musa” significa: “conhecimento que vem das artes”. Pois música, poesia, teatro, dança...também ensinam.

As artes ensinam de forma não teórica, pois as artes  trazem  o corpo e a sensibilidade como partes do seu ensino e aprendizado. As artes ensinam a olhar, a ouvir, a tocar, enfim, a sentir e pensar, em sentir para pensar.

Quando eu fazia faculdade na UERJ, o secretário de cultura do Rio era o grande educador Darcy Ribeiro, e a UERJ se tornou fonte e palco de inúmeros projetos culturais, tudo de graça.

As noites das terças, por exemplo, eram aguardadas por nós como o dia que teríamos uma aula transformadora.  Em vez de acontecer na sala de aula, o aprendizado acontecia num  simpático auditório . No lugar dos livros, um piano; em vez de palavras, os sons da música.

A gente entrava no auditório e sentava, sabendo que não sairíamos os mesmos dali. Até que entra o nosso professor para aquela aula  aguardada, aula que seria proferida com música. O professor era o grande pianista Nelson Freire.

 Ele já era um artista conhecido mundialmente, porém estava ali com a mesma alegria e dedicação de sempre. Não é o lugar que faz o artista, é o artista que transforma o lugar.

Não eram apenas alunos e professores o público que ali estava, também havia funcionários e moradores da comunidade da Mangueira,  que ficava  ao lado da UERJ.

Ele nos cumprimentava de forma simples e simpática, sentava junto ao  piano e , a um sinal silencioso seu,  todas as forças luminosas do universo tomavam a forma de música a nascer de suas mãos criativas e generosas.

Ontem faleceu o grande Nelson Freire. Na minha formação em filosofia, hoje sei que ouvir sua música foi, para mim, matéria indispensável e necessária.

 Meu agradecimento e homenagem ao mestre.








sociopatias

 

Como sempre , a mídia comercial segue no seu papel ambíguo, para dizer o menos, na sua relação com o fascismo-genocida-miliciano em marcha no Brasil. De olhos e garras  nas negociatas com o patrimônio público, o genocida e sua equipe de predadores sabem como obter “vistas grossas” de tal mídia: basta anunciar  a venda de alguma estatal ou ameaçar  o funcionalismo público.

Foi manchete nos jornais e televisões comerciais  o comportamento do genocida na antessala do auditório do G20 repleta de chefes de Estado. Sem aprofundar na análise do comportamento do genocida, a mídia resumiu a situação dizendo que ele estava “deslocado” ou que foi “rejeitado” pelos outros líderes.

Mas o que fica claro é o aspecto psico-sócio-patológico no comportamento desse néscio. Ele não foi rejeitado pelos outros, é ele que nega o outro. Mas não é uma negação que se opõe à afirmação,  como o discordar em relação ao concordar. Ao contrário, é uma negação do outro mais profunda,  que acontece no interior do genocida: uma negação patológica visível em seu “isolamento” existencial no G20.

Esse comportamento é  ainda  mais doentio no seu  ódio às mulheres, pois a mulher é o outro visto pelo machista como ameaça ao seu patriarcado. O mesmo acontece em relação aos indígenas, enquanto outro modo de vida não branco-cristão-capitalista-conservador.

 Depois, o genocida deu ordens para que seus assessores-capachos achassem alguém para tirá-lo  daquela tortura existencial que deve ser ele para ele mesmo. Trouxeram pelo braço o Erdogan, presidente da Turquia, que ficou mudo, pasmo, ouvindo o monólogo delirante do genocida dizendo o quanto ele , o genocida, era amado pelo povo brasileiro e  que o Brasil era o paraíso na terra.

Aquela fala do genocida era uma espécie de defesa paranoica evocando um  amor fantasioso que ele diz receber para assim tentar se defender do  desprezo real que o cercava, desprezo esse que era  o reflexo exterior do ódio  interior que o genocida  tem de si mesmo e do outro .

Como ele não reconheceu no rosto de Erdogan a expressão bovina daqueles que dizem amém para seu delírio lá naquele cercadinho de Brasília, a realidade circundante  calou o delírio monológico do genocida.

Como última tentativa de se inserir na realidade, o genocida  se aproximou daquele “cercadinho” onde se encontravam os garçons, pois ali ele podia restabelecer uma relação de poder na qual ele era o chefe paternalista , tentando reproduzir a atmosfera do seu “cercadinho” de Brasília.

Então, ali ele pôde ser ele mesmo, sem os “outros” para atrapalhar, já que os garçons, em sua visão casagrandista em relação ao trabalhador, não eram bem um “outro”, mas seres que o servem. Ali, então, o genocida soltou suas piadas de mau gosto, seus chistes homofóbicos, enfim, zombou dos outros...

Como dizia Aristóteles, é possível ao sábio esconder sua sabedoria, porém é impossível ao néscio esconder sua ignorância: basta ele abrir a boca.





segunda-feira, 1 de novembro de 2021

manoel, clarice & deleuze

 

Quando eu era bem criança, antes mesmo de saber ler e escrever , fiz uma rica descoberta que não cabe  no  que ensinam cartilhas e tabuadas: aprendi que se podia brincar também com o pensamento.

Foi assim: após aprender a contar de zero a dez, descobri que o zero nem sempre é zero, isto é , coisa nenhuma. Ele é coisa nenhuma  quando é visto sozinho, isolado, como se fosse um ego ensimesmado.

Mas se engana quem acha que o zero é só isso. Pois quando o zero é colocado para fazer companhia ao 1, e este aceita a companhia do zero, o 1 vira 10. Como pode o zero fazer o mero 1 se tornar dez “uns”, isto é, dez unidades dele mesmo?

E essa interrogação levava a outras: colocando dois zeros , o 1 cresce ainda mais, sem deixar de ser 1, mas ao mesmo tempo já não sendo : ele se torna 100! Colocando mais um zero, nasce o 1.000!

 Descobri então que o zero não é uma “nulidade”, a não ser que se deixe reduzir a isso. Pois  se a gente  coloca o zero  na companhia de outro número dele diferente, do encontro  nascem outros números, como se dentro do zero  existissem potencialidades que a gente só conhece quando ele  "desabre” ( “desabrir”  é  prática poético-pedagógica, existencial,   ensinada  pelo poeta Manoel de Barros) .

O  zero precisa do 1 para se saber mais do que zero. É a diferença, o outro, que o enriquece. Quando o zero  conhece a si próprio, ele vê então o que ele é de verdade:  não coisa nenhuma  , mas um “ovo”, uma realidade cheia de potencialidades. 

Depois de fazer  essa descoberta, ainda bem criança, sempre que alguém perguntava minha idade eu respondia: “Tenho mais de 1.000 anos!”, e os adultos riam achando que eu não sabia contar os anos. Mas na verdade eu  queria dizer , brincando, que o pensar  faz a alma aumentar em mil seu tamanho.

Depois aprendi com poetas e filósofos libertários que o pensar só é autêntico quando faz a gente agir para sair do ovo . E quanto mais gente sair ( mil, milhares, milhões...) , mas difícil fica para o poder autoritário querer nos  reduzir  a coisa nenhuma.

Já adulto, (re)descobri lendo Manoel de Barros aquilo que intuí quando criança: esse nada não é “coisa nenhuma”, tampouco é reativo niilista; ao contrário, ele  pode ser a riqueza da qual nasce o que, para existir,  precisa ser criado.


“Às vezes começa-se a brincar de pensar,

e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco.” ( Clarice Lispector)


"A zeroidade é o plano de imanência do pensamento." (Deleuze)




domingo, 31 de outubro de 2021

usufructus

 

Certa vez, antes do início de uma aula, eu estava conversando com uma turma muito simpática e generosa comigo. Naquele dia, começava a primavera. E o assunto era este: a natureza. Então, de repente, uma aluna me perguntou: “Professor, qual sua árvore preferida?”. “Amendoeira”, respondi. Houve risos na sala, risos de humor. Até que outro aluno ponderou: “Mas professor, o fruto da  amendoeira nem se compara com os frutos do abacateiro, da macieira, da mangueira...rs...”

Também com humor, mas sem perder a oportunidade para  horizontar e empoemar à maneira de Manoel de Barros,  respondi mais ou menos o seguinte:

“A palavra ‘fructus’ significa algo que um ser , com seu esforço e arte, foi capaz de produzir. O ‘fructus’ é o que determinado ser possui de melhor. O verdadeiro  ‘fructus’ da amendoeira não é amêndoa , e sim a sombra. É uma sombra generosa , como uma imensa sombrinha da natureza. Protege do sol e igualmente da chuva. A amendoeira também é ótima para se construir balanços para crianças sob seus galhos, e suas próprias raízes servem de bancos para conversações ao abrigo  das intempéries.”

E continuei : “Nem sempre o fructus de um ser é visível , às vezes é preciso descobrir o que um ser tem melhor, isso vale para as amendoeiras e também para as pessoas. Este é o sentido de ‘usufruto’: saber achar e reconhecer o que um ser  tem de melhor, e que muitas vezes nos é oferecido sem pedir nada em troca, como a sombra da amendoeira, uma riqueza que não se mede em dinheiro.”

