terça-feira, 7 de março de 2017

a pequenina Musa...

Segundo o poeta Manoel de Barros, “quem se aproxima da origem se renova”. Assim compreendida, a origem não está apenas no passado. Agora, por exemplo, é meio-dia. A origem do meio-dia não é a hora que veio antes, as onze horas. A origem do meio-dia é o mesmo das onze horas e de qualquer outra hora. A origem de tais horas é o tempo. Não é o tempo que nasce das horas, são as horas que nascem do tempo. Renova-se quem acha o tempo , o redescobre, no seio mesmo das horas, e não alhures, além. E se renovará mais ainda quem achar o tempo vivo no meio das horas mortas...
O que vale para as horas vale igualmente para as palavras. A autêntica origem de uma palavra não é outra palavra. A origem de uma palavra é sempre um acontecimento. É preciso achar, na imanência de uma palavra, o acontecimento que a fez nascer. É preciso encontrar em uma palavra o seu sentido.
Sentido não é a mesma coisa que significado. Os dicionários semânticos fornecem o significado de uma palavra:  a uma palavra eles associam outras, exatamente aquelas que , semanticamente, definem  o seu significado. O significado vive preso em um círculo, eixo ou cadeia: a cadeia das palavras. Até onde se sabe, não existe cadeia que liberte, elas sempre aprisionam: aprisionam o corpo, as cadeias físicas; aprisionam a mente, as cadeias simbólicas.
Encontrar o sentido de uma palavra é libertá-la de uma cadeia, de um “acostumado”, diria Manoel de Barros. Libertar uma palavra é achar nela o acontecimento que ela expressa. O sentido nunca é uma coisa em si, ele é um elo, um agenciamento. O sentido liga a palavra ao acontecimento, e o acontecimento à palavra . O sentido está entre a palavra e o acontecimento .O sentido é bifacial: possui uma face externa voltada para o acontecimento, possui uma face interna voltada para o signo.
A etimologia pode ajudar-nos a achar o sentido de uma palavra, a sua origem. Não por acaso, “étimo” significa “origem”. Por exemplo, a palavra “museu”. Se ficarmos aprisionados à semântica, definiremos museu como um determinado lugar, um prédio que guarda e expõe coisas. Mas será apenas isso um museu? Creio que pode haver mais...
“Museu” provém de “Musa”. Originalmente, musa significa “conhecimento”. Mas é um conhecimento muito singular e especial. Tanto os poetas quanto os filósofos pré-socráticos evocavam as Musas para auxiliá-los na seguinte tarefa: vencer o esquecimento. Vencer o esquecimento daquilo que não pode ser esquecido. Assim, o conhecimento das Musas não é só intelecto ou razão, ele é , também, recordação: “re-cordis”, “trazer de novo ao coração”, como lugar do Afeto
O conhecimento do qual as Musas são a expressão é um conhecimento evocador de uma memória: memória do que não pode ser esquecido.Não é uma memória do descartável e substituível.Posso esquecer de coisas que fiz ontem, posso esquecer o celular no carro...Porém , não posso esquecer que sou, e que este "sou" é algo vindo a ser, aberto ao  futuro, isto é, àquilo  do qual não há memória.Assim,  não é uma memória apenas do que fomos, mas do que somos , à luz do que precisamos ser. É uma memória idêntica ao ser e ao pensar, na exigência do vir a ser, do se reinventar.
No mito, as Musas são filhas de Zeus com Mnemosine, a divindade ligada à memória. Zeus esposou Mnemosine para fecundá-la com algo que não deve estar apenas no passado, mas no presente. Zeus, como se sabe, é a divindade associada à Justiça enquanto virtude ética. A ética não pode estar apenas no passado, ela tem que estar presente, ser a motivação das ações presentes.
Zeus casou-se com Mnemosine após uma guerra. Uma guerra contra o que há de pesado, vil, torpe, baixo, apequenador...Tais características tenebrosas estavam vinculadas às divindades sem ética, sem beleza, sem virtudes, enfim, a ignorância em seus variados aspectos.
Dessa guerra Zeus se saiu vitorioso. Ele quis então co-memorar essa vitória, para criar dela uma memória. Co-memorar: criar memória. Todavia seu intuito não era apenas relembrar algo que se deu no passado e passou. Seu desejo era fazer lembrar e dar a conhecer o feito, o que se fez. Lembrar o que se fez para se continuar fazendo e a fazer, se preciso for novamente, para assim lutar e vencer a ignorância. Foi este acontecimento a origem do museu: lutar contra a ignorância, que apenas o intelecto sozinho não pode vencer. Não a ignorância em relação a datas e regras, mas ignorância acerca do que é a justiça, a ética, a beleza, a natureza, enfim, a vida. É esse acontecimento que dá ao museu o seu sentido, mais do que prédios e objetos.
Em grego, “fazer” se diz “poiésis”. Desse termo vem “poesia”. A poesia não é apenas versos, ela é a arma de uma batalha, na luta contra as mais diversas formas de ignorância, da qual a versão mais recente é a de um conhecimento que se quer “pragmático”, “técnico”, “não poético”.
Os poetas são fazedores. Um museólogo deveria ser, antes de tudo, um fazedor. Ele não faz as coisas que expõe, ele faz coisas com os objetos que expõe. E essas “coisas” que ele faz não são coisas materiais, são ações que devem fazer com que não seja esquecido o porquê de se expor algo em museus.
Na singela foto, vemos a bailarina em seu gesto eterno , imortalizado nas tintas. Na menininha, esse gesto renasce, outro. Ele renasce em seu corpo, em seu jeito: a criança interpreta, dançando, o que é dançar. Ela aprendeu a dançar, ensinando a si mesma que o pode fazer, para assim reinventar o dançar, à sua maneira.
 Quem é o “sujeito” ou o “polo ativo”  desse processo de conhecimento: o museólogo-museu, o quadro-objeto ou a criança? Ou não haverá sujeito, mas apenas agenciamento? Na teoria do conhecimento ortodoxa, da qual a museologia tradicional ainda é refém, o sujeito é o polo ativo, ao passo que o objeto é o polo passivo, inerte. Porém, a museologia tradicional apenas inverte os polos, e coloca o Objeto como o polo ativo, fazendo dos visitantes sujeitos inertes.
Agenciamento tem como raiz o termo “agente”. Um agente não é exatamente um sujeito. Mesmo um objeto pode ser um agente, desde que ele seja o agenciador para produzir agentes, isto é, seres ativos.
Na foto , o quadro não é apenas um objeto exposto, ele é o agente de um agenciamento. A menininha não é tão somente uma espectadora, ela é o agente de um agenciamento: ela viu, se afetou e reinventou o Sentido-Acontecimento do que a bailarina fez
Que a pequenina Musa, em sua inocência brincativa,  nos ajude a não esquecer o que precisa ser sempre lembrado, por mais morta que seja a hora, apesar do ar cinicamente triunfante da ignorância que nos cerca.






