terça-feira, 22 de setembro de 2026

O cacto e sua primavera / Perséfone

 

Muito se fala, com razão, das flores. Rosas, girassóis, crisântemos, margaridas...Essas e outras flores já foram homenageadas em poemas , músicas e pinturas. E  elas são  sempre lembradas em datas como hoje: o primeiro dia da Primavera...

Mas pouco se fala das flores que o cacto também sabe produzir. Considero essa omissão  uma injustiça com esse artista da resistência.

Na dele, sem chamar a atenção ou fazer propaganda de si, o cacto é capaz de atos que expressam  dignidade e generosidade, atos ainda mais potencializados pela beleza que  ofertam sem nada pedir em troca.

Assim age esse perseverante resistente: o cacto é a planta que possui a maior raiz. Em alguns cactos,  a extensão de sua raiz chega a nove ou dez vezes o tamanho do corpo do cacto que vemos à superfície do chão!

Quem mede o cacto apenas pela sua parte visível, e pensa que a parte que vê é todo o ser do cacto, por certo ignora o que o cacto é capaz de fazer. O cacto cria imensas raízes para sondar o subsolo , não se deixando vencer pela aridez que o cerca.

As raízes do cacto tateiam procurando veios d’água metros abaixo da paisagem seca. Ele persevera procurando no coração da Mãe Terra a água que o Céu lhe nega.

Quando encontra a água, o cacto anuncia sua descoberta brotando flores: em pleno árido , ele inaugura uma primavera, não importando que mês seja. Sua primavera é potência de afirmação da vida, a despeito das condições atmosféricas adversas.

Então, ele sorve o líquido e se intumesce , de água fresca ficando grávido. Basta um pequeno furo para a água jorrar matando a sede dos necessitados.

Foram os cactos do sertão nordestino que, no passado, não deixaram morrer de sede a rebeldia de Lampião ; e a flor que Maria Bonita punha no cabelo também floresceu de um cacto : o mandacaru, símbolo da força do povo nordestino.

O cacto  mandacaru matou a sede de Lampião e deixou a Maria ainda mais Bonita.

Os cactos nos ensinam que  resistência  também se faz com poesia e beleza.  Tal lição foi aprendida pelo  poeta nordestino João Cabral de Melo Neto, que dizia: “Quando não pode ser cristal, a poesia vale pelo que tem de cacto.”


( este livro é apenas uma sugestão: na capa, os cactos do Nordeste...)




E ontem   foi o Dia da Árvore. As mentalidades obscurantistas sempre desprezam a natureza, já nos ensinava  Espinosa. Esse desprezo é um sintoma de ódio à vida. Pois natureza não é apenas a ecologia do natural, natureza também envolve a ecologia mental ( a ecosofia), na qual certas ideias são como as árvores: produzem oxigênio. Mas mentes poluídas , com  as dos obscurantistas, só exalam ideias que envenenam... Como homenagem às árvores tão ameaçadas, assim como os povos das florestas , um devir-árvore do poeta:

 

CANÇÃO DA PRIMAVERA / de Mário Quintana

 

Primavera cruza o rio

cruza o sonho que tu sonhas.

Na cidade adormecida

primavera vem chegando.

 

Catavento enlouqueceu,

ficou girando, girando.

Em torno do catavento

dancemos todos em bando.

 

 Dancemos todos, dancemos,

amadas, mortos, amigos,

dancemos todos até

não mais saber-se o motivo…

Até que as paineiras tenham

por sobre os muros florido!


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Segundo a mitologia, Hades é a divindade  que habita a região trevosa  muito abaixo da superfície da terra. Nesse lugar nenhuma luz entra.

Certa vez, porém, Hades ouviu uma voz cheia de vida vindo  da superfície. Ele subiu e viu que era Perséfone cantando... Ela estava com sua mãe , a deusa Ceres. De “ceres” vem “cereal”, pois Ceres é a divindade do plantio e colheita dos cereais.

 Ceres , por sua vez, é filha de  Cibele[1], a divindade  da fertilidade. Cibele é o Feminino Ancestral ( os povos originários da América a chamam de Pachamama).

 E foi em sua neta Perséfone que a fertilidade de Cibele se tornou uma força criativa semelhante àquela que vemos no artista, pois Perséfone é a divindade  cuja arte é fazer nascer flores: múltiplas e heterogêneas, flores de todas as cores.

Perséfone mata outra fome diferente daquela que Ceres mata: Perséfone mata a fome de arte, de poesia e de criatividade.

Hades se apaixonou pelas flores e quis levá-las para enfeitar sua noite eterna. Foi uma imensa surpresa,  ninguém imaginava que pudesse nascer no taciturno  Hades um desejo por cores.

Num ato condenável, Hades raptou então Perséfone para fazê-la morar lá embaixo . Porém, naquele mundo carente de luz , de Perséfone nasciam rosas só com espinhos , sem as pétalas, flores da dor que elas eram.

Enquanto isso, sentindo a falta de Perséfone, Ceres ficou deserta : o grão não mais germinava nela. Havia agora fome de pão e de beleza, de pão e de poesia, e ninguém sabia qual das duas fomes doía mais: a primeira esvaziava o estômago, a segunda ao coração secava .

A pedido de Ceres, Zeus interveio e foi feito então um acordo. Durante parte do ano Perséfone viveria lá embaixo com Hades : sua ausência entre nós recebeu o nome de inverno.

Até que vem o ansiado tempo em que Perséfone sobe de volta  e enche de vida a terra :  tudo recomeça , renovado.

Hoje, as sombras não reinam  somente lá embaixo,  mentalidades sombrias  piores  nos ameaçam aqui em cima .  Apesar disso, nada detém  Perséfone e sua    primavera, tempo em que Perséfone chega para florir de vida  a terra.

 

 

 “O céu da teoria é cinza;

mas sempre verdejante é a árvore da vida.” 

(Goethe)

 

 “Eram os passarinhos que colocavam

primaveras nas palavras.” 

(Manoel de Barros)



[1] Algumas versões mencionam Sêmele. 



                                                        ( "Raízes"/ Frida Kahlo)








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