domingo, 29 de setembro de 2013

Manoel de Barros: a visão fontana






A razão vê,
a poesia transvê.
É preciso transver o mundo.

Manoel de Barros



Segundo Manoel de Barros, o poeta é aquele que possui visão fontana, uma visão que é fonte do que vê. Não é uma visão que constata o referente ou objeto; diferentemente, ela é uma visão que vê , antes, o sentido - que é a alma das coisas. Toda fonte se comunica com um fluxo invisível , que é de onde vêm as águas que nela nascem e fluem. Embora possam estar, hoje, sob o chão, tais águas já estiveram, outrora, no céu  - do qual caíram como chuva; elas já circularam também no interior dos animais, como sangue e suor ; já desceram as montanhas quando a neve derreteu; já foram orvalho nas flores, seiva nos troncos e ,nos frutos, o doce sumo; já foram lágrimas de dor, lágrimas de alegria; já foram o meio que alimentou o feto no interior da placenta. Um dia tais águas sustentaram a Terra, como nos faz crer Tales; e Cristo fez delas vinho, o sangue de toda festa; sobre elas o Espírito, um dia, andou ;hoje sobre elas se surfa, se desliza, se mergulha. E todos, insetos e humanos, flores e animais, até mesmo a Terra, todos a bebem. É esse elemento que está em tudo , e que é a Vida de tudo em processo, é este elemento o que o poeta vê e sente , primeiro nele, como metamorfose e encantamento.





















quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Espinosa: o apetite e o desejo



                                                                                       
O sentido não é o culto ao relativismo como antídoto ao dogmatismo;
o sentido  não é a afirmação de que tudo é igual ou relativo;
o sentido é o relacional: ele é a afirmação do encontro; 
não a relatividade do encontro, mas  a sua necessidade.

José Américo Pessanha.


Pior do que seus frutos ainda estarem verdes,
é se estar ainda verde para os  frutos já maduros.

Nietzsche.


1-A existência do homem, mas não apenas a do homem, está apoiada em uma noção: o apetite. A palavra apetite nasce de um termo latino que significa "pedir", assim como "petição" e "pedido". O apetite é um pedir. Enquanto tal, o apetite não é uma coisa, ele é um processo. É nesse processo, apoiado nele, que a existência transcorre e persevera. Quem o diz é Espinosa.No sentido comum do termo, quem pede,  pede alguma coisa a alguém.Contudo, ao falar do apetite Espinosa se coloca em um plano mais direto com a vida. Todo viver é um processo de apetite. A vida se mede pelo apetite. O apetite concerne não apenas ao corpo, ele concerne também à alma. Enquanto existem, e para permanecerem na existência, corpo e alma pedem: o corpo pede por corpos, a alma pede por almas.O corpo precisa de outros corpos para continuar corpo, a alma precisa de outras almas para continuar alma.Quando sentimos fome, por exemplo,a fome é   o nosso corpo  pedindo corpos ( carne, leite, água, frutas, etc.). O alimento da alma é o afeto. A alma pede amor, justiça, amizade, generosidade...A alma precisa do afeto para continuar alma, pois alma é afeto.
O pedir do corpo é o pedir mesmo da alma visto sob uma outra perspectiva; o pedir da alma é o pedir mesmo do corpo visto sob uma outra perspectiva, pois corpo e alma são a mesma realidade apreendida de duas formas diferentes pelo intelecto.Se nós pudéssemos entrar em contato com a realidade sem ser por intermédio do intelecto, se nós conseguíssemos ir além do que pode apreender o intelecto, certamente experimentaríamos  imediatamente como um aquilo que o intelecto conhece como dois. E essa experiência seria mais do que conhecimento, seria também poesia.
 O corpo e a alma são modificações singulares da Natureza ou Deus, que a nada pede, que de nada carece e a tudo produz.Quando reportamos nossa existência à Natureza como sua causa imanente, passamos do pedir ao produzir, ao afirmar.Quando o quadro fica pronto, quando a música devém realizada, se há amor e potência em seu fazer,parece que a tinta pedia o quadro, parece que os sons pediam a música, não como algo de que careciam, mas como realidade intensa  na qual tinta e som entram , e que os faz existirem mais, pois os faz existirem em composição, como expressão, criação.O mesmo vale para o apetite finito que se descobre parte da composição musical infinita que a Natureza é, polifonicamente. Deus ou a Natureza não tem apetites: Deus ou a Natureza é Potência. No ser finito, portanto, o apetite é a potência que ainda se ignora.
Em suas existências finitas  corpo e alma pedem, porém  não  pedem o mesmo. Todavia, como a maioria das pessoas vive mais a vida do corpo do que a da alma, em geral os homens buscam mais o que pede o corpo do que aquilo que pede a alma. Essa ignorância existencial os leva a substituir o que pede a alma por aquilo que pede o corpo. É por isso que muitos buscam nas coisas materiais um substituto para o afeto que a alma pede, e assim encontram em tudo que o dinheiro pode comprar uma espécie de chupeta , um substituto para o que não tem preço. As coisas que o corpo pede podem ser compradas, furtadas e até mesmo roubadas, mas não o pode ser o afeto.  O inverso também se aplica: o puro idealismo ou a rigidez moral/religiosa nada mais são, na maioria dos casos, do que a impotência de uma existência para ousar obter aquilo que seu corpo pede.Então, aquele que assim padece vai buscar um substituto nas ideias, no imaterial, e assim trai a ambos, o material e o imaterial, a ideia e o corpo, sendo que antes ele trai a si mesmo.
O pedir do apetite só pode ser visto como uma falta ou carência quando reportado exclusivamente  à existência finita no qual ele nasce, isolando essa existência de toda a natureza.Mas quando o pedir do apetite é reportado à natureza, compreendemos o apetite como um desejo de conexão, de agenciamento. 
Há uma diferença entre o pedir e o implorar.Uma coisa é o corpo pedir por alimento, outra é ele implorar por mais alimento, por mais corpos. Do mesmo modo, uma coisa é a alma pedir amor, outra é implorar por amor ou por mais amor. Quando do pedir nasce o implorar,sucumbe-se a uma vida que passa a ser determinada mais por aquilo que ela não tem do que por aquilo que ela é. O ser finito que perde a dimensão positiva da sua diferença vê em tudo aquilo que não é ele coisas que lhe faltam, ao passo que aquele que está de acordo consigo vê nas diferenças possibilidades várias para se conectar e aumentar sua potência de pensar e de agir. 
O apetite pode  transformar-se em mera passionalidade triste ( a que destila a falta)quando do apetite  não nasce o desejo. Para Espinosa, o desejo nasce quando o apetite se reflete sobre si mesmo.O desejo nasce quando o apetite se dobra sobre si mesmo, como a lagarta rastejante que se dobra sobre si para em metamorfose autoproduzir-se asas.O desejo nasce quando o apetite se dobra sobre si, e não   sobre a coisa externa que aparentemente lhe falta, e pela qual ele pede. O desejo é o apetite que reflete sobre aquilo que ele pede, e mede a potência desse pedir, se é liberdade ou servidão.Re-fletir, re-flexão, significa exatamente dobrar-se sobre si mesmo, criando uma pequena distância a si como dimensão crítica e clínica.Assim, a reflexão não é apenas uma atividade psíquica ligada à consciência, ela também é um exercício que concerne ao corpo que devém ativo. O desejo é a compreensão de que o pedir é conexão, e não falta.Enquanto o prazer é o efeito do apetite em sua relação com quantidades, o desejo é o apetite que descobre mais do que a quantidade: ele descobre a qualidade e, mais ainda, a intensidade. Quando o apetite se metamorfoseia em desejo, uma existência aprende não a negar ou reprimir o prazer, ela aprende a ter prazer com qualquer coisa, sobretudo com a vida em seus aspectos mais simples. O apetite é um processo, não uma coisa. Mas quando do apetite não nasce o desejo( que é  sempre puro processo), o apetite pode ficar refém do prazer exclusivo com coisas ( inclusive as coisas que se fuma e bebe, bem como aquelas mais tecnológicas, nas quais se tecla ou tagarela...).
O desejo não concerne apenas ao corpo, o desejo concerne ao corpo e à alma. É por isso que o desejo também é, no que concerne à alma, a ideia adequada do apetite, o seu vencer a mera passionalidade. O desejo não é negação ou repressão do apetite, mas a sua potencialização, de tal modo que aprendemos, pelo desejo, a ter apetite também pelas ideias, pela justiça, pela arte, pelo infinito; do mesmo modo que o corpo também aprende a ter apetite por ouvir, por deambular, por dançar, e não apenas por comer , beber e se anestesiar. O desejo não é o remédio, tampouco o apetite é a doença. O desejo é a saúde, a salut.

***   ***



Minha alma tem a forma do meu corpo:
Mas como é afinal meu corpo?
Eu nunca exato o vi.

Murilo Mendes

2-Não se alcança a saúde através de  um mero lutar contra a doença; não se conquista a alegria por um mero reprimir a tristeza. Do ponto de vista do esforço, e a existência não é um estado mas um processo ou  esforço mesmo para existir, esforçar-se para conquistar a alegria e esforçar-se para impedir a tristeza não se diferem, enquanto esforço ou conatus. Todavia, do ponto de vista da ideia da alegria, quando de fato a  conquistamos, percebemos que o esforço para conquistar e viver a alegria nada tem a ver com o esforço para reprimir a tristeza, uma vez que a tristeza é aquilo que diminui todo esforço, todo desejo, toda existência, a começar pela nossa. Assim, não é diminuindo a existência que, por acúmulo, chegaremos a aumentá-la. Quando tomamos uma vacina para lutar contra uma doença, por exemplo, a vacina age primeiro fortalecendo a ação do nosso corpo para manter-se na saúde, pois é a afirmação da saúde que vence a doença, e não o mero querer destruir a doença . Nele mesmo, o vírus que gera a doença não é uma doença, mas um outro ser cuja ideia de saúde difere da nossa.
Apenas quando se alcança a saúde é que se compreende o que é a doença e como vencê-la ( e não apenas perpetuá-la através de nossas próprias forças); somente quando se alcança a alegria é que se faz um ideia adequada da tristeza, inclusive das falsas alegrias da tristeza ( como o deboche, o zombar, o ironizar, etc.).

***   ***

3.As palavras "modo", "modéstia" e "medicina" têm uma origem comum:elas nascem de um termo latino que significa "medida".Assim, em Espinosa os modos são medidas do ser, são maneiras do ser se expressar/produzir singularmente, ele que não tem medida, posto que é puro processo e devir.A modéstia não é um negar, mas o afirmar de uma medida que não perde o infinito.O modesto não quer o infinito, como o pretensioso, tampouco nega a medida, como o humilde; o modesto  afirma o infinito na imanência de sua medida, jamais deixando que ela se feche ou perca consistência. A medicina não é exatamente saber tudo sobre fórmulas ou saber descrever e definir doenças.O autêntico médico é aquele que sabe prescrever a medida do remédio, o remédio como medida. 
Assim, há duas concepções de medida: medida que se mantém exterior ao medido, como uma régua, e que se define  por um limite rígido, um contorno, um padrão ( em geral, tais medidas são apenas formas destituídas de conteúdo).E há a medida que traz em sua imanência o medido como seu conteúdo. E o conteúdo é sempre a potência. Por isso, os modos são medidas intrínsecas à potência, são medidas que jamais se fecham: delas jamais nascem padrões, paradigmas ou tudo aquilo que se coloca de forma transcendente aos processos, como Verdade ou Poder.Somente quando se considera a medida como algo exterior e que não varia , somente assim é que nascem as ideias de excesso ou falta: o excesso como aquilo que excede a medida, e erroneamente se identifica esse exceder como potência.Na verdade, a potência é o conteúdo imanente de uma medida que não o nega, e que se expande ao afirmá-lo, afirmando-se.Cada modo é uma maneira de ser do mesmo ser que se expressa de infinitas outras maneiras, cada maneira sendo uma variação ou grau intensivo, que traz em seu coração aquilo que  mede, como potência que não se fecha.Ser a medida da potência sem medida é afirmar-se como diferença que difere, em primeiro lugar, de si.
O homem não é a medida de todas as coisas, pois todas as coisas são uma medida singular do mesmo ser do qual o homem também é uma medida diferente.O pensamento não é outra coisa senão uma medida que revela também aquele que mede, e não apenas o medido. O pensar nunca é um produto de um sujeito, ele é sempre um processo cuja causa se encontra na potência que ele expressa.A Ética de Espinosa está sustentada em uma simples lição: sejamos  uma medida que não diminua o que medimos, o que implica que nos apreendamos , como diria Manoel de Barros, como uma forma em rascunho, uma forma em deslimite.
É o não fechamento do medido que possibilita que existam medidas comuns que se aplicam a seres diferentes, desde que haja um bom encontro. Por exemplo, a amizade não é uma medida exterior aos amigos, mas uma medida comum que os amplia. A educação não é uma régua que pertence exclusivamente ao professor,pois a educação é uma medida comum ao educando e ao educador: uma medida comum não é uma igualização homogeneizante, dado que é somente por uma medida comum que educando e educador podem se encontrar na afirmação de suas diferenças.Uma medida é mais potente quanto mais ela afirma o medido como algo que lhe é imanente e o torna capaz de produzir agenciamentos. 

*** ***


4.Segundo Espinosa, Cristo é a ideia da perfeição humana. Toda ideia o é de um corpo. Assim, Cristo não é apenas a ideia da perfeição da alma humana, ele também é a perfeição do corpo humano. Corpo múltiplo, heterogêneo, plural e, ao mesmo tempo, singular, intensamente vivo, amoroso.O corpo de Cristo não é um corpo simbólico , substituto, que se ingere em ritos administrados em um templo. O corpo de Cristo também é um corpo orgânico, físico, político, metafísico, poético, sem deixar de ser o nosso corpo mesmo tal como existe no mais simples cotidiano. O corpo de Cristo não é uma convenção, ele não é apenas "carne", ele também é cérebro, pulmão, sangue, desejo. Em Espinosa, a perfeição não é uma ideia pronta, pois toda perfeição é inseparável de um exercício de aperfeiçoamento: a perfeição não é o quadro pronto, mas o seu perseverante esboço e, antes mesmo deste, a inspiração, a intuição.A perfeição não é a música na partitura, mas a sua execução, o seu durar. A perfeição nunca é um produto ou fim a alcançar, ela é sempre meio, instrumento, processo.

A perfeição da alma é pensar, a perfeição do corpo é agir. O corpo de Cristo é o corpo mesmo do homem enquanto este age tendo como meio o amor, a justiça, a generosidade,a amizade e, também, a indignação. O corpo de Cristo não bebe apenas água, ele também festeja o vinho. O corpo de Cristo não é um corpo morto que  eterniza a dor e o sofrimento, ele é o corpo que nasce, que renasce, sempre em nome da vida.
Cristo, portanto, é a ideia da perfeição humana, e não a ideia que corresponde a um grupo da espécie humana. Cristo não é uma ideia que determina uma parte da humanidade como cristã, pois a determinação de uma parte da humanidade como cristã seria também, ao mesmo tempo, a determinação de uma outra parte como não cristã, o que sempre leva ao conflito e ao ódio ,a começar pelos inúmeros subgrupos que existem no interior do grupo que se diz cristão ! Se há cristão, é porque existe não cristão. Se Cristo fosse hoje vivo, ele não seria cristão, ele seria , antes de tudo, um ser cujo esforço maior, esforço de compreensão e amor, todo o seu esforço seria para ser um homem, todo seu esforço seria para realizar a ideia da perfeição humana, que ele passaria a ensinar não escrevendo livros, papers ou teses, ele a ensinaria com o exemplo vivo, ele ensinaria agindo.E onde houver alguém agindo assim, ali o Cristo está vivo, porque o estará , no homem, o corpo e o espírito.Não uma Perfeição Imaculada, Livresca, mas um devir-aperfeiçoamento, o qual sempre depende de um esforço, de um desejo, de um apetite.A ideia de Cristo não é uma ideia que recorta uma parte da humanidade como objeto dela, dado que ela diz respeito à humanidade inteira, enquanto espírito e corpo, desde que em processo ou devir de aperfeiçoamento, o que se faz na alegria, na liberdade, na compreensão.
 Cristo é a ideia da perfeição da humanidade como um todo, e não a ideia da perfeição de uma parte dela como sendo cristã.Quando se considera Cristo como não tendo sido um homem, passa-se a imaginar que o que ele fez um homem não o pode fazer, a não ser com a intervenção de um milagre ( ou com o pagamento de  tributos, tributos em moeda e em obediência,  aos espertos representantes de Deus na terra...). 
Mas o que Cristo  fez senão amar? Dependeria de um milagre o homem amar?Por que não dependeria de um milagre o homem odiar? O ódio define mais a natureza do homem do que o amor?Mas quem determinou isso, o próprio homem?Mas e se for o contrário, se for  o amor de fato o que determina a essência do homem, por que é mais difícil aceitar essa tese do que aquela que afirma ser o ódio o que mais define o homem?Além disso, amor e ódio são mais do que sentimentos psicológicos, eles são expressões existenciais  de como nos relacionamos com a potência.Visto assim, o amor é um fortalecimento, uma intensificação do existir , ao passo que o ódio é um enfraquecimento.
Para Espinosa, a essência do homem não pode ser definida sozinha.A essência é sempre uma relação ou agenciamento de essências.O homem não é um todo à parte, ele não é um ego que pensa e, por isso, existe. A essência do homem é ser  a modificação singular da essência mesma de Deus ou da Natureza, que é absolutamente infinita.O valor exemplar de Cristo é que sua essência é uma afirmação potente da essência da Natureza ou Deus, essência esta que se expressa em cada essência singular, e não apenas na essência de Cristo.
Para haver amor é necessário existir um encontro. O homem somente se torna capaz de compreender a essência própria quando ele a vive como um encontro. Se ele a conceber como algo isolado, como um todo à parte, que existe em si mesma e em oposição a outras essências, ele tornará abstrata a ideia do amor, tornará imaginativa a ideia do Cristo, que é a ideia do homem mesmo; pois um ser sozinho não tem como compreender o que é o amor, pois este é sempre encontro. O homem sozinho está sempre pronto mais a odiar do que a amar, sobretudo se ele se sentir sozinho em meio aos homens ou, o que é pior, se sentir sozinho diante de si mesmo, se ele não for um bom encontro para si mesmo.









segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Manoel de Barros: o devir-imperceptível ( trecho do livro)





A importância de uma coisa não se mede com fita métrica  nem
com balanças nem com barômetros etc. (...) A importância de uma coisa
há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

Manoel de Barros


“Não sou biografável”, disse certa vez Manoel de Barros.  E nos confessa ele ainda que suas memórias são inventadas.Sem dúvida, é difícil capturá-lo em uma apresentação biográfica habitual, pois ele se aloja em uma região imperceptível aos olhos daqueles que só percebem o já visto, o etiquetado.
Ser imperceptível não é ser invisível. A imperceptibilidade é a maneira de ser daqueles que, como diz Deleuze, emprestam seus nomes para assinar acontecimentos, idéias, sensações. Ser imperceptível é um caso de devir: devir imperceptível. Tornar-se imperceptível é pôr em questão os mecanismos que, de forma a priori, determinam a percepção, fazendo-a submeter-se a um já dado que nos cega diante daquilo que é diferente.
Quando o nome próprio conquista a potência de expressar acontecimentos e sentidos, despe-se da pessoa que até então designou , uma vez que aquele que o porta atinge a mais necessárias das artes: a de se tornar impessoal. “Palavra que eu uso me inclui nela” afirma Manoel de Barros. Para haver essa inclusão, esse devir, é preciso aquela arte. Assim, diz Deleuze a esse respeito, descobre-se “sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal, que de modo algum é uma generalidade, mas uma singularidade no mais alto grau.” No poema intitulado “Ninguém”, Manoel de Barros escreve:

Falar a partir de ninguém faz comunhão com as árvores
Faz comunhão com as aves
Faz comunhão com as chuvas
Falar a partir de ninguém faz comunhão com os rios,
com os ventos, com o sol, com os sapos.
Falar a partir de ninguém
Faz comunhão com borra
Faz comunhão com os seres que incidem por andrajos.
Falar a partir de ninguém
Ensina a ver o sexo das nuvens
E ensina o sentido sonoro das palavras.
Falar a partir de ninguém
Faz comunhão com o começo do verbo.

Tornar-se impessoal, “Ninguém”, é conquistar o estatuto de um agente coletivo de enunciação: sua voz já não diz “eu” , mas “nós”. E neste “nós” inclui-se sobretudo o que não tem voz, mas que a poesia faz falar: “Queria ser a voz em que uma pedra fale”,uma voz que já não manifesta um eu pessoal :

Tenho abandonos por dentro e por fora.
Meu desnome é Antônio Ninguém.

Pela voz poética de Manoel de Barros também se tornam sujeitos,mas sujeitos larvares, uma quantidade infindável de seres: lagartixas, girinos, bocós,pedras que dão leite, patos atravessados de chuva, arames de prender horizonte,tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma... enfim, o que não se pode vender no mercado:“coisas se movendo ainda em larvas, antes de ser idéia ou pensamento”. Manoel de Barros nos diz ainda:

Quem atinge o valor do que não presta é, no mínimo,
Um sábio ou um poeta.
É no mínimo alguém que saiba dar cintilância aos
seres apagados.
Ou alguém que possa freqüentar o futuro das palavras.

Mais do que tudo, o que por sua voz fala é a própria língua que, despida da forma da gramática, “voa fora da asa”:

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimento
 O verbo tem que pegar delírio.

Esse “fazer nascimento” referido pelo poeta inunda a poesia com a potência de um germe: na imanência deste, o verbo, como logos, liberta-se dos substantivos e das substâncias; devém ele próprio experimento com o sentido, e nos ensina: “Poesia é voar fora da asa”: “a poesia é a loucura da palavra”.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

geo-pop'filosofia





1-No Rio  é costume construirmos calçadas, isto é, extensões regulares,a partir de pequenas pedras sabão irregulares, cada uma completamente diferente da outra, tal como é diferente do outro cada modo ou maneira de ser da Natureza. Estas pequenas pedras também são chamadas de pedras portuguesas, e em tudo lembram a multitudo do português Espinosa.O modo como construímos tais obras expressa o estilo com o qual  produzimos outras obras do viver em comum. Nosso todo é construído a partir de pequenas singularidades que, unidas, tornam o chão um multifacetado mosaico de mônadas sob o sol, cuja liga é o afeto, mais do que a norma - para o nosso bem ou para o nosso mal.
A paciência das mãos anônimas dos dedicados demiurgos-operários, unindo cada pedra à outra, tecem composições que, barrocamente ajeitadas, modulam entidades que adornam os passeios , de tal modo que o caminhar nunca se faz apenas a serviço do útil, pois sob os pés se imprimem seres feitos da arte de uma linha de fuga: passeamos sobre ondas sinuosas, cristais, flores, rosáceas, golfinhos, notas musicais - como na calçada por onde deambulou Noel Rosa, acompanhado de Cartola, Pixinguinha e Jacob do Bandolim.E nesses passeios também nunca se fala de verdades ou constatações, mas se canta, se assobia, se ri  (sobretudo " ri-se de si mesmo", tal como preconiza o humor clínico de Nietzsche...).
A manutenção do todo formado - seja uma calçada ou nossa heterogênea sociedade - requer perseverante reinvenção, pois nada do que foi se manterá o mesmo , nas calçadas e  no tempo.
E quem desejar entender esse Rio menor , não vá ler livros ou teses, mas vá ouvir  o polifônico ritornelo chamado chorinho, cujas paisagens sonoras inventivas  não cabem na métrica recognitiva dos postais.








2-Quando eu tinha cinco ou seis anos, não mais que isso, morava em uma casa muito simples, ao lado de  outra casa igualmente simples, nos fundos de uma casa maior que dava para uma pequena rua de um singular bairro do subúrbio carioca. Havia um pequeno pátio comum às casas. Este espaço era  uma espécie de ágora menor ,  em cujo centro reinava um abacateiro sempre generoso, em frutos e em sombra.À noite, gostava de me deitar no chão  do pátio comum , que era aberto ao céu. Ficava a olhar o céu, suas estrelas, seus espaços sem limite. O céu infinito era meu principal brinquedo, e também quadro negro onde eu aprendia sem professor: aprendia a aprender, um aprender que precede todo ensinar. Eu não especulava, não perguntava, apenas me sentia parte de uma experiência que hoje vejo como de uma poética e filosófica  inocência. Lembro-me de uma alegria que sentia, uma alegria intensa de existir,  alegria esta que reencontro, renovada, ao ler Espinosa.

3-A linha é feita de pontos. Os pontos são atualidades contíguas umas às outras.Sempre se pode acrescentar ou retirar um ponto de uma linha. E aquilo ao qual se pode acrescentar mais uma realidade ou subtrair-lhe uma, de fato não é um infinito. O infinito é aquilo ao qual não se pode acrescentar ou tampouco retirar-lhe realidade.O infinito é uma linha também, mas linha que passa entre dois pontos.
Segundo Deleuze, a castração gera a angústia da finitude, da morte. Há toda uma cantilena da finitude, toda uma missa e cartilha. A castração não apenas separa o desejo da realidade, como acentua nossos contornos, fazendo-os de cela, presos à culpa. Ao invés da castração, Deleuze nos põe em contato com uma  fissura, uma fenda. A fissura ou fenda aparece, primeiramente, como fenda ou fissura do Eu.Uma fenda nada tem a ver com uma castração, com uma falta. A fissura fende o Eu em dois: em Eu transcendental, o Eu que Pensa/Conhece,  e eu empírico, o eu que existe ( e que possui nome próprio, RG, etc.), de tal modo que o Eu é um outro para o eu, o Eu que pensa/conhece se torna um outro para o eu que sente e existe. É o Eu que apenas pensa teoricamente que vê na fenda algo que o ameaça, e que pode levar o eu que existe a ver no pensamento algo que lhe falta, de tal modo que a fenda pode se tornar a marca de uma impotência imaginada, de uma dor, de um vazio que se vai querer preencher com uma droga, com um Deus, com uma anestesia...É o Eu que torna a fenda algo que ainda parece negativo. O Eu é um ponto, assim como o eu de nossa existência psicológica. Somente quando conectamos o pensar à experiência do que está no meio, e não mais ao Eu com suas Verdades ou ao eu com suas opiniões, somente assim  experimentamos a fenda como limiar para um outro mundo, um mundo a experimentar e a criar, como devir.Vemos então que a fenda é   uma linha que passa entre, que "é sempre mais veloz no meio".Entre dois pontos sempre passa uma linha labiríntica, linha nômade, linha de rizoma e ritornelo. Os pontos são atualidades, mas a linha nômade é sempre virtual. Ela passa entre dois pontos: e no meio dela não há pontos, há apenas velocidades, intensidades, fugas como criação.

sábado, 24 de agosto de 2013

Manoel de Barros e Paul Klee: as desaprendizagens ( trecho do livro)





Uma influência especial em Manoel de Barros: Paul Klee. Manoel de Barros se apropria, à sua maneira, da Máquina de Chilrear de Klee, e a faz de ferramenta de sua oficina poética . Este pintor ensinou-lhe a necessidade de "aprender a desaprender" - que define muito bem o que aqui chamaremos de devir-criança*, e que tão presente está na obra de Manoel de Barros: “palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”. Por isso, completa o poeta,


Palavras

Gosto de brincar com elas.

Tenho preguiça de ser sério.


De sua parte, Paul Klee impôs a si mesmo uma espécie de “desaprendizagem”. Embora ele desenhasse de forma precisa e técnica, esta mesma precisão e técnica tornou-se uma fôrma e prisão para as imagens que ele queria exprimir. Uma fôrma/prisão que precisava ser quebrada para que , livres, as imagens pudessem fluir. Então, ele passa a desenhar com a mão esquerda ( desaprendizagem semelhante fez Miró...). O artista descobriu-se novamente criança nesta mão: cada desenho era o desenhar de novo nascendo ─ fazendo-se como novidade, experiência e descoberta. Ao desaprender as formas e códigos da mão direita, Paul Klee redescobriu a pintura e a ele mesmo: reencontrou a alegria da criança cujo brincar e inventar é a coisa mais séria e verdadeira. Assim como a arte de Paul Klee,


A poesia tem a função de pregar a prática 

da infância entre os homens.


***
[ *Nota sobre o devir-criança:Quando alguém se torna adulto, a criança que ele foi está no passado;quando tal adulto era criança, o ser adulto era seu futuro.O adulto é o futuro da criança enquanto esta é um estado com uma identidade que lhe prescreve uma definição, um contorno; de maneira análoga, a criança é o passado do adulto enquanto este representa a si mesmo como um estado circunscrito por uma identidade.Sob esta perspectiva,"criança" e "adulto" são estados que se opõem pelas suas respectivas identidades.O devir não possui passado ou futuro: ele é, como dizem Deleuze e Guattari,antimemória. Ou melhor, se ele nos dota de uma memória, trata-se de uma memória como a que têm os anjos : memória que nos liga à eternidade.
O devir está sempre no meio: ele não é uma linha que liga dois pontos, ele é linha que passa entre dois pontos, uma linha transversal( as linhas transversais nunca se fecham em contornos).O devir não é exatamente a diferença entre o adulto e a criança,mas Diferença que está entre o adulto e a criança, e que os faz se comunicarem pelas suas diferenças, criando um contágio, um Afeto. É a História ( pessoal ou coletiva) que possui o passado e o futuro como pontos que o presente liga, ao passo que o devir está sempre no meio. Porém, ele não é uma média, ele é meio : ele é zona indiscernível que constitui a vizinhança entre o adulto e a criança. O presente do devir não é o presente cujos termos complementares são o passado e o futuro, uma vez que o presente do devir é o presente da metamorfose: esquecimento que cura dos fantasmas do passado, criação do novo que nos liberta de todo sentimento de esperança em relação a um futuro que nos deixa passivos.A criança do devir-criança não está no passado: ela co-existe com o adulto, mas não é feita de lembranças psicológicas deste.Ela é uma "criança molecular", imperceptível à percepção que só vê o já visto.
Segundo Deleuze-Guattari,molecular é aquilo que é, ao mesmo tempo, elementar e cósmico:elementos mínimos, heterogêneos,conectados ao absoluto.Intensos, tais elementos singulares não podem estar contidos em uma forma:seus limites são limiares trabalhados por dentro por uma Vida que de si mesma transborda.O devir-criança não é uma regressão ao estado de criança, tampouco ele é um mero imitar, infantilmente, uma criança.Quando devimos criança, tornamo-nos algo que a "forma adulto" nos impede de ser, ao mesmo tempo que a criança torna-se outra coisa que a criança definida em oposição ao adulto.No pintor Klee, por exemplo, a criança do devir-criança que ele inventa torna-se uma criança feita de linhas e cores,ao mesmo tempo que ele próprio se torna outra coisa , coisa esta que a obra testemunha e dá a ver.Essa criança que vemos na tela, e que é o produto de uma metamorfose, de um devir, não é menos real do que a criança que vive na nossa memória pessoal.Sua realidade é aquela que a arte engendra, libertando a Vida dos limites estreitos de nossas vivências pessoais. Quando devimos criança, captamos o que na criança há de intempestivo e eterno, cujo futuro não é virar adulto, mas produzir no adulto uma criança que não é a que ele foi. A criança do devir-criança não está no passado, tampouco somos o futuro dela: ela co-existe com nosso presente, libertando este do passado que ele imagina prolongar e do futuro em relação ao qual ele crê ser uma continuação daquilo que hoje é.Como dizia Espinosa, a criança do devir-criança não é um estado, mas uma atividade de re-generar-se, isto é, de nascer de novo para o novo.Devir é revir. Devir é retornar.Mas o retornar do devir não é um revir ao passado. Trata-se de retornar ao hoje, a este mesmo hoje do qual a imaginatio sempre nos afasta. Devir é retornar ao hoje para nele intuir o eterno que nunca é o mesmo a cada vez que a ele retornamos: muda ele, mudamos nós nele, como parte dele.]

*******************

deslimite pode ser compreendido como um processo ao mesmo tempo estético e existencial, no qual vida e poesia se mostram como as duas faces de uma mesma Vida a qual não se pode impor uma forma ou limite . Esta Vida somente se deixa apreender em uma experiência de devir. O devir não é uma forma ou algo de determinado, mas um processo no qual os seres atingem seus deslimites (conforme veremos ao longo do estudo) .
Atingir o deslimite não significa destruir-se ou negar-se. Ao contrário, é o limite que destrói a invenção que se pode e se deseja. O deslimite , portanto, é uma experiência com a Vida, e não com a morte ( nos vários sentidos que essa palavra pode ter).
Embora seja uma experiência eminentemente poética, isso não significa que ela seja suscitada apenas pela leitura de poesia. A essência de tal experiência é exatamente nos ensinar a alargar a compreensão do que seja poesia, como faz Manoel de Barros, para que a vejamos em todas as coisas que, rompendo seus limites, deixam ver a Vida.




Paul Klee, Travessura.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

o bom encontro, o agenciamento




Um texto, para mim,
é apenas uma pequena engrenagem
de uma máquina extratextual.

Gilles Deleuze


O bom encontro, o agenciamento, faz nascer um terceiro ser entre aqueles que se encontram. Este terceiro não é como um filho, uma vez que o filho pode viver, depois que cresce, longe dos pais; já o terceiro ser nascido do bom encontro só pode aumentar e crescer enquanto aqueles que se encontram crescem.Este terceiro devém  um novo ser do qual os dois que se encontram se tornam partes singulares, ativas.O novo ser nascido faz renascer como novos os seres que se encontram e o produzem. Este novo ser, este terceiro, não existe antes do encontro, mas de alguma forma ele já existe virtualmente na imanência da natureza.É este terceiro que torna inteligível a ação daqueles que passam a viver sob o seu sentido. Como diz Deleuze, uma obra , quando nasce do afeto à vida,também engendra  para a vida quem a fez.Um exemplo: a amizade. A amizade é um terceiro que nasce do encontro entre dois amigos, ela também é uma obra. Os amigos a produzem ao mesmo tempo que ela os produz como amigos.Este terceiro , a amizade, não vem de fora dos dois, pois ela nasce em seus íntimos como aquilo que os abre ao comum.A única coisa que vem totalmente de fora é a morte, diz Espinosa.A vida, ao contrário, vem sempre de um íntimo que se conecta a outro íntimo na intimidade da Vida. Esta intimidade não é uma interioridade, mas imanência da potência a si mesma.
A amizade torna os amigos  inteligíveis um para o outro mediante este terceiro que os torna amigos. A amizade não é apenas uma ideia comum a ambos. Ela também é um corpo comum, um terceiro corpo, mediante o qual os dois corpos passam a existir mais. Trata-se de um corpo expressivo, um corpo intenso não orgânico.Existir, para o corpo, é agir.A amizade é ideia comum a duas ideias, corpo comum a dois corpos. Comum não significa homogêneo; o comum é a relação de heterogêneos que produzem um terceiro deles diferente, e dos quais eles são partes ativas, intensas. A amizade não é algo que vem apenas de fora, e é por isso que ela somente se torna inteligível tornando inteligível o amigo como aquele que cria a amizade como encontro com a diferença, encontro este que gera alegria.O corpo comum dos amigos tem a amizade como ideia comum que faz o corpo agir mais: e um corpo age mais quando ele age pela amizade, pela generosidade.Para o corpo, agir não é apenas correr, saltar, pular; agir também é ouvir, olhar e mesmo se calar.
Um bom encontro, um agenciamento, nunca é feito apenas de dois, mas de três. As tiranias, os maus encontros, sim, são sempre feitos de dois: dois que rivalizam ou duelam, ou dois como dupla tirano-servo, onde o primeiro precisa do segundo e o segundo do primeiro. Do mau encontro nada nasce, embora dele sempre algo morre ou se enfraquece.
O terceiro que nasce do encontro dos dois não é um três que sucede numericamente ao um e ao dois. Diferentemente, o terceiro é potência que multiplica cada um por mais de um, pois os multiplica pela potência que os torna múltiplos, singulares.
Aristóteles dizia que a amizade, como virtude, é o justo meio entre o egoísmo e o altruísmo. No egoísmo a amizade está ausente, ao passo que no altruísmo ela se encontra em excesso. Assim, encontrar o justo meio ou justa medida seria o que nos torna amigos.Em Espinosa, diferentemente, a virtude é o esforço do desejo em  atingir ao seu limite. O limite de um desejo ou virtude nunca é outra virtude ou desejo , pois como poderiam as virtudes se autolimitarem , duelarem ou competirem!?Na verdade, um desejo como virtude é aquele que produz um terceiro desejo comum a outro desejo, terceiro desejo este que possibilita ao desejos  agenciados  desejarem  mais. O limite de um desejo nunca é o justo meio entre sua carência e seu excesso. O limite de um desejo é seu esforço para continuar desejo.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

exposição: territórios e fugas



A potência das questões vem sempre de outra parte que não das respostas
e desfruta de um livre fundo que não se deixa resolver.

Deleuze, Diferença e repetição.






segunda-feira, 29 de julho de 2013

evento em agosto:V Seminário Conexões; XII Simpósio Internacional de Filosofia



http://conexoes2013.wordpress.com/


1-Uma verdadeira linha de fuga é aquela na qual não se pode, e nem se deseja, retornar ao momento que supostamente a antecedeu, e que ainda não era a fuga como ato de criação e invenção. Isto porque a linha de fuga é exatamente ruptura com aquilo que a antecedeu: na linha de fuga, e por ela, o passado deixa de existir. 
O passado não é exatamente o que se passou, mas a permanência do que se passou como marca ou efeito inscrito em nosso corpo e em nossa alma. Libertar-se do passado exige que nos libertemos dos efeitos de um encontro que perdura em nossa existência atual. Não  podemos mudar nossa relação com o passado sem que antes mudemos nossa relação com a vida atual.Como ensina Espinosa,uma marca ou signo revela mais o corpo marcado do que o corpo que marcou. O encontro perdura no signo que ele deixou.Quando se trata de um bom encontro, o signo nos auxilia a nos  apoderar de nossa própria potência de agir e pensar. No mau encontro, ao contrário, a marca ou signo revive o corpo ausente mediante nossa potência de existir que então se fragiliza, pois a marca somente ganha vida mediante nossa vida, e não através da vida do ser que nos marcou. Esse é o sentido original de re-sentimento: sentir novamente apenas o efeito como se este fosse a causa. Como mostra Nietzsche,o ressentimento nos torna reféns dos efeitos; e se estes ressuscitam, é mediante nós mesmos que nos tornamos causas , causas parciais, daquilo que nos domina e enfraquece. Nietzsche também argumenta que a memória das marcas define a memória do escravo, do impotente.A história muitas vezes nada mais é do que sucessão de marcas, nas quais o escravo de hoje é o senhor de amanhã, e vice-versa.Mas , segundo Deleuze,o devir é desmarca: ele é a produção de um espaço liso como superfície do sentido. E o sentido nunca é uma marca ou um significante: o sentido se expressa em traços a-significantes que atualizam um virtual que é a sua outra metade inefetuável, sempre por vir. Além disso,   os piores fantasmas não são dos que já morreram, mas dos que ainda vivem na marca que ressuscitamos com nossa própria vida, sem que a isto ninguém nos obrigue; e assim existimos menos, passando mais a reagir do que a agir, entregando-nos mais ao imaginar do que ao pensar.Se a marca ou signo é uma ausência, esta passa a existir diminuindo nossa presença , nossa presença a nós mesmos e ao mundo.
Assim, uma linha de fuga nunca é o efeito de um momento que a antecedeu, e ao qual se poderia retornar para compreendermos como ela se deu ,ou então fazê-la diferente.Quando Deleuze afirma que, pela linha de fuga, o passado deixa de existir, ele não quer dizer que a linha de fuga é uma negação do passado; ao contrário, a linha de fuga é uma afirmação de um tempo por vir. O simples negar não cria nada, tampouco muda aquele que apenas nega.
O tempo por vir não é um tempo futuro antecedido pelo presente que amanhã virará passado. Se algo é presente, é porque em algum momento começou. E, por ter começado, pela mesma razão em algum momento vai acabar. O por vir, diferentemente, nunca é presente; por isso, não começa ou acaba: ele está sempre no meio, e somente o vivemos nos instalando no meio dele, ele que desfaz todo limite, toda identidade e toda certeza.A linha de fuga nunca é fuga do passado, mas passagem ao por vir, o qual nunca chega e ao qual nunca se chega, a não ser na experiência de um devir-outro, uma metamorfose. O bom encontro nunca é ir em direção ao outro, ou esperar que ele venha até nós. O bom encontro é uma linha que faz fugir um e outro, para no meio afirmar e recriar um nós. 
O tempo por vir é sempre por vir, e é de imediato que nos instalamos nele, instalando-nos em nós mesmos, abrindo-nos, agenciando-nos.

***   ***   ***

2-Deleuze e Guattari falam de inúmeros devires: devir-negro, devir-mulher, devir-criança, devir-imperceptível,devir-animal, devir-verdade, devir-molecular...Em cada devir apenas um termo se repete: o próprio devir. Somente o devir é agente de devir, ele é agente dele mesmo, e não tem representantes. Mas o devir não é um sujeito, ele é um processo.
O devir tem primazia: o "ter primazia" não constitui eminências, pois o que é primeiro é sempre a potência. "Não se pode passar régua no devir", diria Manoel de Barros. No devir-criança, por exemplo, não se trata de se identificar com uma criança, mas alcançar uma zona de vizinhança na qual ocorre um duplo devir: devir que concerne àquele que cria e entra em devir, e devir da própria criança enquanto fase cronológica da vida.Não é apenas o adulto que deixa de ser adulto, a própria criança deixa de ser o que identificamos como criança, para assim se metamorfosear em uma matéria de expressão que varia conforme a arte implicada.Paul Klee, por exemplo, fabricou um devir-criança expresso em cores e linhas.
O devir é sempre duplo: ele não liga dois pontos com identidades fixas, o adulto à criança, ele passa entre dois pontos, ele acontece no meio, na Diferença.
Segundo a lógica, o homem adulto não é uma criança, o homem é racional.Dentro do conjunto das coisas que são racionais,o homem é um de seus componentes.Dentro do conjunto dos seres que são crianças, o adulto não é um deles.O conjunto define a Identidade que permite reconhecer seus componentes. O "é", o verbo "ser", indica pertencimento ou não pertencimento à identidade de um rebanho enquanto conjunto fechado, molar.No devir, diferentemente, afirma-se o conectivo: entre o adulto e a criança há uma zona de vizinhança, uma fronteira. Mas esta fronteira não é uma linha que separa ou liga  dois países ou territórios  com identidades fixas. Enquanto fronteira ou limiar, o devir é passagem não de um ponto a outro: ele é passagem entre ambos, e os abre a uma terra incógnita , molecular, onde nos tornamos estrangeiros pelo que  experimentamos e vivemos  , na potência de  um  encontro.Só nos agenciamos realmente com os seres quando entre eles e nós vivemos e experimentamos um "e" como conectivo que relaciona diferenças pela Diferença: a multiplicidade, a multitudo, nunca é um rebanho: "o E não é um ou outro, o E está sempre entre os dois, é a fronteira, há sempre uma fronteira, uma linha de fuga ou de fluxo, apesar de não ser fácil percebê-la. É sobre esta linha de fuga que as coisas se passam, os devires se fazem, as revoluções são rascunhadas" (Deleuze).
É no agenciamento que construímos um devir, pois nenhum devir é dado pronto. Ninguém acha ou recebe um devir, mas o faz, o inventa - segundo um critério que não é teórico ou acadêmico, e sim existencial, vital. Somente o devir é agente, e é por isso que é ele que vem primeiro e se repete, diferencialmente, em cada devir diferente. Por ser ele o agente, é sempre em devir que se faz um agenciamento: este é a conexão entre dois pontos através de uma linha que passa no meio, linha esta que nunca se fecha em contornos - linha labiríntica, linha nômade, linha da vida:  linha de fuga.
Não há território sem um processo de territorialização. O território nunca é um dado apenas físico. O território é criado pelo processo de territorialização. Este pressupõe a criação de uma realidade expressiva feita de signos, que antecede ao próprio território. É esta realidade expressiva, semiótica e artística , que antecede e produz um território , e não o inverso. O território de um pássaro canoro vai até onde alcança a potência do seu canto. O canto é um processo de territorialização. Obtido um território, nele poderão ocorrer comportamentos explicáveis pelas funções e pelos órgãos, como é o caso da procriação e da agressividade. Mas a territorialização não se explica pela utilidade e pelos órgãos, uma vez que a territorialização é um processo expressivo, e que sugere a existência de um corpo sem órgãos como corpo idêntico à potência e ao desejo.  A territorialização é a produção de um território que nasce como produto de uma arte, e não comportamento circunscrito a um órgão ou função. Os órgãos dependem de um território já constituído, ao passo que a territorialização é sempre constituinte. Daí os riscos advindos da territorialização.
Mas além do território e da territorialização existem a desterritorialização e a reterritorialização. Estas se explicam pela relação do território com a Terra, que é desterritorializada e desterritorializante.A própria Terra é um imenso corpo sem órgãos, uma Potência Absoluta de produção,  que nunca se explica funcionalmente. A territorialização é uma codificação de fluxos. Todavia, por toda parte os fluxos fogem, atestando que todo território é aberto. A Terra é pura fluxão: é dela que vêm os territórios a criar, não os já criados. A Terra é manancial de sentidos que nunca podem ser remetidos a coisas ou referentes que lhes sejam prévios. "Imanência" provém de i-manare: ir para dentro do manancial ou fluxo.
 A desterritorialização é um ir do território à Terra, ao passo que a reterritorialização é um ir da Terra a um novo território. Ir do território à Terra e da Terra a um novo território constituem as duas direções de uma linha de fuga. Essa duas direções, no entanto, não são como as duas mãos contrárias de uma rodovia, dado que as  duas mãos de uma rodovia se explicam por movimentos relativos que têm por referência os pontos fixos  que a rodovia liga. A linha de fuga é desterritorialização e reterritorialização sem que ambos os sentidos ou direções sejam contrários, dado que a linha de fuga é uma só linha, e não duas: ela não  liga  dois pontos, mas sim abre os dois pontos a um  meio, o qual é sempre desterritorialização e reterritorialização  ao mesmo tempo.
O meio é sempre a Terra, como meio de criação e invenção: somente a Terra é desterritorializada e desterritorializante.Experimentá-la produz também cantos, mas são cantos diferentes daqueles da territorialização. E os próprios passarinhos cantores , poetas por natureza,  a isto também nos ensinam.O tordo, por exemplo, produz um misterioso canto que ele somente canta em horas específicas do dia: no fim da tarde, quando o sol se vai e a noite se aproxima, e na aurora, quando a escuridão começa a se ir , pois já vem, no horizonte, o dia. É um canto de limiares, de passagens.Nenhum cientista consegue explicar qual a função de tal canto . Mas quando o pequeno pássaro a isto se entrega, ele o faz correndo riscos: pois o canto o revela para a coruja, que  o tem  como uma de sua presas.À noite, aquele mesmo território pertence à coruja; de dia, ele pertence ao tordo. Mas entre o dia e a noite há um meio, uma zona de vizinhança , uma Pura Aurora, que também tem seus riscos, como tudo aquilo que envolve a liberdade .Ao cantar seu canto desterritorializado e desterritorializante, o pássaro-poeta salta e voa, "voa fora da asa", como diria Manoel de Barros, mas no mesmo lugar, uma vez que é no lugar mesmo que ele encontra a Terra, e conquista para si uma vida que nunca a coruja poderá predar: "Os raminhos com que arrumo/as escoras do meu ninho/são mais firmes do que as paredes/dos grandes prédios do mundo" (Manoel de Barros).

***   ***

3. A ORQUÍDEA E A VESPA

A vespa é um inseto, isto nos ensina a ciência. A orquídea é uma planta, também a ciência a isto nos informa. "Informar": dar uma forma, um limite. A vespa é um indivíduo membro de uma espécie. A espécie fornece a "identidade", ao passo que é graças à semelhança com a espécie que podemos reconhecer um inseto como uma vespa. Porém, apesar das aparências, o princípio de recognição, ou reconhecimento, não vai do indivíduo à espécie: ao contrário, ele vai da espécie ao indivíduo, da Identidade à semelhança. É a Identidade que vem primeiro: é a forma universal da espécie que nos permite reconhecer algo, e determiná-lo,  como isto ou aquilo. Até aqui, parece que Platão, Aristóteles e  Kant, além de Darwin,  têm razão...
O que vale para a vespa vale igualmente para a orquídea: cada orquídea que vemos é um indivíduo que pertence a uma espécie.Cada individuo é uma existência cuja essência é a espécie quem fornece. É a espécie que tem a Identidade mediante a qual os indivíduos se assemelham não apenas a ela, como também entre si .Um indivíduo vespa se assemelha à espécie vespa bem como a outro indivíduo vespa. Mas nenhum indivíduo vespa é idêntico à espécie vespa, assim como nenhum indivíduo vespa é idêntico a outro. Nenhuma vespa é "A" vespa: o artigo definido acompanha apenas a espécie ( aos indivíduos acompanha tão somente o artigo indefinido...). Somente a espécie pode ser definida, já que os indivíduos são sempre habitados por uma indefinição que nunca se separa totalmente deles.O que faz cada indivíduo diferir de outro é a mesma coisa que o faz não ser idêntico à espécie. Tal realidade é a matéria ou potência. A potência é a Diferença sem identidade e semelhança.
Todavia, como mostram Deleuze e Guattari inspirando-se em Proust e na etologia,algo de extraordinário acontece entre uma  orquídea e uma vespa. Uma orquídea é diferente de outra orquídea, isto é certo. Apesar da diferença que as separa, há a semelhança que as une mediante a Identidade da espécie. Mas a diferença que há entre uma orquídea e uma vespa é completamente distinta da diferença que existe  entre os indivíduos de uma mesma espécie. Não obstante essa diferença, uma orquídea é capaz de estabelecer uma relação singularíssima com uma vespa.
Uma orquídea não tem pernas, pois a raiz a fixa ao solo. Uma orquídea não tem ouvidos ou olhos, embora ela tenha formas sutis de percepção do mundo que a rodeia. Entre a orquídea macho e a orquídea fêmea há uma distância que a primeira percorrerá nas asas de uma vespa, mas sem sair do lugar:  sem ter olhos ou mãos, a orquídea macho fabrica em suas pétalas o órgão genital de uma vespa fêmea. Diferentemente de um escultor, a orquídea esculpe sua obra em seu próprio ser, em seu próprio corpo, de tal modo que entre ela e sua arte nasce uma indistinção que suspende as leis e regras lógicas que presidem o mundo das espécies e dos indivíduos.Ao ver o que pensa ser um outro indivíduo de sua mesma espécie, a vespa macho se une à vespa fêmea que a orquídea-artista  inventou para amar uma outra orquídea .Ao sair dali do seu ato de amor e ir pousar em uma orquídea fêmea com seu corpo imantado de pólen, a vespa se torna o instrumento de amor entre as duas orquídeas que não se vêem e nem se tocam, mas que se encontram e se amam por intermédio do apetite da vespa.
A orquídea inventou um devir-vespa, ao mesmo tempo em que a vespa entra em um devir-orquídea. A orquídea inventou um estilo-vespa, um ritmo-vespa, uma singularidade-vespa.Não um indivíduo vespa, mas uma singularidade vespa. Como dizem os medievais, uma hecceidade.A espécie é como um molde ou fôrma, ao passo que o indivíduo é feito uma matéria que a fôrma informa, dando-lhe um limite.Mas a singularidade é uma modulação : ela é a implicação de uma forma e uma matéria na imanência das quais vive uma potência sempre em deslimite, como diria Manoel de Barros.A orquídea inventou uma vespa feita de pétalas,assim como Van Gogh criou um girassol feito de tintas.Antes de ser a representação de uma vespa, o que a orquídea produziu foi a expressão de uma potência criativa que é imanente à vida.Enquanto a espécie é uma essência que não muda, posto que forma invariável, o devir-vespa da orquídea é uma essência enquanto "minadouro": dela minam sentidos de uma vida que se auto-inventa.O "minadouro", diz Manoel de Barros, é a fonte de onde a poesia nasce.E é dessa fonte que também nasce a vida que se afirma como processo que nenhuma forma pode reter ou conter.
A arte não é imitação da vida, ela é a vida mesma .A orquídea  inventou uma semelhança a partir de sua diferença, e fez passar uma vida que não se explica pela Identidade da espécie, mas pela potência de invenção.  Esta vida que passa "entre", que está sempre no meio e é meio de devir, nos faz compreender porque Deleuze afirma que "são os organismos que morrem, não a vida". São os organismos também que evoluem segundo um eixo paradigmático que vai do indivíduo à espécie. Mas o devir ocorre segundo um eixo horizontal sintagmático de agenciamento e conexão, uma evolução a-paralela, impensável segundo a concepção que pensa a evolução como progresso do menos perfeito ao mais perfeito. Se pensarmos a orquídea e a vespa como pontos em linhas diferentes, o devir é uma linha que passa entre estes dois pontos, abrindo-os a um processo que os retira de suas respectivas linearidades, de tal modo que cada um se torna uma singularidade a compor um rizoma, um agenciamento.
Se a evolução se estabelece na relação de um indivíduo com sua espécie a partir de um meio, o devir acontece na relação de agenciamento entre diferenças que se tornam mútuas, afirmando uma desterritorialização de cada uma em relação ao território determinado de suas respectivas espécies, e concomitante reterritorialização em um processo de invenção que vence as distâncias.E em tudo o agente é o Afeto que inventa sua própria ideia e realidade: enfim, a orquídea produziu uma linha de fuga com as asas da vespa.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Nélson Rodrigues, Kant, Espinosa e a "cerca"





Vá ouvir um samba antigo
para saber o que há de novo.

Sidney Miller


Nélson Rodrigues dizia que “a moral é uma cerca: os ricos passam por cima dela, enquanto os pobres passam por baixo; somente a classe média dá com os peitos nos limites da cerca e não a ultrapassa ”. Uma coisa  uniria  ricos e pobres: eles não levam em consideração  a cerca como limite que os regule.  Os ricos a burlam  indo “por cima”, comprando  o que o poder pode obter  como meio para quem quer transgredir, mas sem “sujar as mãos”; já os pobres vão rente ao chão,eventualmente se sujam, posto que se abaixam. 
A moral é um “não”: algo que se impõe limitando. Limitando os apetites, as inclinações, as paixões. Essa história de Nélson apresenta uma imagem negativa da liberdade: ser livre seria  transgredir a cerca, não importando  os meios. Os seres da  classe média seriam os “neuróticos”: eles obedecem a  uma imagem da liberdade negativa também, mas como “respeito à cerca”, “respeito à Lei Moral”. 
Filosoficamente, Kant é o mentor de tal atitude “classe média”: média no agir, média no desejar, média no pensar, sempre com as marcas da cerca no peito. E se os ricos  e os pobres se colocam nos extremos, tais extremos também se definem pela média que eles burlam.
Mas cabe a inocente pergunta, que certamente fariam Nietzsche, Espinosa, Manoel de Barros ou uma criança: “quem fez a cerca?”. Não só quem pára nos limites dela, mas também quem a transgride acredita nela:  quem a ultrapassa extrai prazer dessa transgressão, mas ainda mantendo a cerca como referência, mesmo que para negá-la. Liberdade neurótica e liberdade perversa: ambas ainda se explicam pelo “não”, pelo limite. O “iconofílico” e o “iconoclasta” se explicam pelo mesmo ícone: o primeiro  se ajoelha diante dele,  enquanto que o segundo   o quer  destruir pelo desprezo.  A história  política nos mostra infelizes e bizarras uniões entre os que pulam por cima e os que se arrastam por baixo da lei, e implantam as mais variadas formas de fascismos e demagogias, ou a mistura de ambos.
A liberdade, a liberdade do desejo, e não a do mero prazer, não estaria em pensar e agir sem ser a partir de uma  cerca? Pensar e agir não seriam afirmações de uma outra ordem? O perverso nega a negação, afirmando uma afirmação derivada do que ele nega. Transgredir também é uma reação. Se retirarmos as cercas fica livre não apenas quem elas limitavam , como também quem as transgredia. 
Pensar não é partir de uma cerca, e sim do infinito. É em relação com este que podemos criar algo que seja realmente libertário:  um pensar e agir que criam alguma consistência para si, mas sem perder o infinito. Dar consistência não é cercar, diminuir, limitar, negar; dar consistência não é solidificar, enrijecer. Dar consistência não é objetificar.Virtual procede de virtu, que significa força. Não a força física, a que nasce do corpo orgânico e seus músculos, e que pode servir ao ódio e à destruição exclusivamente, mas sim a força que nasce do espírito,  como potência de criação. Dar consistência ao virtual é aumentar sua força: é torná-lo imanente ao ato que o torna consistente.Dar consistência à potência é afirmá-la como afirmação que afirma a afirmação. Dar consistência à potência é habitá-la, mas sem diminuí-la ou cercá-la. 
Se a moral é uma questão de cercas, a ética é uma atividade que visa criar consistência para nosso modo de vida, ampliando-o, potencializando-o. A ética é uma prática do  desejo. Se Kant é o filósofo da cerca, Espinosa é o pensador da ética: nem classes nem cercas, mas a multitudo, a multiplicidade que não se pode limitar ou cercar. Ética como criação de consistência, isto é,  de agenciamento  que distingue  a lei das “regras de vizinhança”: estas são “noções comuns” , como diz Espinosa, e não leis. A noção comum se assemelha   a um barco no qual entramos para , remando juntos, fazermos a travessia de um fluxo . Daí nasce a liberdade como  prática  de um  perseverante esforço, ao invés  de uma cerca que separa espaços com identidades fixas ; mas tampouco se  afirma a diferença apenas transgredindo essas identidades fixas... Como diz Nietzsche, “só podemos destruir sendo criadores”.
 Não há agenciamento ou  “bom encontro”onde a referência é a cerca, seja como limite que pára ou como limite  que se quer apenas para os outros, e que com prazer se burla. Segundo Deleuze e Guattari, o agenciamento pressupõe uma zona de vizinhança entre cada um que se agencia, e o que  está no meio nunca é uma cerca, nem uma média, mas abertura a um processo que singulariza.

terça-feira, 25 de junho de 2013

utopia






Não é falso dizer que a revolução "é culpa dos filósofos"( embora não sejam os filósofos que a conduzem).(...) É sempre com a utopia que a filosofia se torna política , e leva  ao mais alto ponto a crítica de sua época.A utopia não se separa do movimento infinito: ela designa etimologicamente a desterritorialização absoluta, mas sempre no ponto crítico em que esta se conecta com o meio relativo presente e, sobretudo, com as forças  abafadas  neste meio. A palavra empregada pelo utopista Samuel Butler, "Erewhon", não remete somente a "No-where", ou a parte Nenhuma, mas a "Now-here", aqui-agora.O que conta não é a pretensa distinção de um socialismo utópico e de um socialismo científico; são antes os diversos tipos de utopia, dentre os quais a revolução. Há sempre, na utopia ( como na filosofia) , o risco de uma restauração da transcendência, e por vezes sua orgulhosa afirmação, de modo que é preciso distinguir as utopias autoritárias ou de transcendência, e as utopias libertárias, revolucionárias , imanentes.Mas, justamente, dizer que a revolução é, ela mesma, utopia de imanência não é dizer que é um sonho , algo que não se realiza  ou que só se realiza traindo-se. Pelo contrário, é colocar a revolução como plano de imanência , movimento infinito, sobrevoo absoluto, mas enquanto estes traços se conectam com o que há de real aqui e agora, na luta contra o capitalismo , e relançam novas lutas , sempre que a precedente é traída.

                                                     Deleuze & Guattari, O que é a filosofia? 



Todo limite é ilusório, e toda determinação é negação,
se não está numa relação imediata com o indeterminado.

Deleuze & Guattari, O que é a filosofia?



A utopia é uma maneira questionante, não passiva, de se relacionar com o lugar. "Topos", em grego, significa exatamente "lugar". Assim compreendido, o lugar não é apenas uma parte do mundo físico, pois  há lugares mentais, desejantes, incorporais, nos quais nunca se pode estar, apenas acontecer, devir. As palavras "estátua", "estático", "estar" e "Estado" se originam de um mesmo termo latino, stare , que significa "parada". Como dizem  Deleuze e  Guattari, a etimologia é o atletismo do filósofo. Ela é um exercício do pensamento que nada tem a ver com as semânticas do dicionário, pois se trata de encontrar o acontecimento que dá origem às palavras.Assim, há lugares que são de parada, como o é também um túmulo; são lugares de poder e de morte, enfim. Mas há lugares que são de processos, de devires, de metamorfoses, de agenciamentos. Os lugares de parada podem ser circunscritos por contornos ou limites, ao passo que há lugares cujas fronteiras são limiares em vizinhança  com outros lugares deles diferentes.
A geometria euclidiana pensa o lugar  como algo que mora dentro de uma cerca, de um limite determinável; já o lugar da utopia cresce à medida em que ousamos habitá-lo: são lugares que crescem conforme crescemos, tendo a liberdade como tamanho.A utopia compreende um lugar ligado umbilicalmente com a Terra, o infinito.
O lugar , o topos, expressa um "aqui"; já o "u" de "utopia" significa um "agora". Erradamente se traduz "utopia" como "não-lugar", dando à partícula "u" a função de negação ou privação. Na verdade, a tradução mais adequada de "utopia" é "aqui-agora": de tal modo que é no agora que podemos libertar o aqui de seu imobilismo, mas também é no aqui que podemos pensar o que desejamos ser a partir de agora , e não a partir de amanhã...O aqui-agora não é espera, não é esperança: é liberdade em ato, no espaço e no tempo. Todavia, não se trata de um espaço meramente físico, ou de um tempo tão somente cronológico.É um espaço de criação que pede um tempo que é de ruptura, de inovação. 
Do ponto de vista físico, os lugares são simultâneos: eles estão dados, sem sucessão, em um mesmo presente histórico, cada um com sua respectiva identidade. Do ponto de vista da utopia, os lugares são coetâneos: eles co-existem e se conectam, pela diferença. A coetaneidade dos lugares utópicos são espaços de rizoma e heterogênese.
Do ponto de vista da física social, estudantes, trabalhadores, artistas, negros, brancos, homossexuais, heterossexuais, favelados, intelectuais, etc., ocupam lugares euclidianamente estanques, delimitados que são por contornos determinados, muitas vezes construídos com arame farpado.Da perspectiva da coetaneidade da utopia, esses lugares se abrem e se comunicam pela experiência de um agora que faz do aqui o espaço comum daqueles que , em devir, desejam criar agora um outro lugar que seja aqui, e não em outra vida ou em outro mundo.Como dizem Deleuze e Guattari, " a revolução é a apresentação do infinito no aqui-agora : a revolução é a desterritorialização absoluta no ponto mesmo em que esta faz apelo  à nova Terra, ao novo povo"  ( O que é a filosofia?, p. 131).

Os que nascem em um mesmo lugar se identificam chamando-se reciprocamente de "conterrâneos": os que têm " uma terra em comum".Como desterritorialização absoluta, a Terra de que falam Deleuze e Guattari não se confunde com um território ou Estado. Somente afirmando essa Terra é que nos tornamos conterrâneos de tudo o que é vivo. 
Essa afirmação é dupla: ela implica a coetaneidade dos lugares utopicamente vividos como lugares de diferenças em conexão e agenciamento para instituir o comum, e supõe também a experiência de um devir planetário que nos torna conterrâneos por aquilo que criamos e ousamos, contra todo fascismo e apequenamento da vida.