segunda-feira, 6 de março de 2017

mistério iluminado

Uma nave espacial  que saia da terra e entre no espaço,
logo verá que o céu não está apenas acima:
ele  está também atrás, dos lados
e igualmente abaixo.

Nessa perspectiva , tudo é céu...
E nesse tudo um  inferno não pode ser achado,
pois um inferno, dizem, é o que existe debaixo.
Fogo há apenas nos sóis e cometas,
que não queimam por terem pecado,
e sim porque neles o mistério é iluminado.

Se há céu em todas as direções,
como pode tudo ter de um ponto começado?
Se há céu em todas as direções,
não pode haver um centro determinado.







Não apenas as borboletas,
pois de casulos também
nascem as estrelas.        

O que elas eram antes?
Nuvem incandescente
rastejando na cósmica poeira.

("Nebulosa de águia", um dos "casulos de estrelas" captados  pelas  lentes do Hubble: é assim que os sóis nascem)





A luz do sol que vemos
leva oito minutos para nos alcançar
em sua luminosidade.                  

O sol que vemos é como ele era há oito minutos:
o que vemos não é o presente do sol,
mas o  passado em sua novidade.

sábado, 4 de março de 2017

os feiticeiros...

"Nós, os feiticeiros..."
Deleuze e Guattari

1.Existem os Caciques e os Feiticeiros.  Eles se diferem, sobretudo, no modo como compreendem e buscam poder.Os Caciques imaginam que ter poder é dominar, explorar, vencer, ser o primeiro,derrotar o rival.Os Caciques tendem à paranoia. Já os Feiticeiros exercem a potência. Esta é o exercício de descobrir misturas entre seres heterogêneos.Por isso, os Feiticeiros operam por alianças, contágios, mestiçagens.Os Feiticeiros estão mais próximos dos Guerreiros do que dos Caciques, uma vez que todo Feiticeiro é um Guerreiro do mundo espiritual.
No mundo espiritual  os inimigos são os maus pensamentos, os sentimentos de ódio e tristeza, de tirania e escravidão.
Os Caciques moram no centro da taba, ao passo que os Feiticeiros frequentam as zonas fronteiriças das aldeias, os limiares, tornando-se a ponte entre estas e a floresta imensa.
Os Caciques exibem a cabeça dos animais mortos como troféus, já os Feiticeiros aprendem os signos e as maneiras dos animais nos quais a vida moldou beleza , força, altivez, independência ,coragem - e não raro os Feiticeiros são aceitos como um deles, aprendendo seus cantos, suas camuflagens, suas velocidades e percepções .
Todo Cacique se pretende um Mestre que de ninguém mais depende, ao passo que todo Feiticeiro é, por toda a vida, um aprendiz de feiticeiro, de tal maneira que nunca ele é o primeiro, mas aquele que descobre o Primeiro em tudo, inclusive naquilo que o Cacique pensa ser o último.
Há os Caciques da Filosofia. Porém em todo autêntico filosofar há um Feiticeiro que conecta a filosofia com a não-filosofia : onde o Cacique vê uma fonte Una como origem do rio múltiplo que corre,fonte esta que ele crê ser o único a beber, o Feiticeiro descobre um rio subterrâneo múltiplo e incontível, que sobe à superfície através da fonte. Não é o rio que brota da fonte, não é o múltiplo que nasce do Um:o Um, a fonte, é produzido pelo múltiplo que não tem origem ou fim, uma vez que ele é sua própria fonte : foi da  multitudo de gotas que caíram do céu que o rio nasceu.A chuva é o rio descendo, o rio é a chuva que desceu.

***

2.A filosofia não nasceu na Grécia. Ela foi deixada lá ainda criança, tal como aqueles bebês deixados à porta de alguém. Inclusive, a tez da filosofia é mais escura e mestiça do que a branca pele grega. Há quem diga que seus pais eram Egípcios; outros afirmam que foram os Assírios que a conceberam; e há quem defenda ainda que os pais da filosofia foram os nômades povos do deserto, que se guiavam pelas estrelas e desprezavam a propriedade privada. A porta em que a filosofia foi deixada para ser cuidada pertencia à casa de um homem digno chamado Tales.Ele a criou e a ensinou a ficar de pé.Com Heráclito ela aprendeu a brincar; com Nietzsche, a dançar; e  a fazer-se mais viva lhe ensinou Espinosa, diante daqueles que a querem morta. 








