sexta-feira, 5 de novembro de 2021
quinta-feira, 4 de novembro de 2021
da origem das palavras
“Perseverança” vem de “perseverare” :
“manter-se firme”, como deve ser a mão
estendida para segurar quem ameaça cair.
“Amor” se origina da união da
letra “a” com função privativa ( como em
“a-fasia” : “não fala”) mais a abreviação da palavra morte: “mor”. Assim, amor
é : “não morte”. Quando nos unimos por amor à democracia, é pela “não morte” da
democracia que nos unimos.
“Oportunidade” nasce de “oportunus”,
que era o nome do vento que trazia de volta ao porto o navio que se perdeu numa
tempestade.
“Filosofia” é a união de “phylo” ,
“amor” ou “amizade”, mais “sophia”, também chamada de “sabedoria”. A palavra
“sophia” não é a mesma coisa que razão. Pois sophia também é sensibilidade , afeto e ação.
“Sophia”, inclusive, pode ser nome de gente, porém ninguém se chama “Razão”,
embora os intolerantes se julguem donos dela.
“Educador” é “aquele que conduz”; e
forma par com “educando”: “aquele que é conduzido”, porém sobre as próprias
pernas , com autonomia.
“Absoluto” : “o que não é soluto”. É
“soluto” tudo aquilo que se dissolve. Mesmo a pedra é soluta e se dissolve, até
mesmo o aço, embora exija muito tempo para o aço dissolver-se. Assim,
“absoluto” não é o mesmo que “eternidade”. Pois “eternidade” se opõe ao tempo,
ao passo que um momento do tempo pode ser absoluto, desde que o salve a
criatividade , fazendo-o viver no poema, na música, enfim, na arte. O girassol
que Van Gogh viu certo dia num campo florido, esse girassol desapareceu para
todo o sempre , nem pó é mais...Porém, ele se tornou absoluto no girassol que Van Gogh pintou. As técnicas
de conservação aplicadas sobre o quadro não são para conservarem as tintas por
elas mesmas, mas enquanto elas são o meio expressivo que dão corpo ao
girassol absoluto que Van Gogh criou com
as tintas. Assim é também o Pantanal que encontramos nos versos de Manoel de
Barros: Pantanal Absoluto que os fascistas nunca conseguirão queimar ou
destruir totalmente, por mais que tentem.
“Dioniso” : “aquele que nasceu duas
vezes”. A primeira vez que Dioniso nasceu foi quando veio ao mundo: como todo
recém-nascido, veio ao mundo chorando. A segunda vez que ele nasceu foi após
ser despedaçado por seus carrascos, quando então Dioniso renasceu do próprio
coração. E desse renascer Dioniso surgiu sorrindo, na alegria do triunfo da
vida.
“A poesia está guardada nas palavras,
é tudo o que sei.”(Manoel de Barros).
quarta-feira, 3 de novembro de 2021
"Marighella", de Wagner Moura
Trecho do filme "Marighella", de Wagner Moura . O hino deixa de ser uma marcha autoritária cantada em posição rígida e militar, para se tornar um grito doído , cantado coletivamente, expressando um misto de dor, tragédia e perseverante resistência daqueles que, ontem e hoje, convergindo vozes diferentes, ainda creem que este país pode ser algo diferente.
terça-feira, 2 de novembro de 2021
Nelson Freire
A palavra “música” vem de “Musa”. No
sentido original, “Musa” significa: “conhecimento que vem das artes”. Pois
música, poesia, teatro, dança...também ensinam.
As artes ensinam de forma não
teórica, pois as artes trazem o corpo e a sensibilidade como partes do seu
ensino e aprendizado. As artes ensinam a olhar, a ouvir, a tocar, enfim, a
sentir e pensar, em sentir para pensar.
Quando eu fazia faculdade na UERJ, o
secretário de cultura do Rio era o grande educador Darcy Ribeiro, e a UERJ se
tornou fonte e palco de inúmeros projetos culturais, tudo de graça.
As noites das terças, por exemplo,
eram aguardadas por nós como o dia que teríamos uma aula transformadora. Em vez de acontecer na sala de aula, o
aprendizado acontecia num simpático
auditório . No lugar dos livros, um piano; em vez de palavras, os sons da
música.
A gente entrava no auditório e
sentava, sabendo que não sairíamos os mesmos dali. Até que entra o nosso
professor para aquela aula aguardada,
aula que seria proferida com música. O professor era o grande pianista Nelson
Freire.
