Na rica fala do povo do pantanal, “agroval” significa:
“lugar onde se cultiva a vida”.
“Agroval” também é o nome que Manoel de Barros escolheu para um de seus mais belos poemas. O poema narra o que faz uma
imensa arraia quando as águas do
pantanal secam e põem a vida em perigo: a arraia abre suas grandes asas e pousa no barro, retendo parte da água
abaixo de si. Com arte e cuidado, a arraia recria um pequeno pantanal entre seu abdômen e o chão
úmido , para que nesse espaço protegido
o coração do pantanal possa habitar e perseverar , vivo. Generosa, a arraia deixa tudo o
que corre perigo vir morar sob suas asas, fazendo delas
abrigo. Migram não apenas bichos,
instalam-se também sementes de futuras flores e frutos, de tal modo que
debaixo da arraia tudo o que vive acha um
útero. Sob a proteção de tal Gaia, a vida continua, resiste,
fortalece-se; acontecem agenciamentos, contágios, enamoramentos da vida por ela
mesma, una e múltipla. Até mesmo uma festa se esboça, feito uma kizomba a celebrar a vida salva pela Vida.
Pois quando as águas do pantanal vão
secando , aumenta a lama e vai sumindo o oxigênio. Os predadores sorrateiros lucram com a desolação e
ficam à espreita para predar a vida que sufoca . Mas a arraia é
resistente: quando o oxigênio falta às águas, a arraia aprende a sorvê-lo do ar
para partilhá-lo com os que respiram
graças à respiração dela. Aconteça o que aconteça, nunca a arraia se entrega ou desabraça. Quando as águas
novamente caem do céu e a vida pode recomeçar, a arraia levanta as
asas e parteja os seres que salvou do perigo, como uma
utopia que enfim sai das teorias e
livros para ser criada na
prática.
sábado, 14 de dezembro de 2019
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
o terraplanismo...
Quanto mais lados um polígono possui,
mais próximo ele está do círculo. Um triângulo possui três lados, o quadrado
possui quatro. O quadrado está mais próximo do círculo do que o triângulo. O
hectágono, polígono que tem cem lados, está mais próximo do círculo do que o
quadrado. O megágono, polígono de um milhão de lados, encontra-se mais próximo
do círculo do que o hectágono.Um bilhão de lados possui o gigágono, e isto o
faz estar mais próximo do círculo ainda. Mas acima do gigágono existem ainda
outros incontáveis polígonos com mais lados ainda, todos se superando em estar
mais próximo do círculo. Um círculo, porém, não possui um trilhão ou um
quatrilhão de lados, pois ele simplesmente não possui lados.
Por isso, a única
maneira de um polígono alcançar o círculo é se tornando um, é coincidindo com
ele. Um polígono somente pode alcançar o círculo se libertando do afã de ampliar
seus limites, pois é isto o que acontece quando ele aumenta seus lados.
Coincidir com o círculo é um “deslimite”, diria o poeta Manoel de Barros.
Comparado com um polígono que tem menos lados, o polígono de mais lados parece
que está mais perto do círculo. Mas comparados com o próprio círculo, todos os
polígonos lhe estão a igual distância, dado que o círculo é incomparável.
A ciência tenta alcançar a Vida
aumentando as teorias, tal como o polígono que aumenta seus lados achando que
assim alcançará o círculo. Física, química, biologia, matemática, sociologia,
psicologia, etc., são os lados do polígono-ciência. Contudo, mesmo que se
aumente indefinidamente a quantidade cumulativa de tais ciências, nunca elas
alcançam o todo da Vida, pois este todo é um processo, um devir. Diferentemente
da ciência , a poesia é como o círculo: sua riqueza e multiplicidade não advém
do aumento de teorias. No círculo absoluto da Vida , o pensamento , a poesia e
a vida são a mesma coisa. O círculo da Vida, porém, não tem centro ou perímetro
determinados. A Vida é um círculo cujo centro está em toda parte , sendo seu
perímetro ilimitado.
Olhado apenas nele mesmo , o círculo
é a coisa mais simples que existe. Porém quando intuímos todos os polígonos que
estão virtualmente compreendidos nele, o círculo nos aparece então como a
realidade mais complexa e rica que existe, mas sem deixar de ser simples, como
a Vida.
Não é aumentando seus lados que um
polígono pode coincidir com o círculo. Não é aumentando a inteligência que se
alcança a sabedoria; não é contando todas as estrelas que existem no universo
que se compreende intuitivamente o que é o céu; não é meramente aumentando o
número de ações que fazemos que nos tornamos ativos; não é proliferando o
número de palavras que dizemos que aprendemos a ter o que dizer. Mesmo que
tivéssemos um trilhão de dias para viver isto não significaria que , somando
esses dias, chegaríamos a viver a vida com intensidade. Quando o círculo gira
sobre seu próprio eixo, nasce assim a esfera, tal como o nosso planeta Terra .
O terraplanismo odeia toda essa riqueza ilimitada , e seu ódio-ignorância
também se dirige à própria vida diversa e múltipla, pois “planar” significa
“tornar homogêneo”, “apagar as diferenças”.
(foto: Olavo, o terraplanista...)
- para quem quiser gostar de matemática, este livro é um dos melhores:
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
métis
A filosofia grega atendia por um nome
: “Sofia” (“Sabedoria”). Não se deve confundir “Sofia” com “Razão”. Em grego, a
palavra “Razão” é masculina e tinha em
Zeus um dos seus símbolos. Porém Zeus
não era a Sabedoria: esta nasceu dele como sua filha ou obra. Sofia é
filha de Zeus com Métis. Os romanos traduziram “Métis” por “Prudência”. Porém a
palavra “prudência” não traduz a riqueza semântica da “Métis” original grega. Pois “Métis” também é a deusa das
“habilidades”. Não habilidade meramente
técnica, mas habilidade no sentido de produzir em nós um querer, uma
consistência, uma perseverança, um agir.
À Métis também está associada a ideia de “saúde” enquanto cuidado consigo e com
os outros. A palavra “caute” , base da Ética de Espinosa, provém dessa noção de
métis enquanto medicina do corpo e da
mente. Uma das características de “Métis” é que ela era capaz de metamorfoses,
de devires. Então, Zeus, o deus da razão, buscou na metamorfose de Métis uma
nova saúde , uma saúde unindo pensamento e ação. De certo modo, a razão buscou
sua saúde para além dela mesma, como se a simples razão fosse , sozinha,
doença. Mesmo a razão precisa aprender habilidades que a pura razão não ensina.
As habilidades de Métis são artes que unem o pensar ao agir. E foi desse
agenciamento mais afetivo do que teórico , mais artístico e poético do que
acadêmico, que nasceu Atena, Sofia. Os teóricos da razão inspiram-se em Zeus, mas os pensadores são
enamorados e apaixonados por Sofia: e por essa paixão não apenas pensam, como
também agem e criam.
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
sofias...
Isso aconteceu recentemente em uma
favela do Brasil: enquanto a água da enchente subia rapidamente e invadia o
casebre simples, porém honesto, a mãe pede à menina para que pegue e salve o
que for mais importante para sua sobrevivência e ponha na mochila . A menina então se salvou sobre uma tábua de madeira, agarrada à mochila. Quando a menina chegou à terra seca e abriu a
mochila, foi tirando dela apenas livros...Quando lhe perguntaram a razão disso,
ela disse: “salvei os livros porque são eles que vão me salvar...”. O nome da menina é Rivânia, mas também poderia
ser chamada de “Sofia”.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
a tolerância...
Anda muito estranho este nosso país:
li ontem reportagem informando que livros didáticos estão sendo triturados para
virarem papel higiênico! E o mais absurdo: são livros ainda na embalagem, que
nunca chegaram, e nem irão chegar , às mãos dos alunos...Isso me lembrou uma
situação que vivi recentemente: vi em uma lata de lixo perto de casa um livro
que ali estava jogado fora. Era um livro de filosofia: “Tratado sobre a
Tolerância”, de Voltaire. Notei o livro porque, antes, reparei em um senhor
morador de rua que revirava a lata em busca de coisas que ainda podiam valer
algo. Quando ele saiu, fui salvar do lixo a Tolerância. A situação me lembrou
um verso de Manoel de Barros: “O que é verdadeiramente novo nunca vira sucata”.
A Tolerância estava perto de um celular que um dia já foi novo, mas que agora
virou sucata em razão de um modelo novo que o mercado lançou . Porém este mesmo
modelo novo, não demora muito, virará sucata também. Mas valores o mercado não
fabrica, embora ele viva de sucatear os valores com sua lógica de a tudo
reduzir a coisa que se compra e vende...Peguei enfim a Tolerância e a retirei
daquele lugar de coisas reduzidas a nada. A Tolerância estava muito
machucada... Levei-a para casa e a pus perto da janela para pegar sol, secar e
curar. As folhas estavam quase dissolvendo, porém não eram as folhas que eu
queria salvar, na verdade eu queria manter viva outra espécie de realidade.
“Ab-soluto” significa: “o que não é soluto, o que não se dissolve”. Mesmo que
todos os livros sobre a Tolerância fossem jogados fora pela mentalidade utilitarista
ou pelo obscurantismo fundamentalista, seriam dissolvidos papéis e tintas, mas
não a Ideia de Tolerância enquanto ela viver na alma , na palavra e na ação de
quem não a deixar “virar sucata”. Um valor absoluto não é um valor eterno, um
valor absoluto é aquele que a gente não deixa morrer. A Tolerância está viva e
bem, nova como sempre, apesar daqueles que a querem no lixo. A luz do sol faz
milagres...
sábado, 7 de dezembro de 2019
acervo , museu da maré
Um autêntico “acervo” não é feito
de coisas mortas , inertes. “Acervo” vem de “cérvix”:
"cervical". A coluna cervical ,
por exemplo, não é apenas o que sustenta a cabeça. Pois a coluna cervical também é o que nos põe de pé
e serve de elo entre o cérebro e o restante do corpo : é atravessando a
coluna que as ideias e desejos nascidos
no pensamento se tornam força , alcançam
nossas mãos e pernas, traduzindo-se em ação
sobre o mundo. Não por acaso, Fernando Pessoa nos lembra em um de seus poemas que a coluna cervical tem a forma de um ponto de interrogação. Pois
é isto que põe o homem de pé: sua capacidade de pôr questões. Assim como a coluna cervical, um acervo existe para
manter de pé as ideias que nos fazem seres
pensantes. Quando os obscurantistas nos querem de joelhos, a educação emancipadora
é a coluna sobre a qual devemos nos
erguer.
( foto: no Museu da Maré, como parte de seu acervo , a luta de Marielle permanece de pé)
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
livro sobre manoel
trecho de novo livro a sair em breve. Nome do livro: "MANOEL DE BARROS: INFÂNCIAS, INVENÇÕES, EXPERIMENTAÇÕES " ( escrevo dois capítulos no livro)
No
poema “O guardador de águas”, Manoel de Barros descreve o seguinte
acontecimento: sob um monturo de restos de ossos, de folhas apodrecidas, de
cacos de vidro e farrapos do que outrora respirou e foi vivo, sob tal monturo,
que a natureza recolheu sem preconceito ou condenação, no ventre desse casulo
úmido, uma semente despertou e uma fuga foi-se desenhando, e o que era
obstáculo tornou-se impulso para a vida que se expandia. Move esta vida o
desejo de ver o sol, o sol que ela nunca viu. Esse desejo perfurou o monturo, e
deu-se a jubilação: saiu a pequena planta cantando o amor de existir. O poeta:
“indivíduo que enxerga semente germinar”, pois “nas fendas do insignificante
ele procura grãos de sol” (BARROS, 1992, p. 211).
O guardador de águas:
guardador de fluxos. Os fluxos somente podem ser guardados em um espaço aberto,
sem limites determinados, cujas margens são limiares que, por dentro, se podem
expandir. Guardar os fluxos é cuidar também deles, a começar pelos fluxos que
nos constituem: caute, como recomendava Espinosa; cuidado como ato ético e
também clínico. Em Manoel de Barros (2010a, p. 145), a essência não é uma
“forma fixa”, ela é um “minadouro”, dela brotam e minam inauguramentos. Só podemos guardar os fluxos em um espaço
múltiplo, ao mesmo tempo subjetivo (lírico) e objetivo (prosaico). Guardar as
águas é guardar-se nelas, como larva, rascunho, desabrimentos — “estou à janela
e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo
comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir” (LISPECTOR, 1984, p. 119).
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
os vendilhões...
Os gregos diziam que a sociedade é
composta por três classes: aqueles que a devem governar com leis e regras, os
que a devem defender com armas ( subordinados à Constituição) e os que vivem do comércio querendo obter
lucro e dinheiro. O perigo que a sociedade corre é quando os comerciantes
resolvem querer governar. Não há nenhum problema quando o comércio se exerce limitando-se no
comprar e vender coisas . O risco supremo para uma sociedade é quando o
espírito de comerciante quer também ser governo. Pois quando o espírito de
comerciante domina também o Estado
, tal espírito de comerciante não mudará seu jeito, e assim ele continuará
a fazer a única coisa que sabe: comprar
e vender. Dessa vez, no entanto, virará objeto de comércio coisas que não
deveriam ter preço: como as leis , o ensino, as florestas, os mares, a saúde do
povo, enfim, o patrimônio público. E assim , é o próprio povo que, em última
análise, será comprado e vendido por um
preço que o espírito de comerciante se esforçará para ser o mais baixo, pois quanto
mais barato for comprado e vendido o povo,
maior será o lucro de tais comerciantes espúrios. Porém, temendo uma
revolta do povo, o espírito de comerciante sempre se associa com aqueles cujo
poder é o das armas, os militares, nascendo assim a tirania. A tirania é sempre
cívico-militar: o capital unido às armas.
- infelizmente, este maravilhoso livro não tem em português ( mas deveria ser traduzido urgentemente): "O preço das coisas sem preço".
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
artigo: a clínica de manoel
trecho do artigo:
MANOEL
DE BARROS: A EMPOÉTICA TERAPÊUTICA
Elton Luiz Leite de Souza[1]
RESUMO: A poesia
de Manoel de Barros é mais do que uma poética, ela é uma empoética. Sua terapia literária enseja uma terapêutica da
linguagem e de nós mesmos, empoemando-nos. Empoemar-se é estender o poético
para além dos meros versos, e é isso que faz Manoel em sua obra, incluindo
entrevistas, cartas e mesmo seus desenhos. São esses os componentes de sua Oficina de Transfazer Natureza, para
assim inventar comportamento.
PALAVRAS-CHAVE:
Manoel de Barros; Poesia; Empoética.
1. Introdução: a Oficina de Transfazer
A literatura é uma
saúde.
Gilles Deleuze
Manoel de Barros define sua poesia como “Uma Oficina de Transfazer Natureza”[2]. Toda oficina é um lugar de “fazimentos”, de
“inventar comportamento”[3].
Nessa Oficina
há várias ferramentas, ferramentas simbólicas, semióticas, lúdicas. Queremos
falar de uma ferramenta em especial. Manoel constrói e reconstrói inúmeras
coisas com ela. Trata-se não de uma palavra, mas de uma “pré-palavra”: o
prefixo “trans”. O pré-fixo é o que vem antes de algo fixo, pronto, fechado.
“Fixo”, “acostumado”, é o significado que o uso enrijece: “significar reduz
novos sonhos para as palavras”[4] . Mais do que uma lógica, uma Oficina do Sentido: “Na ponta do meu
lápis / Há apenas nascimento”.[5]
O “trans” é uma ferramenta da oficina poético-filosófica do
artesão Manoel. Não é a gramática que pode explicar o emprego em Manoel de tal
prefixo, apenas uma agramática o
pode:
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos,
um
inauguramento de falas.[6]
No poema
acima, Manoel nos ensina, brincativamente
[7], a
principal lição de sua Oficina: o empoemar
como atividade que aqui chamaremos de empoética.