sexta-feira, 3 de março de 2017

a constelação

Na mitologia, o touro é o animal  de Zeus e também de Dioniso, mas não como um animal de estimação. O touro era uma expressão, uma manifestação ou metamorfose dos próprios deuses. Não qualquer touro, mas o touro branco. Fala-se muito do amor do grego pelo cavalo e do quanto este animal foi a força motriz daquela civilização. Porém, mais fascínio nutria o grego pelo touro, pois esse animal era a ponte viva do  grego com a natureza. No cavalo o grego montava ,para guerrear ou trabalhar a terra. Mas o touro não deixava subir em seu dorso soldados, generais, camponeses e nem mesmo reis.
 Quando quis enamorar-se com Europa, foi sob a forma de um touro que Zeus lhe apareceu. Somente Europa , o continente de tantos e diferentes povos,  o touro-deus deixou que subisse em seu dorso, para assim fugir com ela, adentrando pelo mediterrâneo. Desse amor nasceu  a mais brilhante das constelações que se pode ver no céu, exatamente a constelação de touro. Essa constelação é a mais próxima da terra, pois da terra são os touros. Zeus fez-se constelação para que da terra os homens pudessem vê-lo, para assim se orientarem em viagens pelo mar quando fossem ousar buscar terras ainda não existentes em mapas. Os reis humanos pensam ser leões, mas o touro escolhem ser as divindades.
Dioniso se locomovia em uma carruagem puxada por panteras. Contudo, não eram tais feras mais próximas de Dioniso do que o touro. Este animal é a expressão mais indestrutível da força vital , mais do que o leão ou o urso, mais até  que o elefante. Etimologicamente, “touro” significa: “ser forte”. Entre nós, o nome de um ser é escolhido bem antes de o ser nascer. Entre os povos antigos, porém , o próprio nome também nascia: ele nascia como expressão do ser que ele designava. Era o ser que comandava o nome, e não o nome comandando o ser. Daí a força que tinha o símbolo nessas culturas, pois os símbolos  vinham diretamente dos aspectos e acontecimentos constituintes de um ser. O nome é um dos principais símbolos que nos permitem conhecer um ser. E conhecer um ser é saber do que ele é capaz, do que ele pode, qual sua potência.
No dionisismo,  o touro é a expressão  indomável da vida. Pode-se domar um leão ou um elefante para colocá-los em um circo, porém nunca se pode domar um touro. Não obstante, sabe-se que os touros são leais. Não leais como cães, leais como um guerreiro nobre . Eles são leais, acima de tudo,  à sua nobreza. Na hierarquia guerreira, inclusive, os escudos que trazem a efígie de um touro são mais temidos e respeitados do que aqueles que mostram um leão.
São raros os touros, porém. Não se deve confundi-los com os  bois. O touro não é gado, ele não vive em rebanho nem puxa arado. O gado alimenta os lobos, porém do touro até mesmo os lobos fogem. Estranhamente, o touro é naturalmente calmo, porém nada o segura se uma fúria o toma.
Não por acaso, o minotauro, híbrido de homem e touro, é o ser enigmático dos labirintos. O labirinto não é uma jaula, como aquelas que encerram tigres e  leões; no entanto , o labirinto prende mais do que se tivesse grades e fechaduras de aço. Ele assim prende porque ele deixa , a quem lhe adentra, margem para escolha: é de livre vontade que nele se prende e se perde.
O minotauro come carne humana não para satisfazer a metade  touro, mas a parte humana. Os touros são vegetarianos. Os touros não são cruéis , eles apenas se defendem. A crueldade do minotauro vem da   besta que vive na metade  que é homem, aproveitando-se da força taurina.
No minotauro, o animal é a parte relativa ao touro, porém é na parte humana que se encontra a besta. O animal é irracional, mas muito inteligente pode ser a besta. A besta não é nenhum animal determinado. A bestialidade é um fundo obscuro que habita todo animal. Contudo, o instinto que age em uma espécie determinada protege o animal individual desse fundo indeterminado que não pertence a espécie alguma. No homem, porém, é na individualidade que se perdeu do todo que a besta sobe e ganha um rosto humano, desumanizando-o. Somente no homem a besta pode subir e ter um rosto, valendo-se até mesmo da inteligência, pondo-a a seu serviço na bestialidade da guerra, na bestialidade da violência, na bestialidade da corrupção e do acúmulo doentio de coisas.
 Há também bestialidades simbólicas. Nesse âmbito, a besta se converte em besteira. A palavra é o veículo típico da besteira.A besteira é a bestialidade dita, falada. A bestialidade se mostra em ações torpes , a besteira ganha corpo nas palavras que nada dizem, senão besteiras. A besteira mais perigosa não é a da palavra gratuita, descompromissada. A besteira mais perigosa é aquela que pensa ser a portadora de uma Verdade que apenas ela pode dizer, pondo-se em ódio contra todas as outras formas de dizer palavra. Assim como na bestialidade, na boca que profere besteiras está ausente a humanidade.
Matando o  touro, o toureiro se vinga da natureza inteira, incluindo a que está nele. O toureiro mata o touro para satisfazer a besta vingativa que mora nele, e  que se compraz com sangue. O homem-besta é o minotauro menos o touro.
Ah...meu Deus, eu nasci em maio, sou touro! Assim diz o horóscopo em seu simbolismo...Que eu possa ver no céu tal constelação sempre comigo, para assim não me perder no caminho que me leva a mim mesmo.





quinta-feira, 2 de março de 2017

o pantanal de Madureira


Aprendo com o povo sintaxes tortas.
Manoel de Barros

Ou a manequim do tímido Paulinho.
Lenine

Li recentemente entrevista com o  grande Paulinho da Viola, já com mais de 73 anos. Na entrevista, Paulinho da Viola responde  a um  jornalista acerca do seu modo de ser. Paulinho é reconhecidamente alguém modesto e simples, reservado mesmo, por vezes tímido no trato. Porém,  ele nada tem de tímido quando se trata de expressar, extroverter, a poesia através da música. Por outro lado, muitos cantores e cantoras extrovertidos, que falam pelo cotovelo e atropelam seus entrevistadores, e que vivem a dar opinião medíocre sobre tudo, tais cantores extrovertidos são impressionantemente introvertidos, tímidos, quando se trata de chegar perto, e conquistar, a poesia e a música!
Se levarmos em conta essa  autêntica extroversão, Paulinho é extrovertido: “vertido para” a alma plural e mestiça que lhe vai dentro, dele e de nós.
Havia uma insinuação  nas perguntas que lhe foram feitas: o jornalista dava a entender   que tais características  o teriam “atrapalhado” na carreira, digamos assim. O jornalista insinua  que se Paulinho fosse mais extrovertido talvez ele fosse, por exemplo, uma Ivete Sangalo ou um Carlinhos Braw (em termos de "sucesso" midiático, propagandístico).Mas se tais “artistas” citados fossem mais introvertidos eles seriam um Paulinho? 
Paulinho, com humor e paciência, como se espera de um nobre, responde que seu jeito e maneira de ser eram assim, em parte , pela mesma razão  que faz  cada um ser o que é : ele assim era devido à maneira como foi educado. Ele foi educado para ser simples e modesto. Sua indisfarçável e conhecida timidez não era exatamente devido à presença do outro. Ao contrário, tal timidez era o esforço  que ele fazia para vencer a si mesmo, o seu ego.
Em um mundo como o atual, no qual tudo tem que aparecer, ser expansivo como um “boneco de posto” agitando os braços, mas sem nada a dizer a não ser slogans, personalidades como a de Paulinho ( assim também eram Cartola e Manoel de Barros), são vistas como fracas, inseguras, tímidas. Porém, quando ouço e vejo os cantores que fazem sucesso na mídia comercial alardeando a si mesmos, penso que talvez fosse melhor, inclusive aos próprios, se mais contidos eles fossem, exercitando  mais a modesta hesitação diante da música, esforçando-se mais para conquistá-la e sê-la. Pois o que tais pessoas  propalam ter e ser não se conquista ou compra como uma roupa , uma tintura de cabelo, uma tatuagem ,  um terno. Muita propaganda deixa a gente desconfiado acerca da veracidade do  produto, já dizia minha querida avó.
Lendo tal entrevista com o Paulinho me lembrei de minha infância e juventude suburbanas, lá perto de Madureira. Também fui criado de forma semelhante: para não ser vanglorioso, rivalizador belicoso  e outras coisas que hoje são buscadas pelos RHs nos candidatos a vagas  de “liderança”. Fui educado assim, para não ser um babaca com ares arrogantes.
 Mas não foi exatamente apenas da minha família que veio tal educação. Essa educação era cultivada no meio em que vivia minha família. Era um ethos social suburbano. Aristóteles dizia que aquilo que existe mais , que é mais real e verdadeiro, existe sempre sob a forma do “sub”. O que é mais real, o que existe mais do que tudo,  o filósofo chamava de substância. A substância é o que existe dando suporte às instâncias, aos territórios nos quais existem as coisas  e pessoas. “Sub” não é exatamente o que é inferior, “sub” é o que está por baixo dando sustentação, como o alicerce da casa, como o solo sobre o qual corre o rio, como o caráter que sustenta as ações visíveis de um homem. O “erro” de Aristóteles foi ter projetado no sub o modo de ser das coisas que existem “sobre”, foi ter olhado para o que sustenta com os mesmos olhos com os quais se vê o sustentado, atribuindo-lhe então aspectos que apenas existem na casa, e não em seu alicerce. Mais longe a esse respeito foi Espinosa, que também emprega o termo “substância”, porém com outro sentido: nele o sub é onde se encontra a  Potência. Em Espinosa, a natureza é sub ( como Natureza Naturante) e sobre ela própria, como natureza naturada  (esse "sub" da potência transfiguradora expressa o mesmo que o "pré" das Pré-coisas manoelinas).
Então, sub-urbano não era , ao menos àquela época, algo inferior à urbanidade da zona sul. Sub-urbano é o que dava sustentação existencial às nossas existências urbanas. A base desse sub não eram exatamente valores familiares ou religiosos; a essência desse “sub” eram valores ético-políticos, valores estes que se tornavam reais pelas nossas práticas. A tomada de partido por tais valores antecedia as escolhas partidárias, e nos protegia dos sectarismos que envolvem as escolhas partidárias quando estas não são precedidas por um afeto por tudo aquilo que é sub, pois tal sub, exatamente por ser sub, nunca pode ser objeto de culto e poder.
Mais do que no espaço privado das casas, onde reina o “meu”, era no espaço de vizinhança que se aprendia  o afeto pelo comum, como prática das comunhões. Lembro-me das  trocas feitas entre minha mãe e suas vizinhas, no caso de alguma estar carecendo de algum produto em sua casa. Eram na verdade ofertas, “dons”. Por vezes era o feijão que se doava, e por ele se recebia amizade. Noutras ocasiões  éramos nós que recebíamos o açúcar que em nossa casa faltava, e em troca contradoávamos amizade. Tudo era oportunidade para reforçar a amizade como virtude sub-civilizatória, que sustenta a civilização , a família e as relações. Lá não se precisava de creche: as famílias recebiam os filhos umas das outras, quando havia necessidade.  
Essa “Madureira” em que cresci era mais do que um espaço físico, assim como é mais do que um pedaço de terra alagado o pantanal de que fala Manoel de Barros. Ele mesmo diz que o chão do pantanal ele também encontrou em Paris, Nova Iorque, São Paulo. Essa “Madureira” também a encontro onde haja esse sub-urbano nos espaços urbanos. Além disso, nem todos que nasceram em Madureira trazem essa “Madureira”, nem todos que nasceram no Pantanal são habitados pelo Pantanal poético. Por outro lado, mesmo quem não nasceu fisicamente no Pantanal ou em Madureira pode, no entanto, os eleger como Terra Natal . Os que têm a mesma terra natal se dizem con-terrâneos: vizinhos na mesma terra. Entre conterrâneos não há hierarquias, há tão somente a afirmação da mesma horizontalidade enquanto espaço do afeto. O Pantanal e Madureira são vizinhos, assim nos ensinou, brincativamente,  a Império Serrano.
Por intermédio de sua educação formal e escolar, centradas em “cartilhas e gramáticas”, os espaços urbanos são o território do qual nascem e são cultivados engenheiros, soldados, policiais, professores, funcionários públicos, pais, filhos , mães...Mas o sub é a terra onde nascem pensadores e poetas, seres que são , antes de tudo, da natureza, da substância. É em contágio com essa substância que eles vivem, produzem, sonham, doam e contradoam o feijão que alimenta o espírito.
Essa Madureira não está totalmente fora e nem totalmente dentro, ela é uma irradiação, um refrão, um ritornelo, enfim,   um mundo próprio  sem o qual  ficam, poetas e pensadores,  sem ar. E é a partir dessa terra que eles cantam e fazem cantar, como na avenida do samba o povo.
Quando me desterritorializo para alcançar essa Madureira politicamente poetizada, este é meu desejo-sonho: ao abrir a porta da minha casa, ver o Paulinho como meu vizinho; ao abrir minha  janela, ver  na janela vizinha Manoel nos horizontando.








as dobras do poeta

Muitos exaltam as linhas retas e  os pontos; outros idolatram as alturas ou  as profundidades. O homem racional, por exemplo, crê que os caminhos seguros são apenas os retos, dos quais se parte após um planejamento sem brecha para o acaso, e retilineamente a razão teoriza seu porto: a Verdade. Os místicos, por sua vez, amam as alturas, as ascensões, as elevações. Já os profundos vivem a mirar poços, abismos, que dizem existir dentro deles.
Todas essas imagens inspiraram doutrinas e visões do mundo científicas, religiosas ou artísticas. Contudo, o mais surpreendente é a ideia da dobra. Deleuze associa a dobra ao barroco. Não apenas ao barroco, como à própria vida. A vida é produtora de dobras. Não há no vivo nada que se assemelhe a uma linha reta.




terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

embriagar-se, mesmo com leite

O carnaval é uma festa muito antiga. Ou melhor, o carnaval é o protótipo das festas. Entretanto, o nome “carnaval” é mais recente do que o acontecimento que tal nome designa. Quando foi inventado pelos romanos, para designar uma prática que o antecedia e que vinha de outro povo,  esse nome  expressava mais a distância de que se estava do acontecimento do que propriamente sua essência. “Carnaval”, como “festa da carne”, é um nome que se deu ao rio quando este já se ia muito longe de sua fonte. “Festa da carne” não traduz exatamente o que era, em sua origem, o que hoje chamamos de carnaval.
Sua origem se confunde com o começo mesmo da Grécia. Não a Grécia de Platão ou Aristóteles, Grécia historicamente estabelecida. A Grécia na qual nasceu a festa é uma pátria  sem fronteiras demarcadas, nem ocidente e nem oriente, escondida na história e dentro da alma de cada homem que , ainda hoje, sente a necessidade , idêntica ao desejo, de pôr uma fantasia , e ser uma fantasia. Talvez a essência do carnaval não  esteja escondida apenas dentro da alma inconsciente do homem, mas  de tudo o que tenha vida.
Pois é este o sentido genuíno da festa: libertar a vida do homem, desaprisioná-la da rotina e ritos, para assim suspender o império da consciência. Foi isso que ensinou Dioniso aos homens: tornar a vida de novo inocente, sem culpa, sem memória do ontem e sem expectativas do amanhã. Foi Dioniso quem ensinou a festa aos homens. Ele os ensinou a brincar como suprema brincadeira o existir.
Era em festa que se seguia Dioniso. A ocasião dessas festas era a colheita. O produto assim extraído da terra não era posse particular de ninguém, tampouco existia para ser acumulado. Colhe-se o que se plantou. E o que se plantou foi colocado no ventre da terra. Esta somente pode gerar novamente vida se de novo estiver fértil. Na plantação que se fizera  a terra se deu e expirou, morreu. A festa é a celebração de novamente haver um começo. A festa nasceu como triunfo da vida em relação à morte, simbolizado pela terra que renasce em cada colheita.
E era isto a vida para os gregos: um triunfo. Não o triunfo de uma vida sobre outra vida, mas triunfo da vida sobre o seu fim. A festa é o renascer da terra acontecendo no nascer do fruto novo.

Quando nascem, nus e de olhos fechados,os homens nada sabem, por isso choram. A festa é o nascer sabendo-se, mas sem que se possa conhecer o porquê de se nascer, e nem para isso buscar, com teorias,  uma finalidade no distante. Se os bebês nascessem sabendo o que é o morrer, e que seu nascer é um triunfo, decerto que nasceriam festejando.E como vinho beberiam o seu puro leite, embriagando-se.



(Attika, orquestra grega de mandolins)

o amor em espinosa (2)

Nossa suprema felicidade ou infelicidade depende da qualidade do ser 
com  o qual nos unimos através do amor.

Espinosa (Tratado sobre a emenda do intelecto)