Ele já era um artista conhecido mundialmente,
porém estava ali com a mesma alegria e dedicação de sempre. Não é o lugar que
faz o artista, é o artista que transforma o lugar.
Não eram apenas alunos e professores
o público que ali estava, também havia funcionários e moradores da comunidade
da Mangueira, que ficava ao lado da UERJ.
Ele nos cumprimentava de forma
simples e simpática, sentava junto ao piano e , a um sinal silencioso seu, todas as forças luminosas do universo tomavam
a forma de música a nascer de suas mãos criativas e generosas.
Ontem faleceu o grande Nelson Freire.
Na minha formação em filosofia, hoje sei que ouvir sua música foi, para mim,
matéria indispensável e necessária.
Meu agradecimento e homenagem ao mestre.
sociopatias
Como sempre , a mídia comercial segue
no seu papel ambíguo, para dizer o menos, na sua relação com o fascismo-genocida-miliciano
em marcha no Brasil. De olhos e garras nas
negociatas com o patrimônio público, o genocida e sua equipe de predadores sabem
como obter “vistas grossas” de tal mídia: basta anunciar a venda de alguma estatal ou ameaçar o funcionalismo público.
Foi manchete nos jornais e televisões
comerciais o comportamento do genocida
na antessala do auditório do G20 repleta de chefes de Estado. Sem aprofundar na
análise do comportamento do genocida, a mídia resumiu a situação dizendo que
ele estava “deslocado” ou que foi “rejeitado” pelos outros líderes.
Mas o que fica claro é o aspecto
psico-sócio-patológico no comportamento desse néscio. Ele não foi rejeitado
pelos outros, é ele que nega o outro. Mas não é uma negação que se opõe à afirmação,
como o discordar em relação ao
concordar. Ao contrário, é uma negação do outro mais profunda, que acontece no interior do genocida: uma
negação patológica visível em seu “isolamento” existencial no G20.
Esse comportamento é ainda mais doentio no seu ódio às mulheres, pois a mulher é o outro visto
pelo machista como ameaça ao seu patriarcado. O mesmo acontece em relação aos indígenas,
enquanto outro modo de vida não branco-cristão-capitalista-conservador.
Depois, o genocida deu ordens para que seus
assessores-capachos achassem alguém para tirá-lo daquela tortura existencial que deve ser ele
para ele mesmo. Trouxeram pelo braço o Erdogan, presidente da Turquia, que
ficou mudo, pasmo, ouvindo o monólogo delirante do genocida dizendo o quanto
ele , o genocida, era amado pelo povo brasileiro e que o Brasil era o paraíso na terra.
Aquela fala do genocida era uma
espécie de defesa paranoica evocando um amor fantasioso que ele diz receber para assim
tentar se defender do desprezo real que
o cercava, desprezo esse que era o
reflexo exterior do ódio interior que o
genocida tem de si mesmo e do outro .
Como ele não reconheceu no rosto de
Erdogan a expressão bovina daqueles que dizem amém para seu delírio lá naquele
cercadinho de Brasília, a realidade circundante calou o delírio monológico do genocida.
Como última tentativa de se inserir
na realidade, o genocida se aproximou
daquele “cercadinho” onde se encontravam os garçons, pois ali ele podia restabelecer
uma relação de poder na qual ele era o chefe paternalista , tentando reproduzir
a atmosfera do seu “cercadinho” de Brasília.
Então, ali ele pôde ser ele mesmo,
sem os “outros” para atrapalhar, já que os garçons, em sua visão casagrandista
em relação ao trabalhador, não eram bem um “outro”, mas seres que o servem. Ali,
então, o genocida soltou suas piadas de mau gosto, seus chistes homofóbicos, enfim,
zombou dos outros...
Como dizia Aristóteles, é possível ao
sábio esconder sua sabedoria, porém é impossível ao néscio esconder sua ignorância:
basta ele abrir a boca.
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
manoel, clarice & deleuze
Quando eu era bem criança, antes
mesmo de saber ler e escrever , fiz uma rica descoberta que não cabe no que
ensinam cartilhas e tabuadas: aprendi que se podia brincar também com o pensamento.
Foi assim: após aprender a contar de
zero a dez, descobri que o zero nem sempre é zero, isto é , coisa nenhuma. Ele
é coisa nenhuma quando é visto sozinho,
isolado, como se fosse um ego ensimesmado.
Mas se engana quem acha que o zero é
só isso. Pois quando o zero é colocado para fazer companhia ao 1, e este aceita
a companhia do zero, o 1 vira 10. Como pode o zero fazer o mero 1 se tornar dez
“uns”, isto é, dez unidades dele mesmo?
