Após se perder no oceano e quase
morrer, Ulisses naufraga na ilha de
Calipso, que o salva e sara. Depois, Calipso oferece a Ulisses uma bebida que o
tornaria imortal, ou seja, ele ficaria livre da dor, da tristeza, da velhice,
da morte...
Mas Calipso faz uma exigência: se
ele escolher tomar a bebida da imortalidade, deveria ficar para sempre na ilha,
esquecendo sua condição humana. Então, Ulisses deveria fazer a seguinte
escolha: ou escolher uma espécie de “zona de conforto” sem fim, ou escolher a condição
humana , com tudo o que nela há de risco, dor, contradição, perda, angústia...
Para surpresa de Calipso, Ulisses
escolhe a condição humana, renunciando à “zona de conforto” interminável que
lhe oferecia Calipso. Quando indagado por Calipso por qual razão renunciava à
imortalidade, Ulisses responde que nada havia de mais forte nele do que a
saudade da sua terra natal, na qual o esperava Penélope, seu par ( um par é
composto por dois seres ímpares que se
somam).
Porém, em Ítaca, a terra natal de Ulisses,
Penélope estava sendo assediada e ameaçada pelos “pretendentes”.
No livro O que é a
filosofia? , Deleuze & Guattari retomam essa história e a interpretam da seguinte forma: “Penélope” é para
Ulisses o mesmo que o Afeto potencializador representa para o
pensador de não importa qual área. Pois não somente as ideias nos servem de
orientação, também são como “bússolas” os Afetos que dão sentido e direção
a uma vida.
Alguns “pretendentes” queriam comprar Penélope, outros a ameaçavam violentar
e tê-la à força. Mas Penélope não se põe à venda e resiste às
ameaças dos usurpadores.
Em não importa qual área ou
situação, os “pretendentes” simbolizam aqueles que acham que tudo tem um
preço, incluindo os seres humanos. Os
pretendentes têm a pretensão de obter coisas para as quais não se prepararam ,
não se cultivaram e nem se dedicaram. Por isso, querem obter as coisas por meio
da trapaça ou da força, incluindo a força suja do dinheiro inescrupuloso , passando
por cima dos valores, da ética, enfim, das pessoas.
Simbolicamente, Penélope é
a parte da alma sã que aguarda o retorno do eu a si mesmo, o eu que se perdeu
do caminho que o conduz a si mesmo: “voltar ao lar em si mesmo” , como escreve
o poeta Rilke.
O nome “Penélope” significa : “Aquela que tece”. Ela tecia puxando o fio do
afeto do qual seu coração corajoso era o novelo. Todos aqueles que , tecendo palavras,
ideias e ações, assim perseveram e resistem à infâmia e à ignomínia , as de
ontem e as de hoje, têm em Penélope a
sua ancestral.

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