I-Segundo Espinosa, quanto mais causas estão envolvidas na produção de uma coisa, mais esta coisa existe e menos ela pode ser destruída. O muito torna forte o um que dele nasce, a multiplicidade fortalece a vida da singularidade que lhe permanece ligada: a singularidade lhe permanece ligada não de fora, mas por dentro, intimamente. Um exemplo bem simples: o amor.Se o amor que sentimos por alguém tem por causa apenas um aspecto desse alguém , mais fácil esse amor poderá ser destruído: basta que desapareça esse aspecto que causou o amor .Os amores vencidos pelo ciúme, os amores infelizes, os amores inconstantes, os amores que fazem sofrer, todos esses amores têm por causa poucas causas, isto é, são poucos os aspectos do ser amado que realmente amamos. Então, passamos a querer modificar os outros aspectos que não amamos, o que só conduz à incompreensão , decepções e mútuas acusações de desamor. Se amamos alguém por causa da aparência de uma parte do seu corpo, poderá morrer o amor se esta parte mudar de aparência, o que sempre acaba ocorrendo com o tempo ou por um acidente.Mais grave: se amamos alguém por algo que lhe seja externo, como bens , propriedades ou poder, basta haver a diminuição ou perda dessas coisas para que o amor assim nascido também desapareça ou se perca.A autêntica beleza, além disso, nunca nasce apenas de um aspecto físico , mas da composição de elementos físicos e não físicos .Na mitologia grega, por exemplo, a graça , que é a alma de toda beleza,era representada por três irmãs: as Graças, cada uma diferente da outra ( o que significa dizer que a graciosidade de alguém sempre se deve, no mínimo, a três aspectos que nela estão de acordo).
Assim, diz Espinosa, o amor por alguém, seja este alguém um par ou um amigo, será mais potente se esse amor tiver por causa vários aspectos desse alguém, e não apenas os aspectos físicos que o tempo pode mudar; o amor existe   mais   quando amamos  também os aspectos invisíveis de um ser, aspectos estes que se sente mas não se  pode tocar ou ver. Reduzir alguém a um aspecto apenas torna mais fácil a pretensão de querer dominá-lo e controlá-lo. Querer dominar é ódio, não amor.Se nosso amor, diferentemente, tem por causa vários aspectos, desse amor não nascerá o querer dominar, pois tal amor nos produzirá novos aspectos, que serão nosso ser ampliado.As pessoas não são apenas rosto ou corpo, muito menos carros ou profissões, elas também são atmosferas, acontecimentos, sensações, mistérios.Sobretudo, que seja causa do seu amor a pessoa inteira e mais o universo que está dentro e fora dela. Quanto mais causas, menos poderá ser destruído o amor assim nascido e vivido, seja ele o amor no sentido estrito ou o amor universal, como aquele que sentimos por um amigo. E mesmo quando da pessoa amada morrer tudo o que for visível, permanecerá ainda o amor causado pelo que nela é eterno.E o eterno em alguém nunca é uma coisa só, mas uma multiplicidade de aspectos . E o mais importante: seja você mesmo um ser que uma multiplicidade faz ser: não ser vários, mas ser uma singularidade que existe porque muitas causas o fazem .Um estilo, por exemplo, nunca se expressa por linha reta, mas pelas linhas curvas, espiraladas, serpenteantes, labirínticas, abstratas...pois tais linhas expressam as várias forças que as dobram e as fazem ter curvas, como tudo o que é vivo.Sobretudo, ame-se  a partir dessas muitas causas, e não apenas a partir do seu ego.O amor que tem muitas causas , embora seja um só, nos produz uma infinidade de coisas: ele também se torna causa para que em nós nasçam muitas coisas, sobretudo mais amor em seus múltiplos aspectos.
 Por outro lado, torno-me capaz de vencer o ódio quando também o refiro a várias causas, e não apenas à pessoa ou coisa que odeio.Não apenas devo referir o ódio a várias causas, como devo compreender essas várias causas como o produzindo: incluindo eu mesmo, pois sou causa parcial do ódio que sinto.Isto não significa relativizar o ódio que sinto, e sim tornar absoluta a idéia adequada que me permite compreendê-lo.Ab-soluto: o que não se dissolve.Somente a compreensão impede que o ódio nos dissolva.Para Espinosa, o amor existe mais do que o ódio:reportar o amor a muitas causas o torna ainda mais forte, ao passo que o reportar o ódio a muitas causas o faz diminuir. Quando associamos o ódio a apenas uma causa, mais odiaremos a pessoa ou coisa que imaginaremos ser a causa exclusiva do ódio que sentimos. Este é o princípio da demonização. As causas são as diferentes e múltiplas realidades que constituem tudo o que existe: quanto mais realidades são conectadas ao amor, mais o amor existe; quanto mais realidades são conectadas ao ódio, menos ele existe, isso porque o ódio, como paixão triste, é mais imaginação do que realidade.Não obstante isto não impede que o homem se deixe dominar pelos frutos de sua imaginação, dada a ignorância sob a qual muitas vezes vive, e , cego, roube,mate, minta, zombe, enfim, empreste seu coração , mãos e cérebro para que por eles viva um fantasma.A escuridão não é um outro princípio ativo distinto da luz , mas tão somente a ausência  da luz como princípio ativo:"o dia que nasce é a noite ao despertar", canta Alvaiade. Em Espinosa, a luz é idêntica ao amor: somente o amor é verdadeiramente causa. Quando assim o vivemos, o amor se torna inseparável do desejo.
O amor em Espinosa não se confunde com o Eros grego, tampouco com a visão romântica, que acabou impregnando toda a compreensão posterior desse afeto, reduzindo-o ao mero sentimento psicológico, subjetivo. Espinosa é o herdeiro de certa visão romana desse afeto, como se encontra por exemplo no filósofo Lucrécio. Não a Roma centrada em si mesma, belicosa e imperialista,e sim a Roma como microcosmos da natureza, como cosmópolis :cidade do cosmos, do mundo. É sob essa inspiração que nasce a concepção do amor como a-mor, isto é, a junção da letra "a" com função de negação ( como em a-fasia, "sem fala") e a abreviação da palavra "morte". Desse modo, para os romanos de então, como para Espinosa, o amor é "não morte": fora do amor, tudo é morte . Não apenas morte física, mas morte no sentido mais amplo dessa palavra.
O amor que o sábio sente e vive é o mais indestrutível,pois tal amor tem por causa o que nunca morre, e que está presente em cada coisa, mesmo naquelas diminutas coisas que ninguém vê ou dá importância. O sábio sente que sua essência tem por causa o universo inteiro. Por isso, ele sente de alguma maneira que sua essência é indestrutível, pois para destruí-la seria preciso destruir o universo inteiro. Ele sente isso sem alarde, sem se gabar, sem se achar um santo ou alguém acima dos outros. Como dizia Manoel de Barros, o sábio-poeta é aquele que diz “eu-te-amo para todas as coisas”.
Remeter a existência de algo a muitas causas somente faz sentido quando as referidas causas são outros modos finitos existentes. Se conseguirmos perceber uma relação necessária entre algo e muitas causas ,vencemos a contingência e sua inconstância, uma vez que a contingência se caracteriza pela relação restrita entre algo e pouquíssimas causas, ou pela imaginação de que algo acontece devido a “causas” incompreensíveis. Todavia, podemos ainda relacionar a existência de algo à sua essência, o que significa dizer que não é pela mera relação entre existências que a compreenderemos, mesmo levando ao infinito a cadeia explicativa.A compreensão da essência de algo implica na relação deste algo com sua causa imanente, e esta nunca lhe é exterior.Tudo o que realmente existe traz em sua imanência a causa que a produz e a torna inteligível.Descobrimos, assim, um infinito de potência, que é um infinito de capacidade. O que pode o amor? Pode um infinito. Este infinito que o amor pode não lhe é exterior, como o são as infinitas coisas que existem fora de nós. Este infinito que é imanente ao amor é imanente a todas as coisas finitas que nos são exteriores: é experimentando em nossa imanência esse infinito que compreendemos o infinito que é imanente a cada coisa, e não experimentando cada coisa uma a uma, como para ter certeza de que a Natureza lhe está imanente, isto por que o infinito não nasce da mera soma de coisas finitas. As coisas finitas não se tornam infinitas pela soma delas, mas pelo infinito que já lhes é imanente na singularidade de cada uma. O infinito não nasce da soma de finitos exteriores uns aos outros: o infinito é imanente a cada coisa em sua diferença, em cada coisa singular o infinito está inteiro.O infinito é o que multiplica cada coisa singular,dotando-a da potência de produzir o que sua mera existência não nos deixa conhecer totalmente.O infinito não multiplica algo por mil, um milhão ou um bilhão: ele multiplica cada coisa tornando múltipla sua potência, pois múltipla é toda potência que singulariza.

