sábado, 16 de agosto de 2014

o menino e o tesouro

Nenhuma potestade, nem ninguém mais, a não ser um invejoso,
pode comprazer-se com minha impotência e minha desgraça 
ou atribuir à virtude nossas lágrimas, nossos soluços, nosso medo,
e coisas do gênero, que são sinais de um ânimo impotente.
Pelo contrário, quanto maior é a alegria de que somos afetados,
tanto maior é a perfeição a que passamos, isto é,tanto mais participamos 
da natureza divina. 
Espinosa, Ética, Quarta Parte, escólio 2 da proposição 45.

A virtude com a qual o homem livre evita os perigos
revela-se tão grande quanto a virtude com a qual ele os enfrenta.
Espinosa, Ética, Quarta Parte, prop. 69.


Era a primeira vez que o menino iria até minha casa.O encontro, o simples encontro, era o esboço de uma aproximação que ele , nos seus 8 anos de idade ainda, mal entendia o significado. Ele seria, não por escolha sua, meu enteado.Seu pai era completamente diferente de mim: era um homem de negócios, dos altos negócios da selva do capitalismo.Ele morava em um apartamento imenso, tão imenso que dava trabalho, e custava muito, enchê-lo com coisas.Havia muitas coisas lá, todas as novidades do mundo, mas não havia muitos livros, havia apenas os livros que  falam das novidades, novidades estas que amanhã já “serão sucata”, como diria Manoel de Barros.
Do ponto de vista daquilo que o dinheiro pode comprar, não faltava nada a esse garoto. “Ele tinha tudo”, conforme se diz. Mas ele era triste.Contudo,a tristeza e a infância são termos que não combinam.Segundo Espinosa, a pior fase da vida é a infância. Não exatamente por algum problema que lhe seja intrínseco.Na verdade, a infância é a pior fase da vida porque é nela que mais dependemos da qualidade dos adultos que nos cercam. Havia sobre esse menino algumas “verdades”. Diziam que ele não gostava de gente, que era extremamente a-social e que não gostava de ler.Curiosamente, alguns desses aspectos também podiam ser encontrados em alguns dos adultos que lhe eram próximos.
Então, esse menino , não por vontade própria, foi levado até minha casa para me conhecer no cotidiano.Era um encontro apenas entre nós dois.Ressabiado, dando a entender que não queria estar ali, ele entrou pela porta. De imediato, perguntei-lhe se ele queria conhecer o lugar onde eu guardava o meu tesouro.Ele olhou espantado para mim, e sua expressão incrédula , ainda que muda, dizia para mim: “ Como !? Você tem um tesouro?!Você é professor, e meu pai me ensinou que professor é pobre....”.Mas a palavra “tesouro” despertou sua curiosidade, e com o olhar indo em várias direções ele tentava ver onde estava o tal tesouro.
Levei-o até um quarto que eu usava como escritório. Era lá que eu guardava  os livros.Quando ele entrou, disse-lhe: “Aqui está meu tesouro”. Ele olhou em todas as direções e lados, acima e abaixo, deu de ombros e disse: “Cadê!?”. Ele não via os livros. Ou melhor, ele os via, mas estes não existiam para ele como tesouro. E nem podiam, ele era uma criança que ainda estava descobrindo as coisas, e certamente ele ainda não havia feito várias descobertas, inclusive a descoberta dos livros.
Apontei para os livros e disse: “Aqui está meu tesouro...”. Ele olhou incrédulo para os livros. Depois olhou para mim de alto a baixo, e fixou especial atenção na sandália de couro que eu usava, sandália esta que sua avó vivia dizendo, ironicamente, que somente franciscanos sem ambição usam, e certamente tal ironia  deve ter chegado, direta ou indiretamente, ao inocente ouvido dele (porém, mal sabia aquela senhora que tais sandálias de couro também as apreciava os cangaceiros...). Em seus olhos havia a seguinte interrogação: “O que minha mãe viu nesse cara !?”.
Então, sorri-lhe confidencialmente e lhe perguntei baixinho se ele era capaz de guardar um segredo.Já olhando para a porta de saída do escritório, ele disse que sim ,aparentemente apenas para sair logo dali. Contei para o menino que atrás daquelas paredes havia uma caverna secreta.Ao ouvir isso, ele tirou os olhos da porta e olhou para mim. Completei:
-Mas para abrir a passagem que dá para a tal caverna secreta é preciso puxar o livro certo que está na prateleira.
              Ele olhou para mim e, pela primeira vez, vi em seu rosto o esboço de um sorriso, sorriso de criança. “Qual é o livro?”, ele me perguntou. “Descubra!”, fiz o desafio.
                 Ele foi logo num dos livros mais grossos e pesados que viu, que  mal conseguiu tirar do lugar. Que decepção!Nada da passagem ao tesouro se abrir... Ele puxou a  Crítica da Razão Pura, de Kant. Decididamente, esse livro não é porta que leva à imaginação...Depois ele puxou um outro: Discurso do Método, do racionalista  Descartes...e nada de a porta se abrir.Ele puxava os livros e olhava para mim, e ria. Ele sabia que era um jogo, uma brincadeira. Em latim, a palavra que corresponde a “brincadeira”, “jogo” e “sonho” é “ludos”, e é daí que vem “lúdico”. Ele fez uma bagunça, e ficava surpreso por eu não lhe ralhar pela produção daquele caos.Ele ria, gargalhava até.
 De repente, a mãe dele chegou à porta. Ela ficou surpresa com a cena, e parecia não reconhecer o filho, que lhe disse:
 -Mãe, estou procurando uma caverna secreta!...
        Ela olhou para mim e falou:
- Você está zombando do meu filho?
- Não , não estou.Quem deseja educar alguém nunca deve zombar dele, embora possa brincar com ele, mas sempre no paciente esforço para ensinar alguma coisa, e também aprender.
Disse ao menino:
- A caverna secreta existe sim, eu e você sabemos disso; sua mãe também sabe, mas às vezes ela esquece que foi lá que ela me conheceu.O mundo dos adultos às vezes é chato e triste, e eles querem que você fique triste também. E é por isso que eles dizem que a caverna não existe.Nem todos os livros levam à caverna secreta.Mas esse aqui leva...
Puxei então da prateleira uma edição para jovens de um livro que poucos sabem ou imaginam o mundo que está nele, mundo por descobrir. Trata-se do livro Moby-Dick...
Ele pegou o livro com cuidado. Assim que abriu viu os desenhos, as ilustrações coloridas.
- Uma baleia!...
-Sim, essa é Moby-Dick...Tem um homem que vai tentar aprisioná-la, e para esse homem parece que ela é má. Mas ela não é má, ela apenas não quer se deixar domar, ela é livre.E quem não quiser domá-la, quem aceita sua liberdade e vence o medo , ela deixa que suba no dorso dela, e assim fazem viagens extraordinárias...Você vai ver....
Segundo me disse depois a mãe do menino, ele dormiu naquela noite com o livro lhe fazendo companhia.E no dia seguinte  o levou para escola,sob o braço, sem colocá-lo na pasta.
O menino estava protegido, embora a  vida ainda lhe reservará perigos. Mas naquele dia ele se tornou mais um que Moby-Dick deixou subir em seu dorso invencível.


Quem quer vingar as ofensas por um ódio recíproco vive, na verdade,infeliz.
Quem, contrariamente,procura vencer o ódio pelo amor, combate, certamente, 
com alegria e segurança; defende-se facilmente tanto de um quanto de muitos homens; e não precisa , de modo algum, ser socorrido pela sorte.
Por sua vez, aqueles a quem vence , rendem-se felizes, 
não, certamente, por carência, mas por acúmulo de forças.
Espinosa, Ética, Quarta Parte,escólio da proposição 46.


sábado, 9 de agosto de 2014

kairós



Viver é transformar-se dentro da   incompletude.

                      Paul Valéry.


Naquele fim de tarde resolvi ir à cinemateca do MAM ( o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro).O filme que vi na ocasião ainda está muito vivo em minha memória, embora já se tenha passado muitos anos.
O filme começa de imediato, mal as luzes da sala se apagam,  sem créditos ou música. Surge a primeira cena do filme: tendo como moldura um dia ensolarado, dois adolescentes estão sentados em um  banco de praça. Era um rapaz e uma moça. Os dois permaneciam mudos. Ouvimos o vento, escutamos aqui e acolá passarinhos cantando.E mais nada.O tempo passava , nada se alterava: mudos.Houve uma inquietação na sala do cinema, muitos já estavam incomodados com aquele silêncio. Porém, detive minha percepção no rosto dos personagens, e vi que os rostos deles não estavam mudos: eles falavam.O rosto do menino expressava uma decisão que ele queria tomar, mas hesitava, ao passo que o rosto da menina indicava uma espera.Ele queria agir, ela esperava.O tempo também pode se expressar no corpo,E era isso o que acontecia.Pelas suas expressões, percebia-se que o rapaz nutria pela menina um sentimento especial, que a muito custo ele ocultava dentro de si. De repente, ele toma coragem , e a coragem se mostrou como expressão em seu rosto.Algo se acendeu em seu rosto, ficou mais vivo....Mas quando ele abriu a boca para falar, aquela luz retraiu, a vida se escondeu: ao invés de ele falar o que sentia, ele usou a palavra apenas para se esconder. Ele disse à menina algo acerca do tempo, que estava muito bonito. No rosto da menina via-se decepção, mas ela também cedeu ao teatro,dissimulou, e também se escondeu.Eles  passaram a conversar  sobre coisas banais. Contudo,a verdadeira “conversa” se passava ao nível dos gestos incontrolados, nervosos, desconectados e involuntários . Percebe-se que o garoto estava apaixonado pela menina.
 O garoto não se revela para a menina ao seu lado . Logo depois a família do menino muda-se para longe.Eles se separam ,cada um vai viver sua vida , nunca mais se vêem. O tempo passa, ela se casa, tem filhos e netos. É amada e também ama. Sua vida parece ter sido vivida da única maneira possível, como se tudo o que lhe ocorrera já estivesse desde sempre escrito. E, assim, ela se acreditava feliz.
O garoto torna-se homem, também se casa com uma mulher que muito o amou. Na verdade, parece que assistimos a dois filmes em um só, pois cada um dos personagens leva sua vida  sem nunca mais ver ou ter notícia do outro. Aparentemente são felizes e fizeram o que parecia ser  o mais natural. Viviam uma vida normal, comum.
No entanto, ele se torna viúvo. Para minorar um pouco a dor dessa perda, ele resolve fazer uma viagem a Veneza. Sem que ele soubesse, para aí também fora o seu antigo amor ,em viagem de férias.
Então, o inevitável acontece: eles se reencontram , ao acaso,  nas proximidades do canal. Ambos se reconhecem. Logo começam a conversar, e parecia que aquela conversa não havia começado ali, naquele presente. Eles bebem vinho, o tempo parece  revir, e não mais passar. De repente, percebe-se que sob a barba branca e dos cabelos grisalhos aquele garoto indeciso estava ainda vivo no homem velho. Após algum tempo de conversa, ele resolve confessar a ela que durante todos aqueles anos sua mente  não passara um dia sequer sem pensar nela.  E ele faz essa confissão usando como escudo um sorriso , atrás do qual ele tentava esconder  aquele garoto triste que ele jamais deixou de ser. Após ouvi-lo,  a mulher estremece, algo de intenso lhe ocorre, como se ela tivesse dentro de si uma represa que subitamente rachasse pela pressão da água querendo fugir. Para  a imensa surpresa dele, ela também lhe confessa que  sempre o amara durante todo aquele tempo e que sempre pensara nele. O filme então acaba...
Pensa-se: “que filme idiota e banal!”. Porém, quando  todos os créditos passam pela tela e nós já nos preparávamos para sair, o filme novamente retorna à primeira cena, como se o fim reencontrasse o começo, como se o passado fosse  o futuro que de novo retornasse.  Ouve-se a voz do narrador em off, enquanto  a cena se desenrola em câmera lenta[1]. Diz o narrador: “— eu que sempre fui considerado corajoso e firme, e muitas medalhas ganhei por enfrentar, sem medo, os tanques alemães durante a guerra, no entanto não fui capaz de fazer esse pequeno gesto ( aparece então ele abraçando a menina, que lhe retribui com um  sorriso) , se eu tivesse  realizado esse gesto tão simples, não só esse filme não teria existido, como minha vida , que aparentemente foi como deveria ter sido, teria sido, no entanto,  completamente diferente...”.
A vida é composta desses pequenos momentos que são, na verdade, não pontos indivisos  que se sucedem em linha reta rumo a um fim (que acabamos por aceitar que era o fim ao qual desejamos), mas bifurcações nas quais cada instante se abre a duas ou mais direções divergentes . E cada uma dessas direções se abre a futuros completamente diferentes, mas que ainda não são reais: são esboços de nossa vida futura, que apenas vislumbramos obscuramente com a lente do nosso desejo.
 Do nosso futuro depende a nossa ação no presente , pois é a partir do presente que afirmamos o futuro que ainda não somos, mas  para o qual nos impele o nosso desejo de ultrapassar o que acreditamos ser. Descobrimos que aquilo que ainda não somos não espera por se revelar no fim, mas que o criamos a partir do processo, do percurso.
Os gregos diziam existir quatro dimensões do tempo, e não três. Além do presente, do passado e do futuro, eles diziam existir também o kairós. Este termo significa: “momento oportuno”. Qual é o momento oportuno? Não há livro que o ensine, tampouco teoria. E quem passivamente o espera chegar só verá as costas dele, quando ele já estiver indo.O momento oportuno não é um  momento privilegiado, pomposo, em destaque. O momento oportuno só existe se for criado. Quando ele nasce, morre o passado, renasce o futuro.O momento oportuno pode ser  qualquer momento  no qual conseguimos criar uma direção nova para uma estrada que imaginávamos  ir apenas em uma direção: aquela que um roteiro pré-determinava.
O kairós  é cada momento singular do tempo onde duas ou mais direções se bifurcam .E cada direção não nos leva a um ponto que preexista ao movimento de percorrê-la. Pois não é uma direção no espaço (tal como uma estrada), mas no tempo: cada direção  nos leva a um lugar que embora ainda não exista, cabe a nós agirmos para assim fazê-lo chegar ao presente , para ser esse mesmo lugar onde estamos, mas diferente, novo, transformado pelo nosso desejo.

(trecho do livro)




segunda-feira, 4 de agosto de 2014

mínimas









Traçado a giz
deve ser o contorno
de quem amanhã já não será o mesmo.


***
A melhor maneira de ver no escuro
é mantendo a alma acessa.

***

O coração não faz sermões:
ele nos pega pela mão e conduz.

***

Os cabelos brancos, como a altiva neve,
só deviam adornar os altos picos.


***

“Um pássaro empalhado pousado numa árvore morta”,
eis no que se torna a palavra,
quando dita por uma boca que se perdeu da alma.


   
***
A pérola nasce dentro da ostra
porque sua confiança não depende do que lhe está fora.


 ***

Melhor sabe despertar
quem pela manhã abre os olhos
como se fosse pela vez primeira.


 ***

Enquanto lhe estendia a mão direita,
com a esquerda me agarrei onde a morte não alcança,
para assim levantar nós dois.

*** 

Só deve frutificar na boca
a palavra cuja semente na ação se plantou .

***

Estenda a mão como uma corda caída do céu.

***

O sol não tem memória do brilho que ontem fez.

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O caminho para ir e o caminho para vir
não conhecem os mesmos pés.

***

Quando um amigo lhe abre a casa
somente a entre se na porta deixar toda arma.

*** 

A seda do coração é azul,
e tem o cheiro das maçãs que se embrulham nela.



***
O labirinto mais difícil de se vencer
é aquele que tem no seu centro o que mais desejamos.


***

Uma facada me deu a saudade:
do meu coração sangrou Cartola.

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No avesso da palavra
pode-se ver qual sentimento cerziu suas tramas .

***

A memória da cor
nunca se esquece do que torna eterno
os dias felizes.

***

Sorrimos nos retratos em agradecimento ao tempo,
que deixou conosco um instante seu ficar.


***

 As ações são obras que se perdem
se nos detemos muito no esboço delas.

***
  
Ao sutil vê quem é amigo das cores.

***

Não guarde palavras em sua alma:
são bagagens que limitam a viagem.

***

Esquecer é aprender a viver de novo.

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Ao seguirmos os passos do tempo na areia,
o tempo é o mesmo vento que apaga os passos atrás.

***

O melhor conselho é ação que se dá de presente.


 *** 

O que pode a arte,
sente-o o que em nós não é obra ainda.

***

Rabisca-se primeiro no coração, antes de toda palavra,
a lição que em nenhum livro está ainda escrita.

***

É perigoso enterrar o passado no peito, imaginando que assim nos livramos dele:
esta terra é por demais  fértil, muito mais do que supomos.
Basta que a regue um tango, um Cartola ou a voz de Billie Holiday...
e tudo de novo floresce como no dia em que nasceu pela primeira vez.












sábado, 2 de agosto de 2014

manoel de barros e dioniso



(trecho do livro)
Quem consegue dizer como arde,
está em pouco fogo.
Petrarca

No Fedro, Platão nos apresenta uma alegoria que retoma, com roupagem poética, a doutrina das faculdades. Platão se valera da   idéia da carruagem   como modelo para a compreensão da alma humana. A carruagem de Platão compõe-se de três elementos: o cocheiro e dois cavalos. Na carruagem de nossa alma, diz Platão, o cocheiro é a Razão: é esta que tem as rédeas e guia a carruagem para um rumo determinado, ao passo que aos cavalos cabe a obediência à disciplina imposta pela razão-cocheiro. Um dos cavalos, de cor branca, é dócil e receptivo aos comandos da razão: trata-se da Vontade. Mas o outro cavalo, de cor preta, é indisciplinado, convulsivo, rebelde. Quanto mais a razão quer comandá-lo, mais rígida ela precisa ser. Por mais que tente forçá-lo a seguir em linha reta, é sinuosamente, barrocamente, que o cavalo preto insiste em ir. Este cavalo preto é o Desejo. 
Segundo Platão, na carruagem de nossa alma a razão e o desejo, o cocheiro e o cavalo preto, estão sempre em conflito. Este nasce pela impossibilidade que a razão encontra de pôr o desejo na direção dos valores morais que ela visa atingir. A disciplina moral é a rédea da razão, às vezes também seu chicote, mas o desejo não se dobra, resiste, e segue atraído pelas aparências do mundo sensível  .  Seguir o desejo é perder-se, desorientar-se, maldizia Platão.  Mas a alma não pode prescindir desse rebelde cavalo preto, uma vez que é dele que provém a maior parte da energia que a faz mover-se. 

Curiosamente, uma outra imagem da carruagem inspirou Nietzsche. Trata-se da Carruagem de Dioniso, o Deus das Artes. Segundo o mito que cerca este Deus, Dioniso se locomovia em uma carruagem, sendo ele próprio o cocheiro. Mas, ao invés de cavalos, sua carruagem era puxada por panteras. Eram temíveis  feras transportando o deus e mostrando o grande poder de Dioniso para guiar a natureza. A arte não nega ou reprime a natureza  ( como o faz o cocheiro de Platão), mas a põe a seu serviço conforme uma disciplina que não é estrangeira à potência das panteras. Na natureza, as panteras são solitárias e jamais se unem. Porém, sob as mãos da arte, as panteras se tornam forças que se conjugam, que se agenciam, e conduzem a alma por sendas onde a razão não ousa ir.  
Dioniso transforma a agressividade destrutiva e mortífera das pulsões-panteras em potência criativa afirmadora da vida. Dioniso é o próprio desejo que se tornou guia, cocheiro, domador: somente se pode segui-lo com a condição de metamorfosear-se, conjugando  disciplina e inventividade na condução da carruagem . Esta segue para onde não se sabe, pois seu destino é o próprio percurso enquanto este se faz. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

o ouro de espinosa

( Espinosa, Ética, Parte Cinco, proposição 42, escólio)

O ouro é precioso porque ele é raro. Por isso ele vale tanto e é tão desejado.O que é raro desperta o desejo .O ouro é um corpo, ele é um corpo raro.E a este corpo muitos depositam promessas de felicidade pela qual desejam suas almas. Por esse corpo ser raro, precioso, todos o querem ter, e alguns o buscam à força, trapaceando, roubando. Outros o põem adornando tronos.Se a cerâmica fosse tão rara quanto é o ouro, e o ouro fosse tão fácil de obter quanto a cerâmica, seria a cerâmica que adornaria os tronos, e o ouro seria usado como piso em todas as casas. Assim, o que faz o ouro ser ouro, não é tanto o que ele é enquanto corpo, mas a sua raridade, é a sua comparação com outros corpos que existem em maior quantidade.O que faz o ouro material valer tanto, é também porque a ele deseja a imaterial alma.É isto o que o faz precioso. Não é sua dureza, pois há pedras mais duras que o ouro; não é sua cor, dado que existem minerais mais belos nesse aspecto. O que o faz tão desejado é a sua raridade, assim como é rara, imaginam os homens, a felicidade.Além disso, se sumirem do mundo a pedra, o cisco, o cascalho, as migalhas de coisas inúteis e tudo aquilo que não damos valor, e se tudo no mundo fosse apenas feito de ouro, talvez ansiássemos por encontrar um cisco ou cascalho como o garimpeiro que anseia achar um  diamante.Ter  uma casa inteira de ouro,e mais ainda todos os móveis e alimentos que estão na casa, e mais  todos os utensílios e roupas, tudo de ouro,talvez  quem por isso passasse aprendesse a valorizar, quem sabe, a raridade que está no simples  pão feito de trigo, na modesta roupa feita de algodão, na comum cadeira feita de madeira. É a isto que ensina o mito de Midas, o rei que a tudo transformava em ouro pelo simples toque, e que quanto mais de ouro ele se cercava, mais de pedra se tornava seu próprio coração.
Ora, o que vale para o mundo material vale ainda mais para o mundo espiritual. O mundo espiritual também tem seu ouro. Todavia, ele também tem coisas não muito valiosas. O mundo espiritual , mundo do pensamento e da alma, é feito de ideias. Contudo, ocorre com o mundo espiritual o inverso do que acontece com o mundo material, onde o ouro impera. Não são as ideias raras as mais valorizadas e desejadas por aqueles que querem exercer poder sobre os homens, para assim mantê-los na servidão e na ignorância, na pobreza espiritual. Ao contrário, são as ideias que valem pouco, são as ideias medíocres, medianas, as que mais se prestam para tal fim.E muitos as ensinam e oferecem, e também as vendem, como se fossem ouro, como se fossem o ouro do mundo espiritual.  Estes que  procedem assim, no entanto,são os que mais se enriquecem com o ouro do  mundo material, pois parece que eles usam o mundo espiritual apenas como meio para obterem o ouro do mundo material, e assim falam do espírito apenas como meio para obterem templos suntuosos e tronos de ouro, além de cátedras e títulos. Mas o ouro do mundo espiritual é mais raro ainda que o ouro que vive debaixo do chão. Obtê-lo é mais árduo ainda que garimpar rios ou abrir minas na pedra.O ouro que verdadeiramente nos enriquece não  é visível, não está à vista fácil, tampouco serve apenas para adornar as palavras ou ser acumulado em cofres eruditos. Por isso, dele não há posse exclusiva, nem ostentação.Buscar esse ouro, esforçar-se por ele, já é a própria felicidade, já é a própria riqueza, diz Espinosa. A coisa mais preciosa que existe é aquela da qual só existe um exemplar. Cada coisa singular é preciosa, rara, exatamente por ser única.

***   ***   ***
(Ética, Parte Três, proposição 44,  escólio)
Na vida dos homens em geral, mesmo naqueles que se dizem “práticos” ou “pragmáticos” ( e que não apreciam teorias ou reflexões),a imaginação é muito mais presente em suas condutas  do que eles  suspeitam ou sabem. A imaginação se caracteriza por imaginar como presente uma coisa ausente.A imaginação imagina como presente as coisas ausentes.Não uma coisa que esteve presente e por alguma razão  se ausentou, mas uma coisa que jamais foi ou é presente.  Por exemplo, o avarento imagina que todos querem suas moedas. Ou seja, sua imaginação torna presente na mente do avarento um sentimento que está ausente nos outros:o avarento imagina estar presente nos outros um sentimento que apenas está nele.O ciumento imagina e torna presente na mente dele a imaginação de que os outros desejam o que ele tem. Ele torna presente dentro dele essa ideia confusa, essa imaginação, e imagina que está presente nos outros esse desejo: isto na verdade mostra o quanto é fraco o desejo do ciumento em relação às coisas que ele imagina ser dele ou ele merecer ter.O homem da imaginação, da imaginação passional, não apenas torna presente o que está ausente, como também age como se fosse verdade o que é apenas fruto de sua imaginação.Um ciumento, por exemplo, pode ferir ou matar.O vaidoso imagina e torna presente em sua mente que os outros são vaidosos e o invejam, ele imagina como presente algo que está ausente nos outros, porque ele ignora como ele de fato é, e assim ignora também o que são de fato os outros.Imaginando essas coisas, ele pode agir de fato para prejudicar os outros, embora a imaginação prejudique, em primeiro lugar, a ele mesmo: prejudica a sua capacidade de compreender.
A imaginação não é como a memória. Esta faz viver, com a força da própria alma que se recorda, o que aconteceu.A memória recorda o que aconteceu.Ao contrário,a imaginação pode imaginar como presente o que nunca aconteceu, ou então imaginar que está presente nela , como adivinhação, o que acontecerá. Assim , a imaginação imagina que o futuro é uma coisa presente, tal como ela imagina que é uma coisa presente a inveja ou o ciúme que ela imagina estar na mente dos outros.Mas quando a imaginação assim procede, imaginando como presente o que está ausente, ela o faz ignorando sua própria presença, ignorando que é ela que inventa. Outro exemplo dado por Espinosa: quando olhamos para o sol, o vemos do tamanho de uma bola.Na verdade, o que vemos não é o sol, mas o resultado da ação do corpo do sol sobre o nosso.O que vemos é uma imaginação. Assim, por mais estranho que possa aparecer, não há diferença, do ponto de vista sensível, entre percepção e imaginação.O sol do tamanho de uma bola só está presente na nossa mente, na medida em que esta padece uma afecção do corpo ao qual ela está ligada. Para a mente formar uma ideia adequada do sol, é necessário que ela se autonomize em relação a este padecer, e aja. Ela age formando ideias adequada. A ideia adequada do sol nos ensina que ele não é do tamanho de uma bola.Mas jamais veremos, com nossos olhos do corpo, o tamanho exato do sol, mesmo porque com os olhos do nosso corpo somente vemos corpos, e não ideias.Por outro lado, ter a ideia adequada do tamanho do sol não fará com que desapareça o fato de o vermos do tamanho de uma bola.Assim, percebemos que ver o sol do tamanho de uma bola somente é um erro quando estamos privados da ideia adequada dele.Ver o sol do tamanho de uma bola é algo necessário, é uma verdade também, mas que se explica pelo mundo dos corpos e pela maneira como uns agem sobre os outros.A imaginação não é uma ilusão ou aparência, ela somente se torna isto quando a alma fica impotente para agir/conhecer de forma adequada as coisas.E a razão disso acontecer não é o corpo ou a imaginação, mas a própria mente, quando esta não consegue desenvolver sua potência, que é o conhecimento.
Se nós tivéssemos consciência dessa força que a imaginação possui, a veríamos como arte, e não como algo que fala sobre a realidade dos fatos .A imaginação somente se torna ruim quando ela ignora a ideia que torna clara o que são as coisas que de fato existem, e que ela, a imaginação, não pode substituir com uma mera imagem ou fabricação sua.Somente na arte esta força da imaginação de tornar presente o que não existe, somente na arte essa força se torna virtude, e com ela podemos aprender sobre nós mesmos.
Por isso, a dimensão estética, que envolve a imaginação, tem um caráter ético também, no que concerne a nos tornarmos ativos, e não apenas reativos. Há também nisso um caráter clínico, além de político,na medida que se trata de nos curarmos da ignorância de uma força produtiva e inventiva  que está em nós, mas que ignoramos tudo o que ela pode em termos afirmativos, já que a "psicopatologia da vida cotidiana" nos mostra apenas o seu lado negativo, de destruição, seja a destruição/negação do outro , seja a negação/destruição de nós mesmos.
Assim, entre a ideia que conhece as coisas e a imaginação que inventa coisas não há contradição ou luta. A imaginação artística pode nos ensinar, por imagens, a melhor compreender uma ideia, assim como uma ideia nada é se também não puder ser imaginada, se não favorecer em nós o aumento das nossas capacidades, inclusive a capacidade de imaginar.Não imaginar como presente o que está ausente,como na imaginação passional, mas criar imagens que traduzam, no campo sensível, do sentir, toda a potência que há no campo das ideias, no pensar.Quando a imaginação assim procede, ela também se torna uma potente ferramenta didática   da educação.

"Nossa suprema felicidade consiste em realizar apenas aquelas ações que o amor e a generosidade nos aconselham". (Ética, Parte Dois,proposição 49, escólio)













terça-feira, 29 de julho de 2014

o que é o afeto?

O QUE É O AFETO?
(Espinosa, Ética, Segunda Parte, Definição 5)
Segundo Espinosa, o homem possui um corpo e uma mente.Nisso não há nenhuma novidade, muitos também afirmaram isso antes dele.Espinosa inova verdadeiramente, e muito, quando afirma que a mente e o corpo do homem não são realidades que existem em si, de forma independente de todo o universo.A mente e o corpo do homem são partes do universo, partes singulares.O corpo é parte do mundo material, a mente é parte do mundo espiritual.A mente é parte de uma realidade que vai muito além dela, assim como o corpo é parte de uma realidade também muito maior.
A nossa mente e o nosso corpo se distinguem de todo o resto porque eles existem de forma determinada. “De-terminar” significa: dar fim, delimitar.Sabemos que uma onda é parte do oceano, mas de certo modo a onda é o oceano mesmo, mas modificado, determinado a existir como onda. Mas essa determinação não cria um outro ser diferente do oceano, cria apenas o oceano existindo de certa forma determinada, como onda. A onda é um modo ou uma modificação do oceano, uma maneira singular de ele ser.
Assim, a nossa  mente e o nosso corpo são determinados a existir como onda não pelo próprio oceano, mas por outras coisas determinadas .Devido à nossa maneira muito limitada de apreender a realidade, vamos de coisa determinada a coisa determinada, de onda a onda, umas pequenas e outras grandes, e assim ignoramos o oceano que produziu todas as coisas determinadas. De maneira determinada, fui gerado por uma coisa determinada que me pôs no mundo, e esta coisa determinada que me gerou também foi gerada por outra coisa determinada que a gerou, e assim até o infinito. Todavia, o infinito não é feito de coisas determinadas, assim como o oceano não é feito de ondas, como se estas fossem a causa e ele o efeito. Ao contrário, é o oceano que é causa da existência das ondas, mas o oceano não é causa da mesma maneira como pode ser causa uma coisa determinada de outra coisa determinada. As coisas determinadas podem ser causas parciais da existência de outra coisa determinada. Ela é dita causa parcial porque ela não pode ser causa total. Ou seja, uma coisa determinada que produziu uma outra coisa determinada explica apenas em parte a existência dessa coisa determinada. Somente o que é causa total pode explicar a existência de algo. Mas explica não apenas por sua existência, explica antes pela sua essência. Assim, uma causa parcial pode produzir parte da existência de algo determinado, mas não pode produzir sua essência.Um pai, por exemplo, é causa parcial da existência de seu filho, mas ele não é causa de sua essência.Um pai é causa parcial apenas de seu filho, e até mesmo de seu neto. Porém ele não o é do filho de um outro pai.A causa que produziu uma essência produziu também a essência de todas as coisas, inclusive a do filho e a do pai, e o fez  de forma  diferente daquela como age um pai.Uma causa assim total cria não apenas uma essência, ou uma a uma, ela cria todas as essências, e as faz eternas, assim como ela. Uma causa total cria todas as essências, ao passo que uma causa parcial cria uma determina existência ou parte dela.Uma existência determinada , a do pai, pode desaparecer sem que desapareça a existência determinada do filho , que ele no entanto pôs no mundo. Contudo, a causa total que produziu uma essência nunca desparece: ela está viva em todas as essências, de tal modo que destruir uma essência, por mais simples que seja, seria também destruir a causa infinita de todas as coisas. Por essa razão, uma essência não pode ser destruída por outra essência, e nenhuma essência determinada pode criar outra essência.  A causa infinita que produziu cada essência é a Vida, e esta  nunca destrói ou mata. O pai põe no mundo, Deus põe na eternidade, isto é, põe nele mesmo, como modificação dele mesmo.
Portanto, a essência de tudo que existe é uma modificação de Deus e, assim como ele, é eterna. Somente o que é gerado por uma causa parcial, uma causa determinada, existe em um tempo determinado e, assim, morre. Morrerá por outras causas determinadas. A causa total não age de fora, assim como o fazem as causas determinadas. A causa total ou infinita age de dentro, na  imanência de cada coisa que ela produz. Por isso, a causa infinita é dita causa imanente.
 Se olharmos para a mente do homem apenas do ponto de vista da sua existência determinada, a veremos como o efeito de coisas determinadas que a produziram : a língua, os costumes, os valores ( da família e da sociedade). Enfim, veremos a mente apenas em seu aspecto psicológico, que uma ciência, a psicologia, pode fazer de objeto de estudo, pois a ciência somente consegue lidar com coisas determinadas. Todavia, as coisas determinadas não subsistem por si mesmas, a não ser por uma abstração, assim como a onda não pode subsistir sem o oceano. Além disso, o oceano somente é indeterminado visto sob os olhos da onda individual. Quando adquirimos olhos para ver o próprio oceano da vida, compreendemos que ele é potência que é mais real do que tudo que existe de forma determinada, e  que o determinado nada é sem essa potência que age na imanência dele.O indeterminado só tem sentido em razão das coisas determinadas.   Assim, a mente existe psicologicamente como coisa determinada, e é dita ser a mente de João ou Pedro. Mas a mente também é o produto da natureza, e sob esse aspecto ela não é apenas psicológica, ela é ontológica, ela existe como parte da natureza espiritual infinita.Vista sob essa perspectiva, a mente é uma abertura a um pensamento infinito do qual ela é uma parte.
Do que é composta a mente? Ela é composta de duas coisas, e nada mais.A mente é composta por ideias e por  afetos. Ideias e afetos têm algo em comum: eles são pensamentos, eles são formas de pensar.Eles são maneiras de a mente se expressar.Mas eles têm algo diferente: toda ideia o é de algo que existe no mundo dos corpos.Toda ideia possui uma realidade objetiva: ela representa algo que existe no mundo material . Por exemplo, uma coisa é Pedro enquanto ideia que minha mente forma, outra coisa é Pedro tal como ele existe no mundo material. Uma coisa é a ideia de cadeira que formo em minha mente, outra coisa é o objeto dessa ideia, já que o objeto também existe no mundo material.Posso sentar-me na cadeira que existe como objeto da ideia, e não na própria ideia da cadeira.Coisa diferente acontece com o afeto.Este existe apenas na mente, no pensamento.Isto não significa que o afeto não existe ou seja apenas imaginação. O afeto existe, tanto quanto as ideias.Por exemplo, o afeto amor.Segundo Espinosa, quando vivemos esse afeto, não podemos vivê-lo sem um objeto que exista no mundo material, seja este objeto uma pessoa ou coisa, pois o amor é aquilo que nos faz desejar nos unir a algo ou alguém. Quando amo ,por exemplo, uma roupa, desejo me unir a ela, vestindo-a o máximo de vezes que puder;quando não gosto dela a mantenho no armário, esforço-me para não me unir a ela.  Para vivermos o amor é preciso existir uma coisa amada, é necessário uma ideia da coisa amada. Para vivermos um afeto, necessitamos de uma ideia que nos remeta ao mundo dos corpos. Exemplo bem simples: Maria ama Pedro porque ela, além de viver o afeto, tem também a ideia de Pedro dentro dela.  Ninguém ama sem amar alguma coisa. Assim , quando amamos algo, unem-se em nossa mente o afeto e a ideia desse algo, ao mesmo tempo que se une nosso ser e o da coisa amada que existe fora de nós.É por isso que amar intensifica  a mente, a torna mais viva, pois une afeto e ideia. O afeto depende da ideia para ser vivido de forma objetiva. Mas a ideia não depende do afeto para exercer sua atividade essencial: o conhecer.Para amar algo necessito da ideia desse  algo.  Para conhecer uma coisa, porém, não preciso exatamente amá-la, e muito menos odiá-la. Necessito apenas formar uma ideia adequada dela. Contudo, quando amamos algo nem sempre fazemos uma ideia adequada primeiro da coisa para depois amá-la. Se assim fosse, viveríamos apenas uma vez o amor na vida, e seríamos felizes para sempre, certos do amor assim como estamos certos de que dois e dois é igual a quatro. Todavia,não raro amamos algo sem formar desse algo uma ideia adequada, verdadeira. Não raro, amamos nos fiando apenas em ideias aparentes de um ser , ideias estas que depois se mostram inadequadas, confusas, e isto muitas vezes ao preço de grande sofrimento.Mas talvez a razão de formarmos ideias confusas das coisas reside no fato de termos antes  ideias confusas, não verdadeiras, de nós mesmos. Por que isso acontece?
Uma coisa não possui apenas uma ideia, ela possui também um corpo.  A primeira coisa que vemos de algo que existe é seu corpo, sua existência material. E um corpo que existe age sobre o nosso . Não vemos ideias, vemos corpos.Os corpos são objeto da percepção, já as ideias somente passam a existir se nós as formamos: elas exigem uma atividade da alma.Uma ideia não é uma imagem. Vejo um celular de última geração: vejo seu corpo. E seu corpo age sobre o meu. Nasce um amor irrefreável por ele, desejo me unir ao objeto como algo que me fará feliz:o compro antes de formar uma ideia adequada do que aquela coisa é.Quanto menos conseguimos formar uma ideia adequada de algo, mais imaginamos coisas que nada têm a ver com a ideia verdadeira desse algo, e passamos a atribuir-lhe propriedades quase que mágicas, como se a coisa não fosse exatamente um corpo feito por outros corpos: imaginamos realidades  que não tem, a vemos como causa , quando na verdade ela é efeito, efeito de uma causa que ignoramos. Esse agir apenas em função de uma imagem, imagem esta nascida da ação de um corpo sobre o meu, esse “agir” na verdade não é um agir, mas um reagir. Este reagir recebe um nome:paixão. Paixão se origina de passio, que significa “sofrer a ação de algo” .Como a nossa vida é mais governada pelos corpos do que pelas ideias, vivemos a vida mais ao sabor das coisas que agem sobre nós do que pela capacidade que temos de formar ideias adequadas das coisas. Quando um corpo age sobre  outro nasce o que Espinosa chama de afecção. A afecção não é o afeto. A afeção é uma modificação que nosso corpo sofre pela ação de outro corpo. Por exemplo, quando vemos um corpo que age sobre o nosso , nossos hormônios se alteram , assim como a respiração e mesmo a circulação do sangue.Todas essas modificações que ocorrem no nosso corpo são afecções.
Tudo o que ocorre no nosso corpo terá um correspondente em nossa mente.Quando formamos uma ideia adequada de uma coisa, formamos uma ideia adequada também do seu corpo, de sua realidade material .Mas se um corpo age sobre o meu e o torna apaixonado, perco a capacidade de formar uma ideia adequada dele, pois as afecções que ele produzirá em mim me deixarão passivo. E a mente somente consegue formar uma ideia adequada quando ela não está passiva.Dessa forma, o correspondente na mente das afecções não serão os afetos, já que estes não têm objeto. O correspondente na mente das afecções corpóreas serão as ideias inadequadas, ideias confusas. Assim, quando algo nos deixa passivos porque seu corpo age sobre o nosso, nossa alma também fica passiva , e dentro dela nascem as ideias confusas . A mente se torna ativa, livre, apenas quando ela é capaz de formar ideias adequadas.A ideia adequada torna a mente capaz de compreender e fazer nosso ser inteiro, inclusive o corpo, a agir adequadamente, de acordo com essa compreensão. A ideia inadequada e confusa não tem por causa a própria mente, mas algo que ocorre no corpo ao qual ela está ligada.É por isso que a mente não compreende a ideia confusa, e esta a faz de refém em sua própia casa.A ideia confusa não é bem uma ideia, ela é uma imaginação. Assim, quando amamos apenas de forma passional, sobretudo nas paixões tristes, amamos mais a imaginação que temos de uma coisa do que a ideia adequada dela.Para vencermos tais paixões tristes, é necessário desfazermos os laços nascidos entre o afeto e a mera imaginação passiva.Mas isso não é tão simples, pois não é a coisa externa a responsável exclusiva pela subordinação do afeto à imaginação, fazendo nascer assim a paixão. Nós mesmos somos responsáveis por isso acontecer.Mas a isto muitas vezes ignoramos, por não conseguirmos formar uma ideia adequada de nós mesmos.Uma ideia adequada de nós mesmos não significa uma ideia rígida, imutável.Uma ideia adequada da onda também inclui nela o oceano, isto é, uma potência que sempre se renova.

Para Espinosa, não há como vivermos um afeto sem reportá-lo a  um objeto do qual tenhamos uma ideia .Esta pode ser adequada ou inadequada, verdadeira ou confusa.Mas mesmo que seja confusa a ideia, isto não impedirá que o afeto se ligue a ela, e passemos a viver o afeto como se tratasse de uma ideia adequada, verdadeira.  A mente somente consegue formar ideias adequadas quando ela não se torna refém do que acontece ao seu corpo, sobretudo quando este vive subordinado à ação dos outros corpos, tornando-o dependente das coisas efêmeras.É preciso compreender que é na mente que está o afeto, não no corpo.Além disso, a imaginação passional nasce não tanto da ideia adequada do corpo que age sobre o nosso, mas das afecções que este produz sobre nosso corpo. Então, imaginamos que as afecções que sofremos são o corpo mesmo que as produziu. Todavia, as afecções que sofremos se explicam mais pela natureza do nosso corpo do que pelo corpo que agiu sobre nós.Por exemplo, quando desenhamos com o dedo figuras na areia, os desenhos assim nascidos se explicam mais pela natureza do corpo da areia do que pela natureza dos nossos dedos. Se fizermos os mesmos movimentos dos nossos dedos sobre o corpo do rígido cimento, nenhum desenho ficará em seu corpo.De maneira semelhante, as afecções que sofremos, e que modificam nosso corpo, se explicam mais pela natureza do nosso corpo do que pela natureza do corpo que agiu sobre o nosso. Imagine se a areia da beira de uma praia pudesse ter consciência e falar, não a acharíamos totalmente equivocada se ela nos dissesse que , apenas pelo desenho que nossos dedos fizeram nela, ela seria capaz de conhecer a ideia adequada do que são  nossos dedos? Para saber adequadamente o que são os dedos é preciso saber o que são as mãos, o que é o braço, o que são os nervos. Mas essas coisas são realidades que a areia não tem como saber apenas pelo desenho, que é um efeito de uma ação sofrida e, enquanto tal, não pode ser causa de um conhecimento adequado. Então, ela de fato não sabe, apenas imagina que sabe, e toma esta imaginação como se fosse conhecimento. Na verdade, ela se apaixonou mais pela imagem que os dedos desenharam nela do que pelos próprios dedos. Somente se ela conseguisse formar uma ideia adequada dos dedos e, antes desta, uma ideia adequada de si mesma, somente assim ela poderia amar de uma forma adequada e alegre, e não apenas volúvel,o que os dedos e o desenho são. Do contrário, amará apenas um efeito que logo o mar virá apagar , e mais a areia sofrerá quanto mais ela imaginar que o desenho era eterno.

"Por alegria compreendo uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição maior. Por tristeza, em troca, compreendo uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição menor." ( Ética, Terceira Parte, proposição 11, escólio)."Quando a mente [deixando-se dominar pela imaginação] pensa em coisas que a entristecem e  enfraquecem, essa simples imaginação já a entristece e enfraquece".(Ética, Terceira Parte, proposição 13)


sábado, 26 de julho de 2014

o simples e o complexo

Muitos exaltam as linhas retas e  os pontos; outros idolatram as alturas ou  as profundidades. O homem racional, por exemplo, crê que os caminhos seguros são apenas os retos, dos quais se parte após um planejamento sem brecha para o acaso, e retilineamente a razão teoriza seu porto: a Verdade. Os místicos, por sua vez, amam as alturas, as ascensões, as elevações. Já os profundos vivem a mirar poços, abismos, que dizem existir dentro deles.
Todas essas imagens inspiraram doutrinas e visões do mundo científicas, religiosas ou artísticas. Contudo, o mais surpreendente é a ideia da dobra. Deleuze associa a dobra ao barroco. Não apenas ao barroco, como à própria vida. A vida é produtora de dobras. Não há no vivo nada que se assemelhe a uma linha reta.
As dobras são movimentos em duas direções: toda dobra implica algo, ao mesmo tempo que também desdobra alguma coisa. Em toda dobra algo está implicado, em toda dobra algo pode ser desdobrado.Implicar e desdobrar.O desdobrar também recebe outro nome: explicar. Aristóteles dizia que a finalidade da semente é se tornar uma árvore, e que a árvore já estaria dentro da semente, como forma final que a semente, enquanto potência, visaria atingir, para depois sumir, apagando-se. No mundo barroco, diferentemente,  a árvore está dobrada dentro da semente. Ao nascer, a árvore explica a semente, a desenvolve. Porém, na árvore que cresce a semente continua a existir, mas implicada, dobrada virtualmente, de tal modo que a explicação ou desdobra não é a persecução de um fim, pois toda explicação vai em duas direções: explicação e implicação.A árvore explica-se , desenvolve-se, mantendo dobrada em si a semente que lhe está implicada, envolvida.
Todas essas palavras (implicar, explicar) têm como raiz, raiz rizomática, o termo “pli”. “Pli” significa exatamente, ou anexatamente, “dobra”.Implicar é o movimento pelo qual a dobra constitui um “dentro”, um interior.  Não  um interior fechado, limitado por contornos rígidos.É um interior como forma em rascunho, diria Manoel de Barros. Ex-plicar é trazer para fora (“ex”) o que está implicado, o que está dobrado. Todo desdobrar é um explicar, um desenvolver.O feto se desenvolve desdobrando o que nele está implicado: ao se desdobrar, o feto explica o que nele está implicado e, dessa forma,  se explica.Tudo o que se  desdobra explica a si e aquilo que nele está envolvido, implicado.Mais do que mera informação que vai em linha reta, o código genético é uma dobra que, ao se desdobrar, cria um organismo, e neste mesmo organismo o código permanece implicado, dobrado.
O processo que vai da implicação à explicação se chama expressão.Toda expressão tem algo implicado nela e algo é desdobrado dela. Uma expressão não re-presenta ou re-apresenta algo que lhe esteja fora ou ausente, tal como a palavra “casa” que re-apresenta  a casa como seu objeto exterior, seu referente . Diferentemente, a expressão não representa, ela expressa, ela desdobra o que já está implicado nela. E o que está implicado nela é o sentido, é a ideia expressiva, a essência. O feto desdobra sua essência, ele a explica e assim se explica.
A vida não é representativa: ela é expressiva, ela é uma expressão. Explicar é desenvolver o que já trazemos implicado em nós.A semente explica ou desenvolve o que está implicado nela. E o que está implicado nela não é uma essência universal de árvore, mas a singularidade árvore, a essência singular de uma árvore que nasce a partir de uma diferença.O que é uma árvore? Uma expressão da vida. O que é um homem? Uma expressão da vida.O que está implicado no feto humano não é a ideia universal de homem, mas a singularidade homem, a novidade homem, o poema homem.Toda expressão, toda essência singular, traz e é o novo.
A expressão nos mostra que o dentro e o fora não são termos dicotômicos, tal como ensina a tradição filosófica. O fora é o dentro que se vai desdobrando e explicando, o dentro é o fora mesmo implicado em nós.O subjetivo é carregado de objetividade, a objetividade nada é se uma subjetividade não pode explicá-la. A ciência diz que o universo surgiu da explosão de  um ponto: este ponto que explodiu recebeu o nome de   “big-bang”. Contudo,  talvez o big-bang não tenha sido a explosão de um ponto (seguindo-se daí a diáspora do que antes foi uma unidade). Talvez o que se chama de big-bang tenha sido o desdobrar do que estava implicado. E se o infinito estava implicado, é infinito também o seu desdobrar.
Além disso, todo desdobrar/explicar tem uma carga de invenção: o que é explicado não é uma cópia do que está implicado.O feto não é uma cópia do código genético; uma aula não é uma cópia de um texto ( que ela, no entanto, desdobra e explica). Todo explicar, quando expressivo, é uma invenção de algo que está implicado, mas virtualmente. Toda explicação é uma diferenciação. Explicar não é tanto ensinar quanto é aprender: aprender com o que está implicado, e que nenhum explicar pode esgotar.O aprender vem antes do ensinar.
Tudo pode ser pensado assim, quando vemos e vivemos  as coisas não como representação, e sim como expressão.E tudo o que é expressão tem algo implicado que pode ser explicado, desde que o explicado esteja implicado naquele que explica.Por exemplo, pode-se falar representativamente da justiça, fazer da justiça uma representação que a lei representa. Mas enquanto expressão, a justiça é algo que está implicado naquele que a explica: a explica não exatamente fazendo leis, a explica em seus gestos, em suas palavras, em suas ações.Não existe a “Justiça em Si”, como pensava Platão.Existe a justiça implicada, envolvida, e que somente passa a existir se for explicada, desenvolvida, criada. Pois aquele que assim explica a justiça explica a si próprio, se inventa: existe como justo. O amor somente pode ser vivido como expressão se ele estiver implicado naquele que o explica e desenvolve. E se através da explicação do amor aquele que o explica também se explicar através do amor que está implicado nele, somente assim pode-se confiar que este ama.Só o amor está implicado na explicação que o desenvolve. O amor implicado e sua explicação constituem a essência do amor como expressão.  Toda explicação singulariza. Quando se tem de uma coisa apenas a representação, entre ela e aquele que a representa passa a existir então  como que um vazio que será preenchido por alguma coisa, por um clichê por exemplo, ou então esse vazio será dissimulado por comportamentos impotentes, pois neles não estará implicado aquilo que se quer viver.Quando vivemos algo como expressão, ao contrário, não o vivemos apenas em palavras, o vivemos como aquilo que nos explica, pois está implicado em nós e também em nossas ações.
As coisas que estão implicadas podem entrar em relação com outras coisas dobradas.Essa relação das coisas implicadas entre si, criando uma conexão ou rizoma, os medievais chamavam , em latim, de “complicatio”. Complicatio significa : dobrado junto.Ou ainda: complexo.Tudo o que está implicado em nós está complicado, dobrado junto, com o universo inteiro. Não se pode explicar complicando. Ao contrário, toda explicação é um desenvolvido de coisas implicadas que, por sua vez, estão complicadas com outras.Não há complicação que não possa ser explicada, desde que se encontre o que está implicado.E o deve estar primeiramente em nós, assim como o código da vida que está na vida do feto.
É desdobrando o complicado que se alcança o simples. Sim-plex: literalmente, "sem dobra", posto que foi desdobrado.O simples não se opõe ao complexo, o autêntico simples é o que se desdobra do complexo, ele é aquilo que resulta do explicar o complexo.Além disso, algo sem dobra não é exatamente algo reto. O simples permanece ligado sempre ao complexo, tal como o fio de Ariadne que , desdobrado, permanece sempre ligado à complicatio de seu novelo.E neste novelo estão implicadas todas as narrativas, estão implicadas todas as narrativas que salvam, que criam percurso e inauguram linhas de fuga.A linha reta, ao contrário, não tem novelo. Uma linha, dizem, é feita de pontos.Mas o ponto é o falso simples, um simples meramente matemático.No começo não está o simples: o simples somente surge   como o produto cujo agente o desdobra de uma complicatio, de algo complexo. Somente encontramos o simples após uma explicação, e não antes dela.Tampouco existe o complexo sem o simples, e o simples sem o complexo. E no meio de ambos estão a implicação e a explicação.
Singularizar é intensificar. Cada um explica o que lhe está implicado de acordo com a potência que tem.O que está implicado em mim está complicado com o que está implicado em tudo .O Todo está implicado em tudo, e é por isso que o Todo é complexo e se expressa em cada coisa simples. Uma explicação aumenta sua potência quanto mais ela se percebe como não sendo uma explicação exclusiva, definitiva. Toda explicação potente é uma forma em rascunho que explica uma potência que nunca é puramente formal.
Uma ideia, não importa qual, é uma expressão: ela implica algo e dá a possibilidade de ser explicada por aquele que a  vive.E aquele que a vive também explica a si mesmo naquilo que ele explica e vive.
Os estudiosos da vida nos dizem que aquilo que chamamos de “órgãos” são, na verdade, dobras. O cérebro, por exemplo, é dobra sobre dobra sobre dobra...O cérebro é todo dobrado sobre si mesmo.O cérebro é uma complicatio, mas simples é a ideia que faz pensar e ensina, educa.O pulmão também é uma dobra: dobra esta feita de dobras.Quando se desdobra fisicamente um pulmão, ele vira uma superfície do tamanho de uma quadra de tênis. Assim, no horizonte  de uma dobra não está a altura nem a profundidade,tampouco o ponto; no horizonte de uma dobra está uma superfície. Não o superficial, mas a superfície. A superfície não é o raso por oposição ao profundo, ela também não é o baixo por oposição ao alto das alturas.A superfície é a horizontalidade.No mito, a primeira divindade a surgir foi Gaia, a Terra. Esta era caracterizada pela superfície.A superfície é espaço de conexões.Não raro,  há alturas superficiais, bem como profundidades que são superficiais. Na origem da dobra não está a linha ou o ponto, está a superfície.Em nós, os afetos estão dobrados; quando os desdobramos, vem expressá-los a superfície do rosto.A onda do mar, por exemplo, também é uma dobra: se esticarmos uma onda descobrimos que ela nasce da superfície do mar.Os simples não são profundos, tampouco desejam ascender a píncaros. Os simples habitam as superfícies.Os simples habitam a Terra.A superfície é espaço de travessias.
Um livro quando vivo, quando faz viver,é uma dobra.Ele é dobra porque nele está implicado o que está dobrado junto com tudo. Ele é uma dobra cheia de dobras.Lê-lo é desdobrá-lo, é explicá-lo.Explicar o complexo é devir simples.  Explicamos um livro de acordo com a potência que temos. Mas o que está implicado no livro tem sua própria potência, que pode sempre aumentar a nossa, desde que desejemos devir simples porque em nós está implicado um sentido , uma questão.Ler um livro  é desdobrar o que nele está implicado, e o que está implicado nele está implicado em nós, pois não se trata de letras, mas de ideias, de ideias expressivas.Livros assim têm uma potência de desdobramento infinita, pois o infinito está implicado neles. E o infinito não começa e nem termina, o infinito possui apenas meio. Tais livros não têm exatamente origem, eles têm horizonte: é deste que eles nasceram.Lê-los é horizontar-se.

 A Ética, de Espinosa; O que é a filosofia? , de Deleuze e Guattari; O livro de pré-coisas, O livro sobre nada e O livro das ignorãças, de Manoel de Barros; Gilles Deleuze: a grande aventura do pensamento, de Cláudio Ulpiano; Moby-Dick, de Melville...São livros-dobra : neles está implicada a mesma potência que está implicada em cada coisa que vive, e é em nossa alma que essa potência se desdobra e se explica, nos explicando, nos singularizando.








quarta-feira, 16 de julho de 2014

manoel de barros:redimir as pobres coisas do chão




(trecho do livro)

No "Livro de pré-coisas" , na prosa poética intitulada "Agroval", Manoel de Barros descreve um acontecimento ordinário do pantanal. “Ordinário”, aqui, significa a mesma coisa que comum ou regular. À idéia de “ordinário” costumamos opor a noção de “extraordinário”. Vale a pena lembrar a origem matemática destes termos. Na matemática, os “pontos ordinários” de um triângulo são os inumeráveis e indistintos pontos que ocupam cada um dos lados da figura, ao passo que seus três “pontos extraordinários”, ou singulares, localizam-se em cada ângulo do triângulo. Em uma reta, por sua vez, os pontos extraordinários são dois: aqueles que ocupam os extremos da linha.
Todavia, a diferença entre ordinário e extraordinário mostra toda a sua riqueza quando examinamos o círculo. Aparentemente, tal figura geométrica é destituída de pontos extraordinários ou singulares. Mais do que uma linha reta, geralmente costuma-se afirmar que nossa vida é um círculo: o círculo de nossa vida. Então, estaria o círculo de nossa existência destituído de momentos singulares? Estaria nossa vida refém do ordinário?
Mas o círculo guarda um segredo, tanto na matemática como na vida: qualquer ponto ordinário seu pode metamorfosear-se em ponto extraordinário, se por ele passar uma tangente. No encontro da tangente com o círculo, ambos dividirão o mesmo ponto, abrindo assim o círculo a uma força que vem de fora de seus limites e contornos.A tangente é uma linha de fuga que a tudo transforma em forma em rascunho. Quando o ordinário se converte em extraordinário, acontece o deslimite -renovando-se a vida.
Assim, entre o ordinário e o extraordinário não existe uma diferença intransponível: é no seio do ordinário que o extraordinário acontece. “Cada coisa ordinária é um elemento de estima”, afirma o poeta. Pois, complementa, “é no ínfimo que eu vejo a exuberância”. Em "O Guardador de águas", ele revela ainda: “No achamento do chão também foram descobertas as origens do vôo.” É no ordinário do chão que o extraordinário, como vôo, é “achado”. Enfim, “o chão é um ensino”.

"O que eu descubro ao fim da minha Estética da Ordinariedade , afirma o poeta,é que eu gostaria de redimir as pobres coisas do chão".