sábado, 12 de setembro de 2026

Penélope

 

Após se perder no oceano e quase morrer, Ulisses  naufraga na ilha de Calipso, que o salva e sara. Depois, Calipso oferece a Ulisses uma bebida que o tornaria imortal, ou seja, ele ficaria livre da dor, da tristeza, da velhice, da morte...

Mas Calipso faz uma exigência: se ele escolher tomar a bebida da imortalidade, deveria ficar para sempre na ilha, esquecendo sua condição humana. Então, Ulisses deveria fazer a seguinte escolha: ou escolher uma espécie de “zona de conforto” sem fim, ou escolher a condição humana , com tudo o que nela há de risco, dor, contradição, perda, angústia...

Para surpresa de Calipso, Ulisses escolhe a condição humana, renunciando à “zona de conforto” interminável que lhe oferecia Calipso. Quando indagado por Calipso por qual razão renunciava à imortalidade, Ulisses responde que nada havia de mais forte nele do que a saudade da sua terra natal, na qual o esperava Penélope, seu par ( um par é composto por  dois seres ímpares que se somam).

 Porém, em Ítaca, a terra natal de Ulisses, Penélope estava sendo assediada e ameaçada pelos “pretendentes”.

No livro O que é a filosofia? , Deleuze & Guattari retomam essa história  e a interpretam  da seguinte forma:  “Penélope” é para Ulisses o mesmo que o Afeto potencializador representa   para o pensador de não importa qual área. Pois não somente as ideias nos servem de orientação, também são como “bússolas” os Afetos que dão sentido e direção a uma vida.  

Alguns  “pretendentes”  queriam  comprar Penélope, outros a ameaçavam violentar e tê-la   à força. Mas Penélope não se põe à venda e resiste às ameaças dos usurpadores.

Em não importa qual área ou situação, os “pretendentes” simbolizam aqueles que acham que tudo tem um preço,  incluindo os seres humanos. Os pretendentes têm a pretensão de obter coisas para as quais não se prepararam , não se cultivaram e nem se dedicaram. Por isso, querem obter as coisas por meio da trapaça ou da força, incluindo a força suja do dinheiro inescrupuloso , passando por cima dos valores, da ética, enfim, das pessoas. 

 Simbolicamente, Penélope é a parte da alma sã que aguarda o retorno do eu a si mesmo, o eu que se perdeu do caminho que o conduz a si mesmo: “voltar ao lar em si mesmo” , como escreve o poeta  Rilke.

O nome “Penélope” significa :  “Aquela que tece”. Ela tecia puxando o fio do afeto do qual seu coração corajoso era o novelo. Todos aqueles que , tecendo palavras, ideias e ações, assim perseveram e resistem à infâmia e à ignomínia , as de ontem e as de hoje, têm em  Penélope a sua ancestral.




 

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