Desse modo, compreendemos o verdadeiro sentido de “reportar o amor a muitas causas”: para assim compreendermos que ele não se torna mais forte quanto mais depender de muitas coisas externas, do mesmo modo que um escravo não se torna livre pelo acréscimo infinito de seus senhores. Um escravo se torna livre pela causa da liberdade, e esta nunca nasce do aumento da escravidão, mas pela sua destruição.Todavia, a liberdade não é destruição da escravidão, mas afirmação de liberdade, e liberdade nada tem a ver com escravidão. De maneira análoga, as muitas causas que tornam o amor mais forte são todas já amorosas, são todas já amor. Logo, já são imanentes ao amor, e não lhe estão fora.

II-Toda produção de um indivíduo pressupõe um processo de individuação. Um automóvel, por exemplo, antes de ser um indivíduo com seus contornos e características,ele foi chapa de ferro, borracha, aço, etc. Ou melhor, nem mesmo isso ele era, pois uma coisa é o ferro, a borracha, etc., outra coisa é um automóvel. Ademais , o processo de produção de um automóvel significou a criação de um indivíduo, não de uma ideia geral ( "O" automóvel).Todo indivíduo possui semelhanças e diferenças em relação a outros indivíduos. Tudo o que existe foi produzido de forma análoga. Um indivíduo humano, por exemplo, é o produto de um processo de individuação químico, físico, biológico e psíquico. Quando tal indivíduo assume papéis e funções na sociedade, um novo fator entra no processo de sua individuação: o fator social. Todo processo de individuação nunca termina, dado que constantemente o indivíduo lida com elementos externos que ameaçam a sua individualidade.Para conservar a si mesmo, não raro os indivíduos disputam por elementos necessários à sua manutenção como indivíduo.É comum ao indivíduo ver-se  em oposição   a um meio externo físico ou social que lhe pode ser hostil ou favorável, conforme o tempo e a situação.Mas e o amor, onde entra?
O amor é um processo também, assim como a individuação. Como tal, ele também produz. O amor é um processo de singularização.A singularidade não é a mesma coisa que o indivíduo, disso sabe quem ama, mesmo que não tenha a consciência dessa diferença.Antes de se amarem , Romeu e Julieta eram dois indivíduos de duas famílias que se odiavam.Antes de se amarem , era assim que eles se conheciam. Contudo, quando se amaram perceberam que o antigo conhecimento, o que fomentava o ódio, era na verdade uma forma social de ignorância.O amor faz conhecer coisas que o conhecimento do indivíduo ignora. A ciência ora pende para o universal,como no Racionalismo, ora para o individual, como no Empirismo.Entretanto, nenhuma dessas formas de conhecimento consegue atingir o singular.Conhecer o singular torna singular a nós também.
Quando amamos algo ou alguém, singularizamos este alguém: criamos uma realidade que existe graças ao nosso desejo. Embora não seja meramente química, física, biológica, psicológica ou social, a realidade criada pelo amor vivifica tais outras realidades, as potencializa, integrando mundo físico e espiritual como  partes de uma mesma realidade que se conhece sentindo. É o amor que singulariza. Quando amamos algo, este algo passa a existir mais, uma vez que sua existência aumenta também a nossa. Nesse sentido, amor e desejo são a mesma coisa, embora  desejo e prazer não sejam o mesmo. O prazer quase sempre se relaciona à posse ou destruição do indivíduo que provoca o prazer ( o prazer da comida, da bebida e outros prazeres corpóreos gastam elementos que novamente precisam ser reparados ou substituídos quantitativamente, daí a possível vinculação do prazer com o vício, que é a tara pela quantidade), ao passo que o desejo expressa sempre um aumento de existência, e este aumento nunca é um fenômeno meramente quantitativo ou numérico. Amar a si mesmo, por exemplo , é singularizar-se, mais do que meramente se individualizar se opondo a outros indivíduos, ou acumulando coisas. Singularizar-se é produzir um estilo.
Os processos de individuação nos apresentam os indivíduos como realidades já prontas. A gíria e o jargão profissional têm algo em comum: são indivíduos linguísticos que, para pertencermos a um grupo, os tomamos e os reproduzimos, apesar da aparência de que estamos sendo originais, sobretudo no caso da gíria.O poeta, ao contrário, singulariza a palavra, fazendo-a, como diz Manoel de Barros, "abrir o roupão para ele". Singularizar é tornar-se ativo, produtor.
Deus é amor, afirma Espinosa. Deus ama a si mesmo como realidade singular, não como indivíduo. Deus é singular, uma vez que ele é ativo perante ele mesmo: ele se autoproduz produzindo a tudo. E cada coisa que ele produz é uma modificação dele: enquanto tal,cada coisa é singular. É por isso que o amor nos faz expressão do divino: pois onde todos somente  vêem indivíduos, aprendemos a ver a singularidade, a espontaneidade, a arte. Como singularidade, aprendemos a não nos opor a um meio externo que supomos nos limitar, dado que apreendemos o infinito que nos é imanente.
Quando amamos alguém, singularizamos esse alguém, singularizando a nós mesmos.Percebemos que somos frutos de um processo que não nos é anterior, tal como o processo de individuação é anterior ao indivíduo; diferentemente, experimentamos o amor como um processo que é inseparável de nós: quanto mais ele se potencializa, mais nos potencializamos, quanto mais o produzimos, mais ele nos produz.O amor nos torna "forma em rascunho".
Amar a Deus é expandir o amor ao universo inteiro, deixando o universo inteiro se expandir  em nosso íntimo como processo que nos singulariza e nos faz existir mais, posto que nos torna parte singular de sua Potência que a tudo produz, conserva e regenera.
Quando compreendemos/experimentamos a Natureza/Deus como causa de tudo, percebemos que o reportar algo a muitas causas é apenas o caminho para apreender a única Causa que produz a tudo. Assim, descobrimos o verdadeiro valor do "muito": muito não numericamente, como mera quantidade, mas muito como Potência que age mesmo no mais singular e raro acontecimento. O muito da Potência é o muito que multiplica cada coisa singular, tornando-a mais integrada ao Todo que a torna inteligível e compreensível.







sábado, 25 de fevereiro de 2017

a semente



Sonhar é acordar-se para dentro.

Mário Quintana





( em verso, o original)

Um sonho tive ontem:
do coração eu era operado.

O tão temido médico esperado,
ao entrar, tranquilizou-me:
pois o cirurgião era o poeta Fernando Pessoa.
Sabedor do meu caso, ele me disse:
“só a poesia pode operar um coração adoecido”.

Após abrir meu peito,
o poeta pôs em sua mão meu coração
e o avaliou com peso excessivo.

Nada restava a fazer,
senão cortar o que nele era peso.

Ao invés de músculo ou nervo,
o poeta foi extraindo do meu coração
o mal que o sobrecarregava:
do meu coração ele extraiu a descrença,
a desconfiança
e toda mágoa.

No  fim da operação,
o poeta tinha em sua mão
um diminuto coração que mal preenchia o meu peito.
Temendo não sobreviver com ele,
disse ao poeta que daquela operação
eu não sairia sobrevivente.

“Do seu velho coração, disse-me o poeta,
extraí o que doía  e deixei a parte imortal:
deixei o coração de criança como  semente."




tô me guardando para quando o carnaval (autêntico) chegar...

Só podemos destruir
sendo criadores.
Nietzsche

Em toda  passagem de ano comemoramos um ano novo. Um ano velho se vai, um ano novo vem. Mas o ano novo não é um começo radical a partir do  zero: ele é a continuidade de um mesmo tempo. É por isso que o ano novo é contado, recebe um número. O nosso, por exemplo, é 2016.  É um ano novo de um mesmo tempo que progride e é numerado, então, com um ano a mais. O ano novo é um novo ano de um mesmo tempo, e não um tempo novo.
Entre os gregos antigos, o tempo era vivido de outra forma, uma forma mais drástica, mais radical. O tempo não era concebido de maneira linear. O tempo linear é o da linha que progride do menos para o mais, numericamente. O tempo linear começou  com a condição de um dia ter termo  ou fim. No nosso calendário linear, por exemplo, estamos no ano 2016. Este ano foi precedido pelo 2015 e será sucedido pelo 2017.A lógica que preside essa contagem numérica do tempo é incompatível com a ideia de que essa contagem seja infinita, dado que o infinito, exatamente por sê-lo, não pode ser contado ou numerado. Assim, a razão de contarmos o tempo deve-se ao fato de que o tempo, um dia, terá fim. A causa que explica o seu fim está no seu próprio começo: o ano zero. O tempo começou e terminará em razão de um motivo não temporal, metafísico, transcendente. Cabe a pergunta, pergunta de criança: qual será o último ano novo antes do fim dos tempos? Que número ele terá? O progresso no tempo linear é, paradoxalmente, a aproximação de um fim.
Os gregos antigos concebiam o tempo como repetição cíclica. O tempo é uma repetição, e não uma progressão numérica. Dois eventos determinam o ciclo do tempo: o nascimento e a morte, a criação e a destruição. O tempo nasce, cresce e morre, como tudo o que é vivo. Porém, o tempo renasce, vencendo sua própria morte. Mas o tempo que nasce é um tempo novo, que nada tem a ver com o que morreu. O tempo novo também não é o desenvolvimento de um tempo antigo. Por isso não se pode dizer que é o ano novo de um mesmo tempo, pois é um tempo novo que nenhuma data ou número pode determinar. O tempo novo não é precedido de um passado, tampouco é ele o herdeiro de costumes antigos. O tempo novo não é precedido de um tempo antigo; muito menos será ele o tempo antigo de outro tempo novo. Ele é tempo novo, renascido outro. É no tempo novo, e não no tempo morrido, que o tempo mostra sua verdadeira face: pois todo tempo é novo, assim como é todo dia, todo instante, desde que os vinculemos ao tempo que nasce, e não ao habitual relógio ou ao convencional calendário.
Para os gregos antigos, não é o ano que é novo, não é o dia, não são as horas; é o tempo que é novo, e esse tempo novo não o podem medir os anos,os dias, as horas ou qualquer outra medida determinada. Quantos tempos novos já existiram? Impossível numerar, pois tudo o que é singular foge aos números e quantidades.Infinitas vezes já houve um tempo novo. Apesar disso, sempre haverá tempo novo. O tempo novo é uma repetição da novidade, pois é da essência da novidade repetir-se diferente. Não é o tempo antigo que causa o tempo novo: este nasce tendo por causa ele mesmo. É para  criar-se novo que ele se destrói como antigo.Repetindo-se, o tempo  sempre retorna, diferente. O tempo não é eterno: eterna é a repetição através da qual o tempo retorna, novo.Do tempo novo não pode haver lembrança, embora ele traga consigo a semente de uma nova memória, na qual se poderá escrever uma nova história.
Foi essa concepção de tempo que traduzia a experiência de Orfeu, o poeta que foi ao inferno e voltou, que foi à morte e retornou . Também é essa concepção do tempo que inspira o deus Dioniso, que é o deus dos renascimentos. E é este deus que, outrora, era cultuado no carnaval. Esta festa nasceu como celebração desse tempo novo. O carnaval era a festa onde a morte e a vida se encontravam, sem brigar ou entrarem em guerra. Esse encontro era celebrado com festa, com alegria. O tempo que morria era celebrado, não era chorado; e o que nascia também era comemorado. Morria a terra, renascia a terra; morriam os homens, renasciam os homens.E o que renascia não era o morto que ressurgia, mas  a vida mesma mais viva.
Posteriormente, essa festa foi apropriada pelo Estado grego e pelos mecenas das artes, sobretudo o teatro. Também os comerciantes de bebidas se aproveitaram dessa festa. O que era experiência e ruptura, tornou-se rito. Foi a partir de então que a destruição se perdeu da criação, de tal modo que o antigo se perpetuava fingindo-se novo. A festa não era mais a expressão do tempo novo, mas tão somente a suspensão temporária de um mesmo tempo. A experiência radical com a novidade se transformou em data no calendário das festas costumeiras e  programadas. E Orfeu se tornou apenas uma máscara que se põe durante quatro dias; e Dioniso, do vinho que era, passou a deus da cerveja...