Esta é a hipótese que sustenta tudo o que queremos aqui dizer: toda a poesia de
Manoel é uma empoética, e dessa empoética também fazem parte as entrevistas e
mesmo sua correspondência.
Essa empoética também é expressa por outros meios sem ser a
palavra, tal como se vê nos desenhos muito originais e singulares que o próprio
poeta engenha. E mais: os livros nascem em cadernos artesanais que o poeta
confecciona à mão. Também é parte de sua empoética essa sua artesania.
[1] Filósofo, Professor Adjunto da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio); autor do livro Manoel de Barros: a poética do deslimite
(Editora 7letras/Faperj); publicou também
artigos sobre a obra de Manoel de Barros. Organizador de publicação em
homenagem ao centenário do poeta: Poesia
pode ser que seja fazer outro mundo, Editora 7letras (no prelo).
[2] O guardador de águas, p. 20.
[3] “Comportamento”, Ensaios fotográficos, p. 65.
[4] Escritos em verbal de ave.
[5] Encontros: Manoel de Barros. Rio de
Janeiro, Azougue, 2010(Org. Adalberto Müller), p. 135.
[6] “Retrato quase apagado em que se
pode ver perfeitamente nada”, Guardador
de águas, p. 62.
- link para artigo completo:
http://websensors.net.br/seer/index.php/guavira/search/authors/view?firstName=Elton%20Luiz&middleName=Leite%20de&lastName=SOUZA%20%28UniRio%29&affiliation=Fil%C3%B3sofo%2C%20Professor%20Adjunto%20da%20Universidade%20Federal%20do%20Estado%20do%20Rio%20de%20Janeiro%20%28UniRio%29&country=BR
domingo, 1 de dezembro de 2019
a pintura de espinosa
Se a gente olha um quadro de muito
perto, vemos apenas as tintas, as pinceladas, as texturas e tudo aquilo que
nasceu do movimento do pincel. Mas se
nos afastarmos um pouco e olharmos para
a tela, vemos enfim a paisagem que o artista criou. Quando olhamos de perto, a paisagem “desaparece” para nossos olhos, porém não
das tintas. Paisagem e tintas são, no quadro, uma única realidade vista de duas
perspectivas diferentes. Assim são, segundo Espinosa, o corpo e a alma: as
tintas e as paisagens que somos. Se o artista altera o tom de uma tinta, também altera ,
ao mesmo tempo, o sentido da paisagem. As árvores pintadas, os verdes das plantas,
o amarelo do sol, todas as ideias expressas no quadro enfim, estão conectadas
tais como estão conectadas as tintas no espaço do quadro. Alguém poderia
perguntar a Espinosa: “E se depois de estarmos bem perto e vermos as tintas
começarmos a nos afastar lentamente, haverá um momento em que veremos a paisagem
nascendo antes de as tintas morrerem para nossos olhos? Seria possível vermos
as tintas e a paisagem como realidades
diferentes antes de elas se tornarem uma única realidade?” Talvez Espinosa
respondesse assim: “Quando olhamos o
quadro o fazemos com os olhos do nosso corpo, que é ´parte da matéria-tinta que
somos, olhos estes que são os olhos mesmos da alma enquanto expressão da
paisagem que somos. A unidade não nasce de fazermos a paisagem ser superior às
tintas, pois a autêntica unidade está no artista: é ele o produtor da paisagem
enquanto alma das tintas, e das tintas enquanto corpo da paisagem. A unidade
que somos, unidade de tintas e paisagem, corpo e alma, está no artista do qual somos a obra de arte”. Este
artista não é nosso ego, mas a Natureza Infinita, a qual Espinosa chama de
Natura Naturante: a Pintura Absoluta.
Assinar:
Postagens (Atom)