E essa interrogação levava a outras:
colocando dois zeros , o 1 cresce ainda mais, sem deixar de ser 1, mas ao mesmo
tempo já não sendo : ele se torna 100! Colocando mais um zero, nasce o 1.000!
Descobri então que o zero não é uma
“nulidade”, a não ser que se deixe reduzir a isso. Pois se a gente
coloca o zero na companhia de
outro número dele diferente, do encontro
nascem outros números, como se dentro do zero existissem potencialidades que a gente só
conhece quando ele "desabre” (
“desabrir” é prática poético-pedagógica, existencial, ensinada
pelo poeta Manoel de Barros) .
O
zero precisa do 1 para se saber mais do que zero. É a diferença, o
outro, que o enriquece. Quando o zero
conhece a si próprio, ele vê então o que ele é de verdade: não coisa nenhuma , mas um “ovo”, uma realidade cheia de
potencialidades.
Depois de fazer essa descoberta, ainda bem criança, sempre
que alguém perguntava minha idade eu respondia: “Tenho mais de 1.000 anos!”, e
os adultos riam achando que eu não sabia contar os anos. Mas na verdade eu queria dizer , brincando, que o pensar faz a alma aumentar em mil seu tamanho.
Depois aprendi com poetas e filósofos
libertários que o pensar só é autêntico quando faz a gente agir para sair do
ovo . E quanto mais gente sair ( mil, milhares, milhões...) , mas difícil fica
para o poder autoritário querer nos
reduzir a coisa nenhuma.
Já adulto, (re)descobri lendo Manoel
de Barros aquilo que intuí quando criança: esse nada não é “coisa nenhuma”, tampouco é reativo niilista; ao
contrário, ele pode ser a riqueza da
qual nasce o que, para existir, precisa
ser criado.
“Às vezes começa-se a brincar de
pensar,
e eis que inesperadamente o brinquedo
é que começa a brincar conosco.” ( Clarice Lispector)
"A zeroidade é o plano de
imanência do pensamento." (Deleuze)
domingo, 31 de outubro de 2021
usufructus
Certa vez, antes do início de uma
aula, eu estava conversando com uma turma muito simpática e generosa comigo.
Naquele dia, começava a primavera. E o assunto era este: a natureza. Então, de
repente, uma aluna me perguntou: “Professor, qual sua árvore preferida?”.
“Amendoeira”, respondi. Houve risos na sala, risos de humor. Até que outro
aluno ponderou: “Mas professor, o fruto da
amendoeira nem se compara com os frutos do abacateiro, da macieira, da
mangueira...rs...”
Também com humor, mas sem perder a
oportunidade para horizontar e empoemar
à maneira de Manoel de Barros, respondi
mais ou menos o seguinte:
“A palavra ‘fructus’ significa algo
que um ser , com seu esforço e arte, foi capaz de produzir. O ‘fructus’ é o que
determinado ser possui de melhor. O verdadeiro
‘fructus’ da amendoeira não é amêndoa , e sim a sombra. É uma sombra
generosa , como uma imensa sombrinha da natureza. Protege do sol e igualmente
da chuva. A amendoeira também é ótima para se construir balanços para crianças
sob seus galhos, e suas próprias raízes servem de bancos para conversações ao
abrigo das intempéries.”
E continuei : “Nem sempre o fructus
de um ser é visível , às vezes é preciso descobrir o que um ser tem melhor,
isso vale para as amendoeiras e também para as pessoas. Este é o sentido de
‘usufruto’: saber achar e reconhecer o que um ser tem de melhor, e que muitas vezes nos é
oferecido sem pedir nada em troca, como a sombra da amendoeira, uma riqueza que
não se mede em dinheiro.”
“Além disso, prossegui, gosto também
da modéstia da amendoeira. Sua floração é uma das mais belas da natureza. Mas
para não fazer inveja às outras árvores, a amendoeira floresce apenas durante
um curto espaço de tempo, entre o crepúsculo e a aurora. Pensando mais em nós
do que nela, sua floração é breve para
não nos deixar muito tempo sem sua
sombra. Discreta, segura de sua beleza , ela troca de roupa e mostra a riqueza
de suas flores apenas para olhos que
sabem achar belezas raras . ”
Para ajudar na minha defesa das
amendoeiras, mostrei à turma um dos mais belos quadros de Van Gogh: “Amendoeira
em flor”. Creio que, naquele dia, a amendoeira ganhou novos admiradores...rs...😉
(Imagem: o quadro citado de Van Gogh)
sábado, 30 de outubro de 2021
nietzsche & manoel
Nietzsche diz que o homem pode passar por três metamorfoses :a do burro (
ou camelo), a do leão e a da criança.