“Além disso, prossegui, gosto também da modéstia da amendoeira. Sua floração é uma das mais belas da natureza. Mas para não fazer inveja às outras árvores, a amendoeira floresce apenas durante um curto espaço de tempo, entre o crepúsculo e a aurora. Pensando mais em nós do que nela, sua floração é breve  para não nos deixar muito tempo  sem sua sombra. Discreta, segura de sua beleza , ela troca de roupa e mostra a riqueza de suas flores apenas  para olhos que sabem achar  belezas raras . ” 

Para ajudar na minha defesa das amendoeiras, mostrei à turma um dos mais belos quadros de Van Gogh: “Amendoeira em flor”. Creio que, naquele dia, a amendoeira ganhou novos admiradores...rs...😉


(Imagem: o quadro citado de Van Gogh)







sábado, 30 de outubro de 2021

nietzsche & manoel

 

Nietzsche diz que o homem pode passar por três metamorfoses :a do burro ( ou camelo), a do leão e a da criança.

O burro é aquele que diz “sim” ao que está dado: ele aceita, passivamente, os valores estabelecidos por intermédio dos quais o poder dominante se perpetua. Sua forma de aceitação é “oferecer as costas” para carregar, assim se entregando à “servidão voluntária” , nisso lembrando também um “gado”. É assim que o burro se sente “útil” : carregando o peso que em suas costas colocaram. Todos nascemos mais ou menos burros, pois carregamos , desde a infância , os valores de um mundo que já achamos pronto, dado.

Quando o poder diz que só se deve ensinar às crianças tabuada e gramática, e nada de artes e filosofia, o que ele quer é manter submissos seus carregadores também no futuro.

O leão pode nascer do burro quando este sofre uma metamorfose, aprendendo a dizer “NÃO”. Ninguém sobe no dorso de um leão: ele vê em tudo uma jaula onde querem prendê-lo. O leão é ferozmente crítico e cético, imaginando que ser potente é negar . O leão pode mais do que o burro, porém é incapaz de criar , pois para criar é preciso crer. E o leão em nada crê. O leão imagina que crer é ser como o burro que ele já foi.

Do leão pode surgir nova metamorfose: a criança, aquela que redescobre a força do “Sim”. Pois o Sim da criança não é como o sim alienado do burro. O Sim da criança sobreviveu ao não do leão, o incorporou como crítica, porém vai além dele, tornando-se afirmação de uma potência criativa .

A criança não carrega, como o burro; nem ruge e ameaça, como o leão. Ela libertou-se de todo peso, corre e dança, e há nela uma força mais poderosa que a dos dentes e garras.

O burro é refém dos valores do presente que o esmaga e aliena; já o leão nasceu quando este presente virou passado que o leão não quer mais que se repita. Mas a criança é , ao mesmo tempo, metamorfose no presente e libertação do passado em razão de uma crença ativa no futuro , uma “linha de fuga”, como criação de novas possibilidades para a vida, a despeito das forças obscurantistas que ameaçam retê-la.

Não se trata de otimismo ou esperança, mas de perseverança: “Só podemos destruir sendo criadores”. (Nietzsche)

Em Manoel de Barros, o devir-criança sobre o qual filosofa Nietzsche se torna exercício poético-brincativo, crítico e criativo,  da resistência.




 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

cultura e educação

 

A cultura humana nasceu da prática de cultivo de três plantas cujo valor é também simbólico: a vinha, a oliveira e o trigo.

 A vinha é a árvore da qual  vem o vinho. Essa bebida está associada à festa, à alegria, a Dioniso. Pois festa e alegria também são partes daquilo que dá sentido à existência humana.

  Da oliveira vem o azeite de oliva. O azeite é tempero: ele ajuda a preparar  o alimento. De tempero vem “temperança”, uma das virtudes  fundamentais da ética. O azeite também é parte dos ritos sagrados de diferentes sociedades , pois ele é um   elemento que unge e protege .

E do trigo vem o  pão. O pão é o que mata a fome. Mas há também o aspecto simbólico do “pão”. Em latim, “pão” é “panis” , raiz do termo “companis”, do qual nasce “companheiro”: “aquele com quem dividimos o pão.” Há o pão que mata a fome do corpo, e há também o pão que alimenta a ação ( o pão da liberdade) , o conhecimento (o pão das ideias) e a sensibilidade( o pão das artes). 

A vinha e a oliveira podem  crescer sozinhas na natureza, isto é, sem precisarem ser cultivadas. Porém  o trigo é tão frágil, requer tantos cuidados, que ele somente cresce sendo cultivado pelas mãos humanas : mãos que cuidem, fertilizem...  E também saibam afastar as ervas daninhas. Em sua    “Odisseia”, o poeta  Homero compara a condição humana ao trigo.

“Cuidado” vem de “caute”: prática de proteger o que é frágil. Não porque seja fraco, e sim em razão de ser uma potencialidade que, para aflorar, requer que cuidemos. É por isso que o trigo é a semente que também simboliza a condição humana enquanto potencialidade. Toda  semente é frágil, assim como uma criança; porém o cuidado não pode ser frágil: precisa ser perseverante, potente. Não por acaso, “caute” é o lema da Ética de Espinosa.

Os inimigos da cultura sempre fazem culto da selvageria ( nos vários sentidos que essa palavra tem) . Quando a selvageria  domina,  a  semente atrofia e dela  nascem apenas inumanidades  que põem em perigo a condição humana e o terreno aberto e plural da cultura.

Do trigo não vem apenas o pão, dele também vêm o bolo, o macarrão, a farinha, as diversas massas...Enfim, múltiplas realidades  que  podem nascer  da potencialidade  que vive nele.

Semelhante ao trigo também é o homem: somente a cultura pode nele fazer aflorar o poeta, o cientista, o médico, o jardineiro, o professor, o cidadão, enfim, ele mesmo. Pois é a cultura o meio físico e simbólico para  o ser humano criar e dar um sentido a ele próprio, individual e socialmente.

Nesse sentido originário, cultura recebe também outro nome: educação.


                                  "Poeta é ser que vê semente germinar." (Manoel de Barros)

 

(imagem: “Campo de trigo”/ Van Gogh)





 


quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Dostoiévski e o inquisidor

 

“O Grande Inquisidor” é um capítulo  do livro “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiévski. A história  se passa na Inquisição Espanhola, época das hediondas fogueiras a serviço   da  intolerância.

Em meio a tanta violência física e simbólica feita em nome de Cristo, o próprio  Cristo retorna, no meio do povo ( e não “acima de todos”).  Para que não houvesse dúvida que era ele, Cristo faz alguns milagres. Cristo queria assim lembrar aos homens  que sua luz nada tem a ver com a chama trevosa das fogueiras a serviço do ódio, da ignorância  e da morte.

Contudo, os soldados  da Inquisição  prendem Cristo, acusando-o de ser um perigoso subversivo. Cristo é preso e torturado pelas próprias autoridades religiosas que diziam falar em seu nome.

É na prisão que acontece o encontro do Cristo-prisioneiro com o “Grande Inquisidor”, chefe e símbolo do poder inquisitorial.

De imediato, o Inquisidor  se dá conta de que aquele prisioneiro era, de fato , Cristo. O Inquisidor questiona Cristo por qual razão ele retornou, alegando que agora era ele, o Inquisidor, que falava em nome de Deus.

O Inquisidor  recrimina Cristo por ter amado os homens julgando que isso os libertaria, e diz  que a única maneira de salvar  os homens é fazê-los renunciar voluntariamente à liberdade,  despertando neles o medo e a obediência.

O Inquisidor dizia que não podia deixar que Cristo retornasse para amar os homens de novo, pois isso poderia despertar nos homens um amor por eles mesmos, amor esse que sempre vem acompanhado do desejo de ser livre e pôr a liberdade em prática, ameaçando assim a Ordem Estabelecida e seus Reis, Tiranos, Monarcas.

Por fim, ele  ameaça dizendo  que usará seu poder de Inquisidor  para mandar erguer  a fogueira na qual , em nome de Deus, arderá o próprio Cristo-prisioneiro.

“Por ordem minha, essa fogueira  será acesa por aqueles mesmos que você quer salvar”, disse o Inquisidor. E completou: “Os homens só querem de você milagres, não querem a liberdade; com meu poder, eu ofereço a promessa de que toda a felicidade que eles desejam a terão em outra vida, desde que essa miserável vida deles de agora seja de obediência  cega a mim.”

Durante toda a fala do Inquisidor, o Cristo-prisioneiro permanece em silêncio, o que deixa o Inquisidor  possesso , berrando furioso.

Até que Cristo se levanta e se aproxima do Inquisidor, que fica assustado temendo receber um tapa. Mas Cristo chega bem perto e beija de leve o  Judas na boca, e assim o cala.

Ainda em silêncio, Cristo chega à porta da prisão, que então se abre, assim como todas as correntes.

Antes de sair, Cristo se volta e olha para o Inquisidor. Queimando no inferno  do seu próprio ódio , o Inquisidor diz suas últimas palavras ao Cristo: “Vá, e nunca mais volte...”


“Dostoiévski é o único psicólogo com quem tenho algo a aprender." (Nietzsche)


"O que é inferno? Afirmo que é o sofrimento de já não poder amar.”(Dostoiévski)


(estarei neste evento)


Para maiores informações: