sábado, 14 de dezembro de 2019

poesia & utopia


 Na rica  fala do povo do pantanal, “agroval” significa:  “lugar onde se cultiva a vida”. “Agroval” também é o nome que Manoel de Barros escolheu para  um de seus mais belos  poemas. O poema narra o que faz uma imensa  arraia quando as águas do pantanal secam e põem a vida em perigo: a arraia abre suas grandes asas  e pousa no barro, retendo parte da água abaixo de si. Com arte e cuidado, a arraia recria um  pequeno pantanal entre seu abdômen e o chão úmido , para que nesse espaço  protegido o coração do pantanal possa habitar e perseverar  ,    vivo. Generosa, a arraia deixa tudo o que  corre perigo  vir morar sob suas asas, fazendo delas abrigo. Migram  não apenas bichos, instalam-se  também sementes  de futuras flores e frutos, de tal modo que debaixo da arraia tudo o que vive acha um  útero. Sob a proteção de tal Gaia, a vida continua, resiste, fortalece-se; acontecem agenciamentos, contágios, enamoramentos da vida por ela mesma, una e múltipla. Até mesmo uma festa se esboça, feito uma  kizomba a celebrar a vida salva pela Vida. Pois quando as águas do pantanal  vão secando , aumenta a lama e vai sumindo o oxigênio.  Os predadores   sorrateiros lucram com a desolação  e   ficam à espreita para predar a vida que sufoca . Mas a arraia é resistente: quando o oxigênio falta às águas, a arraia aprende a sorvê-lo do ar para  partilhá-lo com os que respiram graças à respiração dela. Aconteça o que aconteça, nunca a arraia  se entrega ou desabraça. Quando as águas novamente  caem do céu e  a vida pode recomeçar, a arraia levanta as asas e  parteja  os seres que salvou do perigo, como uma utopia que enfim sai das teorias e  livros  para ser criada na prática.






quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

o terraplanismo...


Quanto mais lados um polígono possui, mais próximo ele está do círculo. Um triângulo possui três lados, o quadrado possui quatro. O quadrado está mais próximo do círculo do que o triângulo. O hectágono, polígono que tem cem lados, está mais próximo do círculo do que o quadrado. O megágono, polígono de um milhão de lados, encontra-se mais próximo do círculo do que o hectágono.Um bilhão de lados possui o gigágono, e isto o faz estar mais próximo do círculo ainda. Mas acima do gigágono existem ainda outros incontáveis polígonos com mais lados ainda, todos se superando em estar mais próximo do círculo. Um círculo, porém, não possui um trilhão ou um quatrilhão de lados, pois ele simplesmente não possui lados. 



Por isso, a única maneira de um polígono alcançar o círculo é se tornando um, é coincidindo com ele. Um polígono somente pode alcançar o círculo se libertando do afã de ampliar seus limites, pois é isto o que acontece quando ele aumenta seus lados. Coincidir com o círculo é um “deslimite”, diria o poeta Manoel de Barros. Comparado com um polígono que tem menos lados, o polígono de mais lados parece que está mais perto do círculo. Mas comparados com o próprio círculo, todos os polígonos lhe estão a igual distância, dado que o círculo é incomparável.


A ciência tenta alcançar a Vida aumentando as teorias, tal como o polígono que aumenta seus lados achando que assim alcançará o círculo. Física, química, biologia, matemática, sociologia, psicologia, etc., são os lados do polígono-ciência. Contudo, mesmo que se aumente indefinidamente a quantidade cumulativa de tais ciências, nunca elas alcançam o todo da Vida, pois este todo é um processo, um devir. Diferentemente da ciência , a poesia é como o círculo: sua riqueza e multiplicidade não advém do aumento de teorias. No círculo absoluto da Vida , o pensamento , a poesia e a vida são a mesma coisa. O círculo da Vida, porém, não tem centro ou perímetro determinados. A Vida é um círculo cujo centro está em toda parte , sendo seu perímetro ilimitado.
Olhado apenas nele mesmo , o círculo é a coisa mais simples que existe. Porém quando intuímos todos os polígonos que estão virtualmente compreendidos nele, o círculo nos aparece então como a realidade mais complexa e rica que existe, mas sem deixar de ser simples, como a Vida.
Não é aumentando seus lados que um polígono pode coincidir com o círculo. Não é aumentando a inteligência que se alcança a sabedoria; não é contando todas as estrelas que existem no universo que se compreende intuitivamente o que é o céu; não é meramente aumentando o número de ações que fazemos que nos tornamos ativos; não é proliferando o número de palavras que dizemos que aprendemos a ter o que dizer. Mesmo que tivéssemos um trilhão de dias para viver isto não significaria que , somando esses dias, chegaríamos a viver a vida com intensidade. Quando o círculo gira sobre seu próprio eixo, nasce assim a esfera, tal como o nosso planeta Terra . O terraplanismo odeia toda essa riqueza ilimitada , e seu ódio-ignorância também se dirige à própria vida diversa e múltipla, pois “planar” significa “tornar homogêneo”, “apagar as diferenças”.

(foto: Olavo, o terraplanista...)




- para quem quiser gostar de matemática, este livro é um dos melhores:

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

métis


A filosofia grega atendia por um nome : “Sofia” (“Sabedoria”). Não se deve confundir “Sofia” com “Razão”. Em grego, a palavra “Razão” é masculina e tinha  em Zeus um dos seus símbolos. Porém Zeus  não era a Sabedoria: esta nasceu dele como sua filha ou obra. Sofia é filha de Zeus com Métis. Os romanos traduziram “Métis” por “Prudência”. Porém a palavra “prudência”  não traduz  a riqueza semântica  da “Métis” original  grega. Pois “Métis” também é a deusa das “habilidades”. Não habilidade meramente   técnica, mas habilidade no sentido de produzir em nós um querer, uma consistência,  uma perseverança, um agir. À Métis também está associada a ideia de “saúde” enquanto cuidado consigo e com os outros. A palavra “caute” , base da Ética de Espinosa, provém dessa noção de métis enquanto medicina  do corpo e da mente. Uma das características de “Métis” é que ela era capaz de metamorfoses, de devires. Então, Zeus, o deus da razão, buscou na metamorfose de Métis uma nova saúde , uma saúde unindo pensamento e ação. De certo modo, a razão buscou sua saúde para além dela mesma, como se a simples razão fosse , sozinha, doença. Mesmo a razão precisa aprender habilidades que a pura razão não ensina. As habilidades de Métis são artes que unem o pensar ao agir. E foi desse agenciamento mais afetivo do que teórico , mais artístico e poético do que acadêmico, que nasceu Atena, Sofia. Os teóricos da razão  inspiram-se em Zeus, mas os pensadores são enamorados e apaixonados por Sofia: e por essa paixão não apenas pensam, como também agem e criam.



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

sofias...


Isso aconteceu recentemente em uma favela do Brasil: enquanto a água da enchente subia rapidamente e invadia o casebre simples, porém honesto, a mãe pede à menina para que pegue e salve o que for mais importante para sua sobrevivência e  ponha na mochila . A menina então se salvou sobre uma tábua de  madeira, agarrada à mochila. Quando a menina chegou à terra seca e abriu a mochila, foi tirando dela apenas livros...Quando lhe perguntaram a razão disso, ela disse: “salvei os livros porque são eles que vão me salvar...”.  O nome da menina é Rivânia, mas também poderia ser chamada de “Sofia”.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

a tolerância...


Anda muito estranho este nosso país: li ontem reportagem informando que livros didáticos estão sendo triturados para virarem papel higiênico! E o mais absurdo: são livros ainda na embalagem, que nunca chegaram, e nem irão chegar , às mãos dos alunos...Isso me lembrou uma situação que vivi recentemente: vi em uma lata de lixo perto de casa um livro que ali estava jogado fora. Era um livro de filosofia: “Tratado sobre a Tolerância”, de Voltaire. Notei o livro porque, antes, reparei em um senhor morador de rua que revirava a lata em busca de coisas que ainda podiam valer algo. Quando ele saiu, fui salvar do lixo a Tolerância. A situação me lembrou um verso de Manoel de Barros: “O que é verdadeiramente novo nunca vira sucata”. A Tolerância estava perto de um celular que um dia já foi novo, mas que agora virou sucata em razão de um modelo novo que o mercado lançou . Porém este mesmo modelo novo, não demora muito, virará sucata também. Mas valores o mercado não fabrica, embora ele viva de sucatear os valores com sua lógica de a tudo reduzir a coisa que se compra e vende...Peguei enfim a Tolerância e a retirei daquele lugar de coisas reduzidas a nada. A Tolerância estava muito machucada... Levei-a para casa e a pus perto da janela para pegar sol, secar e curar. As folhas estavam quase dissolvendo, porém não eram as folhas que eu queria salvar, na verdade eu queria manter viva outra espécie de realidade. “Ab-soluto” significa: “o que não é soluto, o que não se dissolve”. Mesmo que todos os livros sobre a Tolerância fossem jogados fora pela mentalidade  utilitarista ou pelo obscurantismo fundamentalista, seriam dissolvidos papéis e tintas, mas não a Ideia de Tolerância enquanto ela viver na alma , na palavra e na ação de quem não a deixar “virar sucata”. Um valor absoluto não é um valor eterno, um valor absoluto é aquele que a gente não deixa morrer. A Tolerância está viva e bem, nova como sempre, apesar daqueles que a querem no lixo. A luz do sol faz milagres...



sábado, 7 de dezembro de 2019

acervo , museu da maré


Um autêntico “acervo” não é feito de  coisas mortas ,  inertes. “Acervo” vem de “cérvix”: "cervical". A coluna cervical  , por exemplo, não é apenas o que sustenta a cabeça. Pois a  coluna cervical também é o que nos põe de pé e serve de elo entre o cérebro e o restante do corpo : é atravessando a coluna   que as ideias e desejos nascidos no pensamento se tornam força ,  alcançam nossas mãos e pernas,  traduzindo-se em ação sobre o mundo. Não por acaso, Fernando Pessoa nos lembra em um de seus poemas  que a coluna cervical  tem a forma de um ponto de interrogação. Pois é isto que põe o homem de pé: sua capacidade de pôr questões. Assim  como a coluna cervical, um acervo existe para manter de pé  as ideias que nos fazem seres pensantes. Quando os  obscurantistas  nos querem de joelhos, a educação emancipadora é a coluna sobre a qual devemos  nos erguer.

 ( foto: no Museu da Maré,  como parte de seu acervo ,  a luta de Marielle permanece de pé) 









quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

livro sobre manoel

trecho de novo livro a sair em breve. Nome do livro: "MANOEL DE BARROS: INFÂNCIAS, INVENÇÕES, EXPERIMENTAÇÕES " ( escrevo dois capítulos no livro)

No poema “O guardador de águas”, Manoel de Barros descreve o seguinte acontecimento: sob um monturo de restos de ossos, de folhas apodrecidas, de cacos de vidro e farrapos do que outrora respirou e foi vivo, sob tal monturo, que a natureza recolheu sem preconceito ou condenação, no ventre desse casulo úmido, uma semente despertou e uma fuga foi-se desenhando, e o que era obstáculo tornou-se impulso para a vida que se expandia. Move esta vida o desejo de ver o sol, o sol que ela nunca viu. Esse desejo perfurou o monturo, e deu-se a jubilação: saiu a pequena planta cantando o amor de existir. O poeta: “indivíduo que enxerga semente germinar”, pois “nas fendas do insignificante ele procura grãos de sol” (BARROS, 1992, p. 211). 
O guardador de águas: guardador de fluxos. Os fluxos somente podem ser guardados em um espaço aberto, sem limites determinados, cujas margens são limiares que, por dentro, se podem expandir. Guardar os fluxos é cuidar também deles, a começar pelos fluxos que nos constituem: caute, como recomendava Espinosa; cuidado como ato ético e também clínico. Em Manoel de Barros (2010a, p. 145), a essência não é uma “forma fixa”, ela é um “minadouro”, dela brotam e minam inauguramentos. Só  podemos guardar os fluxos em um espaço múltiplo, ao mesmo tempo subjetivo (lírico) e objetivo (prosaico). Guardar as águas é guardar-se nelas, como larva, rascunho, desabrimentos — “estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir” (LISPECTOR, 1984, p. 119).





terça-feira, 3 de dezembro de 2019

os vendilhões...


Os gregos diziam que a sociedade é composta por três classes: aqueles que a devem governar com leis e regras, os que a devem defender com armas ( subordinados à Constituição)  e os que vivem do comércio querendo obter lucro e dinheiro. O perigo que a sociedade corre é quando os comerciantes resolvem querer governar. Não há nenhum problema quando o comércio se exerce limitando-se no comprar e vender coisas . O risco supremo para uma sociedade é quando o espírito de comerciante quer também ser governo. Pois quando o espírito de comerciante domina   também o Estado ,  tal espírito de comerciante  não mudará seu jeito, e assim ele continuará a fazer a única coisa que  sabe: comprar e vender. Dessa vez, no entanto, virará objeto de comércio coisas que não deveriam ter preço: como as leis , o ensino, as florestas, os mares, a saúde do povo, enfim, o patrimônio público. E assim , é o próprio povo que, em última análise,  será comprado e vendido por um preço que o espírito de comerciante se esforçará para ser o mais baixo, pois quanto mais barato for comprado e vendido o povo,  maior será o lucro de tais comerciantes espúrios. Porém, temendo uma revolta do povo, o espírito de comerciante sempre se associa com aqueles cujo poder é o das armas, os militares, nascendo assim a tirania. A tirania é sempre cívico-militar: o capital unido às armas.



- infelizmente, este maravilhoso livro não tem em português ( mas deveria ser traduzido urgentemente): "O preço das coisas sem preço".


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

artigo: a clínica de manoel


trecho do artigo:                     

            MANOEL DE BARROS: A EMPOÉTICA TERAPÊUTICA
                                                         
                                                                                               Elton Luiz Leite de Souza[1]


RESUMO: A poesia de Manoel de Barros é mais do que uma poética, ela é uma empoética. Sua terapia literária enseja uma terapêutica da linguagem e de nós mesmos, empoemando-nos. Empoemar-se é estender o poético para além dos meros versos, e é isso que faz Manoel em sua obra, incluindo entrevistas, cartas e mesmo seus desenhos. São esses os componentes de sua Oficina de Transfazer Natureza, para assim inventar comportamento.
PALAVRAS-CHAVE: Manoel de Barros; Poesia; Empoética.


1. Introdução: a Oficina de Transfazer
A literatura é uma saúde.
Gilles Deleuze

Manoel de Barros define sua poesia como Uma Oficina de Transfazer Natureza”[2].  Toda oficina é um lugar de “fazimentos”, de “inventar comportamento”[3]. Nessa Oficina há várias ferramentas, ferramentas simbólicas, semióticas, lúdicas. Queremos falar de uma ferramenta em especial. Manoel constrói e reconstrói inúmeras coisas com ela. Trata-se não de uma palavra, mas de uma “pré-palavra”: o prefixo “trans”. O pré-fixo é o que vem antes de algo fixo, pronto, fechado. “Fixo”, “acostumado”, é o significado que o uso enrijece: “significar reduz novos sonhos para as palavras”[4] .  Mais do que uma lógica, uma Oficina do Sentido: “Na ponta do meu lápis / Há apenas nascimento”.[5]
O “trans” é uma ferramenta da oficina poético-filosófica do artesão Manoel. Não é a gramática que pode explicar o emprego em Manoel de tal prefixo, apenas uma agramática o pode:

Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que  empoema  o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos,
um  inauguramento  de falas.[6]

 No poema acima, Manoel nos ensina, brincativamente [7], a principal lição de sua Oficina:  o empoemar como atividade que aqui chamaremos de empoética. Esta é a hipótese que sustenta tudo o que queremos aqui dizer: toda a poesia de Manoel é uma empoética, e dessa empoética também fazem parte as entrevistas e mesmo sua correspondência.
Essa empoética também é expressa por outros meios sem ser a palavra, tal como se vê nos desenhos muito originais e singulares que o próprio poeta engenha. E mais: os livros nascem em cadernos artesanais que o poeta confecciona à mão. Também é parte de sua empoética essa sua artesania.          




[1] Filósofo, Professor Adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio); autor do livro Manoel de Barros: a poética do deslimite (Editora 7letras/Faperj); publicou também   artigos sobre a obra de Manoel de Barros. Organizador de publicação em homenagem ao centenário do poeta: Poesia pode ser que seja fazer outro mundo, Editora 7letras (no prelo).
[2] O guardador de águas, p. 20.
[3] “Comportamento”, Ensaios fotográficos, p. 65.
[4] Escritos em verbal de ave.
[5] Encontros: Manoel de Barros. Rio de Janeiro, Azougue, 2010(Org. Adalberto Müller), p. 135.
[6] “Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada”, Guardador de águas, p. 62.
[7] Escritos em verbal de ave. São Paulo: Leya, 2011.




- link para artigo completo:

http://websensors.net.br/seer/index.php/guavira/search/authors/view?firstName=Elton%20Luiz&middleName=Leite%20de&lastName=SOUZA%20%28UniRio%29&affiliation=Fil%C3%B3sofo%2C%20Professor%20Adjunto%20da%20Universidade%20Federal%20do%20Estado%20do%20Rio%20de%20Janeiro%20%28UniRio%29&country=BR

domingo, 1 de dezembro de 2019

a pintura de espinosa


Se a gente olha um quadro de muito perto, vemos apenas as tintas, as pinceladas, as texturas e tudo aquilo que nasceu do movimento do pincel. Mas  se nos afastarmos um pouco  e olharmos para a tela,  vemos enfim a paisagem que o artista criou. Quando olhamos de perto, a paisagem “desaparece” para nossos olhos, porém não das tintas. Paisagem e tintas são, no quadro, uma única realidade vista de duas perspectivas diferentes. Assim são, segundo Espinosa, o corpo e a alma:  as tintas e as paisagens que somos. Se o artista  altera o tom de uma tinta, também altera , ao mesmo tempo, o sentido da paisagem. As árvores pintadas, os verdes das plantas, o amarelo do sol, todas as ideias expressas no quadro enfim, estão conectadas tais como estão conectadas as tintas no espaço do quadro. Alguém poderia perguntar a Espinosa: “E se depois de estarmos bem perto e vermos as tintas começarmos a nos afastar lentamente, haverá um momento em que veremos a paisagem nascendo antes de as tintas morrerem para nossos olhos? Seria possível vermos as tintas e a paisagem  como realidades diferentes antes de elas se tornarem uma única realidade?” Talvez Espinosa respondesse assim:  “Quando olhamos o quadro o fazemos com os olhos do nosso corpo, que é ´parte da matéria-tinta que somos, olhos estes que são os olhos mesmos da alma enquanto expressão da paisagem que somos. A unidade não nasce de fazermos a paisagem ser superior às tintas, pois a autêntica unidade está no artista: é ele o produtor da paisagem enquanto alma das tintas, e das tintas enquanto corpo da paisagem. A unidade que somos, unidade de tintas e paisagem, corpo e alma, está  no artista do qual somos a obra de arte”. Este artista não é nosso ego, mas a Natureza Infinita, a qual Espinosa chama de Natura Naturante: a Pintura Absoluta.