O burro é aquele que diz “sim” ao que está dado: ele aceita,
passivamente, os valores estabelecidos por intermédio dos quais o poder
dominante se perpetua. Sua forma de aceitação é “oferecer as costas” para
carregar, assim se entregando à “servidão voluntária” , nisso lembrando também
um “gado”. É assim que o burro se sente “útil” : carregando o peso que em suas
costas colocaram. Todos nascemos mais ou menos burros, pois carregamos , desde
a infância , os valores de um mundo que já achamos pronto, dado.
Quando o poder diz que só se deve ensinar às crianças tabuada e
gramática, e nada de artes e filosofia, o que ele quer é manter submissos seus
carregadores também no futuro.
O leão pode nascer do burro quando este sofre uma metamorfose, aprendendo
a dizer “NÃO”. Ninguém sobe no dorso de um leão: ele vê em tudo uma jaula onde
querem prendê-lo. O leão é ferozmente crítico e cético, imaginando que ser
potente é negar . O leão pode mais do que o burro, porém é incapaz de criar ,
pois para criar é preciso crer. E o leão em nada crê. O leão imagina que crer é
ser como o burro que ele já foi.
Do leão pode surgir nova metamorfose: a criança, aquela que redescobre a
força do “Sim”. Pois o Sim da criança não é como o sim alienado do burro. O Sim
da criança sobreviveu ao não do leão, o incorporou como crítica, porém vai além
dele, tornando-se afirmação de uma potência criativa .
A criança não carrega, como o burro; nem ruge e ameaça, como o leão. Ela
libertou-se de todo peso, corre e dança, e há nela uma força mais poderosa que
a dos dentes e garras.
O burro é refém dos valores do presente que o esmaga e aliena; já o leão
nasceu quando este presente virou passado que o leão não quer mais que se
repita. Mas a criança é , ao mesmo tempo, metamorfose no presente e libertação
do passado em razão de uma crença ativa no futuro , uma “linha de fuga”, como
criação de novas possibilidades para a vida, a despeito das forças
obscurantistas que ameaçam retê-la.
Não se trata de otimismo ou esperança, mas de perseverança: “Só podemos
destruir sendo criadores”. (Nietzsche)
Em Manoel de Barros, o devir-criança sobre o qual filosofa Nietzsche se
torna exercício poético-brincativo, crítico e criativo, da resistência.
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
cultura e educação
A cultura humana nasceu da prática de cultivo de três plantas cujo valor
é também simbólico: a vinha, a oliveira e o trigo.
A vinha é a árvore da qual vem o vinho. Essa bebida está associada à
festa, à alegria, a Dioniso. Pois festa e alegria também são partes daquilo que
dá sentido à existência humana.
Da oliveira vem o azeite de
oliva. O azeite é tempero: ele ajuda a preparar o alimento. De tempero vem “temperança”, uma
das virtudes fundamentais da ética. O
azeite também é parte dos ritos sagrados de diferentes sociedades , pois ele é
um elemento que unge e protege .
E do trigo vem o pão. O pão é o
que mata a fome. Mas há também o aspecto simbólico do “pão”. Em latim, “pão” é
“panis” , raiz do termo “companis”, do qual nasce “companheiro”: “aquele com quem
dividimos o pão.” Há o pão que mata a fome do corpo, e há também o pão que
alimenta a ação ( o pão da liberdade) , o conhecimento (o pão das ideias) e a
sensibilidade( o pão das artes).
A vinha e a oliveira podem crescer
sozinhas na natureza, isto é, sem precisarem ser cultivadas. Porém o trigo é tão frágil, requer tantos cuidados,
que ele somente cresce sendo cultivado pelas mãos humanas : mãos que cuidem,
fertilizem... E também saibam afastar as
ervas daninhas. Em sua “Odisseia”, o
poeta Homero compara a condição humana
ao trigo.
“Cuidado” vem de “caute”: prática de proteger o que é frágil. Não porque
seja fraco, e sim em razão de ser uma potencialidade que, para aflorar, requer
que cuidemos. É por isso que o trigo é a semente que também simboliza a
condição humana enquanto potencialidade. Toda semente é frágil, assim como uma criança;
porém o cuidado não pode ser frágil: precisa ser perseverante, potente. Não por
acaso, “caute” é o lema da Ética de Espinosa.
Os inimigos da cultura sempre fazem culto da selvageria ( nos vários
sentidos que essa palavra tem) . Quando a selvageria domina, a
semente atrofia e dela nascem
apenas inumanidades que põem em perigo a
condição humana e o terreno aberto e plural da cultura.
Do trigo não vem apenas o pão, dele também vêm o bolo, o macarrão, a
farinha, as diversas massas...Enfim, múltiplas realidades que podem nascer
da potencialidade que vive nele.
Semelhante ao trigo também é o homem: somente a cultura pode nele fazer
aflorar o poeta, o cientista, o médico, o jardineiro, o professor, o cidadão,
enfim, ele mesmo. Pois é a cultura o meio físico e simbólico para o ser humano criar e dar um sentido a ele próprio,
individual e socialmente.
Nesse sentido originário, cultura recebe também outro nome: educação.
"Poeta é ser que vê semente germinar." (Manoel de Barros)
(imagem:
“Campo de trigo”/ Van Gogh)
quarta-feira, 27 de outubro de 2021
Dostoiévski e o inquisidor
“O Grande Inquisidor” é um
capítulo do livro “Os irmãos Karamazov”,
de Dostoiévski. A história se passa na
Inquisição Espanhola, época das hediondas fogueiras a serviço da
intolerância.
Em meio a tanta violência física e
simbólica feita em nome de Cristo, o próprio
Cristo retorna, no meio do povo ( e não “acima de todos”). Para que não houvesse dúvida que era ele,
Cristo faz alguns milagres. Cristo queria assim lembrar aos homens que sua luz nada tem a ver com a chama
trevosa das fogueiras a serviço do ódio, da ignorância e da morte.
Contudo, os soldados da Inquisição
prendem Cristo, acusando-o de ser um perigoso subversivo. Cristo é preso
e torturado pelas próprias autoridades religiosas que diziam falar em seu nome.
É na prisão que acontece o encontro
do Cristo-prisioneiro com o “Grande Inquisidor”, chefe e símbolo do poder
inquisitorial.
De imediato, o Inquisidor se dá conta de que aquele prisioneiro era, de
fato , Cristo. O Inquisidor questiona Cristo por qual razão ele retornou, alegando
que agora era ele, o Inquisidor, que falava em nome de Deus.
O Inquisidor recrimina Cristo por ter amado os homens
julgando que isso os libertaria, e diz
que a única maneira de salvar os
homens é fazê-los renunciar voluntariamente à liberdade, despertando neles o medo e a obediência.
O Inquisidor dizia que não podia
deixar que Cristo retornasse para amar os homens de novo, pois isso poderia
despertar nos homens um amor por eles mesmos, amor esse que sempre vem
acompanhado do desejo de ser livre e pôr a liberdade em prática, ameaçando
assim a Ordem Estabelecida e seus Reis, Tiranos, Monarcas.
Por fim, ele ameaça dizendo que usará seu poder de Inquisidor para mandar erguer a fogueira na qual , em nome de Deus, arderá
o próprio Cristo-prisioneiro.
“Por ordem minha, essa fogueira será acesa por aqueles mesmos que você quer
salvar”, disse o Inquisidor. E completou: “Os homens só querem de você
milagres, não querem a liberdade; com meu poder, eu ofereço a promessa de que
toda a felicidade que eles desejam a terão em outra vida, desde que essa
miserável vida deles de agora seja de obediência cega a mim.”
Durante toda a fala do Inquisidor, o
Cristo-prisioneiro permanece em silêncio, o que deixa o Inquisidor possesso , berrando furioso.
Até que Cristo se levanta e se
aproxima do Inquisidor, que fica assustado temendo receber um tapa. Mas Cristo
chega bem perto e beija de leve o Judas
na boca, e assim o cala.
Ainda em silêncio, Cristo chega à
porta da prisão, que então se abre, assim como todas as correntes.
Antes de sair, Cristo se volta e olha
para o Inquisidor. Queimando no inferno
do seu próprio ódio , o Inquisidor diz suas últimas palavras ao Cristo:
“Vá, e nunca mais volte...”
“Dostoiévski é o único psicólogo com
quem tenho algo a aprender." (Nietzsche)
"O que é inferno? Afirmo que é o
sofrimento de já não poder amar.”(Dostoiévski)
(estarei neste evento)
Para maiores informações:







