Manoel de Barros O plano de imanência é o horizonte absoluto. Deleuze & Guattari
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OS ACHADOUROS
Quando o sábio se vê reduzido à necessidade,
mesmo aí ele acha mais ocasiões de ofertar do que de receber,
pois ele possui um tesouro que nunca se esgota:
o de possuir a si mesmo.
Epicuro.
No poema Achadouros Manoel de Barros nos fala de uma senhora, a "negra Pombada, remanescente de escravos do Recife", que contava aos meninos sobre Corumbá ter “achadouros” , que eram buracos feitos pelos holandeses em seus quintais para esconder suas moedas de ouro, antes de fugirem apressadamente do Brasil. Durante muito tempo em Corumbá, movidos pelo desejo de encontrar tais tesouros , os homens escavaram quintais para ver se ali achavam ouro.O poeta é aquele que busca os achadouros também, mas o tesouro que ele deseja é outro : ele escava o ordinário e ali acha o extraordinário; ele escava o habitual e neste acha o incomum; ele cava em si mesmo e dentro de si ele acha o mundo ainda por descobrir. Ele acha, em meio ao barro, ao húmus, ele acha/inventa o ouro de uma vida da qual nunca cessam os inauguramentos.
Pela voz poética de Manoel de Barros também se tornam sujeitos,mas sujeitos larvares, uma quantidade infindável de seres: lagartixas, girinos, bocós, pedras que dão leite, patos atravessados de chuva, arames de prender horizonte,tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma... enfim, o que não se pode vender no mercado: “coisas se movendo ainda em larvas, antes de ser idéia ou pensamento”.
Manoel de Barros nos diz ainda:
Quem atinge o valor do que não presta é, no mínimo,
Um sábio ou um poeta.
É no mínimo alguém que saiba dar cintilância
aos seres apagados.
Ou alguém que possa frequentar o futuro das palavras.
Mais do que tudo, o que por sua voz fala é a própria língua que, despida da forma da gramática, “voa fora da asa”:
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimento
O verbo tem que pegar delírio.
Este “fazer nascimento” referido pelo poeta inunda a poesia com a potência de um germe: na imanência deste, o verbo, como logos, liberta-se dos substantivos e das substâncias; devém ele próprio experimento com o sentido, e nos ensina:
“Poesia é voar fora da asa”: “a poesia é a loucura da palavra”.
Segundo
afirma o filósofo Leibniz, se pegarmos uma simples semente, a de um abacateiro
por exemplo, se a pegarmos e plantarmos,
dela nascerá uma árvore:um abacateiro.E do abacateiro brotarão incontáveis frutos, e
dentro de cada um haverá uma semente.Se plantarmos as sementes assim nascidas,
delas nascerão outros abacateiros, e em cada um deles florescerão incontáveis
frutos.E em cada fruto uma nova semente.Se plantarmos cada uma, novos
abacateiros nascerão e em cada um deles novos frutos com novas sementes...
Na
simples semente está contida uma floresta inteira, o finito é o casulo que
prende o bater de asas do infinito.A forma ou limite é a semente, mas potência é a floresta.Quem tem forma é a semente, não o infinito que está no coração dela.
Dentro de cada semente não está a floresta
com suas árvores já prontas e individuadas, pois a floresta que existe dentro
da semente é uma floresta em rascunho, uma floresta-embrião ;uma floresta enquanto
potência de expansão e diferenciação. No interior da semente não está uma
floresta com duas, mil ou um bilhão de árvores.Essa virtual floresta existe não
como quantidade, mas como intensidade de uma vida que nasce de si mesma, e que
o faz se afirmando. Além disso, a semente enquanto indivíduo isolado é uma
abstração que não existe.Pois a simples semente que temos nas mãos somente existe porque ela permanece
ligada à potência que mora dentro dela: é esta potência que é sua razão de ser
e essência, e não o inverso.
Na
simples alma de uma criança está a alma da humanidade inteira, na simples
palavra está o sentido que nem mesmo um bilhão de palavras podem dizer, mesmo
que que fossem ditas juntas.No simples dia, para quem sabe viver, está a
eternidade inteira: carpe diem...
Mas
para que a floresta nasça é preciso que a semente seja plantada, cultivada,
cuidada.
E
feliz se torna a semente que descobre em si essa floresta, uma floresta que não
cabe nela, e que a põe em estado de rascunho, de anexatidão, de deslimite,
enfim, em estado de poesia.É preciso ver não apenas a floresta que está em cada
semente, mas também as sementes que nascem dos frutos da floresta, de tal modo
que nunca deixarão de nascer sementes enquanto das sementes nascerem florestas.
Para
Espinosa, a mente singular é como essa semente:mais potência de compreensão ela
obterá quanto mais ela deixar nascer a floresta que está na imanência dela. De
tal maneira que o nascimento da floresta não significará em morte da semente, mas na sua maior potência
de vida, de ampliação de sua vida.Ela poderá ser reconhecida pela sua
generosidade, pela sua simplicidade e pela sua capacidade de renascer no fruto
que nasceu da árvore que se tornou uma potencialização sua, e não sua morte.
Frida Kahlo - Moisés ( ou O núcleo da criação) // 1945.
VIVA CLÁUDIO ULPIANO dia 18 de setembro, na Uff -Lançamento
do livro Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento, de Claudio
Ulpiano.
Local:
IACS - Instituto de Arte e
Comunicação Social / UFF
Sala InterArtes
Rua Lara Vilela, 126 – Ingá -
Niterói
(21)
2629-9767/2629-9783
Entrada
franca.
A Sala InterArtes tem capacidade para 90 pessoas.
Senhas serão distribuídas 1h antes das apresentações. Haverá projeção em telão para o espaço externo.
14h/16h Mesa 1: "A Aventura do Pensamento"
Participação: Tatiana Roque (Ufrj), Mário Bruno (Uerj) e Leonardo Maia (Ufrj).
Nenhuma potestade, nem ninguém mais, a não ser um invejoso,
pode comprazer-se com minha impotência e minha desgraça
ou atribuir à virtude nossas lágrimas, nossos soluços, nosso medo,
e coisas do gênero, que são sinais de um ânimo impotente.
