domingo, 26 de julho de 2020

os ancestrais


Certa vez, uma querida amiga me perguntou por qual motivo eu assino “Elton Luiz Leite de Souza”, e não apenas “Elton Souza” ou “Elton Leite”, nome e sobrenome mais fáceis, digamos assim,  de gravar. Já me fizeram essa mesma pergunta antes, e sempre respondo assim: quando comecei a dar aula, gostava de  assinar  apenas “Elton Luiz”, sem sobrenome. Eu assim o fazia por homenagem à minha bisavó que era índia, não deixando  sobrenome na história (assim como extinguiram o nome  “Pindorama”). Porém, nunca respeitavam esse meu desejo nos diários de classe. Embora não dissessem abertamente, pareciam considerar “Elton Luiz” um nome muito bastardo. Acontecia então uma bagunça: às vezes escreviam “Elton Luiz Leite” nos diários de classe , noutras “Elton Leite ”,  o mais comum era escreverem “Elton Souza”. Nos primeiros artigos que escrevi, então, ninguém aceitava o singelo “Elton Luiz". Por considerarem  “Elton Luiz Leite de Souza” muito grande, escreviam abreviando : “Elton L L de Souza.” O curioso é que meu nome não seria “Elton”. Meu pai, que era fanático por futebol, certa vez chegou em casa e disse para minha mãe: “Já sei como será o nome do nosso primeiro filho!”. Desconfiada, minha mãe pôs  a mão na cintura e perguntou: “Qual?” . “Amarildo !”, disse cheio de esperanças meu pai ( “Amarildo” era o nome de um famoso futebolista da época). Minha mãe apenas disse: “Não”. Meu pai nem insistiu...Nada contra o “Amarildo”, mas ainda bem que , lá em casa, quem mandava era minha mãe. Foi ela que decidiu pelo “Elton”. Anos depois, descobri que “Elton” significa: “aquele que nasceu em Ella”. “Ella” era uma cidade mítica céltica. Segundo tal mitologia, essa cidade tinha uma característica: todos que lá nasciam se tratavam como iguais, com plena justiça.  Assim, eu achava que “Ella” tinha algo de uma taba ou tribo onde viveu minha bisavó. Como boicotavam meu  “nome menor” ( “menor” , ensina Deleuze, é tudo aquilo que, por ser singular, foge ao  “padrão”) decidi de uns tempos para cá assinar o nome completo, tal como aparece aqui no face . Juro que não é por vaidade ou pretensão que faço isso ,  é só mesmo por pura consideração àqueles que escolheram meu nome e sobrenome. Quanto à minha bisavó índia, embora ela não esteja  no sobrenome,  sinto que é  forte sua presença em  meu sangue.
Hoje é “Dia dos Avós”.  Ao falar da minha querida bisavó, queria também falar de nossos Ancestrais. Tudo o que eu queria dizer, Manoel de Barros já diz por nós:

“Tenho em mim um sentimento de aldeia e dos primórdios. Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens. Não sei se isso é um gosto literário ou uma coisa genética. Procurei sempre chegar ao criançamento das palavras. O conceito de Vanguarda Primitiva há de ser virtude da minha fascinação pelo primitivo. Essa fascinação me levou a conhecer melhor os índios.”

(nunca conheci pessoalmente essa minha bisavó, ela já era falecida quando nasci. A única coisa que vi dela foi uma foto em preto e branco muito antiga, quase se apagando. Eu era criança e a imagem me tocou muito...Anos depois, eu já adulto e trabalhando, tive um primeiro e único sonho com ela. Eu passava por uma situação difícil à época, semelhante a essa na qual vivemos agora. No sonho , ela apareceu vestida de colares e com um cocar multicolorido adornando a cabeça, cujos cabelos eram compridos e muito brancos. Havia um céu de um azul indescritível emoldurando sua cabeça. Ela só me disse uma coisa no sonho : "Abra seu olho cósmico, não há o que temer..."Após a fala dela, imediatamente acordei e me lembrei de uma carta escrita por Espinosa a um amigo que lhe indagava acerca do sentido de mensagens que nos chegam por intermédio dos sonhos. Segundo Espinosa, na vida em vigília temos a ilusão de que somos pontos descontínuos uns aos outros. Mas quando sonhamos o ego individual fica enfraquecido, e assim podemos ter a experiência, ainda que imaginativa, de que nossa vida faz parte da mesma linha dos que nos antecederam, sendo também parte da linha vital dos que nos sucederão. No sonho, é a imaginação que tenta visualizar esse processo de continuidade, porém é apenas despertos que conseguimos pensar essa continuidade e compreendê-la , desde que vençamos a limitação reativa do ego )



O livro acima é só uma sugestão para quem desejar conhecer algumas  belíssimas histórias que narravam os povos originários. De forma interessante, o autor prefere a expressão “histórias indígenas” do que “mitologia indígena”, explicando que o termo “mitologia” é empregado às vezes de forma pejorativa em contraposição à noção de “história”, como reveladora da “verdade dos fatos”. Mas esse tipo de oposição vale para a sociedade branca-europeia, cuja história se pretende hegemônica. No caso dos povos indígenas, não há separação entre a fabulação narrativa e seu ethos originário. Assim, chamar essas narrativas de “mitologia” seria colocá-las no  mesmo lugar subordinado em relação à história dominante europeia.




sábado, 25 de julho de 2020

espinosa, o geógrafo


O escritor Maurice Blanchot faz uma comparação para questionar os que defendem a “neutralidade” como atitude “justa” para se posicionar diante dos perigos que ameaçam a sociedade e a vida. Tal “neutralidade apolítica” se parece com a atitude de quem quer conhecer um quarto   colocando-se fora dele, atrás da porta, olhando para dentro pelo buraco da fechadura. O “neutro” imagina descrever assim apenas os fatos e tão somente os fatos que vê: sem “paixões” e envolvimentos , apenas a “razão pura”. Esta é a contradição existencial de tal visão: querer colocar-se fora da vida para melhor ver a vida. Blanchot  chama esse olhar de “o olhar da morte” , pois é de uma espécie de morte  que se trata : a morte de perspectiva. Um olhar assim é até  capaz de descrever e analisar, porém é incapaz de achar uma saída. Pois toda saída começa a ser construída , primeiro, do lugar onde se está. A vida nunca é neutra : ela sempre toma partido a favor daqueles que a querem mais viva e por ela se arriscam, mesmo correndo o risco de perdê-la. O oposto desse olhar que vê a  vida apenas pela fechadura, ou por uma tela de tevê ou celular , o oposto disso é fazer-se vivamente presente, mas sem perder de vista a janela . Se não houver janela, quebrar a parede para inventar uma , fazendo-se abertura por onde entrem luz e novo ar, para não sufocar .
A imagem que ilustra a postagem é “O geógrafo”, de Vermeer. Dizem que é o próprio Espinosa esse geógrafo de compasso aberto na mão e  a olhar para fora dos limites do quarto, parecendo buscar horizontes. Envolve Espinosa uma veste azul com uma barra em vermelho cobrindo-lhe o peito. O azul é a cor do céu, é a cor que “celesta”, dizia Manoel de Barros; já o vermelho é cor da vida intensa. A composição dessas duas cores faz nascer o violeta, considerada a cor que veste por dentro os sábios, pois  “violeta é  a cor do  pensar libertário”, ensinava Cláudio Ulpiano.  Vermeer retratou Espinosa como um “geógrafo do pensamento”. “Geo” significa “terra”. Não a terra que  donos  cercam  para    manterem seus  gados , mas a terra que se abre em todas as direções como espaço horizontado.  
Além da luz do mundo que entra transversalmente pela janela, também chama a atenção no quadro a luminosidade que emana do mapa aberto onde o cartógrafo desenhou suas ideias, como se no papel o pensador também abrisse uma janela : para fazer  do conhecimento uma potente  luz contra   as trevas.


 “Poesia é horizontamento.” (Manoel de Barros)

“Nas mãos a ferramenta de operário,
e na cabeça a coruscante ideia.” (versos do poema “Spinoza”, de Machado de Assis)

“Em Espinosa, tudo é luz.” (Deleuze)











( a música "Libertango", de Piazzolla, tem um verso que diz: “Minha liberdade é tango que dança em dez mil portas.")

quinta-feira, 23 de julho de 2020

linhas de fuga


“Ariadne” significa “aranha”. Como a aranha, Ariadne é produtora de um fio: o “fio de Ariadne”. Enquanto as Moiras tecem urdiduras  com o férreo fio do Destino, e são elas que também cortam o fio da vida para assim trazer a morte, o fio de Ariadne é meio para    quem  quer inventar novos caminhos, novas tramas. O fio de Ariadne tem a cor vermelha. Ele se desprende de um novelo tal como o sangue se desprende do coração que o bombeia. O fio de Ariadne não nasce de um ponto e termina em outro, como as linhas traçadas com régua. O fio de Ariadne nasce de um novelo do qual é puxado. “Novelo” significa: “novo elo”. O  novelo é um ventre potencial para novos elos. Quem tem dentro de si um tal novelo nunca fala e age só com o ego,   mas sempre a partir de uma ancestralidade cheia de vozes unida a um berçário de falas novas que ainda nem sabem balbuciar idiomas. Não que nesse novelo tudo já esteja dito: ao contrário, é esse novelo que nos faz ter o que narrar e dizer. Esse novelo é fonte para um “afloramento de falas”, diria Manoel de Barros. Riqueza não é ter dinheiro ou propriedades, riqueza é achar dentro de nós esse novelo  para com ele  criarmos  novos elos; e assim vencermos, quem sabe, esse funesto destino nos quais as Moiras de hoje querem nos ver atados e presos.
Ariadne tinha um par: Dioniso. Ao contrário do Minotauro ,  a “besta” do labirinto que aprisiona , o labirinto de Dioniso era produzido  de seu deambular sempre criador de direções novas. É por isso que de seus caminhos não há mapa ou estradas prévias, como todo caminho libertário .  Somente o fio de Ariadne traça e acompanha a liberdade de caminhos de Dioniso-Nômade-Andarilho.
Certa vez, Teseu quis entrar no labirinto para matar o Minotauro. Teseu representa a racionalidade masculina que teme a vida e quer dominar os instintos à força, já Minotauro simboliza as pulsões que ameaçam a nós mesmos quando ficam presas e reprimidas. A “sede de sangue”  do Minotauro não vem do herbívoro touro, essa sede de  violência vem da parte humana acéfala, essa sim a “besta”. A  luta de Teseu contra o Minotauro simboliza o confronto entre uma cabeça teórica sem corpo contra um corpo sem cabeça. Nessa luta,  quem  sempre  perde é a vida que está no homem, seja pela neurose , quando a cabeça vence, seja pela barbárie , quando quem vence é o acéfalo.
Ariadne simboliza o fio da Vida ; Dioniso, o avançar da arte. A composição de ambos cria linhas de fuga que transmutam as energias pulsionais em impulso para a vida avançar sempre mais.

“O andarilho abastece de pernas as distâncias.” (Manoel de Barros)



Obs.: A palavra latina "occursus" que aparece  na capa do livro aqui acima tem sua origem na "Ética" de Espinosa . “Occursus”  foi traduzida como "encontro". Espinosa dizia que existem os bons e os maus encontros. Os bons encontros nos potencializam, enquanto os maus nos entristecem e despotencializam. Mas a palavra "occursus" também significa "circuito". E esse sentido talvez explique ainda melhor o que é um encontro em Espinosa: o bom encontro cria um circuito onde energias passam, ideias fluem, afetos são partilhados, ações são construídas juntos; já o mau encontro é , literalmente, um curto-circuito que ameaça a nós mesmos.









domingo, 19 de julho de 2020

nise & espinosa: conduzir pela mão


Nise da Silveira cita Bachelard quando este dizia que nossa saúde mental , ou a falta dela, depende  mais do que fazemos com nossas mãos do que daquilo que teorizamos com nossa mente . Talvez  por isso  , depois de filosofar, Espinosa se dedicava a polir  cuidadosamente lentes, como um simples artesão, além de definir sua filosofia como um “conduzir pela mão” agenciado; Wittgenstein fechava  os livros para ir plantar  flores, feito um jardineiro;  Deleuze costumava desenhar entre as aulas, nisso se assemelhando a um cartógrafo; Plotino deixava  seus profundos estudos metafísicos para  ir alimentar com as próprias mãos pequenos órfãos, como se fosse um cozinheiro; depois de escrever  sobre o devir sem culpa  da natureza ,   Heráclito fabricava com as mãos lúdicos   brinquedos para as crianças.
Sobretudo para aqueles cujo pensamento ousa ir muito longe em busca de terras novas, para ele não se perder, é bom mantê-lo unido a mãos que tocam, transformam ou cuidam da realidade próxima, mãos que nada têm a ver com a “mão invisível” do mercado que  apenas sabe contar dinheiro, sem se importar eticamente de onde ele veio.  Somente  mãos que conduzem, cuidam ,alimentam ou transformam  podem ser    a afetiva âncora do pensamento no aqui e agora, sem fazê-lo perder o horizonte aberto  para o qual sempre se desterritorializa e decola .

“Poesia é Oficina de Transfazer a natureza” (Manoel de Barros)






imagens: cartunista israelense Yuval Robichek.





Segundo algumas interpretações, o termo “Gnossienne” deriva de “gnose” , “conhecimento”. Não qualquer conhecimento, mas aquele que une teoria e prática , conhecimento  e afetividade. Satie teria criado  esse nome inspirado no mito de Ariadne, que ensina a Teseu como entrar e sair do labirinto sem se perder: com o fio do afeto conduzindo a mão. Satie é citado por Manoel de Barros como um dos seus compositores preferidos.








sábado, 18 de julho de 2020

o fazedor de amanhecer


Futuro, presente e passado são nomes que não traduzem totalmente o sentido existencial do amanhã , do hoje e do ontem. O passado e o futuro às vezes ficam bem longe do presente, porém nunca se afastam do hoje o ontem e o amanhã . O ano de 1800 e o ano de 2200, por exemplo, representam um passado e um futuro muito distantes do presente, e ninguém que hoje é vivo viveu aquele passado ou viverá aquele futuro. Já o amanhã e o ontem estão sempre próximos ao hoje, dando-lhe sentido. Ontem é um tempo vivido, o amanhã é um tempo que se espera viver, enquanto o hoje é o acontecimento de estarmos existindo. Só existe ontem para quem hoje está vivo, e assim se recorda dele. Recordar é “re-cordis”: “trazer de novo ao coração”. Mas um passado remoto é lembrado apenas na data fria dos livros. Dizem que os deuses vivem num Presente Eterno, porém não os inveja quem segue o conselho do poeta : “carpe diem” ( “aproveite o hoje”) .O passado , o presente e o futuro do calendário são apenas números . Porém o ontem, o hoje e o amanhã são sentidos que preenchem nossa temporalidade existencial . Passado, presente e futuro são tempos da narrativa histórica, ao passo que o ontem, o hoje e o amanhã compõem a duração viva das narrativas novas que podemos construir agora . Mas dessas três dimensões da temporalidade viva, a mais necessária é o amanhã. Não quando ele é visto daqui de hoje, como pura possibilidade ainda, e sim quando ele está para nascer. Ontem, hoje e amanhã são advérbios de tempo. Desses três advérbios, porém , apenas o amanhã é capaz de fazer-se também verbo : amanhecer. Não existe “ontear” ou “hojear”, porém existe amanhecer. O amanhecer é o amanhã que está vindo a ser. Não apenas o amanhã amanhece , pois o amanhecer é verbo que empresta seu sentido a tudo aquilo que se renova: quando os olhos veem de forma nova , os olhos amanhecem. Quando aprendemos uma ideia diferente, é a nossa própria mente que amanhece. Mesmo da noite pode amanhecer um sentido novo, quando suas estrelas são pintadas por Van Gogh. Quando achamos uma direção, o caminho amanhece; quando vencemos a resignação, a ação amanhece. Nada é mais antagônico a esse amanhecer do que o “future-se” a serviço do passado ditatorial que durou 21 anos.
O amanhecer de um dia é o sol que traz. Mas o amanhecer que muda o sentido de um dia é a criatividade questionadora quem faz.

“O meu amanhecer vai ser de noite.” (Manoel de Barros)



sexta-feira, 17 de julho de 2020

assobios...


Aprendi a ler antes de entrar para a escola. Eu tinha por volta de seis anos. Queria muito  aprender a ler porque um grande amigo meu , o Edinho, lia para mim as histórias dos gibis. Edinho tinha dez anos e, além de meu melhor amigo, era  apaixonado por gibis. Ele era o irmão mais velho que não tive (eu era primogênito). Então, minha mãe me colocou  para ter aulas particulares de alfabetização com uma professora vizinha. Eu me lembro até hoje: ela morava em uma casa com um imenso quintal. No meio do quintal havia um grande viveiro de passarinhos  cantando o tempo todo. Havia especialmente um passarinho azul que me marcou profundamente. Ele não era o maior de todos fisicamente , porém  seu canto era muito singular e potente . A mesa da professora ficava perto da janela. Então, na minha imaginação eu ali tinha dois professores: a que com cuidado e atenção me ensinava as letras da língua, e o passarinho que também com cuidado me ensinava outras línguas. Eu amava ser aluno dos dois. A língua que a professora me ensinava eu ainda não conseguia ler, porém a língua do passarinho parecia que já estava dentro de mim. Às vezes, enquanto a professora tentava me alfabetizar na língua dos homens,  na língua do passarinho eu  até já me arriscava a falar, quando então eu assobiava no meio da aula. A professora olhava para mim e sorria. Eu voltava para  casa assobiando a lição poética que aprendi do mestre  passarinho azul.
Quanto à língua dos homens, eu já sabia que “b” + “a” formava “ba”, e que “l” + “a” era “la”, mas eu não conseguia ler o todo que elas formavam quando se juntavam  na palavra “bala”. Eu ia das letras  às sílabas, porém não conseguia passar das sílabas à palavra. Via apenas as partes, não via o todo, e o todo é sempre maior do que suas partes. À noite antes de dormir, eu abria um gibi e  ficava olhando as imagens e identificando as letras e sílabas. Até que houve uma noite em que, de repente, enquanto assobiava inocentemente,  vi a palavra “bala”. Foi instantaneamente que ela apareceu, como um raio. Ela sempre estivera ali, eu é que não a via. Não que me faltassem os olhos do corpo, eram outros olhos que ainda não estavam abertos em mim . Pulei de uma palavra à outra, depois às frases, e destas à história inteira, para depois ficar pensando como ela foi criada. E achei que criar tinha a ver com a lição do mestre passarinho...Perdi o sono aquela noite, com medo de dormir e esquecer o que aprendi. A querida professora me ensinou a gramática, mas creio ter sido aquele passarinho que me ensinou a ler mais do que palavras, e é o canto dele que ainda ouço em todo libertário, como Espinosa e  Manoel.

“Sei falar a língua dos pássaros: é só cantar.” (Manoel de Barros)











quinta-feira, 16 de julho de 2020

horizontamentos...


Certa vez uma pessoa me perguntou de  qual verso do poeta Manoel de Barros eu mais gosto. Respondi indagando se eu poderia citar quatro. Sorrindo, a pessoa disse: “pode”.
O primeiro  verso é este que coloquei como apresentação aqui da página : “Sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.” Apenas apontar as pedras em nada ensina, em nada  potencializa , em nada serve ao avançar.  Quem apenas aponta as pedras, e encontra nelas  justificativas para parar, chorar, lamentar... também  empedra-se. E as pedras mais difíceis de ultrapassar são aquelas que colocamos para nós mesmos. A liberdade inaprisionável  sempre caça um jeito de correr e suplantar  pedras. E prefere secar tentando do que deixar as pedras fazerem nela uma represa de mágoas.
O segundo  verso é: “A palavra abriu o roupão para mim: ela quer que eu a seja.” A palavra só abre o roupão a quem demonstra cuidado e amor por ela, mesmo quando a  emprega como instrumento de indignação e crítica contra os  que violentam  não apenas as palavras.  Mas a palavra só abre o roupão para quem, por intermédio dela, não dirá ou escreverá somente palavra. A palavra também só abre seu roupão para quem  igualmente se desnuda de todo conhecimento pronto, de toda opinião acostumada e da pretensão de ser o dono exclusivo da verdade.
O terceiro verso é: “Poesia é o que horizonta.” Poesia não é construção de muros ou cercas, poesia é sentido que horizonta. Poesia não é só poema, poesia também é política, educação, filosofia, enfim, existência que se pensa e que se cria,  agenciada . Horizontar-se é conectar-se para construir rizomas. Os rizomas são plantas cujas raízes crescem horizontalmente, sem hierarquias ou centros . Os rizomas se movem verticalmente apenas  quando encontram um muro pela frente: como se fossem pernas, suas raízes escalam o muro , descem do outro lado e seguem adiante.
O quarto verso é: “Na ponta do meu lápis tem apenas nascimento.”  O poeta disse isso quando já estava com quase 80 anos !  Seu lápis é ferramenta lúdica e libertária contra a “velhez”.  “Velhez” não é uma idade, “velhez” não é uma vida perto do fim , velhez é uma vida que , antes de nela morrer o que é velho, morreu o que é criança.

“Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas”. (Deleuze)




quarta-feira, 15 de julho de 2020

um pouco de possível...


Os gregos tinham alguns nomes para a alma. O mais famoso desses nomes é Psiquê. Mas a alma às vezes também era chamada por outro   nome : Pneuma ( “Spiritus”, em latim) . Pneuma é “sopro”  ou  “brisa úmida”. Não qualquer sopro ou brisa, mas a brisa úmida que vem do mar e vivifica o deserto.  Pneuma é sopro da vida , diziam os  gregos. Quando o recém-nascido sai do ventre da mãe, ele sai como se estivesse em sono profundo,  a vida nele ainda dorme. Não por acaso, os gregos diziam que Hipnos, o deus do sono, é irmão gêmeo de Thânatos, o deus da morte. Essa semelhança  entre o sono e a morte fica visível na criança que sai do ventre: ela não está morta, porém ainda não está viva, ainda não respira. Até que o parteiro dá pequenas batidas no corpo da criança para ela despertar pela primeira vez. Antes de abrir os olhos, a criança se faz abertura para sorver o ar. Pois ela  não respira  esse  ar inaugural apenas com o nariz, ela o respira  também com a boca, de tal modo que esse ar é seu primeiro alimento, antes mesmo do leite materno. Esse primeiro ar não vai apenas encher os pulmões, ele também acorda as células, as fibras, os nervos e o coração; acorda também o cérebro e os neurônios para o seu primeiro pensar desperto. Esse ar também  imanta o sangue e o faz  circular. Quando a criança abre pela primeira vez os olhos, o Pneuma  se torna igualmente olhar sobre o mundo, o mundo do qual proveio enquanto parte da respiração da própria Gaia, a Terra.  Pneuma é o ar que se aspira ou inspira, o ar que se puxa para dentro para despertar e manter viva a vida . Enquanto Psiquê é a alma sozinha, Pneuma é a alma enquanto sopro que forma com o corpo um único e singular ser vivo. “Meditar” tem a mesma raiz de “medicar”, e talvez seja por isso que as técnicas de cura meditativa consistem em fazer a gente prestar atenção não exatamente na respiração  mas no Pneuma, para despertarmos como desperta , respirando, um recém-nascido . O Pneuma  também pode ser respirado de livros, músicas, artes , enfim, de ideias libertárias. Pois se as ideias  não contiverem  Pneuma,  tornam-se apenas abstração ressequida. E creio ser esse o sentido do que disse Foucault: “Um pouco de possível senão sufoco”, um pouco de Pneuma para não sucumbirmos a esse deserto que  nos cerca.  

“Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.” (Manoel de Barros)



















terça-feira, 14 de julho de 2020

interpretação e mensagem


“Interpretar” é uma das atividades mais importantes dentro do processo de ensino e aprendizagem. A prática da interpretação também tem uma dimensão política, revelando o modo como alguém se posiciona diante da realidade que o cerca. Certos modelos conservadores de ensino querem  fazer da tabuada e da cartilha  os únicos conteúdos a serem ensinados. E quem assim pensa, como o atual ministro da educação,  quase sempre tem em uma das mãos a tabuada ou a cartilha, enquanto a outra mão  segura uma palmatória , literal ou simbólica, para punir os insubmissos aos adestramentos. Em filosofia da educação há uma diferença entre “instruir” e “educar”. “Instruir” se faz com cartilhas , inclusive cartilhas que querem  subordinar o ensino  ao “Mercado”, ao passo que a educação é prática de , entre outras coisas, dotar o estudante da capacidade de interpretar.Interpretar é saber ler  não apenas livros. Interpretar também é saber ler a realidade de forma ativa: não apenas criticamente, mas também criativamente.
A interpretação é prática que se aplica sobre “mensagens”. “Mensagem” não é a mesma coisa que “informação”. Por exemplo, “dois mais dois é igual a quatro”, essa frase é uma informação, não é uma  mensagem . “O número é a alma das coisas (Pitágoras)”, esse é um exemplo de mensagem . Embora fale do mesmo objeto que o da informação, a mensagem transforma  esse objeto em questão  a ser pensada , sentida, enfim,  interpretada : “O que Pitágoras quis dizer ao afirmar que o número é a alma das coisas?” Não basta apenas saber matemática para interpretar essa mensagem, é preciso se indagar também acerca do que é uma alma.
Em grego, “interpretação”  se escreve “hermenêutica” : “ arte  de Hermes”. Na mitologia, Hermes é o “deus mensageiro, o deus que guarda e transporta mensagens”. Mas Hermes não é “neutro”. Certa vez, quando Dioniso foi despedaçado por seus carrascos, uma das versões desse acontecimento diz ter sido Hermes que salvou  e guardou o coração de Dioniso , o deus das artes. Hermes guardou o coração de Dioniso não como alguém que guarda tesouro em  cofres para torná-lo inacessível. Hermes  guardou o coração de Dioniso ao modo como a terra guarda a semente , ou o ventre ao feto: para mantê-lo vivo. Quem escreve ou lê uma informação não mostra ao outro a  pessoa que é (ao contrário , pode até mesmo esconder-se...).  Mas quem escreve  mensagens sempre coloca o coração que tem naquilo que escreve, assim como quem lê uma mensagem sempre a interpreta conforme  o coração que tem.

“Quem descreve não é dono do assunto, quem inventa é.” (Manoel de Barros)

(Manoel se formou em Direito, porém exerceu por pouco tempo a advocacia. Seu último cliente foi um comerciante acusado de roubar no peso das mercadorias. Na primeira e última conversa que teve com o comerciante, Manoel perguntou: “é verdade o que dizem: que você é desonesto?” O  acusado respondeu: “ é verdade, mas vamos inventar uma mentira que me inocente. Fique tranquilo : pago bem.” Manoel se despediu do mau comerciante e foi imediatamente falar com o dono do escritório: “ estou abandonando o caso...A invenção de que gosto é outra”, disse o poeta)


( Obs.: A atividade da interpretação, porém , deve ser precedida pelo esforço da pesquisa. Assim, melhor se interpreta um mito quanto mais se pesquisa/estuda acerca da mitologia como um todo. Não apenas a mitologia grega, mas as diversas mitologias dos povos diferentes. Mas apenas a pesquisa não garante a boa interpretação, assim como o mero condicionamento físico não faz a boa bailarina. Uma boa bailarina sempre é bem condicionada fisicamente, porém não é o bom condicionamento apenas que a torna uma boa bailarina. É por isso que interpretar não é apenas uma técnica, também é uma arte)




segunda-feira, 13 de julho de 2020

o poder democrático e o poder teológico-político


Espinosa nos fala de dois tipos de exercício do poder. O primeiro é o exercício democrático. O exercício democrático se caracteriza por ser a expressão daquilo que Espinosa chama de “multitudo”. É muito difícil traduzir essa palavra, ela não é bem uma “multidão” , muito menos uma “massa amorfa”. A  multitudo é a multiplicidade de singularidades  . “Indivíduo” é um termo sociológico que se opõe à noção de sociedade, como se indivíduo e sociedade  fossem duas realidades diferentes e às vezes antagônicas, como se vê no liberalismo-individualista e no socialismo  . Mas singularidade e multiplicidade  não são duas realidades, elas são uma só, ao mesmo tempo una e múltipla. Na multitudo a singularidade se vê fazendo parte de uma realidade múltipla e plural da qual a outra singularidade também é parte .A multitudo geralmente se manifesta em situações nas quais a liberdade de pensar se vê em perigo. Rebanhos são feitos de indivíduos dóceis, ao passo que a multitudo é a construção de um existir coletivo afirmador de uma sociedade aberta. A multitudo não cabe em nenhuma forma, seja a forma do rebanho, a  forma de uma classe ou a forma de um partido. As palavras “fORma” , “ORdem” e “nORma” têm uma origem comum : o termo “or”, que significa “padrão”. O termo “urdidura” também possui essa origem . E é por isso que quem tece tecidos ou bordaduras precisa mais do que urdiduras: também precisa construir tramas. As tramas são abertas e múltiplas, às vezes transversais noutras vezes curvas, ao passo que a urdidura é sempre reta.
Já o segundo tipo de exercício de poder é o “teológico-político”. “Teológico-político”, aqui, não é apenas a mistura de religião e política. É também isso, porém é mais coisas. Um poder se torna teológico-político quando a política se torna refém de alguma outra instância que é então tratada como se fosse um “Deus” . “Deus” no sentido de algo que requer obediência, sem questionamento. “Deus”  no sentido de uma “Ordem” ou “Norma” inquestionáveis, Ordem e Norma essas que , hoje, são cinicamente identificadas com  uma “Normalidade” rebanhesca de templos, incluindo os templos do consumo. Assim, o poder teológico-político também é aquele que faz do “Mercado” um Deus. É por isso que o poder teológico-político que prega a “prosperidade” individualista combina  tão bem com  o poder econômico-financista que tem no Capital o seu Deus. Ambos não aceitam outros deuses. Por isso, perseguem outras religiosidades, como as de matriz africana e os pajés; bem como veem como demoníacos os que agem em favor dos direitos dos excluídos, dos índios, dos pobres, dos trabalhadores e das minorias.

A multitudo, por ser potência, não pode ser reduzida ao poder instituído de uma forma determinada. A democracia se expressa em determinadas formas ( parlamento , instituições, partidos, etc), porém ela vai além do aspecto formal-representativo. A multitudo é esse aspecto da democracia que não se deixa formalizar totalmente.  A diferença entre as formas democráticas ( incluindo partidos) e as não democráticas reside no fato de que as não democráticas tendem a se enrijecer em formas que se fecham à mudança e à multiplicidade imanentes à multitudo . Os partidos democráticos são abertos à multiplicidade imanente constituinte da sociedade.A novidade de Espinosa, e ao mesmo tempo sua dificuldade, é que ele defende a democracia como uma dimensão também ontológica , e não apenas político-representativa. Não que a multitudo não caiba em ideias, porém ela só cabe na sua ideia própria: plural , aberta e heterogênea. Parafraseando Manoel de Barros: não se pode passar régua na multitudo.. Régua é "existidura de limite", ao passo que a multitudo não tem limites, e é por isso que ninguém pode determinar que "acabou a história" ou que "uma mudança não é mais possível". Não por uma questão de otimismo político, mas de consistência e afirmação ontológica