Pelo contrário, quanto maior é a alegria de que somos afetados,
tanto maior é a perfeição a que passamos, isto é,tanto mais participamos
da natureza divina.
Espinosa, Ética, Quarta Parte, escólio 2 da proposição 45. A virtude com a qual o homem livre evita os perigos revela-se tão grande quanto a virtude com a qual ele os enfrenta. Espinosa, Ética, Quarta Parte, prop. 69.
Era
a primeira vez que o menino iria até minha casa.O encontro, o simples encontro,
era o esboço de uma aproximação que ele , nos seus 8 anos de idade ainda, mal
entendia o significado. Ele seria, não por escolha sua, meu enteado.Seu pai era
completamente diferente de mim: era um homem de negócios, dos altos negócios da
selva do capitalismo.Ele morava em um apartamento imenso, tão imenso que dava
trabalho, e custava muito, enchê-lo com coisas.Havia muitas coisas lá, todas as
novidades do mundo, mas não havia muitos livros, havia apenas os livros que falam das
novidades, novidades estas que amanhã já “serão sucata”, como diria Manoel de Barros.
Do
ponto de vista daquilo que o dinheiro pode comprar, não faltava nada a esse
garoto. “Ele tinha tudo”, conforme se diz. Mas ele era triste.Contudo,a
tristeza e a infância são termos que não combinam.Segundo Espinosa, a pior fase
da vida é a infância. Não exatamente por algum problema que lhe seja
intrínseco.Na verdade, a infância é a pior fase da vida porque é nela que mais
dependemos da qualidade dos adultos que nos cercam. Havia sobre esse menino
algumas “verdades”. Diziam que ele não gostava de gente, que era extremamente a-social
e que não gostava de ler.Curiosamente, alguns desses aspectos também podiam
ser encontrados em alguns dos adultos que lhe eram próximos.
Então,
esse menino , não por vontade própria, foi levado até minha casa para me
conhecer no cotidiano.Era um encontro apenas entre nós dois.Ressabiado, dando a
entender que não queria estar ali, ele entrou pela porta. De imediato,
perguntei-lhe se ele queria conhecer o lugar onde eu guardava o meu tesouro.Ele
olhou espantado para mim, e sua expressão incrédula , ainda que muda, dizia para
mim: “ Como !? Você tem um tesouro?!Você é professor, e meu pai me ensinou que
professor é pobre....”.Mas a palavra “tesouro” despertou sua curiosidade, e com
o olhar indo em várias direções ele tentava ver onde estava o tal tesouro.
Levei-o
até um quarto que eu usava como escritório. Era lá que eu guardava os livros.Quando ele entrou, disse-lhe: “Aqui
está meu tesouro”. Ele olhou em todas as direções e lados, acima e abaixo, deu
de ombros e disse: “Cadê!?”. Ele não via os livros. Ou melhor, ele os via, mas
estes não existiam para ele como tesouro. E nem podiam, ele era uma criança que
ainda estava descobrindo as coisas, e certamente ele ainda não havia feito
várias descobertas, inclusive a descoberta dos livros.
Apontei
para os livros e disse: “Aqui está meu tesouro...”. Ele olhou incrédulo para os
livros. Depois olhou para mim de alto a baixo, e fixou especial atenção na
sandália de couro que eu usava, sandália esta que sua avó vivia dizendo,
ironicamente, que somente franciscanos sem ambição usam, e certamente tal ironia deve
ter chegado, direta ou indiretamente, ao inocente ouvido dele (porém, mal sabia aquela senhora que tais sandálias de couro também as apreciava os cangaceiros...). Em seus olhos havia a seguinte interrogação: “O que minha mãe
viu nesse cara !?”.
Então,
sorri-lhe confidencialmente e lhe perguntei baixinho se ele era capaz de
guardar um segredo.Já olhando para a porta de saída do escritório, ele disse
que sim ,aparentemente apenas para sair logo dali. Contei para o menino que
atrás daquelas paredes havia uma caverna secreta.Ao ouvir isso, ele tirou os
olhos da porta e olhou para mim. Completei:
-Mas
para abrir a passagem que dá para a tal caverna secreta é preciso puxar o livro
certo que está na prateleira.
Ele olhou para mim e, pela primeira
vez, vi em seu rosto o esboço de um sorriso, sorriso de criança. “Qual é o
livro?”, ele me perguntou. “Descubra!”, fiz o desafio.
Ele foi logo num dos livros
mais grossos e pesados que viu, que mal
conseguiu tirar do lugar. Que decepção!Nada da passagem ao tesouro se abrir...
Ele puxou a Crítica da Razão Pura, de Kant. Decididamente, esse livro não é
porta que leva à imaginação...Depois ele puxou um outro: Discurso do Método, do racionalista Descartes...e nada de a porta se abrir.Ele
puxava os livros e olhava para mim, e ria. Ele sabia que era um jogo, uma
brincadeira. Em latim, a palavra que corresponde a “brincadeira”, “jogo” e “sonho”
é “ludos”, e é daí que vem “lúdico”. Ele fez uma bagunça, e ficava surpreso por
eu não lhe ralhar pela produção daquele caos.Ele ria, gargalhava até.
De repente, a mãe dele chegou à porta. Ela ficou surpresa com a cena, e
parecia não reconhecer o filho, que lhe disse:
-Mãe, estou procurando uma caverna secreta!...
Ela
olhou para mim e falou:
-
Você está zombando do meu filho?
-
Não , não estou.Quem deseja educar alguém nunca deve zombar dele, embora possa brincar com
ele, mas sempre no paciente esforço para ensinar alguma coisa, e também aprender.
Disse
ao menino:
-
A caverna secreta existe sim, eu e você sabemos disso; sua mãe também sabe, mas
às vezes ela esquece que foi lá que ela me conheceu.O mundo dos adultos às
vezes é chato e triste, e eles querem que você fique triste também. E é por
isso que eles dizem que a caverna não existe.Nem todos os livros levam à
caverna secreta.Mas esse aqui leva...
Puxei
então da prateleira uma edição para jovens de um livro que poucos sabem ou
imaginam o mundo que está nele, mundo por descobrir. Trata-se do livro Moby-Dick...
Ele
pegou o livro com cuidado. Assim que abriu viu os desenhos, as ilustrações
coloridas.
-
Uma baleia!...
-Sim,
essa é Moby-Dick...Tem um homem que vai tentar aprisioná-la, e para esse homem
parece que ela é má. Mas ela não é má, ela apenas não quer se deixar domar, ela
é livre.E quem não quiser domá-la, quem aceita sua liberdade e vence o medo , ela deixa que
suba no dorso dela, e assim fazem viagens extraordinárias...Você vai ver....
Segundo
me disse depois a mãe do menino, ele dormiu naquela noite com o livro lhe fazendo companhia.E no dia seguinte o
levou para escola,sob o braço, sem colocá-lo na pasta.
O menino estava protegido, embora a vida ainda lhe reservará perigos. Mas naquele dia ele se tornou mais um que Moby-Dick deixou subir em seu dorso invencível.
Quem quer vingar as ofensas por um ódio recíproco vive, na verdade,infeliz.
Quem, contrariamente,procura vencer o ódio pelo amor, combate, certamente,
com alegria e segurança; defende-se facilmente tanto de um quanto de muitos homens; e não precisa , de modo algum, ser socorrido pela sorte.
Por sua vez, aqueles a quem vence , rendem-se felizes,
não, certamente, por carência, mas por acúmulo de forças.
Espinosa, Ética, Quarta Parte,escólio da proposição 46.
Naquele fim de tarde resolvi ir à cinemateca do MAM ( o Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro).O filme que vi na ocasião ainda está muito vivo em
minha memória, embora já se tenha passado muitos anos.
O filme começa de imediato, mal as luzes da sala se apagam, sem créditos ou música. Surge a primeira cena
do filme: tendo como moldura um dia ensolarado, dois adolescentes estão sentados
em um banco de praça. Era um rapaz e uma
moça. Os dois permaneciam mudos. Ouvimos o vento, escutamos aqui e acolá
passarinhos cantando.E mais nada.O tempo passava , nada se alterava: mudos.Houve
uma inquietação na sala do cinema, muitos já estavam incomodados com aquele silêncio.
Porém, detive minha percepção no rosto dos personagens, e vi que os rostos
deles não estavam mudos: eles falavam.O rosto do menino expressava uma decisão
que ele queria tomar, mas hesitava, ao passo que o rosto da menina indicava uma
espera.Ele queria agir, ela esperava.O tempo também pode se expressar no corpo,E
era isso o que acontecia.Pelas suas expressões, percebia-se que o rapaz nutria
pela menina um sentimento especial, que a muito custo ele ocultava dentro de
si. De repente, ele toma coragem , e a coragem se mostrou como expressão em seu
rosto.Algo se acendeu em seu rosto, ficou mais vivo....Mas quando ele abriu a
boca para falar, aquela luz retraiu, a vida se escondeu: ao invés de ele falar
o que sentia, ele usou a palavra apenas para se esconder. Ele disse à menina
algo acerca do tempo, que estava muito bonito. No rosto da menina via-se decepção,
mas ela também cedeu ao teatro,dissimulou, e também se escondeu.Eles passaram a conversar sobre coisas banais. Contudo,a verdadeira
“conversa” se passava ao nível dos gestos incontrolados, nervosos,
desconectados e involuntários . Percebe-se que o garoto estava apaixonado pela
menina.
O garoto não se revela para a
menina ao seu lado . Logo depois a família do menino muda-se para longe.Eles se
separam ,cada um vai viver sua vida , nunca mais se vêem. O tempo passa, ela se
casa, tem filhos e netos. É amada e também ama. Sua vida parece ter sido vivida
da única maneira possível, como se tudo o que lhe ocorrera já estivesse desde
sempre escrito. E, assim, ela se acreditava feliz.
O garoto torna-se homem, também se casa com uma mulher que muito o amou.
Na verdade, parece que assistimos a dois filmes em um só, pois cada um dos
personagens leva sua vida sem nunca mais
ver ou ter notícia do outro. Aparentemente são felizes e fizeram o que parecia
ser o mais natural. Viviam uma vida
normal, comum.
No entanto, ele se torna viúvo. Para minorar um pouco a dor dessa perda,
ele resolve fazer uma viagem a Veneza. Sem que ele soubesse, para aí também
fora o seu antigo amor ,em viagem de férias.
Então, o inevitável acontece: eles se reencontram , ao acaso, nas proximidades do canal. Ambos se
reconhecem. Logo começam a conversar, e parecia que aquela conversa não havia
começado ali, naquele presente. Eles bebem vinho, o tempo parece revir, e não mais passar. De repente, percebe-se
que sob a barba branca e dos cabelos grisalhos aquele garoto indeciso estava
ainda vivo no homem velho. Após algum tempo de conversa, ele resolve confessar a ela que
durante todos aqueles anos sua mente não
passara um dia sequer sem pensar nela. E
ele faz essa confissão usando como escudo um sorriso , atrás do qual ele
tentava esconder aquele garoto triste
que ele jamais deixou de ser. Após ouvi-lo,
a mulher estremece, algo de intenso lhe ocorre, como se ela tivesse
dentro de si uma represa que subitamente rachasse pela pressão da água querendo
fugir. Para a imensa surpresa dele, ela
também lhe confessa que sempre o amara
durante todo aquele tempo e que sempre pensara nele. O filme então acaba...
Pensa-se: “que filme idiota e banal!”. Porém, quando todos os créditos passam pela tela e nós já
nos preparávamos para sair, o filme novamente retorna à primeira cena, como se o
fim reencontrasse o começo, como se o passado fosse o futuro que de novo retornasse. Ouve-se a voz do
narrador em off, enquanto a cena se
desenrola em câmera lenta[1]. Diz o
narrador: “— eu que sempre fui considerado corajoso e firme, e muitas medalhas
ganhei por enfrentar, sem medo, os tanques alemães durante a guerra, no entanto
não fui capaz de fazer esse pequeno gesto ( aparece então ele abraçando a
menina, que lhe retribui com um sorriso)
, se eu tivesse realizado esse gesto tão
simples, não só esse filme não teria existido, como minha vida , que aparentemente
foi como deveria ter sido, teria sido, no entanto, completamente diferente...”.
A vida é composta desses pequenos momentos que são, na verdade, não
pontos indivisos que se sucedem em linha
reta rumo a um fim (que acabamos por aceitar que era o fim ao qual desejamos),
mas bifurcações nas quais cada instante se abre a duas ou mais direções
divergentes . E cada uma dessas direções se abre a futuros completamente
diferentes, mas que ainda não são reais: são esboços de nossa vida futura, que
apenas vislumbramos obscuramente com a lente do nosso desejo.
Do nosso futuro depende a nossa
ação no presente , pois é a partir do presente que afirmamos o futuro que ainda
não somos, mas para o qual nos impele o
nosso desejo de ultrapassar o que acreditamos ser. Descobrimos que aquilo que
ainda não somos não espera por se revelar no fim, mas que o criamos a partir do
processo, do percurso.
Os gregos diziam existir quatro dimensões do tempo, e não três. Além do
presente, do passado e do futuro, eles diziam existir também o kairós. Este termo significa: “momento
oportuno”. Qual é o momento oportuno? Não há livro que o ensine, tampouco
teoria. E quem passivamente o espera chegar só verá as costas dele, quando ele já estiver
indo.O momento oportuno não é um momento
privilegiado, pomposo, em destaque. O momento oportuno só existe se for criado.
Quando ele nasce, morre o passado, renasce o futuro.O momento oportuno pode ser
qualquer momento no qual conseguimos criar uma direção nova
para uma estrada que imaginávamos ir
apenas em uma direção: aquela que um roteiro pré-determinava.
O kairós é cada momento singular do tempo onde duas ou
mais direções se bifurcam .E cada
direção não nos leva a um ponto que preexista ao movimento de percorrê-la. Pois
não é uma direção no espaço (tal como uma estrada), mas no tempo: cada
direção nos leva a um lugar que embora
ainda não exista, cabe a nós agirmos para assim fazê-lo chegar ao presente ,
para ser esse mesmo lugar onde estamos, mas diferente, novo, transformado pelo
nosso desejo.
No
Fedro, Platão nos apresenta uma
alegoria que retoma, com roupagem poética, a doutrina das faculdades. Platão se
valera da idéia da carruagem como modelo para a compreensão da alma
humana. A carruagem de Platão compõe-se de três elementos: o cocheiro e dois
cavalos. Na carruagem de nossa alma, diz Platão, o cocheiro é a Razão: é esta
que tem as rédeas e guia a carruagem para um rumo determinado, ao passo que aos
cavalos cabe a obediência à disciplina imposta pela razão-cocheiro. Um dos
cavalos, de cor branca, é dócil e receptivo aos comandos da razão: trata-se da
Vontade. Mas o outro cavalo, de cor preta, é indisciplinado, convulsivo,
rebelde. Quanto mais a razão quer comandá-lo, mais rígida ela precisa ser. Por
mais que tente forçá-lo a seguir em linha reta, é sinuosamente, barrocamente,
que o cavalo preto insiste em ir. Este cavalo preto é o Desejo.
Segundo
Platão, na carruagem de nossa alma a razão e o desejo, o cocheiro e o cavalo
preto, estão sempre em conflito. Este nasce pela impossibilidade que a razão
encontra de pôr o desejo na direção dos valores morais que ela visa atingir. A
disciplina moral é a rédea da razão, às vezes também seu chicote, mas o desejo
não se dobra, resiste, e segue atraído pelas aparências do mundo sensível . Seguir
o desejo é perder-se, desorientar-se, maldizia Platão. Mas a alma não pode prescindir desse rebelde
cavalo preto, uma vez que é dele que provém a maior parte da energia que a faz
mover-se.
Curiosamente,
uma outra imagem da carruagem inspirou Nietzsche. Trata-se da Carruagem de
Dioniso, o Deus das Artes. Segundo o mito que cerca este Deus, Dioniso se
locomovia em uma carruagem, sendo ele próprio o cocheiro. Mas, ao invés de
cavalos, sua carruagem era puxada por panteras. Eram temíveis feras transportando o deus e mostrando o
grande poder de Dioniso para guiar a natureza. A arte não nega ou reprime a
natureza ( como o faz o cocheiro de
Platão), mas a põe a seu serviço conforme uma disciplina que não é estrangeira
à potência das panteras. Na natureza, as panteras são solitárias e jamais se
unem. Porém, sob as mãos da arte, as panteras se tornam forças que se conjugam,
que se agenciam, e conduzem a alma por sendas onde a razão não ousa ir.
Dioniso transforma a agressividade destrutiva
e mortífera das pulsões-panteras em potência criativa afirmadora da vida.
Dioniso é o próprio desejo que se tornou guia, cocheiro, domador: somente se
pode segui-lo com a condição de metamorfosear-se, conjugando disciplina e inventividade na condução da
carruagem . Esta segue para onde não se sabe, pois seu destino é o próprio
percurso enquanto este se faz.
(
Espinosa, Ética, Parte Cinco,
proposição 42, escólio)
O
ouro é precioso porque ele é raro. Por isso ele vale tanto e é tão desejado.O
que é raro desperta o desejo .O ouro é um corpo, ele é um corpo raro.E a este
corpo muitos depositam promessas de felicidade pela qual desejam suas almas.
Por esse corpo ser raro, precioso, todos o querem ter, e alguns o buscam à
força, trapaceando, roubando. Outros o põem adornando tronos.Se a cerâmica
fosse tão rara quanto é o ouro, e o ouro fosse tão fácil de obter quanto a
cerâmica, seria a cerâmica que adornaria os tronos, e o ouro seria usado como
piso em todas as casas. Assim, o que faz o ouro ser ouro, não é tanto o que ele
é enquanto corpo, mas a sua raridade, é a sua comparação com outros corpos que
existem em maior quantidade.O que faz o ouro material valer tanto, é também
porque a ele deseja a imaterial alma.É isto o que o faz precioso. Não é sua
dureza, pois há pedras mais duras que o ouro; não é sua cor, dado que existem
minerais mais belos nesse aspecto. O que o faz tão desejado é a sua raridade,
assim como é rara, imaginam os homens, a felicidade.Além disso, se sumirem do
mundo a pedra, o cisco, o cascalho, as migalhas de coisas inúteis e tudo aquilo
que não damos valor, e se tudo no mundo fosse apenas feito de ouro, talvez ansiássemos
por encontrar um cisco ou cascalho como o garimpeiro que anseia achar um diamante.Ter uma casa inteira de ouro,e mais ainda todos os
móveis e alimentos que estão na casa, e mais todos os utensílios e roupas, tudo de ouro,talvez quem por isso passasse aprendesse a valorizar,
quem sabe, a raridade que está no simples pão feito de trigo, na modesta roupa feita de algodão,
na comum cadeira feita de madeira. É a isto que ensina o mito de Midas, o rei que a
tudo transformava em ouro pelo simples toque, e que quanto mais de ouro ele se
cercava, mais de pedra se tornava seu próprio coração.
Ora,
o que vale para o mundo material vale ainda mais para o mundo espiritual. O
mundo espiritual também tem seu ouro. Todavia, ele também tem coisas não muito
valiosas. O mundo espiritual , mundo do pensamento e da alma, é feito de
ideias. Contudo, ocorre com o mundo espiritual o inverso do que acontece com o
mundo material, onde o ouro impera. Não são as ideias raras as mais valorizadas
e desejadas por aqueles que querem exercer poder sobre os homens, para assim
mantê-los na servidão e na ignorância, na pobreza espiritual. Ao contrário, são
as ideias que valem pouco, são as ideias medíocres, medianas, as que mais se
prestam para tal fim.E muitos as ensinam e oferecem, e também as vendem, como
se fossem ouro, como se fossem o ouro do mundo espiritual. Estes que procedem assim, no entanto,são os que mais se
enriquecem com o ouro do mundo material,
pois parece que eles usam o mundo espiritual apenas como meio para obterem o
ouro do mundo material, e assim falam do espírito apenas como meio para obterem
templos suntuosos e tronos de ouro, além de cátedras e títulos. Mas o ouro do
mundo espiritual é mais raro ainda que o ouro que vive debaixo do chão. Obtê-lo
é mais árduo ainda que garimpar rios ou abrir minas na pedra.O ouro que verdadeiramente
nos enriquece não é visível, não está à
vista fácil, tampouco serve apenas para adornar as palavras ou ser acumulado em
cofres eruditos. Por isso, dele não há posse exclusiva, nem ostentação.Buscar
esse ouro, esforçar-se por ele, já é a própria felicidade, já é a própria
riqueza, diz Espinosa. A coisa mais preciosa que existe é aquela da qual só
existe um exemplar. Cada coisa singular é preciosa, rara, exatamente por ser
única.
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***
(Ética, Parte Três, proposição 44, escólio)
Na
vida dos homens em geral, mesmo naqueles que se dizem “práticos” ou “pragmáticos”
( e que não apreciam teorias ou reflexões),a imaginação é muito mais presente
em suas condutas do que eles suspeitam ou sabem. A imaginação se
caracteriza por imaginar como presente uma coisa ausente.A imaginação imagina
como presente as coisas ausentes.Não uma coisa que esteve presente e por alguma
razão se ausentou, mas uma coisa que
jamais foi ou é presente. Por exemplo, o
avarento imagina que todos querem suas moedas. Ou seja, sua imaginação torna
presente na mente do avarento um sentimento que está ausente nos outros:o
avarento imagina estar presente nos outros um sentimento que apenas está nele.O
ciumento imagina e torna presente na mente dele a imaginação de que os outros desejam
o que ele tem. Ele torna presente dentro dele essa ideia confusa, essa imaginação,
e imagina que está presente nos outros esse desejo: isto na verdade mostra o
quanto é fraco o desejo do ciumento em relação às coisas que ele imagina ser
dele ou ele merecer ter.O homem da imaginação, da imaginação passional, não
apenas torna presente o que está ausente, como também age como se fosse verdade
o que é apenas fruto de sua imaginação.Um ciumento, por exemplo, pode ferir ou
matar.O vaidoso imagina e torna presente em sua mente que os outros são
vaidosos e o invejam, ele imagina como presente algo que está ausente nos
outros, porque ele ignora como ele de fato é, e assim ignora também o que são
de fato os outros.Imaginando essas coisas, ele pode agir de fato para
prejudicar os outros, embora a imaginação prejudique, em primeiro lugar, a ele
mesmo: prejudica a sua capacidade de compreender.
A
imaginação não é como a memória. Esta faz viver, com a força da própria alma
que se recorda, o que aconteceu.A memória recorda o que aconteceu.Ao
contrário,a imaginação pode imaginar como presente o que nunca aconteceu, ou
então imaginar que está presente nela , como adivinhação, o que acontecerá.
Assim , a imaginação imagina que o futuro é uma coisa presente, tal como ela
imagina que é uma coisa presente a inveja ou o ciúme que ela imagina estar na
mente dos outros.Mas quando a imaginação assim procede, imaginando como
presente o que está ausente, ela o faz ignorando sua própria presença,
ignorando que é ela que inventa. Outro exemplo dado por Espinosa: quando olhamos para o sol, o vemos do tamanho de uma bola.Na verdade, o que vemos não é o sol, mas o resultado da ação do corpo do sol sobre o nosso.O que vemos é uma imaginação. Assim, por mais estranho que possa aparecer, não há diferença, do ponto de vista sensível, entre percepção e imaginação.O sol do tamanho de uma bola só está presente na nossa mente, na medida em que esta padece uma afecção do corpo ao qual ela está ligada. Para a mente formar uma ideia adequada do sol, é necessário que ela se autonomize em relação a este padecer, e aja. Ela age formando ideias adequada. A ideia adequada do sol nos ensina que ele não é do tamanho de uma bola.Mas jamais veremos, com nossos olhos do corpo, o tamanho exato do sol, mesmo porque com os olhos do nosso corpo somente vemos corpos, e não ideias.Por outro lado, ter a ideia adequada do tamanho do sol não fará com que desapareça o fato de o vermos do tamanho de uma bola.Assim, percebemos que ver o sol do tamanho de uma bola somente é um erro quando estamos privados da ideia adequada dele.Ver o sol do tamanho de uma bola é algo necessário, é uma verdade também, mas que se explica pelo mundo dos corpos e pela maneira como uns agem sobre os outros.A imaginação não é uma ilusão ou aparência, ela somente se torna isto quando a alma fica impotente para agir/conhecer de forma adequada as coisas.E a razão disso acontecer não é o corpo ou a imaginação, mas a própria mente, quando esta não consegue desenvolver sua potência, que é o conhecimento.
Se nós tivéssemos consciência dessa força que
a imaginação possui, a veríamos como arte, e não como algo que fala sobre a
realidade dos fatos .A imaginação somente se torna ruim quando ela ignora a
ideia que torna clara o que são as coisas que de fato existem, e que ela, a
imaginação, não pode substituir com uma mera imagem ou fabricação sua.Somente
na arte esta força da imaginação de tornar presente o que não existe, somente
na arte essa força se torna virtude, e com ela podemos aprender sobre nós
mesmos.
Por
isso, a dimensão estética, que envolve a imaginação, tem um caráter ético
também, no que concerne a nos tornarmos ativos, e não apenas reativos. Há também
nisso um caráter clínico, além de político,na medida que se trata de nos curarmos da ignorância de uma força
produtiva e inventiva que está em nós, mas que ignoramos tudo o que ela pode em termos
afirmativos, já que a "psicopatologia da vida cotidiana" nos mostra apenas o seu lado negativo, de destruição, seja a destruição/negação do
outro , seja a negação/destruição de nós mesmos.
Assim,
entre a ideia que conhece as coisas e a imaginação que inventa coisas não há
contradição ou luta. A imaginação artística pode nos ensinar, por imagens, a
melhor compreender uma ideia, assim como uma ideia nada é se também não puder
ser imaginada, se não favorecer em nós o aumento das nossas capacidades, inclusive
a capacidade de imaginar.Não imaginar como presente o que está ausente,como na
imaginação passional, mas criar imagens que traduzam, no campo sensível, do
sentir, toda a potência que há no campo das ideias, no pensar.Quando a
imaginação assim procede, ela também se torna uma potente ferramenta didática da
educação. "Nossa suprema felicidade consiste em realizar apenas aquelas ações que o amor e a generosidade nos aconselham". (Ética, Parte Dois,proposição 49, escólio)
Segundo
Espinosa, o homem possui um corpo e uma mente.Nisso não há nenhuma novidade,
muitos também afirmaram isso antes dele.Espinosa inova verdadeiramente, e
muito, quando afirma que a mente e o corpo do homem não são realidades que
existem em si, de forma independente de todo o universo.A mente e o corpo do
homem são partes do universo, partes singulares.O corpo é parte do mundo
material, a mente é parte do mundo espiritual.A mente é parte de uma realidade
que vai muito além dela, assim como o corpo é parte de uma realidade também
muito maior.
A
nossa mente e o nosso corpo se distinguem de todo o resto porque eles existem
de forma determinada. “De-terminar” significa: dar fim, delimitar.Sabemos que
uma onda é parte do oceano, mas de certo modo a onda é o oceano mesmo, mas
modificado, determinado a existir como onda. Mas essa determinação não cria um
outro ser diferente do oceano, cria apenas o oceano existindo de certa forma
determinada, como onda. A onda é um modo ou uma modificação do oceano, uma
maneira singular de ele ser.
Assim,
a nossa mente e o nosso corpo são
determinados a existir como onda não pelo próprio oceano, mas por outras coisas
determinadas .Devido à nossa maneira muito limitada de apreender a realidade,
vamos de coisa determinada a coisa determinada, de onda a onda, umas pequenas e
outras grandes, e assim ignoramos o oceano que produziu todas as coisas
determinadas. De maneira determinada, fui gerado por uma coisa determinada que
me pôs no mundo, e esta coisa determinada que me gerou também foi gerada por
outra coisa determinada que a gerou, e assim até o infinito. Todavia, o
infinito não é feito de coisas determinadas, assim como o oceano não é feito de
ondas, como se estas fossem a causa e ele o efeito. Ao contrário, é o oceano
que é causa da existência das ondas, mas o oceano não é causa da mesma maneira
como pode ser causa uma coisa determinada de outra coisa determinada. As coisas
determinadas podem ser causas parciais da existência de outra coisa
determinada. Ela é dita causa parcial porque ela não pode ser causa total. Ou
seja, uma coisa determinada que produziu uma outra coisa determinada explica
apenas em parte a existência dessa coisa determinada. Somente o que é causa
total pode explicar a existência de algo. Mas explica não apenas por sua
existência, explica antes pela sua essência. Assim, uma causa parcial pode
produzir parte da existência de algo determinado, mas não pode produzir sua
essência.Um pai, por exemplo, é causa parcial da existência de seu filho, mas
ele não é causa de sua essência.Um pai é causa parcial apenas de seu filho, e
até mesmo de seu neto. Porém ele não o é do filho de um outro pai.A causa que
produziu uma essência produziu também a essência de todas as coisas, inclusive
a do filho e a do pai, e o fez de forma diferente daquela como age um pai.Uma causa assim
total cria não apenas uma essência, ou uma a uma, ela cria todas as essências,
e as faz eternas, assim como ela. Uma causa total cria todas as essências, ao passo que uma causa parcial cria uma determina existência ou parte dela.Uma existência determinada , a do pai, pode
desaparecer sem que desapareça a existência determinada do filho , que ele no
entanto pôs no mundo. Contudo, a causa total que produziu uma essência nunca
desparece: ela está viva em todas as essências, de tal modo que destruir uma essência,
por mais simples que seja, seria também destruir a causa infinita de todas as
coisas. Por essa razão, uma essência não pode ser destruída por outra essência, e nenhuma essência determinada pode criar outra essência. A causa infinita que produziu cada essência é a Vida, e esta nunca destrói ou mata. O pai põe no mundo, Deus põe na
eternidade, isto é, põe nele mesmo, como modificação dele mesmo.
Portanto,
a essência de tudo que existe é uma modificação de Deus e, assim como ele, é
eterna. Somente o que é gerado por uma causa parcial, uma causa determinada,
existe em um tempo determinado e, assim, morre. Morrerá por outras causas determinadas.
A causa total não age de fora, assim como o fazem as causas determinadas. A
causa total ou infinita age de dentro, na
imanência de cada coisa que ela produz. Por isso, a causa infinita é
dita causa imanente.
Se olharmos para a mente do homem apenas do
ponto de vista da sua existência determinada, a veremos como o efeito de coisas
determinadas que a produziram : a língua, os costumes, os valores ( da família
e da sociedade). Enfim, veremos a mente apenas em seu aspecto psicológico, que
uma ciência, a psicologia, pode fazer de objeto de estudo, pois a ciência
somente consegue lidar com coisas determinadas. Todavia, as coisas determinadas
não subsistem por si mesmas, a não ser por uma abstração, assim como a onda não
pode subsistir sem o oceano. Além disso, o oceano somente é indeterminado visto
sob os olhos da onda individual. Quando adquirimos olhos para ver o próprio
oceano da vida, compreendemos que ele é potência que é mais real do que tudo
que existe de forma determinada, e que o
determinado nada é sem essa potência que age na imanência dele.O indeterminado
só tem sentido em razão das coisas determinadas. Assim,
a mente existe psicologicamente como coisa determinada, e é dita ser a mente de
João ou Pedro. Mas a mente também é o produto da natureza, e sob esse aspecto
ela não é apenas psicológica, ela é ontológica, ela existe como parte da natureza
espiritual infinita.Vista sob essa perspectiva, a mente é uma abertura a um
pensamento infinito do qual ela é uma parte.
Do
que é composta a mente? Ela é composta de duas coisas, e nada mais.A mente é
composta por ideias e por afetos. Ideias
e afetos têm algo em comum: eles são pensamentos, eles são formas de pensar.Eles
são maneiras de a mente se expressar.Mas eles têm algo diferente: toda ideia o
é de algo que existe no mundo dos corpos.Toda ideia possui uma realidade
objetiva: ela representa algo que existe no mundo material . Por exemplo, uma
coisa é Pedro enquanto ideia que minha mente forma, outra coisa é Pedro tal
como ele existe no mundo material. Uma coisa é a ideia de cadeira que formo em
minha mente, outra coisa é o objeto dessa ideia, já que o objeto também existe
no mundo material.Posso sentar-me na cadeira que existe como objeto da ideia, e
não na própria ideia da cadeira.Coisa diferente acontece com o afeto.Este
existe apenas na mente, no pensamento.Isto não significa que o afeto não existe
ou seja apenas imaginação. O afeto existe, tanto quanto as ideias.Por exemplo,
o afeto amor.Segundo Espinosa, quando vivemos esse afeto, não podemos vivê-lo
sem um objeto que exista no mundo material, seja este objeto uma pessoa ou
coisa, pois o amor é aquilo que nos faz desejar nos unir a algo ou alguém. Quando
amo ,por exemplo, uma roupa, desejo me unir a ela, vestindo-a o máximo de vezes
que puder;quando não gosto dela a mantenho no armário, esforço-me para não me
unir a ela. Para vivermos o amor é preciso
existir uma coisa amada, é necessário uma ideia da coisa amada. Para vivermos
um afeto, necessitamos de uma ideia que nos remeta ao mundo dos corpos. Exemplo
bem simples: Maria ama Pedro porque ela, além de viver o afeto, tem também a
ideia de Pedro dentro dela. Ninguém ama
sem amar alguma coisa. Assim , quando amamos algo, unem-se em nossa mente o
afeto e a ideia desse algo, ao mesmo tempo que se une nosso ser e o da coisa
amada que existe fora de nós.É por isso que amar intensifica a mente, a torna mais viva, pois une afeto e
ideia. O afeto depende da ideia para ser vivido de forma objetiva. Mas a ideia
não depende do afeto para exercer sua atividade essencial: o conhecer.Para amar
algo necessito da ideia desse algo. Para conhecer uma coisa, porém, não preciso
exatamente amá-la, e muito menos odiá-la. Necessito apenas formar uma ideia
adequada dela. Contudo, quando amamos algo nem sempre fazemos uma ideia adequada
primeiro da coisa para depois amá-la. Se assim fosse, viveríamos apenas uma vez
o amor na vida, e seríamos felizes para sempre, certos do amor assim como
estamos certos de que dois e dois é igual a quatro. Todavia,não raro amamos
algo sem formar desse algo uma ideia adequada, verdadeira. Não raro, amamos nos
fiando apenas em ideias aparentes de um ser , ideias estas que depois se
mostram inadequadas, confusas, e isto muitas vezes ao preço de grande
sofrimento.Mas talvez a razão de formarmos ideias confusas das coisas reside no
fato de termos antes ideias confusas,
não verdadeiras, de nós mesmos. Por que isso acontece?
Uma
coisa não possui apenas uma ideia, ela possui também um corpo. A primeira coisa que vemos de algo que existe
é seu corpo, sua existência material. E um corpo que existe age sobre o nosso .
Não vemos ideias, vemos corpos.Os corpos são objeto da percepção, já as ideias
somente passam a existir se nós as formamos: elas exigem uma atividade da alma.Uma
ideia não é uma imagem. Vejo um celular de última geração: vejo seu corpo. E
seu corpo age sobre o meu. Nasce um amor irrefreável por ele, desejo me unir ao
objeto como algo que me fará feliz:o compro antes de formar uma ideia adequada
do que aquela coisa é.Quanto menos conseguimos formar uma ideia adequada de
algo, mais imaginamos coisas que nada têm a ver com a ideia verdadeira desse
algo, e passamos a atribuir-lhe propriedades quase que mágicas, como se a
coisa não fosse exatamente um corpo feito por outros corpos: imaginamos realidades que não tem, a vemos como causa , quando na verdade ela é efeito, efeito de uma causa que ignoramos. Esse agir apenas em função de uma imagem, imagem esta nascida da ação de um
corpo sobre o meu, esse “agir” na verdade não é um agir, mas um reagir. Este
reagir recebe um nome:paixão. Paixão se origina de passio, que significa “sofrer a ação de algo” .Como a nossa vida é
mais governada pelos corpos do que pelas ideias, vivemos a vida mais ao sabor
das coisas que agem sobre nós do que pela capacidade que temos de formar ideias
adequadas das coisas. Quando um corpo age sobre outro nasce o que Espinosa chama de afecção. A
afecção não é o afeto. A afeção é uma modificação que nosso corpo sofre pela
ação de outro corpo. Por exemplo, quando vemos um corpo que age sobre o nosso ,
nossos hormônios se alteram , assim como a respiração e mesmo a circulação do
sangue.Todas essas modificações que ocorrem no nosso corpo são afecções.
Tudo
o que ocorre no nosso corpo terá um correspondente em nossa mente.Quando
formamos uma ideia adequada de uma coisa, formamos uma ideia adequada também do
seu corpo, de sua realidade material .Mas se um corpo age sobre o meu e o torna
apaixonado, perco a capacidade de formar uma ideia adequada dele, pois as
afecções que ele produzirá em mim me deixarão passivo. E a mente somente
consegue formar uma ideia adequada quando ela não está passiva.Dessa forma, o
correspondente na mente das afecções não serão os afetos, já que estes não têm
objeto. O correspondente na mente das afecções corpóreas serão as ideias
inadequadas, ideias confusas. Assim, quando algo nos deixa passivos porque seu
corpo age sobre o nosso, nossa alma também fica passiva , e dentro dela nascem
as ideias confusas . A mente se torna ativa, livre, apenas quando ela é capaz
de formar ideias adequadas.A ideia adequada torna a mente capaz de compreender
e fazer nosso ser inteiro, inclusive o corpo, a agir adequadamente, de acordo
com essa compreensão. A ideia inadequada e confusa não tem por causa a própria
mente, mas algo que ocorre no corpo ao qual ela está ligada.É por isso que a
mente não compreende a ideia confusa, e esta a faz de refém em sua própia
casa.A ideia confusa não é bem uma ideia, ela é uma imaginação. Assim, quando
amamos apenas de forma passional, sobretudo nas paixões tristes, amamos mais a
imaginação que temos de uma coisa do que a ideia adequada dela.Para vencermos
tais paixões tristes, é necessário desfazermos os laços nascidos entre o afeto
e a mera imaginação passiva.Mas isso não é tão simples, pois não é a coisa
externa a responsável exclusiva pela subordinação do afeto à imaginação,
fazendo nascer assim a paixão. Nós mesmos somos responsáveis por isso
acontecer.Mas a isto muitas vezes ignoramos, por não conseguirmos formar uma
ideia adequada de nós mesmos.Uma ideia adequada de nós mesmos não significa uma
ideia rígida, imutável.Uma ideia adequada da onda também inclui nela o oceano,
isto é, uma potência que sempre se renova.
Para
Espinosa, não há como vivermos um afeto sem reportá-lo a um objeto do qual tenhamos uma ideia .Esta
pode ser adequada ou inadequada, verdadeira ou confusa.Mas mesmo que seja
confusa a ideia, isto não impedirá que o afeto se ligue a ela, e passemos a viver
o afeto como se tratasse de uma ideia adequada, verdadeira. A mente somente consegue formar ideias
adequadas quando ela não se torna refém do que acontece ao seu corpo, sobretudo
quando este vive subordinado à ação dos outros corpos, tornando-o dependente
das coisas efêmeras.É preciso compreender que é na mente que está o afeto, não
no corpo.Além disso, a imaginação passional nasce não tanto da ideia adequada
do corpo que age sobre o nosso, mas das afecções que este produz sobre nosso
corpo. Então, imaginamos que as afecções que sofremos são o corpo mesmo que as
produziu. Todavia, as afecções que sofremos se explicam mais pela natureza do
nosso corpo do que pelo corpo que agiu sobre nós.Por exemplo, quando desenhamos
com o dedo figuras na areia, os desenhos assim nascidos se explicam mais pela
natureza do corpo da areia do que pela natureza dos nossos dedos. Se fizermos
os mesmos movimentos dos nossos dedos sobre o corpo do rígido cimento, nenhum
desenho ficará em seu corpo.De maneira semelhante, as afecções que sofremos, e
que modificam nosso corpo, se explicam mais pela natureza do nosso corpo do que
pela natureza do corpo que agiu sobre o nosso. Imagine se a areia da beira de uma praia pudesse ter
consciência e falar, não a acharíamos totalmente equivocada se ela nos dissesse
que , apenas pelo desenho que nossos dedos fizeram nela, ela seria capaz de conhecer a ideia adequada do que são nossos dedos? Para saber
adequadamente o que são os dedos é preciso saber o que são as mãos, o que é o
braço, o que são os nervos. Mas essas coisas são realidades que a areia não tem
como saber apenas pelo desenho, que é um efeito de uma ação sofrida e, enquanto tal, não pode ser causa de um conhecimento adequado. Então, ela de fato não sabe, apenas imagina que sabe, e toma esta
imaginação como se fosse conhecimento. Na verdade, ela se apaixonou mais pela imagem
que os dedos desenharam nela do que pelos próprios dedos. Somente se ela
conseguisse formar uma ideia adequada dos dedos e, antes desta, uma ideia adequada de si mesma, somente assim ela poderia amar de uma forma adequada e alegre, e
não apenas volúvel,o que os dedos e o desenho são. Do contrário, amará apenas
um efeito que logo o mar virá apagar , e mais a areia sofrerá quanto mais ela
imaginar que o desenho era eterno.
"Por alegria compreendo uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição maior. Por tristeza, em troca, compreendo uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição menor." ( Ética, Terceira Parte, proposição 11, escólio)."Quando a mente [deixando-se dominar pela imaginação] pensa em coisas que a entristecem e enfraquecem, essa simples imaginação já a entristece e enfraquece".(Ética, Terceira Parte, proposição 13)